Os Três Mosqueteiros

Alexandre Dumas · Capítulo 1 de 1 · parte 1/3

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Os Três Mosqueteiros

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

OS TRÊS

 

MOSQUETEIROS

 

O jovem D'Artagnan

 

Alexandre Dumas

O jovem D'Artagnan saiu da casa paterna na

Gasconha aos vinte anos, quando se sentiu capaz de enfrentar a vida em Paris. Seu sonho era pertencer aos mosqueteiros, a guarda especial do rei, na qual seu pai havia servido. Os mosqueteiros eram muito apreciados pelo rei Luís XIII, a quem eram fanaticamente leais, e muito temidos pelo Cardeal Richelieu, o poderoso ministro do monarca. As aventuras vividas por seu pai na suntuosa e rica Paris, contadas com riqueza de detalhes, faziam o jovem sonhar com a bela farda dos mosqueteiros.

Seu pai era um nobre de boa estirpe e

nenhuma fortuna, sendo toda a sua riqueza a reconhecida honradez e a inquebrantável coragem.

Ao permitir a partida de seu filho, entregou-

lhe a espada de bom aço, que usara a serviço do rei, um cavalo velho e estropiado e quinze escudos, o pouco dinheiro de que dispunha. Juntamente com muitas advertências e conselhos, fez questão de recomendar:

- Ao chegar à corte, não se esqueça nunca de

que você é um nobre. Você só deverá inclinar-se diante do nosso bom rei Luís XIII e de Richelieu, o Cardeal. Nunca se humilhe diante de ninguém e, se for necessário, defenda sua honra com esta espada, que jamais foi vencida.

D'Artagnan partiu, levando apenas duas

mudas de roupa e um ou outro objeto de uso pessoal.

No bolso junto ao peito, levava uma carta

escrita por seu pai e destinada ao Sr. de Tréville, oficial comandante do Regimento dos Mosqueteiros, velho amigo e companheiro de armas de seu pai. Nela havia o pedido de incorporar o jovem fidalgo aos valentes mosqueteiros.

Cavalgando sem pressa para não sacrificar

sua velha montaria, D'Artagnan alcançou a cidade de Meung, a meio caminho de Paris. Como já passava do meio-dia, dirigiu-se a uma estalagem para comer alguma coisa e dar descanso ao animal.

Ao aproximar-se da porta de entrada, notou

que um pomposo e arrogante fidalgo apontava a um grupo de amigos a figura lastimável de seu cavalo. Todos riam e faziam comentários pouco elogiosos sobre as qualidades do velho rocim.

D'Artagnan, que não era muito calmo e se

irritava com facilidade, achou que, ofendendo seu cavalo, ofendiam o dono também. Tratou de tirar satisfações.

- O senhor está rindo de meu cavalo, por

acaso? - perguntou, dirigindo-se ao nobre que parecia comandar os outros.

- É verdade. Raras vezes vi um cavalo tão

feio, magro e desengonçado! - respondeu o outro com um risinho trocista.

- Rir do cavalo é fácil. Que tal fazer o mesmo

com seu dono?

- Ora - retrucou o provocador - rir-se de tão

destemido cavaleiro seria uma imprudência!... - Era evidente que zombava do rapaz.

Furioso, D'Artagnan desembainhou sua

espada e avançou:

- Defenda-se ou terei de feri-lo assim mesmo.

O nobre olhou desdenhosamente para o afoito e voltou-lhe as costas, sem lhe dar a mínima importância.

Com grandes passadas, D'Artagnan

adiantou-se e postou-se diante dele, já com a espada em riste.

- Se for um homem de brio, tire sua espada e

lute! Só assim poderei apagar a ofensa que me fez.

Com um ar de grande aborrecimento, o

homem exclamou:

- Ao diabo com esse cavaleiro gascão e sua

honra ferida! E, com um sinal enérgico, fez com que seus dois criados se atirassem sobre o jovem guerreiro, aplicando-lhe uma série de pancadas que o deixou atordoado, caído no chão de terra.

Aproveitando que o jovem estava

inconsciente, o fidalgo mandou que o rapaz fosse revistado, no que foi prontamente obedecido pelo estalajadeiro.

- Ele tem algumas roupas limpas, quinze

escudos e uma carta endereçada ao Sr. de Tréville.

Isso pareceu interessar ao nobre, que se

apoderou da carta, enquanto olhava mais atentamente para as feições do ferido, como se quisesse guardá-las na memória.

Depois da partida do nobre com seus

criados, o dono da estalagem, penalizado com o estado do jovem, amparou-o até a cozinha, onde lhe fez alguns curativos e ajeitou-lhe as roupas sujas e amarrotadas.

D'Artagnan, quando chegara à estalagem,

havia notado que o fidalgo, com quem depois se desentenderia, falava com uma mulher jovem e muito bonita, no interior de uma carruagem. Pálida, loura, com grandes e expressivos olhos azuis, possuía um rosto que o jovem gascão não poderia esquecer facilmente. Notou que unham certa intimidade e que falavam em inglês, embora não pudesse entender o que diziam. E a cena ficou-lhe gravada na memória.

Com um pano enrolado na cabeça e ainda um tanto abalado pelas pancadas recebidas, D'Artagnan resolveu pernoitar ali mesmo, já que a tarde ia a meio e ele tinha uma longa jornada pela frente.

Na madrugada seguinte, quando se

preparava para partir, deu falta da carta destinada ao Sr. de Tréville. Furioso, ameaçou incendiar a estalagem, caso ela não lhe fosse devolvida. O dono do estabelecimento, assustado, acabou por lhe contar que o fidalgo com quem brigara havia se apossado da carta.

- Assim que chegar a Paris, vou me queixar

ao Sr. de Tréville e ele há de comunicar esse crime ao rei! - exclamou, socando furioso a mesa da sala.

Depois de pagar a conta, montou no seu tão

desprestigiado cavalo e, num passo lento mas contínuo, alcançou Paris no final da tarde do mesmo dia.

Já na cidade, conseguiu vender seu fiel amigo

na primeira cavalariça que encontrou, já que o preço era realmente ínfimo. Depois, com a bagagem debaixo do braço, andou pela cidade até encontrar um alojamento que estivesse de acordo com seus parcos recursos.

Encontrou uma pensão na Travessa dos

Coveiros, lugar frequentado por trabalhadores braçais e malandros mas que, além de cobrar pouco pelas acomodações, tinha a vantagem de ser próxima ao Palácio de Luxemburgo. Ali informou-se sobre o endereço do Sr. de Tréville e ficou muito satisfeito quando soube que a mansão do fidalgo não ficava muito distante de onde se hospedara. Esse fato lhe pareceu um bom presságio.

O Sr. de Tréville, em sua juventude, havia

chegado a Paris atrás de fortuna e aventuras. Como tinha uma inteligência privilegiada e uma coragem a toda prova, não demorou a ser aceito no exército real.

Seu pai havia sido um fiel servidor do rei

Henrique IV, tendo se destacado por sua bravura e lealdade.

Quando o velho Sr. de Tréville faleceu, Luís

XIII, que era filho de Henrique IV e o sucedera no trono, aceitou o jovem Tréville em sua guarda, nomeando-o capitão dos mosqueteiros. Com o tempo, o rei afeiçoou-se ao dedicado e bravo servidor.

Satisfeito com a carreira e orgulhoso do

quanto havia conquistado em sua vida, o Sr. de Tréville tinha como ambição máxima apenas comandar com eficiência os mosqueteiros e servir ao rei.

O Cardeal Richelieu, ministro de Luís XIII e

homem de enorme poder político, vendo a lealdade com que os mosqueteiros serviam ao rei, resolveu criar uma guarda para si próprio. Para isso buscava os melhores espadachins da França, fazendo uso, por vezes, de artimanhas para recrutá-los.

Com o tempo, as forças dos mosqueteiros do

rei e os guardas do Cardeal começaram a alimentar uma perigosa rivalidade. Embora os duelos fossem proibidos, quase sempre ocorriam encontros entre soldados das duas forças, resultando em sangrentos combates.

Os comandantes, ao tomarem conhecimento

dessas brigas, repreendiam asperamente os contendores, mas castigos mais severos nunca eram aplicados. Essa impunidade contribuía para o aumento da rivalidade e, em consequência, dos duelos.

O Sr. de Tréville era querido e admirado

pêlos amigos do rei e muito temido por seus inimigos. Recebia a todos com igual cortesia e sua mansão vivia cheia de mosqueteiros que, além de lhe servirem de guarda, sempre vinham em busca de algum conselho ou favor especial.

Quando D'Artagnan alcançou as escadarias

da imensa mansão do comandante geral dos mosqueteiros, deparou-se com uma verdadeira multidão que se acotovelava, esparramando-se por todos os degraus, não deixando espaço para um único corpo ali passar ou a ela se juntar.

Os espalhafatosos e irreverentes espadachins

discutiam ruidosamente, abanavam seus enormes e coloridos chapéus e faziam tilintar as espadas. Alguns contavam piadas pesadíssimas sobre a vida e as damas da corte.

Como um fidalgo provinciano e ainda cheio

de ideias românticas sobre a corte, D'Artagnan ficou chocado com o palavreado dos mosqueteiros. Não conseguia acreditar que os servidores do rei pudessem usar aquele tipo de linguagem, própria das tabernas mais sujas.

"Deviam ser enforcados!" - pensou,

escandalizado com aquele espetáculo.

Aos poucos, com muito esforço, alcançou um

porteiro, apresentou se e pediu uma audiência com o Sr. de Tréville. Foi então instruído a esperar com toda a paciência do mundo, pois poderia demorar. Como nada mais tivesse a fazer, acomodou-se num canto e ficou observando o movimento ao redor. No centro de um grupo, um afetado mosqueteiro, que se destacava pela conversa em altos brados, se exibia envolto numa grande capa de veludo vermelho, ostentando um largo cinturão que sustentava sua grande espada, bem maior que as normais. O cinturão era todo bordado com fios de ouro e belas pedras preciosas.

- Um belo cinturão. Pormos - observou o

homem com quem conversava. - Será presente de uma certa dama com quem o vi passeando pêlos lados de Saint-Honoré?

- Nada disso! Comprei-o por um dinheirão! -

Pormos fez um gesto de pouco caso. - Foi uma loucura, bem sei, mas está na moda. Afinal, o dinheiro é para ser gasto, não é Aramás?

Aramis era completamente diferente de

Pormos. Enquanto este era grande e robusto, já com alguns sinais de que a juventude tinha passado, Aramis era um rapazote na flor da idade, ágil e franzino.

Porthos era alterado e violento, e Aramis, por

sua vez, era espirituoso e falava sempre com voz comedida.

O único ponto em comum era uma

indestrutível amizade, talvez mais sólida justamente por ser apoiada em características tão contrastantes.

Enquanto os dois discutiam seus gostos e

preferências, obser vados discretamente por D'Artagnan, o criado voltou anunciando que o Sr. de Tréville iria recebê-lo.

O Sr. de Tréville recebe D'Artagnan Diante

do Sr. de Tréville, D'Artagnan curvou-se o mais que pôde e agradeceu a honra de ser recebido pelo comandante dos bravos mosqueteiros.

O sotaque carregado e a maneira peculiar de

se expressar agradaram ao anfitrião, que também era filho da província e não escondia a saudade que sentia de sua terra natal.

Fazendo um gesto como para pedir licença

ao jovem a fim de concluir um assunto não encerrado, o Sr. de Tréville gritou para a antecâmara:

-Athos! Porthos! Aramis!

Dois homens entraram em seguida. Eram os

mesmos que, pouco antes, comentavam sobre o cinturão bordado a ouro e pedras preciosas. Com atitude respeitosa, ficaram aguardando as ordens do chefe, que caminhava de um lado para outro, com evidentes sinais de mau humor. De súbito, o Sr. de Tréville parou diante dos dois e, olhando-os de alto a baixo, resmungou:

- Ontem à noite, o rei me disse que, de agora

em diante, irá recrutar seus mosqueteiros entre a guarda do Cardeal.

- Por que, meu comandante? - perguntou

Aramis, que parecia não ter se importado muito com isso.

Como se não tivesse ouvido a pergunta, o

outro continuou:

- Ontem à noite, quando o Cardeal jogava

xadrez com o rei, olhou-me como se eu fosse o mais miserável dos homens e disse-me que meus mosqueteiros tinham provocado uma grande desordem em uma taberna. Por isso seus guardas haviam sido obrigados a prender os desordeiros. Que me dizem disso? Participaram da baderna? O que faziam os dois bravos e o sempre ausente Athos?

- Athos está doente - explicou Aramis,

compungido.

- Que tem ele?

- Talvez seja varicela, senhor - completou

Pormos, antes que o outro abrisse a boca.

- Varicela? Em sua idade? - o Sr. de Tréville

olhou ferozmente para um e para outro esperando uma resposta. Como esta não veio, continuou: - É mais provável que esteja ferido depois do que aconteceu...

Como nenhum dos mosqueteiros abrisse a

boca, o comandante deu um murro na mesa e gritou:

- Não admito que meus homens andem

meüdos em lugares sus peitos nem que sirvam de bobos para os guardas do Cardeal. Parece que esses bravos mosqueteiros perderam a coragem e servem apenas para ser humilhados, justamente pêlos homens de Richelieu!

Pormos e Aramis estavam rubros de

vergonha e de raiva. In capazes de responder ao comandante, ouviam aquela reprimenda quase engasgados de fúria.

- Os mosqueteiros de Sua Majestade são

presos pêlos guardas do Cardeal! - prosseguiu o Sr. de Tréville cada vez mais irado. - Meia dúzia de guardas prendem outros tantos mosqueteiros. Isso é demais!

Só me resta ir ao palácio e renunciar ao posto

de comandante dos mosqueteiros! Não posso liderar uma turma de baderneiros sem fibra.

Pormos não se conteve:

- Por favor, capitão! Os guardas do Cardeal

nos pegaram à traição. Não deu tempo de reagir. Dois dos nossos foram mortos e Athos sofreu um ferimento grave. Assim mesmo não conseguiram nos levar presos. Athos ficou caído, dado por morto.

Já mais calmo, o comandante perguntou:

- E agora, como está ele?

- Bastante ferido. Uma espada perfurou-lhe

um ombro; outro golpe o atingiu no peito. Acho que não devemos comunicar ao rei, pois ele ficará ainda mais irritado com isso.

De repente, a porta do gabinete abriu-se e

Athos entrou com passos inseguros, mas cadenciados. Lívido, de cabeça erguida, orgulhosamente falou com voz firme:

- Fui chamado, senhor, e me apresento! Apesar da evidente fraqueza, o jovem

mosqueteiro mantinha uma rígida posição de sentido. Seu uniforme estava impecável e as botas reluzentes.

Comovido, o Sr. de Tréville adiantou-se e

apertou a mão do jovem.

- Não quero que meus homens arrisquem a

vida sem necessidade.

Assim mesmo, alegro-me que esteja bem. No mesmo instante, Athos deslizou para o

chão, caindo desmaiado.

Chamado às pressas, um médico tratou do

ferido, que logo recuperou a consciência. Seus dois amigos permaneceram em sua companhia, seguindo atentamente os movimentos do ferido. Uma grande amizade os unia.

D'Artagnan, enquanto isso, continuava firme

em seu posto de espera. Mesmo com as últimas tropelias, não pensava em sair sem falar com o Sr. de Tréville. Passados alguns minutos, o comandante entrou no gabinete e sentou-se na grande poltrona junto da mesa.

- Não me esqueci do senhor. Afinal de contas

somos conterrâneos, não? - disse com um sorriso simpático. - Faz muitos anos que saí da Gasconha. Tinha mais ou menos a sua idade. Mas nunca me esqueci de minha terra natal. - Deu um suspiro e continuou:

- Vamos aos negócios: que posso eu fazer

pelo filho de meu grande amigo?

- Minha vontade é ser mosqueteiro, como

meu pai. Parece-me uma coisa um tanto difícil pelo que presenciei aqui... O Sr. de Tréville sorriu, confirmando com a cabeça.

- Ninguém é admitido entre os mosqueteiros

sem que tenha dado provas de grande valor. Para pertencer aos guardas do rei, será preciso que, antes, preste serviços por um ou dois anos em outro regimento... É uma formalidade que não podemos evitar.

Depois de um longo silêncio, como se

refletisse intensamente, o Sr. de Tréville perguntou:

- Trouxe algum dinheiro? Vai ter de se

aguentar até receber o primeiro soldo, que demorará algum tempo... talvez meses.

Sentindo que o comandante não lhe estava

dando o valor que a si mesmo atribuía, D'Artagnan respondeu um tanto bruscamente:

- Vejo que a carta que me foi roubada está

fazendo falta agora. Não penso em servir a não ser entre os mosqueteiros.

- De que carta está falando? - o Sr. de Tréville

ficou curioso.

- Antes de minha partida, meu pai escreveu-

lhe uma carta pedindo que, em nome da velha amizade, eu fosse admitido no regimento dos mosqueteiros... mas parece que, sem esse pedido formal, devo perder as esperanças.

- Gostaria que me contasse como lhe foi

roubada essa tal carta.

D'Artagnan contou detalhadamente o

ocorrido no dia anterior, descrevendo as personagens com riqueza de pormenores. O comandante ouviu tudo com grande atenção, perguntando várias vezes como era o tal nobre da carruagem e sua acompanhante. Depois comentou:

- Isso tudo é muito estranho. Meu nome

chegou a ser mencionado durante a discussão?

- Não, mas a carta era dirigida ao senhor. - E ele falava em inglês com essa mulher? - Assim me pareceu.

- Então era ele... - murmurou o Sr. de

Tréville. - Julguei que ainda estivesse em Bruxelas.

- Se o senhor sabe quem é, peço-lhe que me

diga o seu nome. Quero cobrar a ofensa.

- Nem pense! Se acaso o encontrar, trate de

desviar-se. Somente assim estará a salvo.

Uma rápida suspeita passou pela mente

sempre alerta do velho mosqueteiro: "Estaria aquele jovem gascão a serviço do Cardeal?" Mas observando os movimentos de D' Artagnan e uma certa Três encontros azarados D'Artagnan lançou-se escada abaixo numa louca disparada. Seu intento era alcançar o homem que havia mandado aplicar-lhe a surra em Meung, mas nos últimos degraus chocou-se com um mosqueteiro que descia a escada lentamente.

- Desculpe-me - disse o jovem, mal virando o

rosto. O mosqueteiro ficou pálido de raiva. Num rápido movimento, postou-se diante do apressado gascão e segurou-o com uma mão no peito.

- Não aceito suas desculpas! - falou com voz

forte. - Quase me derruba e pensa que um simples pedido de desculpas encerra o caso?

Quem falava era Athos que, já refeito do

desmaio, voltava para casa.

- Não tive intenção de ofendê-lo - desculpou-

se D'Artagnan, o mais delicadamente possível. - Foi um simples acidente. Desculpe. Isso acontece. Vou tratar de meus negócios, que são urgentes.

Athos irritou-se. Seus nervos não estavam

muito firmes para aceitar ponderações.

- O senhor não tem nem sinal de cortesia.

Certamente acaba de chegar de alguma distante província.

- Realmente vim de longe, mas não acredito

que o senhor seja o homem indicado para ensinar-me civilidade.

- Podemos comprovar isso, cavalheiro. Basta

que marquemos um encontro.

- Pois não. Marque o lugar e a hora que estou

com pressa.

- Perto do Convento das Carmelitas ao meio-

dia. Está bem?

- Combinado. Agora deixe-me ir que tenho

pressa. D'Artagnan ainda pretendia alcançar sua presa e correu até o portão principal da mansão, onde dois guardas vigiavam quem entrava e quem saía. Pormos, o outro mosqueteiro que estivera na sala de audiências ouvindo as reprimendas do comandante, falava com as sentinelas e dava-lhes instruções.

Na corrida para transpor os portões,

D'Artagnan teve a pouca sorte de enroscar-se na flutuante capa do mosqueteiro e, antes que conseguisse desvencilhar-se, arrancou-a dos ombros do aturdido fidalgo.

Talvez as coisas pudessem se arranjar sem

maiores problemas, não fosse o fato de o famoso e belo talabarte do mosqueteiro ser uma meia fraude. A parte traseira, oculta pela capa, era feita de uma simples e pobre correia de couro sem nada que o valorizasse. A exibição desse detalhe enfureceu o vaidoso mosqueteiro, que não teve dúvidas em interpelar o apressado gascão.

- Quando corre, o senhor fica cego ou é de

sua natureza atropelar os outros?

Embaraçado, mas já um tanto irritado com o

modo de o outro falar, D'Artagnan respondeu:

- Não tão cego que não veja seu belo enfeite

ser metade ouro e metade couro.

Pormos levou a mão ao cabo da espada e fez

menção de desembainhá-la.

- Agora não, cavalheiro. Tenho pressa.

Marque hora e local, por favor.

- Atrás do Palácio de Luxemburgo, à uma

hora, está bem?

D'Artagnan nem parou para responder.

Correndo pela rua, na direção que pensava ter tomado seu inimigo, gritou sobre o ombro:

- Confirmado. À uma hora.

Olhando para todos os lados, o jovem

procurou seu inimigo de Meung, mas não havia o menor sinal dele. Arfando, andou de um lado para outro, sem saber o que fazer ou qual rumo tomar.

Naquela disparada, havia praticado três

crimes contra seus princípios. Primeiro, fora muito grosseiro ao sair da casa do comandante Tréville sem qualquer explicação ou despedida. Depois, arranjara dois duelos justamente contra os mosqueteiros da corporação na qual pretendia ser admitido.

- Nada mal para um tolo como eu -

resmungou. - Até aqui só consegui fazer besteiras e agora vou arriscar a vida contra dois homens de armas altamente experientes. Se escapar desta, o que me parece improvável, juro que vou aprender a segurar meu génio e a deixar a espada na bainha.

Andando lentamente e pensando nos

próximos passos a dar, voltou para a entrada da mansão com a intenção de desculpar-se com o Sr. de Tréville.

Na entrada estava parado o terceiro

mosqueteiro que havia conhecido durante a audiência. Era Aramis. Com o firme propósito de não provocar mais qualquer problema, ao entrar no pátio fez um seco cumprimento de cabeça. Aramis voltou-se para observar o gascão quando deixou cair um lenço.

- Deixou cair um lenço, cavalheiro - advertiu

cortesmente D'Artagnan com o visível intuito de ser agradável. Um dos guardas soltou uma risada:

- E ainda quer fazer crer que não está

apaixonado pela encantadora dama que lhe mandou o lenço! - observou, cutucando o companheiro.

Aramis olhou com uma raiva quase

incontrolável para o in discreto gascão e afirmou, tentando dar ar de pouco caso:

- Os senhores estão enganados. Esse lenço

não me pertence. Os guardas, porém, continuaram a brincar com Aramis, que já estava perdendo a paciência.

- De fato - arriscou dizer D'Artagnan,

timidamente, sentindo que havia sido indiscreto - não vi o lenço cair do bolso do cavalheiro.

Como estava próximo, pensei que lhe pertencesse.

- E pensou errado - retrucou Aramis com

maus modos.

- Espero que me desculpe.

- Sua conduta foi de um cavalariço e não de

um fidalgo.

- Bem, estou pedindo desculpas - D'Artagnan

sentiu que o outro queria levar adiante a discussão.

- Suponho que não seja um tolo, mesmo

vindo da Gasconha, e que lá não se pisa num lenço sem um bom motivo. - Aramis tinha uma atitude francamente provocadora.

- O senhor acertou: sou da Gasconha. O

gentil mosqueteiro deve saber também que os gascões são pouco pacientes.

- A paciência é uma virtude bastante inútil

para os mosqueteiros.

E o senhor comprometeu uma dama. Isso

exige reparação!

- O senhor, deixando cair o lenço,

comprometeu-a. É dupla mente culpado: primeiro, pelo descuido de deixar cair o lenço.

Segundo, por querer transferir sua culpa

para outra pessoa. No caso, eu. Acho que devemos acertar essa conta. - D'Artagnan terminou de falar, já com a espada saindo da bainha.

- Aqui não! - exclamou o outro. - É melhor

marcarmos um lugar conveniente. Que tal às duas horas na mansão do Sr. de Tréville?

- Ótimo! Lá estarei.

Sem ânimo para pedir desculpas ao Sr. de

Tréville, D'Artagnan tomou o rumo da pensão, na Travessa dos Coveiros. E cogitava soturnamente: "Até agora a única coisa que consegui foi arrumar confusão. Três duelos no mesmo dia é a maior garantia de que não sairei vivo dessa aventura".

Os guardas do Cardeal O primeiro duelo de

D'Artagnan seria ao meio-dia, contra Athos.

Caminhando em direção ao Convento das

Carmelitas, o jovem pensava seriamente em tentar anular o duelo, sem que parecesse covardia por sua parte, pois as condições físicas de seu oponente eram sabidamente ruins. Ferido como estava, Athos não teria como sustentar uma luta de espadas.

Chegando ao local, por trás do convento,

encontrou Athos esperando-o.

Depois de se cumprimentarem com toda a

cordialidade, Athos esclareceu:

- Convidei dois amigos para padrinhos, mas

estão atrasados.

Peço-lhe desculpas.

- Meu problema é maior. Não tenho

padrinhos. A única pessoa que conheço em Paris é o Sr. de Tréville. Além disso, pensei em discutir outro problema com meu nobre contendor: como está gravemente ferido, pareceu-me pouco honroso feri-lo mais uma vez, por esse motivo...

- Realmente tenho o ombro em fogo, mas isso

não deve impedir uma questão de honra - o mosqueteiro estava pálido e com visíveis sinais de sofrimento.

- Se me permite, tenho uma pomada, feita

por minha mãe, que é um santo remédio para esse tipo de ferimento. Não só alivia a dor como ajuda na cicatrização. - E, antes que o outro recusasse, ürou do bolso uma latinha onde estava a milagrosa pomada. - Use-a e, em três dias, estará em condições de lutar. Daí, então, resolveremos nossa questão de honra.

Enquanto Athos, admirado com a simpatia e

simplicidade do jovem, agradecia o oferecimento, Pormos apontou no fim da rua com sua enorme estatura.

- Lá vem Pormos! - exclamou Athos. - E logo

atrás vem Aramis!

Nosso duelo está garantido.

- São seus padrinhos? - perguntou, espantado, o gascão.

- Então não sabe que somos conhecidos como

"Os Três Inseparáveis"?

Surpresos com a coincidência, os três

mosqueteiros fizeram a maior algazarra.

- O que está acontecendo, afinal? - perguntou

D'Artagnan, quase gritando, para ser escutado.

- Nós três devemos cruzar armas com o

senhor! Isso é admirável! - exclamou Athos.

- Um de cada vez! - disse D'Artagnan. - O

que talvez faça com que dois dos senhores não tenham de tirar suas espadas das bainhas. Basta que o primeiro me mate.

Athos e D'Artagnan livraram-se dos chapéus,

das capas e cruzaram as espadas, cumprimentando-se, elegantemente. O duelo deveria iniciar-se a um sinal de Pormos.

Antes que isso acontecesse, um grupo de

guardas do Cardeal Richelieu avançou a galope. O chefe da escolta, um tanto adiantado, gritou já com a espada em punho:

- Ei, mosqueteiros! É proibido duelar! Estão

todos presos, por ordem do Cardeal!

- Esqueçam! - gritou Porthos. - Quando os

guardas do Cardeal estiverem duelando, prometemos não interferir.

- Nada disso! Estão todos presos - respondeu

o guarda. Porthos virou-se para os amigos e falou calmamente:

- Afinal são só cinco e nós somos três. Está

equilibrada a disputa.

- Quatro! - gritou, afoitamente, D'Artagnan. - Não se meta. O senhor não é mosqueteiro! -

disse rispidamente Athos, já preparado para o combate.

- Ainda não! Nem por isso minha espada é

menos valorosa!

O embate, inevitável, foi violento e caótico.

Era uma luta em que valiam todos os tipos de golpes.

D'Artagnan, por acaso, ficou frente a frente

com o comandante da escolta, que parecia ser um bom lutador. O jovem gascão, usando um estilo que nada tinha a ver com a elegância dos duelos de espada, envolveu o inimigo com uma série de golpes que o derrubou quase imediatamente. Voltando o olhar para o campo de batalha, D'Artagnan procurou descobrir onde seria mais útil. Aramis dava e recebia golpes sem atingir ou ser atingido. Porthos, embora com um ferimento no braço, mantinha-se manejando a enorme espada, como se fosse uma simples varinha. Em pior situação se encontrava Athos. Apesar de ainda se manter em pé, era evidente que suas forças lhe fugiam. Havia recebido um segundo golpe e mal conseguia manter o inimigo a distância.

De um salto, o valente gascão ficou junto de

Athos. Cruzando a espada com o guarda, obrigou-o a defender-se, aliviando a carga sobre o mosqueteiro ferido.

- Agora é comigo, senhor guarda! - bradou. -

Vou matá-lo!

- Não! - gritou Athos em resposta. - Tenho

contas a ajustar com esse cavalheiro! Basta desarmá-lo!

A espada do guarda, um dos favoritos de

Richelieu e de nome Cahusac, saltou longe com o golpe desferido por D'Artagnan.

- Sua vontade é uma ordem! - disse o jovem,

fazendo um amplo cumprimento com a espada.

Era urgente, porém, terminar aquela

contenda antes que alguma ronda da cidade aparecesse.

O último guarda, ainda em condições de

lutar, ao ver que seus companheiros haviam caído, levou sua espada ao joelho e quebrou-a antes que lhe fosse tomada. Depois, com um olhar altivo e sem sinais de medo, ficou esperando a reação dos mosqueteiros. Estes fizeram lhe uma breve saudação em louvor de sua coragem e deixaram-no ir.

Escorando-se mutuamente, os três

mosqueteiros e D'Artagnan dirigiram-se para a mansão do Sr. de Tréville.

Nos portões de entrada, o gascão comentou

olhando para seus novos amigos:

- Não sou ainda um mosqueteiro, mas não

acham que comecei bem meu aprendizado?

Uma gargalhada geral foi a resposta. Ao serem recebidos pelo comandante, os três

mosqueteiros ficaram sabendo que este já havia sido informado da briga contra os guardas do Cardeal.

- Pelo menos desta vez não foram

vergonhosamente derrotados!

- comentou o Sr. de Tréville, fingindo raiva. -

E onde está esse esquentado gascão que parece atrair briga como um imã? Tragam-no aqui que quero lhe falar.

Os três mosqueteiros se olharam sem saber

se isso era um bom ou mau sinal para D'Artagnan.

D'Artagnan na Guarda Real Na manhã

seguinte, o jovem se esforçava num jogo de péla que lhe era desconhecido e em que logo foi vencido por Pormos e Aramis.

- Não me admira que esses jovens da

província sejam todos tão fracos num jogo aristocrático como a péla - comentou um espectador em voz alta, com o intuito de ser ouvido pelo jovem.

Alguns espectadores próximos riram com a

observação.

D'Artagnan não gostou:

- Prefiro um jogo mais viril... como a espada -

disse, olhando firme para o cavalheiro que fizera a observação.

- Sabe com quem fala? - perguntou o outro. - Não faço a menor ideia.

- Bemajoux, às suas ordens, cavalheiro! Conhecido como provocador de brigas e

temível espadachim, Bemajoux ficou surpreso com a indiferença mostrada pelo gascão. Na realidade, D'Artagnan nunca ouvira falar da fama do outro.

- Muito bem, Sr. Bemajoux, espero-o em

frente ao portão. Lá poderei receber algumas lições de péla.

Já frente a frente com Bemajoux, D'Artagnan

agitou violen tamente a espada, testando sua destreza.

- Terminou, cavalheiro? Tenho um encontro

logo mais e não posso perder tempo - disse o espadachim, com altivez.

As espadas se cruzaram numa rápida e

mortal coreografia.

Embora Bemajoux fosse muito hábil e

experimentado, não conseguiu interromper a alucinante sequência de golpes desferidos pelo jovem e forte gascão. Defendendo-se como podia, o orgulhoso Bemajoux foi recuando em direção ao Palácio de La Tremouille, onde tinha alguns parentes entre os empregados. Dois guardas do Cardeal avistaram os contendores e logo correram para unir-se contra o jovem gascão.

Vendo isso, Athos, Pormos e Aramis, que a

tudo assistiam a uma certa distância, ergueram suas espadas, exclamando em uníssono:

- Um por todos e todos por um! - e tomaram

parte no combate.

Depois de alguns momentos em que as

espadas falaram mais alto, Bemajoux caiu ferido. Seus colegas, vendo que estavam em -minoria e diante de grandes espadachins, imediatamente gritaram por ajuda. Do interior do Palácio de La Tremouille saíram vários homens brandindo suas espadas.

- Mosqueteiros, ajuda! - gritou Pormos, com

seu potente vozeirão.

Saídos de todos os cantos, acorreram

inúmeros mosqueteiros, soltando gritos de guerra. Logo uma grande confusão com gritos, pragas e tilintar de espadas tomou conta do lugar.

Novamente em minoria, os aliados de

Bemajoux iam perdendo terreno. A luta estava no seu auge quando o sino bateu onze badaladas, - Vamos embora! - gritou Aramis. - Temos de ir para a mansão e impedir que os guardas do Cardeal dêem uma falsa versão do ocorrido, O Sr. de Tréville já havia sido informado da verdadeira luta campal no Palácio de La Tremouille e achou melhor informar o rei . -antes que o Cardeal ou seus homens distorcessem os fatos. Junto com os mosqueteiros, correu para o palácio real. Lá, um criado disse-lhe que o rei havia saído para uma caçada em Saint-Germain.

- O Cardeal Richelieu estava com ele? -

perguntou o Sr. de Tréville.

- Acredito que sim. Excelência. Vi quando

estavam preparando os cavalos do Cardeal.

De volta, o Sr. de Tréville achou melhor

tratar com o Sr. de -La Tremouille e acertar tudo antes que o episódio tomasse maiores proporções. Foi recebido friamente.

- Advirto-o, Sr. de Tréville, de que já mandei abrir um inquérito para averiguar os últimos acontecimentos e ficou claro que a -culpa desse estúpido combate foi toda dos mosqueteiros! - disse o Sr. de La Tremouille.

- E Bemajoux? Ele certamente poderá contar

a verdade!

- Está passando muito mal. Foi ferido com

gravidade.

- Mas fala?

-Sim... - Pois então, senhor, eu lhe peço que

pergunte a Bemajoux como aconteceram os fatos. Deixe-me que o acompanhe e tomarei como verdade o que ele disser.

Ao receber a visita dos dois nobres

cavaleiros, Bemajoux, muito debilitado, nem pensou em ocultar a verdade. Logo foi contando o que tinha acontecido entre ele e D'Artagnan.

O Sr. de Tréville, satisfeito com o que ouvira,

despediu-se do Sr. de La Tremouille e encaminhou-se novamente para o palácio real.

Acompanhado dos três inseparáveis

mosqueteiros e de D'Artagnan, esperou que Luís XIII voltasse da caçada para, em primeira mão, contar-lhe os últimos acontecimentos.

Passado o ímpeto da escaramuça e tendo tomado maior consciência da gravidade dos fatos, D'Artagnan estava bastante preocupado. Os próximos minutos seriam decisivos para sua vida. Tanto poderia ser admitido na Guarda Real como ser atirado no fundo de uma masmorra. Tudo iria depender de como o rei recebesse a história de sua participação nos combates entre os mosqueteiros e os guardas do Cardeal.

O rei, ao chegar, estava bastante taciturno.

Luís XIII aparentava preocupação.

Quando o Sr. de Tréville se aproximou e

saudou o rei, este falou com evidente aborrecimento:

- Bela caçada, senhor capitão! Ou nossos cães

perderam o faro ou a caça já não deixa cheiro por onde passa. Não encontramos sequer um mísero coelho! Sou um monarca infeliz, meu caro capitão!

- Compreendo sua tristeza, Majestade. - E o Cardeal... Não me dá um minuto de

paz, com seus inúmeros e insolúveis problemas políticos! Nem em minhas caçadas me dá descanso!

O rei fez um longo silêncio. Depois suspirou

e disse:

- Por falar no Cardeal, estou desgostoso com

o senhor, capitão.

- Terei sido tão imprudente a ponto de desagradar a Vossa Majestade? - o velho e ardiloso mosqueteiro perguntou com ar de grande espanto.

- Por acaso o nomeei capitão de meus

mosqueteiros para que seus comandados matem um guarda, perturbem um bairro inteiro e tentem incendiar a cidade? - perguntou o rei, dando largos passos de um lado para o outro. - Terá vindo o senhor para comunicar-me a prisão dos arruaceiros e pedir-me justiça?

- Venho pedir-lhe justiça justamente contra

os que caluniam...

- Já esperava por isso! Naturalmente vai me

dizer que seus três valentões mais aquele rapazola da Gasconha não atacaram e quase mataram o pobre Bemajoux?

- Quem o informou desse infeliz episódio? -

perguntou o Sr. de Tréville.

- Foi o único amigo em quem posso confiar.

Meu conselheiro, o Cardeal Richelieu.

- O Cardeal foi iludido, Majestade - afirmou

o capitão.

- A informação veio do próprio Sr. de

Tremouille, que é um fidalgo honrado. - O rei estava irredutível.

- Peço a Vossa Majestade que fale

diretamente com o Sr. de La Tremouille. Ele haverá de contar a verdade, já que é um nobre e honrado servidor do trono. - Foi a cartada que o mosqueteiro teve de dar. Sua última. Tudo estava calcado no que diria o fidalgo.

No dia seguinte, o Sr. de Tréville passava

num corredor do palácio real quando encontrou o Sr. de La Tremouille.

- Sr .de Tréville, acabei de dizer ao rei que a

culpa dos graves acontecimentos de ontem é inteiramente de meus homens. E apresentei minhas desculpas por isso! - disse altivamente.

- Senhor duque - replicou o Sr. de Tréville -

tinha tanta fé em sua honra que não pedi outro defensor! Agradeço-lhe.

Diante do rei, os quatro amigos - três

mosqueteiros e um pre tendente - ouviram uma leve reprimenda. A verdade é que Luís Xin se orgulhava de seus bravos e leais comandados.

- Como sei que não há lugar entre os

mosqueteiros, meu capitão, peço-lhe que coloque este jovem gascão na Companhia de Guardas Reais. No futuro, veremos o que fazer - ordenou Luís XIII, enquanto batia amigavelmente no ombro de D'Artagnan.

O Sr. de Tréville concordou, acenando com a

cabeça, enquanto imaginava a raiva por que passaria o conspirador Cardeal quando soubesse que suas denúncias não haviam surtido qualquer efeito.

Os três mosqueteiros A vida de D'Artagnan,

desde que se unira aos três irrequietos mosqueteiros, mudara completamente. Tudo o que fazia era em com panhia dos amigos e, quando estavam de serviço, o bravo gascão partilhava das sentinelas e das patrulhas, como se fosse um deles.

Para D'Artagnan tudo eram novidades e

emoções. Estar com qualquer dos mosqueteiros proporcionava sempre algo inusitado e interessante para o deslumbrado D'Artagnan.

Embora tentasse saber algo sobre a vida dos

três amigos, nem mesmo seus nomes completos conseguira descobrir. Eram muito reservados e somente quando surpreendia uma conversa entre eles conseguia ouvir retalhos de frases sem significado.

Aos poucos fez um pequeno apanhado de

cada um.

Amos, com trinta anos incompletos, tinha

uma espada com empunhadura de ouro e pedras preciosas que valia uma fortuna, mas que nunca seria vendida por dinheiro nenhum, mesmo que a mais negra miséria se abatesse sobre ele. Pelo modo de ser, era evidente que vinha de uma linhagem de nobres. Sua bolsa vivia vazia.

Porthos era um tipo genioso, que falava alto,

pouco se lhe importando se o ouviam ou não. Era dono de uma casa mais ou menos suntuosa que gostava de exibir aos amigos. Algumas vezes fazia seu criado Mosqueton vestir-se com uma rica libré e colocar-se diante da porta para receber os amigos. Gastava o que ganhava em festas e jogos.

Aramis era um estudioso. De maneiras

simples e gestos comedidos, pretendia tomar as ordens sagradas. Seu sonho era ser padre. "Na hora certa, trocarei a farda pela batina. Estou me preparando para isso." Seu criado Bazin tinha o mesmo sonho, daí serem tão amigos. Viviam modestamente numa pequena e bem cuidada casinha nos arredores da cidade.

Esses eram os homens que se tornaram

amigos e, de certa forma, protetores do fidalgo D'Artagnan.

Com uma gratificação dada pelo rei, D'

Artagnan patrocinou uma festa na casa de Porthos por ser mais ampla e adequada que a sua.

Contratou um criado, Planchet, para servir as

iguarias e as bebidas.

Depois da festa, Planchet ficou como criado

permanente de D'Artagnan. Não era mau sujeito, mas estava sempre mal-humorado, principalmente quando o dinheiro de seu patrão escasseava. Era es perto e criativo e sempre dava um jeito para terem o que comer.

Quando finalmente D'Artagnan envergou o

uniforme dos cadetes da Companhia de Guardas Reais, a situação estava realmente difícil para os quatro. Não havia mais um níquel em suas bolsas e as fontes de empréstimos e vales haviam se esgotado.

Uma noite, depois de uma ceia rala,

D'Artagnan ouviu fortes batidas na porta. Planchet foi atender e um desconhecido lhe pediu para falar com o jovem gascão. Depois de entrar, e tendo-se acomodado à mesa da sala com D'Artagnan, o homem esclareceu:

- Tenho ouvido as melhores informações a

seu respeito. Sei que é um fidalgo honrado e com muita coragem. É justamente do senhor que preciso para resolver o grande problema que me surgiu. - O homem estava bastante nervoso e falava sussurrando, como se temesse ser ouvido através das paredes.

- Em que posso servi-lo, senhor? - perguntou D'Artagnan, sem imaginar de que forma poderia ajudar aquele estranho.

- Meu nome é Bonacieux. Sou comerciante e

tenho uma casa de fazendas próximo daqui. Minha mulher é costureira. Trabalha para o Sr. de La Porte, de quem é afilhada, e esse mesmo senhor é um dos conselheiros de Sua Majestade.

- Continue - disse o jovem, já mais

interessado.

- Minha esposa, por indicação do Sr. de La

Porte, foi servir como dama de companhia da nossa rainha. Como é natural no palácio real ficava sabendo de todas as intrigas entre os nobres. E, assim, minha mulher tomou conhecimento de que a rainha anda muito assustada.

- Assustada, a rainha? Por quê? - Alguém escreveu uma carta ao Duque de

Buckingham em nome da rainha para que ele viesse a Paris ao seu encontro. Minha mulher ficou sabendo da cilada e por isso foi raptada. Faz três dias que não aparece e ontem recebi um bilhete seu recomendando que não a procure para nosso próprio bem.

- História complicada! - D'Artagnan estava

cada vez mais interessado. - O que o Duque de Buckingham, que é inglês, viria fazer em Paris se as relações de sua pátria com a França estão tão ruins?

Estamos praticamente em guerra... - Esse é o problema. O intriguista Cardeal

Richelieu quer fazer crer ao rei que a rainha é amante do Duque de Buckingham e traidora da pátria. Um absurdo, mas se houver um encontro entre ambos, ainda que inocente, servirá de prova para o esposo real. Seria uma desgraça para o reino.

- Por quê?

- Porque a influência do Cardeal sobre o

trono passaria a ser imensa.

- E qual seria minha atuação nisso tudo? - Procurar e encontrar minha esposa, se isso

for possível. Resgatá-la sã e salva! - O homem estava com lágrimas nos olhos. - Pagarei por isso, senhor.

- Muito bem. Farei o possível. Quanto ao

pagamento...

- Não lhe cobrarei o aluguel por três meses e

lhe darei uma ajuda de custo substancial.

- Bem que seu nome me pareceu conhecido!

Então o senhor é o dono deste lugar?

Bonacieux acenou com a cabeça. - Parto agora - disse, levantando-se e

encaminhando-se para a saída.

- O senhor deve tomar muito cuidado. Tenho a impressão de que estou sendo vigiado.

Quando abriu a porta, o homem ficou

gelado. Do outro lado da rua, um sujeito meio embrulhado numa capa olhava fixamente para a casa.

- Olhe lá. Aquele sujeito vem me seguindo

por onde quer que eu vá.

D'Artagnan viu um homem que reconheceu

de imediato.

- Meu inimigo de Meung! - em três pulos

alcançou a rua, mas o soturno indivíduo já havia desaparecido nas sombras.

Richeiieu, em sua política externa, combatia a

Casa d'Áustria, que ameaçava a ascensão da França na diplomacia internacional. As hostilidades entre o ministro e a rainha Ana d'Áustria, esposa de Luís XIII, foram uma constante naquele período.

A senhora Bonacieux De volta a casa, depois

de uma busca infrutífera por todos os cantos escuros do bairro, o jovem encontrou à sua espera os três amigos mosqueteiros. Diante de algumas garrafas de vinho, contou com todos os detalhes seu encontro com o Sr. de Bonacieux, o rapto da esposa e a estranha história envolvendo a rainha e o Duque de Buckingham.

- De tudo isso que nos conta, a melhor parte é a do aluguel gratuito e do bom vinho pago por seu senhorio! - comentou Pormos, enquanto sorvia uma grande taça de vinho. - Quanto ao resto, não acredito que essa mulher raptada tenha alguma ligação com a nossa querida rainha, nem que o duque inglês tenha a coragem de vir clandestinamente a Paris.

Os outros concordaram, acenando a cabeça

com gravidade.

Depois de discutirem o caso mais

detalhadamente, os três mosqueteiros resolveram ficar de guarda, escondidos na casa de D'Artagnan, que era anexa à de Bonacieux. Tinham esperança de que a mulher voltasse ou alguém tentasse contato com o marido. Era também possível que ela lhe mandasse uma mensagem.

D' Artagnan ficou de vigia, em um lugar de

onde tinha ampla visão da entrada e do pátio fronteiro à casa. Cedo ou tarde, alguém haveria de fazer contato. Com isso, teriam uma pista para chegar aos raptores e, caso existissem, aos conspiradores.

No final do segundo dia, depois de uma

vigília longa e monótona, D'Artagnan viu o Sr. de Bonacieux chegando a casa visivel mente assustado. No momento seguinte, quatro guardas do Cardeal saltaram sobre o comerciante. Antes que ele pudesse ter qualquer reação, jogaram-no dentro de uma carruagem, açoitaram os cavalos e sumiram na escuridão. Foi uma ação tão rápida que mal deu tempo de D'Artagnan chegar até a rua. Era impossível seguir a pé o rápido veículo e, blasfemando, furioso, o gascão voltou para casa ainda pensando no que fazer.

Os policiais chegaram logo depois e,

silenciosamente, se meteram dentro da casa de Bonacieux com o visível intuito de esperar e prender quem mais ali chegasse. Era evidente que obedeciam a ordens do Cardeal e, D'Artagnan constatou pêlos movimentos, ainda não tinham encontrado o que procuravam. Talvez andassem atrás da senhora Bonacieux.

Continuar: parte 2 de 3