Os Três Mosqueteiros

Alexandre Dumas · Capítulo 1 de 1 · parte 2/3

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Os Três Mosqueteiros

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Depois de trocar ideias com os amigos,

D'Artagnan resolveu continuar vigiando a casa, enquanto os mosqueteiros avisavam o Sr.

de Tréville sobre a prisão de Bonacieux e se

informavam sobre as providências para localizá-lo.

Na madrugada seguinte, quando Planchet

vigiava, uma mulher envolta em uma longa capa aproximou-se da casa de Bonacieux e tentou abrir a porta. Imediatamente os policiais saltaram sobre ela e arrastaram-na para o interior da residência. Planchet sacudiu D'Artagnan, que dormia sobre um sofá, completamente vestido e armado.

Mal soube o que havia acontecido,

empunhou a espada e abriu a porta, resolutamente.

- Não faça isso! - sussurrou o criado. - Eles

são quatro e vão matá-lo!

- Silêncio! - murmurou o gascão enquanto

alcançava, ágil como um gato, o meio da rua.

Em seguida, bateu com o punho da espada

na porta de Bonacieux. Um ruído de passos, o rangido da porta girando nos gonzos e D'Artagnan entrou na sala escura. Logo se travou uma batalha em que o entrechocar do aço, gemidos de dor e gritos de raiva formavam uma terrível orquestração. Era um furacão que varria o interior da casa.

De repente, quatro vultos negros saltaram

para a rua e dispararam como se fossem perseguidos por mil demónios. D'Artagnan, como um anjo vingador, ainda brandia a espada, como se pudesse alcançar os inimigos.

De volta à casa do comerciante, encontrou a

mulher estendida sobre um sofá, respirando agitadamente e arrumando as roupas desalinhadas. A jovem mulher suspirou profundamente e disse-lhe, com voz ainda alterada pelo susto, porém bastante melodiosa aos ouvidos de D'Artagnan:

- Devo-lhe a vida. Eu lhe serei sempre muito

grata pelo gesto corajoso em defesa de uma mulher em perigo.

- Nada me deve, senhora. Qualquer

cavalheiro, em meu lugar, teria feito a mesma coisa.

Já mais calma, a mulher esclareceu: - Sou Constance, a senhora Bonacieux, e

moro aqui. Pensei encontrar meu marido e não aqueles bandidos. - Olhando em volta, entre surpresa e assustada, perguntou: - Onde está meu marido? Quem são esses homens que invadem casas e atacam mulheres indefesas?

- Aqueles homens eram agentes do Cardeal

Richelieu e cer tamente queriam prendê-la. Quanto ao seu marido, o Sr. Bonacieux, foi preso ontem também por guardas do Cardeal. Descobrimos que foi levado para a Bastilha.

- Preso? Mas o que fez ele?

- Acho que foi pelo fato de ser seu marido.

Pelo que ele me contou quando me pediu para encontrá-la...

- Meu marido soube do rapto? - Alguém lhe enviou um bilhete anónimo. - E ele sabe por que motivo me raptaram? - Acredita ser intriga política. Mas agora o

melhor a fazer, senhora, é sair daqui antes que os guardas voltem com reforços. A senhora tem algum lugar onde possa esconder-se?

A mulher fez um gesto negativo. - Aqui não posso ficar, nem voltar para o

palácio. Não tenho para onde ir.

- Vou levá-la para a casa de um amigo de

absoluta confiança. Lá estará segura.

D'Artagnan levou a mulher até a casa de

Athos e, embora este não estivesse, sabia onde escondia a chave. Depois de acomodar a jovem senhora, aceitou levar uma mensagem para o Sr. de La Porte no palácio real. O conselheiro foi assim informado sobre os últimos acontecimentos envolvendo a afilhada.

- Obrigado, meu jovem amigo - disse-lhe o

Sr. de La Porte. - Bastilha: fortaleza construída em Paris em 1370 e transformada por Richelieu em presídio polí tico. Era destinada especialmente a nobres e letrados, que aí eram encarcerados e torturados.

Foi destruída em 1789, durante a Revolução

Francesa.

O prisioneiro da Bastilha Numa cela escura,

o Sr. Bonacieux choramingava, imaginando o que teria acontecido à sua mulher e que horrível destino ele teria nas mãos dos cruéis agentes do Cardeal. Depois de dois dias e duas noites jogado no chão frio e úmido de uma cela escondida nos porões da prisão, seus pensamentos eram sinistros. Ainda não havia sido interrogado, mas, pêlos gritos e sons que ouvia constantemente, não esperava nada de bom de seus raptores.

No terceiro dia, foi tirado da cela e escoltado

até a sala de interrogatórios. Ali respondeu a algumas perguntas e, depois de algemado, foi conduzido até uma carroça, usada geralmente para levar os condenados à forca. Bonacieux ficou apavorado. Certamente iriam matá-lo! O veículo seguiu até parar diante de um prédio velho e imponente. Logo o infeliz foi empurrado para uma ampla e luxuosa sala e colocado frente a um homem que, a princípio, imaginou ser um magistrado. Depois de um certo tempo, observou melhor o homem que iria interrogá-lo e seu sangue gelou nas veias.

A veste púrpura, o grande crucifixo

pendendo de uma corrente de ouro, os dois padres lhe servindo de secretários. Não havia dúvidas.

Era o Cardeal Richelieu.

Com um gesto autoritário, o Cardeal fez

saírem seus auxilia - Sabe que sua mulher foi raptada, depois conseguiu fugir e agora está sumida? - Uma leve irritação começou a transparecer na voz do Cardeal.

- Recebi um bilhete anónimo dizendo que

tinha sido raptada, mas não sei se conseguiu fugir. Afinal, estou preso há três dias sem saber nada do mundo.

- Quer dizer que não sabe onde está sua

mulher? - A raiva deixava a voz do ministro fria como gelo.

- Como poderia saber, Eminência? Estou

preso. Nesse instante, um dos secretários entrou silenciosamente e cochichou algumas palavras no ouvido do Cardeal, que fez um sinal afirmativo. Logo entrou um homem nobremente vestido que, depois de inclinar a cabeça, disse simplesmente:

- A rainha e o duque tiveram um encontro. O

Cardeal reagiu com um gesto de surpresa.

- Onde?

- No palácio.

- Tem certeza?

- Absoluta. Infelizmente a informação chegou

tarde demais para aprisionar o duque.

O Cardeal deu um sorriso e respondeu quase

alegre.

- Isso não tem importância. Agora tenho tudo

sob controle. Pode retirar-se e obrigado pêlos bons serviços.

Bonacieux ficou outra vez sozinho diante do

ministro, esperando que o interrogatório continuasse.

O Cardeal escreveu alguma coisa em uma

folha de papel e depois, como se tivesse se lembrado da presença do outro, disse:

- O senhor é um bom cidadão. Espero que

não guarde mágoas pelo tratamento recebido, mas infelizmente temos de zelar pela justiça.

O senhor está livre. Pode retirar-se. Bonacieux quase desmaiou de emoção.

Tentou dar um passo, mas não conseguia mover as pernas. O Cardeal levantou-se e ofereceu a mão para que fosse beijada.

O comerciante inclinou a cabeça e, trémulo,

conseguiu aproximar os lábios da mão do grande homem. Depois, com passos incertos, saiu da sala e alcançou a rua. Estava tão agitado que teve de escorar-se na parede e respirar profundamente até recobrar o controle do corpo.

"O Cardeal, além de me dar a liberdade,

ainda permitiu que beijasse sua mão! E declarou que sou inocente e um bom cidadão.

Quanta felicidade, meu Deus!” Assim que o Cardeal ficou só, fez tilintar uma campainha. Logo a porta se abriu e entrou o mesmo senhor que lhe havia dado as informações sobre o encontro entre a rainha e o duque.

- E esse tal Bonacieux? Soltou-o? - perguntou. - É claro. De hoje em diante estará a nosso

serviço. Espionará a mulher para nós.

Richelieu escreveu uma carta, fechou-a num

envelope e colocou seu selo para evitar que fosse violada. Entregando-a ao homem, que, à sua frente, esperava em silêncio, recomendou:

- Entregue esta mensagem a Vitray. Ele deve

partir imediata mente para Londres e entregá-la ao destinatário, cujo nome está no envelope. Quero segredo, urgência e discrição absoluta.

O homem inclinou-se e saiu da sala. O Cardeal Richelieu tinha um enorme poder

sobre a França e uma rede de espiões que o informava de tudo o que acontecia não só dentro do palácio real como em qualquer lugar onde tivesse interesse.

Agora pensava seriamente em aumentar esse

poder subterrâneo que lhe permitia ter quase tanta força quanto o próprio Luís XIII.

O rei e o Cardeal O rei estava em sua sala de

audiências, visivelmente entediado com os inúmeros problemas do reino e os pedidos e reclamações de seus súditos. Rodeado de assessores e cortesãos das províncias próximas, o maior desejo do enfastiado soberano era acabar logo com aquilo e retirar-se para o sossego de seus aposentos.

Depois de atender a todos, viu entrar o

Cardeal Richelieu, que tinha o privilégio de poder ser recebido sem anunciar-se. O rei suspirou, desolado. Sempre que o ministro aparecia, era certo que algum grave problema o acompanhava.

- Bem-vindo, senhor ministro - saudou o rei

na vã esperança de que pudesse escapar sem mais um incómodo.

O Cardeal fez uma breve inclinação e

respondeu com a voz mais suave possível:

- Que Deus proteja Vossa Majestade. Um leve

aceno da mão real fez com que todos se retirassem silenciosamente. O grande salão ficou sendo somente dos dois.

- Que boa nova me traz, meu fiel ministro? -

perguntou o rei, já certo de que teria uma longa e enfadonha audiência.

- Permita que o informe de algo bastante

grave. Acredito que Vossa Majestade ainda não saiba que o Duque de Buckingham esteve em Paris, onde permaneceu por cinco dias.

O rei empalideceu subitamente. Logo um rubor subiu-lhe pelas faces como se tivesse feito um violento exercício físico.

- O Duque de Buckingham em Paris? O que o

trouxe aqui? - perguntou, com a voz um tanto rouca.

- Veio conspirar contra Vossa Majestade,

certamente.

- Pior que isso, Eminência. Veio conspirar

contra minha honra. -O rei estava desolado.

- Não creio. Majestade. A rainha não se

arriscaria a um encontro secreto com um representante de uma nação com a qual estamos praticamente em guerra! - O Cardeal gostava de fazer o rei lembrar-se de que as hostilidades com a Inglaterra poderiam irromper a qualquer momento. - Além disso, a rainha ama-o sinhor ceramente e nada faria para magoá-lo - afirmou com voz consoladora.

- Toda mulher é frágil e se impressiona com

facilidade - murmurou o rei.

- É possível: mas continuo a insistir que o

duque conspira contra a França. Sua vinda tem motivos políticos; não sentimentais.

- Não sei o que pensar! - exclamou o rei. - Temos de poupar a rainha. Seria uma

crueldade molestá-la com esse problema.

O Cardeal fazia ares de preocupação com o

bem-estar da rainha mas, na verdade, seu intento era conduzir as suspeitas do rei para a área política.

- Já não acredito em nada nem em ninguém. -

O rei se ergueu, nervoso. - Sinto que a traição se esconde em cada canto da França.

Todos conspiram contra mim. Até minha real

esposa! -Luís XIII estava cada vez mais furioso, o que agradava muito ao Cardeal.

- A augusta esposa de Vossa Majestade é Ana

d'Áustria, rainha da França e a mais poderosa princesa do mundo. Por que haveria de manter conversações com um inimigo que só pensa em trazer a derrota para nossa pátria?

- Quanto maior o título, maior a

responsabilidade atribuída a uma pessoa! Se a própria rainha trair seu reino, o que esperar dos outros súditos? - perguntou o rei, gesticulando nervosamente.

- Mas Alteza - respondeu o Cardeal com voz

mansa - se a rainha conspira, coisa em que não acredito, é contra o rei e não contra o reino.

- Isso dá no mesmo! - exclamou o rei,

vermelho de raiva. -Quero que seja vigiada. Ela e esse perigoso duque que anda pela França como se fosse o quintal de sua casa. Pelo menos posso contar com isso.

Eminência?

- É claro, Majestade. Haveremos de ter um

completo controle sobre tudo que Alga respeito à segurança de nossa terra. Mas vigiar a rainha é algo que não posso fazer. Ela se oporá.

- Mesmo com a ordem vinda do rei? -

exclamou o soberano.

- Ela não sabe disso.

- Tratarei de fazer com que fique sabendo.

Quero a mais severa vigilância sobre todos os passos não só de minha esposa como de todos os que a servem.

Um sorriso de vitória iluminou o rosto do

Cardeal.

- Assim será feito. Como ordena Vossa

Majestade.

O colar de diamantes A rainha Ana

d'Áustria, esposa de Luís XIII, era uma jovem bela e melancólica. Vivia naquele imenso palácio do Louvre quase como se estivesse no exílio. Não podia passear, viajar ou mesmo organizar reuniões com pessoas jovens e alegres. Sua única diversão, e assim mesmo bastante rara, eram os bailes que o rei promovia, quando estava de bom humor.

Os bailes deveriam sempre ter a aprovação do Cardeal, o qual estabelecia um dia que não afrontasse os dogmas da Igreja. Com isso, na realidade, quem decidia quando a festa deveria acontecer era o Ministro Richelieu.

O rei, por ocasião da celebração de suas

bodas, havia presenteado a rainha com um rico colar de diamantes, com doze pedras exata mente iguais, como gotas de água. Era uma jóia rara e muito original.

Num momento de completa imprudência, a

rainha deu esse colar ao Duque de Buckingham. Esse fato poderia até ser explicado, já que ambos tinham laços de parentesco. O Cardeal, que tudo sabia e tudo controlava, tratou de fazer crer entre os pares de França que era um presente trocado entre amantes. Se o rei soubesse disso, seria a desgraça da rainha.

Com a mente perversa, que sabia usar

magistralmente, o Cardeal, após a audiência em que o rei lhe pedira para vigiar a rainha, sugeriu que se realizasse um baile de máscaras, como era costume na época, dali a doze dias, espaço de tempo suficiente para receber algumas informações de Londres, onde mantinha uma fiel colaboradora.

Insidiosamente sugeriu ao rei que a rainha

usasse o colar de diamantes de tão grande beleza. Com isso, pretendia selar a sorte da rainha pois, sem o colar, ficaria provada a traição e o adultério.

Afastada a rainha, o Cardeal seria o único a

aconselhar o rei. Seu poder seria absoluto.

Alguns dias depois, o rei entrou nos

aposentos da rainha. Aparentando estar satisfeito com a vida, saudou-a afetuosamente e anunciou:

- Mandei que se realize um baile para toda a

corte. Espero que isso a deixe feliz.

- Um baile, Majestade? - ela sorriu

alegremente. - Que bom! Claro que fico muito feliz.

- Peço-lhe que compareça fantasiada, não

poupando esforços para ser a mais deslumbrante de todas as damas. Ah, gostaria que usasse o colar de diamantes com o qual a presenteei.

A rainha empalideceu. O terror lhe gelou o

sangue. Sem poder articular qualquer palavra, ficou olhando o rei sair tranquilamente da sala, depois de uma rápida mesura.

A rainha sentiu-se perdida. O Cardeal

tramara tudo e certamente haveria de desgraçá-la diante do rei. Não tinha salvação.

Aterrorizada, recolheu-se a seu quarto.

Jogou-se sobre o leito e irrompeu num longo e soluçado choro.

A Sra. Bonacieux entrou nesse momento e aproximou-se da rainha.

- Senhora, por que está chorando assim tão

desconsoladamente?

- Estou perdida, minha cara. Perdida. - Se me achar digna de sua confiança, conte-

me o que se passa.

Talvez possa ajudá-la. - A Sra. Bonacieux

gostava muito da rainha e, certamente, se empenharia em ajudá-la.

A rainha suspirou, desconsolada. Precisava

desesperadamente confiar em alguém. Sua camareira dera muitas provas de lealdade, mas não teria forças nem poder suficientes para salvá-la.

- Preciso de alguém forte e corajoso para

levar adiante uma missão urgente. Do sucesso dessa missão depende minha honra e minha vida! - Agarrando convulsivamente as mãos da Sra. Bonacieux, perguntou: - Conhece alguém assim?

A camareira lembrou-se de seu marido, mas,

no mesmo instante, afastou essa ideia, pois ele andava muito diferente desde que fora preso, dizendo-se amigo do Cardeal.

- Diga-me, conhece alguém que seja tão fiel a

ponto de arriscar a própria vida por sua rainha?

- Eu mesma, minha rainha, morrerei se for

preciso...

- Não! Não! Precisamos de um homem

jovem, forte e decidido! A Sra. Bonacieux não demorou para achar a resposta.

- Tenho a solução. Pelo menos assim

acredito. Conheço um jovem fidalgo que tem todas essas virtudes.

- E ele levaria uma carta minha até Londres

sem perguntas?

- Creio que sim, Majestade. Escreva a carta

que tratarei tudo com ele.

- Quem é esse tão nobre cavalheiro? -É um jovem gascão chamado D' Artagnan.

Pode confiar nele. Me deu provas de ser um fidalgo incorruptível.

- Já ouvi falar dele. Parece-me jovem demais

e um tanto estabanado.

- Não se preocupe. Ele se incumbirá da tarefa

com toda a discrição. Ele não precisará saber quem está enviando a mensagem. Dessa forma, Vossa Majestade estará segura.

- Assim mesmo, se for interceptado, estarei

perdida.

- Ele defenderá sua carta com a própria vida. - Estou nas mãos de Deus e desse valente

mensageiro. Se tudo sair bem, salvará a vida e a honra de sua rainha.

Rapidamente a rainha escreveu uma carta e

selou-a com seu brasão pessoal. Depois recomendou que D'Artagnan deveria trazer de Londres uma encomenda e entregá-la em suas próprias mãos quando, então, seria regiamente gratificado.

E foi assim que o jovem gascão recém-

chegado a Paris começou a viver suas mais incríveis aventuras, justamente a serviço da rainha.

A serviço da rainha A primeira providência

de D'Artagnan foi conseguir uma licença de quinze dias da Guarda Real. Quando o Sr. de Tréville soube que o jovem deveria ir até Londres com uma mensagem muito importante, sentiu que era uma missão perigosa. Embora, por prudência e respeito, não quisesse saber do que se tratava, aconselhou-o a levar em sua companhia os já inseparáveis amigos mosqueteiros. Para tanto, também os licenciou por quinze dias. O pretexto era acompanhar Amos, que ainda convalescia dos ferimentos, até uma estação de tratamento na costa do Canal da Mancha.

Após fazerem os planos de viagem, munidos

com uma bolsa bem suprida de dinheiro fornecida pela Sra. Bonacieux e cavalos fortes e rápidos, resolveram partir o mais cedo possível, já que o tempo era escasso.

Como se tratava de uma longa cavalgada, em que certamente precisariam dos serviços de seus pajens, resolveram que eles os acompanhariam. Assim, Grimaud, Planchet, Mosqueton e Bazin, empregados respectivamente de Athos, D'Artagnan, Pormos e Aramis, seguiram seus senhores, cada um montado num cavalo de bom porte.

O Cardeal Richelieu, que não deixava nada

ao acaso, previu a possibilidade de alguém tentar atrapalhar seus planos chegando a Londres e alertando o duque. Para tanto, preparou várias armadilhas ao longo do trajeto, que haveriam de impedir a passagem a qualquer mensageiro que a rainha enviasse à Inglaterra.

Às duas da madrugada, os aventureiros

partiram, saindo furtivamente de Paris. Cavalgaram em silêncio até que os primeiros sinais da aurora começaram a pintar o céu no nascente.

A meio da manhã chegaram a Chantilly e

procuraram uma estalagem para matar a fome e dar um descanso aos animais.

Terminada a refeição, já se preparavam para

reiniciar a viagem quando um homem, sentado numa mesa próxima e dando sinais de embriaguez, gritou:

- Um brinde ao Cardeal Richelieu, o maior homem da França!

Porthos, que havia ficado para trás, disse que

faria isso se o rei também fosse homenageado.

- Não há outro rei além do Cardeal! - gritou o

desconhecido, arrancando a espada.

Já na porta, D'Artagnan gritou para o amigo: - Deixe disso ou mate logo o homem, que

temos pressa!

- Já os alcanço! - respondeu Porthos,

enquanto se preparava para cruzar espadas.

Duas horas depois, já na cidade de Beauvais,

esperaram Porthos por algum tempo mas, como ele não apareceu, resolveram prosseguir.

Em Calais haveriam de se juntar novamente. Pouco mais de duas léguas além de Beauvais,

depois de alcançar um pequeno bosque, encontraram vários trabalhadores tapando alguns buracos no leito da estrada. Aramis, na frente, esperou que os homens se afastassem para que pudessem prosseguir. Isso não aconteceu e, quando o mosqueteiro gritou por passagem, os homens saltaram para a margem da estrada e pegaram vários mosquetes que ali tinham escondidos. Uma saraivada de balas pegou os desprevenidos viajantes.

Aramis, por estar mais próximo, recebeu uma bala no ombro e o criado de Porthos, Mosqueton, caiu do cavalo com um ferimento no traseiro.

- É uma emboscada! - gritou D'Artagnan. -

Partamos! Rápido!

Em meio a uma grande confusão, dispararam

pela estrada a galope, acompanhados do cavalo de Mosqueton que, mesmo sem o cavaleiro, desembestou assustado.

Galoparam por mais um longo percurso até

Aramis gritar que não aguentava mais. Realmente o ferimento, embora não fosse muito grave, sangrava bastante e enfraquecia o mosqueteiro.

Resolveram encaminhar-se para uma

estalagem que sabiam existir não muito longe dali, onde deixariam o ferido. Aramis ficou com seu fiel criado Bazin. Assim que fosse possível, voltariam a Paris.

Novamente em marcha, agora reduzidos a D'

Artagnan e Amos com seus respectivos criados, trataram de evitar todo e qualquer lugar ou pessoas que pudessem resultar noutra armadilha.

Já era noite quando alcançaram Amiens.

Estavam extenuados e os cavalos mal se mantinham em pé. Na margem da estrada, avistaram uma estalagem onde poderiam pernoitar.

O estalajadeiro era muito atencioso e

simpático. Parecia pre ocupado com o bem-estar dos viajantes e insistiu para que ocupassem dois confortáveis quartos. Mas os dois, já bastante curtidos com os últimos acontecimentos, resolveram dormir numa sala anexa à cozinha e com saída pêlos fundos. Os dois empregados dormiram num monte de palhas na cavalariça, junto de suas montarias. Assim vigiavam os cavalos e quem porventura chegasse fora de hora. A noite transcorreu sem novidades e, pela manhã, depois de uma rápida refeição e já com os animais prontos para partir, Athos foi pagar a conta.

O estalajadeiro, assim que pegou as moedas,

começou a gritar, furioso:

- Esse dinheiro é falso! Socorro! Ladrões!

Quatro homens armados de espadas e mosquetes irromperam de uma sala ao lado. Eram guardas do Cardeal.

- Corra, D'Artagnan! - gritou Athos,

disparando dois tiros de pistola.

D'Artagnan pressentiu imediatamente que

era outra armadilha preparada pelo Cardeal. De um salto montou em seu cavalo e gritou para Athos, que abatera dois guardas e já enfrentava os dois restantes:

- Aguente firme, meu amigo! Eu prossigo em

minha missão! - e, esporeando o cavalo, tomou a estrada, seguido por seu criado Planchet.

Logo estavam longe das garras dos esbirros

do Cardeal.

Chegaram ao porto de Calais ao entardecer.

Como os animais estavam estafados, apearam junto de umas árvores num lugar mais ou menos oculto, onde poderiam deixá-los. Enquanto Planchet cuidava da montaria, D'Artagnan dirigiu-se ao porto e procurou pelo comandante de um barco que estava prestes a partir para a Inglaterra.

- Ninguém pode embarcar sem uma ordem

expressa e pessoal do Cardeal Richelieu - avisou o homem enquanto examinava atentamente o jovem fidalgo.

- Meu criado está com a permissão. Estou

esperando-o - respondeu D'Artagnan quase sem pensar.

Na verdade, aquela exigência fora uma

surpresa muito desagradável. D'Artagnan ficou inquieto. Não esperava por essa pro vidência do astuto ministro.

Sentado num banco, junto ao cais, observava

o movimento do porto, enquanto procurava uma solução para o novo problema.

Planchet chegou nesse momento e disse em

voz baixa:

- Na estalagem, perto de onde deixamos os

cavalos, ouvi um senhor comentar com o estalajadeiro que está pronto para embarcar mas que só pode viajar quem tiver uma autorização especial...

- É verdade. Acabei de ser informado pelo

comandante daquele barco.

- Escute, meu amo... Ele tem a permissão.

Não seria o caso de convencê-lo a nos dar esse documento? - Um sorriso malicioso espalhou-se pela cara do criado.

- Parece-me que você está ficando bastante

esperto, meu caro!

Vamos lá! Talvez esse fidalgo não tenha tanta

pressa em fazer a travessia.

- E se tiver? E se não quiser nos entregar o

passe?

- Bem, para tudo sempre há uma solução.

Nós estamos buscando a nossa.

Rapidamente ambos andaram até um lugar

meio deserto, no caminho do porto, onde obrigatoriamente os viajantes haveriam de passar. Depois de poucos minutos de espera, apareceu o homem, seguido de seu criado, que carregava uma mala.

D'Artagnan postou-se no meio do caminho e

esperou. Diante do homem, perguntou:

- Senhor, sinto interromper seu caminho, mas

preciso urgentemente de seu passe de viagem. É uma questão de vida ou morte.

Surpreso, o outro recuou um passo e segurou

o punho da espada.

- Tenho pressa. É melhor sair do caminho.

Não terá meu passe. O jovem gascão não tinha tempo para argumentar. Deu um salto e com um violento murro derrubou o infeliz, que caiu sem soltar um gemido.

Olhando em volta viu, admirado, que

Planchet dominava o criado do outro, tapando-lhe a boca e evitando que gritasse por socorro.

Ambos foram amarrados fortemente e

arrastados para o meio dos arbustos, onde ficariam ocultos pelo menos durante o tempo necessário para o embarque dos dois.

Depois de examinar os papéis e decorar o

nome do antigo dono do salvo-conduto e de seu criado, D'Artagnan apresentou-se alegremente diante do comandante do barco.

Levou uma noite inteira para completar a

travessia. De Dover a Londres viajaram numa carruagem que fazia regularmente essa linha.

Foi fácil D'Artagnan ser recebido pelo Duque

de Buckingham quando disse que vinha da França com uma mensagem urgente. De posse da carta, o ministro inglês tomou as providências que achou necessárias.

Agradeceu a coragem e lealdade do jovem

gascão e prometeu-lhe não só sua irrestrita amizade como o reconhecimento por parte da rainha da França.

Logo D'Artagnan era colocado num barco de

volta para o continente.

Conseguira cumprir a viagem dentro do

prazo estabelecido, embora houvesse deixado pelo caminho seus companheiros de aventuras.

A primeira etapa da missão estava cumprida. O grande baile de máscaras O assunto do

dia, em toda Paris, era o baile que se realizaria dentro de três dias. Os preparativos eram intensos e parecia que ninguém tinha outro pensamento ou preocupação senão contribuir para o sucesso do grande acontecimento. No palácio, o rei continuava taciturno e imaginando as razões de seu ministro Richelieu ter se empenhado tanto naquele baile. A corte se preparava com a pompa que só um grande evento merecia.

Nesse meio tempo, D'Artagnan galopava de

Calais em direção a Paris, só parando para breves descansos e para a troca de montaria. A fim de que a viagem fosse rápida e sem interrupções, o Duque de Buckingham havia preparado a troca de cavalos em lugares previamente estabelecidos, nos quais, com a simples menção de uma senha, os animais lhes seriam entregues, prontos para montar. Com isso o jovem conseguiria alcançar os portões do palácio real com bastante antecedência em relação ao prazo fatal.

Na noite do baile, ainda antes do entardecer,

já o palácio estava preparado para receber as centenas de convidados que, certamente, não deixariam de comparecer a tão grande acontecimento social. Os nobres que receberam convites, além de se sentirem honrados pela deferência real, sabiam que era uma ofensa grave deixar de atender aos desejos do rei. Por isso, faziam o máximo esforço para estarem tão ricamente vestidos quanto merecia essa data.

Antes da meia-noite, os convidados

ocupavam seus lugares no amplo salão iluminado por milhares de velas. No lugar destinado ao casal real e a seus mais chegados cortesãos, estava um trono ladeado por mesas e poltronas, esplendidamente adornados com centenas de buquês de flores.

Luís XIII chegou e, fazendo breves

cumprimentos enquanto passava, instalou-se no trono. A seu lado sentaram-se o Cardeal Richelieu, o duque de Oriéans, o duque de Longueville, o governador da Normandia e outros tantos fidalgos ilustres.

Sua Majestade não parecia estar de bom

humor e olhava, um tanto dissimuladamente, para a porta por onde deveria entrar a rainha.

Richelieu, como que por acaso, lembrou ao

rei:

- Esperemos que a beleza da rainha esteja

realçada pelo esplêndido colar com que Vossa Majestade a presenteou...

- Se ela não comparecer com esse maldito

colar, receberá todo o peso de minhas suspeitas. Mas, se o estiver usando, quem terá de me dar convincentes explicações será meu ministro - sua voz demonstrava uma raiva contida.

- Ora, Majestade, minha explicação pode ser

antecipada. -Depois de um silêncio calculado, disse: - Meu conselho para que sua real esposa usasse esse colar tinha o simples objetivo de realçar a grande beleza da rainha, fazê-la, enfim, sobressair-se magnificamente entre todas as outras mulheres da corte.

- Meu ministro tem a inteligência mais sólida

do reino e a palavra fluida como azougue.

- Bondade de Vossa Sereníssima. - O Cardeal

achou melhor encerrar a palestra antes que o rei ficasse ainda mais inquieto. Felizmente, o arauto anunciou a entrada da rainha e um grande silêncio tomou conta do salão.

Quando os olhos do Cardeal caíram sobre o

colo da rainha, um sorriso triunfante iluminou-lhe o rosto. Por sua vez, uma palidez mortal cobriu as faces do rei.

A rainha não estava usando seu colar de

diamantes.

Alguns minutos depois, Luís XIII,

acompanhado do Cardeal, aproximou-se da rainha e perguntou com uma voz que tentava ser suave:

- Permita-me perguntar-lhe, senhora: por que

não está usando o colar de diamantes que me prometeu para esta noite?

Ana d'Áustria levou a mão ao peito e,

olhando em volta como se receosa de ser ouvida, falou quase num sussurro:

- Tive medo de perdê-lo. No meio desta

multidão, isso não seria difícil de acontecer.

O rei estava rubro de cólera, mas ainda

tentava conter a voz:

- Se a presenteei com o colar, foi justamente

para que o exibisse diante das multidões. Isso me aborrece.

- Não pensei que fosse tão importante para

meu real marido!

Mandarei buscá-lo imediatamente. - Faça-o, senhora. Quero que o esteja usando

em nossa primeira dança. - Num gesto brusco, virou-se e saiu acompanhado do ministro, que ria intimamente imaginando o tamanho do abalo que sofreria o trono da França quando a rainha surgisse sem o seu colar.

A rainha, por sua vez, dirigiu-se ao quarto

destinado à troca de roupas e retoques da maquiagem, de onde sumiu com passos tranquilos.

Quando os primeiros acordes de duzentos

violinos anunciaram o início das danças, a rainha apareceu deslumbrante em seu rico vestido de noite e o cintilante colar de diamantes enfeitando seu colo nu. Era, sem qualquer dúvida, a mulher mais linda do reino.

O rei apressou-se a estender as mãos para

sua esposa.

- Agradeço-lhe por haver atendido meu pedido, minha bela esposa. Creio que agora tudo está bem. - E, voltando-se para o Cardeal, que, de tão surpreso, não podia articular sequer uma palavra, disse com voz gelada e entrecortada: - Quanto ao meu prezado ministro, espero-o amanhã para uma audiência matinal com as devidas explicações para tão conspirativos conselhos.

Richelieu, dissimulando sua raiva, fez uma

inclinação com a cabeça e retirou-se. - Vamos, minha esposa, faço absoluta questão de desfrutar o prazer desta dança.

Com um sorriso vitorioso, Ana d'Áustria fez

um gentil aceno afirmativo e foi conduzida pelo marido para o centro do grande salão.

Depois de dias de angústia e desespero, a

vitória contra o insidioso ministro tinha o sabor de um sonho realizado.

D'Artagnan, junto do Sr. de Tréville, contou

as últimas aventuras por que passara e informou ao comandante dos mosqueteiros que se havia extraviado dos amigos durante o trajeto até Calais, não sabendo onde se encontravam.

- Se estiverem vivos, cedo ou tarde entrarão

em contato -disse o Sr. de Tréville com tranquilidade. - Como não recebi nenhuma notícia de mosqueteiros mortos, acredito que estejam se embriagando em alguma estalagem de má fama.

D'Artagnan não se iludiu com o tom

despreocupado do velho capitão. Suas palavras, no fundo, denotavam preocupação por seus comandados.

- Senhor, penso em refazer o caminho até

Calais para encontrá-los.

Acredito que ainda estejam nos mesmos

lugares onde os deixei, embora impossibilitados de voltar.

- Acho que é isso mesmo que deve fazer, meu

jovem. E, depois de sua atuação no caso do colar da rainha, o Cardeal não vai descansar enquanto não conseguir matá-lo. O melhor é sumir da cidade por algum tempo. Pelo menos até que possamos ficar sob a proteção do rei.

- Minha prioridade é encontrar meus amigos,

não fugir do Cardeal! - exclamou D'Artagnan, erguendo-se.

O rompante do gascão fez aparecer uma ruga

na testa do Sr. de Tréville.

- Indo em busca dos amigos, estará se

afastando das garras do Cardeal. Não há desonra em partir em auxílio de bons camaradas, mesmo deixando para trás uma ameaça de morte.

De madrugada, D'Artagnan e seu fiel criado

Planchet partiram a cavalo, na mesma direção que haviam seguido em missão da rainha.

Em Chantilly, hospedaram-se na mesma

estalagem onde tinham feito a primeira refeição na viagem anterior. O dono notou que seu hóspede era fidalgo, o que provavelmente poderia lhe tra zer um bom lucro. Por isso tratou D'Artagnan com exagerada gentileza.

À noite, depois de um lauto jantar regado a

bom vinho, D'Artagnan convidou o dono da estalagem a, juntos, beberem mais uma taça.

- Há mais ou menos quinze dias passei aqui

com alguns amigos em direção à costa. Um deles, um mosqueteiro forte e apreciador de uma boa mesa, ficou para trás. Imagino que ainda esteja aqui nas imediações...

O homem deu uma risada.

- Refere-se ao Sr. Pormos?

- Isso mesmo!

- Asseguro-lhe que ele está muito bem e

aproveitando ao máximo nossas instalações.

- Quer dizer que ele está aqui mesmo? O

homem concordou e apontou para uma escadaria que levava ao andar superior.

- Mas só o seu criado tem permissão de entrar no quarto.

- Mosqueton, seu criado, também está aqui? - Se está! Chegou uns cinco dias depois,

andando com dificuldade.

Mas tudo o que o patrão quer ele providencia

sem cerimónias. Nisso é muito eficiente. O grande problema é que até agora não vi sinal de dinheiro nem qualquer promessa de pagamento - disse o homem desolado.

- Não se preocupe com isso. Venho

preparado para pagar todas as despesas.

Novamente animado, o estalajadeiro tratou

de subir na frente de D'Artagnan para mostrar o quarto de Pormos.

Aberta a porta, viram o mosqueteiro sentado

a uma mesa, jogando cartas com Mosqueton, enquanto várias perdizes assavam num espeto no braseiro da lareira.

Ao ver o amigo, o robusto mosqueteiro deu

um berro, saudando-o:

- D'Artagnan, amigo velho! Enfim resolveu

visitar este pobre ferido!

Infelizmente não posso levantar-me desta

cadeira para dar-lhe uma acolhida mais efusiva e um abraço apertado!

- Não faz mal! O importante é que, pelo que vejo, já está quase recuperado.

- Um ferimento superficial, mas que me

impede de andar. Naquele dia, quando pretendia castigar o provocador que brindava ao Cardeal e se negava a fazer o mesmo com o rei, tropecei e caí com o joelho contra uma pedra. De lá para cá, não consigo mais andar. Por isso me consolo jogando cartas com esse espertalhão! - e apontou para seu criado, que deu uma risadinha marota.

- Pelo que vejo, não lhe falta nada por aqui! -

disse D'Artagnan com ar de divertida aprovação.

- A gente faz o possível para não passar fome

nem sede. Nessa atividade o meu fiel Mosqueton é imbatível.

Mosqueton, com expressão singela, fez um

sinal com os ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo conseguir provisões para o patrão.

D'Artagnan olhou em volta, para os

aposentos confortáveis, a lareira com bom fogo e a grande provisão de vinho. Não havia dúvida de que Pormos estava levando uma vida regalada.

uma vocação bastante vulnerável Depois de

ter pagado a conta de Porthos na estalagem e acertado que, na volta, iriam juntos para Paris com os mosqueteiros restantes, D'Artagnan prosseguiu viagem, acompanhado de Planchet, em busca de Aramis.

Enquanto cavalgava tranquilamente, o jovem

gascão regozijava-se com a bela manhã, pensando na sorte da rainha e na de sua dama, a Sra.

Bonacieux. Não conhecia o desfecho da

história dos diamantes, embora acreditasse que tudo correra bem. Toda vez que pensava na jovem aliada da rainha, uma onda de calor aquecia seu coração... Estaria se apaixonando por uma mulher com quem falara duas ou três vezes e de quem apenas sabia ser casada com um indivíduo que, segundo ela própria, não era confiável? Cogitando em problemas do coração, alcançou a estalagem onde deixara Aramis ferido, sob os cuidados dos donos da casa e na companhia de seu criado Bazin.

Diante da casa, uma mulher escorada na

porta o observava. Era, na certa, a estalajadeira.

- Senhora, procuro um amigo meu que tive

de deixar aqui há alguns dias...

- É um jovem bonito que usa uma bela farda

de mosqueteiro do rei?

- Isso mesmo! Sabe onde está? - É claro! Está aqui mesmo, onde se cura dos

ferimentos não só do corpo como da alma. Agora mesmo está em seu quarto na companhia de dois religiosos, com quem conferencia há horas.

D'Artagnan sorriu.

- Ele é meio mosqueteiro, meio padre. Ainda

não decidiu o que escolher... De qualquer forma, quero falar-lhe.

- Suba a escada à direita pelo lado de fora.

Ele está no quarto número 5. Seu criado está de guarda na porta - advertiu a mulher.

Realmente Bazin estava postado diante da

porta do quarto, com o aspecto de quem não permitiria a entrada de ninguém. Ele sabia que seu amo se preparava para tomar as ordens e sua maior ambição era poder servi-lo quando sacerdote, devido à sua grande vocação religiosa. Só esperava o dia em que Aramis trocasse a farda pela batina. A chegada do gascão não o alegrou.

D'Artagnan ignorou o criado e entrou no

quarto sem bater. Sentados em torno de uma mesa na qual havia livros e papéis espalhados estavam Aramis, o superior dos jesuítas à sua direita e o Padre de Montdidier à sua esquerda.

Para surpresa de D'Artagnan, o jovem amigo

limitou-se a um cumprimento formal, quase frio.

- Bom dia, amigo. Que prazer revê-lo! - O prazer também é meu, embora não esteja certo de falar com meu bom amigo Aramis. Está tão enfermo que precisa da presença de dois padres para confortá-lo?

- De maneira nenhuma! Estamos discutindo

coisas relevantes sobre a religião - disse, fazendo um gesto como se apresentasse os dois religiosos. Depois, num tom quase displicente, comentou, dirigindo-se aos padres: - Este meu amigo escapou de grandes e terríveis perigos.

- Graças a Deus! - disseram os dois em

uníssono.

- Meu caro D'Artagnan, estamos aqui

discutindo grandes questões teológicas que muito me fascinam. Poderia nos ajudar a buscar alguma luz?

- Sou um soldado e nada entendo desses

problemas religiosos.

- Estou preparando uma tese para minha

ordenação.

- Ordenação? - D'Artagnan sobressaltou-se

com a possibilidade de Aramis se tomar de fato um padre.

- Isso mesmo. Estes dois religiosos estão

contribuindo para que eu tenha sucesso no ingresso a uma ordem religiosa.

Os dois padres se levantaram. Juntaram alguns livros e papéis sobre a mesa e prepararam-se para partir.

- Vamos voltar para nossos afazeres. Amanhã

estaremos aqui novamente.

Depois que os dois saíram, um momento

embaraçoso pairou sobre os dois amigos, que ficaram mudos olhando um para o outro.

Afinal, o gascão falou:

- Espero que aqui haja algo para se comer.

Estou em jejum desde o amanhecer e isso me prejudica o raciocínio.

- Logo será servida a refeição. Espinafre com

ovos.

- Essa é uma dieta difícil de se aguentar! -

exclamou D'Artagnan. - Mas, por uma vez, passa.

Enquanto o espinafre não chegava, Aramis

pôs-se a discorrer sobre sua futura vida como sacerdote.

Pouco interessado nos problemas religiosos

do amigo, D'Artagnan acabou por interrompê-lo com a pergunta:

- Por que, tendo tamanha vocação para o

sacerdócio, resolveu seguir a carreira àas anuas?

- Ainda não conhece minha história? Bem,

desde os nove anos de idade que penso em ser padre. Fiquei num seminário até os vinte anos, sempre me preparando para a futura missão. Certa noite, em visita à casa de uma família de amigos de meus pais, onde organizavam saraus literários, fui desacatado por um oficial enciumado por eu ter declamado alguns poemas. Era uma poesia que havia feito para a dona da casa, o que o deixou furioso. Na saída segurou-me pelo braço e praticamente me arrastou até um lugar isolado, onde me disse: "Se não quiser levar uma boa dúzia de bengaladas, nunca mais ponha os pés nesta casa". Ora, por questões de honra e fidalguia não haveria de aceitar tamanha vergonha.

Naquele mesmo momento tomei uma

decisão. Comuniquei aos meus superiores que ainda não me encontrava suficientemente preparado para as ordens, procurei o melhor mestre de esgrima de Paris e tomei lições diárias por um ano inteiro. Depois disso, sentindo-me apto a responder ao insulto, vesti-me com as melhores roupas de minha condição de fidalgo e apresentei-me na mesma casa onde houvera o encontro com o oficial. Ele cantava uma melosa balada de amor, evidentemente destinada à dona da casa. Fui até ele e interrompi-o: "Cavalheiro! O senhor, que se opõe à minha presença nesta casa, e me avisou que se lhe desobedecesse me aplicaria algumas bengaladas, quer me acompanhar ao mesmo lugar onde me fez tal advertência?" "Como queira", respondeu ele, e, voltando-se para as senhoras que escutavam o estranho diálogo, explicou: "Senhoras, permitam-me ausentar-me por algum tempo.

Tenho de atender à súplica deste cavalheiro,

que deseja morrer por minha espada. Logo estarei de volta para terminar minha canção".

Caminhamos até o lugar onde havíamos nos

encontrado um ano antes, desembainhamos as espadas e depois de um furioso combate o matei.

- Matou-o! - exclamou D'Artagnan. - O caso foi de grande repercussão e, claro,

depois disso não poderia mais envergar a batina. Pelo menos por um tempo razoável, até que as coisas caíssem no esquecimento. A conselho de Pormos e Athos, meus velhos amigos, ingressei no regimento dos mosqueteiros, em que permaneço até poder ser finalmente ordenado padre.

- E por tudo isso é que passa a espinafre e

ovos? Nem ao menos uma simples garrafa de bom vinho? Isso é lastimável!

- Tenho de estar preparado para uma vida de

renúncias e sacrifícios. A gula é um pecado grave. - Aramis parecia estar convicto do que dizia.

- Certo. Porém você é um soldado que precisa estar bem alimentado para lutar.

- Renuncio a isso também. Não quero mais

lutas nem desordens nem amores fáceis!

- Bem, sendo assim, devo queimar esta carta

que trago de Paris...

e que lhe é destinada...

De um salto, Aramis agarrou ambos os

braços do gascão:

- Carta? Uma carta para mim, de Paris? -

havia uma grande ansiedade no rosto do moço.

- Sim, isso mesmo! Mas, como renuncia às

coisas terrenas, é melhor queimar essa carta que me foi confiada por uma bela dama - um sorriso de troça bailava nos lábios de D'Artagnan.

- Meu Deus, amigo, não me faça sofrer com

essa brincadeira cruel! Dê-me essa carta tão ansiada.

Depois de ler ansiosamente as duas folhas

perfumadas que estavam no envelope, Aramis deu um salto, agarrou D'Artagnan pelos braços e começou a dançar pela sala como um louco.

- D'Artagnan, meu grande amigo, ela me

ama! Ela ainda me ama! Abrace-me! Agradeço pela felicidade que me trouxe!

Abrindo e relendo a carta entre lágrimas de

felicidade, o jovem mosqueteiro andava de um lado para o outro pela sala.

Quando Bazin entrou com o prato de

espinafre, ele gritou:

- Suma daqui com essa verdura insossa!

Traga um pernil de carneiro, lebre com toucinho, linguiças frescas e muito vinho!

Vamos comemorar o renascimento do amor! A fortaleza de Alhos Deixando Aramis com

seus sonhos e esperanças, e depois de prometer voltar dentro de alguns dias, D'Artagnan prosseguiu em busca de Athos, o terceiro e último companheiro a ser resgatado. Deixara-o na estalagem, onde fora acusado de ser um falsário. Cercado por quatro agentes do Cardeal, D'Artagnan fora obrigado a deixá-lo para trás, pois não podia comprometer sua missão de chegar a Londres dentro do prazo estipulado.

- Athos pode ter morrido nas mãos dos

capangas do Cardeal - disse o jovem gascão enquanto trotavam pela estrada.

- É possível - respondeu Planchet. - Mas, se

isso aconteceu, temos de vingá-lo! Ele enfrentou sozinho os guardas, para poupar nossas vidas.

Ao chegarem à hospedaria, D'Artagnan

perguntou asperamente ao desonesto dono do lugar onde se encontrava o mosqueteiro Athos.

Continuar: parte 3 de 3