Os Três Mosqueteiros
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- Quem é o senhor? - perguntou com maus bofes o homem.
- Já lhe refresco a memória, seu bandido! Há
mais ou menos quinze dias nos abrigamos aqui, mas, ao tentar pagar a conta, nosso companheiro foi acusado por você de estar pagando com moedas falsas.
Era mentira, mas logo foi atacado pêlos
guardas do Cardeal Richelieu, o que prova ter sido preparada uma armadilha para nos pegar.
- É verdade, cavalheiro. Eu havia recebido a
informação de que alguns falsários, disfarçados de guardas ou mosqueteiros, passariam por aqui. No exato momento em que fossem pagar a conta, com moedas falsas, é evidente, eu deveria gritar por socorro. Os guardas estavam escondidos na outra sala, prontos para intervir.
- E então saltaram sobre pessoas inocentes
com a intenção de matá las! Que grandes pilantras!
- Foi um lamentável engano. Infelizmente só
fiquei sabendo disso depois que não havia mais remédio.
- Quer dizer que meu amigo está morto? -
D'Artagnan agarrou o homem pela camisa.
- Nada disso! Ele está vivo e muito vivo!
Infelizmente para mim, que estou tendo um grande prejuízo.
- Como assim?
- Quando os guardas saltaram sobre ele, sua
resposta foi imediata.
Abateu dois a tiros de pistolas e os outros
dois com a espada. Depois saltou, junto com seu criado, para dentro de minha adega, onde está até agora.
- Quer dizer que o mantém preso em sua
adega até que outros guardas venham buscá-lo?
- Nada disso! Ele está lá porque teme sair e
ser agarrado. E o pior é que está acabando com meu estoque de presuntos, queijos e vinhos! Meu prejuízo é enorme... Jamais me recuperarei dessa desgraça!
D'Artagnan soltou uma alegre gargalhada.
Com passos decididos aproximou-se da porta da adega e gritou:
- Athos, meu amigo! Sou eu, D'Artagnan!
Abra essa porta! Dois ingleses que estavam sentados numa mesa no centro do salão e que tudo observavam, cansados de esperar para serem servidos, resolveram participar da discussão.
- É uma ofensa que o próprio dono não possa
dispor do que é seu!
Se quiser uma ajuda, vamos arrombar a porta
da adega e tirá-lo à força.
D'Artagnan, que já estava bastante irritado
com os acontecimentos, sacou das duas pistolas do cinto e falou com voz retumbante:
- Quem tentar qualquer violência contra meu
amigo será um homem morto!
- Experimentem entrar! - disse Athos muito
calmamente do outro lado da porta.
- Planchet! - gritou o gascão, engatilhando as
pistolas. - Encarregue se de abrir a porta enquanto dou conta destes cavalheiros!
Os dois valentões acharam melhor afastar-se
e cuidar da vida pois ali, pelo jeito, só encontrariam a morte.
- Assim é melhor, senhores. Depois de soltar
meu amigo, haveremos de beber juntos amigavelmente.
- Isso se sobrou algum vinho - choramingou
o estalajadeiro. Depois de fortes ruídos de móveis sendo afastados e rangidos de madeiras, Athos espiou para fora analisando a situação. Vendo tudo sob controle, saiu seguido de seu criado Grimaud.
- Está ferido? - perguntou D'Artagnan. - Apenas moderadamente embriagado. Sob uma gargalhada uníssona, ambos se
abraçaram, enquanto o albergueiro suava frio ao pensar no seu estoque de mantimentos, dilapidado por quinze dias de ocupação dos dois estranhos.
Grimaud vinha ensopado num líquido
gorduroso que o dono da casa imediatamente reconheceu como o azeite da melhor qualidade que só usava no preparo de pratos nobres para clientes também nobres.
- Mas... até o meu azeite?!
- O azeite é um bálsamo para as feridas.
Nada mais justo do que Grimaud tê-lo usado em seus ferimentos! - argumentou Athos, divertido com a aflição do estalajadeiro.
- Terão de pagar por todo esse estrago! -
gritou o homem, agora furioso.
- Isso é fácil - disse Athos - é só me devolver
a bolsa que me foi tomada pêlos guardas. Com seu conteúdo, poderei muito bem pagar a despesa.
- Ora, sua bolsa foi levada para a prefeitura e
todo mundo sabe que dinheiro que cai nas mãos daquela gente nunca é devolvido.
- Problema seu. Entregou meu dinheiro para
estranhos, então trate de pegá-lo de volta.
- Isso é impossível!
- Então é impossível também pagar por seu
prejuízo. E, dando o caso por encerrado. Amos convidou seus amigos para ocuparem uma mesa e saborearem algumas garrafas de bom vinho que haviam sobrado da desfalcada adega.
No dia seguinte, montados em seus cavalos,
partiram alegremente para se juntarem aos amigos Aramis e Pormos e seguirem em direção à bela e traiçoeira Paris.
A bela e misteriosa inglesa Cumprida a
última missão, os quatro aventureiros voltaram aos seus compromissos.
Certo dia, D'Artagnan passava diante de
uma igreja, nas pro ximidades de sua casa, quando avistou uma dama que descia as escadarias e entrava numa carruagem estacionada ali perto. Reconheceu de imediato a senhora que estava junto do homem com quem havia se desentendido na cidade de Meung, quando viajava para Paris no início de suas aventuras. Ficou curioso. Por que essa mulher, que parecia uma inglesa, andava pelas ruas de Paris com tanta desenvoltura? E onde estaria o agressor de D'Artagnan, com quem ela demonstrara dar-se tão bem? Parecia que o papel daquela lady era bastante importante na corte, pois já a vira em outras ocasiões, e sempre junto de conspiradores. O jovem resolveu fazer algumas investigações por conta própria.
Rapidamente dirigiu-se para casa e mandou que Planchet encilhasse dois cavalos. A galope, não foi difícil alcançar a carruagem, que viajava lentamente em direção de Saint-Germain.
Seguindo a carruagem a uma prudente
distância, D'Artagnan esperava que a inglesa o levasse até o homem de Meung com quem, finalmente, poderia acertar as contas. Algo lhe dizia que esse casal fazia parte dos mesmos conspiradores que haviam raptado a Sra.
Bonacieux e trabalhavam para desgraçar a
rainha. Eram gente de Richelieu, isso estava claro.
Passados três quartos de hora, ao cruzar com
um cavaleiro que vinha em sentido contrário, o veículo parou. O jovem iniciou uma áspera discussão com a passageira da carruagem, que foi ouvida pelo gascão, já próximo.
D'Artagnan notou que falavam em inglês e
que o homem ofendia a lady com palavras grosseiras e gritos. Com seu jeito cavalheiresco e sempre pronto a defender uma mulher em perigo, mesmo sendo inimiga, tirou o chapéu e ofereceu-se, gentilmente:
- Posso oferecer-lhe meus préstimos,
senhora? Parece que esse cavalheiro a importuna.
A dama olhou espantada para o jovem, que
não vira chegar:
- Aceitaria sua proteção se esse moço com
quem discuto não fosse meu irmão - disse ela, agora em perfeito francês.
- Perdão, senhora, mas pensei que... - Que está querendo esse paspalhão? -
perguntou em voz alta o cavaleiro, também usando um francês extremamente correio. -Por que se mete em assuntos que não lhe dizem respeito, hem? Por que está aqui?
D'Artagnan esquentou-se.
- Estou aqui porque quero!
A mulher, vendo que esse encontro poderia
acabar em duelo, ordenou ao cocheiro que tratasse de açoitar os cavalos para fugirem dali.
Enquanto isso, os dois contendores apearam
de seus cavalos e desembainharam as espadas. Logo se iniciou um duelo cheio de passos desenvoltos pela estrada, um cruzar de espadas com tinidos angustiantes.
Desde os primeiros golpes, ficou claro que o
desconhecido não era oponente para o jovem e bem treinado gascão. Depois de alguns minutos, a espada do inimigo saltou longe e D'Artagnan encostou a ponta da sua no peito do vencido.
- Poderia matá-lo, cavalheiro. Mas concedo-
lhe a vida em homenagem à sua irmã.
O inglês, que esperava valentemente a
estocada mortal, sorriu e aproximou-se do outro.
- Vejo que trato realmente com um fidalgo de
estirpe. Agradeço lhe por poupar minha vida e peço-lhe que aceite meu abraço de amigo.
Depois de se abraçarem, o desconhecido
apresentou-se como Lorde Winter e convidou o mais novo amigo para que lhe fizesse uma visita naquela mesma noite e conhecesse sua irmã.
D'Artagnan não poderia perder aquela
oportunidade de conhecer a bela e misteriosa inglesa. Mas um breve temor lhe passou pela cabeça. E se ela o tivesse visto em Meung e o reconhecesse? Isso talvez lhe acarretasse algum incómodo, pois ela saberia que servia ao rei e não ao Cardeal, como provava a carta que lhe haviam furtado.
Porém, deixando tudo por conta de sua boa
sorte, aceitou o convite.
Envergando seu melhor traje e com as botas
reluzindo, D'Artagnan apresentou-se na casa de Lorde Winter depois do jantar.
Lady Clark recebeu-o cerimoniosamente. - Este jovem fidalgo teve minha vida em suas
mãos e poupou-a.
Agradeça, minha cara irmã, por ter eu me batido com um tão generoso cavalheiro.
A mulher foi cortês, mas sem qualquer
efusão:
- Permita que o cumprimente, senhor. - Tinha
uma voz bonita e melodiosa, mas sem calor.
Aquela noite passou sem que houvesse
qualquer progresso nas investigações de D'Artagnan, que recebia respostas vagas ou evasivas a qualquer pergunta que fizesse em relação às atividades de Lady Clark na França.
Ao contrário dos demais ingleses, que
começavam a abandonar a França em virtude da iminência de uma guerra com o seu país, Lady Clark não pensava em sair de sua suntuosa mansão em Paris. Havia algo que garantia sua permanência sem que fosse incomodada. Parecia imune às leis que se aplicavam aos outros. Apesar das poucas informações que obteve naquela noite, D'Artagnan não desanimou e, pouco antes de partir, pediu permissão para nova visita no dia seguinte.
A segunda visita parecia caminhar para
outro final, sem qualquer avanço, quando a bela lady perguntou se o jovem gascão não gostaria de servir ao Cardeal Richelieu.
D'Artagnan, apesar da pouca idade, era muito prudente e sabia dissimular quando fosse necessário. Elogiou o Cardeal e disse que o admirava muito, mas já havia ingressado na guarda do rei por intervenção do Sr. de Tréville, velho amigo da família.
Lady Clark lastimou que ele não estivesse
livre para ser um fiel servidor do Cardeal e, usando de muito tato, deu a visita por encerrada. Foi um tanto contrariado que o jovem partiu, uma vez mais de mãos vazias.
Já nos portões de saída, foi chamado com um
psiu insistente, vindo do meio da frondosa ramagem que cobria o muro. Entre curioso e desconfiado, D'Artagnan puxou o cavalo pelas rédeas e aproximou-se. A jovem criada que o recebera nas duas visitas o esperava, meio escondida pela folhagem.
- Peço-lhe que me ouça - disse ela
sussurrando. - O senhor está enganado quanto a Lady Clark.
- Por que diz isso?
- Ela é muito falsa e perigosa. Em primeiro
lugar, Lorde Winter não é seu irmão e sim seu cunhado; em segundo, ela não tem o mínimo interesse no senhor a não ser que lhe faça alguns serviços difíceis. Ela serve ao Cardeal Richelieu e conspira contra o rei. Já Lorde Winter é uma pessoa honesta. Por isso ela ficou furiosa quando o senhor lhe poupou a vida. Ela é apaixonada pelo conde de Vardes...
- Não é um homem elegante, moreno, com
uma pequena cicatriz na face?
D'Artagnan descreveu seu primeiro inimigo:
o homem de Meung. A intuição foi tão forte que previu a resposta da moça:
- É ele mesmo! O senhor já o conhece? - Já o vi uma vez e juro que não gostei nada
do encontro. Depois disso D'Artagnan agradeceu à jovem e partiu, agora certo de que a bela inglesa era uma temível inimiga. Ficou-lhe também a certeza de que, por intermédio dela, chegaria finalmente ao desconhecido que lhe proporcionara uma inesquecível surra.
Ao chegar à casa de Athos, encontrou lá
também Porthos e Aramis.
Contou minuciosamente sua aventura. - Bem que o Sr. de Tréville estava
preocupado com suas visitas a esses ingleses suspeitos. Logo estaremos em guerra e todo o cuidado é pouco com esse tipo de gente - comentou Porthos.
- Eles são aliados do Cardeal. Pelo menos a tal lady, que não passa de uma víbora. - D'Artagnan estava furioso, pois chegara a alimentar algumas ilusões com a bela inglesa.
- Então devemos fazer de tudo para frustrar
seus planos malignos - sentenciou Porthos, o mais experiente.
O segredo de Lady Clark Lady Clark
guardava alguns segredos que precisavam ser des vendados, não só para tranquilidade dos quatro amigos, como também pelo bem da França. Por isso D'Artagnan resolveu que deveria voltar à mansão dos ingleses e, mesmo arriscando a vida, descobrir tudo sobre esses maléficos estrangeiros.
Com um delicado bilhete levado por seu
criado Planchet, o gascão pedia licença para visitar a lady no dia seguinte.
Quando chegou, foi recebido pela mesma
criada que tão boas informações já lhe havia dado.
- Cuidado, senhor. Lady Clark está num de
seus piores dias.
Aconteceu alguma coisa que a irritou muito -
segredou-lhe ainda na porta de entrada.
Realmente, a bela mulher estava muito
pálida e com sinais de grande perturbação.
- Se a importuno retiro-me, senhora - disse
galantemente D'Artagnan.
- Nada disso, meu caro amigo. Sua presença
talvez contribua para melhorar meu estado de ânimo. Realmente não estou passando muito bem. As preocupações, meu caro, não me dão um momento de paz - falava com sua voz melodiosa, quase sussurrando.
- O que pode perturbar tão bela criatura? O
que pode ser tão terrível que abale sua magnífica serenidade? - o esperto gascão sabia usar as palavras quando se fazia necessário.
Imaginando o jovem fidalgo inexperiente e
acreditando que poderia ser um escravo de suas ordens, a mulher tratou de fingir um grande carinho por D'Artagnan.
- Preciso de um braço forte para proteger-me
contra aqueles que atentam contra minha vida e minha honra! - exclamou impetuosamente.
- E quem poderia ameaçar sua vida, senhora? - São muitos meus inimigos e poucos meus
protetores... -disse vagamente, como se não desejasse mencionar nomes.
- Diga um só nome e saberei castigá-lo! -
D'Artagnan dava grande ênfase às suas palavras.
- O conde de Vardes me iludiu... - ela
suspirou fundo. - Por isso merece ser castigado.
- Parece-me que seu amor não foi correspondido. Será isso motivo suficiente para tirar a vida de um bom fidalgo? - Agora o jovem falava ironicamente, certo de que a mulher se trairia.
- Como sabe disso? Anda me espionando? -
uma suspeita súbita passou pela mente da inglesa.
- É claro. Sei também que milady serve o
Cardeal Richelieu e que, juntamente com outros traidores de menor porte, conspira contra a França.
- Parece-me que o senhor está do lado dos
que se alinham contra o Cardeal! - Agora não havia mais nada de amigável nem na voz nem nos gestos da mulher. - Se está contra o Cardeal, está contra mim e eu não costumo deixar meus inimigos vivos.
Num movimento rápido, pegou um punhal
que estava sobre a mesa e investiu contra D'Artagnan, que conseguiu evitar o golpe no último momento.
- Sua víbora! Por pouco não me mata! -
exclamou cheio de raiva.
Na segunda investida, o jovem conseguiu
segurar a furiosa mulher pêlos braços e empurrá-la contra a parede. Nesse movimento violento, arrancou parte do vestido, descobrindo-lhe o ombro esquerdo.
Uma dupla exclamação explodiu na sala: a de D'Artagnan, de enorme surpresa; a da inglesa, de ódio incontido.
Uma flor-de-lis gravada com um ferro em
brasa ficou descoberta um pouco acima do seio esquerdo da mulher. Era a marca infamante que a justiça colocava nos traidores ou culpados de grandes crimes.
- Desgraçado! Descobriu meu segredo... Mas
não irá contá-lo para ninguém, pois vou matá-lo! Não sairá vivo daqui!
Novamente investiu contra o jovem, que não
teve outra saída senão defender-se com a espada. Olhando as feições alteradas da mulher, seus olhos faiscantes de ódio e seu rosto lívido, D'Artagnan teve a nítida impressão de que lutava contra uma víbora.
Defendendo-se como podia, ainda incerto em
ferir uma mulher, mesmo em se tratando de uma fera como aquela, D'Artagnan foi recuando em direção à janela. O barulho da batalha certamente seria ouvido pêlos criados, que haveriam de vir em socorro de sua senhora. E isso era a última coisa que o jovem queria, pois sabia que os criados passavam de uma dúzia.
A mulher adivinhou as intenções do inimigo
e começou a gritar por socorro com berros estridentes.
Imediatamente D'Artagnan acercou-se da
janela, com um pulo saltou para o pátio e dali correu até o portão de saída onde estava amarrado seu cavalo. Foi no último instante que conseguiu ultrapassar os portões. Já uma porção de criados armados de mosquetes e espadas corriam em seu encalço, com o firme propósito de acabar com sua vida.
Depois de um galope desenfreado chegou à
casa de Athos, que era a mais próxima. Saltou do cavalo e entrou correndo como se fosse ainda perseguido por uma horda de bandidos.
- O que aconteceu, meu amigo? - perguntou
Athos, sobressaltado com a palidez do recém-chegado. - O rei morreu? Acaso acaba de matar o Cardeal?
- Deixe-me tomar fôlego... meu caro... que
logo contarei... minha louca aventura.
Depois de ter bebido um copo de vinho e
com a respiração controlada, iniciou o relato de seu encontro com a misteriosa lady.
- Prepare-se para ouvir uma história de
arrepiar.
- Vá, conte logo ou estouro de curiosidade! - A tal lady com quem venho me encontrando há algum tempo não passa de uma reles bandida. Uma traidora que tem no ombro a marca infame da flor-de-lis feita com um ferro em brasa. Depois que a acusei de conspirar contra a França, ficou possessa e atacou-me a golpes de punhal com um ódio assassino. Queria minha vida. Tenho certeza de que essa mulher é um dos elos da grande rede de espionagem que funciona em nosso território e tudo faz para desgraçar o rei e a França. Precisamos detê-la a qualquer custo.
- É a mesma rede comandada pelo Cardeal -
afirmou Athos. - E da qual faz parte também o medíocre do Sr. Bonacieux. Por falar nisso, esse seu senhorio já veio à sua procura hoje, aqui em minha casa, por três vezes. Acho melhor tomar cuidado, meu amigo.
- Talvez ele tenha ficado pelas imediações. O
melhor que fazemos é dar o fora antes que os homens do Cardeal nos cerquem. Aqui temos poucas condições de oferecer uma boa resistência.
- Nada disso! Vamos pedir que os outros
mosqueteiros venham para cá. Juntos seremos uma presa muito indigesta para os guardas do Cardeal!
Naquela tarde, reuniram-se todos na casa de
Athos, onde preparavam os armamentos, pois o Sr. de Tréville os avisara de que o rei iniciaria uma campanha contra os ingleses em La Rochelle. Nisso, entrou Planchet trazendo uma carta, que entregou a D'Artagnan. No envelope, as armas do Cardeal Richelieu.
Curioso, o jovem tratou de abrir e ler o breve
bilhete. Era um convite para que ele comparecesse na mesma noite no palácio do prelado.
- Isso não é um convite e sim uma ordem! -
exclamou D'Artagnan mal-humorado.
- Um convite do Cardeal ninguém se atreve a
recusar... -observou Porthos. - Mas se nosso amigo for se meter na toca do leão, haveremos de estar juntos para defendê-lo caso seja atacado.
- Um por todos e todos por um! - exclamou
Aramis, erguendo-se.
- Melhor que isso! - gritou Athos. - Vamos
convidar alguns mosqueteiros para que nos façam companhia. Se for necessário, tomaremos de assalto a fortaleza do Cardeal.
Depois de acertarem os detalhes da visita,
D'Artagnan preparou-se para apresentar-se diante do temível Cardeal.
Na hora estabelecida, apresentou a carta ao
mordomo e foi introduzido numa suntuosa sala onde um homem escrevia, sentado junto de uma pesada mesa cheia de papéis. Era o Cardeal Richelieu.
A frente de batalha de La Rochelle -
Eminência, fui convidado para uma audiência...
- É o senhor D'Artagnan, fidalgo da
Gasconha? - a voz do religioso era fria e seus olhos pareciam perfurar o corpo do jovem.
- Sim, Eminência.
- Foi admitido na Guarda Real por indicação
do Sr. de Tréville, pelo que fui informado.
- Isso mesmo, Eminência.
- Sua vontade era pertencer aos Mosqueteiros
do Rei, mas a carta de apresentação lhe foi furtada num episódio pouco edificante em Meung.
- Vossa Eminência tudo sabe. - Sei também que depois de chegar a Paris
não parou de criar confusões. Sua viagem com os mosqueteiros Athos, Porthos e Aramis para uma estação de águas foi bastante tumultuada. Pelas informações que me chegaram, o senhor esticou sua jornada até Londres... Tinha algum negócio na Inglaterra? - a pergunta era direta - e não permitia meias respostas.
- Eminência, reservo-me o direito... - Depois disso, foi convidado a participar da
minha guarda e recusou. Tenho tratado o senhor com uma consideração acima de suas virtudes, embora não ignore ser um bom e vim exímio espadachim.
D'Artagnan fez uma mesura e continuou
calado, pois nada tinha a dizer diante da fluência do Cardeal.
- Sente-se, senhor D'Artagnan! Somente os
empregados inferiores permanecem de pé diante de um nobre. Seu nome permite que seja tratado como um fidalgo. Ainda não respondeu à minha pergunta: quer passar a servir sob minhas ordens? Terá o posto de alferes e logo poderá ser promovido a tenente.
- Meu senhor, entre os mosqueteiros
conquistei todos os meus amigos e, entre os guardas de Vossa Eminência, todos os meus inimigos. Seria uma troca infeliz, embora me sinta honrado em merecer tal oferecimento.
- O senhor se recusa a servir-me? - Eminência, em breve terei a honra de servir
sob suas ordens no cerco de La Rochelle. Procurarei praticar algum ato que me faça merecer sua proteção.
Acredito que tudo deve ser feito no momento
oportuno. Agora, poderia parecer que me vendo.
- Está bem! - Com um gesto brusco, o Cardeal levantou-se e rodeou a mesa.
- Continue com seus amigos e aumente o
número de inimigos. No futuro, se alguma coisa, lhe acontecer, lembre-se de que a proteção do Cardeal é a única verdadeiramente eficaz.
Preocupado com as últimas palavras do
Cardeal, o jovem tratou de voltar ao abrigo da casa de Athos e à proteção de seus amigos.
No dia seguinte, as tropas da Guarda Real e
dos Mosqueteiros foram passadas em revista pelo rei e pelo Cardeal e, em seguida, despachadas para La Rochelle, onde a guerra já seguia seu curso. Os ingleses, comandados pelo Duque de Buckingham, haviam tomado a ilha de Ré e preparavam-se para avançar.
O cerco de La Rochelle foi um dos graves
acontecimentos políticos no reinado de Luís XIII e uma das grandes empresas militares do Cardeal. D'Artagnan faria sua estreia numa guerra que parecia ter sido declarada por motivos fúteis, tanto do lado francês como do lado inglês.
Pelo menos o que corria entre a soldadesca e
seus comandantes era que Richelieu lutava contra a Inglaterra por uma disputa pessoal com o Duque de Buckingham e este aceitava o conflito por idênticos motivos.
Enfim, as duas nações mais poderosas da
Europa lutavam por vontade de dois nobres cheios de ódios. Absurdos que só o poder absoluto poderia explicar.
No dia 10 de setembro de 1627, D'Artagnan
chegou ao acampamento de La Rochelle. Os ingleses ainda ocupavam a ilha de Ré e o confronto diante dos muros da cidade havia começado alguns dias antes.
Os tiroteios eram frequentes, mas nenhuma
das partes parecia com muito ânimo para avançar.
D'Artagnan defendia os muros juntamente
com as tropas recém chegadas. No segundo dia, recebeu uma bala de origem muito estranha, pois veio das fileiras que se encontravam na segunda linha, atrás dele.
Isso fez com que atentasse para o que lhe
havia dito o Cardeal sobre os perigos de quem não lhe era subordinado.
Depois de uma discreta investigação,
D'Artagnan descobriu um agente do Cardeal com a missão de eliminá-lo. Era um tal Brissemont que, ao ser descoberto, confessou trazer uma ordem justamente de Lady Clark para assassiná-lo. A poderosa lady continuava ativa e mostrava que pretendia eliminar seus inimigos.
Depois de afirmar ao seu frustrado matador
que não o castigaria nem o denunciaria, D'Artagnan obteve a promessa de não ser alvo de novas tentativas e ainda aceitou a amizade que o outro oferecia.
As coisas pareciam acertadas quando um
jovem criado apareceu com uma cesta cheia de garrafas de vinho. Informou terem La Rochelle, um importante porto francês diante do qual se localiza a ilha de Ré, era, então, um poderoso reduto do protestantismo. Com o objetivo de acabar com o poderio político dos huguenotes, ou seja, dos protestantes franceses, o Cardeal Richelieu promoveu em 1627 o cerco à cidade, que resistia fortemente porque contava com o apoio da Inglaterra.
sido enviadas por um fornecedor dos
mosqueteiros e por encomenda de seus amigos Athos, Pormos e Aramis.
D'Artagnan resolveu fazer um jantar regado
com as doze garrafas de vinho. Convidou dois companheiros de trincheira e acertou para que Brissemont, seu novo amigo, provesse a mesa com boas carnes e pães novos.
Momentos antes do jantar, os canhões
começaram a troar com passadamente. Gritos de "Viva o rei" e "Viva o Cardeal" anunciavam a chegada dos dois à frente de batalha.
D'Artagnan e seus convidados saíram da
barraca de campanha a fim de saudar o cortejo real. Na guarda vinham os três inseparáveis amigos Athos, Pormos e Aramis.
Logo que saltaram de seus cavalos, Pormos
perguntou:
- Algum vinho que mereça ser bebido por
um trio de sedentos?
- Claro! Temos as doze garrafas que vocês me
mandaram! - respondeu D' Artagnan jovialmente. Pormos ficou espantado.
- Ninguém mandou nada, pelo que sei. Uma súbita suspeita tomou conta do gascão.
Em rápidas passadas entrou na tenda e a primeira coisa que viu foi Brissemont caído junto à mesa posta. Estava morto. A seu lado, uma garrafa tombada, donde um filete de vinho escorria para o chão.
- O vinho estava envenenado! Um presente
mortal que, feliz mente, não provamos. - exclamou D'Artagnan, abalado com o destino do pobre Brissemont.
Mais uma vez o longo braço vingativo do
Cardeal tentava alcançar o destemido D'Artagnan.
O Conde de La Fere Depois de
providenciado o sepultamento de Brissemont, os quatro parceiros reuniram-se em torno de uma mesa para deliberar sobre as providências que deveriam tomar, a fim de evitar novo golpe do terrível Cardeal.
- O melhor que podemos fazer, no momento,
é estar sempre juntos, um cuidando das costas dos outros. Não temos outra solução, até que esta guerra termine e possamos voltar para Paris. Lá, pelo menos, será mais fácil nos protegermos - sentenciou o prudente Pormos.
- Ainda mais que nosso amigo D'Artagnan já
recebeu um tiro pelas costas de alguém que, felizmente, errou o alvo. Da próxima vez, os bandidos poderão ter mais sorte... - disse Aramis, o mais calado dos quatro.
- Mais sorte ou melhor pontaria - completou
Amos, até então afastado da discussão.
Depois do jantar, os mosqueteiros se
despediram, pois deveriam dormir em suas próprias tendas de campanha.
As notícias da guerra diziam que, no dia
seguinte, haveriam de atacar a ilha de Ré, onde os ingleses ainda mantinham um forte esquema de defesa. Caindo a ilha, ficaria mais fácil desalojar o inimigo de La Rochelle e vencer a guerra. Os preparativos para a expulsão dos ingleses estavam se intensificando e as medidas de segurança eram cada vez mais severas.
Certa noite, quando Athos, Porthos e Aramis
faziam a ronda, encontraram três cavaleiros que vinham em sentido contrário pela estrada do acampamento.
- Quem vem lá? - perguntou Porthos, com
seu vozeirão retumbante.
- Soldados do Cardeal! - gritou uma voz em
resposta.
- Identifiquem-se! - ordenou Porthos. Os cavaleiros se aproximaram e o que estava
na frente afastou a capa que lhe cobria o rosto. Imediatamente foi reconhecido:
era o Cardeal Richelieu.
O Cardeal fez um gesto para que um dos
guardas se aproximasse e disse-lhe em voz baixa:
- Eles nos acompanharão. Não quero que
comentem com ninguém que saí do acampamento e, assim, não terão essa oportunidade.
- Vossa Eminência nada tem a temer - disse
Athos, ao ouvir as palavras do Cardeal, revelando a presença de espírito e o sangue-frio que jamais o abandonavam. - Somos mosqueteiros. Estamos aqui a serviço de Vossa Eminência e, como sabe, somos homens de segredo.
- Sei que não me apreciam muito, mas sei
também que posso confiar em vocês. - E, dispensando os guardas com um gesto, acrescentou: - Quero que me sirvam de guarda pessoal. Acompanhem-me!
Sem outra saída, os três acompanharam
silenciosamente o Cardeal, que conduziu seu cavalo pela estrada até bem longe do acampamento. Depois de mais de meia hora de cavalgada, chegaram a uma estalagem, onde apearam e entraram.
- Os senhores esperam nesta sala - ordenou o
Cardeal. - Não demoro mais de meia hora. - Depois disso, subiu por uma escada até o andar superior e entrou num dos quartos.
Os três acomodaram-se em torno de uma
mesa e ficaram esperando, sem nada para fazer a não ser olhar um para a cara do outro.
Afinal, Athos começou a andar de um lado
para o outro. Reparou que, ao passar pela lareira, ouvia vozes abafadas, certamente vindas do quarto superior, já que a chaminé ligava as duas peças. Parou para escutar e identificou uma das vozes como sendo a do Cardeal e a outra, que ele tinha a impressão de já ter ouvido, era de uma mulher.
- Devo dizer ao Duque de Buckingham que
Vossa Eminência tem provas de suas visitas à França e, especialmente, aos aposentos da rainha. Devo também falar do colar de diamantes que aquele desgraçado D'Artagnan conseguiu trazer de volta ainda a tempo de a rainha usá-lo durante o baile... E por último dir-lhe-ei que esta guerra pode custar a honra da rainha. Mas, e se, apesar disso tudo, ele persistir?
- Nesse caso, milady, deverá acertar a
eliminação desse problema - o Cardeal falava como se estivesse tratando de um simples caso de rotina. - Não ignora que a Inglaterra está cheia de fanáticos que costumam assassinar seus líderes. - Encontrarei esse fanático. Mas Vossa Eminência sabe perfeitamente que também tenho inimigos e gostaria de eliminá-los. Seria justo que assinasse uma ordem, conferindo-me liberdade de ação nesses casos...
Depois de um silêncio de alguns minutos,
novamente a voz da mulher se fez ouvir pela chaminé.
- Obrigada, Eminência. Uma vida pela outra.
Amos, que ouvia tudo em silêncio, tomou uma resolução súbita.
- Amigos, vou sair. Quando o Cardeal descer,
digam-lhe que fui para a estrada e que seguirei à frente, como batedor.
E, sem maiores explicações, montou e partiu
a galope até a primeira curva do caminho. Ali, saiu da estrada e meteu o cavalo pelo mato até ter certeza de estar bem escondido. Só saiu dali quando viu passar o Cardeal e os dois mosqueteiros galopando em direção ao acampamento. Voltou, então, para a estalagem. Com passos decididos, subiu a escada e bateu à porta onde antes estivera o Cardeal com a estranha mulher. Quando a porta foi aberta, entrou sem hesitar e fechou-a atrás de si.
- Quem é e o que deseja? - perguntou a
mulher asperamente.
- Não me reconhece, senhora? - disse Athos
com a voz entre raivosa e sarcástica.
- O Conde de La Fere! - gritou a mulher
levando as mãos ao peito.
- Sim, senhora. O Conde de La Fere. Pensou
que eu estivesse morto? Também pensei que havia morrido. Ambos nos enganamos.
Agora sou apenas Athos e a senhora é Lady
Clark. Também abandonou seu antigo nome de Anne de Bueil?
- Diga-me o que deseja ou retire-se! Não me
importa qual seja seu nome atual nem que me chame pelo meu nome de antes. -A mulher agora estava furiosa. Seus olhos chispavam como duas brasas.
- Conheço seus planos e sei de tudo que vem
fazendo. Continua a mesma víbora venenosa, sempre pronta a desgraçar alguém. Mas isso não me importa. Quero a ordem assinada pelo Cardeal! -enquanto falava, Amos tirou a pistola da cintura e armou o gatilho.
- Não tenho ordem nenhuma! E se a tivesse
jamais a entregaria!
- Estouro-lhe os miolos se não me entregar o
papel! Conto até três e atiro em seguida.
Vendo que Amos não blefava, a mulher tirou
um papel do decote de seu vestido e entregou-o com as mãos trémulas.
- Aqui está! E que seja amaldiçoado. Athos desdobrou o papel e leu o conteúdo.
Era uma ordem simples. Dava ao portador amplos poderes para fazer o que quisesse, sem prestar contas a não ser ao signatário. A assinatura era do Cardeal Richelieu.
O rosto do mosqueteiro estava inundado de
suor. Encarou a mulher que estava à sua frente e, como num relâmpago, relembrou seu longínquo passado.
Anne de Bueil fora uma mulher de
extraordinária beleza e inteligência muito superior à maioria das pessoas. Amos, então Conde de La Fere, havia se apaixonado perdidamente por ela. Sem imaginar o quanto havia de maldade naquele coração, o fidalgo casou-se com Anne de Bueil, a quem concedeu o título de condessa. Foram curtos os meses de felicidade. Logo a bela esposa se revelou. Primeiro tomou como amante um conhecido aventureiro a quem prometeu metade de sua fortuna se assassinasse seu esposo. Um atentado deixou o conde como morto à margem da estrada que levava a seu castelo. Anne de Bueil, porém, não cumpriu o trato com seu cúmplice e contratou um terceiro para matá-lo. Este, por sua vez, depois de cumprir a missão, foi morto pela própria mandante. Descoberta, foi condenada à morte e levada para a forca. No intervalo entre a condenação e a execução, conseguiu iludir o carcereiro com promessas de amor e fortuna e foi por ele posta em liberdade. Depois disso, havia sumido, ficando longo tempo escondida na Inglaterra, onde praticou outros delitos, a ponto de ter de voltar às escondidas para a França. Em Paris, colocou-se a serviço do Cardeal Richelieu, praticando novos crimes contra o reino e a rainha. Agora, descoberta, resolvera voltar novamente para a Inglaterra e cumprir a terrível tarefa de assassinar o Duque de Buckingham.
Athos, se soubesse que a terrível mulher
praticaria esse crime, mesmo sem as ordens escritas do Cardeal, talvez a tivesse matado naquele momento em que a tivera em seu poder.
Em Londres, Lady Clark, conforme se
apresentava, conseguiu aliciar um fanático de nome Felton que servia na marinha real e, novamente com promessas de fortuna e amor, induziu-o a matar o ministro de Buckingham. Fazendo-se passar por um mensageiro, o homem aproximou-se do duque e cravou-lhe um punhal no peito.
Durou menos de uma hora a agonia do
Duque de Buckingham.
Mais uma vez se consumavam as terríveis
tramas urdidas pelo sinistro Cardeal.
A falsa amiga Nesse meio tempo, entediado
por permanecer tanto tempo em La Rochelle, o rei decidiu retornar a Paris com uma pequena escolta, da qual fizeram parte os três mosqueteiros e D'Artagnan.
Os quatro amigos obtiveram licença de alguns dias, o que muito agradou ao jovem gascão, pois ele queria rever a senhora Bonacieux.
Lady Clark, assim que tomou conhecimento
da morte do ministro inglês, tratou de fugir como clandestina num barco que ia para Calais.
Seu cúmplice Felton deu-se conta da traição
apenas quando soube que a bela mulher que o enfeitiçara havia fugido, abandonando-o à própria sorte.
Já no território francês, ela comunicou ao
Cardeal o êxito de sua missão e pediu-lhe ajuda para localizar a bela Sra. Bonacieux, a quem desejava eliminar. Afinal, não havia esquecido que era ela quem levava as mensagens para fora do palácio, sempre frustrando seus planos de desgraçar Ana d'Áustria.
Satisfeito com a atuação de sua aliada, o
Cardeal mandou informá la de que sua inimiga estava escondida num Convento das Carmelitas, em Armentieres. Ali se encontrava por indicação da rainha, que sabia dos perigos sob os quais ela vivia. Aos espiões do Cardeal não fora difícil localizar o esconderijo.
Lady Clark rumou para o convento, onde se
apresentou com uma ordem do Cardeal para ser hospedada por algum tempo. A superiora não tinha por que suspeitar da bela mulher, pois era bastante comum dar abrigo para enviados do Cardeal e do palácio real.
Assim que se instalou no convento, Lady
Clark procurou fazer amizade não só com a madre superiora como também com uma outra mulher que lá estava hospedada. Com o ar mais inocente do mundo, aquele que costumava aparentar quando queria obter informações valiosas, conseguiu aproximar-se de Constance Bonacieux e iniciar uma amizade, baseada no fato de ambas estarem escondidas para proteger as próprias vidas.
Ingenuamente, Constance contou que
esperava a vinda de D'Artagnan para muito breve. Isso fez com que a perigosa lady resolvesse agir o mais rapidamente possível.
- Pensei que esses nobres cavalheiros
estivessem em La Rochelle - disse, enquanto imaginava um jeito de acertar as contas também com o atrevido gascão.
- Também acreditava nisso, mas parece que,
em La Rochelle, a paz está muito próxima. Recebi um comunicado dizendo que ele, juntamente com seus amigos, estão prestes a chegar.
A jovem falava com evidentes sinais de
alegria. Embora ainda estivesse presa pelo casamento ao Sr. Bonacieux, seu coração palpitava pelo intrépido e jovem guarda real.
Naquela noite, após o jantar, as duas estavam
na sacada do convento conversando amigavelmente quando um ruidoso tropel de vários cavalos soou ao longe.
- É D'Artagnan! - exclamou Constance,
olhando ansiosamente para a estrada.
Realmente, o jovem galopava diante de
vários outros cavaleiros que ainda não podiam ser identificados devido à distância e à escuridão. Lady Clark assustou-se com a possibilidade de confrontar-se com vários inimigos ao mesmo tempo. Isso lhe seria fatal. Resolveu agir imediatamente. Sua inimiga mais próxima seria eliminada antes que pudesse ser socorrida pêlos que chegavam.
Fingindo também grande alegria, Lady Clark
abraçou-se à nova amiga e sugeriu:
- Vamos preparar uma mesa com bom vinho
para brindá-los! E, sem esperar resposta, correu para o interior, voltando logo depois com duas garrafas de vinho e algumas taças. Serviu duas delas e, sem que fosse notada, despejou um pó branco numa das taças, que entregou a Constance.
- Beba um pouco. Parece que a emoção
deixou-a um tanto pálida!
Quase automaticamente a outra levou a taça
aos lábios e sorveu todo o conteúdo. Sem saber, havia bebido uma quantidade letal de veneno.
Sem esperar pelo efeito do veneno, Lady
Clark se afastou e correu para um portão lateral dos muros do convento. Rapidamente alcançou a saída e correu pela estrada, sumindo na escuridão da noite.
D'Artagnan e seus amigos apearam no pátio
interno do convento, onde uma freira os recebeu. Depois de se identificarem, foram introduzidos no salão, justamente onde estava Constance.
Quando D'Artagnan entrou, viu que a moça
estava estendida num grande sofá com as mãos na garganta, como se sufocasse. O jovem correu e amparou-a nos braços enquanto perguntava, angustiado:
- O que aconteceu? O que está sentindo? - O vinho!... O vinho!... Aquela mulher... me
envenenou -disse a infeliz, tentando desesperadamente respirar.
- Procurem a mulher! - gritou o jovem.
Constance estremeceu e ficou imóvel. Estava morta. Os homens correram em várias direções. Passados alguns momentos, voltaram segurando a assassina, que esperneava e gritava contra os que a prendiam.
Quando D'Artagnan a viu, tudo ficou claro.
Era a terrível mulher que parecia ser mais forte e esperta que todos os seus inimigos.
Athos, de olhos arregalados, estremeceu e
oscilou como se tivesse recebido um golpe na cabeça.
- Outra vez essa fera! - exclamou. - Será que
jamais nos livraremos desse ser infernal?
- Desta vez ela está perdida! Nada a salvará.
Já causou tantos males que só sua morte poderá impedi-la de praticar outros crimes - a voz de D'Artagnan não admitia contestações.
Todos entenderam que se a assassina não
fosse entregue imediatamente à justiça, o jovem gascão seria seu carrasco.
Naquela noite, Lady Clark ficou presa numa
cela do convento, guardada por três atentos carcereiros. No dia seguinte, foi levada sob escolta para Paris. Lady Clark, Arme de Bueil ou sabe-se lá que outros nomes pudesse ter usado, foi enforcada na prisão.
Novamente a caminho de La Rochelle, os
quatro amigos parti cipavam da escolta do rei, que voltava ao cenário da guerra. Certa manhã, enquanto aguardavam o rei sair de seu alojamento para prosseguirem viagem, D'Artagnan viu um cavaleiro que se aproximava a galope. Um grito de júbilo e raiva explodiu da garganta do gascão:
- O homem de Meung! Finalmente o
encontro! Arremessando o cavalo e interrompendo o caminho do outro, berrou:
- Alto lá, cavalheiro, que temos uma conta a
acertar! Desta vez não me escapará!
O outro puxou as rédeas de seu cavalo e
esperou.
- Não pretendo fugir - disse calmamente. -
Aliás, por ordem de Sua Majestade, o rei, dou-lhe voz de prisão.
- Prisão? Mas quem é o senhor? - Cavalheiro de Rochefort, escudeiro de Sua
Eminência, o Cardeal RicheJieu.
Pego de surpresa, D'Artagnan não esboçou
qualquer reação.
Entregou sua espada e preparou-se para
acompanhar o mensageiro do Cardeal.
- Nós os acompanhamos - disse Athos, com
firmeza. - Afinal, vamos todos para o acampamento.
Rochefort, vendo-se ali em minoria, e
percebendo que o jovem gascão não oferecia resistência, acatou a decisão dos três mosqueteiros.
Na manhã seguinte, D'Artagnan foi conduzido à presença do Cardeal Richelieu.
- Foi preso por minha ordem. Sabe por quê? - Se Vossa Eminência me informar... - Sei que tem tomado a justiça em suas mãos.
Com que autoridade mandou prender minha auxiliar, Lady Clark?
- Não só ordenei que fosse presa como
forneci todas as provas para sua condenação e posterior morte na forca.
Um grande ar de surpresa estampou-se no
rosto do Cardeal.
- Quer dizer que Lady Clark está morta? E
por seu empenho? - era evidente que o ministro ainda não sabia da morte de sua aliada.
- Isso mesmo. Uma mulher infamada pela
justiça de nosso país, autora de crimes que Vossa Eminência certamente desconhecia quando a honrou com sua confiança! E fiz tudo isso porque Vossa Eminência me outorgou poderes para tanto - um sorriso maroto iluminou o rosto do jovem.
- Por minha ordem? Está louco? - sinais de
ira incontrolável apareciam agora no rosto congestionado do Cardeal.
- Isso mesmo - e, metendo a mão no bolso,
D'Artagnan retirou a ordem que Athos tomara de Lady Clark, na estalagem de La Rochele, e lhe havia confiado.
Imediatamente o Cardeal reconheceu o papel
com suas armas e sua assinatura.
Pegou o papel e ficou imóvel, absorto em
seus pensamentos.
Ainda pensativo, rasgou-o lentamente, em
muitos pedaços. "Pronto!
Desta eu não saio" - pensou D'Artagnan. Um
sorriso iluminou o rosto do Cardeal, quase sempre tão sisudo.
- O senhor, meu jovem, é muito arrojado e
inteligente para ser desperdiçado em qualquer serviço. De hoje em diante, estará servindo nos Mosqueteiros do Rei, no posto de tenente. E não tente negar-se mais uma vez ou juro-lhe que será atirado numa prisão donde nunca mais sairá.
D'Artagnan mal podia acreditar que agora
era um mosqueteiro!
Seu sonho finalmente se tornara realidade. Depois de um longo cerco, La Rochelle
capitulou. Os ingleses se retiraram e a paz foi firmada.
Aramis finalmente entrou para um mosteiro,
onde haveria de seguir a carreira religiosa.
Athos continuou ainda algum tempo como
mosqueteiro, mas depois retirou-se para uma propriedade rural que havia herdado de seus pais. Lá ficou alternando sua vida com leituras, exercícios com a espada e cavalgadas matinais.
Pormos casou-se com uma duquesa muito
rica que lhe proporcionava uma vida farta.
Todos levaram seus empregados, que
continuaram a servi-los.
D'Artagnan duelou três vezes contra o
Cavalheiro de Rochefort, o homem de Meung, sem que qualquer um dos dois conseguisse vencer o outro. Finalmente resolveram selar uma paz que, em seguida, se transformou em sólida amizade.
Cada um seguiu em seu posto: D'Artagnan
como oficial dos mosqueteiros do rei e Rochefort como fiel escudeiro do Cardeal.
Os outros personagens foram engolidos pela
História.
Apesar de os mosqueteiros terem se
dispersado, cada um pro- curando realizar seus sonhos e alcançar seu próprio destino, a lenda ficou para sempre.
E o grito de guerra, que era também a
promessa de eterna amizade, ficou gravado nos corações de todos que amam a aventura e admiram os aventureiros:
"Um por todos e todos por um".
**fim**
Você terminou Os Três Mosqueteiros
Alexandre Dumas