Papéis Avulsos
A Chinela Turca[1]
—Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio do mysterios, inventado por algum grego da decadencia, contrahido por Luciano, transmittido a Swift e Voltaire, feição propria dos scepticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mette pela cara dos outros, estala com uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensorios. Usa a chalaça. Que é isto?
—Meia noite.
—Meia noite? Entras nos teus vinte e dois annos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa d'esta noite vale o Principe de Machiavelli. Vamos dormir.
FIM DA THEORIA DO MEDALHÃO
A CHINELA TURCA[1]
Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correcto laço de gravata que appareceu naquelle anno de 1850, e annunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu e tinha duas razões para isso. A primeira era ser o major, em qualquer occasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda é que elle preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabellos louros e os mais pensativos olhos azues, que este nosso clima, tão avaro delles, produzira. Datava de uma semana aquelle namoro. Seu coração, deixando-se prender entre duas valsas, confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declaração em regra, que elles pontualmente transmittiram á moça, dez minutos antes da ceia, recebendo favoravel resposta logo depois do chocolate. Tres dias depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo geito que levavam as cousas não era de admirar que, antes do fim do anno, estivessem ambos a caminho da egreja. Nestas circumstancias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da familia, companheiro de seu finado pae no exercito, tinha jus o major a todos os respeitos. Impossivel despedil-o ou tratal-o com frieza. Havia felizmente uma circumstancia attenuante; o major era aparentado com Cecilia, a moça dos olhos azues; em caso de necessidade, era um voto seguro.
Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com um rolo debaixo do braço e os olhos fitos no ar, parecia totalmente alheio á chegada do bacharel.
—Que bom vento o trouxe a Catumby a semelhante hora? perguntou Duarte, dando á voz uma expressão de prazer, aconselhada não menos pelo interesse que pelo bom tom.
—Não sei se o vento que me trouxe é bom ou mau, respondeu o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento rijo. Vai sahir?
—Vou ao Rio Comprido.
—Já sei; vae á casa da viuva Menezes. Minha mulher e as pequenas já lá devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que é cedo, não?
Lopo Alves tirou o relogio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a sentar-se e disse:
—Dou-lhe uma noticia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama.
—Um drama! exclamou o bacharel.
—Que quer? Desde creança padeci destes achaques litterarios. O serviço militar não foi remedio que me curasse, foi um palliativo. A doença regressou com a força dos primeiros tempos. Já agora não ha remedio se não deixal-a, e ir simplesmente ajudando a natureza.
Duarte recordou-se de que effectivamente o major fallava n'outro tempo de alguns discursos inauguraes, duas ou tres nenias e boa somma de artigos que escrevera ácerca das campanhas do Rio da Prata. Havia porém muitos annos que Lopo Alves deixára em paz os generaes platinos e os defuntos; nada fazia suppôr que a molestia volvesse, sobre tudo caracterisada por um drama. Esta circumstancia explical-a-hia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes, assistira á representação de uma peça do genero ultra-romantico, obra que lhe agradou muito e lhe suggeriu a idéa de affrontar as luzes do tablado. Não entrou o major nestas minuciosidades necessarias, e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da explosão dramatica do militar. Nem o soube, nem curou disso. Encareceu muito as faculdades mentaes do major, manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sahir triumpliante naquella estréa, prometteu que o recommendaria a alguns amigos que tinha no Correio Mercantil, e só estacou e empallideceu quando viu o major, tremulo de bemaventurança, abrir o rolo que trazia comsigo.
—Agradeço-lhe as suas boas intenções, disse Lopo Alves, e acceito o obsequio que me promette; antes delle, porém, desejo outro. Sei que é intelligente e lido; ha de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. Não lhe peço elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se achar que não é bom, diga-o sem rebuço.
Duarte procurou desviar aquelle calix de amargura; mas era difficil pedil-o, e impossivel alcançal-o. Consultou melancholicamente o relogio, que marcava nove horas e cincoenta e cinco minutos, emquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscripto.
—Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que são rapazes e o que são bailes. Descanse que ainda hoje dansará duas ou tres valsas com ella, se a tem, ou com ellas. Não acha melhor irmos para o seu gabinete?
Era indifferente, para o bacharel, o lugar do supplicio; accedeu ao desejo do hospede. Este, com a liberdade que lhe davam as relações, disse ao moleque que não deixasse entrar ninguem. O algoz não queria testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou logar ao pé da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o desespero n'uma vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo.
O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicação produziu um calafrio no ouvinte. Nada havia de novo naquellas cento e oitenta paginas, senão a lettra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as ficelles e até o estylo dos mais acabados typos do romantismo desgrenhado. Lopo Alves cuidava pôr por obra uma invenção, quando não fazia mais do que alinhavar as suas reminiscencias. N'outra occasião, a obra seria um bom passatempo. Havia logo no primeiro quadro, especie de prologo, uma creança roubada á familia, um envenenamento, dous embuçados, a ponta de um punhal e quantidade de adjectivos não menos afiados que o punhal. No segundo, quadro dava-se conta da morte de um dos embuçados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tyranno do septimo. Além da morte apparente do embuçado, havia no segundo quadro o rapto da menina, já então moça de desesete annos, um monologo que parecia durar igual praso, e o roubo de um testamento.
Eram quasi onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. Duarte mal podia conter a colera; era já impossivel ir ao Rio Comprido. Não é fóra de proposito conjecturar que, se o major expirasse naquelle momento, Duarte agradecia a morte como um beneficio da Providencia. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um máu livro é capaz de produzir phenomenos ainda mais espantosos. Accresce que, emquanto aos olhos carnaes do bacharel apparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fulgiam-lhe ao espirito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecilia; via-a com os olhos azues, a tez branca e rosada, o gesto delicado e gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da viuva Menezes. Via aquillo, e ouvia mentalmente a musica, a palestra, o sôar dos passos, e o ruge-ruge das sedas; emquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os dialogos, com a impassibilidade de uma grande convicção.
Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. Meia noite soára desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscripto, erguia-se, impertigava-se, cravava nelle uns olhos odientos e máus, e saia arrebatadamente do gabinete. Duarte quiz chamal-o, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. Quando pôde dominar-se, ouviu o bater do tacão rijo e colerico do dramaturgo na pedra da calçada. Foi á janella; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham desapparecido.
—Porque não fez elle isso ha mais tempo? disse o rapaz suspirando.
O suspiro mal teve tempo de abrir as azas e sair pela janella fóra, em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veiu annunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo.
—A esta hora! exclamou Duarte.
—A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta ou a qualquer hora, póde a policia entrar na casa do cidadão, uma vez que se trata de um delicto grave.
—Um delicto!
—Creio que me conhece...
—Não tenho essa honra.
—Sou empregado na policia.
—Mas que tenho eu com o senhor? de que delicto se trata?
—Pouca cousa: um furto. O senhor é accusado de haver subtrahido uma chinela turca. Apparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas ha chinela e chinela. Tudo depende das circumstancias.
O homem disse isto com um riso sarcastico, e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte não sabia sequer da existencia do objecto roubado. Concluiu que havia equivoco de nome, e não se zangou com a injuria irrogada á sua pessoa, e de algum modo á sua classe, attribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da policia, accrescentando que não era motivo, em todo caso, para incommodal-o a semelhante hora.
—Hade perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finissimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas tambem pela origem. A dona, que é uma de nossas patricias mais viajeiras, esteve, ha cerca de tres annos no Egypto, onde a comprou a um judeu. A historia, que este alumno de Moysés referiu ácerca daquelle producto da industria musulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizel-a. O que importa saber é que ella foi roubada e que a policia tem denuncia contra o senhor.
Neste ponto do discurso, chegára-se o homem á janella; Duarte suspeitou que fosse um doudo ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lançaram as mãos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o metteram á força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu á desfilada.
—Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez com ellas... e rir ainda por cima do genero humano.
Ouvindo aquella allusão á dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival supplantado. Ou a allusao seria casual e extranha á aventura? Duarte perdeu-se n'um cipoal de conjecturas, em quanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.
—Quaesquer que sejam os meus crimes, supponho que a policia...
—Nós não somos da policia, interrompeu friamente o homem magro.
—Ah!
—Este cavalheiro e eu fazemos um par. Elle, o senhor e eu faremos um terno. Ora, terno não é melhor que par; não é, não póde ser. Um casal é o ideal. Provavelmente não me entendeu?
—Não, senhor.
—Ha de entender logo mais.
Duarte resignou-se á espera, enfronhou-se no silencio, derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavallos.
—Chegámos, disse o homem gordo.
Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e offereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. Não resistiu o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, d'ahi a pouco, ranger uma porta; duas pessoas,—provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro,—seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, phrases truncadas. Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas ao desvendar-se, não viu ninguem mais.
Era uma sala vasta, assaz illuminada, trastejada com elegancia e opulencia. Era talvez sobre posse a variedade dos adornos; comtudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Os bronzes, charões, tapetes, espelhos,—a copia infinita de objectos que enchiam a sala, era tudo da melhor fabrica. A vista daquillo restituiu a serenidade de animo ao bacharel; não era provavel que alli morassem ladrões.
Reclinou-se o moço indolentemente na ottomana... Na ottomana! esta circumstancia trouxe á memoria do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a tal chinela era já agora mais que problematica. Cavando mais fundo no terreno das conjecturas, pareceu-lhe achar uma explicação nova e definitiva. A chinela vinha a ser pura metaphora; tratava-se do coração de Cecilia, que elle roubára, delicto de que o queria punir o já imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras mysteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno; um casal é o ideal.
—Ha de ser isso, concluiu Duarte; mas quem será esse pretendente derrotado?
Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por effeito de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por elle deitou-lhe a benção, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, estupido de todos os sentidos. O inesperado daquella apparição baralhou totalmente as ideias anteriores a respeito da aventura. Não teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova explicação, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ella outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a elle e o convidou a seguil-o. Duarte não oppoz resistencia. Sairam por uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala, que só o era por duas velas postas em castiçaes de prata. Os castiçaes estavam sobre uma meza larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cincoenta e cinco annos; era uma figura athletica, farta de cabellos na cabeça e na cara.
—Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala.
—Não, senhor.
—Nem é preciso. O que vamos fazer exclue absolutamente a necessidade de qualquer apresentação. Saberá em primeiro logar que o roubo da chinela foi um simples pretexto...
—Oh! de certo! interrompeu Duarte.
—Um simples pretexto, continuou o velho, para trazel-o a esta nossa casa. A chinela não foi roubada; nunca sahiu das mãos da dona. João Rufino, vá buscar a chinella.
O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela não tinha nenhum diamante, nem fôra comprada a nenhum judeu do Egypto; era, porém, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenhez. Duarte ouviu as explicações, e, reunindo todas as forças, perguntou resolutamente:
—Mas, senhor, não me dirá de uma vez o que querem de mim e o que estou fazendo nesta casa?
—Vae sabel-o, respondeu tranquillamente o velho.
A porta abriu-se e appareceu o homem magro com a chinela na mão. Duarte, convidado a approximar-se da luz, teve occasião de verificar que a pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim finissimo; no assento do pé, estufado e forrado de seda cor azul, rutilavam duas lettras bordadas a ouro.
—Chinela de creança, não lhe parece? disse o velho.
—Supponho que sim.
—Pois suppõe mal; é chinela de moça.
—Será; nada tenho com isso.
—Perdão! tem muito, porque vae casar com a dona.
—Casar! exclamou Duarte.
—Nada menos. João Rufino, vá buscar a dona da chinela.
Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando á porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. Não era mulher, era uma sylphide, uma visão de poeta, uma creatura divina. Era loura; tinha os olhos azues, como os de Cecilia, extaticos, uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver delle. Os cabellos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça, um como resplendor de santa; santa sómente, não martyr, porque o sorriso que lhe desabrochava os labios, era um sorriso de bem-aventurança, como raras vezes hade ter tido a terra. Um vestido branco, de finissima cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas fórmas aliás desenhava, pouco para os olhos, mais muito para a imaginação.
Um rapaz, como o bacharel, não perde o sentimento da elegancia, ainda em lances daquelles. Duarte, ao ver a moça, compoz o chambre, apalpou a gravata e fez uma ceremoniosa cortezia, a que ella correspondeu com tamanha gentileza e graça, que a aventura começou a parecer muito menos atterradora.
—Meu caro doutor, esta é a noiva.
A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de casar.
—Tres cousas vae o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira engolir certa droga do Levante...
—Veneno! interrompeu Duarte.
—Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu.
Duarte estava pallido e frio. Quiz fallar, não pôde; um gemido, sequer, não lhe saiu do peito. Rolaria ao chão, se não houvesse alli perto uma cadeira em que se deixou cair.
—O senhor, continuou o velho, tem uma fortunasinha de cento e cincoenta contos. Esta perola será a sua herdeira universal. João Rufino, vá buscar o padre.
O padre entrou, o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco antes; entrou e foi direito ao moço, ingrolando somnolentamente um trecho de Nehemias ou qualquer outro proplieta menor; travou-lhe da mão e disse:
—Levante-se!
—Não! não quero! não me casarei!
—E isto? disse da meza o velho apontando-lhe uma pistola.
—Mas então é um assassinato?
—É; a differença está no genero de morte: ou violenta com isto, ou suave com a droga. Escolha!
Duarte suava e tremia. Quiz levantar-se e não pôde. Os joelhos batiam um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse baixinho:
—Quer fugir?
—Oh! sim! exclamou, não com os labios, que podia ser ouvido, mas com os olhos em que poz toda a vida que lhe restava.
—Vê aquella janella? Está aberta; embaixo fica um jardim. Atire-se d'alli sem medo.
—Oh! padre! disse baixinho o bacharel.
—Não sou padre, sou tenente do exercito. Não diga nada.
A janella estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma nesga do céu, já meio claro. Duarte não hesitou, colligiu todas as forças, deu um pulo do logar onde estava e atirou-se a Deus misericordia por alli abaixo. Não era grande altura, a quéda foi pequena; ergueu-se o moço rapidamente, mas o homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo.
—Que é isso? perguntou elle rindo.
Duarte não respondeu, fechou os punhos, bateu com elles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pela jardim fóra. O homem não caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impressão, seguiu no encalço do fugitivo. Começou então uma carreira vertiginosa. Duarte ia saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando arvores, que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o suor em bica, alteava-se-lhe o peito, as forças iam a perder-se pouco a pouco; tinha uma das mãos ferida, a camisa salpicada do orvalho das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser apanhado, o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Emfim, cançado, ferido, offegante, caiu nos degraos de pedra de uma casa, que havia no meio do ultimo jardim que atravessára. Olhou para traz; não viu ninguem; o perseguidor não o acompanhara até alli. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro degráos que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa.
Um homem que alli estava, lendo um numero do Jornal do Commercio, pareceu não o ter visto entrar. Duarte cahiu n'uma cadeira. Fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves. O major, empunhando a folha, cujas dimensões iam-se tornando extremamente exiguas, exclamou repentinamente:
—Anjo do ceu, estás vingado! Fim do ultimo quadro.
Duarte olhou para elle, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou á larga.
—Então! Que tal lhe pareceu?
—Ah! excellente! respondeu o bacharel, levantando-se.
—Paixões fortes, não?
—Fortissimas. Que horas são?
—Deram duas agora mesmo.
Duarte acompanhou o major até a porta, respirou que muitas vezes, apalpou-se, foi até á janella. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, ao cabo de um quarto de hora, eis o que elle dizia consigo:—Nympha, doce amiga, fantasia inquieta e fertil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituiste-me o tedio por um pesadelo: foi um bom negocio. Um bom negocio e uma grave licção: provaste-me que muitas vezes o melhor drama está no espectador e não no palco.
[1]Este conto foi publicado, pela primeira vez, na Epocha, n. 1, de 14 de Novembro de 1875. Trazia o pseudonymo de Manassés, com que assignei outros artigos daquella folha ephemera. O redactor principal era um espirito eminente, que a politica veiu tomar ás lettras: Joaquim Nabuco. Posso dizel-o sem indiscrição. Eramos poucos e amigos. O programma era não ter programma, como declarou o artigo inicial, ficando a cada redactor plena liberdade de opinião, pela qual respondia exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de um collaborador) era elegante, litterario, attico. A folha durou quatro numeros.
FIM DA CHINELA TURCA