Plantas medicinais

Mara Zélia de Almeida · Capítulo 2 de 6

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Plantas medicinais

Apresentação

 

A motivação para escrever esse livro surgiu em 1990, a partir do compromisso social e ético de publicar de maneira ampla, de forma que ultrapassasse os “muros” da universidade, os resultados obtidos em vários trabalhos de campo. Inicialmente, com acadêmicos do Curso de Farmácia da UFBA, em atividades didáticas da disciplina de Farmacognosia II e III e, posteriormente, com os resultados obtidos em muitos projetos de pesquisa e extensão no Programa de Extensão Permanente Farmácia da Terra. Essa publicação foi implementada também com o banco de dados e pesquisas resultantes da elaboração da tese de Doutorado da autora, bem como das orientações de dissertações de mestrado desenvolvidas pela mesma.

A proposta de realizar uma documentação literária para o conhecimento das plantas como fonte de cura, sob a ótica da religiosidade afro-baiana, objetivou colaborar com a preservação e multiplicação das informações obtidas em trabalhos comunitários, com o devido respeito às tradições dessa herança cultural africana na medicina do Brasil. A visão do homem, como ser integral, respeitado em seu momento de fragilidade, quando algum mal de origem psíquica ou somática lhe aflige, destaca-se como a principal ótica para o entendimento desse trabalho.

A autora sentiu-se muito à vontade ao caminhar entre mundos tão distanciados pela sociedade: as práticas médicas acadêmicas, a visão convencional da cura e a vertente tradicional ritualística. Vive nesses dois mundos, a realidade do Aye (terra) e do Orùm (mundo dos orixás) como Professora Universitária e descendente de Yalorixás. Foi criada dentro de uma comunidade-terreiro. Dessa forma, aprendeu a decodificar os segredos das folhas e a compreender a importância dos princípios bioativos de origem vegetal. Esses universos tão ambíguos foram unidos numa mesma esfera a fim de demonstrar a lógica popular sem perder a seriedade científica.

As indicações terapêuticas tradicionais (práticas não-alopáticas) indicam plantas para fins medicinais que extrapolam em muito a terapêutica convencional (alopatia), assumindo, em determinados momentos, um caráter místico, embasado em crenças culturais inerentes ao grupo étnico. Assim, na maior parte das doenças, o processo de cura não é regido apenas pelo princípio farmacológico do recurso natural utilizado, mas também por crenças próprias dessa cultura, que resistem há gerações, garantindo a saúde dos seus descendentes.

Conforme citações em literatura especializada, ainda é difícil estimar com precisão a grandeza da biodiversidade brasileira. Entretanto, afirma-se que o Brasil possui a maior diversidade genética vegetal do planeta. Apesar do potencial para a busca de novos fitofármacos ser inegável, estima-se que menos de 10% da flora nacional foi estudada com fins fitoquímicos e farmacológicos, visando a avaliação das propriedades terapêuticas. Encontram-se registradas no Ministério da Saúde, para comercialização com propósitos medicinais, cerca de 600 drogas vegetais de um total de aproximadamente 1.000 espécies que possuem a validação de suas atividades biológicas e de seus princípios bioativos avaliados cientificamente.

Inúmeras plantas indicadas para fins medicinais possuem farta bibliografia sobre seus princípios bioativos e são os testes farmacológicos clínicos e pré-clínicos dos mesmos que validam sua eficácia e segurança. A análise epistemológica realizada a partir do banco de dados, oriundo de vários trabalhos de campo, permitiu traçar um perfil botânico e epidemiológico de doenças, através das plantas mais indicadas para fins medicinais no país. Estas estão incluídas em famílias botânicas, das quais as mais indicadas são: Asteraceae, Lamiaceae e Leguminoseae. Percebe-se a predominância de espécies com hábito herbáceo e arbustivo. As classes de metabólitos especiais presentes em maior frequência são: alcalóides, terpenóides, flavonóides, taninos e cumarinas.

Uma outra visão importante que deve ser abordada resulta da experiência própria em etnofarmacologia. Trata-se da necessidade premente de uma ação conjunta e urgente no campo da assistência farmacêutica. Nota-se, nas observações participantes e nos resultados de entrevistas, um “sem número” de ações populares em saúde que necessitam de otimização urgente, outras que, em eminência de perda, precisam ser resgatadas dentro de seu contexto etnobotânico e etnofarmacológico.

Orientados pela certeza da possibilidade de união entre a vertente popular/empírica e os conhecimentos acadêmicos/científicos, e de que é viável a otimização de práticas populares em saúde, acredita-se que esses escritos apontem para o fortalecimento do elo entre o saber popular e o científico, numa coexistência simbiótica, tendo como objetivo a melhoria da qualidade de vida como instrumento de cidadania.

Optou-se por estruturar a presente obra em três módulos: o primeiro, que situa o uso de plantas medicinais na história da humanidade; o segundo, denominado a Cura do Corpo e da Alma, no qual foram elaboradas 16 monografias considerando o aspecto popular-religioso de um grupo social e suas crenças, abordando aspectos técnico-científicos; e um terceiro, o Almanaque, assim intitulado devido à variedade de informações nele reunidas, a maioria delas oriundas de dúvidas e consultas anotadas em cursos de extensão, aulas e consultorias.

Para a elaboração desta publicação, contou-se com parcerias institucionais e pessoais, como o Herbário Alexandre Leal Costa, do Instituto de Biologia da UFBA, sua atual curadora, Profª. Lenise S. Guedes e da anterior, Profª. Letícia Scardino. De professoras da matéria Farmacognosia, como a Profª. Edna Prata, que iniciou com a autora, o Levantamento da Flora Medicinal Comercializada na Cidade de Salvador. Essa pesquisa deu origem à primeira ordenação de dados, reproduzida como brochura, em 1990, com o apoio financeiro do Conselho Regional de Farmácia/ BA. Esses dados foram o embrião desse livro; a Profª. Helna Célia R. Passinho, que iniciou os cursos comunitários do Farmácia da Terra, em 1996, num projeto em parceria com o Serviço Social do Mosteiro de São Bento resultando hoje, no Programa de Extensão Permanente Farmácia da Terra; a Profª. Juceni David, do Laboratório de Pesquisa de Produtos Naturais, parceira em projetos voltados para o estudo Fitoquímico de Plantas Medicinais. As Profas. Lidércia C. R. C. Silva e Maria de Lourdes S. e Silva, da disciplina Farmacotécnica, parceiras em cursos de extensão e nos projetos de Produção de Fitoterápicos e Fitocosméticos. O Prof. Humberto Ribeiro Moraes, vice-coordenador do Programa e idealizador junto com a autora, da implantação da disciplina Fitofármacos e Fitoterápicos, ministrada pelos mesmos, no curso de Farmácia da UFBA.

Contou-se também com a colaboração constante da Pró-Reitoria de Extensão/UFBA, através do seu Pró-Reitor, Prof. Dr. Paulo Lima, que apoiou os trabalhos comunitários através do Programa UFBA em Campo. Em alguns projetos, obteve-se a parceria da EBDA em assessorias agronômica e botânica. Mantém-se a constante colaboração científica, no referente a drogas vegetais, com a Profª. Eliane Carvalho e o Prof. Dr. Leandro Machado Rocha da Universidade Federal Fluminense, com o farmacêutico Leonardo Lucchetti da FIOCRUZ/INCQS, com o Prof. Dr. José Maria Barbosa e Prof. Dr. Marcelo Sobral, do Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da Universidade Federal da Paraíba, parceiros em projeto PRONEX. A Profª. Drª. Maria Auxiliadora Kaplan, da Universidade Federal do Rio de Janeiro/NPPN, consultora e orientadora da tese de doutorado da autora. O apoio financeiro para a pesquisa e elaboração da primeira edição dessa obra deve-se ao CADCT/SEPLANTEC, que acreditando na importância de documentar as questões de saúde e etnias, vertentes que traçam um representativo perfil do povo baiano, viabilizou o projeto.