Quer Namorar Comigo?
Sinopse
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Copyright © 2020 – Christine King
Capa: Mellody Ryu
Revisão: Eveline Knychala
Diagramação: Denilia Carneiro
1ª Edição
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são
produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e
acontecimentos reais é mera coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
Todos os direitos reservados.
São proibidos o armazenamento e / ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através
de quaisquer meios ─ tangível ou intangível ─ sem o consentimento escrito da autora.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e punido pelo artigo
184 do Código Penal.
Sumário
SINOPSE
NOTA DA AUTORA
AGRADECIMENTOS
EPÍGRAFE
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO FINAL
SOBRE A AUTORA
CONHEÇA MEUS OUTROS LIVROS:
SINOPSE
“Ele era o sonho de toda garota: muito alto, dono de uma beleza espetacular, uns ombros largos que podiam me carregar por quilômetros, mãos protetoras e o sorriso mais lindo do mundo.
Ele era o meu grandão. O meu melhor amigo, que amava ver as estrelas comigo, e me ouvir declamar poesia.
Eu? Eu era apenas a baixinha, a sua melhor amiga estabanada, que um dia ele esqueceu, e que sempre o amou em segredo.
Ele foi embora e se tornou rico e famoso. E eu? Eu apenas fiquei...
Anos depois, somos adultos, e um belo dia, ele aparece de volta na minha vida, como se o destino quisesse nos dar um recado: vocês precisam se reencontrar.
A sorte estava lançada”
“Quer namorar comigo?” é uma comédia romântica leve, divertida e muito apaixonante.
Com um hot de tirar o fôlego, passagens emocionantes e uma história para esquentar corações.
Um conto de Christine King.
CONTÊM CENAS DE SEXO IMPRÓPRIAS PARA MENORES.
NOTA DA AUTORA
Olá, caros leitores!
É com grande alegria que venho falar para vocês um pouco do meu novo trabalho. Um conto super delícia!
“Quer namorar comigo” é uma daquelas histórias gostosas para ler rápido e sentir o coração aquecido.
Tentei dar aos personagens todo o calor e ternura que eles merecem, e embora a história deles seja um tanto breve, é cheia de intensidade e carisma.
Preparem-se para ler um hot super gostoso, com o tema de melhores amigos que se reencontram muito anos depois, e simplesmente agora tem uma paixão mal resolvida para vivenciarem.
Por ser uma comédia romântica, preparem-se também para alguns momentos hilários!
A história tem traços de informalidade no texto, e alguns usos de gírias, para que a fluidez seja mantida e haja uma sensação de coloquialidade.
Espero que gostem!
Obrigada pela chance que estão me dando!
Boa leitura! Fiquem com Deus!
Christine King
AGRADECIMENTOS
Deus sempre em primeiro lugar.
Quero agradecer à minha família, ao meu esposo companheiro de todas as horas, às amigas que me ajudaram com tudo nesse livro, verdadeiros anjos em minha vida: Eveline Knychala, Mellody Ryu, Jéssica Larissa, Pry Olivier, Natália Dias.
Só vocês sabem o quanto são importantes para mim. Esse livro não existiria sem vocês.
Obrigada queridas moderadoras das luxuosas da Christine King pela ajuda e doçura de sempre.
Obrigadas meninas que me auxiliam com a assessoria. O que seria de mim sem vocês?
Obrigada amadas leitoras por estarem comigo aqui, acompanhando-me.
Só amor e gratidão a todos vocês.
Deus os abençoe.
Com amor, Christine King.
EPÍGRAFE
Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.
William Shakespeare , Hamlet, tradução de Millôr FernandeS
PRÓLOGO
“Você é a única, garota
Você sabe que é verdade
Estou me sentindo mais jovem
Toda vez que estou sozinho com você”
How Would You Feel, Ed Sheeran
SÃO PAULO, 2014
— Reinaldo, por favor, pare de comer duas pizzas com dois litros de Coca- cola em vez de almoçar — ralhei, tentando soar séria, ajeitando as hastes dos meus óculos.
O diabo lindo sorriu, e era, é claro, um sorriso lindo também.
Nunca iria dizer para o Rei que ele era o rei absoluto do meu coração perdido.
Rei: esse era o apelido dele. Não podia ser mais perfeito.
E ele realmente tinha um rosto de deuso. Um rosto moreno de queixo quadrado e forte, os cabelos muito lisos e castanhos sempre sensualmente desalinhados, e um nariz reto e aristocrático daquelas estátuas perfeitas que nos deixam sem ar.
E para coroar aquele reinado de beleza, ele também tinha aqueles olhos escuros e penetrante que arrepiavam.
Demorei o olhar um instante na boca grande e sexy que me dava um sorriso cínico.
Ele era o rei do meu tesão todinho também.
Por fim ele se serviu de um pedaço de pizza.
— Incomoda-se? — perguntou, enquanto se servia, sorrindo com ironia.
— É pela sua saúde, oras bolas!
— Acha que vou morrer de tanto comer pizza com Coca- cola e vai ser minha viúva que chorará minha falta? —ele brincou e aquilo de me chamar de viúva me emputecia de um jeito terrível.
E magoava também.
Porque eu sabia que era apenas uma amiga para ele, e me perguntei mais uma vez se ele sabia dos meus sentimentos. A raiva era uma arma diante de minha insegurança.
— Algo assim, tirando a parte da viúva. Fast food mata, sabia? E se matar é coisa de idiotas, grandão.
Ele deu uma risada em resposta, limpando-se com o guardanapo e depois apoiando o braço na mesa, segurando o queixo com a mão e me analisando enquanto acariciava a barba por fazer com o polegar, com o olhar muito escuro e estreitado que me deixava sem ar.
— Está bem, Raio. Eu não quero ser um idiota. Raio de Luar não seria amiga de uma idiota.
Só ele para dizer meu nome de hippie maluco com o qual fui batizada com aquela gentileza, sem rir de mim. É por isso que eu o adorava.
Era por isso que eu o amava em segredo.
— Não, eu não seria sua amiga se você fosse um idiota, grandão.
Ele sorriu de canto daquele modo que me derretia.
— Está bem. Agradeço sua preocupação, Raio. Vou ver o que faço. Com certeza minha mãe brigaria comigo por comer mal. Vamos comer algo diferente da próxima vez. Bom que te levo em lugares diferentes além do shopping para almoçar.
— Não sou sua mãe, Rei — falei, emburrada, mexendo no meu pedaço de pizza de calabresa da Pizza Hut, sempre frustrada por ser confundida com alguma coisa não sexual na vida dele.
Reinaldo sempre ria da minha cara quando me levava para comer pizza. Eram sempre duas pizzas grandes.
Duas fatias para mim com um copo de Coca. E todo o resto para ele. Já era um ritual maligno.
A quantidade de comida que ele comia era enorme, enquanto eu comia como um passarinho.
Como todo esportista gigante, ele tinha uma fome de leão.
Até naquilo a gente era diferente. Uma tampinha e um poste, andando juntos chutando o que víamos pelo chão.
Ele mais calado, eu falando pelos cotovelos todas as besteiras que me vinham pela cabeça.
De todo modo, eu me preocupava com ele.
Ele não tinha mais mãe há algum tempo, e o pai trabalhava o dia inteiro, então, Reinaldo gostava quando eu e minha mãe cozinhávamos para ele, e acho que deveríamos começar a procurar restaurantes legais. Ou quem sabe poderia trazer marmitas para comer com ele.
Poderíamos então almoçar no gramado da escola ou do ginásio esportivo, enquanto Reinaldo esperava o treino do basquete e eu minhas aulas de inglês que também ganhara bolsa.
Sim, eu era a nerd bolsista em uma escola de ricos.
E depois de comer a pizza, é claro, fomos para o Ibirapuera pegar o fim da tarde.
Ficávamos horas lá. Ele ouvindo os rocks dele, e eu minhas músicas antigas e meus forrós, e às vezes, eu me deitava em sua barriga durinha, durinha, aquele sonho de tanquinho...
E então ríamos de tudo, falando tudo o que vinha por nossa cabeça maluca de adolescentes. Sonhos, anseios, gostos estranhos
Mas naquele momento teríamos prova no dia seguinte. Aproveitaríamos para estudar debaixo das árvores.
Eu sempre o ajudava a tirar notas melhores. Ele não tinha muito tempo para estudar, pois era um esportista dedicado...Isso quando não estava com ela, com Natasha...
Ele estava saindo com ele há quase 3 meses, e um momento como aquele entre e eu ele começava a rarear, mas não queria dizer que estava sentindo ciúmes de Rei.
Estava distraída agora lendo por prazer, vendo um livro de estudos sobre Shakespeare. Quase escurecia.
Eu adorava poesia.
Estava bastante concentrada chupando um pirulito lentamente enquanto lia, quando senti ele roubar o pirulito de mim e colocar em sua própria boca.
Olhei aquilo e ruborizei quase em seguida, engolindo em seco: Reinaldo lambendo o pirulito rosado e o sugando depois.
Era erótico. Não queria pensar naquela palavra, mas era, e não conseguia tirar os olhos de sua boca.
Era assim todas vezes, aquela estranha e escura sensação dentro de mim, martelando em meu coração e me fazendo ofegar, vendo aquele olhar dele de tirar o fôlego.
O semblante dele naqueles momentos era absolutamente indizível, mas algo em mim às vezes se perguntava se ele não sentia o mesmo que eu.
Tínhamos aquela estranha mania de roubar pirulitos um do outro, e mais um monte de intimidades esquisitas que eu não queria parar para pensar por que aconteciam.
A amizade explicava, é claro, e nunca quis dizer para ele o que sentia nessas horas.
— Te peguei mais uma vez, distraída — falou enquanto deitava seu imenso e gostoso corpo na grama, e seu peito amplo subia e descia, e ele me dava um daquele olhares misteriosos.
Senti um pequeno estremecimento.
Às vezes, ele me olhava de uma forma tão intensa que eu ficava atônita, sem saber o que sentia... Será?
Mas não poderia. Eu era apenas a Raio de Luar. Uma garota bem, bem sem gracinha, tanto que Natasha não estava nem aí pra mim quando eu andava com Reinaldo, e antes, as zilhares de garotas que ele chegou a beijar na minha frente e que se pudesse passavam o dia penduradas nele.
Eu era sexualmente inofensiva. Podia importar como amiga, mas era insignificante como mulher.
Rei então tirou o pirulito de sua boca e me deu novamente, provocando meus lábios antes, fazendo-me sorrir e aceitar, e passei a chupar devagar, sentindo o gosto doce de saliva de sua boca.
— Isso, boa menina — ele brincou, rindo e voltando a se deitar.
O olhar que ele estava me dando era de causar arrepios.
Por fim, Rei pegou meu livro sobre Shakespeare do meu colo, para me aborrecer.
— O que está lendo, tampinha? — perguntou, franzindo o cenho tentando ler diante do céu que escurecia. — Deixe-me ver aqui sua leitura da vez. Hum. Shakespeare?
Sorri. Era o estudo de um trecho de Hamlet.
— “Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor”
Declamei devagar. Ele sorriu e me devolveu o livro.
— Está romântica hoje, Raio. É um belo poema.
— É sim — falei suspirando, olhando as árvores, e o olhei sem graça sorrindo, sem saber o que responder, mudando de assunto em seguida, vendo que finalmente havia anoitecido.
Às vezes, ele me ouvia declamar minhas poesias com tanta paciência, e eu era tão agradecida por isso...Não era fácil ouvir.
Ele me ouvia com a mesma paciência que eu tinha com aquela sua guitarra que enchia o saco, mas eu adorava ouvi-lo cantar. Rei cantava bem, e tinha uma voz linda.
É claro que isso só colaborava para as mulheres ficarem mais malucas por ele ainda.
Eu não entendia por que Rei gostava de mim, mas, estranhamente, eu sentia que ele gostava. E era isso o que mais me doía : ele gostava de mim.
Eu não havia me iludido. Eu era importante para Reinaldo.
Talvez porque eu era a melhor massagista do mundo com o óleo de arnica de minha mãe, que vivia cheia de dores, tadinha.
Aquilo me tornara uma excelente massagista, ter de ajudar minha mãe com sua artrite. E logo minha fama se espalhou pela escola entre o pessoal da liga juvenil de basquete que vivia louco por massagem.
Nem Natasha tinha ciúmes quando eu massageava o Rei. Quem ia ter ciúmes de uma moleca sem graça de rabo de cavalo e roupas folgadas como eu?
Até eu a massageava também. Ela também era da liga de basquete feminino.
Puta Merda. Eu massageava a namorada do cara que eu gostava! Nota zero para mim!
Claro, eu era uma burra mesmo, sempre servindo de empregada para alguém, especialmente para Reinaldo.
Eu era a ouvinte, a cozinheira, a que fazia as tarefas, a que não o deixava beber, a que ia aos shows com ele porque Natasha odiava rock...A que entendia sua dura rotina de esportista e o ajudava na escola e entendia a cobrança de seu pai para que ele fosse um sucesso em tudo.
E eu adorava cada minuto que passávamos juntos, a verdade era essa.
Mas só gostava de massagear Reinaldo, e depois expliquei que minhas mãos de fada, que ele pegava e beijava brincando, como um cavalheiro, eram só para ele.
E nada era mais torturante que massagear aquele corpo grande e gostoso de jogador de basquete que ele tinha, e perceber que ele não sentia absolutamente nada erótico por mim...
Ficava lá, vendo seus músculos desenvolvidos se mexerem sob minhas mãos, as costas fortes, a cintura estreita, as pernas musculosas, os pés lindos e enormes, e ouvindo seus gemidos de quem estava adorando o que eu estava fazendo...
Aqueles gemidos que pareciam sexuais me incomodavam horrores, especialmente depois de tê-lo visto tantas vezes de sunga e saber o quão grande era aquele pacote.
Eu não era santa. Como queria morder aquele corpo todo, especialmente aquela bunda!
Aliás, aquele homem era todo grande. Um corpo incrivelmente forte e musculoso para um cara de 19 anos, e totalmente diferente do meu corpo mignon de 17.
O maldito era uma tentação.
Aaaaaah....Desgraça!
Ainda lembro dele brincando comigo:
— Raio de Luar, você tem mágica nas mãos, minha baixinha...
Minha baixinha...Ele sempre me chamava assim, e brincava bagunçando meus cabelos.
Mas o que eu mais gostava é quando ele me chamava de baby...
E foi exatamente disso que ele me chamou quando me convidou para se deitar em seu peito ali no Ibirapuera, para ficarmos olhando as estrelas.
Olhei para aquele peito enorme, os ombros largos e os pelos que saiam da camiseta com dois botões abertos na gola.
Aquele peitoral e sua estatura sempre me intimidavam um pouco, mas também me atraíam como o diabo.
— Vem cá, baby... — sussurrou com aquela voz quente e grave que ele tinha, que agora era mais macia que seda. Seus olhos escuros me olhavam em expectativa, brilhantes. Infinitamente perturbadores.
Deixei que ele me confortasse no seu corpo daquela vez, e encostei minha cabeça no seu peitoral sem cerimônia, e aproveitei cada segundo ali, naquele lugar perfeito e gostoso.
— Vamos olhar as estrelas? Já te falei que gosto, Raio, de astronomia? A noite está linda...
— Sim, já me falou...A noite está linda sim.
Ele riu sonoramente e pude ouvir o som em sua caixa torácica, e aquela intimidade me balançou mais uma vez. O cheiro dele combinava com o gramado.
— Me mostre — pedi, olhando então para o céu e vendo que a noite estava maravilhosamente estrelada, o que era raro em São Paulo. Agora entendia por que ela estava me convidando para o olhar para o céu com ele.
— O quê?
— As estrelas, oras.
Ele sorriu amavelmente.
— Ah, sim. Claro. Hum. Deixe-me ver. Bem ali, vê? — Ele apontou. — Está Cassiopeia. E ao seu lado, está Andrômeda.
Prestei atenção para o desenho que ele fazia no céu.
— Que bacana! Mãe e filha lado a lado! Sabia que Cassiopeia é mãe de Andrômeda na mitologia grega?
— Mesmo? Não sabia, a inteligente aqui é você, minha baixinha.
Sorri.
— Você não é burro, grandão, apenas tem que acertar muitas bolas na cesta, é seu amor maior: o basquete. Mas você entende de astronomia, e eu não. Bem, mas agora me mostre mais.
— Hum, vamos procurar... — Ele franziu o rosto. — Aquela é Raio de Luar— ele brincou.
Olhei para ele, revirando os olhos, desacreditada, e dei um murrinho em seu peito.
— Doeu, mocinho?
Ele pegou em minha mão e me deu um beijo, rindo. Ele sempre fazia isso. Era muito gentil.
— Não, querida. Não doeu.
Querida. Raramente ele dizia isso. Ah, meu coração quentinho ganhando asas fora do peito! Quantos apelidos carinhosos numa só noite!
— Pois deveria ter doído! Não sou tão tonta assim em astronomia! Claro que não tem uma constelação com o meu nome, faça-me o favor, Rei!
Ainda rindo, ele começou a acariciar minha mão com seu polegar, e mesmo sem eu querer, aquilo reverberava em mim, lá no fundo, aquela pequena carícia.
— Sei que não tem, Raio, mas juro que eu fosse criar o mundo, colocaria uma constelação com o seu nome — ele sussurrou, com os olhos fixos em mim, e sua mão se estendeu para tocar meu rosto, e um toque leve afastou uma mecha castanha da minha face, e ele continuou ali, acariciando gentilmente minha bochecha, e eu sentia uma tensão se acumular em minha barriga.
Era a primeira vez que Rei tocava meu rosto assim, e aquilo me deixava sem ar. Não conseguia parar de olhá-lo.
E aqueles segundos tensos pareciam durar uma eternidade.
Ele foi se aproximando de meu rosto, ficando muito perto. O olhar focado no meu, parecendo sentir a mesma magia que eu sentia... Fui erguendo o queixo, numa reação natural, em direção a ele, sentindo meu coração aflito, os lábios trêmulos, e fechei meus olhos, esperando, podia sentir sua respiração se aproximar, misturando-se com a minha.
Mas, de repente, fui empurrada de lado, quase com brutalidade, e acordei severamente daquela sensação de sonho.
Santo Deus, ele iria me beijar? O meu melhor amigo? Iria e se arrependeu? Ou será que estive sonhando?
Então, eu o vi ficar sentado na grama e pigarrear, parecendo desconcertado.
— Minha nossa, Raio! Esqueci a hora! Prometi passar na casa de minha tia ainda hoje! Putz! — ele falou, passando as mãos na nuca, parecendo nervoso, sem jeito.
Eu não sabia o que sentir ou dizer, arrumando meus cabelos, alisando meu moletom.
Eu estava ali sentada na grama, tentando descobrir se eu acabara de ser rejeitada ou não, ou tentando entender o que acabara de nos ocorrer.
A única coisa que sabia é que estávamos muito estranhos um com o outro, e mal conseguíamos nos olhar, e que alguma coisa doía de forma diferente em mim, além da sensação de constrangimento que parecia nos varrer.
O fato é que depois daquele dia as coisas nunca mais foram as mesmas entre nós, e se ele não havia me beijado naquele dia, as coisas se tornaram muito piores quando ele finalmente me beijou, alguns meses depois, antes de ir embora de vez.
Nunca, nunca mais havíamos nos visto depois daquele beijo.
CAPÍTULO 1
“Apenas um ano de amor
É melhor do que
uma vida inteira sozinho
Um momento doce
em seus braços
É como uma estrela cadente
atravessando meu coração
É sempre um dia chuvoso
sem você
Sou um prisioneiro do amor
dentro de você”
One year fof love,
Queen
RAIO DE LUAR
DIAS ATUAIS.
Estava tocando bem alto no fone de ouvido “Se você não cuida, cuidado” do Zé Neto e Cristiano e eu passeava com o cesto pela casa catando os malditos pares de meias sumidos.
Ai Senhor Jesus.
Se o coronavírus não me matasse, Zé Neto e Cristiano matariam.
Que delícia de homens e de música!
Que homões da porra!
Ficava cantarolando e, de repente, batia aquela tristeza...
“ Se você não cuidar
Oh, cuidado!
Só você e o mundo inteiro
Quer ela do lado”
Para quem que estava cantando isso, afinal? Aos 23 anos, quem é que me quis nessa vida? Quem lutou por mim?
Os caras que me beijaram e que me deram fora em seguida é que não.
Sempre me perguntava se era porque eu beijava tão mal a ponto de me largarem, ou porque não deixava que fossem além de beijos.
Agora, batia um arrependimento. O mundo podia acabar do coronavírus, minha espécie podia entrar em extinção, e eu ia morrer virgem por ter escolhido demais, esperado demais.
Mas, vai ver os homens que me beijaram deveriam ser ruins de cama...
Pensei então nele, e naquele beijo...Aquele único beijo tão poderoso e ardente... Certamente, ele não seria mau de cama, e mais de uma vez tive CERTEZA de que ele era muito bem dotado, quando éramos amigos.
Lembrei da gente na piscina de sua casa, a vergonha que eu sentia de ficar de maiô perto dele, a sensação de querer esconder os peitos e a insistência em usar shorts ao mergulhar, enquanto Rei se exibia, maravilhoso, para mim, sem qualquer constrangimento.
Todo Rei da porra toda.
Pelo menos, hoje em dia eu sabia que meu corpo era meu ponto forte, que meu corpo realmente era muito top, além de ter me descoberto na maquiagem, embora nunca fosse fã de me mostrar, mas como trabalhava vendendo roupas, agora tinha de me vestir bem na loja e sempre pintava meus olhos que ficavam ainda mais azuis em contraste com o preto da sombra e do rímel.
Sim, eu dera um belo up na minha aparência.
Porém, em casa eu gostava de ficar pior que uma mendiga, toda largada de pijama, como agora.
Cosplay de dona Florinda.
Sim, ele deveria ser muito bom de cama, concluí, amarga, pensando no fruto proibido que não provei: Reinaldo.
Mas ele foi embora. Ele havia me deixado. Ele havia me magoado. Rei não lutou por mim.
Onde ele estaria agora?
Eu não o via desde que ele fora embora para os EUA...
Era tudo tão fácil para ele, e tudo sempre tão difícil para mim... E mesmo assim, como ríamos juntos, e como nos entendíamos!
Uma lembrança engraçada do passado me veio, entre tantas outras.
As pessoas rindo do meu nome na escola. Um nome de hippie que me rendia todas as risadas e humilhações do mundo no ensino médio, e que fez Reinaldo me defender logo que entrou na escola.
Ele também era corajoso. E eu nunca ia me esquecer o quanto fiquei emocionada quando me defendeu daqueles garotos pela primeira vez, e disse que meu nome era lindo...
E que nossos nomes combinavam, uma dupla caipira...Rei e Raio...
Rei só não era bom de estudar. Nisso, eu era boa, muito boa. Finalmente eu era melhor que ele em alguma coisa. Era boa em tudo, e achei que aquilo ia me colocar para a frente como um foguete, mas a verdade é que agora tinha um diploma de administração que não me valia de nada.
E várias contas para pagar.
E formada na USP, anda por cima. E meus pais sequer estavam mais vivos para se orgulharem.
Haviam morrido num acidente há três anos, voltando do Guarujá, antes de eu me formar.
Enquanto isso, Rei agora era um grande astro de basquete nos EUA, jogador da NBA, e super desejado por aí...Como não seria? Nunca tinha visto homem mais lindo em minha vida.
Quem diria que o Reinaldo, o meu Rei, que lá virou King of Magic, iria se tornar um verdadeiro astro multimilionário do basquete?
Mas o desgraçado era tão virado para a lua que ter o avô americano, é claro, ajudara em tudo.
Eu não o via há 6 anos. Seis anos longos.
Ah, Reinaldo... Em plenos tempos de corongavirus e você vindo na minha mente enquanto eu cato meias pela casa toda bagunçada.
Como eu era idiota.
Por que me beijou? Por que me deu aquele primeiro beijo, Rei?, pensei, quase chorando, num suspiro lamentoso.
Se não tivesse dado, talvez eu não sentisse tanto a falta dele, ou me lembrasse tanto...Ou talvez sim, talvez eu o sentisse para sempre.
Foram quase dois anos de intensa amizade entre nós. Foi tudo muito forte, ao menos para mim.
Mas não nego que os momentos mais felizes da adolescência estavam em cima dele.
Lá, nos shows de rock, quando ele me colocava no ombro, chamando-me de baixinha e dizendo que tinha pena de mim por não conseguir enxergar nada.
Ele me pagava todos os shows. Eu amava.
Reinaldo tinha tudo o que eu não tinha: beleza, dinheiro, um jeito seguro de ser, toda a desgraça do carisma do mundo, e ainda 2 metros de altura que o fez ser selecionado para o NBA antes dos 20 anos.
E ele partiu despedaçando meu coração.
Não tive coragem de me despedir por mensagem. Nem soube se ele me esperou naquele dia.
Que estupidez! É claro que não.
Ele havia pedido para eu ir naquela noite, mas ele esteve com Natasha, não? Não sei se eles ficaram juntos depois que ele se mudou, como ela havia me dito. Não a vi mais também.
Depois do ensino médio, cada um tomou seu rumo. E eu queria esquecer aquilo tudo.
Ele me magoara muito antes de ir, mas às vezes pensava se não deveria ter ido vê-lo naquele encontro, mas eu não poderia ir depois do que ele me fez.
Por vezes, sonhava imaginando o que ele poderia ter me dito, mas eu não estava lá para ouvir.
Bem, já não importava mais... Tudo havia mudado.
Até a raiva e a decepção que senti, já não doíam tanto assim.
A última notícia que tive é que Rei estava jogando no Los Angels Lakers, mas eu não gostava de saber sobre ele.
Aquilo me machucava de verdade de uma forma que eu não compreendia.
Ele era o meu maior segredo. Nem Luana, minha atual melhor amiga que morava comigo, sabia sobre ele.
Dei um longo suspiro, afugentando as memórias. Como a vida era engraçada. Num momento, alguém era tudo, e de repente, não era mais nada.
Éramos Raio e Rei até que entrou Natasha na história, é claro, e as coisas começaram a degringolar, especialmente depois daquele dia no Ibirapuera, em que me senti rejeitada e insegura. Não sabia mais como lidar com ele, e ele parecia bastante sem jeito perto de mim.
Tivera uma proximidade com Reinaldo que todos os dias me perguntava como aquilo poderia ser possível, e um belo dia, ele foi embora.
Mas todas as noites ele estava nas minhas preces e nas minhas lembranças.
E ele nem sonhava que havia me dado o meu primeiro beijo... E que era o meu amor secreto que eu nunca conseguira esquecer.
“Vai
Quebra a rotina
E leva sua mina pra dançar
Ao som daquela banda cover”
Um dia a gente dançou, Rei, pensei, e nem era banda cover...
Depois, eu nunca mais dançara com um homem .
Continuei cantarolando para o gato que ficava me olhando como se eu fosse uma doida, dançando com aquele cesto enorme na mão e um pano amarrado na cabeça para ver se domava aquela juba.
Ele não tinha nome, era gato mesmo. Porque ele era lindo. Um gatão. Hehehe.
Era bagunça e meia para todo lado. Misericórdia! E estava sozinha agora em casa porque Luana estava passando uns dias na casa do namorado na quarentena para facilitar as coisas, e agora eu tinha de resolver a bagunça sozinha, embora a casa fosse bem pequena.
Há alguns dias havia voltado a trabalhar meio período na loja de roupas, indo de segunda a sexta, e boa parte do tempo fazia televendas com as clientes em casa.
Estava dando para tirar apenas um salário mínimo, mas estava feliz naquela confusão toda de ter ainda um emprego.
Foi quando tocou a campainha. Ué, quem seria? Luana não poderia ser. Deveria ser o rapaz da farmácia que chegou um dia antes do combinado com meu antialérgico.
O portão estava aberto, e então berrei de dentro:
— Pode entrar!
Que se danasse eu estar com um pano na cabeça, a não ser que eu quisesse me enrabichar com o entregador.
Olhei para a mesinha de centro e pro rack um instante para tentar achar onde estava meu cartão de crédito.
Eita bagunça.
Foi quando distraída ouvi a porta se abrir e ouvi aquela voz sussurrada e forte.
— Raio...
Virei-me devagar, não querendo acreditar que aquela voz era...
Jesus amado!
Era, era sim. Era dele sim. Danação!
Um homem de 2 metros, mascarado, protegido do coronavirus, lindo de morrer estava na minha sala.
Não era o entregador da farmácia.
Era a ruína da minha vida, a solução dos meus problemas, o passado batendo à porta, e eu sentia que ia desmaiar. Minha respiração prendeu na garganta.
— Raio, você disse que eu podia entrar. Sou eu. O Rei — disse, me fitando com aquele jeito de ninja sexy com máscara preta.
Sem conseguir dizer nada, totalmente ciente que para piorar a situação depois de 6 anos eu ainda estava com um pano amarrado na cabeça, dei para ele minha cesta.
— Segure minha cesta — Ofereci para ele segurar, sem pensar, gaguejante.
Ele olhou estranhado para o cesto cheio de meias.
— Está tudo bem? — perguntou, demonstrando preocupação. Seus olhos se tornaram aflitos.
Sabia que eu deveria estar pálida. E pequena, tão pequena, com meu 1,64 m diante dos 2 metros dele.
— Não, não está, grandão — falei, ainda em choque, querendo chorar ao ver seus olhos tão lindos. Ele usava um casaco preto, e calças jeans. Estava mais gostoso do que nunca.
Meu grandão...
— Raio... — murmurou meu nome com aquela doçura de sempre.
Era tempo de coronavírus, eu estava sensível, estava de TPM. Meu coração palpitava. Não podia ser. Eu nem tinha comida nada. Estava de dieta, só chá de hibisco com gengibre a manhã inteira.
— Vou desmaiar, Rei... — avisei, com a voz fraca.
E, kabum!
Eu desmaiei mesmo. De passar vergonha eu entendia muito bem. Sempre fora assim.
E eu sabia que quando eu passava vergonha, ele sempre podia me confortar, e percebi isso quando acordei nos braços dele.
CAPÍTULO 2
Algo sobre você
É como um vício
Bata-me com seu melhor tiro mel
Eu não tenho razão para duvidar de você
Porque certas coisas machucam
E você é minha única virtude
E eu sou seu virtualmente
E você continua voltando, voltando novamente
Continue correndo em volta, volta correndo, correndo em volta da minha cabeça
E há certas coisas que eu adoro
E há certas coisas que eu ignoro
Mas estou certo de que eu sou seu
James Arthur, Certain Things
— Baby, sou eu... — Senti sua mão carinhosa afagando meu rosto, e não havia mais um homem mascarado em minha sala.
Só havia Reinaldo com uma barba rala em seu rosto, o que me fez sorrir. Nunca havia o visto assim. Estava tão sexy, mais velho, e o vendo assim tão perto, pude perceber que estava com olheiras.
Era a coisa mais sexy do mundo com aquele cabelo desalinhado, e com aquele olhar misterioso que via comigo as estrelas.
Estava muito mais homem, exalando pura testosterona e aquilo me fez suspirar ainda mais longamente.
Um vago sorriso, muito doce, apareceu em seus lábios
— Eu passei álcool em gel, querida. Não vou te infectar. Passei álcool em gel na sua cara toda, e troquei sua roupa— disse com voz suave.
—Quê? Você tirou minha roupa? Você tá doido, Rei? E ainda fala isso com voz suave? Meu Deus! Você me viu nua? — perguntei, querendo morrer.
— Só de calcinha e sutiã. — Havia um sorriso sem vergonha na face dele ao me dizer isso, ou estava ficando doida de tanto cheirar álcool em gel?
Estava chocada. Era ao menos um conjunto branquinho de algodão que não estava furado... Graças a Deus.
Engoli em seco, sentindo minha cabeça ainda zonza. Percebi que ele passou a segurar minha mão e que eu estava no sofá e Gato nos olhava com um olhar indolente, como sempre.
— Tive que carregar você e minhas mãos não estavam limpas. Sabe como é, coronavírus. Estava já quase chamando uma ambulância, que bom que você acordou. Estava preocupado. Você está bem?
— Sim, foi apenas um desmaio... Estou me sentindo muito melhor. Minha pressão é baixa.
— Fico feliz. Tem certeza de que não quer ir a um hospital?
— Não, imagine, já estou ótima. Acho que... foi do susto — concluí.
Olhei para Reinaldo, tentando me fazer acreditar que ele estava mesmo ali, e foi aí que percebi que ainda estava com um pano ridículo na cabeça, e, num gesto desesperado, eu o retirei, imaginando o quanto eu deveria estar ridícula.
Que vergonha.
Minha juba então se soltou, bonitona, domada. Castanha e longa. No ensino médio eu quase sempre o usava preso, e vivia espigado.
Agora vivia a base de óleo de coco e de rícino e muito produto L’oreal que eu comprava tudo parcelado. Meu cabelo estava um luxo.
Olhei para ele exibindo minha juba, sentindo-me muito melhor, mais mulher, mas quando meus olhos se encontraram com os dele, voltei a sentir aquela estranha sensação no estômago, e quase lacrimejei de paixão e tristeza.
Minha voz falhou, e fiquei uns instantes boquiaberta, olhando-o, e percebi que ele apreciava meu cabelo, observando-me, ainda acariciando minha mão na sua.
Minha mão muito pequena dentro da sua.
— Seu cabelo está lindo, baixinha. Está linda. Toda linda, pude comprovar. — Aquela afirmação sem vergonha de quem me vira só de calcinha e sutiã me deixou completamente atarantada, especialmente enquanto ainda havia um sorriso safado em seu rosto.
Fiquei sem saber o que dizer, a voz ainda presa na garganta. Sem poder me conter, eu levei minha mão até seu rosto, e surpreendentemente, ele deixou sua bochecha em minha palma, como um menino lindo e carente, ali, de joelhos ao meu lado.
Mas ele já era um homem de 25 anos, quase 26.
Era ousado, louco o que estávamos fazendo, mas o que não era ousado e louco naquele reencontro?
Por fim tirei minha mão de seu rosto, encabulada, e ficamos um tanto sem jeito em silêncio. Rei se sentou então no sofá e me afastei para que ele se acomodasse melhor.
— O que você está fazendo aqui, Rei? Quase desmaiei de susto. Achei que fosse uma alucinação de tanto álcool em gel, uma sequela de coronavírus, sei lá... — falei, perturbada, o rosto crispado, num suspiro lamentoso.
Vê-lo doía, doía de verdade.
— Não queria te assustar, desculpe — murmurou, com ar contrito, mas ao mesmo tempo com um sorriso nos lábios.
— Tudo bem... — Dei de ombros. — Não sonhava em reencontrar você um dia assim.
Ele ficou me examinando em silêncio.
— Sonhava em me encontrar?
Mordi os lábios, insegura com a minha fala imbecil que me entregava.
— Bem, você foi embora e nunca mais soube de você...Talvez tenha pensado em como seria um reencontro, sim. Talvez tenha considerado a hipótese.
Ele deu um sorriso que parecia triste, mas ao mesmo tempo me deu um olhar que parecia me varrer inteira, sensualmente. Ele era sempre sexual.
— Fico feliz que tenha sonhado com isso, em se reencontrar comigo, baby... — falou com a voz enrouquecida.
— Não afirmei nada, seu convencido — devolvi, sorrindo com ironia e arqueando a sobrancelha, tentando soar segura.
— Mas eu afirmo que sonhei em rever você. Sonhei muito, Raio... — falou com uma voz firme, encarando-me com mais firmeza ainda.
Fiquei absolutamente aturdida com aquela resposta.
Era eita atrás de eita.
A expressão de seu rosto naquele momento era insondável, mas percebi que ambos estávamos com a respiração alterada. Meu coração batia em minha garganta naquele instante.
O que Rei queria dizer com aquilo? Fora embora e virara um astro, e eu era uma coitada na última gaveta do esquecimento dele, apenas isso.
Mas agora ele estava ali, diante de mim, e ainda me olhando de forma sensual e emocionada. E aquilo estava me deixando nervosa, e quando eu ficava nervosa, eu ficava doida.
— O que veio fazer aqui depois de tanto tempo, Rei? Que diabos afinal está fazendo aqui?
Vi que seus polegares brincaram enervados em suas coxas fortes antes dele me responder.
Demônio gostoso.
— Eu não sei — respondeu depois de alguns segundos visivelmente nervosos.
Respirei longamente. Eu já havia ouvido aquilo dele uma vez. Naquela noite do beijo de despedida. Há 6 anos atrás. A mesma droga de resposta.
“Eu não sei”.
— Odeio mistérios, Rei — ralhei, aborrecida.
— Eu sei, eu sei que odeia. Talvez tenha vindo aqui para justamente descobrir por que queria tanto vir.
Aquela resposta me pegou completamente de surpresa, e apenas consegui olhá-lo silenciosamente em resposta.
Percebia que ambos estávamos perturbados. Meu coração ribombava no peito, numa emoção espiralada.
Não adiantava lutar para me controlar, e sentia que ele me observava, cuidadoso.
— Trouxe flores. — Ele cortou o silêncio, num sorriso lindo. — Seus girassóis. Já passei álcool em gel neles, e coloquei num vaso. Trouxe torta de abacaxi também. Foi difícil achar. É, tempos de quarentena...A gente arrisca a vida trazendo tortas e flores para a nossa garota.
Sorri lembrando que ele já havia me dado girassóis algumas vezes, além de alguns presentes que eu guardara como uma boba aqueles anos todos.
E que ele muitas vezes dava um jeito de me dar torta de abacaxi, especialmente na minha TPM, no passado, e eu sempre me sentia segura e protegida ao seu lado, e alguma coisa me fazia me sentir segura com ele ali, novamente.
Um gesto tão pequeno como aquele, flores e torta, preenchendo aquele lugarzinho vazio do meu coração.
Tão pouco era tanto agora.
— Você lembra... — sussurrei, emocionada, lutando para não chorar.
— Não esqueceria. Jamais me esqueceria de você, Raio de Luar... E é possível esquecer alguém com seu nome e com o seu senso de humor? Não, eu não esqueci da minha garota... — Acariciou-me por um instante, o dorso quente da sua mão em minha pele,
Olhei para Rei sentindo minha respiração faltar. Aqueles possessivos que ele estava usando, dando a entender que eu era sua, aquela mão gentil em meu rosto, aqueles olhos escuros me olhando bem perto, cheios de calor.
Será que era efeito do coronavírus? Gostar de mim era uma sequela? Ele bebera álcool em gel com cloroquina e corote e viera me ver no meio de uma alucinação?
Sem saber por que, fechei meus olhos e gargalhei um pouco.
E depois, gargalhei muito, que nem uma doida.
— Agora eu que te pergunto, Rei, você está bem? — perguntei, tentando parar de rir.
Ele ria também, sempre adorava me acompanhar nas brincadeiras.
— Com você rindo da minha cara, minha baixinha, sempre vou estar bem. Que bom que estou vendo minha garota, e que ela adora debochar de mim.
— Seu tonto!
— Pode crer! Sou seu tonto! — Ele ria comigo, de chorar agora.
— Veio dos EUA em plena pandemia para ouvir minhas piadas bestas, seu zé ruela? Que perdedor! — provoquei.
— Sim, um perdedor, mas um bom perdedor se for para rir com você, baixinha. Você vale a pena, minha querida. Você sempre valeu a pena. Quem mais me faria rir em plena pandemia? Quem mais faz da tragédia uma comédia? — ele brincou, ainda rindo e me dando uma piscadela, já se controlando, e havia uma profunda doçura em seus olhos e sua voz.
Continuei gargalhando, com lágrimas nos olhos, porque assim disfarçava minha vontade de chorar ao ouvir tudo aquilo.
Não queria acreditar que eu era importante para ele. Que eu era querida.
Que nem tudo era devaneio da minha mente, que ele não fora um canalha comigo 6 anos atrás, pisando em toda nossa amizade e me esquecendo em seguida.
Pessoas importantes umas paras outras não se deixam. Pessoas queridas não se machucam.