Quer Namorar Comigo?
Sinopse
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Pessoas que se amam ficam juntas.
Não queria me magoar acreditando nele.
Percebi que ele ainda ria também, quase chorando. Ríamos como dois idiotas, como se fôssemos ainda os melhores amigos numa vida e num mundo que não existiam mais.
Tanta coisa nos separava, mas ele estava ali agora, na minha sala, no meu sofá velho e duro.
E ainda me trouxera girassóis e tortas depois de 6 anos de tristeza, e ficamos ali, até nos controlarmos, como nos velhos tempos.
Silenciando-me, pigarreei, tentando me recompor.
— Desculpe essa crise de riso.
— Estava com saudade da gente rir até perder ar...
— Eu também... — confessei, sentindo uma leve tontura ao lembrar da rigidez de seu corpo contra o meu, seis anos atrás.
— Bem, Raio, afinal, por que desmaiou? Quer que eu chame um médico? Está grávida? — ele perguntou, de repente, com um ar perturbado e o olhei como se ele fosse o ET de Varginha.
— Quê? Grávida? Por que eu estaria? — perguntei fazendo uma careta.
Rei deu de ombros.
— Não sei, as mulheres engravidam o tempo todo, e elas desmaiam...
— Para poderem engravidar, mulheres precisam de um homem, e bem, eu não... — Percebi que estava expondo minha vida derrotada e virginal para ele, e resolvi me calar, chutando-me mentalmente e me recostando no sofá, encolhida.
Raio de Luar, sua burra. Pare de falar tanto. Não entregue o ouro. Mantenha o mistério.
— Não tem um homem na sua vida nesse momento? — ele indagou parecendo ansioso, movimentando as pernas com um tique.
Pensei um pouco antes de responder, estranhando as reações corpóreas de Reinaldo.
Infelizmente, eu era péssima para mentir, e péssima para descobrir verdades também.
— Não, eu estava era com fome e fazendo dieta mesmo...juntou com o susto que você me deu, a minha TPM, e foi feita a desgraça...
Ele simplesmente expirou parecendo aliviado e me disse descaradamente.
— Graças a Deus...
— Quê? Eu desmaio e você agradece?
— Não, não...Não é isso... — falou, sem jeito, e sorrindo, o desgraçado. — É que fico feliz que não tenha um homem na sua vida agora.
— Por quê? — perguntei, direta como um tapa na cara.
Mais uma vez ele pareceu lesado e perturbado e me veio mais um:
— Eu não sei...
Já revirei os olhos, impaciente.
— Mas sei que não gosto da ideia de ver minha tampinha com um homem ao seu lado — ele prosseguiu, diante da minha exasperação.
Mas com aquela resposta, eu estava ficando completamente boquiaberta e atordoada.
— Como você está esquisito, Grandão. Achei que sua cota de esquisitices já havia sido batida quando você foi embora há 6 anos, Rei...
Ele pareceu engolir em seco, extremamente tenso.
Ele continuava esquisito...Sim, ele estava extremamente esquisito antes de ir embora... Deixou-me completamente confusa e emocionalmente destruída por anos, e não queria agora, de modo algum, denunciar tudo o que estava sentindo.
Não queria que ele soubesse que eu sofri, mas, droga, eu desmaiei ao vê-lo. Como pude ser tão idiota?
A gente não pode nem desmaiar de emoção em paz.
— Desculpe se pareço esquisito e se estive esquisito quando fui embora. Não foi fácil ir embora, Raio.
Tornei a encará-lo, perplexa com sua sinceridade.
É, não foi fácil a sua partida, quis dizer, mas suspirei fundo e me calei, e acabei olhando fascinada para sua boca que agora estava ali, sensualmente perto da minha.
Lembrei daquele dia em que ele havia me estreitado em seus braços, e a lembrança de sua língua quente na minha, o modo como me segurara com força e jogara minha cabeça para trás para devorar minha boca.
Juro que estava me dando até coceiras de tão nervoso, e comecei a coçar meus braços como uma maluca diante do olhar intrigado de Rei.
Eu andava tendo coceiras se me enervava.
— Você tá bem, Raio?
— Você me dá coceira... — confessei enquanto me coçava...
— Quê? — ele perguntou, atônito.
Ah, meu Deus.
— Não sei, Rei. Estou nervosa. Sou esquisita também. Não posso reclamar de você — respondi com toda minha absurda franqueza.
Foi quando ele pegou minha mão com firmeza, fazendo-me parar de me coçar e fitá-lo.
— Calma, Raio... Respira... Respira... A coceira vai passar — instruiu, paciente.
Respirei como ele disse, e ele ria. E realmente, fui me acalmando e a coceira foi passando.
Mordi os lábios enquanto ele estava ali ao meu lado.
— Desculpa te dar coceira e por ser esquisito, Raio...
— Tudo bem, Grandão. — Tranquilizei-o com um sorriso.
Seu semblante se tornou pensativo.
— Sei que sou esquisito, mas gosto de mim mesmo quando estou com você. Gosto de quem sou ao seu lado, e sim, eu vim de muito longe para rever você, Raio. Só para rever você — falou, com um tom de voz emocionado que me quebrou em mil pedaços.
Sentindo meus lábios trêmulos, perguntei com cautela, enquanto sua mão acariciava a minha.
— Sério?
— Hum- Rum. Vim só para estar com você — afirmou com a voz firme. — Pena que te dou coceira.
Lamentei o fato.
— É que você mexe comigo — confessei burramente, aquela frase tola traindo tudo o que sentia sobre ele.
Ele sorriu com ar vitorioso.
— Você também mexe comigo, Raio. Faz-me inclusive vir até aqui. Mesmo depois daquele tapa que você me deu. E de anos de silêncio.
Fitei-o mais uma vez aturdida. Não fazia a menor ideia de que ele se importava com o meu silêncio. As coisas não foram boas entre nós perto de sua partida.
Ele fora embora namorando com Natasha, não comigo.
— Bem, você também se silenciou, Rei — falei cheia de mágoa e hostilidade, cruzando os braços, protetivamente.
O orgulho me revolveu naquele instante, lembrando do que nos aconteceu, e depois aquela imensa sensação de solidão e saudade, e percebi que seu semblante se fechou.
— Tivemos nossas vidas, Rei. Nossos destinos, como pode ver. Cada um no seu quadrado. Não há nada errado nisso.
— Pode ser. —Ele deu um sorriso triste. — Mas nunca me esqueci de você, Raio. Nem da vida que compartilhamos. Nem nunca esqueci de seu café com canela. — Havia tanta verdade naquela declaração e no seu olhar que um furor me arrepiou.
Fechei os olhos por um instante, presa na doçura daquela declaração e daquele olhar escuro de alguém que via as estrelas comigo, anos atrás, e me carregava em seus ombros, e sempre havia me protegido de todo o mal, fazendo-me tão feliz.
Ao abrir meus olhos, ele ainda estava lá, com o sorriso que sempre tirava o melhor de mim.
— Gostaria de tomar meu café, grandão? — perguntei, comovida.
— Estou há 6 anos esperando por ele, Raio. De coração — disse, num sorriso que, se eu não fosse apaixonada por ele, eu me apaixonaria naquele exato momento.
O olhar de Rei era de uma franqueza avassaladora. Ajeitei devagar os cabelos detrás da orelha.
— Vai me convidar para uma xícara de café? — ele insistiu, arqueando uma sobrancelha sedutora, enquanto a ternura se apoderava de mim.
— Está bem. Te faço um café.
Sabia que tomar um café e falar amenidades nos salvaria daquelas emoções quase incontroláveis.
CAPÍTULO 3
O que é que deveria fazer sem você?
É tarde demais para juntar as peças?
Muito cedo para deixá-las ir?
Você se sente danificado apenas como eu me sinto?
Seu rosto, faz meu corpo doer
Você não quer me deixar em paz
Always, Gavin James
Enquanto a gente lanchava, para descontrair, estávamos falando sobre o presente, o passado, e mesmo sobre a loucura da pandemia.
Não, não foi fácil dizer sobre a morte de meus pais.
Mais uma vez sua mão foi consoladora pegando a minha, assim como seu silêncio cheio de atenção para me escutar foi quase caricioso.
— Sinto-me péssimo. Eram pessoas maravilhosas. Sou muito grato pelo que me fizeram. Eu sinto tanto, baixinha. Sinto tanto por você. Ah, baby...— Fechou os olhos e apertou mais forte minha mão. Sabia que ele sofria de verdade ao dizer aquilo
— Tudo bem, Rei. Já faz tanto tempo... — disse com delicadeza, afagando sua mão também, tentando fazer com que se sentisse melhor.
Ele assentiu, com o semblante bastante pesaroso.
— Mas eu deveria estar aqui quando aconteceu. Droga, Raio...Eu deveria ter ao menos telefonado. Eu fui tão relapso...Eu fui tão egoísta esse tempo todo...Se soubesse o quanto me sinto mal — sussurrou com uma voz entristecida.
Suspirei resignada.
— Não se culpe, Rei. O que você podia fazer?
— Não ter sido um filho da puta? — indagou, franzindo o cenho.
Não consegui dizer que ele não era um filho da puta.
— Estava ocupado, Rei. Você agora é King of Magic, não? O todo poderoso e multimilionário. Aliás, confesso que é esquisito ver você na televisão, nas revistas...
E com as garotas, quis completar, mas sempre fora assim: ele com mil garotas ao seu redor, e eu tendo de me habituar.
— Também acho esquisita às vezes a vida que levo. Não sei às vezes quem sou, Raio. Não sei se gosto da vida que levo, mesmo sendo “King of Magic”
Olhei-o, desconfiada, e dei um murrinho nele.
— Doeu? — perguntei, como fazia antigamente.
Ele riu, depois de fingir que havia doído.
— Baby, não, não doeu — respondeu, com astúcia, arqueando as sobrancelhas.
— Pois deveria! — brinquei como sempre brincava, tentando dar leveza à nossa conversa. —Desde quando dinheiro é ruim, seu coisado? Nem vem que não tem, faça-me o favor! Vem trocar de vida comigo, mocinho. Vem batalhar para não andar com meias furadas, aliás, não sabe como estou grata por você não ter me visto com as minha calcinhas furadas! — gargalhei, sem pensar no quanto eu estava sendo tonta, e piorando ainda situação, para provar o que eu dizia, ergui minha perna e mostrei a barra do pijama que o doido tinha me vestido enquanto estava desmaiada. — Olha isso, filhote. Quer trocar de vida? — falei, apontando meu pezinho com a barra desfiada para ele.
Sem que eu pudesse dizer nada, ele pegou meu pé entre suas mãos, e o agarrou com delicadeza, deslizando seus dedos quentes, e deu alguns beijos demorados no dorso do meu pé, sem tirar os olhos de mim.
A sensação passou da planta dos pés para cada poro do meu corpo, arrepiando-me totalmente, e tentei controlar meu estremecimento, em vão.
Percebi que ele observava atentamente minhas reações físicas, o que me deixou mais uma vez bastante vermelha. Por fim recuperei meu pé, sem graça com aquele assalto sensual, e ainda mais confusa com aqueles sentimentos que ele estava me despertando.
Não quis comentar sobre o que ocorreu, embora ele me olhasse como se estivesse esperando uma resposta, como seus olhos estreitados, em expectativa.
Engoli em seco, sentindo a maldita tensão sexual me tomar. Ele sempre tivera aquele poder sobre mim: fazer-me pensar em sexo. Ele inteiro era uma mensagem sexual gritante.
— O pé é meu, seu coisado — brinquei, tentando voltar ao controle.
Ele sorriu maliciosamente, lindo.
— Será?
Era a pergunta misteriosa de uma pessoa astuta, e preferi ignorar, voltando ao assunto anterior.
— Sobre sua vida, Rei, realizou seus sonhos, deve estar feliz. Você sempre quis ser o grande astro de basquete, mas sei que isso tem um preço. — Tomei um gole de suco, tentando parecer casual.
— Um preço muito caro, Raio — murmurou tristemente, após um instante de silêncio angustiado. — Não sei se sou feliz. As coisas não parecem se encaixar. Nem sempre conseguirmos o que planejamos é exatamente o melhor para nós.
Assenti, pensativa.
— Mas você é um sucesso, Rei. Não é mais apenas o rei das garotinhas — brinquei, tentando disfarçar minha tristeza. — É também o rei do basquete.
— Talvez, mas pra começo de história, não sou o rei das garotinhas, Raio de Luar, e se saí com algumas mulheres nesse tempo, nenhuma significou nada, nenhuma importou, e não, eu não me sinto nada feliz — declarou, franzindo o cenho, angustiado. — Não sei se o “ King of Magic” é feliz. É uma vida de muitos sacrifícios. Tenho dinheiro, correto. Muito dinheiro, e quer saber, Raio? Eu me sinto um mendigo às vezes, necessitando de alguma coisa que eu não sei, mas que não é dinheiro, ou sucesso. Ou garotas vazias. Não sei se me entende.
Não quis criticá-lo. Eu também não me sentia feliz, e não sabia se o entendia, mas sabia que sua confissão sobre as mulheres me deixou aliviada.
— Não sei se seria uma mendiga se tivesse milhões, Rei. Eu sempre quis ter conforto financeiro, você sabe. Bem, eu quis algo melhor para minha vida. Mas a verdade é que fracassei — confessei cheia de pesar, a voz sofrida. — Quis ir longe, e me esforcei tanto. Você sabe, você é minha testemunha — falei, quase chorando.
— Ah, Raio. É claro que sei, e sempre te admirei por isso.
Minha garganta doía de tanta tensão.
— Você conseguiu, Rei. Alçou voo, e me sinto tão orgulhosa de você! Como me sinto! Mas é a verdade é que eu ainda estou aqui. Entrei na USP. Tanto esforço e tanto cansaço. — Respirei fundo antes de continuar, sob seu olhar atento, sentindo minha voz embargada e uma dor horrível no peito. — Ler em pé no metrô, Rei. Contar moedas. Muitos sonhos e planos. Inglês perfeito. E sabe o que consegui? Apenas vendo roupas. Estou tirando no momento por causa da pandemia apenas um salário mínimo. É isso, eu fracassei — admiti, cheia de tristeza, percebendo que uma lágrima queria escorrer, e me prontificando a enxugá-la, antes que me fizesse passar mais vergonha.
— Pare com isso, Raio de Luar. Você nunca fracassou. Nunca fracassaria. É só uma fase de sua vida. Você é a garota mais incrível que conheço. Sempre foi, e nunca senti nada menos do que orgulho de você — falou, com os olhos cheios de ternura, num misto de encorajamento e censura.
Quis chorar por sua bondade, controlando um sorriso traiçoeiro, cheio de encantamento, e dei outro murrinho nele, em seu peito, sentindo-me exasperada, frustrada.
— Pare de ser tão fofo, Grandão! Você não é assim, você não é sempre fofo...
— Não? — ele perguntou num tom macio e com um sorriso sedutor.
— Não, você é cruel — acusei num tom magoado, a mente cheia de recordações.
Tomei ar antes de continuar diante de seu olhar perturbado.
— Você foi embora, Rei. Sei que foi por sua felicidade e sucesso, mas você foi embora daquele jeito, e agora está aqui na minha cozinha me dizendo essas coisas e pedindo meu café e beijando meu pé...
Ele me olhava, perplexo.
— Por que beijou a droga do meu pé, Rei?— exclamei, fora de mim. Tudo aquilo saiu aos borbotões, e agora o encarava com olhos estatelados e lacrimosos, exigindo dele uma resposta.
Ele tinha uma expressão sofrida, e sua mandíbula estava retesada.
— Porque sempre achei seus pés lindos. Eles são magníficos e pequeninos, como você. Porque se existe uma pessoa que merece ter os pés beijados, é você. Porque sempre quis fazer isso, Raio. Porque eu quis, droga!
Aquilo era mais que eu podia suportar. Sentia-me confusa, e não queria alimentar sentimentos que nunca havia me atrevido a deixar crescer.
— Mas que coisa, Rei! Não se bagunça assim a cabeça de uma pessoa. Isso não se faz! Bagunçar minha cabeça não é bom, muito menos meu coração. Não sei se você sabe, Rei. Sempre tive um coração, mesmo que você nunca tenha ligado para isso — acusei-o, a voz engolfada, e por fim, nocauteada pelas emoções, escondi meu rosto na curva do braço e encostei minha cabeça na mesa, escondendo o choro, mas então senti seus dedos mansos em mim.
— Raio, meu bem, desculpe. Não chore — Tocou meus fios enquanto murmurava com ternura.
— Não fique assim, minha baixinha — insistiu com sua voz rouca. Reinaldo acariciava meus cabelos, fazendo-me girar o rosto e o olhar, em meio às lagrimas que ele passou a enxugar com suavidade.
Um calor doce me percorria, junto de meu amor secreto que sentia agora transbordar.
Sentia tanta vontade de tocá-lo, de sentir seus punhos grossos, seus braços fortes, acariciar seu rosto como havia feito uma única vez, tanto tempo atrás.
Queria tanto que doía.
— Por que me chama de minha baixinha, Rei?
— Porque sempre quis que você fosse a minha baixinha. E preciso dizer isso. Por Deus, Raio, eu preciso te dizer isso — Ele sorriu, agora acariciando meu rosto com uma doçura infinita, e simplesmente deixei que ele fizesse aquilo por vários minutos, que me acariciasse, querendo acreditar naquela magia, naquela ternura sem fim.
Simplesmente cedi, sucumbindo ao amor que sempre me dominara, enquanto chorava baixinho.
Queria que ele me acalmasse, que ele fizesse círculos de veludo em meu rosto, em meus cabelos, como estava fazendo agora, para sempre. Simplesmente não queria que acabasse.
Queria ficar sob a luz das estrelas que moravam agora no seu olhar.
— Vem cá, Raio — murmurou, segurando em meu braço, enquanto afastava a cadeira. — Vem cá, meu amor.
Olhei sem ar para seu grande e delicioso corpo em expectativa, para seu peito que subia e descia, para seus lábios entreabertos, para seus olhos profundos e escuros que me observavam com uma intensidade única, sem saber o que fazer, mas antes que eu pudesse pensar ou protestar, ele me puxou com força e de repente estava me acomodando em seu colo.
Rei fez com que eu deitasse minha cabeça em seu ombro, e me senti embalada como uma garotinha, enquanto enlaçava seu pescoço forte e sentia mais uma vez o poder de seus ombros largos e musculosos.
— Fique aqui, nos meus braços. Pode me usar, Raio. Preciso que me use. Preciso de você. Por favor, precise de mim tanto quanto eu preciso de você.
Tudo havia desaparecido. Só havíamos nós naquela cozinha, e aquele afeto estranho que nos unia.
E podia sentir todo a intensidade daquele sentimento.
— Rei, você não presta — falei, afundando meu rosto em seu peito, quase gaguejando. — Mas eu gosto de você, eu gosto tanto de você. Sempre gostei de você, maldito seja — murmurei contra seu casaco.
— Que bom que gosta de mim, Raio. Eu, eu te adoro. Por Deus, menina, eu te adoro. Nunca vai entender o quanto você foi e é importante para mim — ele falou baixinho com a voz grave brincando em meu pescoço, que ele agora acariciava, e fechei meus olhos, aconchegando-me melhor, até que ele desceu a palma quente em minha coluna e me abraçou ainda mais apertado.
Aquele cheiro, aquela dureza, estar em seu colo...meu Deus, eu não podia controlar o que estava sentindo.
Era uma paixão de anos, uma agonia, e toda aquele seu carinho, e sua doçura, e seu cheiro, e sua beleza me tonteando...
— Eu senti tanto sua falta — confessei, vencida, em sua orelha. — Quis sempre me dizer que não sentia, mas a verdade é que senti tanto, tanto a sua falta. Eu me fiz de forte por 6 anos, Rei, mas tem sido tudo tão difícil sem você... Foi uma droga quando você foi embora. — Solucei. — E agora está sendo tão difícil essa pandemia. Eu sinto tanto medo — voltei a confessar , como uma criança.
— Estou aqui, baby...Estou aqui, meu amor...
Meu amor, ele dizia meu amor...Ele era meu amor. Seria um sonho, um milagre? Estava tão confusa...
— Mas você não estava aqui... — choraminguei, magoada.
— Mas agora estou. E me odeio porque demorei tanto a me decidir a vir, por puro orgulho e estupidez. Mas um homem muda, Raio. Daria tudo para ter estado aqui, para ter feito as coisas de uma forma diferente ... — murmurou com a voz trêmula, emocionada.
— Mentiroso — solucei em sua pele, sentindo o sal das minhas lágrimas. — Você foi embora, você me deixou, Rei. Você nem se despediu de mim. Você foi um canalha. Um desgraçado. E eu sou uma fraca por estar aqui te dando trela — falei, de repente, batendo nos ombros dele, cheia de auto censura, e erguendo meu rosto para olhá-lo acusatoriamente, lembrando-me tudo o que ele me fez sofrer e da loucura que era ele estar ali agora, na minha frente. E da vontade surreal que eu tinha de beijá-lo.
Não conseguia tirar os olhos daquela boca.
— Raio, se teu te beijar, você me bate como naquela outra vez? — ele perguntou, acariciando meus lábios, o que me fez ofegar.
Eu o odiava, eu o odiava por segundos, depois o amava mais. Sempre foi assim, mas lembrar daquela noite e de como ele foi embora me fez bancar a difícil.
— Bato.
— Posso correr o risco — murmurou sedutoramente, sorrindo de canto, aproximando seus lábios do meus. Por quase um segundo, permiti, mas então eu fugi em seguida e o empurrei.
— Desgraçado — xinguei, querendo chorar. — Você foi embora, seu zé ruela.
— Mas foi você quem me deixou, Raio. Esperei você a noite toda, e você não veio.
Levantei-me abruptamente, cheia de indignação.
— Quê? Mentiroso! Não me esperou!
— É claro que esperei, Raio! — Ele se levantou também, fazendo uma expressão estranhada, na defensiva. — Mandei um monte de mensagens para você, e te esperei até o amanhecer! Fiquei arrasado, porra! Tem ideia de como me senti quando fui embora e você sequer se despediu de mim?
— Pare de mentir!
— Não estou mentindo, caramba! Estou aqui, quero você, quero beijar você! Pare de loucura!
— Nem vem que não tem! Daquela vez, você não gostou de me beijar! Até me pediu desculpas por ter me beijado! Peço desculpas por ter deixado você me beijar também!
— Nunca pedi desculpas, como assim? E nunca pediria, pois nunca me arrependi de ter beijado você —exclamou, parecendo furioso. — Que loucura é essa, Raio?
— Claro que pediu! Natasha mandou seu recado dizendo que foi uma loucura, que você estava bêbado, que quis brincar comigo! E logo depois, ela foi se despedir de você toda piranha e vocês transaram a noite inteira no clube, isso sim!
Ele me olhou longamente, parecendo chocado, passando as mãos no cabelo, enquanto eu o encarava parecendo um gato em cima do telhado querendo dar patada, toda espichada pra ver se eu ficava mais alta tentando impor medo, mas ele não tinha medo algum de mim. Rei estava ali, determinado, defendendo-se.
— Não transei com Natasha porra nenhuma! Já tinha terminado com ela há muitos dias quando fui embora. E não mandei droga de recado nenhum! Fiquei plantado a noite inteira esperando você, isso sim! Como um trouxa!
Olhava-o, confusa. Ele estava realmente parecendo tão indignado e consternado quanto eu.
— Quê? Mas não pode ser! — murmurei.
Rei me olhou de modo muito sério por um longo instante, e parecendo suspirar longamente para se acalmar, ele me disse, num tom grave:
— Eu não minto, Raio.
Eu sabia que aquilo era verdade. Confusão e sofrimento explodiam em meu peito vendo-o ali, com seu maxilar rígido.
— Acho que Natasha nos aprontou uma cilada, Raio —ele continuou deixando-me cada vez mais chocada.
Fiquei ali, sem querer acreditar, e de repente minha mente voltou para 6 anos atrás.
CAPÍTULO 4
Você sabe que eu te quero
Não é um segredo que eu tento esconder
Você sabe que me quer
Então, não continue dizendo que nossas mãos estão atadas
Você diz que não está nas cartas
E que o destino está te levando a quilômetros de distância
E longe do meu alcance
Mas você está aqui no meu coração
Então, quem pode me parar se eu decidir
Que você é meu destino?
Rewrite The Stars (with Anne-Marie) James Arthur
SEIS ANOS ATRÁS
Natasha se arrumava no espelho do clube. Alta, como uma boa jogadora de basquete. Um corpo perfeito. Eu batia no seu ombro, quase.
Era uma festa de despedida que o pessoal da escola havia montado para Reinaldo.
Sem graça, eu decidi ir, embora a gente pouco tivesse se falado durante aqueles meses depois daquele quase beijo.
Era o último semestre, e estava aquela loucura de vestibular, e Reinaldo estava treinando como nunca.
Confesso que eu sentia vontade de fugir dele. Tremia de nervoso quando o via e ficávamos nos entreolhando fixamente, numa emoção muda. Onde estava a nossa naturalidade, nossa espontaneidade? Por que a gente se olhava tão esquisito, por que meu peito ardia tanto e o amor que eu sentia sufocava na garganta?
E quando soube que ele iria embora, eu o motivei da melhor forma que pude.
Lembro da cara de cemitério que Reinaldo tinha quando me contou que conseguira ser chamado pela liga de basquete juvenil americano.
Gritei, pulei, comemorei que nem uma idiota.
E bati nele, é claro. Como assim ele estava infeliz? Como assim inseguro?
Por fim, ele passou a rir também, e tentei me mostrar feliz por sua felicidade.
Os amigos se alegravam pelos seus amigos, não? Ao menos me dizia aquilo, como um mantra, berrando mais que todos, para esconder aquilo que eu realmente sentia: uma imensa angústia.
Sim, eu deveria estar feliz, mas, Deus! Doía tanto!
Mas a verdade é quando cheguei em casa, percebendo que ele iria embora, e que nunca mais o veria, eu fui ao banheiro, e me agarrei na toalha, chorando tanto e tão descontroladamente que temi que minha mãe ouvisse meu choro que eu tentava sufocar no tecido.
— Rei, nunca mais vou ver você, nunca mais, meu amor... —soluçava em meio às lágrimas que caíam aos borbotões.
Foi assim por semanas, chorando no banho. Mas fui chorando cada vez mais baixo, e cada vez mais eu me sentia mais conformada.
Mas como era duro vê-lo na escola naqueles últimos dois meses desde que ele recebera a notícia que iria viver em outro país! Eu praticamente saía correndo quando o via, contudo, amava olhá-lo de costas.
Meu Deus, como a bunda dele era linda!
Fiquei mais magra, era difícil comer, e tentava me concentrar nos estudos, mas de repente, estava lá... Desenhando o seu nome, ou virando meu rosto na sala de aula, para vê-lo, lá atrás, onde ele sempre se sentava.
Sempre parávamos de sorrir quando nossos olhos se encontravam, enquanto eu ficava vermelha de tão sem jeito. Porém, quando nós nos falávamos, meu discurso era sempre o mesmo: vai com tudo, agarre sua chance, seja um vencedor, é isso aí, grandão!
Soube que ele e Natasha tinham terminado há um tempo, mas, pelo que ela estava falando há uns dias, eles tinham voltado, e Natasha e ele dariam um jeito de continuarem o namoro mesmo à distância, afinal, amavam-se muito e não poderiam viver um sem o outro.
Ouvi aquilo o dia inteiro no dia da festa de despedida, enquanto ajudei nos preparativos do clube que alugamos, fazendo um monte de sanduíches de metro para a despedida dele.
Confesso que morria de tristeza...Natasha era linda, mas era tão burrinha, e tão vulgar...
No fim do dia, já havia conseguido tomar banho, e comecei a me arrumar. Mariana, uma menina muito gentil, que adorava se maquiar , me emprestou um vestido lindo acima dos joelhos, de saia rodada, azul com decote princesa, e também um pequeno cinto que me deixou com uma cintura finíssima, especialmente agora que eu estava mais magra de tanta tristeza.
Ela também fez um baby liss rápido que deixou meu cabelo lindão e eu me maquiou pela primeira vez na vida, e calcei aqueles saltos dourados.
Senti-me pela primeira vez uma princesa. Realmente o resultado estava maravilhoso. Entendi pela primeira vez o poder da maquiagem.
Eu parecia uma outra pessoa no espelho, e estava retocando meu batom que ganhara de presente da Mariana junto de outras makes, quando Natasha apareceu lá, dando um suspiro longo enquanto passava rímel com seu ar arrogante no espelho.
— Ai, ai, estou tão feliz que Rei e eu voltamos! O amor sempre vence! Vencerá mesmo à distância! — comentou com aquela irritante voz empostada, empinando o nariz.
Fiz uma careta no espelho, que Natasha notou. Ai, que menina entojada...
— Ele não te contou? — ela perguntou, olhando-me de soslaio.
—Não — respondi, emburrada. — Mas você já contou isso o dia inteiro para todo mundo, ficou meio difícil não saber. — Dei um sorriso cínico e só pra não ficar por baixo, passei rímel também.
— Voltamos e foi lindo. Perdi minha virgindade com ele ontem à noite. Fizemos um pacto e vamos ficar noivos — falou sorridente, com ar vitorioso.
Quase enfiei o rímel no meu olho ao ouvir aquilo, ainda bem que era transparente e não borrou.
Quase tremi também, mas alguma coisa estava errada ali, e pus a mão no queixo, pensando.
— Mas você ano passado não disse que deu para uns 5 caras aqui da escola, Natasha? Não berrou isso para todo mundo?
Natasha me olhou boquiaberta, e algumas meninas que estavam atrás de nós se arrumando começaram a rir.
— Nunca disse isso, sua pirralha!
— Disse sim. Sempre foi uma oferecida! — Nem eu acreditava que estava enfrentando aquela ordinária. Talvez fosse o ciúme me corroendo.
— Não disse nada, mentirosa! E só não bato em você porque você parece uma formiga, sua tampinha ridícula!
Iria dar uma cabeçada nos peitos dela, mas alguém lá atrás gritou:
— Claro que disse, Natasha!
As meninas riram, e constatei que não precisava me rebaixar ao nível dela. Também não queria demonstrar o quanto estava morrendo de ciúmes.
— Eu menti sobre o ano passado! — Ela cruzou os braços. — Queria impressionar vocês, suas tontas. E é claro, vocês caíram. Acham que iria trocar a chance de ter minha primeira vez com um homem como Reinaldo para ficar com aqueles caras? Nem lembro quem eles eram!
— Eu lembro — acusei.
Natasha me devolveu um olhar odioso.
— Pois pode perguntar para Reinaldo, queridinha. Ainda estou assada de nossa primeira vez ontem. Ele é um animal simplesmente delicioso. Não que um dia você tenha chance de transar com um cara como ele, e com aquele dote...
Quase estava jogando meu estojo de maquiagem na cara daquela abusada, mas ela não diria aquilo se não fosse verdade.
Era bem típico dela se exibir. Parecia crível que tivesse se guardado para Reinaldo, e sim, aquilo me despedaçava.
E eles eram namorados, afinal. Bem, mas que me importava a vida sexual deles? Eles se mereciam.
Foda-se. Resolvi sair dali.
Fui então para a festa, vendo o povo comendo meu pão de metro e ouvindo trance.
Era menor de idade e não bebia, mas percebi que Reinaldo estava já ali, e bebendo muito. De roupa social. Uma coisa linda de suspirar e que doía demais ver.
Por alguns momentos, enquanto vagava sozinha, sem jeito, tinha a impressão de que ele me olhava. Podia sentir aquele estremecimento quando sentimos que alguém nos observa fixamente pelas nossas costas.
Aliás, não sabia por que fui naquela festa idiota.
Por fim, notei que Rei ia começar a cantar para aqueles imbecis, e vi o quanto estava tão lindamente irresistível, com seu cabelo que estava ficando comprido, caindo sobre seus olhos tão sensuais.
Cada poro meu sentia a força daquele olhar, e eu ofegava.
Ao segurar o violão, aqueles olhos escuros de sobrancelhas espessas e cerradas estavam sobre mim, brilhantes. Quando Rei começou a cantar, e sua voz rouca e melodiosa começou a ecoar, arrancando um estremecimento por toda minha pele, ele continuava a me olhar com uma intensidade que estava me dando palpitações.
Era estranho, mas Rei cantava, e me olhava, e me olhava...E eu não conseguia parar de olhá-lo. Ele me prendia, seduzindo com sua voz e o modo como me fitava, e eu me arrepiava cada vez mais.
Ele cantava Sam Smith, sem tirar seu olhar escuro de mim.
“Guess it's true
I'm not good at a one night stand
But I still need love
'Cause I'm just a man
These nights never seem to
Go to plan
I don't want you to leave
Will you hold my hand?
Oh, won't you stay with me?
Cause you're all I need
This ain't love, it's clear to see
But darling, stay with me
Why am I so emotional?
No, it's not a good look
Gain some self control
And deep down, I know this never works
But you can lay with
me so it doesn't hurt
Acho que é verdade
Não sou bom em casos de uma noite só
Mas eu ainda preciso de amor
Pois sou apenas um homem
Parece que essas noites
Nunca vão de acordo com os planos
Eu não quero que você vá embora
Pode pegar a minha mão?
Oh, por que você não fica comigo?
Pois você é tudo o que eu preciso
Isso não é amor, está bem claro
Mas amor, fique comigo
Por que estou tão emotivo?
Não, não dá pra ficar assim
Adquira algum auto-controle
E lá no fundo eu sei que isso nunca funciona
Mas você pode deitar aqui
comigo para que não doa
Sem mais poder suportar aquela sedução forte e insistente em sua voz e em seu olhar, temendo ter uma síncope, saí dali, unindo minhas mãos para que parassem de tremer.
Entrei numa pequena casinha em que se guardavam as ferramentas, e havia apenas a meia luz das janelas.
Estava ansiosa, perturbada, o coração batendo acelerado, tentando recuperar o ar, ainda ouvindo o barulho indistinguível das vozes da festa.
Fiquei lá pondo as mãos numa mesa, confusa, tentando assimilar o que estava passando, quando senti duas imensas mãos quentes em meus ombros nus, deslizando com delicadeza. Unhas roçando por meus ombros.
Um estremecimento percorreu minha espinha e emiti um gemido pequeno de prazer.
— Raio... — a voz grave de Rei brincou em minha nuca, arrepiando-a. Podia sentir seu hálito quente e os ruídos masculinos de sua respiração. — Você está tão linda, tão linda... Não fuja de mim, não fuja mais... — murmurou com um tom que me esquentou por inteiro.
Prendi minha respiração, e senti meu coração descompassado enquanto fechava os olhos, ainda desacreditada do que estava acontecendo.
Seus lábios, de repente, brincaram na pele sensível de minha nuca, deslizando por ela, numa umidade sedosa e quente, e senti meus joelhos tremerem.
— Raio... Eu quero você... — Rei murmurou, e pude sentir o hálito com uísque.
— Rei... — sussurrei, fraca.
Mãos firmes e, surpreendentemente gentis, fizeram com que me virasse para ele. Tomada por uma sensação de sonho cálido, ergui meus olhos para Rei, que estava maravilhoso na semi escuridão com seus olhos densos e negros, enquanto senti suas mãos se guiarem até meu rosto, deixando uma trilha de calor e prazer.
Meu estômago se contraía, e algo chegava a doer entre minhas pernas.
Podia sentir sua cabeça descendo na penumbra, vindo até a mim. Sua boca se encontrou com a minha, roçando, sugando delicadamente. Surpreendida por aquela umidade deliciosa, e tão calorosa e macia, arquejei em seus lábios, e percebi que ele aproveitou a abertura para aprofundar o beijo, enquanto sentia suas mãos deslizarem por minha nuca, e acariciarem meus cabelos.
Sua boca tinha um forte sabor alcoólico, levemente doce, e evolava dele um aroma maravilhoso, único, masculino, enquanto seus lábios sugavam os meus, doces, famintos, e eu tentava corresponder.
— Aaah, baby... — ele gemia em minha boca.
Minhas mãos, que deveriam empurrá-lo, tocaram em sua camisa, e deslizaram por seu peito rígido. Meus dedos delicadamente exploraram seu tórax, numa curiosidade natural, enquanto sentia sua boca se movimentar sobre a minha, e tentava respirar, arfante, experimentando o prazer de sua língua adentrar minha boca, num assalto lúbrico.
Emiti barulhos de puro deleite feminino, e alguma coisa fez com que Rei grunhisse, como se algo poderoso e animalesco o possuísse, e sem que eu percebesse, eu já não tinha mais os pés no chão.
Ele entrelaçara minha cintura, erguendo-me, e no instante seguinte, ele me sentara na mesa, ali mesmo, no escuro, afastando minhas pernas e interpondo-se entre elas.
Mal podia respirar, tamanha minha excitação e loucura.
Estava fraca em seus braços, e me deixei dominar pelo seu desejo intenso e obscuro, e arfei, sentindo uma excitação me arrebatar, quando ele puxou meus cabelos, e fez com que eu erguesse mais minha cabeça, e ele mergulhou sua língua profundamente em minha boca, em movimentos eróticos, perturbadores.
Não estava com vergonha da minha inexperiência. Tentava imitar seus movimentos, naquela dança doce e erótica de línguas.
Minhas mãos deslizaram por suas costas, e o abracei, receptiva, sem pensar no que nos ocorria, com o tempo parecendo suspenso, e depois delirei com seus ombros fortes em meus dedos, sua nuca, a maciez de seus cabelos, que puxei como um sonho realizado.
Por fim Rei se afastou para beijar minha face, pressionando a boca na pulsação do meu pescoço, e beijando a pele delicada.
— Vou te dar o que você quer... Você precisa de um homem. Diga que me quer, Raio...E eu te darei... — murmurou, enquanto sua mão seguiu por minhas coxas, e senti que ele subia os dedos por elas, arrepiando-me, e as apertando com força.
A forma como ele falava aquilo, o modo como tocava meu corpo como se fosse um cão faminto, o hálito da embriaguez, tudo aquilo de repente me despertou de meu transe.
Rei estava bêbado. Rei ia embora para sempre. Rei estava passando dos limites, subindo seus dedos em minhas pernas e as abrindo eroticamente, quando eu apenas estava experimentando meu primeiro beijo e era sim, inocente. Rei tinha uma namorada. Rei desvirginara sua namorada há 24 horas.
Rei só estava querendo me comer, foi a conclusão furiosa a que cheguei.
Ouvi-lo gemer com um cão tarado enquanto me tratava como uma cadela no cio me fez empurrá-lo com todas as forças que tinha, e bati tão forte em seu rosto que senti minha mão doer.
Ele me olhou, parecendo atordoado, confuso, tocando seu rosto.
— Raio...
Apontei o dedo para ele, em fúria.
— Não faça isso comigo, não sou quem você está pensando e não vai conseguir comigo o que está pensando!
— Você não quer, Raio? Você não me quer? — perguntou, confuso.
O canalha estava bêbado e queria me comer. Só isso, como fizera com Natasha.
Eu o queria, mas não daquele jeito, naquelas circunstâncias. Mas não conseguia me explicar. Estava louca, transtornada, sentindo o calor do seu corpo no meu ainda, arrasada porque ele iria embora, as lágrimas já querendo explodir.
— Não! — Quase gritei, afastando-me, abalada, ficando de costas para ele.
Mas Rei então veio atrás de mim, pondo as mãos em meus ombros, e me virando, num gemido animalesco e sensual, ele tentou roubar um beijo novamente, e dei então outro tapa, dessa vez em seu peito.
— Quer me respeitar?
— Não consigo... Quero você... — falou, abaixando-se, tentando me beijar de novo, sua boca resvalando em minha bochecha, e me afastei mais uma vez, furiosa, e ao mesmo tempo, muito tentada a corresponder.
— Pare com isso, Rei! Você está bêbado. Controle-se!
— Sei que estou bêbado, mas é que... — falou, com voz apreensiva, e depois se calou. — Você não me quer mesmo, Raio? — perguntou, e sua expressão estava sofrida.
Olhei para sua cara de sem vergonha. Já haviam me dito que homens ficavam assim quando queriam sexo. Dispostos a tudo. Lutei contra meu corpo que formigava de desejo, e lutei contra meu coração que disparava de paixão.
Deixar que ele me usasse e fosse embora, rindo de mim? Não.
— Não sou seu brinquedo!
— Baby, você não é um brinquedo... — ele disse, olhando-me intensamente.
Palhaço! Eu amava um palhaço! Um palhaço tarado com namorada!
— Então me deixa em paz, Rei! E não me siga! — exigi, disposta a ir embora, antes que eu me arrependesse de me jogar em seus braços e deixar que ele fizesse tudo o que queria comigo. A tentação estava grande demais.
E eu jamais me perdoaria.
— Adeus, grandão — disse, destruída, já chorando, ao sair.
— Raio! Espere! Não vá ainda!
Parei na porta para olhá-lo. Ele estava ofegante, com as mãos no bolso.
— Eu te ligo — falou.
Não respondi e saí, em disparada.
Só queria chegar em casa, e chorar. Desliguei o telefone, foda-se. Estava muito magoada. Só queria a minha cama, e quietude.
Na madrugada, ele mandou algumas mensagens para mim. Mas nem quis ver, queria dormir. Tarado.
Em 3 dias ele iria embora.
Na manhã seguinte, li alguns dos recados. Era algo sempre como :