Questão de Palheiro: Coimbrões e Lisboetas

Urbano Loureiro · Capítulo 1 de 6

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Questão de Palheiro: Coimbrões e Lisboetas

Capítulo II

 

Uma pergunta em segredo

a respeito do Castilho.

—Sabem quem é o sujeito?—

Um velhote de respeito,

sempre co'a mão no gatilho

d'algum doirado epigramma;

que a pedido faz prefacios,

onde ha perolas e lama;

que não encontra poetas

como os Virgilios e Horacios;

que foi o author infeliz

do a-b-c repentino,

e da Lilia abandonada,

que p'lo ciume ralada

se trespassou co'um pepino.{5}

Já o conhecem?—Pois bem!

Um dia 'stava o bom velho

co'uma das mãos n'um joelho,

n'um joelho ou n'um artelho,

(isto diz-se; não n'o juro)

meditando no futuro,

talvez prevendo da Hespanha

o rebentar da castanha;

e batem de rijo á porta.

—Quem é?—a criada indaga.

—Manoel Pinheiro Chaga.—

—Manda subir a visita.—

E de si p'ra si:—Que praga!—

E quando elle entra na sala:

—Ó meu amigo, que dita!

Como se lembrou de mim

no meio dos seus triumphos

o Méry do folhetim?—

—É lisonja; agradecido;

acabei o meu poema...—

—E vem a mostrar-m'o, sim?

Então, amigo, não trema;

o tremer é de criança;

em mim não põe confiança?

Parece pouco animoso!...—

—Bagatella! isto é nervoso!

Padeço muito dos nervos!—

—Eia, sus, ó meu irmão,

eia, vate sonoroso!

a ti a minha attenção!—

E o poeta recitou-lhe

d'um só fôl'go a Invocação:{6} e logo apoz o poema,

que na filha d'uma beef (p'lo modo séria menina,

que o Chaga baptisou Emma)

fui descobrir a heroina.

E por fim o poemeto,

em que o heroe papa-fina,

p'ra não dizer papa-moscas,

á chuva, mui socegado,

medita no seu passado.

E vai e disse o Castilho

quando o Chaga terminou:

—Muito bem! dê-me um abraço,

aperte-me este espinhaço!

O senhor não leu, cantou!

Mil parabens!—

—Agradeço,

são favor's que não mereço.—

O velho deu quatro passos,

e para encobrir o riso:

—Ouça cá, tive uma idéa;

se eu lhe escrevesse um «juizo»,

p'ra o livro fazer mais bulha,

urdido á moda de tea,

e n'ella entalado um grulha,

que espirrasse co'a pitada?

—Vossa excellencia pinhora-me

—Acceita?—

—Muito óbrigada;

isso mesmo era o que eu qu'ria

p'ra os volumes não ficarem

nos lotos da livraria...—{7} —Então, 'stá dito?—

—'Stá dito!—

Retiro-me.—

—Adeus, amigo;

p'ra tudo conte commigo.—

E o vate desceu a escada

trauteando o pirolito.