Relaçam da Jornada de Lixboa the Por-ts Mouth

Sebastião da Fonseca · Capítulo 3 de 4

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Relaçam da Jornada de Lixboa the Por-ts Mouth

Foysse o Duque ja tam tarde

receitou-lhe h[~u]as fumaças

 

Foysse o Duque ja tam tarde

 

que brilhauam as vidraças

 

do bargantin, con os cabellos

 

da que he firme na mudança

 

Acompanhounos o Duque

 

the entrarmos pella barra,

 

que qu[~e] ganha todo o resto

 

nam repara nas entradas

Auistando terra sempre

 

 

viemos con festa tanta

 

que enganauamos a penna

 

no logro da esperança

 

Chegamos; ô quem tiuera

 

h[~u]a eloquencia tam rara

 

que relatâra esta dita

 

o que este gosto explicâra

 

Jesus, ja tomamos porto?

jesus; ja vemos a barra?

 

ja Portsmouth se uê tam perto?

 

ja pisamos a Bretanha?

 

Ja se acabou a pensam

 

de recear, as borrascas;

 

ja nos nam farâ o Norte

 

tam repetidas carrancas

 

Ja nam teremos biscoito

 

tam duro como huá ingrata

se bem remedio excellente

 

 

nas dilaçoens das jornadas

 

Ja nam teremos temperos

 

sem sal, sem gosto, sem graça

 

se bem hera do ençoço

 

remedio a vaca salgada

 

Ja nam ouuirey ringir

 

o Nauio; n[~e] as camas

 

andaram pellos beliches

de h[~u]a para a outra banda

 

 

Ja nam irey ao conues

 

diuertirme, con as tabulas

 

nem â noite, o sete estrello

 

ver se fica juncto â barca

 

Ja nam ouuirey de noite

 

as voses desentoadas

 

daquelles nossos ratinhos

 

amigos de roupa branca

Ja entrou a Nao real

 

 

com ajuda das fragatas,

 

que por aver pouco vento

 

se quis valer destas traças

 

Ja lançou ferro, e tambem

 

lança ferro toda a Armada

 

ja de terra, as fortalesas

 

se enchergam pellas fumaças Ja chegaõ todos os botes

 

rodeando a Capitania

 

prouidos de galhardetes

 

e bandeiras arrastradas

 

Ja o bargantin do Duque

 

se chega para as escadas

 

da Nao Real, para ser

 

archiuo de luses tantas

 

Ja desse o sol de Lisboa ja entra a lux da Bretanha

 

ja a bandeira Real

 

se abate da Capitania

 

Ja o bargantin aluôra

 

aquella sonôra arpa

 

que ade tocar alg[~u] dia

 

conçonancias, e naõ falças

 

Deu â uella e tam uelôx

 

cortou a liquida prata que nam sabiam os olhos

 

se corria, ou se uoaua

 

Buscou a terra, e fes muito

 

porque quem se uê tam alta

 

so fas mençam do sublime

 

so do subido se paga

 

Porem nam pode chegar

 

talues por amor das aguas,

 

e destenperando as cordas esperou alguás pausas

 

Chegou outro bargantin

 

mais pequeno, vox mudada

 

donde a prima da bellesa

 

quis desser mais requintada

 

Foi terceira h[~u] instromento

 

que nam tem segundo, e basta

 

que uisse ler de Cadeira

 

h[~u]a bellesa tam rara

Poucos compassos fiseram

 

 

os remeiros, quando a prancha

 

se pos em terra, e de h[~u] golpe

 

saltaram todos na praya

 

Adonde estauam os terços

 

que guarneciam a praça

 

gente bem paga do Rey

 

e da Raynha bem paga

 

Gente toda muy lusida

cortês, como bem criada,

 

 

deuotos, porque nenh[~u]

 

faltou do terço na salua

 

Hiamos todos diante

 

admirando cõ as gallas

 

Portuguesas, e o capricho

 

da naçam que a Deos mais ama

 

Depois dos terços seguiãsse

 

os Vreadores da Camara

se bem pareceo Cabido

 

 

por ter porteiro da maça

 

Entramos dentro em Palacio

 

que hera h[~u] Castello da praça

 

e apeouse da Carrocça

 

aquella diuina Pallas

 

Tam armada de bellesa

 

como de capricho armada

 

abrindo lhe a estribeira

quem no seruir se estribaua

 

 

Subio pella maõ do Duque

 

entrou na primeira salla

 

que inda teue h[~u] par de panos,

 

cõ estar tam bem armada

 

Muita fidalguia inglesa

 

muita pluma, muita gala

 

muita fita, muita ceda

 

muito ouro, muita prata

De fina tella uestidas

 

 

estauam todas as damas

 

cõ muitos signais no rostro

 

e cõ repiques na graça

 

Beyjarão todas a mam

 

âquella bella Diana

 

de quem; âs setas dos olhos

 

seruem coraçoens de aljaua Entrou para descançar

 

de tantas penas passadas

 

de tantas glorias presentes

 

que tambem a dita cança

 

Nam lho permetio o pouo,

 

porque a gente aluoraçada

 

sem perder do Paço a Vista

 

perdia o paço em buscalla

 

Derâmnos bons aposentos cõ camas tam regaladas

 

que o aliuio das pennas

 

se achou nas penas das camas

 

Os regalos heram muitos

 

a terra das muito fartas

 

a gente muito cortes

 

e muito lindas as casas

 

Por baixo muitos jardins

 

por sima muitas uarandas estas muito uermelhinhas

 

aquellas menos coradas

 

O gouerno excellente

 

e dos domingos a guarda

 

muyto mayor que a do Rey

 

cõ ser tam grande Monarcha

 

Os catholicos ouuiam

 

missa, cõ deuaçam tanta

 

que puderam aprender alguns dos da nossa Patria

 

Em Pallacio se desia

 

missa, Domingo e semana

 

e sobre a tarde, cantauam

 

tons, os musicos da Camara

 

Chegou de Londres El Rey

 

cuido, que â terça ou â quarta

 

para leuar para a quinta

 

quem requinta a mesma graça

Muito a taballe diante

 

 

muita trompeta bastarda

 

a cujo estrondo, atirou

 

toda a artelharia a praça

 

As Carroças, sem contia

 

e a Caualaria tanta

 

que sendo guarda do Rey

 

fasiam mil quatorsadas

 

Seguiamsse logo a estes

quatro porteiros da cana

 

 

que heram; por dados do Rey

 

quadernas afortunadas

 

Seguiamsse muy vistosos

 

os officiaes da Casa

 

botoens de Rosas â vista

 

na cor verde e encarnada

 

Tambem os seus Capellaens

 

vieram cõ negras gallas

galhardos a toda a ley

 

 

porem nam á ley Romana

 

Atras destes se seguiam

 

os seus soldados da guarda

 

no meyo a Real carroça

 

chea de olhos sem pestanas

 

H[~u]a tropa de Cauallos

 

Leuaua de retaguarda

 

que se armauam bem de peitos

por b[~e] guardar lhe as espaldas

 

 

Apeousse a Magestade

 

(digo o Rey da grã Bretanha)

 

cuja Magestade nunca

 

poderâ ser apeada

 

Salua lhe deram real

 

os terços, e toda a praça

 

e quem morria por vello,

 

por vello vivas lhe daua

Sobio a Pallacio, donde

 

 

vio aquella Estrella d'alua

 

emferma de tanta ausencia

 

nos braços da Esperança

 

Sem interpetre fiseram

 

as cortesias vsadas

 

que nam ha mister ter lingua

 

corpo que tem duas almas Como tinha satisfeita,

 

aquella primeira causa

 

veyo dar a maõ a tantos

 

que o trasiam nas palmas

 

Foj correr as fortalesas

 

o que esforçado Monarcha

 

pois tam ferido de amor

 

nam quer largar inda as armas

 

Correu toda a Villa, e certo que foj cousa muy notada

 

quando os Reis a todos dam

 

roubar elle tantas almas

 

Nam tem que ver o retrato

 

cõ o magestoso da cara

 

que se he sombra deste asombro

 

a lux sempre foj mais clara

 

Aqui fique a Musa agora

 

por quanto a lux se me apaga, a penna vay sendo groça

 

a tinta vem sendo branca

 

Fique em Porstmout a thalia

 

que tambem do mar cançada

 

nececita que lhe demos

 

feria no fim da semana

 

Ella promete ao leitor

 

finos pinseis, cores claras

 

para pintar os Paises de Porstmout, para a Bretanha

 

E em tanto que fica ausente

 

aceite essa doce patria

 

o desejo de seruilla

 

e a vontade de logralla

 

Finis laus Deo.

 

Notas da transcrição:

Por não existir nenhum caracter ascii correspondente às letras "u com til" e "e com til", foram esses caracteres

substituidos pelas marcas [~u] e [~e] respectivamente.

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*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK RELAÇAM DEDICADA A SERENISSIMA SENHORA RAINHA DA GRAM BRETANHA DA JORNADA QUE FES DE LIXBOA THE POR-TS MOUTH ***

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