Revelada

C. C. Hunter · Capítulo 2 de 52

Páginas do PDF

Revelada

Capítulo Um

Capítulo Trinta e Sete

Capítulo Trinta e Oito

Capítulo Trinta e Nove

Capítulo Quarenta

Capítulo Quarenta e Um

Capítulo Quarenta e Dois

Capítulo Quarenta e Três

Capítulo Quarenta e Quatro

Capítulo Quarenta e Cinco

Capítulo Quarenta e Seis

Capítulo Quarenta e Sete

Capítulo Quarenta e Oito

Capítulo Quarenta e Nove

Capítulo Cinquenta

Capítulo Cinquenta e Um

Capítulo Um

O barulho da porta rangendo ao se abrir preencheu o espaço minúsculo. Antes que Della

Tsang ouvisse passos, o cheiro invadiu seu nariz. Outro vampiro. Mas não qualquer

vampiro. .

Ele.

Chase Tallman. O cara com quem ela lamentava ter uma ligação. Que tinha lhe doado seu

sangue para garantir que sobrevivesse a uma rara segunda transformação, e que fizera dela

uma Renascida — uma vampira muito mais forte e capaz de ver fantasmas. Não que tivesse

pedido por isso ou desejado. . principalmente a parte de ver fantasmas.

Os passos dele o levaram até o pequeno cômodo do tamanho de um armário. A porta rangeu de novo ao se fechar. O coração de Della martelava contra o peito.

Ela tinha ido até o inferno à procura dele. Tinha até viajado à França para encontrá-lo e

voltara de mãos vazias.

E agora ele simplesmente aparecia.

Ali.

No banheiro feminino da lanchonete Whataburger.

A porta do cubículo ao lado dela se abriu e se fechou. Com certeza ele não iria. . Ele não se

atreveria a. . Ouviu o barulho de alguém pisando sobre a tampa do vaso sanitário.

Ele se atreveu.

Ela olhou para cima. Ele olhou para ela por sobre a parede do cubículo. O cabelo

castanho-escuro parecia um pouco mais comprido. Os olhos verdes brilhantes faiscavam de

bom humor.

— Mas olha que surpresa encontrar você aqui! — Ele sorriu, sem dúvida ao ver a posição

dela — joelhos dobrados, travados no ar, o traseiro suspenso a cinco centímetros do vaso

sanitário, o jeans no meio das coxas. Graças a Deus a blusa azul-clara era longa o suficiente

para cobrir suas partes íntimas.

Ela puxou o jeans com tudo e fechou o zíper. Sem nunca tirar os olhos de Chase, mas

desejando que as mãos estivessem ao seu alcance. Os dedos cravados em torno do seu

pescoço. Ele não estaria com aquele sorrisinho idiota na cara agora.

— Não vai nem usar papel higiênico? — ele caçoou.

Ele achava aquilo engraçado? Sério? O cara estava pedindo pra morrer? Será que não tinha

a menor ideia de quanto a falsidade dele a magoara?

Se ela não precisasse tanto de informações, já teria acabado com a raça desse vampiro. E de

um jeito bem lento e doloroso.

Mas ela precisava descobrir algumas coisas, precisava encontrar o tio dela, o homem que tinha matado a tia e estava deixando que o pai dela fosse acusado do assassinato. E Chase

tinha essa informação. Desde o início, e mentira a respeito.

Pouco tempo antes, ela tinha descoberto a verdade. O homem que Chase chamava de

Eddie, que o adotara quando ele tinha 14 anos e o ajudara em sua primeira transformação,

ligando-se a ele na segunda, era tio de Della.

Quem mandou você?, ela tinha perguntado a Chase mais de mil vezes. E mais de mil vezes

ele tinha mentido.

Por mais que odiasse admitir, ela entendia a lealdade de Chase por esse homem. Eddie não

só era como um pai para ele, mas Della sabia melhor do que ninguém como um vínculo de

sangue entre vampiros podia mexer com a cabeça e as emoções de uma pessoa. Mas a

lealdade de Chase pelo seu tio significava que ele tinha sido desleal com ela. Ele tinha feito

essa escolha. E ela não se perdoaria se deixasse o próprio pai ir para a prisão pelos pecados

do tio.

Disparando para fora do cubículo ao mesmo tempo que Chase, ela encurralou num canto

aquele vampiro cínico de um metro e oitenta de altura. Seu sangue corria com fúria nas

veias.

Ele estendeu as palmas das mãos para cima, os ombros tensos, mas os olhos sem

demonstrar um pingo de medo. Muito pelo contrário, as duas pupilas verde-claras ainda

tinham um ar de provocação. Ah, como ela queria dar uma lição naquele palhaço! Della se

inclinou para a frente, quase encostando o nariz no dele, para que soubesse que ela não se

sentia nem um pouquinho intimidada.

Uma estratégia da qual se arrependeu no mesmo instante. Aquela proximidade, o perfume

masculino em torno dela, a atração, o jeito sedutor. . tudo aquilo pelo que ela culpava a

ligação entre eles, tiravam sua sanidade. Ela lutou contra tudo isso. Não queria!

— O que está te deixando com esse arzinho tão feliz? — ela grunhiu.

— Você! — ele ousou dizer. — Estar perto de você me deixa feliz.

Ela encostou a palma da mão no peito dele, pronta para lhe dar um bom empurrão contra

a parede.

— Espere! — ele pediu.

— Por que eu deveria? — ela sibilou.

Os lábios dele se abriram num sorriso ainda maior. Ele apontou para a parede atrás de si.

— A placa diz que você precisa lavar as mãos primeiro.

Aquela foi a gota-d’água. Os caninos dela se projetaram. Os olhos arderam, um sinal claro

de que suas íris castanhas, herança do pai oriental, já estavam faiscando de fúria.

— Eu não sou funcionária da lanchonete. — Ela o fulminou com os olhos. A deslealdade

dele era uma farpa em seu coração. — Onde está Feng, meu tio?

O ar brincalhão desapareceu do rosto dele e ela foi capaz de jurar que uma sombra de

culpa obscureceu os olhos verdes.

— Eu ia te contar.

— Claro que ia.

— Eu não ia. . — Ele parou de falar, como se as palavras não parecessem adequadas. Levou

cerca de dois segundos para ela perceber o que ele estava a ponto de falar.

— Não ia o quê? Mentir pra mim? Tudo o que você fez até agora foi mentir pra mim.

— Della? — Ela mal registrou seu nome sendo chamado da porta. O fato de estar com as

presas projetadas e os olhos incandescentes nem chegou a preocupá-la. Ou melhor, quando

ela reparou nisso, já era tarde demais. A porta do banheiro se abriu com tudo.

Chase, numa manobra rápida, trocou de lugar com ela e usou seu braço para esconder o

rosto de Della do olhar de Lilly. No entanto, a maneira como ele se inclinou mais para perto,

a mão na parede, os lábios a centímetros dos dela, deu a impressão de que estavam trocando

beijos — e muita saliva — no banheiro. Ah, sim, como se isso fosse algo que ela de fato fizesse. Todo mundo sabia quantos germes podia se encontrar em banheiros públicos.

— O que. .? Della? — deixou escapar Lilly, sua ex-amiga humana, como se estivesse

chocada. A garota ficou na ponta dos pés para ver sobre o ombro de Chase.

— É. . você?

Della olhou para o lado e escondeu os olhos faiscantes e os caninos projetados.

— Sim.

— Ah, meu Deus! — disse Lilly. — E quem é. . você?

Sem dúvida, a pergunta agora era dirigida a Chase. Della não olhou para ver a expressão

dele, mas sabia que o vampiro já deveria ter jogado sobre a garota todo o seu charme: um

sorriso irresistível e olhos inocentes de um bom menino.

— Um amigo. — A voz dele ainda estava cheia de provocação.

— Estou vendo, um amigo e tanto! — disse Lilly em tom brincalhão. — Você é o famoso

Steve?

Os ombros de Chase ficaram tensos. Seu olhar saltou para a Della, o humor em seus olhos

desaparecendo e se transformando em mágoa, talvez até mesmo ciúme.

Não que ele tivesse direito de sentir isso.

Della forçou suas presas para dentro e tentou acalmar a vampira dentro dela.

— Não, é só alguém que eu conheço de Shadow Falls.

Sentindo-se mais sob controle, ela cutucou Chase para que ele se afastasse, dando a ela um

espaço de alguns centímetros, mas não mais do que isso. Não havia espaço suficiente para

ele se afastar mais. Ela se concentrou em Lilly e fez um gesto para Chase.

— Precisamos conversar. Você pode nos dar. .

— Não — disse Chase. — Eu só vim dizer oi. Passo na sua cabana mais tarde.

— Não! — Ela lhe lançou um olhar frio. Ele não ia fugir. Della agarrou o braço dele, os

dedos se fechando em torno do bíceps. — Prefiro conversar agora. — Ela estampou um sorriso no rosto por causa de Lilly.

— Não seja boba. Hoje é dia do seu clube da Luluzinha. — Ele se soltou com delicadeza dos

dedos dela, sem ter de fazer o menor esforço.

Então, antes que percebesse a intenção dele, Chase plantou um beijo rápido em seus lábios.

A língua deslizando pelo lábio inferior, enfraquecendo seus joelhos. Aquele gostinho. .

Aquele beijo rápido tirou o fôlego dela. Fez seu corpo arrepiar. Seu coração ansiar. E ela

odiou sua própria fraqueza.

Della respirou fundo, lutando contra a ligação entre eles e, ao mesmo tempo, resistindo ao

desejo de despejar toda a sua fúria em cima dele outra vez. Mas antes que pudesse prever o

seu próximo movimento, Chase já tinha cruzado a porta e desaparecido.

Lilly, em quem Della não pensava fazia mais de um ano, encostou-se na parede, chocada

diante da saída superveloz de Chase.

— Uau, ele é rápido! — Então ela riu e balançou o dedo para Della. — Ora, ora, senhorita

Tsang. Quer dizer então que está de segredinhos!

Você nem imagina!, Della quis gritar. O primeiro segredo era mesmo de arrasar. Della não

era mais humana. Daí a razão de morar em Shadow Falls, um internato para seres

sobrenaturais. Se não fossem os problemas em casa, ela ainda estaria na escola — com os

amigos que a compreendiam e não a julgavam por entornar um copo de sangue de vez em

quando.

Ela nem sequer entendia por que Lilly tinha aparecido aquela noite. Se sua mãe não

tivesse ouvido o convite da garota e insistido para Della ir, ela não estaria naquela festa

regada a cerveja. Mas como a família dela não conhecia seus segredos, era meio difícil

explicar por que não podia manter as antigas amizades.

— Não, não tenho segredo nenhum — Della mentiu. — Não é o que pareceu. Ele é só. . um

cara.

— Ele não parecia só um cara.

— As aparências enganam. — Della foi andando em direção à porta. Atravessou o corredor

e respirou fundo para ver se ainda conseguia sentir o cheiro de Chase. Soltou um profundo

suspiro. Apenas o cheiro de hambúrgueres e batata frita impregnava o ar. Ainda assim,

percorreu o lugar com os olhos, na esperança de ainda vê-lo por perto. Nada.

Chase tinha ido embora. Por que diabos ela o deixara escapar? A resposta esbarrou em

suas costas. Literalmente. Lilly. Se Della tivesse usado sua força para detê-lo, a amiga de

outros tempos teria se assustado. E depois poderia ter contado aos pais de Della. E com toda

aquela confusão acontecendo por causa do pai sendo acusado de assassinato, a última coisa

que ela queria era dar a eles mais um motivo para não dormirem à noite.

Ela se virou para Lilly, mas ouviu alguém chamando seu nome.

— Della Tsang?

Della se virou e viu a senhora Chi se aproximando. Ela era uma vizinha idosa que tinha de

uma pequena joalheria junto com o marido, a apenas algumas quadras da casa de Della.

— Eu não vejo você há uma eternidade, mocinha!

— Olá! — cumprimentou Della, notando o olhar da vizinha sobre Lilly. — Esta é minha

amiga Lilly Shay.

— Como vai? — disse a senhora Chi. Lilly apenas acenou com a cabeça. Mal tinha olhado a

mulher nos olhos e já estava tirando o celular do bolso. Será que a mãe dela não tinha lhe

ensinado boas maneiras?

— Como vai Chester? — perguntou Della. Antes de passar a morar em Shadow Falls, ela

cuidava do gato dos vizinhos quando saíam de férias.

— O mesmo de sempre. Me trouxe um rato morto ontem. Chamei a dedetizadora e

disseram que não encontraram nenhum rato na minha casa ou na loja. Onde é que esse gato

vai pegar ratos?

— Ele dá suas voltinhas por aí — disse Della, lembrando-se de que tinha visto o gato

bisbilhotando o barracão de ferramentas do pai alguns dias antes, quando ela tinha ido,

tarde da noite, até um bar de sobrenaturais em busca de sangue.

A senhora Chi deu um tapinha no braço de Della.

— Vou comprar um hambúrguer para Bojing. Ele está na loja. . fechando o caixa. — Ela

olhou para Lilly. — Muito boa noite. E tenham cuidado. É perigoso duas meninas andando

sozinhas por aí. O bairro não é tão seguro quanto costumava ser.

— Pode deixar. — Della observou enquanto a anciã seguia em direção ao balcão da

lanchonete. Então estampou no rosto o que esperava ser uma expressão amigável, mas

encarou a amiga loira ainda irritada com o seu jeito rude.

— Você já acabou seu hambúrguer?

— Já.

— Então talvez possa me deixar em casa. — Ela não sabia se Chase tinha falado sério sobre

conversarem mais tarde ou se poderia acrescentar aquilo à sua lista de mentiras. Devia ser

mentira, mas ela precisava estar lá, apenas para o caso de ele aparecer. Não iria deixá-lo

escapar desta vez.

— Estamos indo à casa de Susie assistir a um filme.

— Tudo bem. Lamento, mas hoje não vai dar pra mim. Estou naqueles dias. — Ela apertou a

parte inferior da barriga. Claro que era outra mentira. Tio Chico já tinha feito sua visitinha

aquele mês e ido embora. Mas a Mãe Natureza costumava atormentar as mulheres com a sua

provação mensal, e Della descobriu que as garotas malvadas tinham o direito de usá-la

como desculpa quando necessário.

Lilly fez uma careta.

— Mas a sua mãe já me. . — Ela fechou a boca e até repuxou os lábios como se quisesse

engolir as palavras de volta.

— Minha mãe já. . o quê? — perguntou Della, sentindo que Lilly tinha os seus próprios

segredos.

A menina revirou os olhos verdes e Della lembrou que nunca se importara muito com o

que Lilly dizia. Mesmo antes de Shadow Falls, ela e Lilly já tinham se afastado.

— Desembucha! — exigiu Della.

— Sua mãe me pagou para sair com você.

Della ficou ali, mortificada e furiosa ao descobrir que a mãe tinha pagado alguém para ser

amiga dela. Della tinha amigos. Tinha as duas melhores amigas do mundo em Shadow Falls.

No momento, não havia nada que quisesse mais do que ir para casa, fazer as malas e voltar

para o lugar a que pertencia. Onde não se sentia um monstro.

— Não que eu não quisesse ver você nem nada. Mas não ia recusar vinte pratas.

— Me leva pra casa? — Deixando o cheiro de gordura e carne para trás, Della disparou

para fora do restaurante, lutando contra a tentação de voar sozinha para casa. Quando o ar

frio do Texas bateu em seu rosto, ela respirou fundo e engoliu as lágrimas que se

acumulavam na garganta. Poderia estar dilacerada por dentro, mas nem morta deixaria

Lilly saber disso.

Della não abriu mais a boca. Quando o carro parou em frente à sua casa, Lilly olhou para

ela. Della precisava reconhecer que a garota parecia arrependida.

— Preciso devolver o dinheiro da sua mãe?

— Não. Fique com ele. — Della saltou do carro e parou diante da porta da frente para

escutar. A irmã ia passar a noite na casa de uma amiga. Se tivesse sorte, conseguiria se

esgueirar até o andar de cima e evitar um confronto. Ela não ouviu a televisão ligada. Bem

devagar, girou a maçaneta e disparou para dentro.

A sala de estar estava vazia, graças a Deus. Chegou à escada e colocou o pé no primeiro

degrau quando ouviu os acordes de uma música vindo do escritório do pai. Della se lembrou de quando ficava naquele escritório com ele, jogando xadrez, rindo e arranjando

soluções para os problemas do mundo. Ou, pelo menos, para os problemas dela. Para o que

quer que estivesse acontecendo em sua vida, seu pai tinha um conselho.

Agora, não havia mais conselhos. Ele mal notava a presença dela. Como fizera todas as

noites durante as três semanas em que ela ficara em casa, ele já tinha se trancado no

escritório. Perguntou-se se ele se escondia lá dentro para evitá-la. Pensando bem, com uma

suspeita de assassinato pairando sobre a cabeça, ele devia estar se escondendo da vida.

Aquela manhã ela o ouvira dizer à mãe que não sabia por quanto tempo conseguiria manter

o emprego. As pessoas estavam sussurrando pelas suas costas.

Sinto muito, pai. O nó na sua garganta dobrou de tamanho. Era culpa dela. Culpa dela que

o caso arquivado de assassinato de sua tia Bao Yu tinha sido reaberto. Culpa dela que o pai

estivesse sendo acusado de assassinato, embora fosse inocente.

Sim, o sangue na faca usada para matar a tia era idêntico ao do pai. Apenas um gêmeo

univitelino poderia ter o mesmo sangue. Pena que o tio Eddie, seu gêmeo idêntico, já tinha

forjado a própria morte. Algo que a maioria dos adolescentes fazia quando virava vampiro.

Viver com uma família humana, tentando esconder a sua nova natureza, era quase

impossível. Della sabia disso muito bem.

Nesse instante algo lhe ocorreu. Se tivesse feito o mesmo, se ela tivesse forjado a própria

morte, ido embora, nada disso teria acontecido. A família não estaria sofrendo agora.

Ela já tinha colocado o pé no segundo degrau quando a mãe enfiou a cabeça pelo vão da

porta da cozinha.

— Por que voltou tão cedo?

Não responda. Não responda. Invente qualquer bobagem. Ela abriu a boca, à espera que

alguma mentira se formasse, escapasse dos seus lábios, mas a mesma humilhação que

sentira antes espicaçou-a outra vez e seu temperamento explosivo levou a melhor sobre ela. — Acho que você não pagou o suficiente a Lilly. — Della disparou pelas escadas. Desta vez