Revelada
Capítulo Dois
sem conseguir engolir as lágrimas.
Capítulo Dois
Della entrou no quarto e se jogou na cama, sentindo no peito uma grande bola de dor. Ouviu
os passos da mãe e quis bater em si mesma, com força, por não manter a boca fechada. A mãe
já tinha muito com que se preocupar. Mas, caramba! Ela não sabia quanto aquilo a deixara
envergonhada?
— Della? — A mãe abriu a porta.
— Estou cansada, mãe. Quero dormir — disse com a cabeça enfiada no travesseiro, rezando
para a voz não falhar.
O colchão curvou-se sob o peso da mãe.
— Ela. . contou a você?
Della assentiu.
— Eu. . estava tentando ajudar.
Ela sentiu a mão da mãe nas suas costas. Rolou na cama e se sentou de um salto, não
querendo que a mãe notasse sua baixa temperatura corporal. Toda vez que a mãe a tocava,
Della via preocupação em seus olhos.
— Eu não preciso de ajuda. — Della puxou os joelhos contra o peito e abraçou-os. — E com
certeza não preciso que você pague ninguém para ser meu amigo. Eu tenho amigos, muitos,
em Shadow Falls.
— Mas você não está naquela escola agora. Não é como se. . Eu não fiz. . Ela estava me
ajudando a carregar as compras de supermercado e eu comentei que devia vir ver você. Eu
não tinha troco, então coloquei uma nota de vinte nas mãos dela e disse que ela poderia nos
fazer uma visita.
— Esqueça isso, está bem? — pediu Della.
— Talvez se voltasse a se matricular na sua antiga escola, reencontrasse seus velhos
amigos, você fosse. . mais feliz.
— Não. Eu sou feliz. Assim que as coisas. . se ajeitarem aqui, vou voltar para Shadow Falls.
Lágrimas encheram os olhos da mãe.
— Querida, pode ser que demore um bom tempo para que as coisas. . se ajeitem. E o
julgamento ainda pode demorar meses.
— Ele não vai a julgamento. Eles vão perceber que tudo não passa de um erro e rejeitar as
acusações. — Pelo menos de acordo com o que dissera Burnett, um dos proprietários de
Shadow Falls e membro da Unidade de Pesquisa de Fallen (UPF), o equivalente
sobrenatural do FBI, e o advogado meio bruxo que ele tinha enviado para ajudar na defesa
de seu pai.
Lágrimas encheram os olhos da mãe.
— Eu quero acreditar nisso, Della, mas temos que ser realistas.
Realistas? Della viu a dor nos olhos da mãe. A constatação foi um chute no estômago. Não,
um chute no coração!
— Ah, meu Deus! Você pensa que ele. . — A emoção encheu sua garganta. — Você acha que
ele fez aquilo! Acha que papai matou a irmã? Como pode acreditar nisso? Você o conhece
melhor do que ninguém.
— Eu não acho. . — A mãe dela engoliu em seco. — São simplesmente as provas. .
— Eu não dou a mínima para as provas! Papai não fez aquilo.
— Eu acredito que não. — A mãe limpou as lágrimas dos olhos. — Mas, querida, ele não se
lembra do que aconteceu. Estava desmaiado. Não consegue nem afirmar a própria
inocência.
A temperatura do quarto no mesmo instante começou a cair. E rápido. Só uma coisa
poderia deixar o quarto tão frio e com tamanha rapidez. Elas tinham companhia. E do tipo que não respirava mais. .
Ele não estava desmaiado!
As palavras soaram na cabeça de Della, mas apenas para que ela as ouvisse. Seus olhos
vagaram pelo quarto. Ali, na frente da janela, suspenso no ar, pairava o fantasma da tia. Ela
usava o vestido cheio de sangue outra vez. E flutuava no ar como se uma brisa
imperceptível a embalasse. Lágrimas escorriam pelas suas bochechas, mas ela parecia mais
irritada do que triste. Era a primeira vez que Della a via desde que deixara Shadow Falls.
Deixe minha mãe falar, Della disse mentalmente.
Era a primeira vez que a mãe dizia alguma coisa sobre o caso do pai. Ele nunca falava com
Della sobre a acusação de assassinato, então isso era o mais perto que ela conseguiria chegar
de ouvir o que o pai pensava a respeito.
— Me conte o que aconteceu, mãe. — Quanto mais Della soubesse, melhores seriam suas
chances de ajudar, mas será que a mãe contaria a ela?
A mãe esfregou as mãos nos braços, tentando afugentar o frio.
— Eu não deveria ter dito nada.
— Não! — contestou Della. — Eu mereço saber.
— Querida, seu pai. .
— Eu faço parte desta família. Isso está afetando a todos nós. Não podemos continuar
guardando segredos.
Uma lágrima caiu dos olhos da mãe.
— Isso é tudo, eu não sei mais nada. — O frio fazia com que vapor saísse de seus lábios.
Della esperava que a mãe não visse. — A única coisa que ele me disse foi que acordou com os
paramédicos prestando socorro. A irmã dele já estava. . morta. Disse que havia sangue por
todo lado. Daquele dia em diante ele nunca mais parou de ter pesadelos com aquela cena.
Ficou com muito medo que os pais o mandassem a um psiquiatra e o internassem no St.
Mary.
— O sanatório? — perguntou Della.
A mãe assentiu.
— Sharron! — o pai chamou.
O olhar da mãe se encheu de culpa. Ela enxugou as lágrimas.
— Já vou, querido! Estou aqui.
Passos soaram na escada. Ele parou no umbral da porta. Seu olhar pousou sobre Della e,
como sempre fazia quando a via, ele recuou um pouco. Talvez não fisicamente, mas por
dentro. Piscou e suas pupilas dilataram. O que havia nela que lhe causava tanta dor?
— Ah, você está em casa. . — A decepção irradiava da voz dele. Os olhos se desviaram para a
mãe. — Pensei que ela tivesse saído. — Ele enfiou as mãos nos bolsos.
— Eu voltei. Você estava no seu escritório, então não quis incomodar. — Della esperava que
isso soasse normal, mas era difícil na presença de um fantasma com sangue pingando do
vestido e um olhar assassino fitando o pai dela.
— Por que está tão frio aqui em cima? — ele perguntou. — Você mexeu no termostato?
— Não, senhor — disse Della.
Ele saiu do quarto. Della ficou sentada ali, sentindo o coração doer e o ambiente gelado à
sua volta. Voltando a olhar para o fantasma, Della rezou para que não começasse a nevar. O
fantasma já tinha feito aquilo uma vez.
A mãe ficou observando o pai se afastar. Fitou a porta vazia por um segundo antes de se
virar para Della outra vez. Alívio e mais culpa enchiam os olhos da mãe. Ela apertou a mão
de Della, como uma desculpa silenciosa. Por sorte estava tão frio que as mãos geladas da
mãe estavam quase na temperatura do corpo de Della.
Então ela soltou a mão de Della e se levantou. Estava quase na porta quando olhou para
trás.
— Eu só quero que você seja feliz, querida.
Ao som dos passos da mãe descendo as escadas, Della olhou de volta para o fantasma
furioso, que estava ali de pé, sacudindo a cabeça para ela.
Mentira. É tudo mentira. Ele se lembra. Ele se lembra de tudo!
— Você se lembra? — perguntou Della, sabendo quanto os fantasmas não eram confiáveis.
Aparentemente a morte, a violenta em particular, mexia com a psique do espírito, tornando
a recuperação da memória e a comunicação mais difíceis.
O suficiente para saber que ele está mentindo, ela disse.
— Você acha que ele a matou? — perguntou Della.
O espírito ficou ali parado, a dor e a decepção estampadas no rosto.
— E se não tiver sido o meu pai, mas o seu irmão Feng?
Ela inclinou a cabeça para o lado como se lembrasse.
Não, Feng já estava. . Ele morreu. Num acidente de carro.
Talvez fosse a hora de dizer a verdade à tia.
— Não, ele é um vampiro como eu e sua filha, Natasha. Você me fez encontrar Natasha,
lembra? E havia Chan, também. Chan forjou a própria morte para evitar que os pais
descobrissem que ele tinha se tornado um vampiro. Assim como Feng.
Os olhos de Bao Yu ficaram vidrados. O olhar, vazio. Será que ela não tinha entendido?
— Conte pra mim. Me diga em detalhes o que aconteceu. — Della preparou-se para ouvir.
Quando a tia não falou, Della acrescentou: — Ou me mostre. — Seu peito se apertou com a
sugestão. Os fantasmas podiam fazê-la entrar em seus pensamentos e reviver as experiências
deles. Um mês antes, o fantasma lhe dera um vislumbre rápido daquela noite. A visão de
alguém de pé sobre a tia morta, com uma faca na mão. Alguém que se parecia com o pai
dela.
Se ela conseguisse encontrar o tio, Burnett tentaria obter um julgamento sobrenatural para o pai dela. Talvez até mesmo evitar que fosse julgado. Mas eles precisavam de uma
prova. Precisavam do tio dela.
— Estou falando sério — disse Della. — Mostre pra mim.
É muito feio.
Della apertou os punhos.
— Na visão que você me mostrou, Feng estava de pé sobre você com uma faca. Foi ele que
matou você? Pense, Bao Yu. Pense.
Não. Feng, ele. . ele não tinha a. . Chao, ele. . O espírito fechou os olhos, como se estivesse
revivendo a visão. Não foi Feng. Foi Chao.
A aparição se dissipou no ar.
Sumiu.
Della murmurou palavras que a mãe a repreenderia por dizer. Então, com a audição de
vampiro, ouviu os pais conversando aos sussurros no andar de baixo. Embora não fosse
muito educado, ela pulou da cama e foi até o corredor para ver o que conseguia ouvir. Suas
três semanas ali não tinham lhe rendido nada, nenhuma nova informação. Como iria ajudar
a desvendar o mistério se os pais não confiavam nela?
— Por quê? — perguntava a mãe ao pai. A voz dela era um mero sussurro, mas seu tom era
tenso, cheio de angústia. — Por que você a trata desse jeito?
A respiração de Della ficou suspensa.
— Assim como? — rebateu o pai com rispidez. — Só perguntei se tinha mexido no
termostato.
— Não foi o que você perguntou, foi o modo como fez isso. Você não ouviu a resposta dela?
“Não, senhor”, como se você fosse um general. É como se tudo que você dissesse a ela fosse
uma acusação. Ela é nossa filha! Você não a ama?
Della engoliu o nó de dor preso na garganta.