Ruído
De volta para casa 30
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De volta para casa 30
Fórum dos Pilares da Sociedade
Data de publicação: 22 de dezembro, 17:26
Por: MayBey
Às vezes eu fantasio sobre matar alguém. Encontrar algum merda inútil. Um parasita
no corpo da sociedade que esteja pedindo para ser removido.
Vocês aí podem decidir. Devo fazer isso? Polegares para cima ou para baixo?
Eu já sei qual será a resposta.
Jamais ocorreria a vocês tentar me parar.
Será que eu poderia ser impedido?
Você pode realmente proteger-se de alguém que pode até não existir?
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Ele sonhou com um pássaro.
Um corvo negro do deserto com asas enormes, que se atirou nele enquanto ele estava de pé no telhado. Ele o viu chegando, levou o braço para os olhos instintivamente, e deu alguns passos para trás.
E logo depois, caiu da borda. Caiu em câmera lenta entre os edifícios, cujas janelas tinham sido substituídas por telas gigantes, piscando. Mensagens tomavam conta dele, enchendo sua cabeça. Quase fazendo ele se esquecer do chão, que ia ficando cada vez mais próximo.
“... como um Amigo da Lei e da Ordem, eu tenho que dizer...”
“Parabéns, Skövde, agora estamos fazendo...”
“... legislação que pode não chegar logo...”
“Recentemente tornou-se mais e...”
“O escritor não percebe realmente...”
“Olá às Indústrias Vanderley...”
“O que a Suécia precisa é de um novo...”
“Homem-bomba!”
“...pronto para assumir a responsabilidade...”
“O Jornal das Seis...”
“... sem sentido...”
“Dressman...”
“Você Está...”
“Terrorista”
“...Sempre...”
“Bombardeiro!”
“Jogando”
“vozes”
“rumores”
“O”
E então, finalmente, pouco antes de seu cérebro perceber o que estava prestes a acontecer. O momento antes de seu corpo no sonho se despedaçar no asfalto...
Jogo
Jogo
Jogo
Ele entrava e saía do sono e demorou um bom tempo até entender as coisas. A cama era familiar, assim como o quarto em que estava. Extremamente familiar, e por um momento ele pensou que ainda estava sonhando. Mas, então, ele sentiu a dor. Ok, você pode sentir dor nos sonhos, mas esta era a mãe de todas as dores...
Sua cabeça, barriga, virilha, braços, pernas, pés e mãos. Basicamente não havia uma única parte dele que não estava doendo. Então ele deveria estar acordado. Então – como diabos ele veio parar aqui?
A porta se abriu lentamente e um rosto familiar olhou para dentro.
“Oi, Henke”, disse ela, calmamente.
Obviamente, ela deveria ter levado ele para o pronto-socorro imediatamente. Mas ele implorou e suplicou para que ela não fizesse isso.
“Hospital não, por favor... Eu estou fodido se me colocarem em um banco de dados. FODIDO, entendeu?”
Sendo assim, ela o trouxe para casa, ajudou ele a se arrastar até seu apartamento, e depois lhe deu várias de suas mais fortes pílulas para dormir, antes de colocá-lo na cama.
Seu sono foi agitado, e ele acordou várias vezes tagarelando sobre pássaros do deserto, a Dressman e um monte de outras bobagens sem sentido.
Ela realmente deveria estar fora de si de preocupação. Mas, ao mesmo tempo, era tão incrivelmente bom vê-lo, tê-lo aqui no apartamento. Seguro...
Era mais do que provável que o estado em que Henke se encontrava tinha alguma ligação com sua própria noite desastrosa com John. Você não precisava ser o Einstein para perceber que ele deve ter ficado furioso com ela, e provavelmente descontou sua raiva em Henke.
É claro que ela nunca deveria ter falado que ele era seu irmão caçula...
Bom trabalho, Normén!
As coisas poderiam ter sido melhores...
Seu disfarce foi descoberto, ele havia sido torturado e perseguido, e quase se matou brincando de Homem-Aranha em Östermalm. Mas ele não podia negar que era bom vê-la...
Então, até que ponto ele realmente ousaria contar a ela?
Ele já tinha tentado contar algumas coisas no dia anterior, mas a combinação da dor com as pílulas tinham embaçado seus pensamentos.
Agora ele tinha que fazer um esforço, pelo menos. Ela definitivamente merecia isso.
Ela tinha basicamente salvado a sua vida.
Que sorte absurda ela simplesmente estar por ali.
Mas esta não foi a primeira vez que ele havia sido surpreendido pelo karma, então ele só tinha que relaxar e ser grato.
Levantou-se da cama e deu alguns passos vacilantes. Foi melhor do que esperava, na verdade.
Ele abriu a porta e saiu mancando em direção à sala de estar. Encontraram-se no corredor, com ela vestindo sua jaqueta.
“Oi, firme e forte?”
“Hmm, estou me sentindo melhor. Pensei que pudéssemos conversar...”
“Eu adoraria, de verdade! Mas tem uma coisa que eu preciso resolver primeiro, algo que eu deveria ter cuidado há muito tempo atrás. Só vai levar algumas horas, tudo bem...?”
“Ok”, ele murmurou.
Ele a seguiu até a porta como um cão cansado. Ela percebeu sua decepção.
“Eu volto logo”, ela disse, enquanto vestia o gorro e as luvas de lã. “Sinta-se em casa nesse meio tempo. Você sabe onde está tudo.”
Ela saiu pela porta, mas parou no meio da escada.
“Não se preocupe, irmãozinho. O que era mesmo que você costumava dizer...? Vou dar um jeito”!
“Em tudo...”, ele murmurou. “Vou dar um jeito em tudo...”
Mas ela já tinha ido.
Ele estava sentado na arquibancada mais distante, a apenas algumas fileiras das quadras e com suas costas largas viradas para a ela. Dois garotos perto dos vinte anos estavam jogando uma partida, mas ela não tinha ideia de qual estava ganhando.
Tênis nunca havia lhe interessado.
Ela desceu lentamente os degraus, e então entrou na fileira de assentos atrás dele. Calmamente abaixou um dos assentos azuis e se sentou. Ele ainda estava completamente concentrado no jogo e não parecia ter notado a presença dela.
“Ah, que merda!”
Um dos adolescentes perdeu o que parecia ser uma bola fácil e ela o ouviu xingar. Sua voz fez o coração dela bater um pouco mais rápido.
Calma, agora...
Ela respirou fundo para se recompor.
“Olá, Tobias!”, disse ela.
Ele se virou e por um momento pareceu quase assustado. Nenhum policial gostava de ser pego de surpresa.
“Becca! O que diabos você está fazendo aqui?!”
Ela não respondeu.
Ele deu uma olhada ao redor dos bancos, depois olhou ansioso para a quadra.
“Quero dizer, porra, Becca... Você não pode simplesmente aparecer assim. Aquele é meu filho!”
Ela encolheu os ombros.
“O que tem de tão estranho em dois ex-colegas sentarem aqui e conversarem sobre trabalho? Mesmo que já faça um tempo desde que você deixou a unidade de proteção pessoal, meu chefe ainda é seu vizinho, e seu melhor amigo, não é...? BFF ou seja lá como os jovens chamem isso hoje em dia.”
Ela fez um gesto em direção à quadra.
Ele se contorceu de novo, como se o banco estivesse machucando seu corpo.
“Mas, quero dizer, com certeza você pode entender... Quero dizer, nós...”
“Tivemos um caso?”
“S-sim... exatamente!”, ele balançou a cabeça, depois olhou para a quadra onde um dos meninos estava prestes a sacar.
“Então estamos de pleno acordo, Tobbe. Nós tivemos um caso, mas que já acabou, então eu quero que você pare de passar pelo meu apartamento na van, e pare de enviar mensagens para o meu celular. Entendeu?”
Ele olhou para ela sem responder, mas seu olhar severo de policial não surtiu efeito. Em vez disso, ela se virou para a quadra de tênis, onde o jogo tinha recomeçado.
“Parece um bom jogo. Eu devia aprender um pouco mais sobre tênis. Vai ter um grande campeonato para menores de 18 anos no Royal Tennis Club em algumas semanas, não vai? Talvez eu devesse dar uma olhada, me apresentar para a sua esposa, talvez ligar para sua casa em Näsby Park? Oi, meu nome é Rebecca e até muito recentemente eu estava tendo um caso com seu marido, mas ele parece estar com dificuldade em aceitar que acabou...”
Ele apertou a mandíbula e estreitou os lábios em uma fina linha branca.
“Ok.”
“O quê? Eu não consegui ouvir o que você disse, Tobbe...?”
“Ok, eu entendi!”, ele sussurrou.
Ele olhou para a quadra novamente, depois passou a mão pelos curtos cabelos louros.
“Você não vai ouvir mais nada de mim novamente, eu juro, então vai embora, pelo amor de Deus! O Jonathan está muito sensível com esse tipo de coisa, Jenny e eu só agora conseguimos acertar as coisas... Pelo amor de Deus, estamos fazendo terapia em família, Becca!”
“Sim, você realmente parece estar levando isso a sério...”, ela interrompeu. “Eu já vou embora, mas antes tem uma pergunta que eu gostaria que fosse respondida. Eu sei que você falou para os caras da equipe sobre mim, porque polícia é polícia, afinal...”
Ele estava evitando o olhar dela, mas ela continuou.
“O que eu quero saber é se algum de seus colegas na unidade de resposta rápida é particularmente bom com computadores? Bom o suficiente para saber como configurar um manto de anonimato avançado, por exemplo? Alguém que também seja bastante articulado, quando se trata de escrever?”
“O quê?”, ele olhou para ela.
“Você ouviu, e não finja que não leu a merda que tem sido escrita sobre mim”, ela rosnou. “Tem alguém no seu círculo mais próximo excepcionalmente bom com computadores, e se tem, quem?”
“Pai...”, um dos meninos chamou.
Os dois se viraram para olhar para a quadra. A partida parecia ter terminado, e um dos rapazes estava parado logo abaixo deles. A semelhança de família não era exatamente impressionante. Ao contrário de seu pai, Jonathan era magro, com cabelos longos, sebosos e com um monte de espinhas adolescentes espalhadas pelo rosto.
“Nós terminamos...”, disse Jonathan, emburrado.
“Ok, ótimo... Er...”
“Eliminado, três a zero. Podemos ir para casa agora?”
O menino lançou um longo olhar para Rebecca.
“Claro, sem problema. Vá tomar uma ducha, Jon, e eu vou pegar o carro.”
Ele se levantou, e Rebecca seguiu o exemplo.
Jonathan afastou-se lentamente em direção à entrada do vestiário, olhando por cima do ombro algumas vezes.
“Bem?”, ela disse, tentando acompanhá-lo enquanto ele subia os degraus.
Assim que eles estavam fora de vista, ele parou e pareceu pensar.
“Peter”, ele por fim disse, abruptamente. “Peter Gladh.”
Há quanto tempo eles sabiam? Um dia, dois? Talvez uma semana, ou até mais?
Ele tentou relembrar todas as conversas que teve na ArgosEye, desmembrando cada comentário em partes, na esperança de encontrar alguma pista. Será que eles na verdade sabiam o tempo todo, desde o primeiro dia?
Ele tinha quase certeza de que não era o caso. Mas não importava o quão detalhadamente ele analisasse as últimas semanas, a única conclusão a que ele chegou era que seu disfarce havia sido descoberto no dia do enterro.
Stoffe era, obviamente, o candidato mais forte. Afinal de contas, ele tinha realmente conhecido o verdadeiro Manga e tinha achado suspeito desde que soube que a ArgosEye havia lhe dado um emprego. Mas ele não podia descartar outras alternativas...
Será que Rilke poderia estar envolvida, por exemplo?
Será que ele disse alguma coisa a ela, será que algo escapou quando estavam enrolados assistindo televisão no sofá dela?
Ele achava que não, mas por outro lado a sua vida dupla das últimas semanas tinha cobrado um preço da sua mente. Um único deslize, era tudo o que seria preciso. Um nome, ou algum pequeno detalhe que não fizesse sentido. Rilke era mais do que inteligente o suficiente para pegar algo assim.
Como o fato de que ele tinha começado a beber vodca no bar de repente, mesmo que supostamente fosse abstêmio...
Talvez a Rilke não tivesse gostado da atenção que ele tinha dado a Sophie, ficou com ciúme no dia seguinte e contou a Philip? Ele não podia descartar isso, infelizmente.
Mas havia algo mais.
Ele estava no apartamento de Becca, um lugar que o Jogo devia manter sob vigilância constante.
Enquanto ele estivesse aqui, estava em perigo.
E Becca também...
Quando ela chegou em casa, encontrou-o na frente do computador. A cabeça dele estava descansando sobre os braços, e ele estava dormindo. Ela o ajudou a voltar para a cama e o cobriu, sentando-se em seguida na cadeira em que ele estivera sentado.
O site dos Pilares da Sociedade estava aberto.
Turno da noite.
Prostitutas, cafetões, bêbados, traficantes e cidadãos comuns, com todas as porras dos
seus direitos. A lua cheia parece tornar as pessoas ainda mais loucas do que o habitual.
Estou cansado disso. Perto das três horas começou a chover, graças a Deus, e a plebe se
arrastou de volta para seus buracos. Um dia nós vamos ter uma chuva de verdade, que
vai lavar o lixo para fora da calçada. Um dia, muito em breve...
Você entende o que eu quero dizer?
Você entende, Regina?
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