Sacrificium Laudis: Bento XVI e o retorno do catolicismo tradicional
2. Sacrificium Laudis ou ceia
Após o estudo histórico da formação do rito romano fundamentado de modo particular na concepção de liturgia ocidental de Jungmann, parte-se para a análise documental de fato, tendo por fonte o Missal Tridentino e Novus Ordo de Paulo VI.
Almeja-se, portanto, centrar a pesquisa nos gestos, palavras e símbolos dos dois ordinários da missa, com seus textos litúrgicos, o de São Pio V e o de Paulo VI, este último com ênfase na Oração Eucarística II. Ressalta-se ainda o uso da carta do cardeal Ottaviani acerca do texto que fora apresentado para a missa de Paulo VI.
Se imagens dizem mais que as palavras, faz-se necessário recorrer a elas para expressar aquilo que os textos estudados buscam expressar. Para tanto, utilizamo-nos da internet que, nos últimos anos, de modo particular com a eleição de Bento XVI, tem sido preenchida com sites, blogs e afins repletos de artigos, imagens e vídeos pró-tradição e contrários às inovações do Vaticano II.
Assim, primeiro, traça-se um estudo da missa na forma ritual tridentina e logo em seguida na forma de Paulo VI, tendo em vista as considerações do cardeal Alfredo Ottaviani.
Missa tridentina
O Missal Tridentino é repleto de rubricas 1 que expressam com detalhismo os gestos, ações e palavras que o sacerdote deve proferir, em um processo rigoroso. Urbano Zilles, em seu livro Filosofia da Religião (1991), ao elucidar as concepções modernas de religião, destaca que do ponto de vista antropológico, a religião é um conjunto de símbolos. Pois bem, na forma tridentina do rito romano, eles são inúmeros, e explicá-los em sua totalidade tomaria páginas incontáveis e exigiria uma profunda inclinação teológica, o que poderia levar a um desvio do objetivo da análise histórica de uma realidade presente, a de que se ocupam estas linhas. Ainda assim, cabe aqui elucidar o desenvolvimento da celebração dando ênfase a seus principais atos simbólicos, que tornam presente o passado.
As rubricas do Missal de São Pio V estabelecem todo um ritual antes do início da missa, no qual ainda na sacristia o celebrante se paramenta rezando diversas orações para cada parte da vestimenta que usará durante ela. Depois, antecedido por um crucifixo e velas, ele caminha para o presbitério. Aos pés do altar reza o salmo 42 e faz uma confissão pública de seus pecados enquanto o ajudante reza para que ele alcance o perdão de Deus. Depois isto se inverte e o sacerdote aproxima-se do altar e o incensa enquanto o coro canta o Kyrie eleison (Senhor tende piedade).
Após esse momento é entoado o Glória, dando louvores a Deus. Segue-se a oração do dia, a leitura, um salmo e a proclamação do Evangelho (é lícito notar que toda a liturgia se dá em latim, podendo as leituras ainda ser proclamadas em vernáculo, na língua local). Então o celebrante faz um sermão comentando acerca de pontos dogmáticos da fé católica, das leituras do dia; em seguida é recitado o Credo, a profissão de fé.
Jungmann lembra que então o sacerdote se virará pela última vez para o povo, após fazer o ofertório do pão e do vinho, convidando os fiéis a rezarem para que Deus aceite o sacrifício que ele, segundo a fé católica, oferecerá, in persona Christi, junto com a transubstanciação do pão e do vinho no corpo, sangue, alma e divindade de Cristo como elucida o catecismo da Igreja Católica, tanto na versão tridentina quanto na pós-Vaticano II.
Quanto ao ofertório da missa nessa forma, é de suma importância destacar que embora rezado em voz baixa pelo sacerdote (o que não impede que os leigos acompanhem a oração no missal pessoal) há uma verdadeira elucidação da realidade sacrifical da missa – uma oração de preparação, relativamente longa, que destaca de forma catequética o que é o culto católico, como pode se perceber abaixo no original em latim e em sua tradução:
Suscipe, sancte Pater, omnipotens æterne Deus, hanc
immaculatam hostiam, quam ego indignus famulus tuus offero
tibi, Deo meo vivo et vero, pro innumerabilibus peccatis, et
offensionibus, et negligentiis meis, et pro omnibus
circumstantibus, sed et pro omnibus fidelibus Christianis vivis
atque defunctis: ut mihi, et illis proficiat ad salutem in vitam
æternam. Amen.
Deus, qui humanæ substantiæ dignitatem mirabiliter condidisti,
et mirabilius reformasti: da nobis per hujus aquæ et vini
mysterium, ejus divinitatis esse consortes, qui humanitatis
nostræ fieri dignatus est particeps, Jesus Christus Filius tuus
Dominus noster: Qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus
Sancti Deus: per omnia sæcula sæculorum. Amen
Offerimus tibi, Domine, calicem salutaris, tuam deprecantes
clementiam: ut in conspectu divinæ maiestatis tuæ, pro nostra
et totius mundi salute, cum odore suavitatis ascendat. Amen.
In spiritu humilitatis et in animo contrito suscipiamur a te,
Domine: et sic fiat sacrificum nostrum in conspectu tuo hodie, ut
placeat tibi, Domine Deus.
Veni, Sanctificator, omnipotens æterne Deus: et benedic hoc
sacrificum, tuo sancto nomini præparatum. (Missal romano,
1962, p.816)
Recebei, santo Pai, onipotente e eterno Deus, esta hóstia
imaculada, que eu vosso indigno servo, vos ofereço, ó meu
Deus, vivo e verdadeiro, por meus inumeráveis pecados,
ofensas e negligências, por todos os que circundam este altar, e
por todos os fiéis vivos e falecidos, afim de que, a mim e a eles,
este sacrifício aproveite para a salvação na vida eterna. Amém.
Ó Deus, que maravilhosamente criastes em sua dignidade a
natureza humana e mais prodigiosamente ainda a restaurastes,
concedei-nos, que pelo mistério desta água e deste vinho,
sermos participantes da divindade daquele que se dignou
revestir-se de nossa humanidade, Jesus Cristo, vosso Filho e
Senhor Nosso, que sendo Deus convosco vive e reina em união
com o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.
Nós vos oferecemos Senhor, o cálice da salvação, suplicando a
vossa clemência. Que ele suba qual suave incenso à presença
de vossa divina majestade, para salvação nossa e de todo o
mundo. Amém.
Em espírito de humildade e coração contrito, sejamos por vós
acolhidos, Senhor. E assim se faça hoje este nosso sacrifício
em vossa presença, de modo que vos seja agradável, ó Senhor
Nosso Deus.
Vinde, ó Santificador, onipotente e eterno Deus, e abençoai
este sacrifício preparado para glorificar o vosso santo nome.
No próximo item destacar-se-á como houve uma simplificação da estrutura dessa oração, de tal modo que o caráter explicativo do sacrifício, de oferecimento do pão e do vinho, e depois, do corpo e sangue, praticamente desapareceu.
Chegado o fim do ofertório, o sacerdote recita o prefácio e a assembleia canta o Sanctus. A partir desse momento, em silêncio, apenas com o mexer dos lábios, o celebrante inicia o Cânon, no qual primeiramente intercede pela Igreja e pelos fiéis pedindo para Deus abençoar e aceitar o que ele oferecerá. Deste estágio em diante a solenidade se faz notar com as palavras e os gestos da consagração, na qual o celebrante narra a instituição da Eucaristia e recita as palavras de Cristo na última ceia:
Qui pridie quam pateretur, accepit panem in sanctas ac
venerabiles manus suas,et elevatis oculis in cælum ad te Deum
Patrem suum omnipotentem, tibi gratias agens, benedixit, fregit,
deditque discipulis suis, dicens: Accipite, et manducate ex hoc
omnes.
Hoc est enim Corpus meum
Simili modo postquam cænatum est, accipiens et hunc
præclarum Calicem in sanctas ac venerabiles manus suas: item
tibi gratias agens, benedixit, deditque discipulis suis, dicens:
Accipite, et bibite ex eo omnes
Hic est enim Calix Sanguinis mei, novi et æterni testamenti:
mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in
remissionem peccatorum. Hæc quotiescumque fecérit, in mei
memóriam faciétis. (idem, p.838)
Ele, na véspera de sua paixão, tomou o pão em suas santas e
veneráveis mãos, e elevando os olhos ao céu para vós, ó Deus,
seu Pai onipotente, dando-vos graças, benzeu-o, partiu-o e
deu-o a seus discípulos, dizendo: Tomai e Comei Dele, Todos.
Isto é o Meu Corpo.
De igual modo, depois de haver ceado, tomando também este
precioso cálice em suas santas e veneráveis mãos, e
novamente dando-vos graças, benzeu-o e deu-o a seus
discípulos, dizendo: Tomai e Bebei Dele Todos.
Este é o Cálice do meu Sangue, do novo e eterno Testamento:
mistério de fé: que será derramado por vós e por muitos para
remissão dos pecados.
Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim.
Em seguida, o sacerdote continua fazendo memória da morte de Cristo e pedindo a Deus que agora aceite o corpo e o sangue de Cristo, oferecido no altar e não na cruz, de maneira incruenta e não cruenta, como salientam o Catecismo Romano e o Missal.
Unde et memores, Domine, nos servi tui sed et plebs tua
sancta, eiusdem Christi Filii tui Domini nostri tam beatæ
Passionis, nec non et ab inferis Resurrectionis, sed et in cælos
gloriosæ Ascensionis: offerimus præclaræ maiestati tuæ de tuis
donis ac datis, hostiam puram, hostiam sanctam, hostiam
immaculatam, Panem sanctum vitæ æternæ, et Calicem salutis
perpetuæ.
Supra quæ propitio ac sereno vultu respicere digneris; et
accepta habere, sicuti accepta habere dignatus es munera pueri
tui justi Abel, et sacrificium Patriarchæ nostri Abrahæ: et quod
tibi obtulit summus sacerdos tuus Melchisedech, sanctum
sacrificium, immaculatam hostiam.
Supplices te rogamus, omnipotens Deus, jube hæc perferri per
manus sancti Angeli tui in sublime altare tuum, in conspectu
divinæ majestatis tuæ: ut quoquot ex hac altaris partecipatione
sacrosanctum Filii tui Corpus, et Sanguinem sumpserimus, omni
benedictione cælesti et gratia repleamur. Per eumdem Christum
Dominum nostrum. Amen. (idem, p.840)
Por esta razão, Senhor, nós, vossos servos, com o vosso povo
santo, lembrando-nos da bem-aventurada Paixão do mesmo
Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso, assim como de sua
Ressurreição, saindo vitorioso do sepulcro, e de sua gloriação
Ascensão aos céus, oferecemos à vossa augusta Majestade,
de vossos dons e dádivas, a Hóstia pura, a Hóstia santa, a
Hóstia imaculada, o Pão santo da vida eterna, e o Cálice da
salvação perpétua.
Sobre estes dons, vos pedimos digneis lançar um olhar
favorável, e recebê-los benignamente, assim como recebeste
as ofertas do justo Abel, vosso servo, o sacrifício de Abraão, pai
de nossa fé, e o que vos ofereceu vosso sumo sacerdote
Melquisedeque, Sacrifício santo, Hóstia imaculada.
Suplicantes vos rogamos, ó Deus onipotente, que, pelas mãos
de vosso santo Anjo, mandeis levar estas ofertas ao vosso Altar
sublime, à presença de vossa divina Majestade, para que, todos
os que, participando deste altar, recebermos o sacrossanto
Corpo, e Sangue de vosso Filho, sejamos repletos de toda a
bênção celeste e da Graça. Pelo mesmo Jesus Cristo, Nosso
Senhor. Amém.
O Catecismo de Trento e a edição pós-Vaticano II reafirmam tal caráter sacrifical da missa, embora o primeiro seja mais explícito, enquanto o segundo o faz de maneira mais argumentativa, baseando-se, por fim, também, no Concílio de Trento e em Santo Inácio de Antioquia, como se pode notar nestas citações:
Acerca da instituição deste Sacrifício, o Santo Concílio de
Trento declarou ter sido instituído por Cristo Nosso Senhor na
Última Ceia; fulminou, ao mesmo tempo, a pena de
excomunhão contra quem afir-masse que não se oferece a
Deus um verdadeiro Sacrifício, no rigor da palavra, ou que a
oblação sacrificial não consiste em outra coisa senão dar-Se
Cristo a Si mesmo como comida. (Catecismo Romano, n.70)
O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único
sacrifício: "É uma só e mesma vítima, é o mesmo que oferece
agora pelo ministério dos sacerdotes, que se ofereceu a si
mesmo então na cruz. Apenas a maneira de oferecer difere";
"Neste divino sacrifício que se realiza na missa, este mesmo
Cristo, que se ofereceu a si mesmo uma vez de maneira
cruenta no altar da cruz, está contido e é imolado de maneira
incruenta". (CIC, n.1367)
Não há discordância entre os dois catecismos como se pode no-tar nas citações; há apenas diferenças textuais, que no caso do segundo, se tomadas isoladamente, poderiam levar a interpretações múltiplas – portanto, é necessário que o texto seja lido na íntegra. Tal situação não se aplica ao primeiro, na medida em que apenas apresenta dogmaticamente o seu enunciado.
O sacrifício eucarístico assume seu propósito, os seus quatro fins, segundo a doutrina católica: o latrêutico ou de adoração, o eucarístico ou de ação de graças, o propiciatório ou de expiação e o impetratório ou de súplica. O louvor, a ação de graças, a expiação dos pecados e a súplica são constantes nas orações anteriormente citadas e também na que se segue em que o clero oficiante reza pelos fiéis defuntos, por si e pede o Paraíso. A conclusão do Cânon se dá com a ação de graças, o Per Ipsum (Por Ele):
Memento etiam, Domine, famulorum famularumque tuarum N.et
N.qui nos præcesserunt cum signo fidei, et dormiunt in somno
pacis.
Ipsis, Domine, et omnibus in Christo quiescentibus, locum
refrigerii, lucis et pacis, ut indulgeas, deprecamur. Per eumdem
Christum Dominum nostrum. Amen.
Nobis quoque peccatoribus, famulis tuis, de multitudine
miserationum tuarum sperantibus, partem aliquam, et
societatem donare digneris, tuis sanctis Apostolis et Martyribus:
cum Joanne, Stephano, Matthia, Barnaba, Ignatio, Alexandro,
Marcellino, Petro, Felicitate, Perpetua, Agatha, Lucia, Agnete,
Cæcilia, Anastasia, et omnibus Sanctis tuis: intra quorum nos
consortium non æstimator meriti, sed veniæ, quæsumus,
largitor admitte. Per Christum Dominum nostrum.
Per quem hæc omnia Domine, semper bona creas, sanctificas,
vivificas, benedicis, et præstas nobis.
Per ipsum, et cum ipso, et in ipso, est tibi Deo Patri omnipotenti,
in unitate Spiritus Sancti, omnis honor et gloria.
Per omnia sæcula sæculorum. (Missal Romano, 1962, p.842)
Lembrai-vos, também, Senhor, de vossos servos e servas (NN.
e NN.), que nos precederam, marcados com o sinal da fé, e
agora descansam no sono da paz.
A estes, Senhor, e a todos os mais que repousam em Jesus
Cristo, nós vos pedimos, concedei o lugar do descanso, da luz
e da paz. Pelo mesmo Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.
Também a nós, pecadores, vossos servos, que esperamos na
vossa infinita misericórdia, dignai-vos conceder um lugar na
comunidade de vossos santos Apóstolos e Mártires: João,
Estevão, Matias, Barnabé, Inácio, Alexandre, Marcelino, Pedro,
Felicidade, Perpétua, Águeda, Luzia, Inês, Cecília, Anastácia, e
com todos os vossos Santos. Unidos a eles pedimos, vos
digneis receber-nos, não conforme nossos méritos, mas
segundo a vossa misericórdia. Por Jesus Cristo Nosso Senhor.
Amém.
Por Ele, ó Senhor, sempre criais, santificais, vivificais,
abençoais, e nos concedeis todos estes bens.
Por Ele, com Ele e Nele, a Vós, Deus Pai onipotente, na
unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória.
Por todos os séculos dos séculos.
Sem maiores desvios do foco de estudo, é justo levarmos tal acontecimento para o campo da filosofia; embasadas em um modelo aristotélico-tomista, as quatro causas de Aristóteles preservadas por Santo Tomás de Aquino fazem-se notar na missa. A causa material (pão e vinho), a causa formal (a fórmula consacratória), a causa motriz (a própria ação de Deus Uno e Trino, a Persona Christi que age por meio do sacerdote para a transubstanciação) e a causa final, a mais importante que levou à realização de todas as outras causas: oferecer o sacrifício a Deus em suas quatro finalidades.
A 2 foto 1 retrata o momento da elevação da hóstia, que tem por função permitir aos fiéis visualizá-la e adorá-la e fazer vir à memória o momento em que Cristo foi elevado na cruz.
Foto 1 – Missa tridentina rezada em Campos Fonte: Administração
Apostólica São João Maria Vianey. Disponível em: <http://
www.adapostolica.org/modules/xcgal/displayimage.php?
pid=436&album= lastup&cat=6&pos=69>. Acesso em: 18 jan. 2007.
Após o Cânon entra-se nos ritos da comunhão com a recitação do Pater (Pai-nosso) e a fração da hóstia, quando um fragmento dela é misturado ao vinho consagrado, simbolizando a união do corpo e do sangue de Cristo enquanto a assembleia recita o Agnus Dei (Cordeiro de Deus), retomando as palavras de João Batista sobre Cristo e reconhecendo que o sacrifício d’Ele na cruz e agora renovado no altar reconciliou a humanidade e seu criador, segundo a filosofia da história da Igreja. Tal doutrina sustenta-se biblicamente e pode ser conferida nas cartas de Paulo, como destaca o Catecismo:
A Eucaristia é, pois, um sacrifício, porque representa (torna
presente) o sacrifício da cruz, porque é dele o memorial e
porque aplica o seu fruto:
Cristo "nosso Deus e Senhor [...], ofereceu-Se a Si mesmo a
Deus Pai uma vez por todas, morrendo como intercessor sobre
o altar da cruz, para realizar em favor deles [homens] uma
redenção eterna. No entanto, porque após a sua morte não se
devia extinguir o seu sacerdócio (Heb 7, 2427), na última ceia,
‘na noite em que foi entregue’ (1 Cor 11, 13). [...] Ele [quis
deixar] à Igreja, sua esposa bem-amada, um sacrifício visível
(como o exige a natureza humana), em que fosse representado
o sacrifício cruento que ia realizar uma vez por todas na cruz,
perpetuando a sua memória até ao fim dos séculos e aplicando
a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que nós
cometemos cada dia". (CIC, n.1366)
Em seguida, o sacerdote reza pedindo a paz e faz sua comunhão. Após esse momento, volta-se para os fiéis que rezaram novamente o confiteor, confessando seus pecados, e apresenta-lhes a hóstia com as palavras de João Batista: "Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi – Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo" (Missal Romano, 1962, p.851).
Quanto à preparação para a fração da hóstia, a oração após o Pater, é necessário citá-la devido à mudança que sofreu no Novus Ordo. Por meio dela, suplica-se a paz e pede-se para que os fiéis sejam livres do mal. No próximo item destacar-se-á a mudança sofrida nessa fórmula.
Libera nos, quæsumus, Domine, ab omnibus malis, præteritis,
præsentibus, et futuris: et intercedente beata et gloriosa semper
Virgine Dei Genitrice Maria, cum beatis Apostolis tuis Petro et
Paulo, atque Andrea, et omnibus Sanctis, da propitius pacem in
diebus nostris: ut ope misericordiæ tuæ adiuti, et a peccato
simus semper liberi, et ab omni perturbatione securi. Per
eumdem Dominum nostrum Jesum Christum, Filium tuum. Qui
tecum vivit et regnat in unitate Spíritus Sanctis Deus,
Per ómnia saecula saeculórum. (idem, p.845)
Livrai-nos de todos os males, ó Pai, passados, presentes e
futuros, e pela intercessão da bem-aventurada e gloriosa
sempre Virgem Maria, dos vossos bem-aventurados apóstolos,
Pedro, Paulo, André e todos os Santos, dai-nos propício a paz
em nossos dias, para que, por vossa misericórdia, sejamos
sempre livres do pecado, e preservados de toda a perturbação.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que, sendo Deus,
convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo,
Por todos os séculos dos séculos.
Os fiéis, então, aproximam-se do altar e recebem a eucaristia na boca e de joelhos. Após a comunhão dos fiéis o sacerdote reza mais uma vez para que o sacrifício por ele oferecido tenha sido agradável a Deus e concede a benção final. Em seguida, encerra-se a celebração com a recitação do prólogo do Evangelho de João, no qual se faz memória da encarnação de Cristo, e com a recitação da Salve Regina (Salve Rainha) ou outra antífona mariana.
Todo o desenvolver desta forma ritual faz recordar o sacrifício de Cristo no calvário, ponto central da concepção de história que a Igreja gerou. Isso justifica o que foi anteriormente destacado na introdução ao afirmar que o culto católico também constitui um ensinamento da fé professada.
Portanto, se algo mudasse no ritual da missa isso seria um reflexo da alteração do que se acredita ou poderia gerar tal variação. Esse é o argumento-chave que levou à escrita destas linhas. Assim, segue o estudo do desenvolvimento do novo ritual, fruto das propostas conciliares do Vaticano II.
Novus Ordo: Oração Eucarística II
A fonte documental analisada aqui é um exemplar do Novus Ordo Missae de Paulo VI, hoje forma ordinária do rito romano. É importante relembrar que uma das inovações do novo ordinário é a criação de outras orações eucarísticas, no entanto a mais usada é a de número II, que praticamente suplantou o Cânon romano oriundo do que é hoje uma forma extraordinária.
Ao elencar os principais pontos da missa nova usar-se-á essa nova maneira de consagrar utilizada pelos sacerdotes. Lícito é ainda destacar que o intuito conciliar foi simplificar a liturgia e gerar uma maior participação do laicato na celebração. Os efeitos desse ato, entretanto, são a causa de tantas discórdias e discussões que conduziram até a cismas. A carga simbólica dos gestos da missa de Paulo VI é interpretada nas mais variantes formas; a unidade deu lugar a uma Babel de posicionamentos que Roma não conseguiu controlar. O latim foi esquecido e com ele uma identidade que era clara e objetiva.
Esses pontos acima citados serão trabalhados com maior detalhe junto à apresentação que se segue do rito paulino. Muitas das considerações a seguir são embasadas nas críticas feitas pelo cardeal Ottaviani, por serem pertinentes e expressarem não apenas questões teológicas, mas também apresentarem uma conotação histórica. No terceiro item deste capítulo explanaremos melhor algumas das preocupações do referido cardeal.
Assim, passa-se agora ao estudo da forma ordinária da celebração da missa. Esta tem início com o sacerdote subindo ao presbitério e saudando a assembleia em nome de Deus Uno e Trino; em seguida, recita-se uma confissão pública ou parte-se diretamente para o Kyrie eleison (Senhor tende piedade), que é seguido do Glória e da oração do dia. Leituras bíblicas são acompanhadas de um salmo e parte-se para o Evangelho e depois para a homilia.
Observa-se nessa primeira parte que o salmo 42, o Iuduca me, já não aparece no início da nova missa: a confissão pública dos pecados quando ocorre (pois não é obrigatória) é feita em conjunto pelo sacerdote e pelos fiéis, portanto sem distinção entre sacerdote e laicato.
Após a homilia, reza-se o Credo e a comunidade faz orações e dá-se início ao ofertório, com um número de orações muito reduzido frente ao rito tridentino; em seguida, o sacerdote convoca os fiéis a rezar para que Deus aceite o sacrifício. É importante destacar que esta é a única vez que a palavra sacrifício é dita em voz alta se o sacerdote rezar a Oração Eucarística II, pois nela, após a recitação do pre-fácio, já se parte para a memória da instituição da Eucaristia, também com uma forma mais simplificada.
O novo ofertório carece de fatores catequéticos, ele já não é uma explicação do sacrifício que ocorrerá na missa, mas antes assume exclusivamente o lugar de apresentação dos dons dados por Deus, o pão e vinho, frutos da terra e do trabalho humano. As expressões corpo e sangue não se fazem notar, apenas pão da vida e vinho da salvação. É interessante, também, destacar que os fiéis já não seguem a missa com um Missal bilíngue, mas com folhetos dominicais que suprimem essa oração, e os leigos já não a acompanham. Na forma extraordinária, como já foi anteriormente colocado, o fiel tinha a possibilidade de acompanhar cada oração em seu missal pessoal. O propósito da missa de oferecer o sacrifício em suas finalidades não se faz visível no novo ofertório. Embora a palavra sacrifício apareça no final da oração, ela não é sustentada pela causa de finalidade, e a simplificação da mesma restringe a ação formadora da fé católica para o próprio padre celebrante, como se pode observar a seguir:
Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que
recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho
humano, que agora vos apresentamos, e para nós se vai tornar
pão da vida.
Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da
divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa
humanidade.
Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo vinho que
recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho
humano, que agora vos apresentamos, e para nós se vai tornar
vinho da salvação.
De coração contrito e humilde, sejamos, Senhor, acolhidos por
vós; e seja o nosso sacrifício de tal modo oferecido que vos
agrade, Senhor, nosso Deus. (Novus Ordo, p.12)
Após o ofertório, é recitado o prefácio próprio do tempo litúrgico e a Oração Eucarística. Neste caso, segue citada na íntegra a número II, sem os comunicantes próprios:
Na verdade, ó Pai, vós sois santo e fonte de toda santidade.
Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre elas o
vosso Espírito, a fim de que se tornem para nós o Corpo e o
Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso.
Estando para ser entregue e abraçando livremente a paixão,
Ele tomou o pão, deu graças, e o partiu e deu a seus discípulos,
dizendo: TOMAI, TODOS, E COMEI: ISTO É O MEU CORPO,
QUE SERÁ ENTREGUE POR VÓS.
Do mesmo modo, ao fim da ceia, Ele tomou o cálice em suas
mãos, deu graças novamente e o deu a seus discípulos
dizendo:
TOMAI, TODOS, E BEBEI: ESTE É O CÁLICE DO MEU
SANGUE, O SANGUE DA NOVA E ETERNA ALIANÇA, QUE
SERÁ DERRAMADO POR VÓS E POR TODOS PARA A
REMISSÃO DOS PECADOS. FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE
MIM.
Eis o mistério da fé. Anunciamos, Senhor, a vossa morte e
proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!
Celebrando, pois, a memória da morte e ressurreição do vosso
Filho, nós vos oferecemos, ó Pai, o pão da vida e o cálice da
salvação; e vos agradecemos porque nos tornastes dignos de
estar aqui na vossa presença e vos servir. E nós vos
suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo,
sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só Corpo.
Lembrai-vos, ó Pai, da vossa Igreja que se faz presente pelo
mundo inteiro: que ela cresça na caridade, com o papa (N), com
o nosso bispo (N) e todos os ministros do vosso povo.
Lembrai-vos também dos nossos irmãos e irmãs que morreram
na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta
vida: acolhei-os junto a vós na luz da vossa face. Enfim, nós
vos pedimos, tende piedade de todos nós e dai-nos participar
da vida eterna, com a Virgem Maria, mãe de Deus, com os
santos Apóstolos e todos os que neste mundo vos serviram, a
fim de vos louvarmos e glorificarmos por Jesus Cristo, vosso
Filho.
Por Cristo, com Cristo, e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-
poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a
glória, agora e para sempre. (idem, p.50-4)
Observa-se que após o ato consacratório, o sacerdote oferece a Deus "o pão da vida e cálice da salvação"; as palavras corpo e sangue não aparecem no ato de oferecer aquilo que antes era explicitado como ação de graças sacrificial. Embora as palavras corpo e sangue apareçam pelo menos três vezes nessa oração, seu sentido não é ligado ao de vítima expiatória.
Em seguida o celebrante reza pela Igreja em sua hierarquia, mas não menciona, como no Cânon romano, que o sacrifício era oferecido primeiramente por ela. Depois, pede-se que Deus se lembre dos que morreram e intercede pelos vivos, encerrando com a ação de graças (Per Ipsum). É válido notar que a ênfase recai sobre a ideia de memória, uma tendência que aproxima essa celebração da visão protestante de culto cristão e que os inúmeros santos elencados no Cânon romano desapareceram – apenas a Virgem Maria é citada de forma explícita.
O rito de comunhão tem início com o Pater rezado por todos os fiéis e não apenas pelo sacerdote, que prossegue sozinho com as orações para estar livre do mal e pela paz. Essa nova oração após o Pater tende à ambiguidade, pois, diferente da forma extraordinária, anteriormente citada, que não fazia menção à Parusia, o retorno glorioso de Cristo para o dia do Juízo Final, a nova fórmula parece remeter a isso, mas não especifica que se trata dessa vinda gloriosa, causando ambivalência. Como se Cristo ainda não tivesse estado no meio dos homens, o rito diz apenas:
Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz.
Ajudados pela vossa misericórdia e protegidos de todos os
perigos, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de
todos os perigos, enquanto vivendo a esperança, aguardamos a
vinda do Cristo Salvador. (idem, p.12)
Após tais atos, faz-se a fração do pão ao som do Agnus Dei e o celebrante apresenta a hóstia com as palavras de João Batista – Eis o Cordeiro de Deus... – comunga e distribui a Eucaristia às pessoas que a recebem em suas mãos e em pé. Nesse ínterim, é salutar mencionar que o ato de comungar na boca e de joelhos nunca foi abolido em forma de direito, mas na prática ele tornou-se exceção. Para encerrar o rito, após a oração final, o sacerdote abençoa a comunidade e a despede. Já não há mais a recitação do prólogo do evangelho de João ou o entoar de alguma antífona mariana.
Algo singular acontece no Brasil: a tradução do novo rito fez-se traição. Uma traição de significados, pois a frase e a resposta mais comum durante a missa se mantiveram, o Dominus vobiscum respondido com o Et cum spiritu tuo, literalmente: O Senhor esteja convosco e E com o teu espírito. Na Terra Brasilis, traduziu-se a resposta acima enunciada por "Ele está no meio de nós". Tal fato tende a reforçar o caráter de comunidade, ao mesmo tempo em que suprime a distinção do sacerdote, inserindo-o como um igual na assembleia reunida para a celebração.
Por meio da foto 2 fica ilustrado o momento da consagração no rito paulino. Aí a celebração tomou grandes proporções, na medida em que é possível notar uma grande quantidade de cálices e âmbulas, mas percebe-se, também, a semelhança com uma grande ceia. Observa-se ainda que o celebrante encontra-se voltado para os fiéis, além da ausência de um crucifixo na parte central do altar, que por sua vez se assemelha muito a uma mesa para os convivas.
Foto 2 – Missa celebrada em Franca Fonte: Diocese de Franca.
Disponível em: <http://www.diocesefranca.org.br/boletim/
ago2004/bd-noticia2a.html>. Acesso em: 30 ago. 2004.
A carga simbólica dessa imagem remete, mais uma vez, ao princípio católico da lex orandi, lex credenti, que se impõe para a interpretação dos sentidos que circundam as duas formas do rito latino da Igreja. A mentalidade oriunda do Concílio Ecumênico Vaticano II parece ter ressignificado o centro da identidade do catolicismo romano. A interpretação do referido Concílio está no seio da nova visão de missa que se criou.
A nova forma ritual oriunda de uma determinada visão do Vaticano II pode ser entendida como um instrumento na busca de aproximação com o mundo, agora chamado moderno, e com os cristãos não católicos. Monsenhor Annibale Bugnini, Secretário da Comissão para elaborar o Novo Ordinário, declarou o seu "desejo de eliminar [do futuro rito em elaboração] cada pedra que pudesse se tornar ainda que só uma sombra de possibilidade de obstáculo ou de
desagrado aos irmãos separados"3(1965, apud Fedeli).
A questão que se coloca então é: quais as consequências de abrir mão de símbolos católicos, considerados como pedras pelo então secretário Bugnini, e injetar na nova forma ritual significados não católicos? A resposta parece óbvia: crise e perda de identidade. Se se queria aproximação e unidade com os não católicos, um dos propósitos do Vaticano II, isso não se realizou na prática, mas o resultado foi divisão interna, divisão oriunda de uma nova cultura religiosa.
A nova configuração litúrgica fez da missa uma reunião de fiéis para um banquete; o sacerdote já não se volta para a divindade, mas para o povo, e descobre no presbitério uma espécie de palco, onde, de atrás de uma mesa, depara com um público ansioso por novidades. A missa atual é, também, a expressão dessa ansiedade característica do mundo moderno, do mundo que gerou o Concílio Vaticano II.
A missa, a lei da oração, passou a ser reflexo, ser moldada por uma nova organização de expressões. Na busca de diálogo com não católicos e com o mundo moderno a Igreja congregou elementos que geraram conflitos. Tal fato não é novo para a Igreja: em sua história ela se apossou de diversos elementos pagãos e deu-lhes sentido cristão, a começar pela filosofia grega que na patrística e na escolástica foram cristianizadas.
No entanto, se ao longo de sua existência a Igreja incorporou e manipulou símbolos, como é o caso do disco solar, símbolo do Sol Invictus em Roma, ressignificado como símbolo de santidade nos cristãos canonizados (a aréola na cabeça das imagens dos santos católicos), o mesmo não se pode dizer da missa atual, que é expressão de uma manipulação interna. Se houve assimilação de símbolos externos à Igreja nos últimos quarenta anos, o movimento parece ter sido inverso: não se manipulou o símbolo alheio em benefício próprio, ressignificando-o, mas manipulou-se o patrimônio interno para uma aproximação com o externo.
O esquecimento e o abandono da língua latina nas celebrações litúrgicas católicas expressam bem essa crise. A busca por um melhor entendimento popular do rito por meio do uso da língua nacional no culto católico conduziu a Igreja a um fenômeno de perda do sentido de unidade, que fazia do latim uma espécie de língua "nacional" do catolicismo, em paralelo à perda da conotação mística, pois a liturgia deixou de conduzir a um mistério, a algo não racional.
O uso do vernáculo no lugar do latim, como já foi anteriormente destacado, merece ser novamente citado, pois foi um dos diversos pontos de deturpação daquilo que está nos documentos do Vaticano II:
§ 1. Salvo o direito particular, seja conservado o uso da língua
latina.
§ 2. Dado porém, que não raramente, o uso da língua vulgar
pode ser muito útil para o povo, seja na missa, seja na
administração dos sacramentos, seja em outras partes da
liturgia, dê-se-lhe um lugar mais amplo, especialmente nas
leituras e admoestações, em algumas orações e cânticos,
segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos
seguintes. (SC, n.36)
Tais resultados são frutos das diversas inovações oriundas das brechas dadas pelas rubricas do Novus Ordo que, mesmo escassas, quase não são respeitadas. Em nome de um espírito de novidades muitos clérigos se sentiram com plena liberdade para inventar. Na missa incorporaram-se baterias e guitarras no lugar do órgão e do canto gregoriano; o ascetismo deu lugar ao bater de palmas e embalos musicais. Tudo isso constituiu os chamados abusos litúrgicos, antes quase impensáveis no rito tridentino. A reforma quis facilitar, mas seus resultados são questionáveis, tanto que o próprio Paulo VI, outorgador do novo rito, chegou a dizer: "da qualche fessura sia entrato il fumo di Satana nel tempio di Dio" (1972). Quem explica essa frase de Paulo VI é o cardeal Noé (que foi seu mestre cerimônias), em uma entrevista dada ao site Petrus.
Resta immemorabile la denuncia di Paolo VI sulla presenza del
fumo di Satana nella Chiesa. Ancora oggi, quel discorso sembra
di un’attualità incredibile. Ma, con esattezza, cosa voleva dire il
Papa?
"Voi di ‘Petrus’ avete fatto un bel colpo, perché sono in grado di
rivelare, per la prima volta, cosa intendesse denunciare Paolo
VI con quella affermazione. Ecco, Papa Montini per Satana
intendeva classificare tutti quei sacerdoti o vescovi e Cardinali
che non rendevano culto al Signore mal celebrando la Santa
Messa a causa di una errata interpretazione e applicazione del
Concilio Vaticano II. Parlò di fumo di Satana perchè sosteneva
che quei preti che della Santa Messa facevano paglia in nome
della creatività, in realtà erano posseduti dalla vanagloria e dalla
superbia del Maligno. Dunque, il fumo di Satana altro non era
che la mentalità che voleva stravolgere i canoni tradizionali e
liturgici della cerimonia Eucaristica". (2008)
O cardeal Noé explica, portanto, que o papa Montini fazia referência a padres ou bispos e cardeais que não rendem culto ao Senhor, celebrando mal a Santa Missa por causa de uma errônea interpretação e aplicação do Concílio Vaticano II. A fumaça de Satanás diz respeito direto a certos prelados que faziam da missa uma espécie de palha seca em nome da criatividade, fruto da vanglória e do orgulho do Maligno, segundo o cardeal. Dessa forma, a fumaça de Satanás, a que se referia Paulo VI, está relacionada a uma mentalidade que distorcia os cânones tradicionais e litúrgicos da cerimônia Eucarística.
Tal entendimento do caos litúrgico, considerado como ação do próprio demônio que entrou pelas frestas das novas interpretações dadas sobre o concílio e sobre a liturgia, foi sempre tema de preocupação dos prefeitos da Congregação a para Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício), primeiramente do Cardeal Ottaviani e depois de Ratzinger. Dedicaremos o capítulo a seguir às ações deste último, o atual papa; quanto à Ottaviani, partimos agora para algumas considerações.
Cardeal Ottaviani e a Doutrina da Fé
Após ter examinado cuidadosamente, e apresentado para
escrutínio dos demais, o Novus Ordo Missae (Novo Missal)
preparado pelos especialistas do Consilium ad exequendam
Constitutionem de Sacra Liturgia, e após longa oração e
reflexão, nós sentimos ser nossa obrigação junto a Deus e de
Sua Santidade expor-lhe as seguintes considerações:
O estudo crítico que acompanha o Novus Ordo Missae (O Novo
Ordinário da Missa), o trabalho de um grupo de teólogos,
liturgistas e pastores de almas, mostra claramente, apesar de
sua brevidade, que, se nós considerarmos as inovações
sugeridas ou dadas por definitivo, as quais podem naturalmente
serem avaliadas de diferentes modos, o Novo Ordinário
representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova
orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi
formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento. Os "Canons"
do rito, definitivamente fixados naquele tempo, proporcionavam
uma intransponível barreira contra qualquer heresia dirigida
contra a integridade do Mistério. (Ottaviani, introdução, 1969)
Dois meses antes da promulgação do Novo Ordinário da Missa o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Ottaviani, juntamente com o cardeal Bacci sentiram-se na obrigação de alertar o papa sobre as inovações que se iniciavam e suas problemáticas para a fé católica. Em uma extensa carta, o cardeal elenca diversos fatos e suas consequências, como que prevendo o futuro e a fumaça que Paulo VI denunciaria quase em um tom de arrependimento.
Fato interessante a ser estudado com mais rigor de detalhes são os efeitos diretos que Ottaviani já presumia frente ao que lhe foi apresentado. A parte deste livro que apresentou o Novus Ordo confirma os temores de Ottaviani que se concretizaram nos dias atuais. O novo ordinário da missa daria uma nova visão de Igreja, um ressignificado para algo que se mantinha inalterado há quase dois mil anos:
Quanto ao aspecto externo do Sacrifício, as evidências de seu
caráter sacro também foram profanadas. Veja, por exemplo, o
que está estabelecido para as celebrações fora de recintos
sagrados, nos quais o altar pode ser substituído por uma
simples "mesa", sem pedras consagradas nem relíquias e com
uma simples toalha (nº 260, 265). Aqui também se aplica tudo o
que previamente já foi dito no que diz respeito à Real Presença:
a disassociação do convivium e também a disassociação do
Sacrifício da Última Ceia, da Presença Real .
O processo de dessacralização é completado graças aos novos
procedimentos para o Ofertório: as referências ao pão ordinário
não levedado; ajudantes de altar e leigos participando da
Comunhão sub utraque specie, e também sendo permitido que
manuseiem os vasos sagrados (nº 244d); a atmosfera
dispersante criada pelo incessante vai e vem do sacerdote,
diácono, sub-diácono, salmista, comentarista (o próprio
sacerdote se torna um comentarista sendo solicitado
constantemente a "explicar" o que ele está fazendo); dos
leitores (homens e mulheres), dos "ministros leigos de
acolhimento" dando as boas-vindas ao povo na porta da igreja
ou acompanhando-os até os assentos enquanto outros
carregam tudo que é tipo de "oferendas" durante o ofertório.
(idem, n.V, 1969)
A noção de missa, seguindo as definições da então recém-fabricada Instrução Geral do Missal Romano, é uma das inquietações mais detalhadas pelo cardeal-prefeito, que entende o jogo de palavras isoladas longe de um contexto global, assim definindo apenas meias verdades e abrindo caminho ao erro doutrinal.
Comecemos então pela definição da missa dada no número 7
da "Institutio Generalis" no início do segundo capítulo no Novo
Ordinário: "De structure Missae": A Ceia do Senhor ou Missa é
um encontro sagrado ou assembleia do povo de Deus, que se
reúne sob a presidência do sacerdote, para celebrar o memorial
do Senhor. Assim a promessa de Cristo, "onde dois ou três
estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles", se
torna eminentemente verdadeira na comunidade local da Igreja.
(Mt.XvIII,20)."
A definição da Missa é assim limitada àquela de "Ceia" e este
termo se encontra constantemente repetido (nº 8,48, 55d,56).
Esta ceia é posteriormente caracterizada como uma assembleia
presidida por um sacerdote e celebrada como um memorial do
Senhor, reevocando o fato de que Ele operou isso numa quinta-
feira. Em nenhuma dessas definições está claramente
envolvido, nem a Real Presença nem a realidade do Sacrifício,
nem a função Sacramental do sacerdote consagrado nem o
intrínseco valor do Sacrifício Eucarístico, independentemente
da presença do povo. Em uma palavra, em nada disso está
implícito nenhum dos valores dogmáticos essenciais da Missa,
os quais em seu conjunto, fornecem-nos sua verdadeira
definição. Aqui a deliberada omissão desses valores
dogmáticos equivale a terem sido suplantados e portanto, pelo
menos na prática, completamente negados.
No nº 8, uma subdivisão da Missa em "Liturgia da Palavra" e
imediatamente em seguida, "Liturgia Eucarística", com a
afirmação de que a Missa é constituída pela "mesa da Palavra
de Deus" assim como também da "mesa do Corpo de Cristo",
onde os fiéis podem "se renovar e se revigorar", é outra
afirmação totalmente imprópria a respeito das duas partes da
liturgia, como se elas fossem dois pontos de valor simbólico
igual. Falaremos mais sobre esse assunto posteriormente.
A Missa é designada por uma grande variedade de diferentes
expressões, todas relativamente aceitáveis e todas ao mesmo
tempo inaceitáveis se forem empregadas, como estão,
separadamente e com sentido absoluto.
Nós podemos citar algumas: Uma Ação do Povo de Deus; A
Ceia do Senhor ou Missa, O Banquete Pascal, A Comum
Participação na Mesa do Senhor, A Oração Eucarística, A
Liturgia da Palavra e A Liturgia Eucarística.
Como fica absolutamente evidente, que a ênfase é
obsessivamente colocada no aspecto de "ceia" ou "memorial",
ao invés de "Renovação de forma incruenta do Sacrifício do
Calvário".
A Fórmula "O Memorial da Paixão e Ressurreição do Senhor",
de qualquer modo, é inexata, pois a missa se torna apenas
memorial do Sacrifício, por si só redentora, ao passo que a
Ressurreição é consequentemente o fruto desta. (idem, n.II,
1969)
A questão da finalidade da missa, fato já discutido aqui, é apresentada por Ottaviani como um dos principais problemas. A noção de fim é o que dá a razão de ser da missa, seu propósito, a causa final que agrega as causas precedentes e que era anteriormente elucidada no ofertório:
Chegamos agora aos fins aos quais se destina a Missa.
1. Fim Principal: Este é aquele do Sacrifício de Louvor à
Santíssima Trindade de acordo com a declaração explícita do
próprio Cristo a respeito do propósito primário de Sua
Encarnação: "Eis porque ao entrar no mundo, Cristo diz: Não
quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo.
Holocausto e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu
disse: Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade".
Pois esta finalidade simplesmente desapareceu: desde o
Ofertório, com o desaparecimento da oração: "Suscipe, Sancta
Trinitas"...(Recebei ó Trindade Santa, esta oblação que vos
oferecemos em memória da Paixão, da Ressurreição e da
Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo...) até o final da Missa
com a omissão do "Places tibi Sancta Trinitas"...(Seja-vos
agradável, ó Trindade Santa, a oferta de minha servidão, a fim
de que este sacrifício, que eu, indigno aos olhos de Vossa
Majestade, Vos ofereci, seja aceito por Vós...) e também o
Prefácio da Santíssima Trindade que não será mais proclamado
em todos os domingos, ficando reservado apenas para a Festa
da Santíssima Trindade. Assim, no futuro, tal Prefácio será dito
apenas uma vez no ano.
2. Fim Ordinário: Este é aquele do Sacrifício Propiciatório.
Aqui também ocorreu um grande desvio, pois ao invés de
enfatizar a remissão dos pecados dos vivos e dos mortos, a
ênfase recai na alimentação e santificação da assembleia
presente. (n.54). Cristo certamente instituiu o Sacramento na
Última Ceia colocando-se Ele próprio no es-tado de Vítima, de
forma que nós pudéssemos estar unidos a Ele nesse mesmo
estado. Todavia, sua autoimolação precede o consumo da
vítima, possuindo antecedentes e um completo valor redentor (a
aplicação da imolação cruenta). Isto é comprovado pelo fato de
que os fiéis presentes não são obrigados a comungar
sacramentalmente.
3. Fim Imanente: Seja qual for a natureza de um sacrifício, é
absolutamente necessário que ele seja agradável e aceitável
para Deus. Depois da queda do homem (pecado de Adão),
nenhum sacrifício pode ser considerado digno de ser aceitável
por si próprio, a não ser o Sacrifício de Cristo. O Novo Ordinário
ou Nova Ordem muda a natureza do oferecimento, fazendo
com que ele se torne uma espécie de "barganha de dons entre
o homem e Deus": o homem traz o pão e Deus o transforma em
"pão da vida"; o homem traz o vinho, e Deus o transforma em
"bebida espiritual":
"Bendito, sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão (ou vinho)
que recebemos de vossa bondade, fruto da terra (ou da videira)
e do trabalho do homem, que hoje vos apresentamos e que
para nós vai se tornar o pão da vida (ou bebida espiritual: o
vinho da salvação)."
Aqui dispensamos comentários em relação à indeterminação
contida na fórmula: "pão da vida" e "bebida espiritual", os quais
podem significar absolutamente nada. Como podemos ver, o
mesmo erro capital é repetido aqui, assim como na definição da
Missa: ali Cristo está presente apenas espiritualmente e por si
próprio: aqui pão e vinho são apenas "espiritualmente" e não
substancialmente transformados. (idem, n.III, 1969)
Quanto à perda da unidade da fé, efeito da perda de unidade litúrgica, do abandono do latim e do eterno processo de inovações, o então cardeal já vaticinava prevendo uma ruptura clara com o passado:
O desaparecimento do latim pode ser dado como certo; mas
aquele do Canto Gregoriano, o qual até mesmo o Concílio
reconheceu como "próprio da liturgia romana" (Sacros conc. nº
116), ordenando que principem locum obtineat (ibid.),
logicamente se dará em seguida, com a liberdade de escolha,
entre outras coisas, dos textos do Introito e do Gradual.
Desde o princípio, portanto, o Novo Rito é lançado como sendo
pluralista e experimental, destinado à adaptação a tempos e
lugares. A unidade de culto é assim varrida para o bem de
todos. O que será da Unidade da Fé que vinha junto com a
unidade de culto, a qual sempre nos foi pedido que a
defendêssemos sem fazer concessões?
É evidente que o Novo Ordinário não tem a menor intenção de
nos apresentar a Fé como ela foi ensinada pelo Concílio de
Trento, o qual, apesar de tudo, a consciência católica tem a
obrigação eterna de obedecer. Com a promulgação do Novo
Ordinário, o católico leal se vê de face à mais trágica
alternativa. (idem, n.V, 1969)
Ottaviani, após traçar um estudo crítico e muito detalhado sobre as inúmeras propostas hoje acatadas, encerra com um tom pessimista, reprimindo a ideia de abandonar o rito tridentino que estava instaurado há mais de quatrocentos anos como testemunha da tradição que remontava a Gregório Magno.
E tudo isto num dos mais críticos momentos, se não o mais
crítico momento da história da Igreja. Hoje, a divisão e o cisma
são oficialmente reconhecidos como existentes não apenas
fora, mas também dentro da Igreja. Sua unidade não está
apenas ameaçada, mas já tragicamente comprometida. Erros
contra a Fé não são apenas insinuados, mas antes, são
inevitáveis consequências dos abusos e aberrações litúrgicas,
as quais têm sido dado igual reconhecimento.
Abandonar a tradição que por quatro séculos foi o sinal e a
promessa de unidade do culto (e substituí-la por uma outra, a
qual não passa de um sinal de divisão por virtude de
incontáveis liberdades implicitamente autorizadas, e na qual
abundam insinuações ou erros manifestos contra a integridade
da religião católica) é um incalculável erro, que nós sentimos
em nossa consciência o dever de denunciar. (idem, n.VIII, 1969)
Essa carta ganhou repercussão no mundo por meio dos meios tradicionalistas por ser um instrumento de ataque ao novo rito, mas a sua divulgação em si permite vislumbrar outro aspecto além de seu conteúdo. Uma carta interna da cúria vaticana, uma correspondência entre dois cardeais e o então papa Paulo VI foi além do Muro Leonino; o controle do Vaticano sobre o que estava ocorrendo che-gava à inexpressividade. Levaria alguns anos até que os efeitos do que predissera o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fossem sentidos em Roma e mais algumas décadas para que as primeiras atitudes fossem tomadas.
Talvez o cenário político externo no qual o pontificado de João Paulo II se desenvolveu tenha contribuído para uma postura da Igreja que se voltava cada vez mais para o homem e suas aflições materiais, e somente após o fim da Guerra Fria a atenção do Vaticano para questões internas tenha aumentado, gerando algumas reações na cúria do papa Wojtyla.
1 Entenda-se por rubricas as instruções presentes no Missal Romano, grafadas em vermelho e com letra menor que a do texto da missa, que servem de orientação ao celebrante acerca de como proceder na celebração.
2 Ressalta-se aqui o significado da palavra hóstia, o pão consagrado, que significa vítima, ou seja, o pão transubstanciado. Segundo a doutrina católica é oferecido em sacrifício, ele é a vítima, a Hóstia.
3 "Irmãos separados" é uma expressão que teve origem no Vaticano II para se referir aos ortodoxos e protestantes oriundos de cismas no passado da Igreja Católica.