Sacrificium Laudis: Bento XVI e o retorno do catolicismo tradicional
3. João Paulo II, Ratzinger e Bento XVI
Iniciamos agora um estudo das recentes reações romanas. Buscamos aqui traçar os acontecimentos acerca do tema estudado no fim do pontificado de João Paulo II (1978-2005), da atuação do então cardeal Ratzinger quando prefeito da Congregação para Doutrina da Fé e da concretização do que Ratzinger, pouco tempo após ser eleito Papa Bento XVI, chamou de hermenêutica da continuidade, fundamento da promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum que deu plena liberdade à missa tridentina e sua busca de restauração da tradição.
O ano eucarístico (2004-2005) e seus ecos
João Paulo II no final de seu pontificado voltou-se para o tema da Eucaristia escrevendo sua carta encíclica Ecclesia de Eucaristia (2003), por meio da qual ressaltou o sentido sacrifical da missa, ao mesmo tempo em que encomendava à Congregação do Culto Divino um documento que combatesse os abusos da missa de Paulo VI e impusesse restrições nesse rito, o Redemptionis Sacramentum (2004), além de escrever e proclamar o Ano da Eucaristia (outubro de 2004 a outubro de 2005) por meio da encíclica Mane Nobiscum Domine (2004). Essas iniciativas estão em continuidade; situam-se pondo ao centro do empenho eclesial uma restauração de algo perdido com o tempo. Esta parte tem por objetivo recuperar as ações de João Paulo II que buscaram nortear um retorno não à forma ritual tridentina, mas à noção original da Eucaristia ainda no rito paulino. Primeiramente há de se lançar o olhar sobre a Ecclesia de Eucaristia que se inicia defendendo a reforma pós-conciliar, mas em um tom quase de lamentação, após breves elogios à ela.
A este esforço de anúncio por parte do Magistério correspondeu
um crescimento interior da comunidade cristã. Não há dúvida
que a reforma litúrgica do Concílio trouxe grandes vantagens
para uma participação mais consciente, ativa e frutuosa dos
fiéis no santo sacrifício do altar. Mais ainda, em muitos lugares,
é dedicado amplo espaço à adoração do Santíssimo
Sacramento, tornando-se fonte inesgotável de santidade. A
devota participação dos fiéis na procissão eucarística da
solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é uma graça do
Senhor que anualmente enche de alegria quantos nela
participam. E mais sinais positivos de fé e de amor eucarísticos
se poderiam mencionar.
A par destas luzes, não faltam sombras, infelizmente. De fato,
há lugares onde se verifica um abandono quase completo do
culto de adoração eucarística. Num contexto eclesial ou outro,
existem abusos que contribuem para obscurecer a reta fé e a
doutrina católica acerca deste admirável sacramento. Às vezes
transparece uma compreensão muito redutiva do mistério
eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se
em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro
fraterno ao redor da mesa. Além disso, a necessidade do
sacerdócio ministerial, que assenta na sucessão apostólica, fica
às vezes obscurecida, e a sacramentalidade da Eucaristia é
reduzida à simples eficácia do anúncio. Aparecem depois, aqui
e além, iniciativas ecumênicas que, embora bem-intencionadas,
levam a práticas na Eucaristia contrárias à disciplina que serve
à Igreja para exprimir a sua fé. Como não manifestar profunda
mágoa por tudo isto? A Eucaristia é um dom demasiado grande
para suportar ambiguidades e reduções.
Espero que esta minha carta encíclica possa contribuir
eficazmente para dissipar as sombras de doutrinas e práticas
não aceitáveis, a fim de que a Eucaristia continue a
resplandecer em todo o fulgor do seu mistério. (EE, n.10)
Em seguida, o papa retoma o sentido de sacrifício da missa, bem ao tom dos documentos objetivos de Trento, embora em uma temática pós-conciliar e sem anátemas:
Este aspecto de caridade universal do sacramento eucarístico
está fundado nas próprias palavras do Salvador. Ao instituí-lo,
não Se limitou a dizer "isto é o meu corpo", "isto é o meu
sangue", mas acrescenta: "entregue por vós [...] derramado por
vós" (Lc 22, 19-20). Não se limitou a afirmar que o que lhes
dava a comer e a beber era o seu corpo e o seu sangue, mas
exprimiu também o seu valor sacrificial, tornando
sacramentalmente presente o seu sacrifício, que algumas horas
depois realizaria na cruz pela salvação de todos. "A Missa é, ao
mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em
que se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da
comunhão do corpo e sangue do Senhor".
A Igreja vive continuamente do sacrifício redentor, e tem acesso
a ele não só através duma lembrança cheia de fé, mas também
com um contato atual, porque este sacrifício volta a estar
presente, perpetuando-se, sacramentalmente, em cada
comunidade que o oferece pela mão do ministro consagrado.
Deste modo, a Eucaristia aplica aos homens de hoje a
reconciliação obtida de uma vez para sempre por Cristo para
humanidade de todos os tempos. Com efeito, "o sacrifício de
Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício". Já o
afirmava em palavras expressivas S. João Crisóstomo: "Nós
oferecemos sempre o mesmo Cordeiro, e não um hoje e
amanhã outro, mas sempre o mesmo. Por este motivo, o
sacrifício é sempre um só. [...] Também agora estamos a
oferecer a mesma vítima que então foi oferecida e que jamais
se exaurirá".
A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem
o multiplica. O que se repete é a celebração memorial, a
"exposição memorial" (memorialis demonstratio), de modo que
o único e definitivo sacrifício redentor de Cristo se atualiza
incessantemente no tempo. Portanto, a natureza sacrificial do
mistério eucarístico não pode ser entendida como algo isolado,
independente da cruz ou com uma referência apenas indireta
ao sacrifício do Calvário. (idem, n.12)
A encíclica veio à frente de um documento produzido pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, a instrução Redemptionis Sacramentum "sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia". O texto, que data de 25 de março de 2004, produzido a pedido do Papa Wojtyla, elenca erros e abusos nas práticas litúrgicas atuais e impõe proibições para combatê-las.
"Não há dúvida de que a reforma litúrgica do Concílio tem tido
grandes vantagens para uma participação mais consciente,
ativa e frutuosa dos fiéis no santo Sacrifício do altar."
Certamente, "não faltam sombras". Assim, não se pode calar
ante os abusos, inclusive gravíssimos, contra a natureza da
Liturgia e dos sacramentos, também contra a tradição e
autoridade da Igreja, abusos que em nossos tempos, não
raramente, prejudicam as celebrações litúrgicas em diversos
âmbitos eclesiais. Em alguns lugares, os abusos litúrgicos se
têm convertido em um costume, o qual não se pode admitir e se
deve terminar. (RS, n.4)
A origem de tamanha preocupação da Sé de Pedro é o fato de que os abusos são prática constante e se confundem com o ritual em si. Frente a essa concepção, o documento visa analisar desde as vestes litúrgicas usadas pelos clérigos até a maneira como é recitada a Oração Eucarística.
Só se podem utilizar as Orações Eucarísticas que se encontram
no Missal Romano ou aquelas que têm sido legitimamente
aprovadas pela Sé apostólica, na forma e maneira que se
determina na mesma aprovação. "Não se pode tolerar que
alguns sacerdotes reivindiquem para si o direito de compor
orações eucarísticas", nem modificar o texto aprovado pela
Igreja, nem utilizar outras composições feitas por pessoas
privadas.
A proclamação da Oração Eucarística, que por sua natureza, é
pois o cume de toda a celebração, é própria e exclusiva do
sacerdote, em virtude de sua mesma ordenação. Por tanto, é
um abuso fazer que algumas partes da Oração Eucarística
sejam pronunciadas pelo diácono, por um ministro leigo, ou
ainda por um só ou por todos os fiéis juntos. A Oração
Eucarística, portanto, deve ser pronunciada em sua totalidade
tão somente pelo Sacerdote.
Enquanto o Sacerdote celebrante pronuncia a Oração
Eucarística, "não se realizarão outras orações ou cantos e
estarão em silêncio o órgão e os outros instrumentos musicais",
salvo as aclamações do povo, como rito aprovado, de que se
falará mais adiante.
Sem dúvida, o povo participa sempre ativamente e nunca de
forma puramente passiva: "se associa ao sacerdote na fé e com
o silêncio, também com as intervenções indicadas no curso da
Oração Eucarística, que são: as respostas no diálogo do
Prefácio, o Santo, a aclamação depois da consagração e a
aclamação ‘Amém’, depois da doxologia final, assim como
outras aclamações aprovadas pela Conferência de Bispos e
confirmadas pela santa Sé".
Em alguns lugares se tem difundido o abuso de que o
sacerdote parte a hóstia no momento da consagração, durante
a celebração da santa Missa. Este abuso se realiza contra a
tradição da Igreja. Seja reprovado e corrigido com urgência.
Na Oração Eucarística não se omita a menção do Sumo
Pontífice e do Bispo diocesano, conservando assim uma
antiquíssima tradição e manifestando a Comunhão eclesial.
Com efeito, "a reunião eclesial da assembleia eucarística é a
Comunhão com o próprio Bispo e com o Romano Pontífice".
(idem, n.51-6)
Para fechar a tríade de sua atuação João Paulo II escreveu a carta apostólica Mane Nobiscum Domine e, por meio dessa, deu início a um ano de reflexões sobre o sacrifício eucarístico: o já mencionado Ano da Eucaristia foi seu último ato que não pôde concluir, pois faleceu em dois de abril de 2005. Mas o caminho estava aberto e seu sucessor não deixaria os textos acima se tornarem letra morta. João Paulo II mais uma vez enfatizou o caráter de sacrifício da missa, mesmo que a aparência hodierna seja de uma ceia:
Não há dúvida que a dimensão mais saliente da Eucaristia é a
de banquete. A Eucaristia nasceu, na noite de Quinta-feira
Santa, no contexto da ceia pascal. Traz por conseguinte inscrito
na sua estrutura o sentido da comensalidade: "Tomai, comei...
Tomou, em seguida, um cálice e... entregou-lho dizendo: Bebei
dele todos..." (Mt 26, 26.27). Este aspecto exprime bem a
relação de comunhão que Deus quer estabelecer conosco e
que nós mesmos devemos fazer crescer uns com os outros.
Todavia não se pode esquecer que o banquete eucarístico tem
também um sentido primária e profundamente sacrifical. Nele,
Cristo torna presente para nós o sacrifício atuado uma vez por
todas no Gólgota. Embora aí presente como ressuscitado, Ele
traz os sinais da sua paixão, da qual cada Santa Missa é
"memorial", como a liturgia nos recorda com a aclamação
depois da consagração: "Anunciamos, Senhor, a vossa morte,
proclamamos a vossa ressurreição...". Ao mesmo tempo que
atualiza o passado, a Eucaristia projeta-nos para o futuro da
última vinda de Cristo, no final da história. Este aspecto
escatológico dá ao sacramento eucarístico um dinamismo
cativante, que imprime ao caminho cristão o passo da
esperança. (MN, n.15)
Tais linhas ecoaram pelo mundo católico, mas seus efeitos não foram sentidos a princípio. No entanto, com a eleição de Ratzinger as liturgias presididas pelo novo Papa fizeram-se notar devido à sua postura e as palavras de Wojtyla começaram a se concretizar. Ratzinger, braço direito de João Paulo II, já demonstrara seus pensamentos ainda como cardeal, e como Papa tem dado testemunho de suas convicções, como se pode notar a seguir.
Ratzinger e a Doutrina da Fé
As ações de Ratzinger desde o contato com os lefebvristas até seus inúmeros escritos demonstram seu posicionamento, e como já foi colocado, o atual Pontífice Bento XVI (2005-) foi um dos líderes do processo de reaproximação entre as partes em questão quando era o prefeito da Congregação para Doutrina da Fé. O então cardeal Ratzinger, junto a outros membros da cúria romana, demonstrou suas restrições ao rito de Paulo VI e sua afeição pelo rito de São Pio V, conforme se pode observar em seu livro O sal da terra de 1996.
Na nossa reforma litúrgica há uma tendência, a meu ver errada,
que visa à "inculturação" total da liturgia no mundo moderno [...]
dever ser transferido à linguagem trivial. Mas desse modo, não
se compreende a essência da liturgia e da celebração litúrgica.
[...] O padre não é nenhum showmaster que hoje inventa
qualquer coisa e transmite com habilidade. (1996, p.140)
Esta colocação acata um ponto particular em sua obra Introdução ao cristianismo cuja primeira edição data de 1967. No prefácio da edição do ano 2000, o então cardeal falava a respeito do rito novo e seu uso "inculturado" pela teologia da libertação, uma tentativa infrutífera de conciliação entre o cristianismo e o marxismo, e seu efeito devastador no sentido real da liturgia, no qual Cristo era destituído de sua divindade, visto apenas como personificação dos sofredores e oprimidos, o que deu origem a uma nova interpretação que se configurou "...numa nova leitura da Bíblia (sobretudo do Antigo Testamento) e em uma nova liturgia celebrada como antecipação simbólica da revolução e como preparação para ela" (Ratzinger, 2006, p.14).
Quanto a um retorno à forma tridentina como solução para os problemas litúrgicos, o então cardeal não a descartava, mas completava, novamente em O sal da Terra:
Só isso não seria a solução. A meu ver, devia-se deixar seguir o
rito antigo com muito mais generosidade àqueles que o
desejam. [...] Do que precisamos é de nova educação litúrgica,
especialmente também os padres. É preciso que volte a ser
claro que a ciência da liturgia não existe para produzir Ratzinger chegou a defender que a posição correta da celebração da missa é a do celebrante voltado para a cruz, de preferência com o altar fixo à parede. Para tanto, em seu artigo publicado na revista 30 Giorni e introdução ao livro de Uwe Michal Lang, o cardeal decano do Sacro Colégio chamava a atenção para a má interpretação do Vaticano II e da Instrução Geral do Missal Romano de Paulo VI.
constantemente novos modelos, como é próprio da indústria
automobilística. [...] Infelizmente, entre nós, a tolerância da
liturgia antiga é praticamente inexistente. Desse modo, está-se
certamente no caminho errado. (1996, p.141)
O cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé celebrou algumas vezes em comunidades ligadas a Roma e aos ideais de Lefebvre a missa no ritual de São Pio V (conforme se pode observar
na foto 3), quando esse ritual já estava quase esquecido pelo restante do mundo católico que, por sua vez, transformara o rito de Paulo VI em regra.
Foto 3 – Missa celebrada pelo cardeal Ratzinger no Rito Tridentino
Fonte: BP3 BLOGGER. Disponível em:
<http://bp3.blogger.com/_IfsLqzMaeD8/
RfydaThIR3I/AAAAAAAAAYQ/x6JqyvnMhZM/s1600-
h/Cardinal+Ratzinger+ %26+Tridentine+Rite.jpg>. Acesso em: 07
set. 2008.
"A direção última da ação litúrgica, nunca totalmente expressa
nas formas exteriores, é a mesma para o sacerdote e para o
povo: voltados para o Senhor".
Para o católico praticante normal, dois parecem ser os
resultados mais evidentes da reforma litúrgica do Concílio
Vaticano II: o desaparecimento da língua latina e o altar
orientado para o povo. Quem ler os textos conciliares poderá
constatar, com espanto, que nem uma nem outra coisa se
encontram neles desta forma.
Claro, seria preciso dar espaço à língua vulgar, segundo as
intenções do Concílio (cf. Sacrosanctum Concilium 36, 2) –
sobretudo no âmbito da liturgia da Palavra – mas, no texto
conciliar, a norma geral imediatamente precedente reza: "O uso
da língua latina, salvo quando se tratar de um direito particular,
seja conservado nos ritos latinos" (Sacrosanctum Concilium 36,
1).
Sobre a orientação do altar para o povo, não há sequer uma
palavra no texto conciliar. Ela é mencionada em instruções pós-
conciliares. A mais importante delas é a Institutio generalis
Missalis Romani, a Introdução Geral ao novo Missal Romano,
de 1969, onde, no número 262, se lê: "O altar maior deve ser
construído separado da parede, de modo a que se possa
facilmente andar ao seu redor e celebrar, nele, olhando na
direção do povo [versus populum]". A introdução à nova edição
do Missal Romano, de 2002, retomou esse texto à letra, mas,
no final, acrescentou o seguinte: "Isso é desejável sempre que
possível". Esse acréscimo foi lido por muitos como um
enrijecimento do texto de 1969, no sentido de que agora
haveria uma obrigação geral de construir – "sempre que
possível" – os altares voltados para o povo. Essa interpretação,
porém, já havia sido repelida pela Congregação para o Culto
Divino, que tem competência sobre a questão, em 25 de
setembro de 2000, quando explicou que a palavra "expedit" [é
desejável] não exprime uma obrigação, mas uma
recomendação. A orientação física deveria – assim diz a
Congregação – ser distinta da espiritual. Quando o sacerdote
celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser
sempre versus Deum per Iesum Christum [para Deus, por meio
de Jesus Cristo]. Sendo que ritos, sinais, símbolos e palavras
nunca podem esgotar a realidade última do mistério da
salvação, devem-se evitar posições unilaterais e absolutizantes
a respeito dessa questão. (Ratzinger, 2004)
O prefeito da Congregação da Doutrina da Fé buscou amparar e propagar a formação de uma consciência acerca do magistério e do patrimônio litúrgico latino. Os pronunciamentos do Ratzinger car-deal permaneceram nas ações do papa. Em seu livro, Introdução ao espírito da liturgia, cuja primeira edição data de 2001, e que não teve versão brasileira, apenas portuguesa, pode-se notar um espécie de programa de pontificado no que tange à liturgia. Diversas das ações do atual papa no campo da celebração eucarística já haviam sido argumentadas neste livro.
O capítulo 3 do livro trata do altar e da orientação da oração litúrgica, na qual o cardeal defendia a celebração versus Deum, como no artigo anteriormente citado. Algo importante veio à tona em 2008, quando da publicação da Opera Omnia do pontífice: ele teria pensado em excluir esse capítulo devido às polêmicas que suscitariam, mas preferiu manter-se fiel à sua consciência. A rádio Vaticana deu a notícia:
Na obra "O espírito da liturgia", o então Cardeal Joseph
Ratzinger abordava, entre outras coisas, a questão da
orientação do altar, e afirmava que era melhor o sacerdote dar
as costas à assembleia dos fiéis do que ao altar. Essa posição
lhe angariou não poucas críticas.
Diante da polêmica que veio a se formar em torno de sua obra,
o papa conta que pensou seriamente em excluir essa parte do
texto, a fim de que pudesse vir à tona o autêntico tema do livro.
Todavia, depois de muito refletir, decidiu manter o trecho – nove
páginas de um total de duzentas – e estudos sucessivos,
realizados pelos teólogos Lang e Heid, demonstraram "que as
ideias de fundo eram corretas, vale dizer, que a ideia de que os
sacerdotes e fiéis devam se olhar de frente durante as preces,
inovação introduzida pelo Concílio Vaticano II, não existia nas
antigas comunidades cristãs".
O sacerdote e os fiéis não rezam um aos outros, mas sim
unidos, rezam ao Senhor – era o conceito do Cardeal Ratzinger.
(Radio Vaticana, 2008)
Após traçar uma distinção histórica da topografia vaticana que fez com que a Basílica de São Pedro tenha se voltado para o ocidente e forçado o sacerdote a olhar na direção contrária do povo para se dirigir ao Oriente, o cardeal mostra que tal situação serviu após o Concílio como um referencial, embora inadequado, que passou a ser seguido.
Por fim, essas conclusões pareciam tão convincentes que,
depois do Concílio (que em si não fala da orientação para o
povo) foram erigidos altares novos por todo o lado; a direção da
celebração versus populum surge hoje praticamente como o
autêntico fruto da inovação litúrgica, em concordância com o
Vaticano II. Na realidade, ela é a consequência mais visível da
reestruturação que não implica apenas o ordenamento exterior
dos lugares litúrgicos, mas sobretudo uma nova compreensão
da natureza da liturgia como ceia. (Ratzinger, 2006, p.57)
O cardeal deixa claro que a orientação tradicional da missa sempre foi o Oriente, e que a construção de altares voltados para o povo, além de ser uma falácia histórica, é também um efeito e não apenas uma causa de uma visão deturpada do culto católico. Uma das ações mais claras de seu pontificado está na busca de solução desse problema, diz o cardeal-prefeito:
Como já ouvimos, a direção para o Oriente relacionava-se com
o sinal do "Filho do Homem", com a cruz que anuncia o retorno
do Senhor. Assim, desde muito cedo, o Oriente relacionava-se
com a cruz. Onde não é possível voltar-se coletivamente para o
Oriente, pode a cruz servir como o Oriente interior da Fé. Ela
deveria encontrar-se no meio do altar, sendo o ponto de vista
comum para o sacerdote e para a comunidade orante. (idem,
p.61)
É evidente que Ratzinger se refere a uma deturpação do sentido histórico do culto católico que tem sua base também no templo e na sinagoga, onde o foco é Deus e não a comunidade reunida. Voltar-se para o Oriente, para a cruz, é a expressão simbólica do voltar-se para Deus, ato já não vivenciado segundo ele:
Cada vez menos é Deus que se encontra em destaque, cada
vez mais importância ganha tudo o que as pessoas aqui
reunidas fazem e que em nada se querem submeter a um
"esquema prescrito". O sacerdote que se volta para a
comunidade forma, juntamente com ela, um círculo fechado em
si. A sua forma deixou de ser aberta para cima e para frente;
ela encerra-se em si própria. Voltar-se em conjunto para o
Oriente não era uma "celebração da parede" e não significava
do sacerdote "virar costas ao povo": no fundo, isso não tinha
muita importância. Porque da mesma maneira como as
pessoas na sinagoga se voltavam para Jerusalém, elas
voltavam-se aqui em conjunto "para o Senhor". (idem, p.59).
Além da questão do posicionamento litúrgico neste livro há, portanto, ainda que ligado a essa questão, duras críticas ao que se tornou a nova forma ritual da missa. Sem muita diplomacia, Ratzinger vê o perigo de desenvolver na missa um culto ao homem e não a Deus, de modo particular frente às constantes inovações:
Este culto torna-se uma celebração da comunidade para com
ela própria; ele é uma autoafirmação. A adoração de Deus
torna-se num rodopio em volta de si próprio: o comer, o beber, o
divertir-se; A dança em volta do bezerro de ouro é a imagem do
culto à procura de si, tor-nando-se numa espécie de
autossatisfação frívola. [...] A história do bezerro de ouro alerta
para um culto autocrático e egoísta em que, no fun-do, não se
faz questão de Deus, mas sim em criar um pequeno mundo
alternativo por conta própria. Aí, então a Liturgia se torna mera
brincadeira. Ou pior: ela significa o abandono do Deus
verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro. (idem, p.16)
A recuperação do sentido histórico da missa, entendido como a verdade, está no centro das preocupações do livro de Ratzinger. A estrutura e as propostas do cardeal, como por exemplo o retorno do crucifixo ao centro do altar (um regresso ao foco divino), podem ser consideradas como metas para o seu pontificado. Essas, dentre outras, são medidas que marcam as celebrações pontifícias do papa Ratzinger, como delineamos a seguir.
Bento XVI: a hermenêutica da continuidade e o
Summorum Pontificum
O pontificado de Ratzinger foi marcado em seu início por uma postura frente ao Vaticano II, a de uma hermenêutica da continuidade com a tradição católica. Em seu primeiro discurso de final de ano para a cúria romana o papa condenou uma interpretação do concílio como ruptura.
O último acontecimento deste ano, sobre o qual gostaria de me
deter nesta ocasião, é a celebração do encerramento do
Concílio Vaticano II, há quarenta anos. Tal memória suscita a
interrogação: qual foi o resultado do Concílio? Foi recebido de
modo correto? O que, na recepção do Concílio, foi bom, o que
foi insuficiente ou errado? O que ainda deve ser feito? Ninguém
pode negar que, em vastas partes da Igreja, a recepção do
Concílio teve lugar de modo bastante difícil, mesmo que não se
deseje aplicar àquilo que aconteceu nestes anos a descrição
que o grande Doutor da Igreja, São Basílio, faz da situação da
Igreja depois do Concílio de Niceia: ele compara-a com uma
batalha naval na escuridão da tempestade, dizendo entre outras
coisas: "O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam
uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o
ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase
toda a Igreja falsificando, por excesso ou por defeito, a reta
doutrina da fé..." (De Spiritu Sancto, XXX, 77; p.32, 213 A; Sch
17 bis, p.524). Não queremos aplicar exatamente esta
descrição dramática à situação do pós-Concílio, todavia alguma
coisa do que aconteceu se reflete nele. Surge a pergunta: por
que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até
agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende
da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da
sua correta hermenêutica, da justa chave de leitura e de
aplicação. Os problemas da recepção derivaram do fato de que
duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram
entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas
de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por
um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir
"hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"; não raro, ela
pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma
parte da teologia moderna. Por outro lado, há a "hermenêutica
da reforma", da renovação na continuidade do único sujeito-
Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no
tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o
mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A
hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar
numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar.
Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam
a verdadeira expressão do espírito do Concílio. (Bento XVI,
2005)
Após esse memorável discurso de posicionamento, coerente com a história e filosofia da Igreja, um processo gradual se arrastaria até os dias atuais e culminaria na questão litúrgica. Somente no terceiro ano do pontificado de Bento XVI é que foi publicado o Motu Proprio Summorum Pontificum declarando a plena liberdade para a liturgia romana anterior à reforma de 1970, o que expressa bem como uma instituição de cerca de dois mil anos procede em relação ao tempo. Diante disso alguns dados foram coletados e são apresentados abaixo.
Deste discurso e da ação do papa é admissível deduzir três afirmações: há uma crise na Igreja após o Vaticano II, ela se deve a uma interpretação errônea do Concílio e esta problemática está ligada diretamente à ação litúrgica da Igreja, na qual se expressa de forma externa o que se professa internamente. Nesse âmbito é salutar realçar o tom conciliador do pontífice, fato não tão claro no Ratzinger cardeal, que não negava a possível existência de uma ruptura como o Ratzinger papa. Em suas Memórias, o então prefeito da Congregação para Doutrina da Fé dizia:
Decepcionou-me a quase total proibição do missal antigo, pois
nada parecido tinha-se verificado durante toda a história da
liturgia. Dava-se a impressão de que o que estava acontecendo
era normal: o missal anti-go teria sido criado por Pio V em 1570
em conexão com o Concílio de Trento; portanto seria normal
que, após quatrocentos anos e um novo concílio, um novo papa
nos presenteasse com um novo missal. Entretanto, a verdade
histórica sobre o assunto é diferente. Pio V havia apenas
ordenado uma reelaboração do Missale Romanum então
utilizado, o que é a prática normal em vista do desenvolvimento
da história através do curso dos séculos. Muitos de seus
sucessores, da mesma forma, reelaboraram o missal
novamente, mas jamais contrapondo um missal contra outro.
Era um processo contínuo de aperfeiçoamento e purificação no
qual a continuidade jamais foi destruída. Não existe um ‘Missal
de Pio V’, criado pelo próprio Pio V. Há apenas a revisão feita
por Pio V como uma fase numa longa história de crescimento
[...] Nesse caso (de S. Pio V) não podemos falar de uma
proibição de um missal prévio que antes havia sido formalmente
aprovado como válido. A proibição do missal que agora estava
sendo decretada, um missal que conheceu contínuo
aperfeiçoamento durante os séculos, tendo início com os
sacramentários da Igreja antiga, introduziu uma ruptura na
história da liturgia cujas consequências somente podiam ser
trágicas. Seria razoável, e direito do Concílio, determinar uma
revisão do missal tal como tinha ocorrido antes, e desta vez
deveria ser mais aprofundada do que antes, especialmente em
razão da introdução do vernáculo. Mas muito mais do que isso
aconteceu: o velho edifício foi demolido e outro foi construído,
certamente com largo uso de materiais do anterior e mesmo
usando os velhos desenhos da construção. Não há dúvida de
que esse novo missal em muitos aspectos trouxe uma real
melhora e enriquecimento; mas colocá-lo como uma construção
nova contra o que crescera historicamente, proibindo os
resultados desse crescimento histórico, fez a liturgia parecer
não mais um desenvolvimento vivo mas o produto de um
trabalho erudito e da autoridade jurídica; isso nos causou
enorme dano. [...] Uma renovação da consciência litúrgica, uma
reconciliação litúrgica que reconheça novamente a unidade da
história da liturgia e que entenda o Vaticano II não como uma
ruptura, mas como um estágio de desenvolvimento: essas
coisas são urgentemente necessárias para a vida da Igreja.
Estou convencido de que a crise que na Igreja que
experimentamos hoje é em larga medida devida à
desintegração da liturgia. (Ratzinger, 1998, p.146)
Frente a essas considerações iniciais, que buscam conciliar opiniões em um início de papado, Bento XVI não polemiza diretamente o concílio e seus efeitos, mas as ações que se desenvolveram no tempo foram configurando o pontificado que se iniciava. É possível destacar alguns atos recentes por parte da Santa Sé que lançam luzes sobre tal problemática. Uma primeira atitude diz respeito à Congregação para o Culto Divino, com seu então prefeito Cardeal Francis Arinze, que em 17 de outubro de 2006 escreveu a todas as conferências episcopais do mundo ordenando uma mudança na tradução do Novus Ordo:
Em julho de 2005, esta Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos, por acordo com a Congregação
para a Doutrina da Fé, escreveu a todos os Presidentes das
Conferências Episcopais para requisitar sua opinião ponderada
acerca da tradução, para os diversos vernáculos, da expressão
pro multis na fórmula para a consagração do Preciosíssimo
Sangue durante a celebração da Santa Missa (ref. Prot.
N.467/05/L de 9 de julho de 2005). As respostas recebidas das
Conferências Episcopais foram estudadas pelas duas
Congregações e um relato foi feito para o Santo Padre. Sob a
direção dele, esta Congregação agora escreve a Sua
Eminência/Excelência nos seguintes termos: 1. Um texto
correspondente às palavras pro multis, transmitido pela Igreja,
constitui a fórmula em uso pelo Rito Romano em Latim desde
os primeiros séculos. Nos últimos 30 anos aproximadamente,
alguns textos em vernáculo aprovados contiveram a tradução
interpretativa "por todos", "per tutti", ou equivalentes. [...] De
acordo com a Instrução Liturgiam Authenticam, deve haver o
esforço para uma maior fidelidade aos textos latinos contidos
nas edições típicas.
As Conferências dos Bispos daqueles países onde a fórmula
"por todos" ou sua equivalente está atualmente em vigor são,
portanto, requisitadas a realizar a catequese necessária aos
fiéis sobre essa questão nos próximos um ou dois anos, para
prepará-los para a introdução de uma tradução vernacular
precisa da fórmula pro multis (ou seja, "por muitos", "per molti"
etc.) na próxima tradução do Missal Romano que os Bispos e a
Santa Sé aprovarem para uso em seu país. (Montfort, 18 de
novembro de 2006)1
Uma segunda ação, por parte da Santa Sé, vem da congregação para o clero, com a ereção do instituto bom pastor, que tem por meta celebrar exclusivamente a missa tridentina:
Na manhã do dia 8 de setembro de 2006 [...] o cardeal Dario
Castrillon Hoyos, prefeito da Congregação para o Clero e
encarregado da Comissão Ecclesia Dei, assinou o decreto de
ereção do instituto de direito pontifical do Bom Pastor. Trata-se
de uma sociedade de vida apostólica dependendo ao mesmo
tempo da Comissão Ecclesia Dei e da Congregação para os
Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica. Nesse decreto, o cardeal Hoyos aprovou os
estatutos do novo instituto que tem por superior geral um padre
excluído da Fraternidade São Pio X, o radiante padre Philippe
Laguérie.
Para fontes do Vaticano, a novidade reside no fato de que "o
próprio Bento XVI desejou esse procedimento" no qual "o
missal tradicional de São Pio V não é um missal a parte, mas
uma forma extraordinária do único rito romano". O Vaticano,
como entre os membros do novo instituto, insiste em dizer que
"este acordo corresponde às solicitações outrora feitas por Dom
Lefebvre", separado de Roma em 1988. (Montfort, 8 de
setembro de 2006)
Recentemente, uma nova ação do Papa Bento XVI chamou atenção da imprensa internacional, quando o mesmo divulgou em 13 de março de 2007 a exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, na qual o pontífice recomendou o uso do latim e do canto gregoriano na liturgia:
[42] [...] em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um
cântico como outro; a propósito, é necessário evitar a
improvisação genérica ou a introdução de gêneros musicais
que não respeitem o sentido da liturgia. Enquanto elemento
litúrgico, o canto deve integrar-se na forma própria da
celebração; consequentemente, tudo – no texto, na melodia, na
execução – deve corresponder ao sentido do mistério
celebrado, às várias partes do rito e aos diferentes tempos
litúrgicos. Enfim, embora tendo em conta as distintas
orientações e as diferentes e amplamente louváveis tradições,
desejo – como foi pedido pelos padres sinodais – que se
valorize adequadamente o canto gregoriano, como canto
próprio da liturgia romana. (SC, n.41)
[62] [...] A fim de exprimir melhor a unidade e a universalidade
da Igreja, quero recomendar o que foi sugerido pelo Sínodo dos
Bispos, em sintonia com as diretrizes do Concílio Vaticano II:
excetuando as leituras, a homilia e a oração dos fiéis, é bom
que tais celebrações sejam em língua latina ... (idem, n.62)
Por fim, algo ocorrido no Brasil, na V Conferência Episcopal da América Latina e do Caribe, vem de encontro a este estudo. Uma intervenção do cardeal Darío Castrillón Hoyos, presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, em 16 de maio de 2007, deixou claro as intenções do papa atual no que tange à questão litúrgica, pois, segundo Hoyos, foi constatado em todo o mundo, de um modo particular na juventude, um aumento de interesse pelo rito tridentino:
Por estas razões o Santo Padre tem a intenção de estender a
toda a Igreja latina a possibilidade de celebrar a Santa Missa e
os Sacramentos segundo os livros litúrgicos promulgados pelo
Beato João XXIII em 1962. Por essa liturgia, que nunca foi
abolida e que, como dissemos, é considerada um tesouro,
existe hoje um novo e renovado interesse e também por esta
razão o Santo Padre pensa que chegou o tempo de facilitar,
como o quis a primeira Comissão Cardinalícia em 1986, o
acesso a esta liturgia fazendo dela uma forma extraordinária do
único rito Romano.
Há algumas boas experiências de comunidades de vida
religiosa ou apostólica erigidas pela Santa Sé recentemente
que celebram em paz e serenidade esta liturgia. Em torno delas
se congregam assembleias de fiéis que frequentam estas
celebrações com alegria e gratidão. As criações mais recentes
são o Instituto de São Felipe Neri em Berlim, que funciona
como um Oratório e se fez presente também, com boa acolhida,
na Diocese do Tréveris; o Instituto do Bom Pastor de Burdeos
que reúne sacerdotes, seminaristas e fiéis, alguns saídos da
Fraternidade São Pio X. Estão muito adiantados os trâmites
para o reconhecimento de uma comunidade contemplativa, o
Oásis de Jesus Sacerdote, de Barcelona. (V CELAM, 2007)
Esses acontecimentos tornam-se claros e interligados apenas quando se tem em mente a promulgação do referido Motu Proprio. Assim, constata-se que a primeira questão favorece este livro no sentido em que propõe uma "reforma da reforma", ou melhor, uma restauração da mentalidade litúrgico-católica, na qual o trabalho realizado pela Congregação para o Culto Divino elucida a realidade litúrgica da Igreja Católica (na qual, no ímpeto das reformas conci-liares oriundas do Vaticano II, houve uma perda de referência, já que algumas traduções tornaram-se traições à tradição).
O fato de se ter traduzido pro multis (por muitos) para uma versão não literal (por todos) trouxe consigo um novo sentido interpretativo da doutrina da salvação, dando a entender que todos serão salvos por meio do sacrifício de Cristo, o que abre margem para ignorar qualquer ação pessoal na busca pela graça salvífica.
Tal questão evoca mais uma vez o adágio: lex orandi, lex credenti; ao rezar de uma determinada forma abriu-se caminho para uma nova forma de interpretação e de crença. De modo significativo, esse se tornou o ponto culminante para a ação de Arinze, o que parece ser o início de uma nova reforma.
Quanto ao segundo ponto (a ação de Bento XVI em criar o Instituto Bom Pastor preservando o direito de celebrar a Missa Tridentina) percebe-se uma continuação da reaproximação com os lefebvristas e mais uma crítica ao atual rito paulino, pois mantém-se o direito daqueles que desejarem assistir o rito católico sem as reformas conciliares.
Já o terceiro ponto (as recomendações de Bento XVI, apoiadas no Sínodo dos Bispos que decorreu de 2 a 23 de outubro de 2005 no Vaticano e na interpretação oficial do II Concílio Ecumênico do Vaticano) esboça a vontade pessoal do atual pontífice. Ao recomendar o canto gregoriano e o latim na liturgia, recuperam-se duas características marcantes do rito tradicional romano que praticamente desapareceram no Novus Ordo.
Por fim, o quarto aspecto levantado neste trabalho expressa de forma clara em que sentido Bento XVI e a cúria romana vinham trabalhando, o que comprova as intenções de um papa preocupado com as questões internas da Igreja. Sua experiência, por anos, como principal defensor da fé, transparece em suas atuações no campo da liturgia. A liberação do rito tridentino para qualquer padre que nele queira celebrar sem consentimento de seu bispo expressa medidas que em um passado não muito distante seriam chamadas de ultramontanas.
Retomando o pensamento de Ivan Manoel (2004), de 1800 a 1960 a Igreja romana assumiu uma política de centralização e tradiciona-lismo, o magistério tradicional foi reforçado, o modernismo condenado e o poder eclesial centralizado.
O que se processou após o Vaticano II, de modo particular no pontificado de Paulo VI, gerou uma interrupção de tal política. No entanto, as recentes atitudes oriundas da Santa Sé expressam características que tendem a um retorno de aspectos ultramontanos, como é o caso dessa permissão dada a qualquer padre para celebrar no rito tradicional sem autorização especial do bispo local, por meio do Moto proprio Summorum Pontificum. As decisões da Sé Petrina estão acima da autoridade do ordinário local, embora o pontífice mencione ter consultado os cardeais para tomar sua decisão de favorecer os fiéis que desejam a forma extraordinária da missa:
Tendo ponderado amplamente os insistentes pedidos destes
fiéis a nosso predecessor João Paulo II, tendo escutado os
padres cardeais no consistório de 23 de março de 2006, após
haver avaliado exaustivamente todos os elementos, invocado o
Espírito Santo e pondo nossa confiança no auxílio de Deus,
pela presente Carta Apostólica estabelecemos o seguinte:
Art. 1 – O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a
expressão ordinária da "Lex orandi" ("Lei de oração"), da Igreja
católica de rito latino. Contudo, o Missal Romano promulgado
por São Pio V e novamente pelo bem-aventurado João XXIII
deve ser considerado como expressão extraordinária da mesma
"Lex orandi" da Igreja e em razão de seu venerável e antigo
uso, goze da devida honra. Estas duas expressões da "Lex
orandi" não levarão de forma alguma a uma divisão da "Lex
credendi" ("Lei da fé") da Igreja; são, de fato, dois usos do único
Rito Romano.
Por isso é licito celebrar o Sacrifício da Missa segundo a edição
típica do Missal Romano promulgado pelo bem-aventurado
João XXIII em 1962, e nunca ab-rogada como forma
extraordinária da Liturgia da Igreja... (Bento XVI, 2007, p.8)
Nota-se que a palavra do papa é de continuidade e não de retorno. A liturgia de Paulo VI é dada como forma ordinária e a de São Pio V como extraordinária, mas dentro de um mesmo rito romano.
Pede-se, portanto, honra devida à forma ritual anterior à reforma de 1970. Isoladamente esse fato não diria muito, mas novas atitudes de Bento XVI retomam o passado de modo simbólico.
Após "promover" monsenhor Piero Marini e convocar um novo mestre de cerimônias pontifícias, monsenhor Guido Marini, as celebrações papais ganharam novo adorno. As imagens que seguem abaixo mostram o papa celebrando na forma ritual de Paulo VI Versus Deum, usando casulas góticas e com um "novo" báculo, o de Pio IX. O fato de usar paramentos de seus antigos predecessores evoca de maneira concreta seu pensamento: ao paramentar-se com a mitra de Pio IX, a estola de São Pio V e trono usado por São Pio X, pode-se cogitar que Bento XVI deseja dizer que em sua mente estão as ideias do papa antimodernista, Pio IX, em seus ombros
o poder sacerdotal como na missa de São Pio V e o governo da Igreja como o de São Pio X.
À esquerda do papa (foto 4), o novo cerimoniário pontifício, monsenhor Guido Marini, muito mais afinado com os posicionamentos litúrgicos de Bento XVI que seu antecessor, o arcebispo Piero Marini, que foi nomeado presidente do Pontifício Comitê para os Congressos Eucarísticos Internacionais no dia 1 de outubro de 2007. Promoções assim parecem tender a uma forma educada de remover aqueles que não compartilham das mesmas ideias e se tornam empecilhos para a realização de certos projetos. Piero Marini é autor de vários artigos sobre a atuação da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II e colaborou de modo particular na redação do novo Cerimonial dos Bispos (Cæremoniale Episcoporum). Foram 22 anos de trabalho nos organismos da Sé Apostólica dedicados à reforma da liturgia, e destes, 15 foram dedicados a serviços junto ao Ofício das Cerimônias Pontifícias, tomando parte de vários acontecimentos importantes da história recente da Igreja Católica, como os últimos conclaves de 1978 a 2005, que elegeram os papas João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. Esse histórico ligado diretamente à reforma litúrgica parece ter sido o grande empecilho de sua continuidade como cerimoniário.
Foto 4 – Consistório Ordinário Público aos 24 de novembro de 2007
Fonte: Vaticano. Disponível em:
<http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2007/24112007/index.html>. Acesso em: 30 nov. 2007.
Monsenhor Guido, também um Marini, demonstra responder aos anseios litúrgicos de Bento XVI, preparando cerimônias que retomam a grandeza da liturgia papal tradicional – sem maiores inovações – e que procuram transmitir a ideia de continuidade pregada por Bento XVI, ao mesmo tempo em que caminha na aplicabilidade do que o então cardeal Ratzinger havia detalhado em
seu livro Introdução ao espírito da liturgia. Na foto 5, vê-se a festa do Batismo do Senhor celebrada na Capela Sistina e com o papa
voltado para o altar fixo da capela e seu crucifixo. Na foto 6, a quarta-feira de Cinzas, na qual o papa usou pela primeira vez uma casula pré-conciliar, em estilo borromeu, referente ao período da Contra-Reforma, ao Concílio de Trento.
Foto 5 – Festa do Batismo do Senhor aos 13 de janeiro de 2008
Fonte: Vaticano. Disponível em:
<http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2008/13012008/index.html>. Acesso em: 15 jan. 2008.
Foto 6 – Benção e imposição de Cinzas aos 06 de fevereiro de 2008
Fonte: Vaticano. Disponível em:
<http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2008/06022008/index.html>. Acesso em: 10 fev. 2008.
A seguir, uma reprodução do domingo de Ramos (foto 7) na qual se observa o báculo pastoral que fora de Pio IX e que substituíra desde então a cruz curva de prata de Paulo VI que os papas pós-
conciliares passaram a usar. Em seguida (foto 8), uma imagem da Sexta-feira Santa, na qual o papa usou uma casula romana barroca, também de estilo esquecido após a reforma litúrgica.
Foto 7 – Benção de Ramos aos 6 de março de 2008 Fonte:
L’osservatore romano de 17-18 de março de 2008. Disponível em:
<http:// www.vatican.va/news_services/or/or_quo/text.html#1>.
Acesso em: 18 mar. 2008.
Foto 8 – Celebração da Paixão do Senhor aos 21 de março de
2008Fonte: Rorate Caeli. Disponível em: <http://rorate-
caeli.blogspot.com/search?q=>.Acesso em: 10 mai. 2008.
O tradicional mescla-se ao moderno, mas se sobressai frente ao passado recente que o destituiu da cena pública. A retomada gradual de gestos, símbolos e paramentos ganha peso no processo re-formista que ocorre no presente. A história eclesiástica é constantemente evocada como legitimadora e sustentáculo de qualquer ação papal; unge-se o passado de significados com forte peso para a realidade da Igreja; uma mensagem é transmitida com calma e em doses homeopáticas, mas alguns resultados já são claros.
Monsenhor Guido Marini (2008), em entrevista à Petrus, explicou que o fato de o papa usar os paramentos de seus predecessores significa endossar suas ações e pensamentos; é a continuidade que tanto defende o atual pontífice.
Come un Papa cita nei suoi documenti i Pontefici che lo hanno
preceduto, in modo da indicare la continuità del Magistero della
Chiesa, cosí nell’ambito liturgico un Papa usa paramenti e
suppellettili sacre dei predecessori per indicare la stessa
continuita’ anche nella celebrazione.
Ainda quanto à atuação do novo mestre de cerimônias de Bento XVI e das intenções de retorno à tradição da Igreja, vale observar a montagem do altar no qual o papa celebra a missa.
As fotos da ornamentação dos altares para as celebrações pontifícias são exemplos dos contrastes entre os dois mestres de cerimônias e da ideia de continuidade sustentada pelo pontífice. É
notórioo fato de que a foto 10 remete ao altar fixo da missa tridentina, com o crucifixo ao centro e cercada por seis velas,
enquanto no altar preparado pelo arcebispo Piero (foto 9) nota-se a ausência até de um crucifixo em seu centro, fato tão discutido pelo Ratzinger cardeal sob a real orientação do sacerdote e do povo durante a missa.
Foto 9. Altar preparado nos moldes de monsenhor Piero Marini em
17 de junho de 2007 durante a visita pastoral a Assis Fonte:
Vaticano. Disponível em:
<http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2007/17062007/index.html> Acesso em: 23 mai. 2008.
Foto 10 – Altar preparado sob os moldes de monsenhor Guido
Marini, para a Solenidade de Maria SS.ma, Mãe de Deus, no dia
primeiro de janeiro de 2008 Fonte: Vaticano. Disponível em: <
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2008/01012008/index.html > Acesso em: 23 mai. 2008.
Persistindo nessas adequações, pode-se perceber o retorno à
comunhão na boca e de joelhos (foto 11), como é no rito tridentino, e
o uso do pálio tradicional romano (foto 12) em substituição ao usado por Bento XVI desde seu início de pontificado. O retorno do genuflexório nas missas papais busca retomar o sentido do sagrado, da presença real de Cristo na Eucaristia, fato não tão claro na nova missa que degenerou em show, como o próprio Ratzinger mencionava.
Foto 11 – Celebração de Corpus Christi aos 22 de maio de 2008
Fonte: Vaticano. Disponível em:
<http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2008/22052008/index.html> Acesso em: 16 ago. 2008.
Foto 12 – Solenidade de São Pedro e São Paulo aos 29 de junho de
2008 Fonte: Vaticano. Disponível em:
<http://www.vatican.va/news_services/liturgy/
photogallery/2008/29062008/index.html> Acesso em: 16 ago. 2008. O primeiro pálio de seu ministério petrino foi colocado por Bento XVI
sob os restos mortais de Celestino V (foto 13), único papa a abdicar do Trono de Pedro, quando em 28 de abril de 2009 realizou uma visita pastoral a Abruzzo, região da Itália que sofreu forte impacto de terremoto no mesmo ano.
Foto 13 – Visita de Bento XVI à Abruzzo Fonte: New liturgical
movement. Disponível em:
<http://www.newliturgicalmovement.org/2009/04/pope-benedict-in-
laquila-and-relics-of.html> Acesso em: 29 abr. 2009.
Ainda na busca do retorno do sagrado, retomou-se, também, o ato de cantar uma antífona mariana ao encerrar das missas papais: ora é entoado o Salve Regina, ora o Regina Caeli no tempo pascal, ora o Ave Verum. Ao final da missa na forma extraordinária é obrigatória a recitação do Salve Regina.
Na aparente estática e calma de uma instituição bimilenar, percebe-se o movimento cautelar (mas ao mesmo tempo enfático) do Pontífice que em 21 de janeiro de 2009 retirou a excomunhão que recaía sobre os quatro bispos sagrados por monsenhor Lefebvre, abrindo caminho para um diálogo crítico acerca do Concílio Vaticano II e para o restabelecimento da plena comunhão com a Sé de Pedro para os que se agremiaram à Fraternidade São Pio X. O cardeal Giovanni Battista Re, Prefeito da Congregação para os Bispos, declarou:
Com base nas faculdades que me foram expressamente
concedidas pelo Santo Padre Bento XVI, em virtude do
presente Decreto removo aos Bispos Bernard Fellay, Bernard
Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta
a censura de excomunhão latae sententiae declarada por esta
Congregação no dia 1 de Julho de 1988, enquanto declaro
desprovido de efeitos jurídicos, a partir da data de hoje, o
Decreto então emanado. (Decreto, 21.1.2009)
As reações à ação do papa foram as mais diversas: mesmo os judeus sentiram-se ofendidos, pois o bispo Richard Williamson, em uma entrevista recente, havia questionado o número de mortos no Holocausto. O clero modernista viu tal revogação como um ato de questionamento ao Vaticano II e o pontífice teve de se pronunciar e esclarecer os fatos:
A remissão da excomunhão aos quatro bispos, consagrados no
ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa
Sé, por variadas razões suscitou, dentro e fora da Igreja
Católica, uma discussão de tal veemência como desde há muito
tempo não se tinha experiência. Muitos Bispos sentiram-se
perplexos perante um fato que se verificou inesperadamente e
era difícil de enquadrar positivamente nas questões e nas
tarefas atuais da Igreja. Embora muitos bispos e fiéis
estivessem, em linha de princípio, dispostos a considerar
positivamente a decisão do Papa pela reconciliação, contra isso
levantava-se a questão acerca da conveniência de semelhante
gesto quando comparado com as verdadeiras urgências duma
vida de fé no nosso tempo. Ao contrário, alguns grupos
acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para
antes do Concílio: desencadeou-se assim uma avalanche de
protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais
além do momento. Por isso senti-me impelido a dirigir-vos,
amados Irmãos, uma palavra esclarecedora, que pretende
ajudar a compreender as intenções que me guiaram a mim e
aos órgãos competentes da Santa Sé ao dar este passo.
Espero deste modo contribuir para a paz na Igreja. [...]
A remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade
que pretende a punição: convidar uma vez mais os quatro
bispos ao regresso. Este gesto tornara-se possível depois que
os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de
princípio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com
reservas em matéria de obediência à sua autoridade doutrinal e
à do Concílio. E isto traz-me de volta à distinção entre pessoa e
instituição. A remissão da excomunhão era um provimento no
âmbito da disciplina eclesiástica: as pessoas ficavam libertas do
peso de consciência constituído pela punição eclesiástica mais
grave. É preciso distinguir este nível disciplinar do âmbito
doutrinal. O fato de a Fraternidade São Pio X não possuir uma
posição canônica na Igreja não se baseia, ao fim e ao cabo, em
razões disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade
não tiver uma posição canônica na Igreja, também os seus
ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja. Por
conseguinte, é necessário distinguir o nível disciplinar, que diz
respeito às pessoas enquanto tais, do nível doutrinal em que
estão em questão o ministério e a instituição. Especificando
uma vez mais: enquanto as questões relativas à doutrina não
forem esclarecidas, a Fraternidade não possui qualquer estado
canônico na Igreja, e os seus ministros – embora tenham sido
libertos da punição eclesiástica – não exercem de modo
legítimo qualquer ministério na Igreja.
À luz desta situação, é minha intenção unir, futuramente, a
Comissão Pontifícia Ecclesia Dei – instituição competente
desde 1988 para as comunidades e pessoas que, saídas da
Fraternidade São Pio X ou de idênticas agregações, queiram
voltar à plena comunhão com o Papa – à Congregação para a
Doutrina da Fé. Deste modo torna-se claro que os pro-blemas,
que agora se devem tratar, são de natureza essencialmente
doutrinal e dizem respeito sobretudo à aceitação do Concílio
Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas. Os
organismos colegiais pelos quais a Congregação estuda as
questões que se lhe apresentam (especialmente a habitual
reunião dos Cardeais às quartas-feiras e a Plenária anual ou
bienal) garantem o envolvimento dos Prefeitos de várias
Congregações romanas e dos representantes do episcopado
mundial nas decisões a tomar. Não se pode congelar a
autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser
bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se
destacam como grandes defensores do Concílio, deve também
ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história
doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio,
deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não
pode cortar as raízes de que vive a árvore. (Bento XVI,
10.3.2009)
A longa citação se faz necessária, pois expressa alguns pontos de suma importância para este livro. Primeiramente, há de se notar que, mesmo sendo uma carta de reação e esclarecimento, ela reforça o poder da Sé petrina frente aos levantes e questionamentos da atitude papal; em segundo lugar, mas não em inferioridade, percebe-se um novo movimento de Bento XVI: o papa anuncia a união da Comissão Ecclesia Dei à Congregação para a Doutrina da Fé, ou seja, a questão não é meramente pelo gosto litúrgico ou pelas inovações conciliares, mas ambas, a liturgia e a reforma pós-Vaticano II, tan-gem à questão da fé. O problema litúrgico é um problema da fé professada pela Igreja; as inovações conciliares são uma questão de fé.
A proclamada união da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei com a Congregação para a Doutrina da Fé deu-se em 2 de julho de 2009 por meio do Motu Proprio Ecclesiae Unitatem, que determinou o seguinte:
5. Precisamente porque os problemas que agora devem ser
tratados com a Fraternidade são de natureza essencialmente
doutrinal, decidi – a vinte anos do Motu Proprio Ecclesia Dei e
em conformidade com quanto me tinha reservado fazer –
repensar a estrutura da Comissão Ecclesia Dei, unindo-a
estreitamente à Congregação para a Doutrina da Fé.
6. Portanto, a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei terá a seguinte
configuração:
a) O Presidente da Comissão é o Prefeito da Congregação para
a Doutrina da Fé.
b) A Comissão dispõe de um seu organograma, composto pelo
Secretário e por Oficiais.
c) Será tarefa do Presidente, coadjuvado pelo Secretário,
submeter os principais casos e as questões de índole doutrinal
ao estudo e ao discernimento das instâncias ordinárias da
Congregação para a Doutrina da Fé, e também submeter os
seus resultados às disposições superiores do Sumo Pontífice.
7. Com esta decisão eu quis, de maneira particular, mostrar
solicitude paterna à Fraternidade São Pio X, com a finalidade
de reencontrar a plena comunhão com a Igreja. (EU, n.5, 6 e7)
O âmbito do diálogo que se traça agora para a plena união da Fraternidade Sacerdotal São Pio X com Roma diz respeito à fé: a questão da não aceitação do concílio ou de sua aceitação devem se alicerçar neste ponto fulcral. É conveniente destacar que a atuação dialogal do papa Ratzinger busca levar ao fim a ruptura conciliar, desenvolvendo uma hermenêutica da continuidade; para tanto o papel dos que não aceitaram o concílio é fundamental. Não só o Instituto do Bom Pastor, mas também as negociações com a Fraternidade podem favorecer a vontade papal: o fim da ruptura que o papa procura superar por meio uma visão de continuidade com tradição.
Diante disso, poder-se-ia falar em uma "reforma da reforma". Aos poucos, por meio de suas liturgias, Bento XVI vem redesenhando o rito paulino de tal modo que este se aproxime do rito de São Pio V.
A liberação da missa tridentina é, pois, uma ponte para a retomada de elementos que, segundo o pontífice, não deveriam ter sido perdidos e, talvez, o passo final para a constituição de um rito legitimamente firmado na tradição. Pode, o papa, reformar o Missal Paulino, torná-lo mais próximo do Missal de São Pio V.
Dessa forma, pode-se entender que aquilo que o Vaticano II propôs em termos litúrgicos não foi ainda posto em prática e que a ideia de reforma com o Missal de Paulo VI levou à mudança, uma mudança que gerou crises e não revigoramento, uma ruptura e não um desenvolvimento orgânico da tradição. A ruptura na prática litúrgica é antes de tudo uma expressão de ruptura na fé professada pela Igreja. Ao negar uma interpretação de cisão do concílio e propor uma hermenêutica da continuidade que se instaura a partir da liturgia e quer se refletir nela, o papa Ratzinger busca restabelecer os eixos tradicionais do catolicismo.
Para sustentar tais perspectivas a ação de Bento XVI não se restringe à liturgia, mas liga-se diretamente a ela, pois, ao que tudo indica, é essa a via de atuação do atual pontífice para fazer valer um retorno ao tradicionalismo católico. O papa faz uso também de reformas na cúria romana; em março de 2006, o sumo pontífice elevou a cardeal o então arcebispo de Toledo, Antonio Cañizares Llovera, e no dia 9 de dezembro de 2008 nomeou-o prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, em substituição ao cardeal nigeriano Francis Arinze, que pedira renúncia por ter alcançado o limite de idade próprio do cargo.
Com esse ato o pontífice romano escolheu alguém de sua linha de pensamento: Cañizares já possuía, em sua terra, a alcunha de "pequeno Ratzinger" devido às suas posturas inspiradas no antigo prefeito da Doutrina da Fé. Nesse âmbito, cabe destacar a nomeação em junho de 2008 do então arcebispo de St. Louis, nos Estados Unidos, para o cargo de prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica: como tal, imediatamente após o papa, Burke detém as mais altas funções jurisdicionais na totalidade da Igreja Católica Romana.
O processo de nomeação de Burke foi gradual: ele esteve junto do papa em uma reunião quando foi apresentado o Summorum Pontificum, e em maio de 2008 foi nomeado para o Conselho Pontifício para os textos legislativos e atribuído à Congregação para o Clero, que regula a constituição e formação de sacerdotes diocesanos e diáconos. E na Signatura Apostólica, Burke tornou-se o primeiro não europeu nomeado a dirigir o Supremo Tribunal que representa a instância final de apelação dentro da Igreja.
Bento XVI, ao nomear homens de sua confiança e seguidores de suas ideias, continua um caminho de aprofundamento e uma renovação da liturgia. Nesse âmbito ainda, o papel do padre adquire um singular destaque: é necessário que o sacerdote católico se enquadre na linha de pensamento do atual pontífice. Frente a isso, em 19 de junho de 2009, na solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, o papa Ratzinger deu início a um ano sacerdotal. O ano em questão liga-se ao 150º aniversário da morte de São João Maria Vianney (1786-1859), o patrono de todos os párocos do mundo. Esse mode-lo, escolhido pelo papa, reflete perfeitamente seu projeto de reforma. Na carta de proclamação do ano sacerdotal, Bento XVI faz forte referência ao papel do padre e da liturgia tendo como exemplo a atuação do Cura d’Ars, São João:
O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o
testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a
rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma
visita a Jesus Eucaristia. "Para rezar bem – explicava-lhes o
Cura –, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus
está ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso
coração, alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a
melhor oração". E exortava: "Vinde à comunhão, meus irmãos,
vinde a Jesus. Vinde viver d’Ele para poderdes viver com Ele".
"É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!".
Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a
comunhão adquiria um eficácia muito particular, quando o viam
celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia
afirmava que "não era possível encontrar uma figura que
exprimisse melhor a adoração. [...] Contemplava a Hóstia
amorosamente". Dizia ele: "Todas as boas obras reunidas não
igualam o valor do sacrifício da Missa, porque aquelas são obra
de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus". Estava
convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia
da Missa: "A causa do relaxamento do sacerdote é porque não
presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um
padre que celebra [a Missa] como se fizesse uma coisa
ordinária!". E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer
sempre também o sacrifício da sua própria vida: "Como faz bem
um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!".
Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o – por
um único movimento interior – do altar ao confessionário. Os
sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus
confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o
menosprezo dos fiéis por este sacramento. Na França, no
tempo do Santo Cura d’Ars, a confissão não era mais fácil nem
mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta
revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa.
Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o
conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem
o significado e a beleza da Penitência sacramental,
apresentando-a como uma exigência íntima da Presença
eucarística. Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as
longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que
os fiéis começassem a imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao
mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o
seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a
multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a
França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por
dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado "o grande hospital
das almas". "A graça que ele obtinha [para a conversão dos
pecadores] era tão forte que aquela ia procurá-los sem lhes
deixar um momento de trégua!": diz o primeiro biógrafo. E assim
o pensava o Santo Cura d’Ars, quando afirmava: "Não é o
pecador que regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o
próprio Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar para
Ele". "Este bom Salvador é tão cheio de amor que nos procura
por todo lado". (Bento XVI, 16.6.09)
Sacrifício da cruz, sacrifício do altar, missa e confessionário – eis aí palavras de ordem que o papa deseja ver os padres vivenciando. O referencial do sacerdote, ao que chama a atenção Bento XVI, deve ser a missa, os sacramentos, enfim a oração – ora, um padre que fique mais dentro da igreja, e esta entendida como o local do culto a Deus e não como sede de mais uma ONG humanitária.
Um modelo de padre para os tempos hodiernos não é retirado do pós-Vaticano II, mas de um dos períodos mais avassaladores para a história da Igreja, o dos ecos da Revolução Francesa: mortificação, oração e caridade contra os ventos revolucionários que questionavam os ensinamentos da Igreja. Os tempos e os ventos são outros, mas a resposta de Bento XVI para estes parece a mesma.
1 A fonte aqui citada está disponível no site da Associação Cultural Montfort, que se constitui como um grupo de intelectuais católicos, pró-tradição e ardentes críticos do Concílio Vaticano II com suas derivadas inovações.