Santa Rita Pintor: In Memoriam

Carlos Parreira · Capítulo 1 de 3

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Santa Rita Pintor: In Memoriam

Carlos Parreira

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CARLOS PARREIRA

 

+SANTA RITA PINTOR+

 

:IN-MEMORIAM:

 

MCMXIX

 

Composto e impresso na Imprensa de Manuel Lucas Torres Rua do

Diario de Noticias, 59 a 61—Lisboa

CARLOS PARREIRA

 

+SANTA RITA PINTOR+

 

:IN-MEMORIAM:

 

MCMXIX

+GUILHERME DE SANTA RITA+

 

Maquete em terra-cota

 

Guilherme de Santa Rita, que o despeito caraïba de um jornal, no peixe-e-carne de um dos seus +menus+ necrologicos, apostila

jogralmente de «um dos mais entusiasticos cultores +d'essa coisa a que se chama para ahi o futurismo+»,—Guilherme de Santa Rita era

por dentro e por fóra um Artista, um representante legitimo d'essa especie de +exilados+, sempre ferido pelo gume das cousas

circundantes, sobrepairando numa atmosfera de abstráções e desdens, ao mesmo tempo fálhos e complexos, argila e chamma,

que a Vida pulveriza, como as creanças malignas as azas das borboletas.

 

Com a sua figura grácilmente exangue de fim de raça, com a sua

voz que ora parecia +ter remorsos de falar+—voz de himoptise, a extinguir-se; ora fazia parar na rua, no mosaico dum café, no

simulacro de gruta dum +hall+ de exposições, onde certos visitantes vão e veem como peixes mortos boiando á flôr d'agua duma piscina,

—fazia deter, com timbres angulosos de cristaes a partir-se, anatomias ruminantes de bons-senhores +effarés+; com o seu perfil de caule em que as andainas-sacos de +kappelmeister maniaco,

+acintosamente+ mal aprumadas, evocavam cerimoniaes mysticos de catafalco; com os seus cabelos dum castanho tranzido de

escuro, dir-se-iam molhados sobre a fronte dum palôr de camelia branca, como aves da noite que congelassem contra uma estatua

de ephebo num jardim; com os seus gestos hiperinquietos, estridentes, chariváricos, +ilustrando+ os dialogos com a vertigem

dum Claude Monet fixando na téla o bailado loïe-fulleresco dos tons; —Santa Rita era a demonstração viva, a contraprova faiscante

deste aforismo de Baudelaire: «on peat vivre trois jours sans pain, mais on ne peut passer um jour sans poésie.+»

 

Quem uma vez tocasse o tubernaculo da sua intimidade,

aceitasse o convite que elle cavalheirescamente fazia para um +passeio d'Arte+ por entre as acacias da Avenida, nalgum

entardecer de láca de Florença ou, ás noites, quando os ventos ulúlam os seus leit-motivos de pavor, forçosamente havia de

reconhecer que calcurreava a par d'+alguem+ muito diferente do +homo vulgaris+, «saco de comida» que Vinci lançou ás feras dos

seus sarcasmos teogónicos e n'este paiz dos ceus de porcelana, patria bem amada da mesmice, os +aristos das letras+ reeditam;

d'+alguem+ que nos dominios da Emoção e do Pensamento os fados sagraram gran-senhor e que era como uma antêna

plurivibratil, halucinatoria, aonde prendiam todos os fios de todas as exquisitezes da sensibilidade moderna.

 

[Nota do Transcritor: Aqui surge uma fotografia de Santa Rita Pintor.]