Santa Rita Pintor: In Memoriam
Cliché Pedro Lima Studio Avenida da Liberdade
+SANTA RITA PINTOR+
CLICHÉ PEDRO LIMA
STUDIO AVENIDA DA LIBERDADE
Elle era, como quase todos os espiritos +ineditos+, um intoxicado d'Arte, possesso da necessidade de drapejar aos quatro ventos a
toxina que o esperecia. Razão porque muitos dos seus conhecidos o achavam extravagante, bizarro e manifestavam ante a sua
expansibilidade radiosa o espanto colerico da mosca que não pode atravessar a placa flamejante dum vitral +e não sabe porquê+.
Que fôsse possivel existir quem nesse asylo da mendicidade que
é, em Lisbôa, a chamada «roda» dos intelectuaes, estalactites de café, onde a sua inteligencia, uma vez ou outra condescendia em
aparecer, talvez para se documentar sobre não sei que humoristica compilação dos usos e costumes dos fósseis,—que fôsse possivel
existir quem, entre os +superiores e idealistas+, dispensasse +la poésie+ nas 24 horas chloroticas ou congestivas do dia-a-dia, eis
contra que Santa Rita protestava com as mais agudas das suas interjeições, agitando em elypses de mófa os longos dedos
piciolados de violinista tisico, os seus dedos de bôa linhagem, cheios de expressão, vozeantes d'alma, feitos, como os de Jean
Lorrain, para o ritual luminico das joias…
E nada mais divertido do que assistir então aos esforços dos sapos tentando alcandorar-se aos cimos em que o meu querido
pintor goticisava vôos. Inestimaveis melharucos de sonetos lusitanos, poedôres mecanicos de versos coloristas, mais ignorantes
do que cavalariços, querendo vêr no analfabetismo a marca da originalidade e com desdens de guardas-portões pelos que
estudam; prosadores de noticias d'annos; pinturrécos sem paleta, que enchem os +godets+, quando muito de anilina; rodins de farinha
triga, que quando fazem +bonzos+ pretendem que os aceitêmos como +bronzes+ e quando contornam musculos sugerem apenas
meias-gravidezes… ah, como toda esta companha de surdos-mudos do espirito, se não adergava convencê-lo de que não
dispensava +o tal ideal+, tirava depois a feminil vingança, tratando-o de maluco e de lunatico, em conciliabulos de mastins!
«Guilherme de Santa Rita estudou em Paris como pensionista do
Estado», tagarela um ganimedes de +folha d'alface+.
Parabens, seu compadre!
Deixou Santa Rita, como pintor, alguma obra de peso, um consideravel quadro, uma insexual +pochade+, a famosa maquina
pictural, em summa, de horroroso estylo +pompier+, que tanto repugnava á sua apurada estesia e para cuja execução o Estado o
pensionava?
Não, amigos. De resto, dispersava força neurica demais em projectos maravilhosos, em concepções imprevistas, em
imaginações faúlhantes para poder materialisar o que projectava, o que concebia, o que imaginava.
Diz ali, na minha estante, o +Homem de genio obscuro+, de
Fialho: «Entre a intrepidez dos meus ideaes artisticos e a mesquinharia dos meus recursos picturaes, ha um abysmo de impotencia de que não quero dar prova aos meus
contemporaneos.+»
E ouço a voz de Oscar Wilde, seu vizinho de prateleira, a responder-lhe, com esse gesto de desencanto apolineo, tão
perverso, que punha azas de grifo no lirismo azul dos seus olhos: «Voulez-vous savoir, dear, le grand drame de ma vie?—C'est que j'ai
mis mon génie dans ma vie; je n'ai mis que mon talent dans mes uvres+».
O seu culto entusiastico por +essa coisa a que se chama para ahi
o futurismo+!
Encantadoras irreverencias da inepcia!
* * * * *
Uma noite, na +brasserie+ do Largo de Santa Justa, esperavamos ambos, com duas conservadoras chavenas de café, ver surgir a
silhueta eminentemente caracteristica do Fernando Pessôa, em que se justapõem e quase se intersécionam bem inequivocas
reminiscencias da velha Mademoiselle, da +Germinie Lacerteux e do Adrien Sixte, de Bourget.
Santa Rita, fixos em mim, anciosamente, os seus olhos de pedra
preciosa, tinha-me revelado já a sua adoração pelo futurista hespanhol Picassso; esse Bonaparte da +réclame+, grande
industrial do Genio; de Severini, de Boccioni, de Russolo, do seu admiravel quadro +A Revolta+, verdadeira epopeia paroxistica do
Movimento, toda em +linhas-forças+ de uma intensidade jamais egualada, de Robert Delaunay e das suas +planches+ tão ruivamente +réussies+; das predilecções futuristas, evidentes no
ultimo livro d'essa bacchante scénica de D'Annunzio, +Forse che si, forse che no+, duma fantasia rica de tapete d'Oriente… Eu, que lêra
na vespera os +manifestos+ de Marinetti, extasiava-me ante a frase celebre, archetypica desse rapsôdo presciente do +Hoje+ dinamico
da Arte: «Um automovel de aluguel é mais formoso que a +Victoria de Samotracia+.»
Mas Fernando Pessôa não aparecia a dar-nos o +bonbon fondant
da sua conversa, tão eleganciada de flexuosidades mentaes, perspectivando ceus typhicos de inauditismos, como a dum Walter
Pater que praticasse a horoscopia…
Já na despedida:—até ámanhã—, um de nós lançou o nome de Paul Cézanne, o +precursor+ odiado e vilependiado.
Meu pobre Santa Rita!
Neste momento em que tento em vão, com a greda das palavras,
esculpir o teu perfil na memoria dos que te estimaram e procuro, para o completar, na galeria dolorosa dos teus Antepassados do
Pincel, um equivalente do teu espirito e da tua emoção,—é o nome de Paul Cézanne que pronuncio. Como elle, Christo resignado do
insuccesso, vêjo-te morrendo, na ante-manhã da existencia, entre os chascos vermelhos da canalha.
Maio de 1918.
+Carlos Parreira.+