Sermão de Santo Antônio aos Peixes

Padre Antônio Vieira · Capítulo 1 de 5

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Sermão de Santo Antônio aos Peixes

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SERMÃO DE ST.° ANTÓNIO AOS PEIXES

PADRE ANTÓNIO VIEIRA

 

Esta obra respeita as regras do

Novo Acordo Ortográfico

Vos estis sal terra

(S. Mateus, 5)

I

 

“Vós”, diz Cristo nosso Senhor, ao falar com os pregadores, “sois o sal da terra”. E chama-lhes sal da terra, porque quer que eles façam na terra o mesmo que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm o ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa dessa corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, não a querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, em vez de fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores pregam-se a si e não a Cristo; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem os seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.

Suposto, pois, que, ou o sal não salgue ou a terra não se deixe salgar; que se há de fazer a esse sal, e que se há de fazer a essa terra? O que se há de fazer ao sal que não salga?

Cristo disse-o: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus (Mateus V - 13). Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há de fazer, é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado por todos. Quem se atreverá a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça, que o pregador que ensina e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra, que se não deixa salgar, que se lhe há de fazer?

Este ponto não resolveu Cristo nosso Senhor no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda(*) e gloriosa resolução que nenhum santo tomou.

[(*) A galharda é uma dança de movimento vivo e carácter alegre]

Pregava Santo António em Itália na cidade de Arímino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como os erros de entendimento são difíceis de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a levantar-se contra ele, e faltou pouco para que não lhe tirassem a vida. Que faria neste caso, o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer essa protestação(*); e uns pés, a que se não pegou nada da terra, não tinham nada que sacudir. Que faria então? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? [(*) Sermão, pregão]

Isso ensinaria porventura a prudência, ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: “Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.”

Oh, maravilhas do Altíssimo! Oh, poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

Se a Igreja quer que preguemos como Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terra. É muito bom o texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra, Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que nas festas dos santos é melhor pregar como eles, que pregar sobre eles. Quanto mais o são da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra, para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.

Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar e, já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles.

Maria, quer dizer, Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria.