Sermão de Santo Antônio aos Peixes
Capítulo II
Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só coisa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que não se há de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase não se sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.
“Vos estis sal terra.”
Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo, para que não se corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem penseis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem o seu lugar. Assim diz o grande doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et que prosequenda sunt imitatione. Não só há o que notar, diz o santo, e o que repreender nos peixes, mas também que o imitar e louvar. Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar: Sagena misse in mare (Mateus XIII - 47), diz que os pescadores recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus: Ellegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt (Ibid. XIII -48). E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender.
Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos é, ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.
Começando, pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera eu dizer, que entre todas as criaturas viventes e sensitivas, vós fostes as primeiras que Deus criou. A vós criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos animais da terra, e a vós primeiro que ao mesmo homem. Ao homem deu Deus a monarquia e o domínio de todos os animais dos três elementos, e nas provisões, em que o honrou com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut prosit piscibus maris, et volatilibus coli, et bestiis, universaeque terrx (Génes. I - 26).
Entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais numerosos e os maiores. Que comparação têm em número as espécies das aves e as dos animais terrestres com as dos peixes? Que comparação na grandeza o elefante com a baleia? Por isso Moisés, cronista da criação, calando os nomes de todos os animais, só a ela nomeou pelo seu: Creavit Deus cete grandia (Ibid. I - 21). E os três músicos da fornalha da Babilónia o cantaram também como singular entre todos: Benedicite, cete et omnia que moventur in aquis, Domino (Dan. III - 79). Estes e outros louvores, estas e outras excelências de vossa geração e grandeza vos pudera eu dizer, ó peixes; mas isso é lá para os homens, que se deixam levar por essas vaidades, e é também para os lugares em que tem lugar a adulação, e não para o púlpito. (*) [(*) O púlpito é o local dentro de uma igreja onde são proferidas as leituras da biblia]
Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos, hoje, é aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra do vosso Criador e Senhor, e àquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António. Oh, grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo António, querendo-o atirar da terra e ainda do mundo, se pudessem, porque este lhe repreendia os seus vícios, porque não queriam que falasse à vontade e condescender com os seus erros, e ao mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tivessem entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse nessa altura para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão calados e tão devotos, que havia de dizer? Poderia pensar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus o uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão. Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoção que tivestes aos pregadores da palavra de Deus, e ainda por cima porque não foi só essa a vez em que assim o fizestes.
Ia Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado num navio, quando se levantou aquela grande tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes? Os homens lançaram-no ao mar para ser comido pelos peixes, e o peixe que o comeu, levou-o às praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse aqueles homens. É possível que os peixes ajudam a salvação dos homens, e os homens lançam ao mar os ministros da salvação? Vede, peixes, e não vos venha vanglória, quanto melhor sois que os homens. Os homens tiveram entranhas (*) para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas(*) a Jonas, para o levar vivo à terra.
[(*) Trocadilho de expressões com a palavra “entranhas”: entranhas dos homens = neste caso significa maldade, desprezo; a entranha do peixe = a parte interior do peixe, pois Jonas foi engolido e guardado por um peixe no seu interior]
Mas porque é que nestas duas ações teve maior parte a omnipotência que a natureza (como também em todas as milagrosas que obram os homens), passo às virtudes naturais e vossas próprias. Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles entre todos os animais não se domam nem domesticam. Dos animais terrestres o cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal, o bugio(*) tão amigo ou tão lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e benefícios se amansam. [(*) Um tipo de primata. Um macaco]
Dos animais do ar, fora aquelas aves que se criam e vivem connosco, o papagaio fala-nos, o rouxinol canta-nos, o açor(*) ajuda-nos e nos recreia-nos; e até as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reconhecem a mão de quem recebem o sustento.
[(*)Uma ave de rapina parecida com o falcão]
Os peixes, pelo contrário, lá vivem nos seus mares e rios, lá mergulham nos seus lagos, lá se escondem nas suas grutas, e não há nenhum tão grande que se fie do homem, nem tão pequeno que não fuja dele. Os autores comummente condenam esta condição dos peixes, e culpam-na à sua pouca docilidade ou à sua demasiada bruteza; mas eu sou de muito diferente opinião. Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro, e parece-me que se não fora a natureza, era grande a sua prudência.
Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre! Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora, que com suas pensões o fazem. Cante-lhe aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhe palavras o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor, mas nas suas piores condições; faça-lhe bufonearias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o cão de lhe roer um osso, mas levado aonde ele não quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamem formoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorifique-se o cavalo de mastigar palha dourada, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que não caçaram nos bosques, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.
No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou o mundo, e de todos os animais quais se livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim os outros animais da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim as outras aves. E dos peixes? Todos escaparam, e não só escaparam todos, mas ficaram muito mais que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves, porque não morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo Ambrósio: porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos, tinham mais comunicação com os homens, os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes, tal como se afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força daquelas ervas com que, infecionados os poços e lagos da mesma água vos mata; mas como o dilúvio era um castigo universal que Deus dava aos homens pelos seus pecados, e ao mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima a providência da divina justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal e que por isso os animais que viviam mais perto deles foram também castigados e os que andavam longe ficaram livres. Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntado um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo António, e foi este um dos benefícios de que vos exortou a dar graças ao Criador, bem vos pudera alegar consigo, que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou a casa dos seus pais e recolheu-se ou acolheu a uma religião, onde professasse perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir e se esconder dos homens, mudou o hábito, mudou o nome, e até a si mesmo se mudou, ocultando a sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota, com que não fosse conhecido nem procurado, antes deixado por todos, como lhe sucedeu com os seus próprios irmãos no capítulo geral de Assis. De ali se retirou a fazer vida solitária num ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força o não manifestara, e por fim acabou a vida noutro deserto tanto mais unido com Deus, quanto mais afastado dos homens.