Só

António Nobre · Capítulo 1 de 2 · parte 2/3

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Só

Memoria Á Minha Mãe ao Meu Pae

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

Coimbra, 1889.

 

17

A França!

 

Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!) Por este mar de Gloria, em plena paz.

Terras da Patria somem-se na treva,

Agoas de Portugal ficam, atraz…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?

Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?

Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,

Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

Ó Luzitania que te vaes á vela!

Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)

Na minha Nau Catharineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!

Sobe depressa á gavea, marinheiro,

E grita, França! pelo amor de Deus!…

Oceano Atlantico, 1890.

 

18

Tempestade!

 

O meu beliche é tal qual o bercinho,

Onde dormi horas que não vêm mais.

Dos seus embalos já estou cheiinho:

Minha velha ama são os vendavaes!

Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.

O vapor treme! Abraço a Biblia, aos ais… Covarde! Que dirá teu Avôzinho,

Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

Coragem! Considera o que has soffrido,

O que soffres e o que ainda soffrerás,

E ve, depois, se accaso é permittido

Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo: Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,

Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

Golpho de Biscaya, 1891.

 

19

Continua a Tempestade

Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,

Scismo em meu lar, na paz que lá havia:

Carlota, á noite, ia ver se eu dormia

E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

Aqui, não tenho um unico deleite!

Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria, Sem um beijo, sem uma Ave-Maria, Sem uma flor, sem o menor enfeite…

Ah! podesse eu voltar á minha infancia!

Lar adorado, em fumos, a distancia,

Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

Minha velha aia! conta-me essa historia

Que principiava, tenho-a na memoria,

«Era uma vez…»

Ah deixem-me chorar!

Canal da Mancha, 1891.

 

20

Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!

Ouve: quando eu, um dia, for alguem,

Tuas amigas ter-te-ão amizade,

(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,

Tudo vaidade! E, se pensares bem,

Verás, perdoa-me esta crueldade,

Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna

E eu vi-me só no mar com minha escuna, E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,

Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…

E isto em mim não será uma vaidade?

Mar do Norte, 1891.

 

21

Paz!

 

E a Vida foi, e é assim, e não melhora.

Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…

Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora! Chymeras, sonhos, bolas de sabão.

E a tortura do além e quem lá mora! Isso é, talvez, minha unica afflicção…

Toda a dor pode suspportar-se, toda!

Mesmo a da noiva morta em plena boda, Que por mortalha leva… essa que traz…

Mas uma não: é a dor do pensamento!

Ai quem me dera entrar n'esse convento

Que ha além da Morte e que se chama A Paz!

Pariz, 1891.

 

22

Epilogo

 

Meu coração, não batas, pára!

Meu coração, vae-te deitar!

A nossa dor, bem sei, é amara,

A nossa dor, bem sei, é amara…

Meu coração, vamos sonhar…

Ao mundo vim, mas enganado.

Sinto-me farto de viver:

Vi o que elle era, estou massado,

Vi o que elle era, estou massado…

Não batas mais! vamos morrer…

Bati á porta da Ventura

Ninguem m'à abriu, bati em vão:

Vamos a ver se a sepultura,

Vamos a ver se a sepultura Nos faz o mesmo, coração!

Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!

Que a ambos nós vaes digerir…

Meu coração, a Velha chama, Meu coração, a Velha chama… Basta, por Deus! vamos dormir…

Coimbra, 1888.

 

*Carta a Manoel*

 

Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa. Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa, Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste, A cuja influencia a minha alma não reziste, Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem? Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem… E pede ao vento que não uive e gema tanto: Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto, Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas Dos ursos na aula, peor que beatas correrias De velhas magras, galopando Ave-Marias, Peor que um diamante a riscar na vidraça! Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça! Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda, Tal a menina pelas vesperas da boda,

Atarefada mail-a ama, a arrumar…

O vento afoga o meu espirito n'um mar

Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões São todos feitos de luar, recordações.

Á noite, quando estou, aqui, na minha toca, O grande evocador do vento evoca, evoca Nosso verão magnifico, este anno passado, (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado, O tic-tac do relogio do fogão)… Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão! Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.

E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar, Triste, ao clarão da lamparina que desmaia, Na existencia que tive este verão na praia, Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora, Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,

No barco á vela do moreno Gabriel!

Vejo passar de negro, envoltas n'um burel, Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações! Phantasmas do passado! encantadas vizões! Que, embora estejam lá, no seu paiz distante, Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

Ó Rio Doce! tunnel d'agoa e de arvoredo! Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote… E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote, Quando iamos nadar, á Ponte de Tavares! Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares! Tudo se foi…

Hoje, mais nada tenho que esta

Vida claustral, bacharelatica, funesta,

N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente! Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente! Bem me dizias tu, como que adivinhando O que isto para mim seria, Amigo, quando O anno passado, vim contra tua vontade

Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:

«Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim. Mas certamente, é natural, não chego ao fim. Ah quanto fôra bem melhor a formatura,

Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!

Que optimas prelecções as prelecções modernas, Cheias de observação e verdades eternas, Que faz diariamente o Proff. Oceano!

Já tinha dado todo o Coraçao Humano, Manoel! faltava um anno só para acabar

Meu curso de Psychologia com o Mar.

Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,

Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?

Talvez… preguiça, eu sei… A cabra é a cotovia: As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava. Era a distancia, o além, que me impressionava: Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança. Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…) Tudo rolou no solo! A Tasca das Camellas Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas: Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes Por 6 e 5! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes, Tia Camella… só ficou a camelice.

Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,

Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra! Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra! Que extraordinarias e medievas raparigas! E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas? As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito, Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças! Manoel! tão lindas são…»

Que pena que não ouças!

Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos. Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

Olha… São os Geraes, no intervallo das aulas. Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes: Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes Dos navegantes do seculo XVI?

Curvam a espinha, como os aulicos aos reis! E magros! tristes! de cabeça derreiada!

Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada! —E os doutores?—Ahi, os tens graves, á porta. Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa? Ha duas excepções: o mais, são todos um, Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum… Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora: Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro, Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro Penedo!

Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!

Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo! Mal diria eu em pequenito, quando a ama Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo, Que eras tu o Papão! A ama, de olhos em fogo, Imitava-te o andar, que não era bem de homem… Eu tinha birras?—Ahi vem o lobishomem! Dizia ella.—Bate á porta! Truz! truz! truz!

E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

Meu velho Pedro! meu phantasma de criança! Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança, Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre) Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro! Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro, E eternamente, para espanto de vindoiros: No rotulo porei: Alli-Bed, Rei dos Moiros.

Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora! Saiamos…

Manoel, vamos por ahi fóra

Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,

Por esses lindos, deliciozos arredores,

Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais: Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes, Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas! Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas? Santos Logares, onde jaz meu coração!

Cada um é para mim uma recordação…

Condeixa?

Vamos ao arraial que, alli, ha.

—Sol, poeira, tanta gente!—É o mesmo, vamos lá!

Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas, Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas; Arrancam-lhes do seio arfando as violetas, Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas: Que deliciosos estudantes que ellas ficam! Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam, Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo, Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo, Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados: Vêm consultar-nos, porque «somos advogados E sabemos das leis…» O que devem fazer Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas Que estraga as plantações!—Que hão-de fazer? Bebel-as! E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos… Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

Tentugal?

Que manhã! E não quereres vir…

Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir. É logo alli: quinze kilometros, é perto.

Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,

Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado! Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!

Paysagem outomnal, alegra-te tambem!

Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem! Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!

Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas! Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos! Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos! Aves por folhas! Animae-os! animae-os!

Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!

Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!) Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha. O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento! E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados! Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados… Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares, Uma colonia de phtysicos, a ares!…

Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo Ver-vos-ei, la, um dia, onde se encontra tudo: A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus… Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas; Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas, Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa Á natureza e o sol a semear Justiça!

Vão pela estrada aleijadinhos de moletas; Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas. Mas o trem voa á desfilada…—Olá! arreda! (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…) E assim n'este galope, a charrette rodando, Já de Tentugal se vae quazi approximando: S. João do Campo já nos fica muito atraz… Assim, Malhado! puxa! Bravo, meu rapaz! Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas! Emfim!

Tentugal toda a rir de cazas brancas!

A linda aldeia! Venho cá todos os mezes

E contrariado vou de todas essas vezes.

Venho ao convento vizitar a linda freira,

Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira… Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei: Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!

Tem de recheio o coração da minha amada. Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…—Traz?—Não!

Regresso a Coimbra só com o meu coração.

Coimbra, 1888-1889-1890.

*Para As Raparigas de Coimbra*

 

1

 

Ó choupo magro e velhinho,

Corcundinha, todo aos nós:

És tal qual meu avôzinho,

Falta-te apenas a voz.

 

2

 

Minha capa vos acoite

Que é p'ra vos agazalhar:

Se por fóra é cor da noite,

Por dentro é cor do luar…

 

3

Ó sinos de Santa Clara,

Por quem dobraes, quem morreu?

Ah, foi-se a mais linda cara

Que houve debaixo do céu!

 

4

 

A sereia é muito arisca,

Pescador, que estás ao sol:

Não cae, tolinho, a essa isca…

Só pondo uma flor no anzol!

 

5

 

A lua é a hostia branquinha,

Onde está Nosso Senhor:

É d'uma certa farinha

Que não apanha bolor!

 

6

 

Vou a encher a bilha e trago-a

Vazia como a levei!

Mondego, qu'é da tua agoa?

Qu'é dos prantos que eu chorei?

 

7

 

A cabra da velha Torre,

Meu amor, chama por mim:

Quando um estudante morre,

Os sinos chamam, assim.

 

8

—E só porque o mundo zomba

Que poes luto? Importa lá!

Antes te vistas de pomba…

—Pombas pretas tambem ha!

 

9

 

Therezinhas! Ursulinas!

Tardes de novena, adeus!

Os corações ás batinas

Que diriam? sabe-o Deus…

 

10

 

Teu coração é uma igreja:

N'uma eça dorme, alli,

Manoel, bemdito seja,

Que morreu d'amor por ti.

 

11

 

Manoel no Pio repoiza:

Todos os dias, lá vou

Ver se quer alguma coiza,

Perguntar como passou.

 

12

Agora, são tudo amores

A roda de mim, no Caes,

E, mal se apanham doutores,

Partem e não voltam mais…

 

13

 

Aos olhos da minha fronte

Vinde os cantaros encher:

Não ha, assim, segunda fonte

Com duas bicas a correr!

 

14

 

Nossa Senhora faz meia

Com linha feita de luz:

O novello é a lua-cheia,

As meias são p'ra Jezus.

 

15

 

Meu violão é um cortiço,

Tem por abelhas os sons

Que fabricam, valha-me isso,

Fadinhos de mel, tão bons…

 

16

Ó fogueiras, ó cantigas,

Saudades! recordações!

Bailae, bailae, raparigas!

Batei, batei, corações!

Coimbra, 1890.

 

*Luzitania no Bairro-Latino*

 

Só!

Ai do Luziada, coitado,

Que não tem mãe, nem tem avó,

Que não ama, nem é amado…

Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!

Que triste foi o seu fado!

Antes fosse p'ra soldado,

Antes fosse p'ro Brazil…

Menino e moço, tive uma Torre de leite,

Torre sem par!

Oliveiras que davam azeite,

Searas que davam linho de fiar,

Moinhos de velas, como latinas,

Que S. Silvestre fazia andar…

Formozas cabras, muito pequeninas,

Loiras vaquinhas de maternas ancas

Que me davam o leite de manhã,

Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;

Meus bibes eram da sua lã…

Antonio era o pastor d'esse rebanho:

Com ellas ia para os montes, a pastar.

E tinha pouco mais ou menos seu tamanho, E o pasto d'ellas era o meu jantar…

E a serra a toalha, o covilhete e a sala.

Passava a noite, passava o dia

Com essas boas irmãzinhas

A quem só mingoava a falla

Para serem perfeitas criaturinhas…

E quando na Igreja das Alvas Saudades Que era da minha Torre a freguezia,

Batiam as Trindades,

Com os seus olhos christianissimos olhavam-me, Eu persignava-me, rezava Ave-Maria… E as doces ovelhinhas imitavam-me.

Menino e moço, tive uma Torre de leite,

Torre sem par!

Oliveiras que davam azeite…

Um dia, os castellos cairam do Ar!

As oliveiras seccaram,

Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,

Sairam-me os ladrões, só me deixaram

As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

Que triste fado!

Antes fosse aleijadinho,

Antes doido, antes cego…

Ai do Luziada, coitado!

Veio da terra, mail-o seu moinho:

Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego, Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…

É negra a sua farinha!

Orae por elle! tende pena!

Pobre Moleiro da Saudade…

Ó minha

Terra encantada, cheia de sol,

Ó campanarios, ó luas cheias,

Lavadeira que lavas o lençol,

Ermidas, sinos das aldeias,

Ó ceifeira que cegas cantando,

Ó moleiro das estradas,

Carros de bois, chiando…

Flores dos campos, beiços de fadas,

Poentes de Julho, poentes mineraes,

Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

Ó padeirinhas a amassar o pão,

Velhinhas na roca a fiar,

Cabello todo em caracoes!

Pescadores a pescar

Com a linha cheia de anzoes!

Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas, Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!

Ó boi negro entre as capas vermelhas!

Ó pregões d'agoa fresca e limonada!

Ó romaria do Senhor do Viandante! Procissões com muzica e anjinhos!

Srs. Abbades d'Amarante,

Com trez ninhadas de sobrinhos!

Onde estaes? onde estaes?

Ó minha capa de estudante, ás ventanias! Cidade triste agazalhada entre choupaes! Ó dobres dos poentes, ás Ave-Marias! Ó Cabo do Mundo! Moreira da Maia! Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!

Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia… Fortalezas de Lipp! ó fosso do Castello, Amortalhado em perrexil e trepadeiras,

Onde se enroscam como espozos as lagartas! Sr. Governador a podar as rozeiras!

Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!

Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

Que é feito de vós?

Fallaveis aos barcos que andavam, la fora, Pelo porta-voz…

Arrabalde, maritimo da França,

Conta-me a historia da Princeza Magalona, E do Senhor de Calais,

Mais o naufragio do vapor Perseverança, Cujos cadaveres ainda vejo á tona…

Ó pharolim da Barra, lindo, de bandeiras, Para os vapores a fazer signaes!

Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras, Diccionario magnifico de cores!

Alvas espumas, espumando a fragua, Ou rebentando, á noite, como flores!

Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,

Cheias de brigues como pinhaes…

Morenos mareantes, trigueiros pastores!

Onde estaes, onde estaes?

Convento d'agoas do mar, ó verde convento, Cuja Abbadessa secular é a Lua

E cujo Padre-capellão é o Vento…

Agoa salgada d'esses verdes poços,

Que nenhum balde, por maior, escua!

Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,

Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:

Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

Corpo de virgem, que ainda veste a saia… Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos! Noiva cadaver ainda com véu…

Ossadas ainda com os mesmos fatos!

Cabeça roxa ainda de chapéu!

Pés de defunto que ainda traz sapatos!

Boquinha linda que já não canta…

Boccas abertas que ainda soltam ais!

Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados! Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…) Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

Onde estaes, onde estaes?

Ó Boa Nova, ermida á beira-mar, Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!

Na cal, meu nome ainda lá deve estar,

Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios! Ó altar da Senhora, coberto de luzes! Ó poentes da Barra, que fazem desmaios… Ó Sant'Anna, ao luar, cheia de cruzes! Ó logar de Roldao! villa de Perafita! Aldeia de Gonsalves! Mesticoza! Engenheiros, medindo a estrada com a fita… Agoa fresquinha d'Amoroza!

Rebolos pela areia! Ó praia da Memoria! Onde o Sr. D. Pedro, Rei-soldado, Atracou, diz a Historia,

No dia… não estou lembrado;

Ó capellinha do Senhor d'Areia, Onde o Senhor appareceu a uma velhinha… Algas! farrapos do vestido da sereia!

Lanchas da Povoa que ides á sardinha,

Poveiros, que ides para as vinte braças, Sol-por, entre pinhaes…

Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

Onde estaes?

 

2

 

Georges! anda ver meu paiz de marinheiros, Traze o teu livro, toma as tuas notas:

Oh as lanchas dos poveiros

A sairem a barra, entre ondas e gaivotas! Que extranho é!

Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça, Á espera da maré,

Que não tarda hi, avista-se lá fóra!

E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, Clamam todos á uma. «Agôra! agôra! agôra!» E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…) Que vista admiravel! Que lindo! que lindo! Içam a vela, quando já têm mar,

Dá-lhes o vento e todas, á porfia,

Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas, Rozario de velas, que o vento desfia,

A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

S^{nra} Nagonia!

Olha, acolá!

Que linda vae com seu erro de ortographia… Quem me dera ir lá!

Senhora Da guarda!

(Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)

Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda O caçador!

Senhora d'ajuda! Ora pro nobis! Calluda! Sêmos probes! S^{enr} dos ramos! Istrella do mar! Ca bamos!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

S^{ra} da luz!

Parece o pharol…

Maim de Jesus!

É tal qual ella, se lhe dá o sol!

S^r dos Passos! Sinhora da Ora!

Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços! Parecem ermidas caiadas por fóra…

S^{nr} dos Navegantes! Senhor de Matuzinhos!

Os mestres ainda são os mesmos d'antes: Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,

A mail-os quatro filhinhos,

Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

Senhora aos aflitos! Martyr Sao Sebastiao! Ouvi os nossos gritos! Deus nos leve pla mao! Bamos em paz!

Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!

Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados, O Jéques, o Pardal, na Nam te perdes, E das vagas, aos rythmos cadenciados,

As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes: «As armas e os barões assignalados…»

Lá sae a derradeira!

Ainda agarra as que vão na dianteira…

Como ella corre! com que força o vento a impelle:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle Por esse mar de Christo…

Adeus! adeus! adeus!

 

3

 

Georges! anda ver meu pàiz de romarias E procissões!

Olha essas moças, olha estas Marias!

Caramba! dá-lhes beliscões!

Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,

Gula e luxuria dos Maneis!

Têm nas orelhas grossas arrecadas,

Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anneis, Ao pescoço serpentes de cordões,

E sobre os seios entre cruzes, como espadas, Além dos seus, mais trinta coraçoes! Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito, Toca a bailar!

Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,

Que hão de gostar!

Tira o chapéu, silencio!

Passa a procissão.

Estralejam foguetes e morteiros.

Lá vem o Pallio e pegam ao cordão

Honestos e morenos cavalheiros.

Altos, tão altos e enfeitados, os andores,

Parecem Torres de David, na amplidão! Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores! Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.

Contempla! Que tristes os Nossos Senhores, Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

Os anjinhos!

Vêm a suar:

Infantes de trez annos, coitadinhos!

Mãos inviziveis levam-nos de rastros,

Que elles mal sabem andar…

Esta que passa é a Noite cheia de astros! (Assim estava, em certo dia, na Judeia) Aquelle é o Sol! (Que bom o sol de olhos pintados!) E aquella outra é a Lua-Cheia! Seus doces olhos fazem luar…

Essa, acolá, leva na mão os Dados, Mas perde tudo se vae jogar.

E esta que passa, toda de arminhos,

(Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)… Leva, sorrindo a Coroa dos Espinhos, Flor de criança que os não tem.

E que bonita vae a Esponja de Fel! Mal ella sabe, a innocentinha…

Nas suas mãos a Esponja deita mel: Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!

Lá vem a Lança! A bainha

Traz ainda o sangue da Sexta-feira… Jezus!

Que maravilha de criança!

O Leão morrera ainda outra vez, na cruz, Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,

Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

Passa o ultimo, o Sudario!

O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

Parece o sol-por!

E a procissão passa. Maré-cheia de povo! É o Oceano Atlantico!

O bom povinho de fato novo,

Nas violas de arame soluça, romantico,

Fadinhos chorozos da su'alma beata.

Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro, O sol em gloria brilha olympico, e de prata, Como a velha cabeça aureolada de Deus!

Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro. Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas! Pão de ló de Margaride! Agoinha fresca da Moirama! Vinho verde a escorrer da vide!

Á porta d'um cazal, um tysico na cama,

Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo. E uma netinha com um ramo de loireiro

Enxota as moscas, do moribundo…

Dança de roda mail-as moças o coveiro.

Clama um ceguinho:

«Não ha maior desgraça n'esta vida,

Que ser ceguinho!»

Outro, moreno, mostra uma perna partida! Mas fede tanto, coitadinho…

Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…» E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga, Labareda de cancros em fogueira,

Que o sol atiça e que a gangrena apaga, Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

Que lindos cravos para por na botoeira!

Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina! Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos! Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados! Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos! Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados, Talvez lá dentro com perfeitos corações:

Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,

Tragicos, uivam «uma esmola plas alminhas Das suas obrigações!»

Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho! E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

Qu'é dos pintores do meu paiz extranho? Onde estão elles que não vêm pintar!

Pariz, 1890-1891.

 

*Os Figos Pretos*

—Verdes figueiras soluçantes nos caminhos! Vós sois odiadas desde os seculos avós: Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos, Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

—Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras

Deixae-o fallar!

Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,

Que bom que é amar!

—O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama: Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços. No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

—Quando eu for defunta para os esqueletos,

Ponde uma ao meu lado:

Tristinha, chorando, darà figos pretos…

De luto pezado!

—Os aldeões para evitar vosso perfume

Sua respiração suspendem, ao passar…

Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume, Os carpinteiros não vos querem aplainar.

—Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso

Que incensa o Senhor!

Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço

Para o meu amor…

—As outras arvores não são vossas amigas… Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes, Com essas folhas, sois como velhas mendigas N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

—Mendigas de estrada! mendigas de estrada!

E cheias de figos!

Os ricos là passam e não vos dao nada,

Vos daes aos mendigos…

—Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!

O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.

Ninguem te quer: tua madeira é unicamente Utilizada para as forcas, onde as ha…

—Que màs creaturas! que injustas sois todas

Que injustas que sois!

Serà de figueira meu leito da bodas…

E os berços, depois

—Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle, Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!… Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

—Tambem era negro, de negro cegava

O pranto, o rosario,

Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,

Alguem, no Calvario…

—E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua, Se os figos caem de maduros, pelo chão: Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua, A chorar, a chorar sua alta traição!

—Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras

Deixae-o fallar!

Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras

Cantar e bailar…

Coimbra, 1889.

 

*Febre Vermelha*

 

Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!

Para que em vosso seio o labio meu se atole: Beber até cair, bebedo, para o lado!

Quero beber, beber até o ultimo gole!

Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o! Montanhas alagae! deixae-as trasbordar! As ondas como o oceano, ou antes como um rio Levando na corrente Ophelias de luar…

Camelias! Entreabri os labios de Eleonora! Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis! Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora! E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas! Apagae-me esta sede estonteadora e cruel: Ó favos rubros! os meus labios são abelhas, E eu ando a construir meu cortiço de mel…

Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra! Que seja sangue o leite e rubins as opalas! Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra, Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas! N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz! Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas, Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava

Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas. Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava! Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o Nas veias do meu corpo estragado e sem cor: Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio, O triste fado que me deu Nosso Senhor…

Scismo já farto de velar minha alma doente, Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede! Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço, Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus, Como se accaso fosse, em catapultas de aço, Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto! Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca: E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto, Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

Leça, 1886.

 

*Poentes de França*

 

—Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho! Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…) Ó sol de Normandia! Occidente vermelho, Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

—Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,

Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Ó sol, cautella! já a noite se avizinha

O Padre-Oceano vae, em breve, commungar: Ó hostia vesperal de vermelha farinha,

Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

Ó sol, às Trindades, atraz dos pinheiros,

Á hora em que passam branquinhos moleiros,

Levando farinha p'ra cozer o pão!

—Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante! Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras! Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,

Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

—Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!

Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Arco da Velha, a rir rizos de sete cores! Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!

Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores! Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza

Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,

Quando vem das sachas o Sr. Joao…

—Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra! Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla: Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra: Varaste os corações d'um exercito em fila!

—Ó hora em que as agoas rebentam das minas…

Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite! Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!

Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

—Ó hora em que passam moças e meninas

Que, em tardes de Maio, vão às Ursulinas,

Com rozas nos seios e um livro na mão…

—Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho A tua saude erguer a minha taça ardente! Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

—Eu amo os poentes, mas sem agonias,

Ó poentes de França! não vos amo, não!

—Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata, A tua porta os marinheiros vão bater:

Lá vejo os astros por seus calices de prata, Na Taverna do Occaso, a beber, a beber…

Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!

Ó céus como escarros, às Ave-Marias!

Ó poentes de França! não vos amo, não!

Pariz, 1891.

 

*Pobre Tysica*!

 

Quando ella passa á minha porta,

Magra, livida, quazi morta, E vae até á beira-mar,

Labios brancos, olhos pizados:

Meu coração dobra a finados,

Meu coração poe-se a chorar…

Perpassa leve como a folha,

E suspirando, ás vezes, olha

Para as gaivotas, para o Ar:

E, assim, as suas pupillas negras

Parecem duas toutinegras,

Tentando as azas para voar!

Veste um habito cor de leite,

Saiinha liza, sem enfeite,

Boina maruja, toda luar:

Por isso, mal na praia alveja,

As mais suspiram com inveja:

«Noiva feliz, que vaes cazar…»

Triste, acompanha-a um Terra-Nova Que, dentro em pouco, á fria cova

A irá de vez acompanhar…

O chão desnuda com cautella,

Que Boy conhece o estado d'ella: Quando ella tosse, poe-se a uivar!

E, assim, sósinha com a aia,

Ao sol, se assenta sobre a praia,

Entre os bébés, que é o seu logar…

E o Oceano, tremulo avôzinho,

Cofiando as barbas cor de linho,

Vem ter com ella a conversar…

Fallam de sonhos, de anjos, e elle

Falla d'amor, falla d'aquelle

Que tanto e tanto a faz penar…

E o coração parte-se todo,

Quando a sorrir, com tão bom modo,

O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

Sarar? Mizerrima esperança!

Padres! ungi essa criança,

Podeis sua alma encommendar:

Corpinho d'anjo, casto e inerme,

Vae ser amada pelo Verme:

O bichos vão-na desfructar…

Sarar? Da cor dos alvos linhos,

Parecem fuzos seus dedinhos,

Seu corpo é roca de fiar…

E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,

Eu julgo ouvir n'uma officina

Taboas do seu caixão pregar!

Sarar? Magrita como o junco,

O seu nariz (que é grego e adunco)

Começa aos poucos de afilar,

Seus olhos lançam igneas chammas…

Ó pobre mãe, que tanto a amas,

Cautella! O outomno está a chegar…

Leça, 1889.

*A Poezia do Outomno*

 

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena! Tardes de sonho em que a poezia escorre E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas

Por entre os verdes cannaviaes, esguios, São como estradas liquidas, e as estradas Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos, O chale pedem a quem vae passando…

E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,

As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento. Abrem as boccas, aparando-o, os goivos… E a larangeira, aos repellões do vento,

Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega

O val sem fruto, a terra arida e nua!

E o Padre-Oceano, lá de longe, prega

O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!

Outubro! Mez de Maio, na lareira!

Tardes…

Lá vem a Lua, gratiae plena, Do convento dos céus, a eterna freira!

Porto, 1886.

 

S.^{ta} Iria

 

N'um rio virginal d'agoas claras e mansas, Pequenino baixel, a santa vae boiando… Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças, Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando, E, com a graça etherea e meiga das crianças, Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

Á lua, cantam as aldeãs de Riba-Joia, E, ao verem-na passar, phantastica barquinha, Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar, A mãe do pescador, rezando a ladainha

Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

Leça, 1885.

 

*Enterro de Ophelia*

Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a! (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…) Como padres orando, os choupos formam ala, Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

Toda de branco vae, n'esse habito de opala, Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou, Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla, D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella, Que a perseguia sempre, em palacio e na rua, Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros, E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua, Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

Leça, 1888.

 

*Ballada do Caixão*

 

O meu vizinho é carpinteiro,

Algibebe de Dona Morte:

Ponteia e coze, o dia inteiro,

Fatos de pau de toda a sorte:

Mogno, debruados de velludo

Flandres gentil, pinho do Norte…

Ora eu que trago um sobretudo Que já me vae a aborrecer,

Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,

Havia immenso que fazer!…)

—Olá, bom homem! quero um fato,

Tem que me sirva?—Vamos ver…

Olhou, mexeu na caza toda…

—Eis aqui um e bem barato.

—Está na moda?—Está na moda.

(Gostei e nem quiz apreçal-o:

Muito justinho, pouca roda…)

—Quando posso mandar buscal-o?

—Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:

(Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

Ó meus amigos! salvo-erro,

Juro-o pela alma, pelo céu!

Nenhum de vós, ao meu enterro,

Irá mais dandy, olhae! do que eu!

Pariz, 1891.

 

*Á Toa*

O Primeiro Homem

 

Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha! Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

A Montanha

 

Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios E veias do meu corpo os azulados rios.

 

Os Rios

 

Nós somos o suor que o Estio asperge e sua, Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

 

A Lua

 

Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

 

A Terra

 

E eu uma das maçãs, entre outras a primeira, Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

 

A Macieira

 

Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!

Abanae a macieira e cairão estrellas!

 

A Estrellas

No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,

E formamos, assim, as Estrellas-do-mar…

 

O Mar

 

Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos: Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

 

Os Relampagos

 

Nós somos (o contrario, embora, seja escripto) Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

 

O Infinito

 

Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança. Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

 

A Esperança

 

Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes, No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

 

Os Cyprestes

Para apontar os céus, como dedos funereos, Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

 

Os Cemiterios

 

Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos! Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

 

Os Mortos

 

Seculos tombam uns sobre outros, como blocos, E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

Porto, 1885.

 

*A Vida*

 

Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes! Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes! Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor

Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor! Ó olhos negros como noites, como poços! Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!

Ó puros como o céu! ó tristes como levas De degredados!

Ó Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias: Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias, Ó velas do perdão! candeias da desgraça! Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça! Olhos accezos como altares de novena!

Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna! Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas, Lume dos que no mar andam botando as linhas… Ó pharolim da barra a guiar os navegantes! Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,

Mais os que vão na diligencia pela serra! Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra! Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!

Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto! Luas d'Estio! Luas negras de velludo!

Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo

Quanto ha de branco: véus de noivas, cal Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal, Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas! Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas! Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha… Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha… Olhos tranquillos e serenos como pias!

Continuar: parte 3 de 3