Só
Memoria Á Minha Mãe ao Meu Pae
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias Cheias de Luz! Olhos sem par e sem irmãos, Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos! Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
E milagrozos, e misericordiozos, Com os teus olhos nunca ha noites sem luar, Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar! Olhos negros! vós sois duas noites fechadas, Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…
Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes! De que te serve ter uns astros sem eguaes? Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves? O mar a uivar! A espuma verde das marés! Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja! Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
A arder entre clarões de coleras! O orgulho Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho! Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica! Quantos lares sem lume e quanta gente rica! Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias! Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias! Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças! Quantos suores sem proveito! quantas taças A trasbordar veneno em espumantes boccas! Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas, N'este macomio do Planeta! E as orfandades! E os vapores no mar, doidos, ás tempestades! E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia! E aquella que não sae por ter uzada a saia! E os que sossobram entre a vaidade e o dever! E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer! Olha essa procissão que passa: um torturado De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado, E para ser feliz fez todos os esforços…
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos, Como dez annos de prizão maior-cellular! Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
Olha o bébé que teve Torre de coral
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal, Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada, Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada! Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas… Olha essas rugas que têm certos diplomatas! Olha esse olhar que têm os homens da politica! Olha um artista a ler, soluçando, uma critica… Olha esse que não tem talento e o julga ter E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever! Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade! Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos! Olha um moço a chorar seus crueis desenganos! Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal! Olha aquelle que habita uma Torre de sal, Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas, Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas! Olha um velhinho a carregar com a farinha E o filho no arraial, jogando a vermelhinha! Olha a sair a barra a galera Gentil E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil! Olha, acolá, no caes uma outra como chora: É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!» Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…
Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!
Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos! Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama, Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha, A Terra!
Ó meu amor! antes fosses ceguinha…
Pariz, 1891.
*O Somno de João*
O João dorme… (Ó Maria,
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar…)
Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria… um morango!
Podia engulil-o um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores…
Mas os astros são menores!
O João dorme… Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho…
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar…
O João dorme… Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
Não acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é…
Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir…
Tudo vae sem se sentir.»
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… até morrer!
E tu vel-o-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! Que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo…
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme, Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João… ficarão menores!
Mas para isso, ó Maria!
Dize áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar…
E os annos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha tambem)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas:
Morrerá sem o sentir,
Isto é deixa de dormir…
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde elle veio…
Mas para isso, ó Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais davagar:
Não vá o João, acordar…
Pariz, 1891.
*Ao Canto do Lume*
Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
Ninguem, viv'alma… O que farão os mais? Senhor! a Vida não é um rapido segundo: Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen o d'estas noites immortaes!
Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…) Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
E quando todo se extinguir na aurea chamma, Eu botarei (para que serve? já não ama…) As cinzas brancas, meu vermelho coração!
Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
Cautella… Orçae! Largae a escota! Ave Maria! Cheia de Graça… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
Que triste ver defuntos a boiar!
Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno, Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil. Nada ha peior que este somnambulo abandono! Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!
A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
Que felizes, sois prestes a partir!
Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!… Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…
Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando… Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…
Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
Quem me dera o wagon dos sonhos meus! Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te… —Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
Coitado de quem fica… Adeus! adeus!
Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
Por toda a parte é vil o homem e bom o céu. —Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero E a Agueda beber agoa do Botareu…
Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
Paizes raros, Neves, Areiaes;
Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha, Armei na França minha tenda de campanha…
E tedio, tedio, tedio e nada mais!
Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas, Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas! Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas, Tal como aspirações irrealizaveis, ai!
Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
Agora, trago uma medalha sobre o seio
Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.
Espiritos! em vão, debalde por vós clamo: Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim! As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo, E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo, Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!
Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
Pelo luar da lua de Canaan:
Quero passar o além que para além se alteia, A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
E um logarejo a Estrella da Manhã!
(E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo! Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais? Senhor! A Vida não é um rapido segundo: Que longas horas estas horas! Que profundo Spleen mortal o d'estas noites immortaes!
Pariz, 1890-1891.
*A Sombra*
Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
Que já a lua, a sentinella, rende
Na esplanada do céu, ás portas do Castello…
Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
Com o cabello separado ao meio,
Todo caido para traz, como o de Christo!
Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
Quantas lembranças d'este peito arranco!
Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!
Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!
Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
Terá ainda a mesma voz tranquilla?
Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…
Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
«Anda commigo…»
Coimbra, 1888.
*O Meu Cachimbo*
Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu, meu thuribudo sagrado!
Com que, bom Abbade, incenso
A Abbadia do meu passado.
Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que lá vae,
Quando fumava, ainda criança,
Ás escondidas do meu Pae.
Vejo passar a minha vida,
Como n'um grande cosmorama:
Homem feito, pallida Ermida,
Infante, pela mão da ama…
Por alta noite, ás horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para fallar comtigo a sós.
E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
Alli, mettido no buraco,
Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.
Chorando (penso e não o digo)
Os olhos fitos neste chão,
Que tu és leal, és meu amigo…
Os meus amigos onde estão?
Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
Os trez, os intimos, Aquelles, Estão na Morte, no extrangeiro…
Dos mais não sei, perdi-me d'elles.
Morreram-me uns. Por elles peço
A Deus, quando está de maré:
E, ás noites, quando eu adormeço,
Phantasmas, vêm, pé ante pé…
Tristes, nostalgicos da cova,
Entram. Sorrio-lhes e fallo…
Deixam-se estar na minha alcova,
Até se ouvir cantar o gallo…
Outros, por esses cinco oceanos,
Por esse mundo erram, talvez…
Não me escreveis, ha tantos annos!
Que será feito de vocês?
Hoje, delicias do abandono!
Vivo na paz, vivo no limbo:
Os meus amigos são o Outomno,
O Mar e tu, ó meu Cachimbo!
Ah! quando for do meu enterro,
Quando eu partir gelado, emfim,
No meu caixão de mogno e ferro,
Quero que vás ao pé de mim.
Santa mulher que me tratares,
Quando em teus braços desfalleça,
Caso meus olhos não cerrares,
Embora! Que isto não te esqueça:
Colloca, sob a travesseira,
O meu cachimbo singular
E enche-o, sollicita enfermeira,
Com Gold-Fly, para eu fumar…
Como passar a noite, amigo!
No Hotel da Cova sem conforto? Assim, levando-te commigo,
Esquecer-me-ei de que estou morto…
Coimbra, 1889.
*Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*
Memoria
A J. d'Oliveira Macedo,
Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.
Ás horas do crepusculo, ao Bemdito, Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
Vae dar o leite ás cazas do Infinito…
Ás horas das Trindades, á noitinha, Quando ha milagres e sublimes couzas
E caza o rouxinol com a andorinha…
Quando a alma das virgens religiozas,
Triste se envolve n'um burel de magoa
E os anjos noivam mail-as suas Rozas…
Quando o luar azula a espuma, a fragua, E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
Como que tem os olhos razos de agoa…
N'essa hora indeciza, augustiada,
Em que o universo está, meio ás escuras, Que não se sabe se é antes a alvorada:
Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
Essa radioza lagryma de pranto
Que despedem, morrendo, as criaturas.
E ao vir da noite, livido de espanto,
Vi uma estrella a mais no azul do céu:
É que um poeta, um justo, um bom, um santo,
Ás horas do crepusculo… morreu!
O simples coração de Julieta
Dentro da alma clara de Romeu!
Uma criação de Deus, mas incompleta:
Aguia, encerrando um coração de pomba, Cedro que dava folhas de violeta!
Ah, quando vejo alguma flor que tomba
Meu coração estorce-se de dor,
De Deus minha alma inconsolavel zomba!
Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
Aos ventos, aos relampagos, ficou
N'este Valle de Lagrymas, Senhor!
Quem lhe dera a mortalha que levou
Toda coberta do cabello loiro
Da mystica menina que elle amou!
Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
Na janella que deita para o mar,
Soltas ao vento as suas tranças de oiro!
Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
Deixae do céu a vossa luz tombar!
Ó aves, que trazeis a primavera,
Para cobrir o solitario ninho,
Ide buscar á sua campa a hera!
Ó pombas de luar, pombas de linho,
Que ides tão alto, divagando errantes,
Quazi mortas, perdidas no caminho:
Do vento sobre as azas triumphantes
Prendei a aza e, assim, acompanhae
O scismador que vos cantava d'antes!
Elle precorre victoriozo, olhae!
Entre espumas de brancas andorinhas
O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!
Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas, Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços E beijos com as pallidas mãozinhas…
Mas elle vae boiando nos espaços,
Sendo o seu corpo uma subtil galera
Com leves remos de marfim, seus braços…
Onde vae elle? a que ditoza esphera
Velhinha Morte a sua alma guia?…
Que vida immensa, lá no céu, o espera!
Para ganhar o pão de cada dia
Cuidará da lavoira, mais das flores,
Lavrando as terras da Virgem Maria!
Longe dos vis, dos maus, dos peccadores, N'uma herdade do céu, entre charruas,
A cavar entre simples lavradores,
Semeando estrellas e plantando luas…
E ainda o choram, que feliz desgosto!
O vento passa a uivar por essas ruas…
E um oleo algente, excepcional composto, Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.
E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
Porque é que vós carpis, agoas da fonte? Não chores mais estrella azul do Norte!
Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte, E, como a juba d'um leao hirsuto,
O cedro curva, em tempestade, a fronte;
Os pallidos jasmins vestem de luto…
Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.
Formozo, branco, meigo, sorridente,
Com esses olhos que parecem soes,
Vaes repoizar na cova, eternamente.
O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
E allumia-te a bocca de criança,
O sorrizo dos virgens, dos heroes!
E o corpo teu na cova, essa esperança
Eterna como os seculos e as flores,
Entre verduras, afinal, descança…
Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores, Abrem as campas, lugubres cavernas:
O coveiro é o melhor dos constructores!
Covas que elle abra são cazas eternas.
Leça, 1885.
*Quando Chegar a Hora*
Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
Olhe: eu mesmo lh'a meço…
O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
Que m'a venha elle abrir.
E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
A minha alma é dia!
Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
De padres farão.
Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
Em tiras, para o ninho!
E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
Sugae! sugae! sugae!
Raro têm de comer. A pobreza consome
As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas…
De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
Não me lembrei, não vi Que tinha feito com as aguias um contrato,
No dia em que nasci.
Seixo, 1886.
*Certa Velhinha*
1
Além, na tapada das Quatorze Cruzes, Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes… Cautella, velhinha, não vás tropeçar!
Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da Barra puxado do sul?
Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras, Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!
Contava-me aquella que a tumba já cerra, Que Nossa Senhora, quando a chama alguem, Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem…
Além, na tapada das Quatorze Cruzes, Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes! Quaes velas accezas que a vêm a guiar…
Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros! É o céu estrellado vestido do envez…
Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor…
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas! So no céu ha uvas com aquella cor…
A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha…
Que noite de inverno que parece verão!
Além, na tapada das Quatorze Cruzes, Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a Torre de Marfim, a andar!
Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a Torre de Marfim, a andar, Que pela tapada das Quatorze Cruzes, N'uma noite destas, eu vejo passar…
Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é…
—Jezus! Jezus!
2
Além, na tapada das Quatorze Cruzes, Já não é a velhinha que vae a passar:
Um grande cortejo cheiinho de luzes,
Anninhas da Eira que vae a enterrar.
Falla d'um pastor:
«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
Cantae, raparigas, cantae e chorae!
Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
Como um passarinho, sem soltar um ai.
Quando era pequeno, levava-me á escola, E quando, mais tarde, cresci e medrei,
Oh danças nas eiras, ao som da viola!
Nas danças de roda, que beijos lhe dei!
Os annos vieram, os annos passaram,
Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram, Perdi-a de todo, nunca mais a vi…
E além, na tapada das Quatorze Cruzes, N'uma noite d'estas com vento a ventar, Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!
Olá! bons senhores, vestidos de preto,
Deixae a defunta, que a levarei eu!
O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
O caixão de Anninhas é tambem o meu!
Tenho os relampagos, deixae-me sem velas A rezar por ella, sob o temporal!
Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
Cruzes da tapada, em forma de punhal!»
Mas os bons senhores, de preto vestidos, Cigarros accezos, e velas na mão,
Lá passam ao vento, com sete sentidos,
Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…
«Mãos das ventanias! mãos das ventanias! Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
Com suas mãosinhas, agora tão frias,
Irá na viagem a dizer-me adeus…
Ó vento que passas! corcel de rajada!
Assenta-nos ambos no mesmo selim:
Quero ir mais ella na longa jornada…
Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!
Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor! Quero ir como ella, assim de mãos postas… Quero ir com Anninhas para onde ella for!
Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas, Levae-nos quaes brigues, como azas, levae! Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas… Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»
3
Além, na tapada das Quatorze Cruzes, Que triste velhinha que vae a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes… Aonde irá ella? Quem irá buscar?
Pariz, 1891.
*Males de Anto*
A Ares n'uma aldeia
Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha! Nem mesmo sei dizer que doença era a minha, Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio. Molestias d'alma para as quaes não ha remedio. Nada compunha! Nada, nada. Que tormento! Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento: No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos, Convulsionavam-nos relampagos vermelhos, Que eram, bem o sentia, instantes de Camões! Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
Quiz partir, professar n'um convento de Italia, Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia… Comia terra, embebedava-me com luz!
Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
Contei n'aquelle dia um cento de desgraças. Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças. O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas. Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas. Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas, Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me, Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.
Mas, atravez da minha dor, da tempestade, Sentia renascer minha antiga bondade
N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor. Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
A minha bolsa pequenina, de estudante,
Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.) E ao vir das tardes, ao passar por um atalho, Eu ia olhando o chão, embora com trabalho, Pois os meus olhos não podiam de fadigas, P'ra não pizar os carreirinhos das formigas Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar… E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar, Livido, magro, como um espeto, uma tocha, Costumava esconder-me em uma certa rocha, Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão, E punha-me a chorar, a chorar como um leão! Tinha os berros do mar, pregando em seu convento E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!
Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais, Que as tem maiores este filho de seus Paes! Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta, Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!
Meu pobre coração toda a noite gemia
Como n'um hospital…
Entrae na enfermaria!
Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança: Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança! Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano! Ó mornos vagalhões do coração humano, Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto! Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!… Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua? A que horas é a baixamar, quem vos escua? Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias! Cancros do Tedio a suppurar melancholias! Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem! O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem! Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos! Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…) A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia! Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!
Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças! Philosophias vãs! Perda das minhas crenças! Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios! Sede de immensa luz como a dos pára-raios! Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva! Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta De coleras! Horror…
Deixei fugir a escota,
Perdi-me no alto mar, quando ia na galera Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!… Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets Da minha vingança! ó Ophelias do perdão… (Socega! Faze por dormir, meu coração!
Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias! Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto: O mundo jovial de guarda-sol aberto!
Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó! Ó esquadras das quaes era almirante eu só! Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
E vencer pela patria! E ser Conde da Terra E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo! Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo, Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas, E reis e generaes envoltos nas mortalhas!… P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos, Homens! criae outro systema de algarismos!
Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta… Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa! Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me… Um lenço branco Adeus! nos longes, a acenar-me: Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite! E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!.. Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos Alguens… Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer, Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios! Unhas de leão, raspando cal n'uma parede! Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede De amor mystico! Amar freiras de habito branco Morrer com ellas despenhado n'um barranco, Sob relampagos!…
Jezus! Jezus! Jezus!
Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz! Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda! E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda, Solsticio de verão, quando nos sabe a vida, Quando apparece o cravo, a minha flor querida, Quando os soes-postos são uma delicia, quando Os aldeões andam a podar, cantarolando, E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas Ceifam curvadas, como na haste as violetas!
Medico? Para que… A doença era d'alma. Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros. Tomava quazi sempre a estrada dos Malheiros. A nossa caza é ao virar mesmo da estrada, Onde perpassam os aldeões na caminhada E a mala-posta a rir, cheia de campainhas! Ora havia, lá (e ha ainda) umas Alminhas Com um painel antigo sob um oratorio,
Que são as almas a penar no Purgatorio. E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando Não esqueçais a nós n'este lume penando!» Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…
E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho, Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte, Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
Ora (é um costume) quando alguem vae de longada, Ao ver aquella cruz, que parece uma espada, Deita uma pedra: cada pedra é uma oração… Oh raras orações, que nunca findam, não! Perpetuamente, lá ficam os Padre-Nossos, Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!… Eu como os mais deitava uma pedra, tambem, Dizendo para mim: «se me matasse alguem…» Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra, E ninguem me matava…
Ah! vinham a essa hora
As moças da lavoira a cantar, a cantar,
(Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…) Mas quando, perto já, eu me ia approximando, Paravam de cantar e ficavam-me olhando… E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho, Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»
Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro, Que ia o cantaro encher á Fonte do Salgueiro, Lindos cabellos empoeirados de farinha:
Era uma flor, mas parecia uma velhinha… —Vae melhorzinho?—Assim… vou indo, vou melhor… —Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…
E um pouco mais além, no logar do Cazal, N'uma caza de colmo, assentado ao portal, Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe, E mal sentia, ao longe as passadas de alguem, Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
«Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!» Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa, É que chama a attenção para a sua desgraça!
E, para bem coroar o meu tragico fado,
Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
«Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.» E, grave, para si:
«A Sciencia abandonou-te!»
Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte! Em tudo via a Velha, em tudo via a Morte: Um berço que dormia era um caixão p'ra cova! Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova… Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas! E ao ver as terras estrumadas, como lume, Quedava-me a scismar no meu destino… estrume! A pomba que passava era a minha alma a voar… E era a minha agonia um pinheiro a ullular! E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol, Pensava… se estaria, alli, o meu lençol… E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros, Cantando alegres e fumando, prazenteiros, A tiracollo a cerra, o martello e o formão… Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão! Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…
Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!
A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo, Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente, Quando cantam na sombra as fontes, vagamente, Quando na estrada vão as mulinhas, a trote, Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
E se ouvem expirar os chocalhos dos bois, Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho… Quando na ermida dão Trindades, de mansinho, E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre… Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato: Alli, na encosta aonde bebem n'um regato Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez) Quando para beber me debrucei na pia,
No fundo d'agoa, vi uma photographia…
Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado, O mesmo era que o meu, todo encaracolado! O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu! E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!
Fugi!
E, desde então, não mais sai de caza.
Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza, Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo. Do meu cortiço voou a abelha do desejo. As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola, D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola. Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio… E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas! Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas! E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio… Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!
Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle. Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me. E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me E já me resignei… Mas Carlota, esse amor, Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado N'estas trez legoas, o Dr. da Preza Velha. Eil-o que chega…
—Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
Toma-me o pulso…—Está bem, isso não é nada, Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada, E, sobretudo, veja lá… nada de versos… Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos! Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma Tysica d'Alma. Emfim…
Ó Carlota! ó Carlota!
Boa velhinha, como ella é meiga e devota! Já estaria bom, se me valessem rezas.
E, no Oratorio, tem duas velas accezas
Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores! E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores E sei, até, que prometteu uma novena,
Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena! E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce Com as iniciaes do meu nome em canella, E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino, Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino» Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor, Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor. Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades. Quando me sinto pior, ao bater das Trindades, E me appetece comer terra, algumas vezes (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes) Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada: Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…» E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto, Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto: Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
E com um mimo que só sabe ter uma ama Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo, E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo, Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só, E não se vae deitar…
Onde ha, assim, uma avó?
A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!» Trez legoas em redor manda saber de mim. (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão, Muito baixinha, atarefada; espreita á grade, —Quem é?… E, então, olhae!
«É o Sr. Abbade
Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»; Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
«Que manda um gigo», mais as senhoras do Rôfo Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo, Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
«Que manda este salmão do Tamega, a saltar»; Mais o Sr. Doutor de Linhares «que manda Os cravos mais lindos que tinha na varanda»; Mais «o da Igreja que offerece a codorniz Que matou, hoje, na Tapada de D. Luiz»; Mais o Sr. Miguel das Alminhas de Pulpa «Que manda este peru e que pede desculpa»; E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos Mandam tambem saber «como vae o menino…» E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino Na noite a badalar as suas badaladas!
Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas. Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:
—Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero… Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar… Em pequenino era tão bom de aturar…
E depois era tão alegre, tão esperto!
E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos, Tão faltinho de cor, os cabellos compridos, E tosse tanta vez! já arqueia das costas… Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas! E elle é tão bom, tem tão bons modos…
—Coitadinho!
—Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
Que a gente deita ao sol, quando é para seccar, E que se poe assim a esticar, a esticar?
Assim é o meu menino…
—Ó S.^{ra} Carlota,
E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu… —Nunca foi assim: foi depois que se metteu A fumar, a beber e lá com as po'sias.
Aquillo para mim foram as companhias.
Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta, E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
E nunca ia á licção, ficava sempre mal
Nos seus exames, escrevia no jornal;
E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia Com medo de o affligir… mas depois, quando estava Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava. —O povo diz por hi que foi paixão que trouxe Lá dos estudos, de Coimbra…
—Antes fosse
Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei… —Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei… —S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
Não que elle é mesmo alguem hi para se perder, Para deitar á rua: um senhor tão prendado! Depois, está aqui, está quazi formado…
Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço E vae por hi fóra, por todas essas salas,
A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas Que não enxergo bem, mas que fazem tremer: Hontem, á noite, quando se ia a recolher, (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela) Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella, E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar! E quando foi para chamar o cirurgião?
Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não! Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano» Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…
Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor, É um grande livro que elle traz sempre comsigo, E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo, E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!» Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.
E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más! Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
Ainda, esta manhã: eu estava a por flores E as velas accendia á Senhora das Dores, (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto E uiva-lhe, assim:
«Antes as tuas sete espadas!»
E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.
Coimbra, 1890.
Pariz, 1891.
*Ah Deixem-me Dormir!*
O Poeta
Olá, bom velho! é aqui o Hotel da Cova, Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova… (Como eu estou molhado! é de chorar…)
O povo
O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
Jezus! que lindo…
Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama, Que eu tenho somno, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar…
A S.^{ra} Julia
São as Janeiras da Lua!
O Coveiro
Os quartos, meu senhor, estão tomados
Mas se quizer na valla (que é de graça…) Dormem, alli, somente os desgraçados:
Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…
O Zé dos Lodos
A lua é a nossa vacca, ó Maria!
Mugindo…
Ainda lá, hontem, hospedei um moço
E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça, Porque esses hospedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.
O Dr. Delegado
A noite parece dia!
O Poeta
Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem… Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!) Dize-me: quantos annos me dás? Cem?
O Sr. Abbade
E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
Trouxe a d'anjinho!
A Mulher do Moleiro
É o luar, Sr. Abbade, é o luar…
Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda… Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem: «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda, Foi lavar á Fontinha de Belem…»
O Astronomo
Isto lunar assim! Isto é o verao
De S. Martinho!
O Coveiro
Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
Colxão assim não acha em parte alguma! Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumauma…
O Cego do Cazal
Faz solzinho, que horas são?
Cantando:
«Colxão de raizes e de folhas, lizo,
Lençoes de terra brandos como espuma, Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?
Carlota
Ó luar, anda mais devagarinho!
Deixa dormir o meu menino…
Coitadinho!
O Poeta
Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão a abrir… Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa? A roupa chega para me cobrir…)
A Mãe do Poeta
Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
Tens o logar quentinho…
Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir, Tu não me venhas acordar, embora