Sócios no Crime

Agatha Christie · Capítulo 3 de 4 · parte 1/4

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Sócios no Crime

Seção 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

78-0574

CDD — 823.0872

CDU — 820-312.4

ÍNDICE

I — Um a fada na sala

II — Um bule de chá

III — O caso da pérola rosa

IV — O caso da pérola rosa (continuação)

V — A aventura do desconhecido sinistro

VI — A aventura do desconhecido sinistro (continuação) VII — Passando o rei

VIII — O cavalheiro vestido de j ornal

IX — O caso da m oça desaparecida

X — O j ogo de cabra-cega

XI — O hom em no nevoeiro

XII — O hom em no nevoeiro (continuação)

XIII — O estalador

XIV — O estalador (continuação)

XV — O m istério de Sunningdale

XVI — O m istério de Sunningdale (continuação) XVII — Morte à espreita

XVIII — Morte à espreita (continuação)

XIX — O álibi perfeito

XX — A filha do clérigo

XXI — A casa verm elha

XXII — As botas do em baixador

XXIII — O hom em de n.°16

SÓCIOS NO CRIME

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1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecim ento a quem não pode pagar e tam bém proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.

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CAPÍTULO I

UMA FADA NA SALA

A Sra. Thom as Beresford rem exeu-se no sofá e olhou som briam ente pela j anela do apartam ento. O panoram a não era dos m ais variados, consistindo som ente de um pequeno bloco de apartam entos do outro lado da rua. Ela deu um suspiro e bocej ou.

— Gostaria — disse — que algum a coisa acontecesse.

O m arido lançou-lhe um olhar de censura:

— Cuidado, Tuppence, esta sede de sensações vulgares m e alarm a.

Tuppence suspirou e fechou os olhos, sonhadora.

— E então Tom m y e Tuppence se casaram — disse, com o que declam ando — e viveram felizes para sem pre. Seis anos depois ainda viviam j untos e felizes. É extraordinário — continuou

— com o as coisas sem pre são diferentes do que se im agina.

— Um a declaração m uito profunda, Tuppence, m as nada original. Poetas em inentes e consagrados j á disseram isso antes e, desculpe-m e a franqueza, o disseram m elhor.

— Há seis anos — continuou Tuppence — teria j urado que com dinheiro suficiente para com prar o que quisesse e com você por m arido, toda a m inha vida seria um a longa e doce m úsica, com o diz um dos poetas que você parece conhecer tanto.

— O que a aborrece? O dinheiro ou eu? — perguntou Tom m y com frieza.

— Aborrecer não é bem o term o — disse Tuppence, afável. —

Estou acostum ada com m inha felicidade, só isso. Assim com o ninguém dá valor à capacidade de respirar pelo nariz, até ficar resfriado.

— Será que devo desprezá-la um pouco? — sugeriu Tom m y.

— Levar outras m ulheres a boates, este tipo de coisa?

— Inútil — observou Tuppence. — Só faria você m e encontrar lá com outro hom em . E eu teria certeza de que você não estaria ligando para as outras m ulheres, enquanto você não poderia ter esta certeza em relação a m im . As m ulheres são tão m ais com pletas...

— É só no cam po da m odéstia que o hom em atinge m etas altas — m urm urou o m arido. — Mas qual é o problem a, Tuppence? Por que esta insatisfação?

— Não sei. Queria que acontecesse algum a coisa. Coisas em ocionantes. Você não gostaria de caçar espiões alem ães de novo, Tom m y ? Pense naqueles dias perigosos que vivem os um a vez. Sei que você não deixa de estar no serviço secreto agora, m as é só trabalho burocrático.

— Então você queria que m e m andassem para a som bria Rússia disfarçado de bolchevique contrabandista ou algo parecido?

— Não ia adiantar nada — ponderou Tuppence. — Não m e deixariam ir com você. E sou eu que quero, desesperadam ente, fazer algum a coisa. Fazer algum a coisa; é o que vivo dizendo.

— No âm bito fem inino? — sugeriu Tom m y, gesticulando.

— Vinte m inutos de trabalho depois do café toda m anhã e deixo o apartam ento em perfeitas condições. Você tem algum a queixa?

— Você é um a dona-de-casa tão perfeita, Tuppence, que chega a ser m onótono.

— A gratidão m e com ove — disse Tuppence. — Você, é claro, tem seu trabalho — continuou ela —, m as diga-m e Tom m y, nunca tem um desej o secreto por aventuras, desej o de que aconteçam coisas?

— Não — respondeu Tom m y —, pelo m enos acho que não.

Está tudo m uito bom para desej ar que aconteçam algum as coisas

— que podem não ser agradáveis.

— Com o os hom ens são prudentes — suspirou Tuppence. —

Você nunca sente um desej o sorrateiro e ardente por rom ance, aventura, vida?

— O que você tem lido, Tuppence? — perguntou Tom m y.

— Não seria em ocionante — continuou Tuppence — se ouvíssem os um a tím ida pancada na porta, corrêssem os para abri-la e um m orto entrasse cam baleando?

— Se estivesse m orto não poderia cam balear — retrucou.

Tom m y.

— Você entendeu — disse Tuppence. — Eles sem pre cam baleiam antes de m orrer e cair aos nossos pés, tentando articular palavras enigm áticas: “o leopardo m alhado”, ou coisa parecida.

— Eu lhe aconselharia um curso sobre Schopenhauer ou Em m anuel Kant — disse Tom m y.

— Este tipo de coisa seria útil para você; está ficando gordo e acom odado.

— Não estou — retrucou Tom m y, indignado. — Você é quem faz exercícios para em agrecer.

— Todo m undo faz — disse Tuppence. — Quando falei que estava ficando gordo, foi um a m etáfora; você está ficando próspero e acom odado.

— Não sei o que deu em você — disse o m arido.

— O espírito de aventura — m urm urou Tuppence. — É

m elhor do que desej ar rom ances. Às vezes tam bém sinto isso.

Im agino encontrar um hom em , um hom em realm ente bonito...

— Você m e encontrou — disse Tom m y —, não é o suficiente?

— Um hom em m oreno, m agro, forte ao extrem o, o tipo de hom em que pode m ontar qualquer anim al e laçar cavalos selvagens...

— Não se esqueça da calça de pele de carneiro e do chapéu de vaqueiro — interrom peu Tom m y, sarcástico.

— ...e que tenha m orado em descam pados — continuou Tuppence. — Gostaria que ele se apaixonasse loucam ente por m im . É claro que eu o repeliria, m antendo-m e fiel aos m eus votos m atrim oniais, m as secretam ente m eu coração cederia aos seus encantos.

— Bom — disse Tom m y —, m uitas vezes desej o encontrar um a m oça realm ente bonita, de cabelos cor de trigo, que se apaixonasse desesperadam ente por m im . Só que acho que não vou rej eitá-la — na verdade, tenho certeza.

— Isto — disse Tuppence — é coisa de m enino travesso.

— O que está realm ente acontecendo com você, Tuppence?

— perguntou Tom m y. — Você nunca falou assim antes.

— Não, m as há m uito tem po que estou fervendo por dentro

— respondeu Tuppence. — Sabe, é m uito perigoso ter-se tudo o que se quer — inclusive dinheiro o bastante para com pras. É claro que há sem pre os chapéus.

— Você j á tem uns quarenta — disse Tom m y —, e são parecidos.

— Os chapéus são assim m esm o — com entou Tuppence. —

Não são parecidos. Há nuanças. Aliás, vi um lindo hoj e de m anhã na Violette’s.

— Se você tivesse outra coisa m elhor para fazer do que com prar chapéus de que não precisa...

— É isto — disse Tuppence —, exatam ente isto. Se eu tivesse algo m elhor a fazer... Acho que tenho que praticar boas ações. Oh, Tom m y, com o gostaria que algum a coisa em ocionante acontecesse! Acho que seria realm ente bom para nós. Se pudéssem os encontrar um a fada...

— Ora! — exclam ou Tom m y. — É curioso ouvi-la falar assim .

Ele se levantou e atravessou a sala. De dentro da gaveta da escrivaninha, tirou pequenos instantâneos e levou-os para Tuppence.

— Ah! quer dizer que j á estão revelados. Esta aqui da sala fui eu que tirei ou foi você?

— Fui eu. A sua não saiu. Você, com o sem pre, não regulou a lum inosidade, Tuppence.

— É bom para você acreditar que pelo m enos um a coisa você faz m elhor do que eu.

— Um a observação tola — disse Tom m y —, m as vou deixar passar por enquanto. O que eu queria m ostrar era isso.

Apontou para um a pequena m ancha branca na fotografia.

— Um arranhão no film e — disse Tuppence.

— De j eito nenhum — retrucou Tom m y. — Isto, Tuppence, é um a fada.

— Tom m y, seu idiota!

— Olhe bem .

Tom m y entregou-lhe um a lente de aum ento. Tuppence estudou a fotografia atentam ente. Vista assim , com um pingo de im aginação, o arranhão do film e bem podia representar um a pequena criatura alada.

— Tem asas! — exclam ou Tuppence. — Que graça, um a fada de verdade no nosso apartam ento. Vam os escrever a Conan Doy le sobre isso? Oh, Tom m y, será que ela nos trará felicidade?

— Logo vam os saber — respondeu Tom m y. — Durante a tarde inteira você desej ou que algum a coisa acontecesse...

Neste m om ento a porta se abriu e um rapaz alto, de quinze anos, indeciso sobre seu papel, m ordom o ou paj em , perguntou, grandiloqüente:

— A senhora está em casa, m adam e? A cam painha da porta da frente acabou de tocar.

— Seria m elhor que Albert não fosse tanto ao cinem a — suspirou Tuppence, depois de m anifestar sua aquiescência e de Albert se retirar. — Agora ele está im itando um m ordom o de Long Island. Ainda bem que j á o curei da m ania de pedir o cartão das pessoas e trazê-los num a bandej a.

A porta se abriu de novo e Albert anunciou: — Sr. Carter —

com o se fosse um título real.

— O Chefe — m urm urou Tom m y, bastante surpreso.

Tuppence levantou-se de um salto com um a exclam ação de alegria e cum prim entou um hom em alto, grisalho, olhar perspicaz e um sorriso cansado.

— Sr. Carter, eu estou contente em vê-lo.

— Ótim o, Sra. Tom m y. E com o vai a vida em geral?

— Satisfatória m as m onótona — respondeu Tuppence, piscando o olho.

— Form idável — disse o Sr. Carter. — É evidente que cheguei na hora certa.

— Isto parece anim ador — disse Tuppence.

Albert, ainda im itando o m ordom o de Long Island, trouxe-lhes chá. Term inada a irrepreensível operação, Tuppence explodiu de novo:

— O senhor estava falando sério, não estava, Sr. Carter?

Vai-nos m andar para um a m issão no interior da Rússia?

— Não é bem isso — replicou o Sr. Carter.

— Mas há algum a coisa.

— Sim , há algum a coisa. Acho que a senhora não é do tipo que se acovarda diante dos riscos, é?

Os olhos de Tuppence brilharam de em oção.

— O departam ento precisa que um a tarefa sej a cum prida e pensei — apenas pensei — que talvez lhes conviesse.

— Continue — pediu Tuppence.

— Pelo que vej o vocês assinam o Daily Leader — continuou o Sr. Carter, pegando o j ornal de cim a da m esa.

Ele apanhou os classificados e, apontando para um anúncio, em purrou com o dedo o j ornal na direção de Tom m y.

— Leia — disse ele.

Tom m y aquiesceu.

“Agência Internacional de Detetives; Theodore Blunt, gerente. Investigações particulares. Grande quadro de agentes altam ente treinados e de confiança. Maior discrição. Consultas grátis. Haleham St. 118, W.C.”

Ele olhou para Carter, interrogativo. Este últim o anuiu: —

Esta agência esteve nas últim as durante algum tem po —

m urm urou. — Um am igo m eu com prou-a por um a ninharia.

Queríam os que ela voltasse a funcionar por um período de, vam os dizer, seis m eses. E durante este tem po, alguém terá que ser o gerente.

— E o Sr. Theodore Blunt? — perguntou Tom m y.

— Tudo leva a crer que ele foi bastante indiscreto. Na verdade, a Scotland Yard teve que interferir. O Sr. Blunt está detido e não nos revelou nem m etade do que querem os saber.

— Com preendo —- disse Tom m y. — Pelo m enos acho que com preendo.

— Sugiro que tire um a licença de seis m eses do escritório.

Problem as de saúde. E, claro, se quiser dirigir um a Agência de Detetives com o nom e de Theodore Blunt, não tenho nada com isso.

Tom m y encarou-o.

— O senhor tem algum a instrução a dar?

— Acredito que Theodore Blunt tenha-se m etido em negociações com o exterior. Procure cartas azuis com selos russos.

De um com erciante de presuntos ansioso por encontrar a m ulher que veio para este país com o refugiada, há alguns anos. Um edeça o selo e encontrará o núm ero 16. Tire cópia dessas cartas e m ande os originais para m im . E se por acaso alguém vier ao escritório e fizer referência ao núm ero 16, m e inform e im ediatam ente.

— Com preendo — disse Tom m y. — Fora isso, há qualquer outra orientação?

O Sr. Carter apanhou as luvas de cim a da m esa e preparou-se para sair.

— Você pode dirigir a Agência com o quiser. Achei — seus olhos piscaram um pouco — que seria divertido para a Sra.

Tom m y se aventurar nas funções de detetive.

CAPÍTULO II

UM BULE DE CHÁ

O Sr. e a Sra. Beresford tom aram posse dos escritórios da Agência Internacional de Detetives alguns dias m ais tarde.

Ocuparam o segundo andar de um edifício um tanto m al conservado, em Bloom sbury. Na pequena ante-sala, Albert abandonava o papel de m ordom o de Long Island para assum ir o de m ensageiro, o qual, aliás, representava com perfeição. Um saco de papel de balas, m ãos suj as de tinta e cabelos desgrenhados eram a sua concepção do personagem .

Da ante-sala, duas portas levavam aos escritórios propriam ente ditos; num a delas lia-se “funcionários” e na outra

“particular”. Por trás desta últim a, um a sala pequena e confortável, m obiliada com um a im ensa escrivaninha, um a porção de arquivos com etiquetas artísticas, todos vazios, e algum as sólidas cadeiras de couro. Sentado à escrivaninha, o pseudo Sr.

Blunt, tentando ter a aparência de quem sem pre dirigiu um a Agência de Detetives. Havia um telefone, é claro, ao alcance de suas m ãos. Tuppence e Tom m y ensaiaram vários bons efeitos conseguidos através do telefone e Albert tam bém recebera instruções.

Na sala contígua ficava Tuppence, um a m áquina de escrever, as necessárias m esas e cadeiras de um tipo inferior às do grande chefe e um fogareiro para fazer chá.

Não faltava nada, a não ser clientes.

Tuppence, no êxtase inicial, trazia algum as esperanças.

— Vai ser m aravilhoso — afirm ou ela. — Caçarem os assassinos, recuperarem os j óias de fam ília, encontrarem os pessoas desaparecidas e detectarem os falsificadores.

Neste ponto, Tom m y sentiu-se na obrigação de lançar um a nota desencoraj adora.

— Acalm e-se, Tuppence, e tente esquecer a ficção barata que está acostum ada a ler. Nossa clientela, se é que terem os algum a, se constituirá som ente de m aridos que querem vigiar as esposas e de esposas que querem vigiar os m aridos. Os detetives particulares vivem destas provas para a obtenção do divórcio.

— Ugh! — exclam ou Tuppence, franzindo o nariz com o quem não se contenta facilm ente. — Não vam os nem tocar em casos de divórcio. Terem os que elevar o estilo de nossa nova profissão.

— Claro — disse Tom m y, hesitante.

E agora, um a sem ana depois de instalados, eles com paravam as anotações, um tanto pesarosos.

— Três m ulheres idiotas cuj os m aridos saem nos fins de sem ana — suspirou Tom m y. — Alguém veio aqui enquanto eu estava alm oçando?

— Um senhor gordo com um a esposa volúvel — suspirou Tuppence com tristeza. — Há m uitos anos que venho lendo no j ornal que o m al do divórcio se estava alastrando m as acho que nunca m e conscientizei m esm o do fato até esta sem ana. Já estou cansada de dizer: “Não cuidam os de casos de divórcio.”

— Agora isto sai nos anúncios — Tom m y lem brou-lhe. —

Não vai ser tão ruim .

— Tenho certeza de que nosso anúncio é bastante atraente

— disse Tuppence com voz m elancólica. — Sej a com o for, não vou-m e deixar abater. Se necessário, eu m esm o com eto um crim e para você solucionar.

— Qual seria a vantagem disso? Pense nos m eus sentim entos quando lhe disse adeus em Bow Street — ou é Vine Street?

— Você está pensando nos seus dias de solteiro — disse Tuppence, m ordaz.

— Old Bailey*, é isto que eu queria dizer — disse Tom m y.

— Bem , algum a coisa tem que ser feita. Estam os aqui, explodindo de talento sem oportunidade de exercitá-lo.

— Seu otim ism o m e agrada m uito, Tuppence. Parece que você não duvida que tem talento para exercitar.

— Claro — disse Tuppence, arregalando os olhos.

— No entanto, você não tem o m ínim o conhecim ento prático.

— Bem , li todos os rom ances policiais que foram publicados nos últim os dez anos.

— Eu tam bém — disse Tom m y —, m as tenho o pressentim ento de que não vai nos aj udar m uito.

— Você sem pre foi pessim ista, Tom m y. Acredite em si m esm o — este é o segredo de tudo.

— Bem , isso é verdade — disse o m arido.

— É claro que nos rom ances é fácil — com entou Tuppence, pensativa — porque se trabalha de trás para a frente. Isto é, quando se sabe a solução, pode-se arranj ar as pistas. Fico pensando...

Ela calou-se, sobrancelhas franzidas.

— O que é? — perguntou Tom m y.

— Estou tendo um a idéia — disse Tuppence. — Ainda não se definiu m as está quase. — Ela levantou-se, resoluta. — Acho que vou sair e com prar aquele chapéu de que lhe falei.

— Ah, m eu Deus! Outro chapéu!

* Rua onde se localiza o Tribunal Crim inal de Londres. (N. do T.)

— É m uito bonito — replicou Tuppence com autoridade.

Ela saiu levando no rosto um a expressão decidida.

Nos dias seguintes, um a ou duas vezes Tom m y perguntou-lhe, cheio de curiosidade, sobre a idéia. Tuppence sim plesm ente abanava a cabeça pedindo que lhe desse tem po.

E então, num a gloriosa m anhã, chegou o prim eiro cliente e tudo o m ais foi esquecido.

Ouviu-se um a batida na porta da ante-sala e Albert, que acabara de colocar um a pastilha m edicinal entre os lábios, vociferou um indistinto “entre”. E então, entre surpreso e alegre, engoliu a pastilha inteira; este parecia ser um cliente legítim o.

Parado, hesitante, à soleira da porta, estava um j ovem alto, elegante e finam ente traj ado.

— Um j anota, se é que ainda existem — disse Albert para si m esm o. Seu discernim ento em questão com o esta era m uito bom .

O j ovem teria os seus vinte e quatro anos, belos cabelos penteados para trás e praticam ente nenhum queixo.

Em êxtase. Albert apertou um botão sob a m esa e quase im ediatam ente o m etralhar da m áquina de escrever se fez ouvir, vindo da sala dos “funcionários”. Tuppence correra para o seu posto. O efeito deste am biente de m uito trabalho obj etivava infundir m ais respeito no j ovem .

— Escute — observou o rapaz —, esta não é a tal agência de detetives — os Brilhantes Detetives de Blunt? Hein? É aqui?

— O senhor gostaria de falar com o próprio Sr. Blunt? —

perguntou Albert com um ar de dúvida quanto à possibilidade de conseguir isto.

— Bem , claro, rapazinho, a idéia é esta. Pode m e arranj ar isso?

— Creio que não tem hora m arcada, não é?

O visitante se tornava cada vez m ais hum ilde.

— Receio que não.

— É sem pre aconselhável, m eu senhor, telefonar antes. O

Sr. Blunt está terrivelm ente ocupado. No m om ento está ao telefone. Foi cham ado pela Scotland Yard para um a consulta.

O j ovem pareceu bastante im pressionado. Albert baixou a voz e transm itiu a inform ação de m aneira am igável:

— Um im portante roubo de docum entos de um órgão do governo. Querem que o Sr. Blunt se encarregue do caso.

— Ah, não m e diga. Ele deve ser um hom em e tanto.

— O Chefe, senhor — disse Albert —, é m esm o!

O j ovem sentou-se num a cadeira dura, com pletam ente alheio ao fato de que dois pares de olhos o espreitavam através de orifícios astutam ente planej ados: os de Tuppence, nos intervalos do frenético bater à m áquina, e os de Tom m y, que aguardavam o m om ento apropriado.

Um pouco depois um a cam painha soou com violência na m esa de Albert.

— O chefe j á está livre. Vou ver se pode atendê-lo — disse Albert, e desapareceu pela porta da sala “particular”.

Reapareceu quase im ediatam ente:

— Por aqui, faz favor.

O visitante foi levado à sala onde um hom em de rosto agradável e j ovem , cabelos ruivos e um ar de m al contida eficiência levantou-se para cum prim entá-lo.

— Sente-se. Queria m eus préstim os? Sou o Sr. Blunt.

— Ah, sim ! Ora, o senhor é m uito j ovem , não é?

— O tem po dos m ais velhos j á passou — disse Tom m y, abanando a m ão. — Quem foram os causadores da guerra? Os m ais velhos. Quem são os responsáveis pelo atual estado de desem prego? Os m ais velhos. Quem são os responsáveis por tudo que de m aléfico aconteceu? Digo de novo: os m ais velhos.

— Espero que o senhor estej a certo — disse o cliente. —

Conheço um rapaz que é poeta — pelo m enos diz que é — e sem pre fala assim .

— Vou-lhe dizer um a coisa: ninguém do m eu quadro de funcionários altam ente treinado tem um dia a m ais do que vinte e cinco anos. Esta é a verdade.

Um a vez que o quadro de funcionários altam ente treinado consistia de Tuppence e Albert, a afirm ação era verdadeira.

— E agora, os fatos — disse o Sr. Blunt.

— Quero encontrar um a pessoa desaparecida — revelou o rapaz.

— Perfeitam ente. Pode dar-m e os detalhes?

— Bem , o senhor com preende, é bastante difícil. Quer dizer, um negócio extrem am ente delicado. Ela pode ficar m uitíssim o irritada com isso. Quer dizer, bem , é tão difícil de explicar...

Ele olhou para Tom m y, desanim ado. Tom m y estava aborrecido. Já ia sair para o alm oço m as pressentiu que extrair os fatos do cliente seria um a operação longa e m açante.

— Ela desapareceu espontaneam ente ou o senhor suspeita de rapto?

— Não sei — disse o j ovem . — Não sei de nada.

Tom m y apanhou um bloco e um lápis.

— Antes de m ais nada — disse ele —, pode dar-m e o seu nom e? Meu contínuo foi treinado para nunca perguntar nom es.

Desta m aneira as consultas se m antêm estritam ente confidenciais.

— Ah, claro! Um a ótim a idéia. Meu nom e é... é... m eu nom e é Sm ith.

— Ah, não — replicou Tom m y —, o nom e verdadeiro, por favor.

O visitante olhou-o, adm irado.

— É... St. Vincent — disse ele. — Lawrence St. Vincent.

— É curioso — com entou Tom m y — com o são poucas as pessoas que realm ente se cham am Sm ith. Eu m esm o não conheço ninguém com este nom e. Mas quase todos os hom ens que desej am esconder a verdadeira identidade escolhem Sm ith. Estou escrevendo um a m onografia sobre o assunto.

Neste m om ento, um a discreta cam painha soou-lhe à m esa: Tuppence pedia para entrar em cena. Tom m y, louco para alm oçar e sem nutrir a m enor sim patia pelo Sr. St. Vincent, alegrou-se em abandonar o lem e.

— Um m om ento — disse ele, e atendeu o telefone.

Pelo seu rosto passaram -se várias m udanças: surpresa, consternação, ligeira anim ação.

— Não é possível — disse ele ao telefone. — O Prim eiro-Ministro? Claro, neste caso vou im ediatam ente.

Ele recolocou o telefone no gancho e voltou-se para o cliente:

— Meu caro senhor, devo pedir-lhe que m e perdoe. Um caso bastante urgente m e espera. O senhor pode fornecer os dados do caso à m inha secretária particular; ela se encarregará dele.

Ele cam inhou a passos largos para a porta adj acente.

— Srta. Robinson!

Tuppence, m uito arrum ada e séria, os cabelos negros puxados para trás, um a blusa de gola e punhos graciosos, entrou com passos rápidos. Tom m y fez as necessárias apresentações e saiu.

— Pelo que entendi, um a m oça na qual o senhor está interessado desapareceu — disse Tuppence com voz suave enquanto se sentava e apanhava o bloco e o lápis do Sr. Blunt. —

Ela é j ovem ?

— Ah, certam ente — disse St. Vincent. — Jovem e... e...

m uito, m uito bonita, sabe com o é.

Tuppence continuou séria.

— Meu Deus — m urm urou. — Espero que...

— A senhorita não acredita que algum a coisa realm ente tenha acontecido a ela, não é? — perguntou o Sr. St. Vincent, m uito preocupado.

— Ora, devem os torcer pelo m elhor — disse Tuppence, com um tom de falsa alegria, o que deprim iu profundam ente o Sr. St.

Vincent.

— Ah, escute, a senhorita tem que fazer algum a coisa. Não poupe nenhum gasto. Não quero que nada lhe aconteça. A senhorita parece bastante solidária e não m e im porto de dizer-lhe, confidencialm ente, que venero o chão onde ela pisa. Ela é um a pessoa excelente, excelente!

— Por favor, diga-m e tudo sobre ela.

— Seu nom e é Janet — não sei o sobrenom e. Trabalha num a chapelaria — Madam e Violette’s, em Brook Street. Ela não podia ser m ais correta — m e repreendeu um a infinidade de vezes. Fui lá ontem , esperando que ela saísse; todas as outras saíram , m enos ela. Depois descobri que não fora trabalhar aquela m anhã e não m andara nenhum recado. A Madam e estava furiosa. Apanhei o endereço de onde ela m ora e fui até lá. Não aparecera em casa na noite anterior e não sabiam onde estava. Fiquei sim plesm ente louco. Pensei em ir à polícia. Mas sabia que Janet ficaria furiosa com igo se estivesse bem e tivesse ido em bora por vontade própria.

Depois m e lem brei de que um dia ela m esm a m e m ostrou seu anúncio no j ornal e m e disse que um a das m ulheres que estivera lá com prando chapéus elogiou ao extrem o sua habilidade e discrição e tudo m ais. Por isso vim direto para cá.

— Com preendo — disse Tuppence. — Qual é o endereço dela?

O j ovem entregou-o a ela.

— Acho que é tudo — disse Tuppence, pensativa. — Isto quer dizer... devo pressupor que estão noivos?

O Sr. Vincent ficou verm elho com o um pim então.

— Bem , não, não é bem assim . Eu nunca disse nada. Mas posso adiantar-lhe que pretendo pedi-la em casam ento assim que tornar a vê-la — se é que vou vê-la de novo.

Tuppence afastou o bloco de notas.

— O senhor desej a o nosso serviço especial de vinte e quatro horas? — perguntou em tom estritam ente com ercial.

— O que é isso?

— Cobram os o dobro das taxas m as colocam os todo o pessoal disponível no caso. Sr. St. Vincent, se a m oça estiver viva, vou poder dizer-lhe onde está am anhã, a esta m esm a hora.

— O quê? Ora, isto é m aravilhoso.

— Só em pregam os peritos e garantim os os resultados —

disse Tuppence, decidida.

— Mas então, vocês devem ter um a equipe de prim eira.

— Ah, tem os sim — concordou Tuppence. — A propósito, o senhor não m e deu a descrição da m oça.

— Ela tem um cabelo m aravilhoso — de um dourado profundo, com o um lindo crepúsculo; é isso, um lindo crepúsculo.

Sabe, nunca reparei no crepúsculo até há pouco tem po. Poesia, tam bém , há m uito m ais poesia do que podia im aginar.

— Ruiva — disse Tuppence, im parcial, fazendo anotações. —

Qual seria a altura dela?

— Ah, alta, olhos m aravilhosos, azul escuro, acho. E ela tem um a m aneira m uito decidida. Às vezes deixa a gente sem fala.

Tuppence fez m ais algum as anotações, fechou o bloco e levantou-se.

— Se vier am anhã às duas horas, acho que j á terem os algum a notícia — disse ela. — Bom dia, Sr. St. Vincent.

Quando Tom m y voltou, Tuppence consultava um a página do Debrett*.

— Tenho todos os detalhes — disse lacônica. — Lawrence St.

Vincent, sobrinho e herdeiro do Conde de Cheriton. Se conseguirm os resolver este caso, ficarem os fam osos nas m ais altas rodas.

Tom m y leu as anotações do bloco.

— O que você acha que realm ente aconteceu com a m oça? —

perguntou.

— Acho — disse Tuppence — que ela fugiu seguindo o coração, sentindo que am a m uito este rapaz para ficar em paz com sua consciência.

Tom m y lançou-lhe um olhar cheio de dúvida.

— Sei que isto acontece nos livros — disse ele — m as nunca conheci ninguém que agisse assim na vida real.

— Não? Talvez estej a certo. Mas tenho quase certeza de que Lawrence St. Vincent vai engolir este tipo de baboseira. No m om ento ele está cheio de idéias rom ânticas. Antes que m e esqueça, garanti resultados em vinte e quatro horas, nosso serviço especial.

— Tuppence, sua idiota, por que você fez isso?

* Relação do nobiliário inglês. (N. do T.)

— Tive essa idéia. Achei que cairia m uito bem . Não se preocupe. Deixe com a Mam ãe. Mam ãe sabe tudo.

Ela saiu deixando Tom m y profundam ente insatisfeito.

Pouco depois ele se levantou, suspirou e saiu para fazer o que podia ser feito, am aldiçoando a im aginação superfértil de Tuppence.

Quando voltou, cansado, exausto, encontrou Tuppence tirando um saco de biscoito do esconderij o, em um dos arquivos.

— Você parece encalorado e aborrecido — observou. — O

que andou fazendo?

Tom m y gem eu.

— Fazendo um a ronda pelos hospitais com a descrição da m oça.

— Eu não disse para você deixar o caso com igo?

— Você não vai achar essa m oça sozinha, antes de duas horas de am anhã.

— Eu j á achei!

— Já? Com o?

— Elem entar, m eu caro Watson, elem entar.

— Onde está ela agora?

Tuppence apontou por sobre o om bro.

— Ali na m inha sala.

— O que ela está fazendo lá?

Tuppence com eçou a rir.

— Bom — disse ela —, com um a chaleira, um fogareiro e m eio quilo de chá ao alcance das m ãos, o resultado é um a conclusão prevista.

— Você vê — continuou Tuppence, calm a. — Com pro m eus chapéus na Madam e Violette’s e outro dia encontrei um a antiga com panheira de hospital trabalhando lá. Ela desistiu da enferm agem depois da guerra e abriu um a chapelaria; faliu. Então se em pregou na Madam e Violette’s. Com binam os tudo. Cabia a ela cham ar bastante a atenção de St. Vincent para o anúncio e depois desaparecer. Maravilhosa eficiência dos Brilhantes Detetives de Blunt. Publicidade para nós e o incentivo necessário para que ele chegue ao ponto de propor casam ento. Janet j á estava desesperada.

— Tuppence — disse Tom m y —, estou estupefato. Tudo não passa do negócio m ais im oral que j á vi. Você aj uda esse rapaz a se casar com um a pessoa de outra classe...

— Asneira — disse Tuppence. — Janet é um a garota m aravilhosa —, e o m ais estranho é que realm ente adora este j ovem indeciso. Você pode ver só de relance do que a fam ília dele precisa: um a boa dose de sangue verm elho. Janet vai ser um a ótim a m ulher para ele. Vai cuidar dele com o um a m ãe, dim inuir os coquetéis e as boates e fazê-lo levar um a vida bem sadia no cam po. Venha conhecê-la.

Tuppence abriu a porta da sala contígua e Tom m y a seguiu.

Um a j ovem alta, de lindos cabelos averm elhados e rosto agradável pousou a chaleira fervendo que segurava e voltou-se com um sorriso, revelando um a fileira perfeita de alvos dentes.

— Espero que m e perdoe, enferm eira Cowley — quer dizer, Sra. Beresford. Achei que gostaria de um a xícara de chá. Quantas e quantas xícaras você fez para m im no hospital às três horas da m anhã!

— Tom m y — disse Tuppence —, deixe-m e apresentá-lo a m inha velha am iga, enferm eira Sm ith.

— Você disse Sm ith? Que engraçado — com entou Tom m y, estendendo-lhe a m ão. — Hein? ah! nada — um a pequena m onografia que pensava em escrever.

— Com ponha-se, Tom m y — disse Tuppence.

Ela serviu-lhe um a xícara de chá:

— Então agora vam os beber j untos. Ao sucesso da Agência Internacional de Detetives, os Brilhantes Detetives de Blunt. Que nunca conheçam o fracasso!

CAPÍTULO III

O CASO DA PÉROLA ROSA

— Mas que diabos você está fazendo? — perguntou Tuppence ao entrar na sala particular da Agência Internacional de Detetives (Brilhantes Detetives de Blunt) e se deparar com seu m estre e senhor de bruços no chão, em m eio a um m ar de livros.

Tom m y levantou-se com dificuldade.

— Estava tentando arrum ar estes livros na últim a prateleira do arm ário — queixou-se — e o diabo da cadeira virou.

— E afinal, que livros são estes? — perguntou Tuppence, apanhando um volum e. — O Cão dos Baskervilles. Não m e incom odaria de ler este livro de novo, algum dia.

— Entende qual é o obj etivo? — perguntou Tom m y, tirando o pó da roupa com cuidado. — Meia hora com os Grandes Mestres

— este tipo de coisa. Sabe, Tuppence, tenho que adm itir que som os um tanto am adores neste ram o. É claro que de um certo m odo não podem os deixar de sê-lo, m as não faria m al nenhum adquirir um pouco de técnica, vam os dizer. Estes livros são rom ances policiais escritos pelos m aiores gênios deste cam po.

Pretendo experim entar estilos diferentes e com parar os resultados.

— Hum m m — exclam ou Tuppence. — Muitas vezes fico pensando em com o esses detetives se sairiam na vida real. — Ela apanhou outro volum e. — Você vai encontrar dificuldade em ser Thorndy ke; não tem experiência em m edicina, m uito m enos legal, e, pelo que sei, ciência nunca foi o seu forte.

— Talvez não — concordou Tom m y. — Mas de qualquer m odo com prei um a m áquina m uito boa e vou tirar retrato de pegadas, am pliar os negativos, este tipo de coisa. Agora, mon ami, use sua m assa cinzenta — o que isso lhe lem bra?

Ele apontou para a prateleira inferior do arm ário onde se via um robe um tanto futurista, um chinelo turco e um violino.

— É óbvio, m eu caro Watson — disse Tuppence.

— Exatam ente — disse Tom m y. — O toque de Sherlock Holm es.

Ele apanhou o violino e passou o arco a esm o pelas cordas, provocando arrepios em Tuppence.

Neste m om ento soou a cam painha, sinal de que um cliente chegara à ante-sala e de que Albert, o m ensageiro, o retinha com algum as perguntas.

Sem perda de tem po, Tom m y recolocou o violino no arm ário e chutou os livros, escondendo-os atrás da escrivaninha.

— Não é que haj a tanta pressa — observou ele. — Albert deve estar dizendo que estou com a Scotland Yard na linha. Vá para a sua sala, Tuppence, e com ece a bater à m áquina. Isto dá idéia de m uita atividade e trabalho no escritório. Aliás, pensando bem , é m elhor eu ditar e você taquigrafar. Vam os dar um a olhada antes de a vítim a entrar.

Eles se aproxim aram dos orifícios artisticam ente planej ados para fornecer um a am pla visão da ante-sala.

A cliente era um a m oça da idade de Tuppence, alta e m orena, rosto um tanto tenso e olhos desdenhosos.

— Roupas baratas e um pouco escandalosas — observou Tuppence. — Mande-a entrar, Tom m y.

Um m inuto depois, a m oça apertava a m ão do célebre Sr.

Blunt, enquanto Tuppence perm anecia sentada, olhos recatadam ente baixos, bloco e lápis na m ão.

— Minha secretária particular, Srta. Robinson — apresentou o Sr. Blunt, indicando-a com um gesto. — Pode falar livrem ente na presença dela. — Então ele recostou-se por um m inuto e de olhos sem icerrados observou num tom enfarado: — Deve ser m uito cansativo viaj ar num ônibus tão cheio a esta hora do dia.

— Vim de táxi — disse a m oça.

— Ah! — exclam ou Tom m y. Seus olhos pousaram , repreensivos, sobre o bilhete azul que lhe aparecia da luva. Os olhos da m oça seguiram -lhe o olhar e ela sorriu, guardando a passagem . — O senhor se refere a isto? Apanhei no chão. Um a criança vizinha nossa faz coleção delas.

Tuppence tossiu e Tom m y dardej ou-lhe um olhar m alicioso.

— Vam os aos negócios — disse, enérgico. — Está precisando de nossos serviços, Srta... ?

— Meu nom e é Kingston Bruce — disse a j ovem . — Moram os em Wim bledon. Ontem à noite, um a senhora que está hospedada conosco perdeu um a pérola rosa de m uito valor. O Sr. St. Vincent tam bém estava j antando conosco e durante o j antar ele, por acaso, m encionou sua firm a. Minha m ãe m andou-m e aqui hoj e de m anhã para pedir-lhe que se encarregue do caso.

A m oça falava m al-hum orada, de m aneira quase desagradável. Era óbvio que ela e a m ãe estavam em desacordo. A j ovem fora; lá contra a vontade.

— Entendo — disse Tom m y, um pouco confuso. — Não cham aram a polícia?

— Não — respondeu a Srta. Kingston Bruce. — Não cham am os. Seria um a tolice cham ar a polícia e depois descobrir que o negócio rolou bobam ente para debaixo do sofá ou coisa parecida.

— Ah! — exclam ou Tom m y. — Então a j óia pode estar só perdida.

A Srta. Kingston Bruce deu de om bros.

— As pessoas fazem tanto rebuliço por causa das coisas —

m urm urou. Tom m y pigarreou.

— Claro — disse, hesitante. — Estou m uito ocupado no m om ento...

— Entendo perfeitam ente — disse a m oça, levantando-se.

Passou-lhe pelos olhos um rápido brilho de satisfação, o que não escapou à observação de Tuppence.

— Mesm o assim — continuou Tom m y —, acho que posso dar um j eito de ir a Wim bledon. Qual é o endereço, por favor?

— Laurels, Edgeworth Road.

— Anote, por favor, Srta. Robinson.

A Srta. Kingston Bruce hesitou e depois disse, um tanto descortês:

— Então, esperam os o senhor. Bom dia.

— Que garota engraçada — com entou Tom m y, quando ela saiu. — Não consegui form ar um a idéia dela.

— Vai ver que ela m esm a roubou a pérola — observou Tuppence, pensativa. — Vam os Tom m y, vam os arrum ar estes livros, pegar o carro e ir até lá. A propósito, quem você vai ser, Sherlock Holm es ainda?

— Acho que preciso de prática — disse Tom m y. — Dei um belo fora com b negócio do ônibus, não foi?

— Foi — concordou Tuppence. — Se eu fosse você não tentaria bancar o esperto com essa garota — é m uito perspicaz. E

infeliz tam bém , pobrezinha.

— Aposto que j á sabe tudo sobre ela — disse Tom m y com sarcasm o — só de olhar para o feitio do nariz.

— Vou-lhe dizer o que acho que encontrarem os nos Laurels

— disse Tuppence, sem ligar para a im plicância de Tom m y. —

Pessoas esnobes que fazem questão de aparecer na alta sociedade; o pai, se é que há um pai, com certeza tem um a patente m ilitar. A m oça acom panha o m odo de vida deles m as se despreza por fazer isso.

Tom m y deu um a últim a olhada nos livros, agora arrum ados sobre a prateleira.

— Acho — disse, pensativo — que hoj e serei Thorndy ke.

— Garanto que não há nenhum aspecto m édico-legal neste caso — observou Tuppence.

— Talvez não — concordou Tom m y. — Mas estou louco para usar aquela câm ara nova. Parece que tem as lentes m ais m aravilhosas que j á vi.

— Conheço este tipo de lente — disse Tuppence. — Depois de aj ustar o obturador, o diafragm a e calcular o tem po de exposição, tudo o que se quer é um a sim ples Brownie.

— Só pessoas sem am bição se contentam com um a sim ples Brownie.

— Bem , aposto que vou ter resultados m elhores com ela do que você.

Tom m y não deu atenção ao desafio.

— Tenho que conseguir um a tesoura para charutos — disse, queixoso. — Onde será que se pode com prar um a?

— Você pode usar aquele saca-rolhas que tia Aram inta lhe deu no Natal passado — disse Tuppence, prestim osa.

— É verdade — disse Tom m y. — Na época achei que era um m ecanism o de destruição de aparência curiosa e um presente um tanto extravagante para um a tia abstêm ia.

— Eu — disse Tuppence — vou ser Polton.

Tom m y olhou-a, zom beteiro.

— Polton, hein? Não poderia fazer nada do que ele faz.

— Posso sim ; posso esfregar as m ãos quando estou contente.

Já é o bastante para com eçar. Espero que você tire m oldes de gesso das pegadas.

Tom m y perm aneceu calado. Depois de apanhar o saca-rolhas foram até a garagem , tiraram o carro e se foram rum o a Wim bledon.

Laurels era um a casa enorm e; de terrinhas e em penas, lindos canteiros de gerânios escarlates, parecia haver sido recém -pintada.

Um hom em alto, de curtos bigodes brancos e um porte exageradam ente m arcial abriu a porta antes que Tom m y tivesse tem po de tocar a cam painha.

— Já o esperava — explicou ele de m aneira um tanto espalhafatosa. — É o Sr. Blunt, não? Sou o Coronel Kingston Bruce. Quer vir ao m eu escritório?

Ele levou-os a um a pequena sala nos fundos da casa.

— O j ovem St. Vincent m e contou coisas m aravilhosas sobre sua agência. Eu m esm o vi o anúncio. Este serviço garantido de vinte e quatro horas — um a idéia m aravilhosa. É exatam ente do que preciso.

Intim am ente

am aldiçoando

Tuppence

pela

irresponsabilidade de inventar este brilhante detalhe, Tom m y respondeu:

— Perfeitam ente, Coronel.

— A situação é m uito angustiante, m eu senhor, m uito angustiante.

— O senhor teria a bondade de m e dar os fatos? — disse Tom m y, com um a ponta de im paciência.

— Claro, agora m esm o. Neste m om ento está conosco um a velha e querida am iga, Lady Laura Barton. Filha do falecido Conde de Carrowway. O atual Conde, irm ão dela, fez um discurso im pressionante na Câm ara dos Com uns, outro dia. Com o ia dizendo, ela é um a velha e querida am iga. Alguns am igos m eus am ericanos que acabaram de chegar, os Ham ilton Betts, estavam ansiosos por encontrá-la. “Nada m ais fácil”, disse eu. “Ela está com igo agora. Venham passar o fim de sem ana aqui”. Sabe com o os am ericanos são quanto a títulos, Sr. Blunt.

— Algum as vezes não só os am ericanos, Coronel Kingston Bruce.

— Ah! é a pura verdade, m eu caro senhor. Com o detesto os esnobes! Bem , com o ia dizendo, os Betts vieram passar o fim de sem ana aqui. Ontem à noite — estávam os até j ogando bridge —

quebrou-se o fecho de um pingente que a Sra. Ham ilton Betts usava, de m odo que ela tirou-o e colocou-o sobre um a m esinha, com a intenção de levá-lo para cim a assim que subisse. Mas ela se esqueceu de fazê-lo. Devo explicar-lhe, Sr. Blunt, que o pingente consistia de dois pequenos diam antes e um a grande pérola rosa entre eles. O pingente foi encontrado esta m anhã no m esm o local onde a Sra. Betts o deixou, m as a pérola, de grande valor, tinha sido arrancada.

— Quem achou o pingente?

— A arrum adeira — Glady s Hill.

— Algum m otivo para suspeitar dela?

— Está conosco há alguns anos e sem pre foi honesta. Mas é claro, nunca se sabe...

— Exatam ente. Pode-m e descrever seus em pregados e dizer-m e quem estava no j antar ontem à noite?

— A cozinheira, que está conosco há apenas dois m eses, m as não teria tido oportunidade de se aproxim ar da sala de visitas; o m esm o se aplica à copeira. Depois tem a governanta, Alice Cum m ings. Ela tam bém j á está conosco há m uitos anos. E, é claro, a em pregada de Lady Laura. É francesa.

O Coronel Kingston Bruce em pertigou-se ao dizer isso.

Tom m y, inalterado com a revelação da nacionalidade da em pregada, disse:

— Perfeitam ente. E os convidados do j antar?

— Sr. e Sra. Betts, nós — m inha esposa e filha — e Lady Laura. O j ovem St. Vincent j antou tam bém conosco e o Sr. Rennie deu um pulo aqui depois do j antar.

— Quem é o Sr. Rennie?

— Um rapaz m uito pernicioso — um socialista confesso.

Bem -apessoado, é claro, e com um certo poder de persuasão. Mas um hom em em quem eu não confiaria nem um pouco. Um tipo perigoso.

— Na verdade — disse Tom m y, secam ente —, o senhor suspeita dele, não é?

— Sim , Sr. Blunt. A j ulgar por suas opiniões, ele não pode ter princípios. Ser-lhe-ia facílim o arrancar a pérola no m om ento em que todos estavam absortos no j ogo. Houve vários m om entos em ocionantes: um a rodada sem trunfo e tam bém um a discussão terrível, quando m inha esposa teve o azar de desistir.

— Perfeitam ente — disse Tom m y. — Gostaria de saber um a coisa: qual a reação da Sra. Betts diante de tudo isso?

— Ela queria que eu cham asse a polícia — disse o Coronel Kingston Bruce, relutante. — Isto é, quando j á tínham os procurado por toda parte, caso a pérola tivesse caído.

— Mas o senhor a dissuadiu?

— Sou avesso à idéia de publicidade e tanto m inha esposa quanto m inha filha m e apoiaram . Depois m inha m ulher se lem brou de que St. Vincent falou sobre sua agência, durante o j antar ontem à noite, e sobre o serviço especial de vinte e quatro horas.

— Sim — disse Tom m y com o coração apertado.

— O senhor com preende, de qualquer m aneira, ninguém ficará prej udicado. Se cham arm os a polícia am anhã, pensarão que procurávam os um a j óia perdida. A propósito, ninguém pôde sair de casa hoj e de m anhã.

— A não ser sua filha, é claro — disse Tuppence, falando pela prim eira vez.

— A não ser m inha filha — concordou o Coronel. — Ela se ofereceu de im ediato para ir e apresentar-lhe o caso.

Tom m y levantou-se.

— Vam o-nos esforçar ao m áxim o para satisfazê-lo, Coronel

— disse ele. — Gostaria de ver a sala de visitas e a m esa onde o pingente foi esquecido. Gostaria tam bém de fazer algum as perguntas à Sra. Betts. Depois disso, vou ter um a conversa com os criados, ou m elhor, m inha assistente, Srta. Robinson, fará isso.

Ele se encolheu ante os horrores de interrogar os em pregados.

O Coronel Kingston Bruce abriu a porta e os levou pelo corredor. Ao fazê-lo, um a observação chegou-lhes claram ente aos ouvidos, vinda do quarto de que se aproxim avam ; a voz que a expressou era a da m oça que fora vê-los naquela m anhã.

— Você sabe m uito bem , m am ãe — dizia ela — que ela levou para casa um a colher de chá dentro do regalo.

Logo depois eram apresentados à Sra. Kingston Bruce, um a m ulher queixosa e de m aneiras lânguidas. A Srta. Kingston Bruce recebeu-os com um a leve inclinação de cabeça. Seu rosto revelava grande m au hum or.

A Sra. Kingston Bruce era loquaz:

— ...m as acho que sei quem tirou — concluiu. — Aquele terrível rapaz socialista. Ele adora os russos e os alem ães e detesta os ingleses — que m ais se pode esperar?

— Ele nem tocou nela — disse a Srta. Kingston Bruce, furiosa. — Eu o estava observando o tem po todo; não poderia deixar de ver se ele tivesse pego.

Ela olhou-os, arrogante, queixo para cim a.

Tom m y conseguiu desviar o assunto pedindo para ter um a conversa com a Sra. Betts. Quando a Sra. Kingston Bruce saiu acom panhada do m arido e da filha para procurar a Sra. Betts, ele assoviou pensativo.

— Quem será — disse baixinho — que levou um a colher de chá no regalo?

— Era nisso que eu estava pensando — respondeu Tuppence.

A Sra. Betts, seguida pelo m arido, irrom peu na sala. O Sr.

Ham ilton Betts parecia dispéptico e dom inado.

— Pelo que sei, Sr. Blunt, o senhor é um detetive particular que resolve tudo rapidam ente, não é?

— Tem sido assim , Sr. Betts — disse Tom m y. — Quero fazer-lhes algum as perguntas.

A partir daí tudo transcorreu com rapidez. Mostraram a Tom m y o pingente avariado, a m esa na qual fora colocado e o Sr.

Betts em ergiu de sua casm urrice para m encionar o valor, em dólares, da pérola roubada.

E m esm o assim Tom m y tinha a irritante certeza de não estar progredindo.

— No m om ento é só — disse um pouco depois. — Srta.

Robinson, tenha a bondade de apanhar a aparelhagem fotográfica especial que está no vestíbulo.

A Srta. Robinson anuiu.

— Um a pequena invenção m inha — disse Tom m y. —

Aparentem ente é um a m áquina fotográfica com um .

Ele sentiu um a leve satisfação ao perceber que os Betts estavam im pressionados.

Tom m y fotografou o pingente, a m esa em que fora esquecido e tirou vários ângulos gerais da sala. Então, à Srta. Robinson coube a tarefa de interrogar os em pregados; em vista da expectativa estam pada nos rostos do Coronel Kingston Bruce e da Sra. Betts, Tom m y sentiu-se na obrigação de dizer algum as palavras de autoridade com petente.

— A situação se resum e nisso: ou a pérola ainda está dentro de casa ou não está m ais.

— Perfeitam ente — disse o Coronel com m ais reverência do que a natureza da observação j ustificaria.

— Se não está em casa, pode estar em qualquer lugar; m as se está aqui tem que, necessariam ente, estar escondida em algum lugar...

— E deve-se fazer um a busca — aparteou o Coronel Kingston Bruce. — Pois não! O senhor tem carta branca, Sr.

Blunt. Vasculhe a casa do porão ao sótão.

— Oh, Charles — m urm urou a Sra. Kingston Bruce, à beira das lágrim as —, você acha que é o m ais acertado? Os em pregados não vão gostar disso. Tenho certeza de que vão em bora.

— Vam os deixar os quartos deles por últim o — disse Tom m y para apaziguá-la. — Com certeza o ladrão escondeu a j óia no lugar m ais im provável.

— Acho que j á li algum a coisa deste tipo — concordou o Coronel.

— Com toda a certeza — disse Tom m y. — O senhor provavelm ente se lem bra do caso Rex Bailey, que criou um precedente.

— Ah... é claro... — disse o Coronel, parecendo confuso.

— Agora, o lugar m enos plausível é o quarto da Sra. Betts —

continuou Tom m y.

— Nossa! Isso não seria m uita ousadia? — perguntou a Sra.

Betts, adm irada.

Sem m ais delongas, ela o levou a seu quarto, onde, um a vez m ais, Tom m y usou a aparelhagem fotográfica especial.

Um pouco depois Tuppence foi-se encontrar com ele.

— Espero que não se oponha ao fato de m inha assistente revistar seu guarda-roupa, Sra. Betts!

— Ora, de j eito nenhum . Precisam de m im aqui?

Tom m y assegurou-lhe que sua presença não era m ais necessária e ela saiu.

— Podem os continuar este blefe — disse Tom m y — m as pessoalm ente acho que não tem os a m enor chance de encontrar a j óia. Maldita a hora em que você inventou esse serviço de vinte e quatro horas, Tuppence.

Continuar: parte 2 de 4