Sócios no Crime
— O que o trouxe aqui hoj…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— O que o trouxe aqui hoj e, Marriot? — perguntou Tom m y.
— Não foi só preocupação com o nosso sistem a nervoso, foi?
— Não — disse o Inspetor. — É trabalho para o brilhante Sr.
Blunt.
— Ah! deixa eu fazer um a expressão brilhante — brincou Tom m y.
— Vim para fazer-lhe um a proposta, Sr. Beresford. O que acha de arrebanhar um a quadrilha de verdade?
— Isso existe? — perguntou Tom m y.
— O que você quer dizer com isso?
— Sem pre pensei que as quadrilhas só existissem em rom ances, com o vigaristas profissionais e supercrim inosos.
— O vigarista profissional não é m uito com um — concordou o Inspetor. — Mas, m eu Deus, há um sem -núm ero de quadrilhas agindo por aí.
— Não sei se terei um ótim o desem penho ao lidar com um a quadrilha — disse Tom m y. — O crim e am ador, o crim e de um a vida fam iliar calm a, aí sim , acho que brilho. Dram a de forte interesse dom éstico. É isso — com Tuppence a m eu lado para fornecer todos aqueles pequenos detalhes fem ininos que são tão im portantes e ao m esm o tem po passíveis de serem m enosprezados pelo hom em ignorante.
Sua eloqüência foi interrom pida abruptam ente quando Tuppence lhe j ogou um a alm ofada e pediu-lhe para não falar tanta bobagem .
— Sem pre se divertindo um pouco, não é, Sr. Beresford? —
disse o Inspetor e sorriu-lhes, paternal. — Espero que não se ofendam com o que vou dizer, m as para m im é um prazer ver duas pessoas j ovens que aproveitam a vida tanto quanto vocês.
— Nós aproveitam os a vida? — perguntou Tuppence, arregalando os olhos. — Acho que sim . Nunca pensei nisso antes.
— Voltando à quadrilha de que estávam os falando — disse Tom m y. — Apesar de m inha grande experiência — duquesas, m ilionários e donas-de-casa —, talvez eu consinta em exam inar o caso para o senhor. Não gosto de ver a Scotland Yard atrapalhada.
O Daily Mail estará atrás do senhor antes que saiba onde está.
— Vocês vão se divertir um pouco. Bem , vou explicar tudo.
— Ele deslocou a cadeira para a frente. — Há um núm ero incalculável de notas falsas em circulação, agora — centenas delas! A quantidade de cédulas do Tesouro falsificadas é surpreendente. Um trabalho de arte. Aqui está um a delas.
Ele tirou um a nota de um a libra do bolso e entregou-a a Tom m y.
— Parece verdadeira, não é?
Tom m y exam inou a cédula com grande interesse.
— Meu Deus, nunca iria desconfiar de que não fosse.
— É o que acontece com a m aioria das pessoas. Olhe agora um a verdadeira. Vou-lhe m ostrar as diferenças. São m uito sutis, m as logo aprenderá a distingui-las. Tom e esta lente de aum ento.
Depois de cinco m inutos de instrução, tanto Tom m y quanto Tuppence estavam craques.
— O que quer que a gente faça, Inspetor Marriot? —
perguntou Tuppence. — Que se fique alerta para essas coisas?
— Muito m ais do que isso, Sra. Beresford. Estou depositando toda a m inha confiança em vocês; quero que cheguem ao cerne do problem a. Sabe, descobrim os que as notas estão sendo distribuídas na zona leste. E quem as distribui é alguém da classe alta. Tam bém as estão passando do outro lado do Canal. E há um a pessoa que nos está interessando m uito. Um tal de Maj or Laidlaw — j á ouviram falar?
— Acho que j á — disse Tom m y. — Ligado a corridas, não é?
— Isso m esm o. O Maj or Laidlaw é m uito conhecido por causa do turfe. Não há nada de concreto contra ele m as o pessoal tem a im pressão de que ele se m eteu em um a ou duas transações duvidosas. Hom ens inform ados ficam ressabiados quando se m enciona o nom e dele. Ninguém sabe grande coisa sobre o seu passado, de onde veio. A esposa dele é um a francesa m uito atraente que aonde vai carrega atrás um a fileira de adm iradores.
Os Laidlaws gastam m uito dinheiro e gostaria de saber a procedência dele.
— Provavelm ente vem dos adm iradores — sugeriu Tom m y.
— É o que se pensa. Mas não tenho certeza. Pode ser m era coincidência, m as várias notas falsas são provenientes de um clube elegante que os Laidlaws e seus am igos freqüentam m uito.
Não há m aneira m elhor para fazer circular o dinheiro falso do que o j ogo e as corridas de cavalo.
— E onde entram os?
— Da seguinte m aneira: pelo que sei, o j ovem St. Vincent é am igo de vocês, não é? Ele é íntim o dos Laidlaws e da sua turm a.
E através dele seria fácil vocês se im iscuírem no m eio, o que seria quase im possível para um de nós. Terão um a oportunidade ideal.
— O que exatam ente tem os que descobrir?
— De onde conseguem o dinheiro, e se o estão passando.
— Já entendi — disse Tom m y. — O Maj or Laidlaw sai com um a m ala vazia e quando volta a m ala está tão cheia que m al fecha. Com o foi feito isso? Eu vou atrás dele e descubro. É isso?
— Mais ou m enos. Mas não negligencie a esposa nem o pai dela, M. Heroulade. Lem bre-se de que as notas estão sendo passadas em am bos os lados do Canal.
— Meu querido Marriot — exclam ou Tom m y com um tom de censura na voz —, os Brilhantes Detetives de Blunt não conhecem o significado da palavra negligência.
O inspetor se levantou.
— Bom , boa sorte para vocês — disse ele e saiu.
— Quente — disse Tuppence com entusiasm o.
— O quê? — perguntou Tom m y, surpreso.
— Dinheiro falso — explicou Tuppence. — Sem pre se cham a de dinheiro quente. Sei que estou certa. Oh, Tom m y, tem os um caso típico de Edgar Wallace. Finalm ente som os tiras.
— Som os m esm o. E vam os descobrir o Estalador direitinho.
— O que foi que disse? Entalhador ou Estalador?
— O Estalador.
— E o que é um Estalador?
— Inventei agora — disse Tom m y. — Descreve bem aquele que passa notas falsas. As notas do banco estalam , por isso o cham ei de Estalador. Nada m ais sim ples.
— É um a boa idéia — disse Tuppence. — Torna a coisa m ais real. Eu prefiro Farfalhador. É m uito m ais descritiva e sinistra.
— Não — disse Tom m y —, eu disse Estalador prim eiro e vou ficar com ela.
— Vou gostar deste caso — disse Tuppence. — Boates e bebidas. Vou com prar um rím el preto am anhã.
— Seus cílios j á são pretos — obj etou o m arido.
— Mas podem ficar m ais pretos ainda — disse Tuppence. —
Vou com prar um batom cerej a tam bém . Do tipo cintilante.
— Tuppence — disse Tom m y —, você é realm ente um a farrista. Que bom que está casada com um hom em sóbrio e de m eia-idade com o eu.
— É só esperar — disse Tuppence. — Um as horinhas no Py thon Club e você j á não estará tão sóbrio.
Tom m y apanhou várias garrafas de dentro do arm ário, dois copos e um m isturador de bebidas.
— Vam os com eçar agora — disse ele. — Estam os atrás de você, Estalador, e vam os pegá-lo.
CAPÍTULO XIV
O ESTALADOR
(Continuação)
Travar conhecim ento com os Laidlaws foi tarefa fácil. Tom m y e Tuppence, j ovens, bem vestidos, cheios de vida e, evidentem ente, cheios de dinheiro para gastar, logo se sentiram à vontade no círculo social dos Laidlaws.
O Maj or Laidlaw era alto, louro, de físico tipicam ente inglês, um j eito de ser bastante esportivo, o que as profundas rugas em volta dos olhos e os ocasionais olhares de soslaio desm entiam , pois um a coisa não com bina com a outra.
Ele era um j ogador de cartas m uito esperto e, Tom m y observou, quando as apostas eram m uito altas raram ente saía da m esa derrotado.
Marguerite Laidlaw era coisa bem diferente: um a criatura encantadora, com a elegância de um a dríade e o rosto com o que saído de um quadro de Greuze. O inglês entrecortado, esquisito, fascinava a todos e Tom m y achou que não era de se adm irar que a m aioria dos hom ens fosse escrava dela. Desde o com eço ela pareceu sim patizar m uito com Tom m y e ele, assum indo seu papel, passou ao rol dos adm iradores da Sra. Laidlaw.
— Meu Tom m ee — dizia ela; — positivam ente non posso passar sem m eu Tom m ee. O cabelo dele tem a cor do crepuscule, non?
O pai dela era um a figura m ais sinistra; m uito correto, m uito em pertigado com sua barbicha preta e olhos observadores.
Tuppence foi a prim eira a ter algum progresso. Levou a Tom m y dez notas de um a libra.
— Dê um a olhada nelas. Não são verdadeiras, são?
Tom m y exam inou-as e confirm ou o diagnóstico de Tuppence.
— Qual a origem delas?
— Quem m e passou foi aquele m enino, Jim m y Faulkener.
Marguerite Laidlaw entregou-as a ele para que j ogasse num cavalo; eu disse que queria troco e dei-lhe um a nota de dez libras.
— Todas estalando de novas — disse Tom m y pensativo. —
Não podem ter passado por m uitas m ãos. Acho que o j ovem Faulkener é honesto, não é?
— Jim m y ? Ah, ele é um am or. Nós estam os nos tornando grandes am igos.
— Foi o que notei — disse Tom m y friam ente. — Você acha que é realm ente necessário?
— Ah, não são negócios — disse Tuppence, anim ada. — É
divertim ento. Ele é um ótim o rapaz. Fico contente de tirá-lo das garras daquela m ulher. Você não tem idéia da despesa que ela representa para ele.
— Pois m e pareceu que ele está vidrado em você, Tuppence.
— Já pensei nisso. E bom saber que ainda se é j ovem e atraente, não acha?
— Seus princípios de m oral estão deploravelm ente baixos, Tuppence. Você vê estas coisas pelo ângulo errado.
— Há m uitos anos que não m e divirto assim — declarou Tuppence abertam ente. — E você? Quantos m inutos m e dedicou estes dias? Não está sem pre aos pés de Marguerite Laidlaw?
— Negócios — disse ele decidido.
— Mas ela é atraente, não é?
— Não faz m eu tipo — disse Tom m y. — Não m e atrai.
— Mentiroso — riu Tuppence. — Mas sem pre achei m elhor casar-m e com um m entiroso do que com um idiota.
— Acho que um m arido não tem que ser, necessariam ente, um a dessas coisas.
Mas Tuppence lim itou-se a lançar-lhe um olhar apiedado e retirou-se.
No rol de adm iradores da Sra. Laidlaw havia um cavalheiro sim ples m as extrem am ente rico: Hank Ry der.
O Sr. Ry der viera do Alabam a e desde o princípio quis fazer am izade com Tom m y e torná-lo seu confidente.
— Esta m ulher é m aravilhosa — disse o Sr. Ry der, seguindo a adorável Marguerite com olhar respeitoso. — Quanta cultura!
Não se pode superar la gaie France, não é? Quando estou perto dela, m e sinto com o se fosse um a das prim eiras experiências do Todo-Poderoso. Acho que Ele teve que praticar m uito antes de criar um a coisa tão adorável e perfeita quanto esta m ulher.
Com o Tom m y concordasse delicadam ente com este ponto de vista, o Sr. Ry der se abriu ainda m ais.
— Parece-m e lam entável que tão m aravilhosa criatura tenha preocupações financeiras.
— E tem ?
— É claro! Suj eito esquisito este Laidlaw. Ela tem m edo dele.
Ela m e disse. Não tem coragem de contar-lhe sobre as continhas dela.
— São continhas m esm o? — perguntou Tom m y.
— Bem , afinal de contas, um a m ulher tem que usar roupas e, pelo que vej o, quanto m ais decotadas, m ais caras. E um a m ulher com o essa não gosta de andar por aí vestida de qualquer j eito. E as cartas tam bém ; a pobrezinha tem levado m uito azar ultim am ente. Ora, ganhei cinqüenta libras dela ontem à noite.
— Ela levou duzentas de Jim m y Faulkener anteontem —
disse Tom m y secam ente.
— Ah, foi m esm o? Isso j á m e dá certo alívio. A propósito, parece que há m uito dinheiro falso circulando agora pelo país. Fui fazer um pagam ento no banco hoj e de m anhã e vinte e cinco notas eram falsificadas, segundo m e inform ou o educado rapaz do banco.
— Um núm ero considerável! Pareciam novas?
— Novinhas em folha. Ora, foram as que recebi da Sra.
Laidlaw. Não sei onde ela as conseguiu. É bem provável que tenha sido das corridas de cavalo.
— É — disse Tom m y. — É bem provável.
— Sabe, Sr. Beresford, estou estreando este tipo de vida na alta sociedade. Todas essas senhoras alinhadas e tudo o m ais.
Enriqueci há bem pouco tem po. Vim direto a Yurrop para ver a vida.
Tom m y anuiu. Não pôde deixar de pensar que com a aj uda de Marguerite Laidlaw o Sr. Ry der veria bastante da vida, m as o preço seria bem caro.
E então, pela segunda vez, houve indícios de que as notas forj adas estavam sendo distribuídas bem pertinho e que, provavelm ente, Marguerite Laidlaw participava desta distribuição.
Na noite seguinte, Tom m y teve um a prova clara.
Foi no pequeno e selecionado lugar de encontro que o Inspetor Marriot m encionara. Dançava-se lá m as a verdadeira atração do lugar ficava por conta do que ocorria atrás da porta de duas folhas. Lá nas salas de j ogo com m esas forradas de feltro verde, grandes quantias de dinheiro passavam de m ão em m ão.
Marguerite Laidlaw, levantando-se para ir em bora, j ogou um a quantidade de notas de pequeno valor nas m ãos de Tom m y.
— Muito volum e, Tom m ee — troque elas parra m im , sim ?
por um a nota grande. Olhe parra a m inha bolsinha! Pode arrebentar.
Tom m y levou-lhe a nota de cem libras, com o ela pedira.
Depois, sentado a um canto, exam inou as notas que ela lhe dera.
Pelo m enos um quarto delas era falsificado.
Mas de onde vinham ? Ainda não tinha resposta para isso.
Com a aj uda de Albert, estava quase certo de que Laidlaw não era o hom em que procuravam . Todos os seus m ovim entos foram observados de perto, sem resultado.
Tom m y desconfiava do pai dela, o grave M. Heroulade. Ia e voltava da França com m uita freqüência. Nada m ais fácil do que trazer as notas consigo. Um a m ala com o fundo falso — ou qualquer coisa no gênero.
Tom m y saiu do Clube devagar, absorto nestes pensam entos; de repente lem brou-se das necessidades im ediatas. No m eio da rua, o Sr. Hank P. Ry der; e ficou logo evidente que não estava lá m uito sóbrio. Neste exato m om ento tentava pendurar o chapéu no radiador de um carro, errando todas as vezes por questão de centím etros.
— Que diabo de cabide, que diabo de cabide — lam entava o Sr. Ry der. — Não é com o lá nos Estados Unidos. Lá o hom em pode pendurar o chapéu toda noite — toda noite. O senhor está usando dois chapéus. Nunca vi ninguém usar dois chapéus antes. Deve ser efeito do clim a.
— Talvez eu tenha duas cabeças — retrucou Tom m y, sério.
— É isso m esm o — disse o Sr. Ry der. — Que coisa estranha.
Um fato notável. Vam os tom ar qualquer coisa. A Lei Seca — foi isso que a Lei Seca m e fez. Acho que estou bêbado —
constitucionalm ente bêbado. Coquetel — m istura — Beij o de Anj o
— esta é Marguerite — criatura adorável — gosta de m im tam bém .
Pescoços de Cavalo, dois m artinis — três Cam inho para a Ruína
— não, ruína para cam inho — m isture tudo num a caneca de cervej a. Aposto que eu não ia — eu disse — droga — eu disse...
Tom m y interrom peu-o.
— Está tudo bem — disse querendo reconfortá-lo. — Que tal irm os para casa?
— Não tenho casa para ir — disse o Sr. Ry der, triste e com eçou a chorar.
— Em que hotel está hospedado? — perguntou Tom m y.
— Não posso ir para casa — disse o Sr. Ry der. — Caça ao Tesouro. Que belo ato. E ela fez. Whitechapel — corações brancos, brancas cabeças tristes na cova...
Mas o Sr. Ry der de repente se tornou sério. Conseguiu ficar ereto e com andar, m ilagrosam ente, sua fala.
— Estou-lhe dizendo, m eu rapaz. Margee m e levou. No carro dela. Caça ao Tesouro. Toda a aristocracia inglesa faz isso. Na rua.
Quinhentas libras. Pensam ento solene, é um pensam ento solene.
Estou-lhe dizendo, m eu rapaz. O senhor foi bom para m im . O
senhor m e tocou o coração. Nós am ericanos...
Desta vez Tom m y interrom peu com m enos cerim ônia ainda.
— O que você está dizendo? A Sra. Laidlaw levou-o num carro?
O am ericano aquiesceu, solene, com o um a coruj a.
— Para Whitechapel?
Novam ente ele concordou.
— E achou quinhentas libras lá?
O Sr. Ry der lutou para encontrar as palavras.
— E-la encontrou — corrigiu ele. — Deixou-m e do lado de fora. Do lado de fora da porta. Sem pre m e deixam de fora. É triste.
Sem pre, sem pre de fora.
— Saberia voltar lá?
— Acho que sim . Hank Ry der não se perde...
Tom m y arrastou-o sem a m enor cerim ônia. Encontrou o próprio carro e logo estavam na estrada, indo em direção ao leste.
O ar frio reavivou o Sr. Ry der. Depois de cair no om bro de Tom m y, com o que entorpecido, ele acordou com as idéias claras.
— Escute, rapaz, onde estam os? — perguntou ele.
— Whitechapel — disse Tom m y, sério. — Foi aqui que veio com a Sra. Laidlaw esta noite?
— Parece-m e fam iliar — adm itiu o Sr. Ry der olhando a sua volta. — Acho que viram os à esquerda em algum lugar por aqui.
Aqui — nesta rua.
Tom m y virou, obediente. O Sr. Ry der dava as coordenadas.
— É isso m esm o. Certo. Agora à direita. Puxa, que cheiro horrível. Depois do bar, na próxim a esquina, vire e pare na entrada daquela pequena vila. Mas o que tem em m ente? Conte para m im . Esqueceram algum a grana? Vai enganá-los?
— Exatam ente — disse Tom m y. — Vam os enganá-los. Até parece piada, não é?
— Parece m esm o — concordou o outro. — Em bora eu ainda estej a um pouco confuso com tudo isso — finalizou ele, m elancólico.
Tom m y saltou do carro e aj udou o Sr. Ry der a fazer o m esm o. Eles entraram na pequena vila. A esquerda se via os fundos de casas arruinadas, a m aioria das quais com portas que davam para a vila. O Sr. Ry der parou defronte de um a dessas portas.
— Foi aqui que ela entrou — disse ele. — Foi por essa porta.
Tenho absoluta certeza.
— São todas m uito parecidas — disse Tom m y. — Isto m e lem bra a história do soldado e da princesa. Marcaram a porta com um a cruz. Será que devem os fazer o m esm o?
Rindo, apanhou um pedaço de giz do bolso e desenhou um a cruz na parte inferior da porta. Depois olhou para os vultos que rondavam em cim a dos m uros, um dos quais uivava de um a m aneira que se ficava arrepiado.
— Com o tem gato por aqui — observou Tom m y, contente.
— Com o quer agir? — perguntou o Sr. Ry der. — Devem os entrar?
— Tendo tom ado as devidas precauções, entram os — disse Tom m y.
Ele olhou para am bos os lados da vila e depois, com toda a calm a, experim entou a porta. Esta cedeu. Ele abriu-a com um em purrão e entrou num a área m al ilum inada.
Atravessou em silêncio, o Sr. Ry der bem j unto dele.
— Nossa — disse o últim o —, vem alguém aí.
Ele saiu de novo. Tom m y ficou parado por um m inuto e depois, com o nada ouvisse, continuou. Apanhou um a lanterna no bolso e acendeu-a por um segundo. Esta luz m om entânea possibilitou-lhe um a visão do cam inho a seguir. Avançou m ais um pouco e experim entou um a porta fechada à sua frente. Esta tam bém cedeu; ele abriu-a devagar e entrou.
Parou por um segundo, os ouvidos aguçados; depois acendeu de novo a lanterna e, com o se isto fosse um sinal com binado, o lugar pareceu ganhar vida. Dois hom ens estavam à sua frente, dois atrás dele. Aproxim aram -se dele e o derrubaram .
— Luz — vociferou um a voz.
Acenderam um lam pião a gás. Com essa luz Tom m y viu um círculo de rostos desagradáveis. Seus olhos vagaram pela sala e observaram alguns obj etos que lá havia.
— Ah! — disse cheio de prazer. — O quartel-general da indústria de falsificação, se não estou enganado.
— Vá calando a boca — rosnou um dos hom ens.
Atrás de Tom m y um a porta abriu e fechou e um a voz conhecida e j ovial se fez ouvir:
— Pegam os ele, garotos. Muito bem . Agora, seu Espia, vou-lhe dizer que está em apuros.
— Esta palavra m e faz vibrar — disse Tom m y. — Sim , sou o Misterioso Hom em da Scotland Yard. Ora, é o Sr. Hank Ry der. Isto realm ente é um a surpresa.
— Deve ser m esm o. Já ri m uito hoj e trazendo você aqui com o se fosse um a criancinha. E você tão contente com sua astúcia. Ora, rapaz, estava de olho em você desde o com eço. Você sim plesm ente estava deslocado naquela turm a. Deixei você brincar um pouco m as depois que ficou desconfiado da adorável Marguerite, disse para m im m esm o: “Chegou a hora de levá-lo até lá.” Acho que seus am igos não terão notícias suas por algum tem po.
— Vai dar cabo de m im ? Acho que essa é a expressão correta, não é? Você m e aborrece.
— Você é m uito ousado. Não, não vam os usar de violência.
Só vam os m antê-lo sob controle.
— Acho que pegou o bonde errado — disse Tom m y. — Não tenho intenção de ser “m antido sob controle”, com o você diz.
O Sr. Ry der sorriu, contente. Lá fora um gato uivou m elancolicam ente para a lua.
— Se fiando na cruz que fez na porta, hein, rapaz? — disse o Sr. Ry der. — Não faria isso, se fosse você. Conheço a história que m encionou. Ouvi quando era pequeno. Voltei ao beco para representar o papel do cachorro de olhos tão grandes quanto faróis. Se voltasse lá agora veria que cada porta da vila tem um a cruz idêntica à que você fez.
Tom m y deixou tom bar a cabeça, desanim ado.
— Pensou que fosse m uito esperto, não é? — disse Ry der.
Quando acabou de proferir estas palavras, ouviu-se um a pancada seca na porta.
— O que foi isso? — disse ele, assustado.
Ao m esm o tem po investiram na frente da casa. A porta dos fundos não ofereceu resistência. A fechadura cedeu quase que de im ediato e por ali entrou o Inspetor Marriot.
— Bom trabalho, Marriot — disse Tom m y. — Você estava certo quanto ao bairro. Gostaria que conhecesse o Sr. Hank Ry der, conhecedor dos m elhores contos de fada.
— Sabe, Sr. Ry der — acrescentou ele —, eu desconfiava do senhor. Albert (aquele cara com ar de im portante e orelhas grandes é Albert) recebeu ordens para segui-lo em sua m otocicleta caso eu e o senhor fôssem os dar um passeio. E enquanto eu fazia, ostensivam ente, um a cruz na porta para distraí-lo, tam bém esvaziei um a garrafa de valeriana no chão. Um cheiro horroroso, m as os gatos adoram . Todos os gatos da vizinhança se j untaram lá fora para m arcar a casa certa para quando Albert e a polícia chegassem .
Ele olhou e sorriu para o atônito Sr. Ry der e depois se levantou.
— Disse que ia apanhar o estalador e apanhei m esm o —
observou ele.
— Sobre o que está falando? — perguntou Ry der. — O que quer dizer com — Estalador?
— Vai encontrar a palavra no glossário do próxim o dicionário penal — disse Tom m y. — “Etim ologia Suspeita”.
Ele olhou a sua volta com um sorriso nos lábios.
— E tudo sem a aj uda de nenhum espião de polícia — m urm urou, orgulhoso. — Boa noite, Marriot. Tenho que ir para onde o final feliz da história m e espera. Não existe recom pensa igual ao am or de um a boa m ulher — e o am or de um a boa m ulher m e espera em casa — quer dizer, espero que sim , m as não se pode ter certeza hoj e em dia. Este trabalho foi m uito perigoso, Marriot.
Conhece o Capitão Jim m y Faulkener? Ele dança m aravilhosam ente bem e quanto ao gosto para os coquetéis...!
Sim , Marriot, este trabalho foi m uito perigoso.
CAPÍTULO XV
O MISTÉRIO DE SUNNINGDALE
— Sabe onde vam os alm oçar hoj e, Tuppence? A Sra.
Beresford refletiu.
— No Ritz? — sugeriu, esperançada.
— Dê outro palpite.
— Naquele lugarzinho gostoso, no Soho?
— Não. — Seu tom de voz estava cheio de im portância. —
Num a lanchonete. Na verdade, esta aqui.
Ele a fez entrar no estabelecim ento, levando-a a um a m esa de canto de tam po de m árm ore.
— Excelente — disse Tom m y, satisfeito, ao sentar-se. — Não podia ser m elhor.
— Por que de repente esta paixão pela vida sim ples? —
perguntou Tuppence.
— Você vê, Watson, mas não observa. Será que algum a dessas orgulhosas m oças terá a bondade de notar a nossa presença? Esplêndido, lá vem um a. É claro que parece estar pensando em outra coisa, m as sem dúvida seu subconsciente se ocupa de coisas com o presunto com ovos e xícaras de chá.
Costeleta com batatas fritas, por favor, senhorita, um a xícara grande de café, pão com m anteiga e um prato de língua para a senhora.
A garçonete repetiu o pedido com desdém m as Tuppence inclinou-se e interrom peu-a.
— Não, não traga costeleta nem batata frita. Este cavalheiro vai querer torta de queij o e um copo de leite.
— Um a torta de queij o e leite — disse a garçonete com m aior desprezo ainda, com o se fosse possível. Ainda pensando em outra coisa ela se retirou.
— Isto foi desnecessário — disse Tom m y friam ente.
— Mas eu estou certa, não estou? Você é Old Man in the Corner? Onde está o barbante?
Tom m y tirou um barbante dobrado do bolso e com eçou a fazer nós.
— Com pleto até o últim o detalhe — m urm urou ele.
— Mas você com eteu um engano no pedido.
— As m ulheres pegam as coisas de m aneira tão literal —
disse Tom m y. — Se há um a coisa que detesto é leite e as tortas de queij o, sem pre tão am arelas e de aspecto tão bilioso.
— Sej a um artista — disse Tuppence. — Vej a com o vou atacar a língua fria. Que coisa deliciosa, língua fria. Pronto, agora j á estou pronta para assum ir o papel da Srta. Polly Burton. Faça um nó grande e com ece.
— Em prim eiro lugar — disse Tom m y —, falando estritam ente em term os profissionais, deixe-m e salientar um a coisa: os negócios andam m eio parados ultim am ente. Se eles não vêm a nós, devem os ir ao encontro deles. Levar nossas m entes a um dos grandes m istérios públicos do m om ento. O que m e leva ao ponto crítico: o Mistério de Sunningdale.
— Ah! — exclam ou Tuppence com profundo interesse. — O
Mistério de Sunningdale!
Tom m y tirou um recorte todo am assado do bolso e colocou-o sobre a m esa.
— Este é o últim o retrato do capitão Sessle com o apareceu no Daily Leader.
— Exatam ente — disse Tuppence. — Não sei com o ninguém processa os j ornais de vez em quando. Pode-se ver que é um hom em , e só.
— Quando eu disse o Mistério de Sunningdale, deveria ter dito o assim cham ado Mistério de Sunningdale — continuou Tom m y rapidam ente.
— Talvez um m istério para a polícia, m as não para um a m ente inteligente.
— Faça outro nó — disse Tuppence.
— Não sei até que ponto você se lem bra do caso —
continuou Tom m y.
— Lem bro-m e de todo ele — disse Tuppence — m as não deixe que isso arruíne seu estilo.
— Foi há poucas sem anas — disse Tom m y — que se fez a horrível descoberta nos fam osos cam pos de golfe. Dois m em bros do clube que j ogavam cedo ficaram horrorizados ao descobrir o corpo de um hom em de bruços no sétim o t. Mesm o antes de tê-lo virado, j á sabiam que se tratava do Capitão Sessle, figura m uito conhecida no cam po de golfe e que sem pre usava um casaco azul brilhante.
— O Capitão Sessle era visto m uitas vezes no cam po, treinando bem cedo e se pensou, a princípio, que ele tivesse sido acom etido de algum distúrbio do coração. Mas a autópsia revelou o fato sinistro de que fora assassinado; um obj eto m uito significativo perfurou-lhe o coração: um alfinete de chapéu feminino. Tam bém descobriram que j á estava m orto há pelo m enos doze horas.
— Isto m odificou tudo e logo fatos m uito interessantes vieram à baila. Praticam ente a últim a pessoa a ver o Capitão Sessle vivo foi seu sócio e am igo Sr. Hollaby, da Com panhia de Seguros Porcupine, e a versão dele foi a seguinte:
— Sessle e ele j ogaram um a partida bem cedo. Depois do chá o outro sugeriu que j ogasse m ais alguns buracos antes que ficasse m uito escuro. Hollaby concordou, Sessle parecia contente e em excelente form a. Há um a pequena calçada pública que atravessa o cam po de golfe e, quando estavam no sexto green, Hollaby viu que um a m ulher se aproxim ava. Era m uito alta, traj ava roupa m arrom ; Hollaby não prestou m aior atenção a ela e acha que Sessle nem a viu.
— A calçada em questão passa defronte do sétim o t —
continuou Tom m y. — A m ulher passou por ela e foi parar do outro lado, com o se esperasse alguém . O Capitão Sessle foi o prim eiro a alcançar o t. Quando Hollaby se aproxim ou do t ficou surpreso ao ver Sessle e a m ulher conversando. Quando chegou ainda m ais perto, am bos se voltaram abruptam ente, Sessle gritando por sobre o om bro: — É só um m inuto.
— Os dois continuaram a andar, lado a lado. ainda conversando m uito. Ali a calçada j á não passa m ais pelo cam po e sim entre as duas cercas de j ardins vizinhos, saindo na estrada que dá em Windlesham .
— O Capitão Sessle sem pre m antinha a palavra. Reapareceu um ou dois m inutos depois, o que m uito alegrou Hollaby, j á que dois outros j ogadores seguiam atrás deles e escurecia rapidam ente. Eles seguiram adiante e, im ediatam ente, Hollaby notou que acontecera algum a coisa com o com panheiro. Além de dar tacadas desastrosas, o rosto era um a m áscara de preocupação e trazia a testa enrugada. Mal respondeu às observações do com panheiro e seu j ogo era terrível. Claro que sucedera algum a coisa.
— Jogaram um pouco m ais e depois o Capitão Sessle afirm ou de repente que a luz j á não estava boa e que ia para casa.
Neste ponto havia um desses cam inhos que leva à estrada de Windlesham e o capitão foi por ali, cortando cam inho para casa, um pequeno bangalô nesta m esm a estrada. Os dois outros j ogadores se aproxim aram , o Maj or Barnard e Sr. Leck; Hollaby relatou-lhes a súbita m udança de com portam ento de Sessle. Eles tam bém haviam visto o capitão conversando com um a m ulher de roupa m arrom , m as não lhe viram o rosto. Todos os três ficaram intrigados; o que a m ulher poderia ter dito ao capitão para aborrecê-lo daquela m aneira?
— Os três voltaram j untos ao clube e, segundo inform ações, foram as últim as pessoas que viram o Capitão Sessle vivo. Era um a quarta-feira e, às quartas-feiras, vende-se passagens baratas para Londres. O casal que tom a conta do bangalô de Sessle estava na cidade, com o de costum e, e só voltaram tarde, no últim o trem .
Entraram em casa com o sem pre e pensaram que o patrão estivesse dorm indo no quarto. A m ulher estava fora, fazendo um a visita.
— O assassinato do capitão foi um a sensação. Ninguém podia im aginar um m otivo. A identidade da m ulher alta, vestida de m arrom , foi am plam ente discutida m as sem nenhum resultado. A polícia, com o sem pre, foi acusada de negligente — o que é inj usto. Um a sem ana depois foi presa um a m oça cham ada Doris Evans, acusada do assassinato de Anthony Sessle.
— A polícia dispunha de pouco m aterial para trabalhar; um fio de cabelo louro achado nos dedos do falecido e alguns fios de lã escarlate que se prenderam em um dos botões do casaco azul.
Interrogatórios feitos na estação de trem e em outros lugares trouxeram à tona os seguintes fatos:
— Um a j ovem de casaco escarlate e saia chegara de trem naquele dia, m ais ou m enos às sete horas, e perguntara o cam inho para a casa do capitão. A m esm a m oça reapareceu, na estação, duas horas depois. O chapéu estava torto, o cabelo desgrenhado e parecia m uito agitada. Pediu inform ações sobre os trens para Londres e olhava, sem cessar, por sobre o om bro com o se tem esse algum a coisa.
— Nossa polícia tem m uitas qualidades. Munida de poucos indícios com o esses conseguiu achar a m oça e identificá-la com o sendo Doris Evans. Foi acusada de assassinato e preveniram -lhe de que qualquer coisa que dissesse poderia ser usada contra ela m as, m esm o assim , ela insistiu em prestar depoim ento, que repetiu detalhadam ente, sem nenhum a m odificação.
— Sua história é a seguinte: ela é datilógrafa e, um a noite, no cinem a, fez am izade com um hom em bem vestido que disse ter gostado dela. Disse-lhe que seu nom e era Anthony e sugeriu que ela fosse ao seu bangalô em Sunningdale. Ela nunca soube que ele era casado. Com binaram que ela iria na quarta-feira seguinte, dia em que, você se lem bra, os criados estariam ausentes e a m ulher tam bém . No fim ele lhe disse o nom e todo, Anthony Sessle, e deu-lhe o nom e da casa.
— Ela realm ente chegou ao bangalô na tarde em questão e foi recebida por Sessle, que acabava de chegar do cam po de golfe.
Em bora ele dissesse que estava m uito contente em vê-la, a m oça declarou que achou-o estranho, diferente. Tendo pressentido qualquer coisa, ela disse que preferia não ter vindo.
— Depois de um a refeição sim ples, j á pronta e preparada, Sessle sugeriu que dessem um passeio. Com o a m oça concordou, Sessle levou-a pela estrada e passou pelo atalho do cam po de golfe. E então, quando passavam pelo sétim o t, ele agiu com o se estivesse louco. Tirou um revólver do bolso e, sacundindo-o no ar, disse que chegara aos lim ites de suas forças.
— Tudo deve acabar! Estou arruinado — arruinado. E você vai acabar com igo. Vou atirar em você prim eiro e depois em m im .
Encontrarão nossos cadáveres lado a lado pela m anhã — j untos na m orte.
— E falou m uito m ais. Agarrou Doris Evans pelo braço e ela, percebendo que lidava com um louco, fez esforços desesperados para se livrar e, se não conseguisse, tentaria tirar-lhe o revólver.
Eles lutaram e nesta luta ele deve ter arrancado alguns fios do cabelo dela e a lã do seu casaco deve ter ficado presa no botão dele.
— Finalm ente, num esforço desesperado, ela conseguiu se livrar e correu o m áxim o que podia pelo cam po de golfe esperando, a cada m inuto, ser alvej ada. Caiu duas vezes, tropeçando em urzes, m as conseguiu finalm ente ganhar a estrada que levava à estação e depois percebeu que não estava sendo perseguida.
— Esta é a versão de Doris Evans e é a única. Ela nega veem entem ente que o tenha atacado com um alfinete de chapéu em autodefesa — coisa que seria bem natural naquelas circunstâncias e que talvez sej a verdade. Confirm ando sua história, acharam um revólver no m eio de uns arbustos próxim os ao lugar onde foi encontrado o corpo. Não foi disparado.
— Doris Evans foi m andada a j ulgam ento m as o m istério ainda perm anece. Se acreditarm os na história dela, quem m atou o Capitão Sessle? A outra m ulher, aquela vestida de m arrom cuj a presença tanto o aborreceu? Até agora ninguém pôde explicar a ligação dela com o caso. De repente ela aparece na calçada que cruza o cam po de golfe, depois desaparece pelo atalho e ninguém ouve falar dela de novo. Quem é ela? Um a habitante local? Um a visitante de Londres? Se for, veio de carro ou de trem ? Não há nada excepcional nela, a não ser a altura; parece que ninguém consegue descrevê-la. Ela não poderia ser Doris Evans porque Doris é baixa, loura e além do m ais chegava à estação naquela hora.
— A esposa? — sugeriu Tuppence. — E a esposa?
— Um a sugestão m uito natural. Mas a Sra. Sessle é baixa e, além do m ais, o Sr. Hollaby a conhece m uito bem . Tam bém não há a m enor dúvida de que estava fora. Surgiu um outro fato: a Com panhia de Seguros Porcupine abriu falência. As contas revelam o m ais ousado desvio de fundos. O m otivo das palavras am argas de Sessle a Doris Evans é bastante claro agora. Há alguns anos ele vem desviando dinheiro sistem aticam ente. Nem o Sr. Hollaby nem o seu filho tinham a m enor idéia do que estava acontecendo. Estão praticam ente arruinados.
— E o caso está neste pé. O Capitão Sessle estava prestes a ser descoberto e arruinado. O suicídio seria um a solução natural, m as a natureza da ferida desm ente esta teoria. Quem o m atou?
Doris Evans? Ou a m isteriosa m ulher de m arrom ?
Tom m y calou-se, deu um gole no leite, fez um a cara horrível e, com todo o cuidado, provou a torta de queij o.
CAPÍTULO XVI
O MISTÉRIO DE SUNNINGDALE
(Continuação)
— Claro — m urm urou Tom m y —, vi logo quais eram as dificuldades deste caso e onde a polícia se enganou.
— Foi? — perguntou Tuppence, ansiosa.
Tom m y balançou a cabeça com tristeza.
— Quem m e dera. Tuppence, até certo ponto é facílim o ser o Old Man in the Corner. Mas não sei a solução. Quem m atou o cam arada? Não sei.
Ele tirou outros recortes de j ornal do bolso.
— Outras fotos — o Sr. Hollaby, o filho, a Sra. Sessle, Doris Evans.
Tuppence fixou-se nesta últim a e pôs-se a olhá-la durante algum tem po.
— Ela não o m atou — observou, por fim . — Pelo m enos não com um alfinete de chapéu.
— Por que está tão certa disso?
— Um toque de Lady Molly. Ela tem cabelo curto. Hoj e, entre vinte m ulheres, só um a usa este tipo de alfinete, cabelo curto ou com prido. Os chapéus são apertados, se enterram na cabeça —
não há necessidade de usar alfinetes.
— Mesm o assim ela podia ter um .
— Meu querido, não os guardam os com o relíquias! Para que ela traria um alfinete de chapéu para Sunningdale?
— Então deve ter sido a outra m ulher, a m ulher de m arrom .
— Seria bom se não fosse alta. Aí poderia ter sido a m ulher dele. Sem pre desconfio das esposas que estão fora nestas ocasiões. Se ela descobriu que o m arido estava de caso com esta m oça, seria m ais que natural que o m atasse com um alfinete.
— Tenho que ter cuidado — observou Tom m y.
Mas Tuppence estava m uito concentrada e se recusou a aceitar a brincadeira.
— Com o eram os Sessles? — perguntou de repente. — O que as pessoas dizem sobre eles?
— Pelo que sei, eram m uito queridos. Ele e a esposa pareciam se gostar m uito. Ê isso que torna a história da m oça tão esquisita. Seria a últim a coisa que se podia esperar de Sessle. Era um ex-soldado, você sabe. Recebeu um bom dinheiro, se aposentou e entrou na área de seguros. Seria o últim o hom em do m undo de quem desconfiaria. Não podia im aginar que fosse um vigarista.
— Tem certeza de que era um vigarista? Não poderiam ter sido os outros dois que tiraram o dinheiro?
— Os Hollaby s? Eles dizem que estão arruinados.
— Ah, eles dizem ! Talvez estej a tudo depositado num banco sob outro nom e. Estou falando grosso modo, m as você sabe o que quero dizer. Digam os que especulassem com o dinheiro durante algum tem po, sem o consentim ento de Sessle, e o tenham perdido.
Seria m uito conveniente para eles que Sessle m orresse quando m orreu.
Tom m y deu um as pancadinhas com o dedo no retrato do Sr.
Hollaby.
— Então você está acusando este respeitável senhor de assassinato do am igo e sócio? Você se esquece que ele se afastou de Sessle no cam po de golfe às vistas de Barnard e Lecky e passou a noite em Dorm y House? Além disso, há o alfinete.
— Não m e am ole com esse alfinete — disse Tuppence, im paciente. — Você acha que o alfinete prova que o crim e foi com etido por um a m ulher?
— Naturalm ente. Você não concorda?
— Não. Os hom ens são sabidam ente conservadores. Levam séculos para se libertarem de idéias preconcebidas. Associam alfinetes e gram pos com o sexo fem inino, e os cham am de “arm as fem ininas”. Podem tê-lo sido no passado, m as agora estão fora de m oda. Olha, há pelo m enos quatro anos não tenho nenhum a dessas coisas.
— Então você acha...?
— Que foi um homem que m atou Sessle. O alfinete foi j ustam ente para se pensar que o assassino é um a m ulher.
— Você pode ter razão, Tuppence — disse Tom m y, devagar.
— É im pressionante com o as coisas tom am outro rum o quando discutim os sobre elas.
Tuppence aquiesceu.
— Tudo tem lógica — se olhado pelo ângulo certo. E lem bre-se do que Marriot disse um a vez sobre o ponto de vista — a intimidade em relação ao assunto. Sabem os algum a coisa sobre as pessoas com o o Capitão Sessle e a m ulher dele. Sabem os do que são e do que não são capazes. E cada um de nós tem seu conhecim ento especial.
Tom m y sorriu.
— Você quer dizer que é um a autoridade sobre pessoas de cabelos curtos, sabe o que têm em seu poder e que tam bém tem profundo conhecim ento do que as esposas são passíveis de sentir e fazer?