Stranger Things: Raízes do Mal

Gwenda Bond · Capítulo 14 de 17

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Stranger Things: Raízes do Mal

Capítulo Dez: O homem à espreita

Capítulo Dez

 

 

O HOMEM À ESPREITA

 

ABRIL DE 1970

Bloomington, Indiana

 

1.

Uma luz forte atravessava a janela e invadia o dormitório.

— Tenho que ir, mas não quero.

Terry cobria os olhos com o braço e reclamava com Stacey. Estava acordada já fazia uma hora, mas não suportava a ideia de entrar no furgão e seguir para o laboratório mais uma vez, para as garras de Brenner.

Só que não tinha escolha. Havia telefonado para o repórter no dia anterior, fingindo ser do laboratório, confirmando a visita. Disse a ele para chegar às dez e meia da manhã em ponto e dar o nome do dr. Martin Brenner aos seguranças na entrada. Estava nervosa. Será que tinha tomado uma decisão sábia, ou feito uma bobagem?

Ela não sabia dizer.

— Faz que nem eu, vira as costas e vai embora!

Stacey estava ocupada fazendo os trabalhos dos três últimos dias numa tacada só. Era o método dela. Terry não entendia como a amiga tinha conseguido se passar por alguém com inteligência normal, quando era obviamente a mais esperta de todos. Fazia o que bem entendia e se safava sempre.

O lado de Stacey do quarto era uma colagem de pôsteres de bandas e páginas arrancadas de revistas ensinando técnicas de maquiagem passo a passo. Terry era mais organizada, com algumas fotos de família em porta-retratos e um pôster de Audrey Hepburn no filme Sabrina, presente que havia ganhado da tia quando era adolescente.

— É bem capaz de alguém do laboratório vir até aqui e me obrigar a entrar no furgão — disse Terry.

— É impressão minha ou você está ficando mais paranoica? — perguntou Stacey.

— Tenho meus motivos.

Stacey não fazia ideia do que estava acontecendo. Brenner tinha se recusado a comunicar qual seria a tal surpresa que estava preparando. Nada que aconteceu até então poderia ser considerado surpreendente, e as duas últimas sessões se resumiram a um interrogatório sobre o passado dela, impedindo-a de acessar o vazio e de ver Kali. O pavor era sua companhia constante.

— Sei lá, todo esse LSD... É até estranho você não ter entrado em uma viagem permanente... Ou talvez tenha, vai saber. Talvez seja por isso que está tão paranoica.

— Não foi isso que eu quis dizer.

A paranoia dela tinha nome e sobrenome: Martin Brenner. Ela não podia simplesmente abandonar o laboratório. Kali sofreria as consequências. Glória, Ken e Alice ainda estavam presos àquilo, assim como ela. Não podiam deixar Brenner vencer.

Não vamos permitir que isso aconteça.

— Não vou desistir — insistiu Terry, ainda sem coragem de se mexer.

— Bom saber — disse Stacey, já acostumada com a teimosia da amiga. — Poxa, podia ter dado esse conselho para o Paul continuar na banda... Acho injusto ficar culpando a Yoko, mas quem mais as pessoas poderiam responsabilizar?

Os Beatles tinham se separado. A decisão corria em segredo, até que Paul fez uma declaração sobre seus planos de seguir carreira solo.

— Dizem que o John foi o primeiro a pular do barco — comentou Terry. — Podiam é culpar ele, isso sim.

— Até parece! — Stacey riu, e de repente mudou de assunto. — Nossa! Já ia me esquecendo. Você recebeu um postal do Andrew.

Terry pulou da cama.

— Por que você não disse nada ontem?

O carteiro passava no alojamento no fim da tarde, o que significava que o postal estava ali desde o dia anterior. Era uma foto do Arco Gateway, em St. Louis. Terry deu um pescotapa em Stacey para ela aprender a nunca mais fazer aquilo e se sentou na beirada da cama para ler a mensagem.

Amor...

Um começo promissor, pensou ela. Talvez ele já tivesse desistido daquele papo de “dar um tempo”.

Estou aproveitando o tempo livre do fim de semana para dar um alô. Vou embora

amanhã, e pode deixar que mando o endereço quando chegar lá. Vou ligar para os meus

pais assim que puder, e minha mãe me fez prometer que eu escreveria toda semana.

Então você pode sempre se atualizar com ela. Estou com saudade. Mas sei que fizemos

a coisa certa.

Quero que você viva a sua vida enquanto eu estiver fora. Pense em mim de vez em

quando. Vou sonhar com você, com um futuro e uma casinha no Condado. Nada de

Portos Cinzentos para nós.

Com todo o amor do mundo,

Andrew

A saudade bateu com tanta força que ela sentiu as pernas bambas.

Depois, serviu de estímulo. Andrew seria enviado para o Vietnã, onde lutaria pela própria vida e pela de todos ao seu redor. Então ela poderia muito bem entrar em um furgão com os amigos e enfrentar o monstro que contava histórias sobre coelhos sendo mortos, como se manter crianças presas como cobaias fosse menos perturbador que isso. Ela estava disposta a lutar por um futuro melhor do que as visões de Alice.

Foi por isso que você aceitou participar disso tudo, Terry.

Além do mais, ela queria ver o choque no rosto de Brenner quando o repórter aparecesse. Então enfiou o postal na bolsa — queria mantê-lo por perto — e tocou com carinho na foto dela com Andrew, dos dois sorrindo na cama, que tinha colocado no espelho da parede. Ela já estava conseguindo dormir melhor. Ainda detestava a ideia de não estarem oficialmente juntos no momento, mas, se aquilo ajudasse Andrew a enfrentar a guerra, era o certo a se fazer. Não fazia muita diferença para ela estarem namorando ou não. Seu coração era de Andrew.

— Então você vai? — perguntou Stacey.

— Vou, sim.

— Melhor vestir a calça antes, não?

— Estou ficando louca, só pode! — disse Terry, bufando. Pior que todas as suas calças estavam muito apertadas. — Vou colocar uma saia.

Ela foi até o guarda-roupa e revirou as peças. Lá estava a saia, longa, leve e confortável — perfeita. Valorizava o corpo dela. Enquanto vestia e ajeitava a peça na cintura, ela perguntou para Stacey:

— Você não vai perguntar o que o Andrew escreveu?

— Não! Eu li quando chegou.

Terry pegou um travesseiro da cama e jogou na amiga, que ria. Tudo parecia normal, exceto, claro, para onde estava indo.

 

2.

Os homens chegaram cedo em Hawkins, uma fila de três carros pretos competindo com o nascer do sol. Talvez acreditassem que poderiam pegar o dr. Brenner despreparado, mas o médico já estava à espera deles na entrada. Não esperava que o diretor fosse aparecer pessoalmente e não sabia se deveria interpretar a presença dele como um sinal positivo ou negativo.

— Senhores, é uma honra recebê-los — disse ele, como se não estivessem três horas adiantados. — Especialmente você, Jim. Como foi a vinda de Langley?

— Nada digno de nota — respondeu Jim, já de olho no prédio atrás de Brenner.

Claramente era um sinal negativo.

O terno do diretor era escuro, feito sob medida, mas Brenner escolheu o melhor que tinha, um modelo cinza que deixava o do outro no chinelo. Ele reconheceu alguns daqueles homens de reuniões anteriores. Eram figuras importantes, ainda que não tanto quanto o diretor.

— Pode ter certeza de que pelo menos por aqui você vai encontrar muitas coisas “dignas de nota”. — Brenner passou com eles pelo balcão da segurança. Homens como aqueles não precisavam assinar registros quando visitavam seus investimentos ultrassecretos. Preferiam não deixar vestígios. — Prometo que será a demonstração mais emocionante da semana.

Ele não queria criar expectativas, embora quase tivesse dito “do ano”. Talvez até “da vida”, considerando a promessa do bebê de Terry Ives, além de Eight.

— É com certeza a mais cara — alfinetou um dos homens.

Os sapatos dele brilhavam de tanta cera. O cabelo também.

— Façanhas extraordinárias por vezes requerem custos extraordinários — rebateu Brenner. — E você é...?

— Peço desculpas. Bob Walker — disse o outro, sem fazer menção nenhuma de apertar a mão do médico.

Brenner respondeu com um aceno. Registrado. Ele decidiu que dedicaria sua atenção ao diretor e àquele homem. Os outros deram seus nomes, mas estavam ali apenas servindo de comitiva para indicar status. O diretor nunca andava desacompanhado. Brenner tinha ouvido histórias sobre a carreira indomável dele em campo, sobre os limites que tinha extrapolado e eliminado, e acreditava nelas. Vê-lo na companhia de burocratas engravatados era uma vergonha. Homens de visão eram cada vez mais raros.

Ele acionou o interfone e avisou aos funcionários que estava entrando com um grupo importante. As portas se abriram, e os soldados a postos saudaram o diretor.

— Eu estava aqui pensando... — começou Bob Walker. — Gostaria de conversar com o restante da sua equipe executiva sobre o projeto e os custos.

Foi então que Brenner se deu conta de que eles não estavam ali só porque tinham sido convidados. Estavam ali para minar o trabalho dele. Pelo menos, aquele homem estava. Mas qual seria o motivo?

Ah, sim.

— Por acaso você serviu no Exército com o nosso antigo chefe de segurança? — perguntou Brenner.

— Sim, faz tempo. Parece até outra vida. Gente fina.

Mistério resolvido.

— Será um prazer sanar as suas dúvidas. Afinal, a equipe responde a mim.

— Gostaríamos de conversar com os funcionários diretamente. E de conhecer algumas de suas cobaias. Pelo que entendi, vocês mantêm crianças aqui, certo? — inquiriu Bob. — O experimento não está muito às claras, se me permite dizer.

— Vamos com calma — interrompeu o diretor. — Não há por que se precipitar.

— Concordo. — Brenner respirava com cuidado para manter o rosto relaxado. — Jim sabe da importância deste trabalho melhor que ninguém. Foi ele quem me contratou, pessoalmente, para supervisionar esta instalação.

O diretor franziu a testa. Não pareceu gostar de ser lembrado daquilo. Já Bob parecia surpreso. Provavelmente aquela informação era novidade para ele.

— Prioridades podem mudar — alertou o diretor. — É tudo uma questão de custo-benefício.

Brenner sorriu e se imaginou entre tubarões. Não havia por que se preocupar. Ele também era.

— Eu não poderia estar mais de acordo.

 

3.

Terry estava no furgão tamborilando no assento ao lado. Ken tinha se atrasado uns minutinhos, e, por conta disso, o furgão chegou a Hawkins um pouco depois do combinado. Então ela avistou a... cena diante da guarita e precisou se conter para não rir. Eles pararam logo atrás.

Os outros trocaram olhares. Terry já tinha atualizado todos por telefone.

Brenner estava cruzando o estacionamento em direção à guarita de segurança, onde um funcionário conversava com um homem e uma mulher numa lata-velha bem na frente do furgão. Terry não fazia ideia de quanto era o salário dos repórteres, mas supôs que fossem eles dentro do calhambeque. O médico levou as mãos à cintura quando se aproximou do guarda, que lhe disse alguma coisa. Ele hesitou, parecendo indeciso.

Terry nunca tinha visto Brenner transparecer incerteza. Ela apostava que ele não arriscaria mandá-los embora, por receio de passar vergonha ou levantar suspeitas. Mas Terry precisava se certificar de que não iriam mesmo desistir da matéria.

Antes que alguém pudesse pará-la, ela abriu a porta do furgão e se esticou para fora do veículo, de pé no estribo.

— O que você está... — A voz do motorista ecoou atrás dela, mas era tarde demais.

— O que está acontecendo? — gritou ela. — Algum problema?

O homem no carro colocou a cabeça para fora. Terry aproveitou a deixa e desceu do furgão.

O motorista começou a segui-la, mas Brenner fez um sinal com a mão, e ele parou onde estava. Quando ela se aproximou, a mulher no banco do passageiro ergueu uma câmera fotográfica e pressionou o botão do obturador. Brenner ainda estava com a mão levantada.

— Espere — protestou ele. — Você não pediu permissão para tirar fotos.

— Por mim, tudo bem. — Terry estava abusando da sorte, mas não conseguia se conter. — Mas, espera aí... Quem são vocês? E por que você está tirando fotos?

Ela mexeu na gola da blusa com delicadeza, se fazendo de tímida. O homem tinha a barba por fazer e usava um casaco informal, um visual desleixado, bem a imagem que Terry tinha de um repórter. A fotógrafa era jovem, talvez da idade de Terry, ou alguns anos mais velha. Estava de camiseta e calça de sarja.

— Somos do Gazette — explicou o homem. — Estamos aqui para escrever um artigo sobre o laboratório.

— Estão escrevendo um artigo sobre o nosso experimento, é? — perguntou Terry, fingindo surpresa.

O repórter franziu as sobrancelhas, confuso.

Brenner mordeu o lábio e em seguida relaxou.

— Não é bem isso. Eles estão aqui para fazer um perfil meu. Devo ter me confundido com minha agenda. Acho que hoje não é um bom dia.

— Se quiserem acompanhar os testes, por mim, tudo bem — disse Terry, muito solícita. — Tenho certeza de que o pessoal não vai se importar.

— Não é você quem decide isso, srta. Ives — rebateu Brenner. Então notou a expressão intrigada do repórter e deu o braço a torcer. — Pode liberar a entrada deles — ordenou ao segurança. — Encontro vocês no saguão.

E se apressou de volta ao prédio.

Terry abriu um sorriso de orelha a orelha para os jornalistas.

— Mal posso esperar para ver o que vocês vão achar de tudo isso aqui. Morro de curiosidade para saber mais sobre o histórico do dr. Brenner. Ele é fascinante.

— Fascinante — repetiu o repórter, em um tom que alguém poderia usar para dizer “babaca”.

Ele esticou o braço para pegar o passe do estacionamento com o guarda, e Terry voltou para o furgão, embora só faltasse estacionar.

* * *

O grupo seguiu amontoado pelos corredores do prédio. Brenner explicou aos repórteres que, por conta de sua agenda atribulada, teria que deixá-los nas mãos de uma colega, a dra. Parks, e que, devido ao caráter sigiloso das instalações e da pesquisa, eles precisariam pedir permissão para tirar qualquer foto.

— Certo — disse a fotógrafa, sem tirar as mãos da câmera que pendia do pescoço. — Que tal uma sua com as cobaias?

— Não tenho muito tempo para isso.

— A gente devia trocar de roupa, para ficar bem realista — sugeriu Terry. — Podemos fazer isso já.

Ela queria provas visuais da presença de todos ali, inclusive da de Brenner.

— Vamos ser rápidos, para não atrapalhar a sua agenda — prometeu a fotógrafa.

Brenner torceu o nariz, mas acabou assentindo.

Terry estava gostando de bagunçar a vida dele. Agora você sabe como é a sensação.

O grupo foi conduzido às salas de sempre, onde os membros da equipe os aguardavam.

— Não divulgue nenhum detalhe do nosso trabalho — disse a dra. Parks a Terry.

Evidentemente, seguia ordens do dr. Brenner. Ela se retirou, provavelmente para repassar a mensagem aos outros.

Todos apareceram de camisola.

Brenner estava à espera no fim do corredor, com uma mulher de camisola que ela nunca tinha visto antes. O repórter fazia anotações no caderno enquanto a fotógrafa posicionava médico e pacientes na parede de concreto.

— Sorriam!

Terry não sorriu. Ninguém deve ter sorrido, ela imaginou. O obturador abriu e fechou mais vezes que o necessário.

— Então, o que você pode falar sobre o seu trabalho aqui? — perguntou o repórter.

— Como já disse, não posso contar muita coisa — explicou o dr. Brenner. — Não queremos comprometer as nossas descobertas a essa altura do campeonato. Mas é um trabalho vital para a segurança de nosso país. Sinto muito, mas minha presença está sendo requisitada. Tenho reuniões importantes pelo resto do dia.

Conta outra.

— Como você se interessou por esse assunto?

Brenner deu de ombros.

— Certo — disse o repórter. — Como foi a sua infância?

O dr. Brenner passou a bola de volta, fingindo bom humor:

— A minha infância foi bem normal, eu diria.

O ânimo de Terry evaporou um pouco com a capacidade de Brenner de se ajustar rapidamente à situação. Ele devia estar se revirando por dentro. Certo? Provavelmente suspeitava que alguém da equipe tivesse armado tudo aquilo. Talvez estivesse meio paranoico. Ele bem que merecia aquilo.

Só que o principal objetivo do plano era obrigá-lo a responder perguntas. E ele não estava respondendo.

— Terry, por favor, me acompanhe. Vou deixá-la nas mãos competentes da dra. Parks — disse ele com calma, e se virou para os repórteres. — Vocês podem voltar quando quiserem, é só avisarem com mais antecedência.

— Você teve três semanas — retrucou o repórter.

O dr. Brenner franziu a testa e fez um sinal para Terry acompanhá-lo. Ele a conduziu à sala de sempre.

— Foi você quem tramou isso? — perguntou ele.

— Eu? Como faria isso? — Deu de ombros, fingindo tranquilidade.

— Você poderia ter comprometido todo o experimento — disse ele, com rispidez. — É melhor seguir as minhas ordens. Não vai gostar das consequências se não me obedecer. Você e a Kali têm visitas hoje. Trate de se comportar.

Antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa, ele foi embora. Ela testou a maçaneta. A porta estava trancada.

Visitas para Kali e ela. Agora era surpresa atrás de surpresa. Mas seu plano ainda podia dar certo. Se ela conseguisse levar Kali até o repórter, ele faria as perguntas certas...

Ela tirou seu exemplar de O Retorno do Rei da bolsa. Já estava com a lombada toda enrugada — obra de Andrew, que gostava de dobrar o livro para ler. Faltava pouco para o fim, então talvez logo entendesse as referências da mensagem dele. Ela pegou o cartão-postal para usar de marcador e releu antes de abrir o livro.

Só quero que ele viaje em segurança e fique bem. Que ele esteja cercado de pessoas boas, que cuidem umas das outras. Preciso que ele volte para mim.

Ela estava imersa no capítulo em que Sam e Frodo permaneciam entre os orcs, depois de chegarem a Mordor, quando alguém escancarou a porta. O auxiliar de sempre entrou na sala.

Ele parecia ter cortado o queixo fazendo a barba naquela manhã. O arranhão cor de sangue lembrou Terry de que ele era humano.

— Vem comigo.

— Um “por favor” cairia bem.

— Não tenho tempo para isso. O dr. Brenner pediu que eu reforçasse que é crucial que você se comporte bem diante das visitas — disse ele, todo empertigado.

Visitas. Quem visitaria aquele lugar? Terry sabia que ele não se referia aos repórteres.

Então ela se lembrou das palavras de Brenner no mês anterior, sobre a “performance” de Kali.

Será que existia a possibilidade desses visitantes não aprovarem o trabalho de Brenner? Ele não me exibiria se fosse o caso.

Mas quem poderia dizer? Ela se sentou e se agarrou ao resquício de calma que ainda existia dentro de si.

O auxiliar já tinha saído da sala. Teve que voltar.

— Vem comigo — insistiu.

Manchas escuras embaçaram um pouco a visão de Terry quando ela ficou de pé.

— Não se levante tão rápido assim.

Ele a apoiou pelo braço.

Como o homem jamais demonstrara qualquer preocupação com ela, Terry atribuiu o gesto aos visitantes misteriosos. O funcionário a guiou pelos corredores, passando pelas salas onde os amigos dela estavam. Aparentemente, não faziam parte da tal performance... ou talvez já tivessem feito o que quer que tivesse sido programado para eles.

Brenner estava no fim do corredor, diante da sala que abrigava o tanque de privação sensorial. Ele os recebeu com impaciência.

— Srta. Ives, você sabe que a sua cooperação é crucial para a segurança da cobaia Eight, não sabe?

Cobaia Eight. Ela se lembrou dos números na ficha. Não pode ser...

— É assim que você se refere a ela? Não pelo nome?

— Isso não importa. Só me responda: você entendeu?

Terry cruzou os braços.

— Por que não chama todos nós por números, então?

— Adultos são mais complicados que crianças. Você entendeu ou não?

— Entendi. — Entendi que você é o homem mais monstruoso da face da Terra. — Quem são os visitantes?

— Pessoas importantes. Nem pense em criar confusão, ou nós dois vamos acabar nos arrependendo.

Vai me desculpar, doutor, arrependimentos são para pessoas com alma. Você não deve nem saber o que é isso.

— Eu jamais deixaria a Kali ou qualquer criança correr perigo.

Ele segurou o riso. Pela cara dele, dava para ver que estava se divertindo.

— Claro. Vamos lá?

Terry esperaria o momento certo para agarrar a menina e sair correndo. Provavelmente, os repórteres ainda estavam no local.

Brenner abriu a porta e deixou que ela e o auxiliar entrassem na frente. Kali estava de pé diante de uma fileira de cadeiras em semicírculo, uma espécie de auditório em torno do tanque, com uma área livre no meio. Um grupo de homens que Terry nunca tinha visto compunha a plateia diante dela. Quando Kali a viu, abriu um sorriso, mostrando todos os dentinhos, e acenou.

— Fique aqui — ordenou Brenner, em voz baixa. Então se voltou para os homens de terno escuro e continuou o teatro. — E aqui está outra cobaia promissora, que assistirá à apresentação da cobaia Eight com vocês.

Kali sorriu mais uma vez, maravilhada com a atenção.

Um dos homens apontou na direção de Kali.

— Só não me venha com passes de mágica.

— O que é um passe de mágica? — perguntou Kali.

O homem ficou encabulado e baixou o rosto.

— Uma coisa que eles não conseguem fazer — disse Terry, levantando a voz.

— Ah!

Kali assentiu, com ares de sabedoria.

O dr. Brenner repreendeu Terry apenas com o olhar, como se ela também fosse uma criança.

— Como vai ser essa demonstração, então? — perguntou o mesmo homem, com o cabelo tão ensebado que brilhava.

— Luzes, por favor — ordenou Brenner ao auxiliar.

O subalterno acionou o interruptor. A sala ficou escura, como um teatro prestes a abrir as cortinas, escura como o vazio.

— Kali... — disse o dr. Brenner, dando a deixa.

— Mas o que está acontecendo? — resmungou um dos homens na escuridão.

Depois, mais outro:

— Não consigo ver nada. Alguém acende a luz de volta.

— Isso é uma grande farsa! Já vimos o bastante.

— Kali!

O comando do dr. Brenner ecoou novamente.

Labaredas brotaram do nada. De uma hora para outra, a sala escura estava em chamas. O fogo fantasma se espalhou pelo recinto, emanando de Kali em direção a todos. Os homens gritaram, não de dor, mas de choque.

A cortina de fogo crepitava, lambendo o ar. Terry queria correr, mas ouvia o choro de Kali, então cruzou a linha de fogo até a menina. Não é de verdade, teve que repetir a si mesma, embora fosse difícil acreditar. Ela se embrenhou pelas chamas com cuidado, enquanto a razão insistia na veracidade do fogo. Corra! Salve-se!

Ela só se importava com Kali. Aproximou-se da menina e, com cautela, colocou a mão no ombro dela e a puxou para perto. As falsas chamas aumentavam.

— Kali, pode parar. Não precisa fazer isso. Estou aqui com você.

Parecia que aquele inferno nunca ia acabar.

A garota tremia e chorava, soluçando.

— Não consigo...

— Consegue, sim — sussurrou Terry.

As chamas sumiram tão abruptamente quanto tinham surgido. Terry sentiu Kali desabar em meio à escuridão.

A luz voltou.

Dois dos engravatados tinham sacado armas e as apontavam para ela e Kali. Terry se colocou na frente da menina para protegê-la. Kali ainda chorava.

— Parem! — gritou Terry. — Não atirem.

Era o momento ideal para correr e chamar os repórteres, mas não havia como.

Kali estava à mercê deles. Ela também. Não restava opção.

Brenner havia estabelecido bem as regras e, ali, ela não tinha escolha além de segui-las. Os homens viram do que Kali era capaz.

O silêncio durou uma eternidade.

Foi Brenner o primeiro a se pronunciar, oferecendo o seu sorriso encantador de sempre ao homem que estava entre os dois colegas armados.

— Impressionante, não é, diretor? Um milagre, eu diria, se acreditasse em milagres, e não na ciência.

— Sim, muito impressionante — respondeu o diretor. — Peço desculpas por ter dito que era uma farsa.

Ele se virou para o homem de cabelo seboso, que guardou a arma. O segundo homem fez o mesmo. O diretor se levantou e encarou Kali, fascinado. Depois Terry.

— Imagine só... — Ele andou em direção a Brenner. — Imagine se tivéssemos mais pessoas assim, ainda mais poderosas.

O médico se aproximou e colocou o braço nos ombros de Terry.

— Pois teremos!

— Tem certeza? — perguntou o diretor.

— Como já comentei com você, estamos cultivando a próxima geração de maravilhas.

— Foi bom você ter nos chamado até aqui. Quase cometemos um grande erro — disse o homem de cabelo lustroso, juntando-se ao grupo e analisando Terry dos pés à cabeça, como se ela fosse uma égua premiada. — Fale mais sobre as cobaias mais velhas. Você vê algum potencial?

— Muito — respondeu Brenner. — Uma delas tem se mostrado bem receptiva à terapia de eletrochoque...

Algo na forma como aqueles homens estranhos estavam examinando Terry fez o estômago dela se revirar de pânico. Ela pensou nas palavras de Brenner sobre a existência de outros como Kali, sobre a próxima geração... E também...

Em como andava cansada. Como vivia com fome. Com vontade de chorar. Pensou em como seu corpo tinha mudado.

Nos sintomas que ele mencionara.

Mas por que ele não disse nada? Se ele sabia, por que continuava o estudo? Qual era o propósito daquilo?

Posso estar errada. Talvez seja uma conclusão precipitada.

Mas ela sabia que ele era capaz de fazer experimentos em crianças.

Ela disparou em direção à porta, quase tropeçando.

— Com licença, preciso me deitar — disse Terry, e colocou a mão na barriga assim que teve certeza de que o médico não conseguiria ver o movimento. Parecia que seus batimentos cardíacos vinham da barriga. A sala estava girando.

— Tudo bem — disse o dr. Brenner, atrás dela. — Você se saiu muito bem, srta. Ives.

Tudo que ela fez foi acudir Kali, coisa que ele não tinha feito.

O auxiliar a pegou pelo braço, e ela o empurrou, queria manter a mão na barriga. Seu coração batia com força, enquanto, desesperada, ela se perguntava se poderia haver outro coração dentro dela seguindo aquele mesmo ritmo.

 

4.

Alice não sabia se era efeito do ácido, dos eletrochoques ou se apenas coisa da sua cabeça, mas sentia que a energia do laboratório estava diferente naquele dia. O prédio parecia estar vibrando em outra frequência. A dra. Parks demorou para aparecer. Estava atribulada, dando conta dos jornalistas. O plano não tinha corrido conforme Terry esperava, mas talvez deixasse Brenner preocupado.

Talvez.

A dra. Parks administrou apenas uma onda de eletrochoque, forte, depois disse a Alice que “iria com calma” no resto da semana.

As pessoas estavam para lá e para cá nos corredores, agitadas, e ela viu Terry passar escoltada.

Ela também tinha captado um vislumbre de um pesadelo, em outra dimensão. Um vórtice monstruoso de fogo e energia e escuridão. Tentáculos que se estendiam e cresciam. Tão grandes que poderiam devorar o céu. Uma chama crescente de destruição visível dentro da boca da criatura...

Como alguém poderia lutar com aquela coisa?

A porta se abriu, e ela não ficou muito surpresa ao ver Kali entrar saltitante.

— Alice! — A menina correu para abraçá-la. — Hoje foi tão divertido!

— Ah, é? Por quê?

Alice olhou para a porta, mas não parecia ter ninguém atrás da menina.

— Os homens estão aqui, aí tive que fazer coisas. A Terry viu.

Alice levantou as sobrancelhas. Tinha muitas perguntas. Mas...

— Como você veio parar aqui fora?

— O papai está ocupado! Perguntei se podia visitar a minha amiga, e ele disse que sim. — Kali abriu um sorriso tímido. — Ele achou que eu estava falando da Terry. Mas eu já vi ela hoje. Então vim ver você.

Alguma coisa estava incomodando Alice. Ela sabia que as visões não eram do presente, que ainda iam acontecer, mas... A menina morava ali. Talvez soubesse de algo.

— Kali, você já viu algum monstro no laboratório?

Kali fez uma careta, tentando se concentrar.

— Acho que não. Que tipo de monstro?

Alice levantou e balançou os braços feito tentáculos.

— Grandalhão, com uns braços esquisitos e uma cabeça que abre e vira uma bocona.

Kali balançou a cabeça. Estava com os olhos esbugalhados.

— Esse bicho mora aqui? — perguntou ela, apavorada.

Boa, Alice.

Com oito anos de idade, Alice viu um filme de terror e ficou meses sem conseguir dormir de luz apagada. A mãe dela a proibiu de ver outros. De vez em quando, ela ainda espiava embaixo da cama antes de dormir. E nunca, nunquinha, deixava o pé para fora. Ela pediu para Ken contar uma história de fantasma naquela noite, no bosque, porque parte dela gostava de sentir medo. Mas, quando era criança, sentia o oposto.

— Não se preocupa, tigresa — disse Alice.

Mas Kali ainda estava de cara feia.

— Você viu o monstro, não viu?

Alice fez que sim.

— Mas não agora. Ele não está aqui agora. É no futuro.

— No futuro? — perguntou Kali.

— É só daqui a um tempo. Ainda falta. Esquece o que eu disse.

— Eu nunca esqueço! — Kali rugiu como um tigre e caminhou furtivamente pelo quarto. — Quer ver o que eu fiz para os homens? Antes da Terry chegar?

— Não. — Alice percebeu que Kali ficou magoada. — Não quero que você pague o preço.

Kali deu de ombros.

— Eu não ligo.

— Porque você é muito boazinha.

— O papai não acha — respondeu ela, na lata.

Alice estava com dificuldade para dar continuidade à conversa. Precisava aprender a falar o idioma das crianças. Por fim, tentou:

— Então o papai tem titica de galinha na cabeça.

Kali gargalhou tanto que Alice ficou até com medo de que ela fosse cair. Pelo menos, a menina esqueceu a história dos monstros de bocas famintas.

Pena que Alice não conseguia fazer o mesmo.

 

5.

Assim que o furgão foi embora, Terry se voltou para os outros, no estacionamento da universidade. Ainda estava com a mão na barriga. Não conseguia parar. Tinha pensado em um milhão de cenários, vários deles extremamente desagradáveis. Becky furiosa com ela, ter que contar para Andrew sem que ele surtasse, a probabilidade de ser expulsa da faculdade...

Além de, claro, Brenner. O que fazer?

— Precisamos conversar. Eu preciso contar uma coisa.

— Vamos até a oficina? — sugeriu Ken, preocupado. — Pena que não deu certo com os repórteres. Sinto muito. Pelo menos vão escrever um artigo.

— Quem eram aqueles homens de terno lá no laboratório hoje? — perguntou Glória.

Terry estremeceu.

— Um dos motivos da nossa conversa.

— Vem comigo, te dou uma carona — disse Alice, pegando Terry pelo braço. — Fica tranquila. Vai ficar tudo bem.

— Não sei, não. — Terry balançou a cabeça. — Vamos conversar aqui mesmo, vai. Preciso falar com a Stacey depois.

— Tá bom. — Glória assentiu, então esquadrinhou o estacionamento com bastante cuidado. — O motorista já foi embora.

Ken indicou o prédio mais próximo com a cabeça.

— Tem um banco ali. Podemos nos sentar. Se não demorarmos muito, os seguranças nem vão se importar.

A noite estava fria e calma, e o céu, oculto por trás de nuvens baixas, acinzentadas. As árvores do campus estavam começando a dar folhas, mas no escuro pareciam mais lágrimas. Quando chegaram à área que Ken tinha indicado, ele se sentou no meio-fio, e Alice fez o mesmo. Glória foi para o banco de metal e Terry se acomodou ao lado dela.

— Que foi? — perguntou Alice. — O que aconteceu?

Terry mal conseguia pronunciar as palavras.

— Eu acho que... Acho que talvez eu esteja grávida.

Ninguém sabia como reagir à notícia. Ken estalou os dedos.

— Sabia que estava acontecendo alguma coisa com você!

Terry ficou com vontade de rir. E chorar. E gritar. Mas se ateve a uma acusação:

— Você é o pior amigo vidente de todos os tempos!

— Poxa — comentou Ken. — Mas você tem razão.

Ken era tão doce que culpá-lo por qualquer coisa dava até peso na consciência.

— Desculpa.

— Tudo bem. Deixa pra lá.

— Você tem certeza? — interrompeu Glória.

— Não — respondeu Terry. — E sim. Quase certeza.

Alice não parava de olhar para ela, em choque.

— Como a gente não percebeu?

— Ela nem está com barriga direito — disse Glória. E, em um tom mais baixo, acrescentou: — Tem clínicas em que você pode ir... Ninguém precisa saber. Umas garotas da igreja já fizeram isso.

— É do Andrew — disse Terry. — Se eu estiver mesmo grávida, o bebê é meu e do Andrew. Não posso desistir dele assim.

Alice se levantou e começou a andar de um lado para outro.

— Você deveria ligar para ele.

— Ele já embarcou. Recebi um postal ontem. Ele foi para a guerra.

O pior de tudo era que ela conseguia até imaginar a reação de Andrew. Ele não surtaria. Ficaria contente. Nem por um segundo ela duvidou disso.

— Você acha que o Brenner sabe? — perguntou Glória. — Eles vivem fazendo exames de sangue na gente.

— Deve saber. Ele disse um negócio que me deixou com a pulga atrás da orelha. — Terry contou da demonstração de Kali e do que tinha acontecido depois. — Ele é intocável agora. Vocês tinham que ter visto a cara daqueles homens! Ele vai conseguir qualquer coisa que quiser deles.

— Ele sabia que você se recusaria a usar as drogas se soubesse — disse Alice. — Por isso não contou.

— Ele disse que o bebê faz parte da próxima geração de pessoas extraordinárias deles. — Terry balançou a cabeça. — Eu taco fogo naquele lugar antes de deixar isso acontecer.

— A Kali ainda está lá. — Alice suspirou. — Ela veio me ver hoje. Acho que a assustei.

— Como?

— Talvez tenha descrito um monstro para ela.

Ah, não!

— Alice!

— Vejam pelo lado bom, ela disse que não viu nada assim. Terry, o que você quer que a gente faça?

— Nada. Só me ajudem a pensar em uma solução. Todos vocês. Com todas as forças. Deve ter algo que a gente possa fazer para se livrar daquele lugar. Ele não pode tirar meu bebê de mim.

Glória pegou na mão de Terry.

— Ei! Calma! Você acabou de ficar sabendo, e ainda por cima no meio de uma viagem de ácido. Precisa parar e pensar com clareza. O próximo passo é descobrir com quantas semanas você está. Ver se o bebê está saudável...

— Tenho certeza de que eles estão prestando atenção nisso — comentou Terry, amarga.

— Mas você, não. Acho que ter essas informações vai fazer você se sentir melhor. — Glória afastou uma mecha de cabelo da bochecha da amiga, e Terry lembrou que a mãe costumava fazer aquilo. — Você vai ficar bem.

Terry apertou a mão de Glória e sorriu.

— Obrigada. A todos vocês.

Ela precisava falar com Stacey. Dar o próximo passo para o próximo passo. Para então dar o seguinte. Ken também se levantou e, sem pedir permissão, tocou a barriga dela.

— O que você está... — protestou Kerry.

— É uma menina — disse ele. — Não consigo ver você nem ela claramente, mas é uma menina.

Uma menina. Uma menina. Ela seria mãe de uma menina.

Pelo menos, dessa vez, Ken tinha cinquenta por cento de chance de estar certo... Quer dizer, se estivesse mesmo grávida, e não passando por um surto paranoico.

 

6.

Quando Terry entrou no quarto, Stacey estava no meio da cama desarrumada, pintando as unhas do pé de rosa.

— Ainda bem que você está aqui — disse Terry.

A Sociedade — os novos amigos dela — entendia pelo que ela estava passando de um jeito que ninguém mais seria capaz de entender. Mas Stacey era a amiga mais antiga de Terry. Ela a entenderia de outro jeito, e era disso que Terry precisava no momento.

— O que foi, lindinha? — perguntou Stacey, sem se dar conta da clara expressão de pânico no rosto da amiga.

Terry se sentou na beirada da cama e arrancou o esmalte da mão dela.

— Ei! — protestou ela.

Terry colocou o esmalte em cima da escrivaninha e puxou a mão de Stacey para sua barriga.

— Acho que entendi por que ando tão insuportável e com tanta fome.

Stacey olhou para a própria mão, então para a amiga. Estava em choque, exatamente como Terry imaginou.

— Terry! — Ela respirou fundo. — O que você vai fazer?

Terry quase riu. Havia algo de reconfortante na maneira como todos os amigos reagiam, com a mesma incerteza que ela sentia.

— Eu estava contando com você para me ajudar a decidir. Preciso confirmar ainda. Mas não quero me consultar com o meu médico. Tenho medo de que o laboratório esteja observando qualquer movimentação dele.

— Terry, meu amor, para de se preocupar com aquele laboratório. Você tem que parar de ir lá!

Terry se jogou na própria cama.

— Escuta... Você pode agendar uma consulta com o seu médico? Prefiro me consultar com ele.

Stacey assentiu.

— Vou ligar para lá assim que acordar.

— E pode dar o seu nome?

Mais uma vez, ela se passaria por Stacey.

— Claro! Agora entendi por que você está tão paranoica. Hormônios da gravidez. — Stacey fez uma pausa. — Mas fique sabendo que o meu médico é um velho nojento. Tenho certeza de que ele me apalpou uma vez.

Ela já se sentia praticamente graduada em gente nojenta, graças ao laboratório.

— Vou sobreviver.

Stacey se aproximou e puxou Terry para um abraço.

— O Andrew vai ficar muito contente. Ele teria pedido você em casamento antes de ir embora, se soubesse.

— Eu sei. Acho que ele seria o único empolgado com a novidade.

— Facilitaria as coisas. Isso não é nada bom — comentou Stacey, apontando o óbvio. — Vai dar muita dor de cabeça.

Terry deveria ter concordado. Tinha pensado a mesma coisa, no fim das contas. Ainda assim, tudo dentro dela rejeitava aquela ideia. Talvez porque Ken tinha dito que o bebê era uma menina. Ou porque ela sabia que precisava ser mais forte agora.

— Não, ela não vai dar dor de cabeça. Vai ser perfeita.

— Já disse: hormônios da gravidez.