Stranger Things: Raízes do Mal

Gwenda Bond · Capítulo 9 de 17

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Stranger Things: Raízes do Mal

Capítulo Cinco: Não é nada, não

Capítulo Cinco

 

NÃO É NADA, NÃO

 

NOVEMBRO DE 1969

Bloomington, Indiana

 

1.

O cardápio no refeitório aquela noite eram pão com carne moída e bolinho de batata. O cheiro de fritura e de molho levemente queimado pairava no ar, misturado aos aromas conflitantes de perfume, desodorante e suor de uma multidão. A universidade havia estipulado que a transmissão do pronunciamento do presidente Nixon sobre o Vietnã era um evento obrigatório — como se isso pudesse conter os manifestantes.

Terry sabia que aquilo não passava de embromação, mas não precisou trabalhar naquela noite, então lá estava ela. Espremida entre as pessoas à sua volta, não tinha nem como deixar os livros na mesa. Mas não podia reclamar: todas as cadeiras haviam sido ocupadas, o que fez com que pelo menos uns cem alunos se vissem obrigados a sentar no chão, de pernas cruzadas. Na frente da sala se encontrava uma televisão tão pequena que praticamente ninguém conseguiria ver alguma coisa.

Andrew tinha combinado de se encontrar com Terry ali, mas ainda não tinha aparecido. Quando ela telefonou mais cedo, do alojamento, Dave atendeu e aproveitou para fazer um discurso inflamado sobre como era injusto a universidade obrigá-los a mostrar qualquer tipo de respeito em relação a Nixon. Talvez Andrew faltasse em sinal de protesto. Com sorte, ninguém notaria.

— Terry! — gritou Stacey por cima do burburinho das conversas, abrindo caminho.

Em vez de pegar um lugar no fundo, ela se enfiou entre Terry e o desconhecido ao lado dela, e se sentou no tampo da mesa.

— O Andrew ligou — disse ela, projetando o corpo para a frente, sem se importar com as caras feias dos espectadores ao redor. — Ele disse...

— Silêncio, por favor! — pediu um funcionário da universidade, ao microfone.

Logo depois, colocaram o microfone diante do televisor, com o volume no máximo. Nixon apareceu no centro da tela, diretamente do Salão Oval. Testa larga, nariz de batata.

— Boa noite, meus caros americanos — disse o presidente.

O som oscilava.

Stacey sussurrou no ouvido de Terry:

— Eles estão vindo para cá.

— Ah, que bom — retrucou Terry, sem captar a urgência na voz da amiga.

— Shhh — lançou por cima do ombro um garoto sentado no chão, na frente delas.

Stacey fez cara feia, mas acatou o pedido.

Nixon prosseguiu com uma justificativa para a permanência no Vietnã depois de ter prometido a saída das tropas. O público assistia sem piscar.

De repente, as portas da frente do refeitório se escancararam, e três figuras entraram correndo. Terry foi tomada por uma onda de medo quando viu que vestiam máscaras de Halloween... E então ela reconheceu uma delas: Frankenstein. Outra era do próprio Nixon. E a terceira, do Super-Homem, com o cacho caído na testa.

Os três estavam usando máscaras que tinham sido deixadas na casa de Andrew, no dia da festa.

Stacey encarou Terry, as sobrancelhas arqueadas.

— Eu falei...

Orgulho e pavor guerreavam dentro dela, enquanto os manifestantes formavam uma fila diante da televisão, de braços dados. O coordenador foi até eles e tentou expulsá-los, chamando a segurança.

— Não deem ouvidos a ele! — gritou Dave.

E então a voz de Andrew:

— Chega de mentiras! Chega de guerra!

Alguns alunos urraram a favor e deram força ao coro: “Chega de guerra!” Outros continuavam querendo ouvir o presidente e gritaram pedindo silêncio. Todos tinham se levantado e se amontoado, irrequietos. Terry tentou em vão abrir passagem pela multidão. Os seguranças chegaram primeiro.

Mas não eram os seguranças universitários, e sim a polícia.

O último grito de Andrew antes de ser algemado foi uma frase que ele havia mostrado a ela em uma foto de um protesto em São Francisco.

— Frodo vive!

Terry balançou a cabeça. Ela transbordava orgulho.

Amava o herói bobão que existia dentro deles dois.

* * *

Terry chegou à delegacia meia hora depois do fim do discurso. O coordenador tinha deixado claro que os alunos que saíssem antes da hora se juntariam aos presos. E Becky não ficaria nada contente com uma coisa dessas.

Assim, ela esperou, em pânico, enquanto Nixon afirmava que suas políticas representavam uma maioria silenciosa e que os manifestantes eram uma minoria que tentava ganhar o dia fazendo barulho. Ela correu para casa para pegar todas as suas economias, caso precisasse pagar a fiança de Andrew.

Ficou aguardando em um lugar que parecia até o laboratório de Hawkins, só que menos limpo e reluzente. Havia pessoas entrando e saindo o tempo todo, algumas de uniforme.

— Quem você está procurando?

O policial atrás do balcão tinha as sobrancelhas tão juntas que parecia em estado permanente de reprovação.

Terry se levantou em um sobressalto, apertando a bolsa ao corpo.

— Andrew Rich.

— Andrew Rich foi acusado de perturbação da paz e invasão de propriedade. A universidade pretende puni-lo da forma mais severa possível.

Era o que ela temia. A situação dele já era periclitante.

Foque no problema imediato.

— Quanto é a fiança?

— Cem dólares.

Exorbitante. A relutância do banco em abrir uma conta para uma mulher solteira de repente veio a calhar. Ela controlava o próprio dinheiro, guardado em um envelope na gaveta de calcinhas. Custaria a ela cada centavo que ganhara em Hawkins, mas valeria a pena.

— Vou pagar em dinheiro.

— Ótimo, porque não aceitaríamos cheque de uma garota sem aval dos pais.

— Meus pais já faleceram.

Ele teve a decência de baixar o rosto.

— Sinto muito, senhorita.

Terry contou o dinheiro e o entregou ao policial.

— Pode se sentar e aguardar mais um pouco — orientou ele.

Ela hesitou.

— Eu gostaria de um recibo, por favor.

As sobrancelhas reprovadoras se arquearam. Contudo, o homem lhe entregou o papel. Em seguida, sinalizou a área de espera.

— Vou pedir para alguém soltá-lo agora mesmo.

Não foi bem o que aconteceu, já que Terry teve que esperar mais meia hora até Andrew aparecer na companhia de outro homem fardado. Naquele momento, porém, ela pouco se importou com o que pensariam dela: só correu para abraçá-lo.

— Amor — disse ele em voz baixa —, você deveria ter me deixado passar a noite aqui. A fiança foi cara!

— Para com isso!

Terry deu um beijo no rosto dele e o puxou para a saída. Ela sentia que ter contato com ele era crucial. Assim como ir embora dali.

— Não deveriam ter prendido você.

— Já imaginávamos que fariam isso.

Quando chegaram do lado de fora, Terry inspirou o ar puro, como se fosse ela quem tivesse passado duas horas em uma cela.

— Você deve estar se perguntando o que se passou pela minha cabeça — disse Andrew. — Tentei ligar. É que, nossa, mandar a gente prestar atenção naquele discurso... Fingir que aquilo tem algum significado de verdade... Eu... A gente tinha que fazer alguma coisa.

— Eu sei.

Para Terry, era simples. Ela entendia.

— Pensei em você e no laboratório... em como você é corajosa. — Ele balançou a cabeça. — Não vou deixar de lutar.

Ele tinha pensando nela. E ela sabia que muitas águas ainda iam rolar.

— Vamos para casa. Por hoje já chega de luta.

Mas o dia ainda não tinha acabado. As possíveis consequências do protesto se arrastavam com eles, feito sombras. No carro de Terry, uma lata-velha caindo aos pedaços, passaram o trajeto todo para o apartamento de Andrew e Dave em silêncio. Dave e o outro amigo optaram por passar a noite na cadeia, mas Terry não sabia se era bem uma decisão ou se os pais deles tinham se recusado a pagar a fiança.

Ela estacionou no prédio dele e deixou o motor ligado. Andrew se virou e colocou a mão no rosto dela.

— Agora que você me resgatou, o que preciso fazer para convencer você a entrar comigo? A passar a noite aqui?

A pergunta pairou sobre eles. A vontade nos olhos dele era quase palpável.

E recíproca.

— Achei que você nunca fosse perguntar.

O silêncio do carro os acompanhou até o apartamento, até o quarto de Andrew, onde seus lábios já se encontravam. Lá dentro, a sós, revelaram tudo que não poderiam exprimir em palavras. Sentiam a ameaça à espreita em todos os espaços onde a pele deles não se tocava. O mundo lá fora queria separá-los, romper o que tinham. Havia ameaça da faculdade — as providências que poderiam tomar para punir Andrew — e outra do laboratório, o poder de Brenner que Terry talvez tivesse que desafiar.

Então, resolveram lutar contra o mundo lá fora da única maneira possível: fingindo que ele não existia. E, naquela noite, ele desapareceu por completo.

 

2.

Terry cortou uma fatia generosa de torta e entregou o prato de sobremesa para a única mesa que ainda faltava ser atendida. Ela correu de volta ao balcão e acenou para Laurie, a outra garçonete da tarde, que fazia todas as tortas.

— Vou tirar um intervalo rapidinho. Só dez minutos, pode ser? — perguntou.

— Vai lá, querida! — disse a colega, uma mulher mais velha. — Pode ficar com os seus amigos.

Terry pegou uma cadeira e a arrastou até a cabeceira da mesa onde Ken, Glória, Alice e Andrew tinham acabado de almoçar. Sanduíche de bacon com salada e Coca-Cola para todo mundo. Foi mais fácil atendê-los dessa vez. Pelo menos ela já esperava por eles.

— Por que você chamou a gente? — perguntou Alice, sem enrolação. — Já tem um plano?

Andrew a cutucou com o cotovelo.

— Pô, irmãzinha! É claro que já.

— Acho que sim, mas só se vocês estiverem de acordo. — Terry falava baixo. — Eu estava pensando... Se tudo der certo e eu conseguir entrar na ala onde vi a Kali...

— Acho que posso ajudar com essa parte — disse Alice. — Sempre presto atenção quando Brenner digita a senha. Nove-cinco-seis-três-nove-seis. É sempre a mesma coisa. Provavelmente funciona em todas as portas do laboratório, inclusive nessa que você precisa abrir.

Houve um momento de silêncio.

— Alice, você sempre me surpreende — comentou Terry. — Anota para mim? Para eu decorar.

— Claro. — Alice deu de ombros, encabulada. — Sou muito observadora, só isso.

— Qual é o próximo passo do seu plano? — perguntou Glória.

— Assim que cuidarmos disso... alguém precisa bolar uma distração para eu encontrar a menina de novo e conversar com ela. Estou partindo do pressuposto de que ela ainda está por lá. Se não estiver, pensei em procurar o escritório do Brenner e vasculhar as coisas dele. Não podemos simplesmente parar de ir ao laboratório...

— Você tem certeza disso? — perguntou Andrew.

Terry ficou apreensiva.

— Em primeiro lugar, tem uma criança pequena participando de um experimento, e não sabemos se está segura.

— Segundo — disse Glória —, não é tão simples assim. Nós três seríamos reprovados na faculdade, isso se nos deixassem largar o experimento.

— Como assim, se deixassem? — perguntou Andrew, abismado.

Terry pegou na mão dele para lembrá-lo de falar baixo. Ele assentiu e continuou:

— Vocês têm direitos. São cidadãos americanos.

Glória abriu um sorriso irônico.

— Você sabe que, quando o governo está envolvido, nossos direitos viram conceitos abstratos.

Andrew refletiu por um momento e disse:

— Não estou gostando nada disso.

— Bem-vindo ao clube — comentou Glória. — Sou a presidente.

— Olha, faço o que for preciso — interrompeu Alice. — Estou louca para desmontar aquele elevador. Acho até que consigo convencê-los a me deixar fazer isso.

— A Alice não faz faculdade. Talvez ela possa deixar o experimento — interpelou Andrew novamente.

Glória pigarreou.

— Não temos como saber. Esses caras têm recursos.

Alice se empertigou.

— Vocês falam como se eu não tivesse escolha. Não vou deixar ninguém para trás. Inclusive, posso servir de isca.

Ken finalmente se pronunciou:

— Não. Você já tem bastante com o que se preocupar. Deixa isso comigo.

— Você?! — perguntou Alice, cética.

— Sou fera em distrações, cara. — Ele deu de ombros. — E o ácido não faz efeito em mim. Só fico com vontade de tirar um cochilo. Eles deixam um auxiliar inexperiente comigo. Nem sei por que estou participando, só sei que é isso que precisa ser feito.

Alice respirou fundo.

— Bom, se você vai cuidar da distração, só toma cuidado para não cair no sono — comentou Terry, sentindo que a reunião estava saindo de seu controle. — A gente só tem que sincronizar o plano certinho. Se eu encontrar a Kali, pensei em perguntar para ela sobre o “papai” e o que fazem com ela no laboratório. Mas... e se eu for para o escritório do Brenner? Não sei qual das opções nos ajudaria mais, nos daria mais informações.

Glória se debruçou na mesa.

— Acho que posso ajudar com essa parte. Se você der um jeito de entrar no escritório dele, o ideal seria pegar os documentos que descrevem os protocolos do experimento. E os relatórios das cobaias também. — Ela fez uma cara séria. — Talvez você precise procurar uma chave. Brenner não é um cara relapso. Cientistas que se prezam guardam as informações confidenciais a sete chaves.

— Eu sei abrir fechaduras — comentou Alice.

Caramba!

— Ele é tão arrogante que acho que não vai ser preciso — arriscou Terry. — Aposto que ele se preocupa tão pouco com proteção em Hawkins que nem deve se preocupar com qualquer medida de segurança dentro do escritório.

Glória cruzou os dedos.

— Acho que... Talvez eu consiga pegar umas amostras do coquetel alucinógeno. Caso a gente precise de provas, ou queira analisar, por alguma razão.

— Ótimo — disse Terry.

Glória arqueou as sobrancelhas.

— Então é isso, temos um plano impreciso e arriscado.

— É isso — pontuou Terry.

Pelo menos, um plano impreciso era melhor que plano nenhum.

Alice cutucou Andrew com o cotovelo.

— Fiquei sabendo do seu protesto, irmãozinho. Não acredito que você foi preso! Está tudo bem?

A preocupação genuína dela aqueceu o coração de Terry. Aqueles últimos cinco minutos provavelmente foram os únicos do dia que ela não passou se preocupando com ele.

— Está tudo bem, sim — respondeu Andrew, baixando a cabeça.

— Ele tem uma reunião com o orientador dele e o coordenador da faculdade na sexta-feira — comentou Terry. — A gente acha que não vai dar em nada, com base nos outros dois meninos que também foram presos.

Andrew lhe agradeceu com o olhar.

Glória cruzou os dedos.

— Pois é — disse Terry. — Precisamos de toda a sorte do mundo nesse momento.

 

3.

Ken foi o último a sair do furgão. Ele apressou o passo para alcançar as garotas, e os quatro entraram no laboratório juntos.

O itinerário já era tão familiar para ele quanto a própria letra. Saindo da cidade, vinham os milharais, depois o bosque, e então a cerca metálica e os quebra-molas — um, dois, três — conforme passavam pelas guaritas de segurança e adentravam o prédio, rumo ao LSD. Mesmo antes da primeira viagem, ele sentia que já tinha percorrido aquele trajeto, ou pelo menos algumas partes. Ken sabia que os outros não acreditavam que ele era vidente. Mas o que as outras pessoas achavam não importava.

Por outro lado, a verdade sim. Ele não via monstros, mas tinha essas sensações. A certeza se alojava em seu peito. Em seus sonhos, misturavam-se fragmentos de realidade. Lampejos de intuição. E como eram imprevisíveis — uma ironia que Ken achava engraçada —, ele não ficava surpreso quando tinha um pressentimento. Ou quando não tinha.

Ele não estava mentindo quando disse ao grupo que sabia que seriam importantes uns para os outros. O problema era que... isso era praticamente tudo que ele sabia.

Então, bem, ele entendia por que as pessoas não acreditavam que ele era vidente. Talvez não fosse. Talvez não houvesse uma boa palavra para descrevê-lo.

O protocolo de entrada também já tinha ganhado um ritmo familiar. As mulheres entravam com seu cartão de identificação, e Ken passava por último. Quase sempre, o motorista os escoltava até o elevador, onde Brenner ou um de seus funcionários aguardavam. O motorista, é claro, também fazia parte daquilo tudo — era um dos auxiliares de Brenner e seguia o médico e Terry em qualquer que fosse a sala que estivessem no dia.

Daquela vez não foi diferente.

Seguindo o combinado, quando duas horas tinham se passado desde que tomaram as drogas, Ken começou a insistir que as paredes estavam sangrando. O chilique foi o suficiente para deixar o auxiliar bastante nervoso.

— Estão sangrando! As paredes estão jorrando sangue!

— Fala mais baixo! — ordenou o homem, incomodado.

— Acione o alarme! — rugiu Ken. — Os outros precisam saber! Estamos sendo invadidos! Você não está vendo o sangue?!?

— Hum...

O auxiliar olhou ao redor, como se alguém pudesse ajudá-lo, mas os dois estavam sozinhos na sala.

Era a hora de Ken sacar a arma secreta — um pacote de balinhas azedas explosivas. Ele tinha se encarregado de fazer as compras de dia das bruxas para a mãe, e, quando se deparou com esse lançamento na prateleira, algo lhe disse que precisava levar. Comprou três pacotes e guardou em uma gaveta da escrivaninha, no alojamento. Ele entendeu o porquê da compra assim que Terry comentou que precisava de uma distração.

Enquanto se contorcia e soltava gemidos, Ken tapou o rosto e enfiou na boca um punhado das balas efervescentes. Mastigou tudo e jogou a cabeça para trás, para que o homem pudesse ouvir o ruído frisante dos pequenos estouros e ver a espuma. Ele se debateu da forma mais convincente que pôde, imitando um tio que certa vez sofrera uma convulsão na sua frente.

Como era de se esperar, o funcionário — tão jovem, praticamente uma criança — surtou.

— Pessoal, acho que ele está com raiva! — gritou o auxiliar, e saiu correndo.

— O sangue! O sangue! — berrava Ken, mal conseguindo conter o riso.

O vidente deixou a sala e puxou a alavanca do alarme de incêndio no corredor, então se apressou, jogou as balas restantes na boca e começou a convulsionar no chão.

O alarme ainda ecoava quando o jovem assistente voltou com uma médica, que olhou para Ken e declarou:

— Precisamos do dr. Brenner aqui.

O auxiliar não moveu um músculo, e ela o expulsou da sala com um empurrão.

— Chame o dr. Brenner! E peça para ele trazer os sedativos!

Ken virou a cabeça para rir.

Vai, Terry! Agora é com você!, pensou. Você consegue.

 

4.

Terry descobriu que ter companheiros de luta e um plano conjunto mudava tudo.

Isso ao mesmo tempo aumentava e diminuía seu fardo.

Todos achavam que Brenner estava metido em algo que não deveria. O encontro com Kali e a revelação de Alice sobre os monstros — e sobre o eletrochoque — foram os motivos que faltavam para ela mergulhar de cabeça numa investigação. Em geral, as pessoas da região eram conservadoras. Não aprovariam viagens de ácido financiadas pelo governo. Talvez isso fosse o bastante para derrubarem o experimento. Mas até mesmo Terry sabia que precisavam de provas, ou seria a palavra deles contra a de Brenner. E o grupo ainda não tinha uma noção real do que estava acontecendo.

Ken prometeu que ela reconheceria a distração na hora certa. Ele agiria durante os estágios iniciais da viagem de ácido, antes de Terry chegar ao pico e entrar na espiral de paranoia, ladeira abaixo. E ele não estava mentindo. O alarme de incêndio começou a esbravejar, e logo depois um jovem auxiliar bateu à porta.

— O que foi isso? Alguma emergência? Um incêndio? — perguntou Brenner.

Ele estava contente com os resultados dela: ninguém tinha desconfiado do grampo. Aparentemente, já sabia que o dispositivo havia sido instalado. Ainda bem que Glória pensava rápido!

— Hum... Não é bem isso. É um dos pacientes. — O funcionário gaguejava, nervoso. — A dra. Parks mandou que eu chamasse o senhor. Rápido! Ah, e ela pediu para levar sedativos.

— Prepare os sedativos! — ladrou Brenner para o auxiliar mais próximo, o motorista barbado que vivia pairando sobre eles. Ele se aproximou de Terry e se agachou na beirada da maca. — Quero que você fique aqui e relaxe. O alarme é coisa da sua cabeça.

— Coisa da minha cabeça — disse ela, na sua melhor simulação de torpor. — Como uma música bonita.

O médico fez um sinal para os outros dois homens o acompanharem.

— Vamos lá!

Terry observou a movimentação de olhos semicerrados e se levantou assim que deixaram a sala.

O corredor estava tumultuado, com alguns funcionários deixando o prédio, enquanto outros perguntavam se deveriam mesmo sair dali. Um segurança passou por Terry e respondeu para um deles que não, o sistema de alarme tinha sido acionado manualmente e não havia evidências de incêndio. A ameaça estava sendo investigada, e o alarme seria desligado logo.

Ela seguiu pelo corredor de cabeça baixa. Espiou pela fresta de uma porta e viu Alice sorrindo junto a uma máquina enorme, um trambolho que mais parecia um pulmão de ferro.

O trajeto até a área onde havia encontrado Kali parecia ter sido gravado em sua mente, mas, sem querer, ela virou em um lugar errado. Depois outro. Estava quase desistindo quando reconheceu o corredor, a ala separada pelo teclado numérico. Então apertou o passo e digitou o código que Alice tinha lhe passado.

O dispositivo apitou, e a porta se abriu.

Terry entrou correndo e passou por uma série de portas, até se deparar com um quarto com beliche e uma mesinha cheia de giz de cera. Mas Kali não estava lá.

Pelo menos, talvez signifique que ela não está aqui sempre. Terry não conseguia tirar aquela ideia horrenda da cabeça, por mais improvável que fosse.

O próximo passo era tentar encontrar o escritório de Brenner. Kali se refere a ele como pai, então não deve ser muito longe, certo? Ou ela era filha dele, ou uma criança importante para ele, de qualquer forma.

Terry deu meia-volta e testou a outra ramificação do corredor. Logo de cara, deparou-se com uma nova série de portas, protegidas por mais um teclado numérico. A senha funcionou, e as esperanças dela foram renovadas. Em vez de salas de exames, o corredor da vez tinha escritórios. E do lado de cada porta, havia uma placa com um nome.

Ela estudou uma por uma, torcendo para que as palavras parassem de palpitar e dançar, ainda que soubesse que o LSD não permitiria que aquilo acontecesse.

DR . MARTIN BRENNER.

Terry passou a mão pelas letras em relevo.

Aleluia. Testou a maçaneta: a porta estava destrancada. O alarme de incêndio parou de repente, mas ela sabia que Ken faria de tudo para prolongar a distração. De qualquer forma, não tinha muito tempo. Brenner não podia desconfiar deles.

Ainda não.

Terry tentou abrir a gaveta da escrivaninha. Trancada.

Bem que a Glória falou.

Mas quantos documentos cabiam numa gaveta? Atrás da escrivaninha, havia um grande gabinete de madeira. Ela rezou mentalmente e puxou a segunda gaveta.

Abriu fácil. O compartimento guardava fichas com as palavras MKULTRA e ÍNDIGO no topo, marcados com carimbos de CONFIDENCIAL. Nenhum dos termos significava nada para Terry, então ela vasculhou as fichas atrás dos que Glória havia especificado, e nada. Seguiu para a próxima gaveta.

Terry percebeu logo que havia algo de interessante ali. Dessa vez, as fichas não continham nomes, somente números. 001. 002. 003. Assim seguiam, até o 010. As palavras PROJETO ÍNDIGO e um carimbo de CONFIDENCIAL de novo estampavam o topo das páginas. Mas foram as descrições físicas contidas nos documentos que fizeram com que ela percebesse exatamente o que tinha encontrado. Os pesos baixos. As alturas, que começavam em 97 centímetros. E as idades listadas na categoria admitido(a) aos:

4 anos.

6 anos.

8 anos.

A julgar pelas fichas, Kali não era a única criança envolvida naquilo. Mas envolvida em quê, exatamente? A maior parte das anotações focava no progresso de cada uma. E, aparentemente, não tinham evoluído muito. Exceto por 008, cujo relatório apresentava dados promissores, ainda que temerários...

Você não tem tempo para ler tudo isso.

Ela fechou a gaveta.

O coração de Terry batia acelerado. Ela deixou o escritório e tentou recapitular seus passos, correndo. Arriscou espiar o quarto de Kali mais uma vez e viu que a menina estava de volta, sentada à mesa, desenhando, de camisola.

Talvez ela tenha consultas no mesmo dia que eu.

Antes que Terry pudesse bater à porta, alguém a agarrou pelo braço. Kali não chegou a notar a presença dela. Um homem de terno folgado, grande demais para ele, puxou-a de volta para o corredor.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou. — É uma área restrita.

Ela tentou pensar rápido.

Ken! O álibi perfeito.

— Ouvi o alarme de incêndio, estava tentando sair do prédio.

— Mas como você veio parar aqui?

— Não sei dizer... Segui o tumulto.

Difícil dizer se ele acreditou.

 

5.

Alice precisou se conter para não bater palmas quando o alarme ecoou, como se uma onda de alegria a tivesse preenchido. Pouco tempo depois, um auxiliar que aparentava ser muito jovem entrou na sala em pânico, e antes que a dra. Parks pudesse esboçar qualquer pergunta sobre o possível incêndio, ele implorou para que ela o ajudasse com uma das outras cobaias.

Ken.

Ele tinha conseguido. Quem diria? Alice ficou tentando traçar planos Bs e Cs no caminho para o laboratório. Só de pensar nisso naquele momento, ela visualizou versões gigantescas das letras B e C flutuando em sua mente, como se um avião as traçasse com fumaça em piruetas feitas no ar. Efeito das drogas, claro. Nada de eletricidade até aquele instante, o que significava nada de monstros também. Já fazia duas semanas, então talvez os monstros tivessem ido embora.

Ela fechou os olhos e se deixou levar pelo alarme. Um som cheio de propósito. Difícil de ignorar, alto e estridente, perfeito para sua função.

Alice ficou apreciando a elegância daquilo.

E notou imediatamente quando o alarme parou. Quanto tempo tinha se passado, afinal? Ela não fazia ideia, mas, ao voltar para a sala, a dra. Parks parecia bem agitada.

E se Terry precisasse de mais tempo?

— Quero ver o dr. Brenner — disse ela, os Bs e Cs ainda dançando em sua mente. — Preciso contar uma coisa para ele.

— Não sei se é uma boa ideia.

Ainda à porta, a dra. Parks se virou e fez uma cara feia. O auxiliar entrou sem pedir licença.

— Chama o dr. Brenner! — ordenou Alice. — Tenho que fazer um negócio. Preciso da eletricidade.

Ela havia se esquecido de olhar para o relógio. Terry precisava de tempo.

Todos os objetos da sala que tinham botões ou monitor palpitavam. Pareciam querer incriminar Alice.

— O dr. Brenner! — exigiu.

— Ok, ele já vem! — disse a dra. Parks, e o auxiliar saiu da sala.

Alice apontou para o trambolho, aquela presença frequente em seus pesadelos. Ela acreditava que as máquinas eram boas, objetivas, mas ali aprendeu algo que já deveria saber. Os seres humanos sempre arranjam um jeito de usar qualquer invenção para infligir dor.

— Liga na tomada — ordenou ela à dra. Parks.

A médica crispou os lábios e balançou a cabeça, murmurando para si mesma:

— Pedir pela terapia de eletrochoque não é normal.

O dr. Brenner entrou na sala de cara fechada, irritado.

— O que foi?

— Me dá eletricidade que eu descrevo os monstros para você. Acho... Acho que são de verdade.

Os olhos do dr. Brenner brilharam. O interesse superou a irritação.

Quando terminou de afixar os cabos em Alice, a dra. Parks parecia encará-la de modo solidário.

Não, pensou Alice, não sinta pena de mim. Eu é que estou no comando hoje.

Ela absorveu a onda elétrica, uma carga, como a de uma bateria, e narrou o que estava vendo. Um vislumbre de um bosque nebuloso onde já tinha caminhado com os primos. De repente, surgiu uma matilha de cachorros com muitas patas. Meio selvagens, meio domesticados. Eram os cachorros da infância dela, que viviam na oficina. Talvez os monstros não aparecessem dessa vez... Mas não eram cachorros — só pareciam. Eram monstros. Monstros que rosnavam e mordiam, enquanto luzes coloridas dançavam em torno deles.

Alice abriu os olhos para ver se o dr. Brenner ainda estava prestando atenção.

— Ela continua fascinante — disse o médico. O homem não acreditava nos monstros, claro. E talvez estivesse certo. Ela ainda não tinha certeza da existência deles. — Preciso voltar para a minha cobaia. Espero um relatório completo sobre qualquer outra ocorrência digna de nota hoje.

Os esforços para manter o foco deixaram Alice exaurida. Já tinha caído no sono antes mesmo que a dra. Parks tivesse terminado de desconectá-la da máquina — ou pelo menos esperava ter caído no sono, pois teve visões rápidas e confusas de Terry tomando choques no lugar dela. Tinham colocado eletrodos nas têmporas da amiga, e uma figura embaçada, que Alice identificou como o dr. Brenner, observava, enquanto Terry berrava sem parar.

 

6.

Glória tinha se preparado para sair de fininho da sala de exames e tentar encontrar um estoque de drogas no laboratório. Mas, quando girou a maçaneta, percebeu que estava trancada. Foi um momento de pânico, com o alarme de incêndio a toda.

Não é um incêndio de verdade, disse a si mesma, e começou a contar os minutos até se lembrarem dela.

Dez minutos.

Dez minutos prostrada na sala de exames, cada vez mais encolhida, afundando no mal-estar. Quando o ingênuo dr. Green apareceu, ela esperava que formassem uma fila para... Não sabia dizer para quê. No entanto, ele só tinha entrado na sala para informá-la de que o laboratório não estava pegando fogo. E ela também não fez nenhuma pergunta sobre a porta trancada.

Mas não sairia dali de mãos totalmente vazias: como não queria arriscar, havia escondido a dose de LSD que lhe deram e apenas simulado o efeito. Já estava paranoica o bastante sem as drogas.

O médico não notou nada de errado e deu início à bateria de testes. Ele realmente acreditava que estava fazendo um progresso incrível ao mostrar a eficácia de um interrogatório sob efeito de drogas.

Pelo menos aquela dose provaria que os esforços dela não tinham sido em vão.

* * *

Nenhum deles abriu o bico durante o trajeto de volta, claro. A conversa teria que esperar. Como se tivessem combinado durante aquele silêncio, porém, todos ficaram fazendo hora em seus respectivos carros no estacionamento da universidade até que o furgão fosse embora. Então tornaram a sair e se reuniram sob a tênue luz de segurança do campus.

— Em primeiro lugar, uma salva de palmas para o homem da noite! — declarou Terry, mantendo a voz baixa.

Ken fez uma reverência. Todos aplaudiram, mas não pareciam muito animados. Glória imaginava que queriam saber se o risco tinha valido a pena.

— E aí? — Alice se balançava para a frente e para trás, ora se apoiando na ponta dos pés, ora nos calcanhares, tremendo de nervoso.

Glória se solidarizou.

— Encontrou alguma coisa?

— Encontrei — contou Terry. — Mas ainda não sei o que significa.

— O que era? — perguntou Alice.

— Acho que estão trabalhando com crianças. Não só a Kali. Mas não consegui descobrir do que se tratam os experimentos.

O que quer que estivessem imaginando, não chegava perto dos fatos.

Glória colocou as mãos na barriga, de repente se sentindo enjoada. Pensou no período que passou confinada na sala. Jamais confiaria crianças aos cuidados daquele laboratório.

— O que você encontrou?

— Pastas, bem como você falou. Fichas de várias crianças, participantes de um experimento chamado Índigo. Não tive tempo de conferir as anotações detalhadas. Li só umas notinhas sobre o avanço da pesquisa. — Terry falava em um tom sombrio porém determinado. — Encontrei a Kali também, mas não consegui falar com ela. Parecia saudável. Mas... já ficou claro que tem alguma coisa errada lá.

— E nós vamos descobrir o que é — completou Alice.

A voz dela vibrou de emoção com a promessa.

Terry se virou para Glória.

— Como você está se sentindo?

Glória fitou Alice.

— Você pode me ensinar a arrombar fechaduras?

Alice franziu a testa, mas fez que sim.

— Claro. As fechaduras do laboratório?

Glória relaxou um pouco e desabafou:

— Eles me deixaram trancada quando tocou o alarme.

— Caramba! — disse Ken.

— Não fiquei muito contente com a descoberta... Por isso, não consegui fazer a minha parte, mas escondi minha dose na palma da mão. Vou tentar de novo semana que vem.

— Quer dizer que vamos voltar? — perguntou Terry.

— Não temos escolha — disse Glória. — Nada mudou.

— Pelo menos sabemos onde buscar provas — comentou Terry, tentando ver o lado bom. — E a senha que a Alice me passou funcionou. Não vou desistir.

— Ninguém aqui vai desistir — anunciou Glória.

— Merda! — xingou Ken.

Por um instante, uma luz branca de farol mirou neles. Um veículo estava fazendo o retorno. No escuro, Glória não conseguia enxergar muito bem. Será que o furgão estava voltando?

— Melhor irmos embora. Se cuidem! — disse Terry.

Alice hesitou.

— Você está bem? — perguntou.

— Aham — respondeu a mecânica, sem muita convicção. — Não precisa se preocupar comigo.

A maneira como Alice assentiu fez Glória desconfiar da simplicidade daquela pergunta.

 

7.

O dr. Brenner entrou na sala de monitoramento às oito e meia da noite. As estações de escuta estavam abarrotadas, e a equipe toda, atribulada. O funcionário que tinha telefonado para o ramal do médico para chamá-lo — conforme ordenado — se levantou e cedeu a cadeira a ele.

— Já faz cinco minutos que as duas estão conversando — descreveu o homem.

Ele ajeitou o fone nas orelhas do médico, coisa que Brenner poderia ter feito sozinho.

Brenner ouviu a voz de uma mulher que ele não conhecia, fazendo perguntas que não lhe interessavam, mas queria saber onde a conversa ia dar. Assim que os outros deixaram o laboratório, ele fez uma visita a Eight, que o recebeu no quarto de cara amarrada. Tinha sido um dia difícil, sem um minuto de paz. Ele ainda não entendia o que estava acontecendo, mas seu instinto dizia que algo estava errado.

Terry Ives, sua cobaia, tinha sido encontrada perambulando pelos corredores, longe de onde ele a deixara. Aparentemente, seguiu alguém até uma ala restrita e chegou perto demais de Kali. O rapaz, Ken, supostamente teve uma convulsão, mas nenhuma evidência ou sintoma subsequente confirmava o diagnóstico. Brenner já estava acostumado com a mente afiada da garota da cidade, a mecânica, mas até ela tinha feito demandas suspeitas daquela vez. A única cobaia que não costumava ser problemática era a bióloga. Contudo, a forma silenciosa como ela havia liberado as informações durante a sessão também o deixou com a pulga atrás da orelha.

Portanto, naquela mesma noite, resolveu solicitar o monitoramento das linhas telefônicas do alojamento de Ives e da casa do namorado dela. Estava começando a desconfiar de que a inocência dela não passava de teatrinho.

No momento, Terry estava conversando com a irmã, que morava em Larrabee, e o chamaram para escutar.

— Terry, você não disse uma palavra, e foi você que ligou para mim. Tem alguma coisa errada? É o Andrew? Quando a faculdade vai bater o martelo?

— Amanhã.

— Se ele pelo menos tivesse pensado um pouco...

Ele ouviu um chiado na ligação.

— Ele pensou. Sabe, era importante para ele se manifestar.

— Não consigo entender... Ele deveria parar de meter o bedelho onde não é chamado e se contentar por estar aqui. Não vai acabar com a guerra invadindo o refeitório de máscara.

— Talvez não acabe, mas é melhor que não fazer nada.

Dava para sentir a irritação na voz de Terry.

— Nisso discordamos. — A irmã bufou. — Vocês não podem ser egoístas. Nenhum de vocês.

Para Brenner bastava. Tirou o fone de ouvido e o entregou de volta ao funcionário, que ainda estava de pé.

— Obrigado. Continuem escutando a garota. — Ele fez uma pausa. — Qual é o nome do namorado mesmo?

— Andrew Rich.

Um novo funcionário se dirigiu a Brenner:

— Senhor, acho que encontramos.

Na sala ao lado ficavam as imagens das câmeras do prédio. Assistir às gravações do quarto de Eight, uma por uma, e registrar todos os visitantes foi uma tarefa longa e árdua, mesmo com três homens trabalhando nisso.

Brenner parou diante de uma tela com a imagem pausada. Lá estava a peça do quebra-cabeça que se encaixava com a conversa que tinha acabado de ouvir. Theresa Ives sentada a uma mesinha com Eight. Ela estava de camisola, o que significava que tinha arrumado um jeito de fugir da sala.

— De quando é essa fita? — perguntou ele.

— De duas semanas atrás.

Ele tinha subestimado a cobaia. Precisava retomar as rédeas.

A melhor forma de fazer isso seria distraí-la com problemas maiores. E ele sabia todas as coisas com as quais ela se importava — a própria Terry tinha contado a ele. A solução era óbvia.

— Bom trabalho, pessoal — disse o dr. Brenner, e se retirou.

De volta ao escritório, no andar de cima, telefonou para um contato na capital. O homem que poderia mexer alguns pauzinhos. Brenner gostava de homens que botavam ordem na casa.

— Preciso de um favor. Envolve um jovem chamado Andrew Rich.

 

8.

Terry estava sentada no sofá, à espera de Andrew, com Dave logo ao lado. Assim que a aula terminou, ela correu para o apartamento deles, ansiosa pelo veredito.

— Vai dar tudo certo — disse Dave pela terceira vez. — Só levei um puxão de orelha e uma advertência.

Os pais de Dave pediram que um advogado amigo da família entrasse em contato com a universidade e defendesse os garotos. Conseguiram retirar as queixas criminais e esperavam que a faculdade também não tomasse medidas drásticas. “Em um momento como este, um corpo discente engajado, envolvido em atos de desobediência civil, deve ser encorajado.” Esse era o argumento.

Terry deduziu que os pais de Dave provavelmente tinham assinado um cheque parrudo para a faculdade. A família de Andrew não ficou muito feliz quando soube que ele tinha se metido em problemas mais uma vez. Não apoiavam atos de desobediência civil, embora adorassem Andrew a ponto de perdoar tudo que fizesse. Tinham dinheiro, mas não tinham nascido em berço de ouro, como era o caso de Dave. O outro garoto, Michael, também ganhou passe livre.

Terry não sabia por que estava tão nervosa. Andrew ficaria bem. Não tinha por que não ficar. Ela só precisava que seu estômago acreditasse naquilo. Mas talvez estivesse nervosa também por conta da discussão com Becky na noite anterior.

Andrew entrou pela porta da frente e foi até a cozinha pegar uma cerveja. Deu meia-volta, se sentou no sofá e se virou para colocar a cabeça no colo de Terry. Ele olhou para ela.

— Oi. Nossa, a vista daqui é ótima!

Ela quase sorriu.

— Obrigada. Mas estamos sofrendo. Como foi lá, afinal?

Andrew piscou para ela, endireitou-se no sofá, abriu a latinha e tomou um gole.

— Fui expulso.

Terry ficou zonza.

— O quê?! Como assim, “expulso”?

— Eles expulsaram você? — Dave balançou a cabeça, chocado.

— Fala que você está brincando... — insistiu Terry, as mãos tremendo, embora estivesse se esforçando para ficar parada.

— Quem me dera... — Andrew deu de ombros. — Eu sabia que isso podia acontecer. Fazer o quê? São as consequências.

As consequências...

— Justo agora?! Semana que vem já começa a próxima convocação militar.

Terry sabia que não estava ajudando, mas as palavras escaparam antes que pudesse contê-las. Ela visualizou Andrew de farda.

Aquilo não podia estar acontecendo.

— Eu sei — disse Andrew. — Vamos torcer para que a minha dose de azar já tenha se esgotado. Posso refazer a matrícula daqui a seis meses. Só preciso esperar.

Terry nunca tinha visto Dave tão quieto. Seis meses eram uma eternidade para uma pessoa normal passar em casa, ainda mais com a sombra da convocação militar tão próxima.

— Você pode ir para o Canadá — sugeriu ela.

— Não — respondeu Andrew. — Minha família está aqui. Minhas raízes estão aqui. Eu sabia o que estava fazendo. Essas são as consequências. Não vou trair o meu país.

Dave balançou a cabeça de novo.

— Não é justo, cara. Talvez nosso advogado possa dar mais uns telefonemas... Isso tudo é culpa minha.

— Para com isso! Ninguém me obrigou a nada.

Terry se encheu de orgulho. O mesmo orgulho que sentiu no refeitório quando fizeram o protesto. Dessa vez, ainda mais forte. Andrew podia até ter sido mimado ou tido uma vida mais fácil que a dela. Mas ele tinha crescido, amadurecido.

— Te amo — disse ela.

Andrew sorriu. Um sorriso de verdade.

— Também te amo, muito. Viu? O dia não está tão ruim assim.

Mas estava. Porque pequenas vitórias não fazem muita diferença quando se trata de grandes guerras.

Então, sim. Aquele era um péssimo dia.