Superando o Cárcere da Emoção

Augusto Cury · Capítulo 2 de 66

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Superando o Cárcere da Emoção

Introdução

 

O homem sempre procurou a liberdade. A liberdade está no cerne das aspirações humanas. Através dela, podemos criar, pesquisar, construir, conhecer novos ambientes, expressar idéias, gerenciar os pensamentos e administrar sentimentos. A liberdade é a coroa do prazer de viver e o alicerce da personalidade saudável.

Existiram escravos que foram libertados e homens livres que se tornaram escravos. Qual a explicação desse paradoxo? Os que foram livres sendo escravos eram livres interiormente! Os que se tornaram escravos sendo livres foram escravos no mundo dos seus pensamentos e no território das suas emoções! Sem a liberdade, o ser humano deixa de sonhar e esmaga seu encanto pela existência. Você pode ser um rei sem trono desde que tenha a coroa da liberdade.

Apesar da liberdade ser vital para o homem, ele sempre foi vítima de algum tipo de prisão. As cadeias, a escravidão, o autoritarismo político, a exploração sexual, o cerceamento dos direitos fundamentais, a dificuldade de liderar o mundo psíquico, a ansiedade, a angústia, as fobias (medo) e outros transtornos emocionais são exemplos de restrição de liberdade que feriram nossa história.

Contudo, pergunto-lhe: Qual é a maior prisão do mundo? É aquela que aprisiona o ser humano externa ou internamente? Sem sombra de dúvida é aquela que algema a alma, que controla a inteligência.

Você pode perder dinheiro, prestígio social, um emprego ou romper um relacionamento afetivo e, ainda assim, preservar uma grande capacidade para lutar, recomeçar tudo e superar sua perda. Todavia, se perder sua liberdade, o mundo se tornará pequeno demais para você, pois estará algemado pelo sentimento de vergonha, de culpa, de incapacidade.

O pior cárcere humano é o cárcere da emoção. Normalmente quem aprisiona a emoção são os pensamentos de conteúdo negativo, estressante, ansioso. Construímos sociedades democráticas, mas o homem moderno não é amiúde livre. Nenhum ser humano também é completamente saudável. Todos temos algum tipo de doença psíquica e algum grau de dificuldade para administrar nossos pensamentos e emoções.

Quem controla todos os pensamentos que se passam no mundo de sua mente? Pois construímos pensamentos absurdos que não temos coragem de verbalizar. Quem é senhor pleno de suas emoções?

Todos produzimos sentimentos que não gostaríamos de confeccionar, tais como raiva, medo, humor, tristeza, insegurança, mas eles são produzidos fora do controle da vontade consciente do “eu”. Todas as coisas que obstruem nossa inteligência funcionam como cadeias conscientes e, principalmente, inconscientes nos bastidores da construção da inteligência.

Nem os grandes homens livraram-se de ter conflitos em suas vidas. Os pensadores na filosofia e nas ciências viveram crises emocionais e existenciais. Muitos deles produziram pinturas, esculturas, peças literárias, textos filosóficos e pesquisas científicas, como tentativa de superação da angústia que os abatia.

Diversos conflitos que encarceram nossas emoções ocorreram numa fase da infância em que nós não tínhamos defesas intelectuais. Alguns deles ocorreram apesar dos pais terem sido pessoas excelentes. É muito comum que os estímulos do ambiente ou uma atitude ou reação dos pais sejam inadequadamente interpretados pelos filhos, produzindo frustrações e causando-lhes importantes cicatrizes nos amplos terrenos do inconsciente. Portanto, é possível adquirir conflitos mesmo tendo vivido uma infância saudável.

Além disso, o mundo moderno virou uma fábrica de pessoas estressadas. Até pessoas que desenvolveram uma personalidade sem grandes traumas podem, quando adultas, devido ao estresse profissional e social, desenvolver arquivos doentios nas matrizes da memória. As pessoas mais responsáveis e aplicadas estão mais sujeitas ao cárcere da ansiedade. Superar os cárceres psíquicos que são construídos ao longo de nossa trajetória deve ser a grande meta da inteligência.

O pior prisioneiro é o que não enxerga seus próprios limites. O pior doente é aquele que represa suas emoções e tem medo de admitir suas fragilidades, fracassos e momentos de insegurança.

É mais fácil conquistar fortuna do que sabedoria. Quem é sábio? — Sábio não é a pessoa que não erra, não se frustra e nem sofre perdas, mas é aquela que aprende a usar suas dificuldades como alicerce da sua sabedoria. Que destino você dá para seus erros? O que você faz com as dores emocionais que vivencia? Elas o constroem ou o destroem?

Infelizmente, raras vezes somos eficientes em dar um destino lúcido às nossas falhas e sofrimentos.

Sabemos lidar com os sucessos, mas estamos despreparados para as derrotas. Sabemos lidar com as alegrias, mas não com a tristeza e com a ansiedade.

Você sabe quantos segundos temos para debelar um foco de tensão emocional para que ele não seja registrado de maneira doentia na memória? No máximo cinco segundos. Mas, infelizmente, somos lentos para nos proteger. A maioria das pessoas nem sequer sabe que precisa proteger suas emoções. Elas fazem seguro da casa, do carro, colocam grades nas janelas, mas não têm nenhuma proteção no mais importante e delicado território o território da emoção.

Muitos executivos, empresários e profissionais liberais têm alta conta bancária, mas um grande déficit emocional. São ótimos para ganhar dinheiro, mas péssimos para conquistar a tranqüilidade. Muitos são controlados pela hiperprodução de pensamentos antecipatórios, vivem sofrendo por problemas que ainda não aconteceram!

Eles têm bons motivos para ser alegres, mas são ansiosos, excessivamente preocupados e angustiados. São excelentes profissionais, mas não sabem cuidar de sua qualidade de vida. A ansiedade bloqueia o desfrute do seu sucesso financeiro. Tornaram-se ricos e miseráveis.

Alguns executivos, que leram as primeiras edições deste livro, comentaram que foram muito ajudados, pois compreenderam que o sucesso profissional sem o sucesso emocional podia ter valor para os outros, mas não para si mesmos. Tiveram de conquistar habilidades para superar as armadilhas da emoção e reaprender a sorrir, ser espontâneos, seguros, empreendedores.

Alguns têm sucesso intelectual, conquistam cultura e títulos acadêmicos, mas não sabem navegar com sabedoria nas agitadas águas da emoção. Os obstáculos profissionais, as contrariedades sociais, as ofensas e críticas facilmente invadem-lhes a emoção e roubam-lhes a serenidade.

Podemos ser autores de nossa história

Um dia, após dar uma conferência, uma mulher procurou-me. Estava sofrendo de depressão e síndrome do pânico há vinte anos. Havia passado por quinze psiquiatras. Sentia desânimo, fadiga, humor triste, ansiedade, insônia, fobia. O mundo desabou sobre sua emoção. Nos últimos dez anos, isolou-se em sua casa.

Por morar em outro estado, pedi-lhe que não interrompesse seu tratamento atual, que estudasse este livro e que resgatasse a “liderança do eu” através da técnica do DCD (duvidar, criticar e determinar), que pode ser usada em todos os conflitos psíquicos e que, em síntese, consiste em duvidar do controle dos conflitos sobre a emoção, criticar cada pensamento negativo e determinar ser uma pessoa segura, estável, alegre. Disse que se ela praticasse essa técnica dezenas de vezes por dia, no silêncio de sua mente, ela reeditaria o filme do seu inconsciente e em três meses pegaria sozinha um avião e me visitaria.

Após três meses, ela me visitou dizendo que venceu o cárcere de sua emoção. Leu dez vezes este livro e fez con-tinuamente a técnica do DCD.

Seu último psiquiatra ficou pasmado com a melhora. Meses depois, ele teve uma crise depressiva e pediu-lhe ajuda. Queria saber como era a técnica que eu lhe havia ensinado. Não fiz muito, apenas a ensinei a ser autora da sua história…

Há pessoas que sabem governar um país, um estado e uma cidade com grande capacidade, mas são atormentadas dia e noite por pensamentos negativos. Se você não criticar suas idéias negativas, elas farão parte da colcha de retalhos da sua personalidade.

Devido à complexidade da mente humana é muito difícil falar de maneira detalhada de cada cárcere a que a emoção pode se submeter, a não ser que se escreva uma enciclopédia que poucos terão ânimo de ler. Portanto, vou usar uma doença complexa, a dependência psicológica das drogas, para revelar alguns mecanismos universais que estão presentes na gênese da grande maioria dos conflitos humanos.

Assim como o diretor de cinema James Cameron usou um par romântico para mostrar o drama do Titanic, usarei as drogas e a mente dos usuários como atores principais para descortinar o funcionamento da inteligência e o drama do cárcere da emoção. Será uma aventura imperdível para quem ama a vida, a humanidade e almeja ser líder e livre.

Há muitos tipos de “drogas”, e não apenas a química, que trucida a liberdade e faz a emoção se submeter à pior prisão do mundo: a “droga” do medo, do sistema social, da paranóia da estética, do consumismo, da competição predatória, do preconceito, da rigidez, do orgulho cego, da necessidade de se estar sempre certo, dos transtornos psíquicos.

Quando falar sobre as drogas como potentes estímulos que se registram de maneira privilegiada na memória e interferem na dinâmica da psique, espero que o leitor possa fazer um paralelo com os estímulos que o atingem, tal como uma ofensa ou uma perda, e perceber que eles também interferem na engrenagem psicodinâmica de sua mente.

Os pais serão ajudados a abrir as janelas de suas mentes e a construir um excelente relacionamento com seus filhos. Quando abordar o relacionamento entre pais e filhos, espero que o leitor, do mesmo modo, ainda que não tenha filhos, faça um paralelo sobre como superar conflitos interpessoais, liderar pessoas, conquistar colegas de trabalho ou alunos e estimular a inteligência deles.

Faremos, neste livro, uma das mais belas viagens, uma viagem ao interior de nós mesmos. Ficaremos fascinados com o espetáculo da inteligência. No penúltimo capítulo, discorrerei sobre um dos mais importantes fenômenos que atuam nos bastidores da mente, o fenômeno do autofluxo.

Esse fenômeno é o grande responsável pelas leituras contínuas da memória e pela produção de milhares de pensamentos diários. Entenderemos por que é tão difícil governar nossos próprios pensamentos e por que o homem tem sido o pior carrasco de si mesmo.

No capítulo final, farei uma abordagem psicológica e filosófica do sentido da vida. Nele conheceremos a fascinante inteligência do Mestre dos mestres. Estudaremos como ele superava suas angústias e contrariedades e por que, num ambiente ansioso e saturado de estresse, ele foi livre, feliz e seguro.

Precisamos fazer um brinde à sabedoria. Nunca devemos desistir da vida nem pensar em deixar de caminhar. Por mais tropeços que tenhamos pelo caminho, podemos transpor o caos da emoção e superar nossas angústias…