Tempo do Desprezo

Andrzej Sapkowski · Capítulo 2 de 7 · parte 2/3

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Tempo do Desprezo

Capítulo Segundo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Foi o que pensei – falou Ciri, meneando a cabeça, com os olhos fixos nos brilhantes telhados de Aretusa. – Aquilo lá não é uma escola, mas uma cadeia. Numa ilha, num rochedo, à beira de um precipício. Uma prisão e tanto.

– Você não deixa de ter um pouco de razão – admitiu Fábio, após um momento de reflexão. – É muito difícil sair de lá… Mas aquilo não é uma prisão. As alunas são jovens donzelas e é preciso protegê-las.

– De quem?

– Be… bem… – gaguejou o rapaz. – Você sabe…

– Não, não sei.

– Hummm… Eu acho… Ora, Ciri, afinal de contas ninguém as mantém na escola à força. São elas que querem…

– Obviamente. – Ciri sorriu com coqueteria. – Se querem, então cumprem pena naquela prisão. Caso não quisessem, não permitiriam ser trancadas lá dentro. Basta dar no pé antes de ser trancada, porque depois poderá ser difícil…

– Difícil o quê? Fugir? E para onde elas poderiam…

– Elas – interrompeu-o Ciri – certamente não teriam para onde fugir, pobrezinhas. Fábio, onde fica a cidade de Hirundum?

O rapaz olhou para ela, surpreso.

– Hirundum não é uma cidade – falou. – É uma enorme fazenda com pomares e hortas que fornecem frutas e verduras para todas as cidades da região. Há ali também diversos lagos, nos quais são criadas carpas e outras espécies de peixes…

– Quão longe fica Hirundum? Em que direção? Mostre-me.

– E por que você quer saber isso?

– Mostre-me, já lhe pedi.

– Está vendo esse caminho que leva para o oeste? Lá, onde há muitas carroças? É por ele que se vai até Hirundum. Deve distar umas quinze milhas, todo o tempo através de florestas.

– Quinze milhas – repetiu Ciri. – Não é tão longe assim quando se tem um bom cavalo… Muito obrigada, Fábio.

– Você me agradece por quê?

– Não importa. Agora, leve-me ao mercado. Você prometeu.

– Vamos.

Ciri jamais presenciara um aperto e um bulício semelhantes aos que reinavam no mercado de Gors Velen. Em comparação a ele, a barulhenta feira de peixes pela qual passaram havia pouco dava a impressão de um templo silencioso. Apesar de a praça ser realmente gigantesca, pareceu-lhe que poderiam olhar para ela de longe, porque a ideia de conseguir chegar à área do mercado era inimaginável. No entanto, Fábio mergulhou corajosamente no turbilhão de pessoas, puxando-a pela mão. Ciri chegou a ficar tonta.

Vendedores gritavam a plenos pulmões, compradores gritavam ainda mais alto e crianças perdidas no meio da multidão berravam e uivavam. Vacas mugiam, ovelhas baliam, aves cacarejavam e grasnavam. Artífices anões batiam violentamente com seus martelos em chapas de metal e, quando interrompiam a tarefa para tomar um trago, ficavam praguejando em alto e bom som. De alguns pontos da praça emanavam agudos sons de pífaros e saltérios; eram os locais nos quais toda sorte de vagabundos e músicos viajantes fazia suas apresentações. Para piorar ainda mais a algazarra, alguém invisível no meio da turba soprava incessantemente uma trombeta de latão. Era evidente que não se tratava de um músico.

Ciri esquivou-se de um porco que passou correndo por ela guinchando horrivelmente e caiu sobre uma pilha de gaiolas com galinhas. Ao se erguer, pisou em algo que era mole e que miou. Deu um pulo para trás e quase foi atropelada pelos cascos de uma enorme, fedorenta e asquerosa besta que abria caminho empurrando as pessoas com seus flancos peludos.

– O que era aquilo? – gemeu, recuperando o equilíbrio.

– Um camelo. Não precisa ter medo.

– Imagine! Não estou com medo!

Ciri olhou em volta com curiosidade. Ficou admirando o trabalho dos ananicos que fabricavam belos odres com pele de bode. Encantou-se com as lindas bonecas oferecidas numa barraca por um casal de meios-elfos. Avaliou diversos artefatos de malaquita e jaspe expostos à venda por um soturno e monossilábico gnomo. Com grande interesse e conhecimento de causa, examinou as espadas na barraca do armeiro. Observou jovens artesãs tecendo cestos de vime, chegando à conclusão de que não havia nada pior do que o trabalho.

O homem que soprava a trombeta parara de soprar. Provavelmente alguém o havia matado.

– O que é isso que cheira tão gostoso?

– Sonhos – disse Fábio, tateando a bolsa com as moedas. – Você gostaria de comer um?

– Gostaria de comer dois.

O vendedor entregou três sonhos, pegou um dos décimos e deu de troco quatro patacas, quebrando ao meio uma delas. Ciri, que a essa altura já havia recuperado a autoconfiança, observava a operação de quebramento, devorando avidamente o primeiro sonho.

– É daí – perguntou, começando a comer o segundo – que vem a expressão “de meia-pataca”?

– Sim – respondeu Fábio, engolindo o resto de seu sonho. – Afinal, não existe moeda menor do que uma pataca. De onde você veio não se usa meia-pataca?

– Não – falou Ciri, lambendo os dedos. – De onde eu vim usam-se ducados de ouro. Além disso, esse quebra-quebra foi totalmente desnecessário.

– Por quê?

– Porque tenho vontade de comer mais um sonho.

Os sonhos recheados com geleia de ameixa funcionaram como um elixir mágico. Ciri recuperou o bom humor, e a multidão a sua volta deixou de assustá-la; ao contrário, até começou a lhe agradar. Não permitiu mais que Fábio a conduzisse pelo braço, puxando-o ela mesma para onde o aperto era ainda maior, um lugar no qual alguém discursava sobre um improvisado tablado de barris. O orador era um gordão avançado em anos. Pelo crânio raspado e pelo gibão cinzento, Ciri reconheceu logo que se tratava de um sacerdote viajante. Já os vira visitando o templo de Melitele, em Ellander. Mãe Nenneke nunca os chamava diferentemente de “aqueles idiotas fanáticos”.

– Só há uma lei no mundo! – berrava o gordo sacerdote. – A lei divina! Toda a natureza é subordinada a ela, toda a terra e tudo o que na terra vive! Já os encantos e magias são contrários a essa lei! Portanto, os feiticeiros são seres malditos, e aproxima-se o dia da fúria no qual o fogo do céu destruirá sua maldita ilha! Então, desabarão as muralhas de Loxia, Aretusa e Garstang, detrás das quais aqueles pagãos estão se juntando neste momento para planejar seus feitos nefastos. Desabarão essa muralhas…

– E vai ser preciso, puta merda, erguê-las de novo – rosnou perto de Ciri um pedreiro vestido com um casaco chapiscado de argamassa.

– Lembro-lhes, gente boa e pia – berrava o sacerdote –, não acreditem nos feiticeiros, não os procurem em busca de conselhos ou ajuda! Não se iludam com sua bela postura nem com fala fluida, pois na verdade lhes digo que os feiticeiros são como túmulos polidos: lindos por fora, mas cheios de podridão e de ossos transformados em pó por dentro!

– Olhem só para ele – falou uma jovem segurando um cesto cheio de cenouras –, como enche a boca para falar. Late contra os magos porque tem inveja deles. Nada mais do que isso.

– É isso mesmo – confirmou o pedreiro. – Olhe para ele: sua cabeça é tão lisa como um ovo e sua barriga cai sobre seus joelhos. Enquanto isso, os feiticeiros são bem-apessoados, não engordam e não ficam calvos. E as feiticeiras… formosuras em pessoa.

– Porque venderam a alma ao diabo para ter essa formosura – gritou um homem baixinho com um martelo de sapateiro enfiado no cinto.

– Como você é tolo, seu cola-solas. Se não fossem as gentis damas de Aretusa, você não iria longe com suas bolsas de couro! É graças a elas que você tem o que comer.

Fábio puxou Ciri pela manga e ambos mergulharam de volta no meio da multidão, que os levou na direção do centro da praça. Ouviram o rufo de um tambor e ameaçadores gritos ordenando silêncio. A turba não demonstrava disposição alguma de se calar, mas tal fato não parecia incomodar o arauto parado sobre um estrado de madeira. Possuía uma voz possante e bem treinada e sabia fazer bom uso dela.

– Que seja de conhecimento de todos – urrou, enquanto desenrolava um pergaminho – que Hugo Ansbach, de origem ananica, é considerado um fora da lei por ter abrigado em sua casa por uma noite um grupo de malfeitores elfos que se denominam Esquilos. Da mesma forma é considerado o ferreiro Justin Ingvar, de origem anã, que fabricou pontas de flecha para os citados facínoras. O prefeito lança uma busca a ambos e ordena que todos se envolvam em sua perseguição. Quem os apanhar receberá um prêmio de cinquenta coroas em dinheiro vivo. De outro lado, todo aquele que alimentá-los ou lhes der guarita será considerado cúmplice e sofrerá a mesma pena imposta a eles. E, se forem encontrados num distrito ou num vilarejo, todo o distrito ou vilarejo deverá pagar…

– E quem daria – gritou alguém do meio da multidão – guarita a um ananico ou a um anão? Procurem nas fazendas deles mesmos e, quando os encontrarem, levem todos os inumanos para as masmorras.

– Para o cadafalso, não as masmorras!

O arauto continuou anunciando mais declarações do prefeito do Conselho Municipal, mas Ciri perdeu o interesse. Estava a ponto de sair do meio da multidão quando sentiu repentinamente seu traseiro ser apalpado por uma mão nada casual, ousada e bastante desembaraçada.

Parecia que o grande número de pessoas espremidas a sua volta impedia Ciri de se virar, mas ela aprendera em Kaer Morhen como se mexer em lugares nos quais se mover era difícil. Virou-se, causando algum tumulto. Um jovem sacerdote de cabeça raspada dirigiu-lhe um sorriso arrogante e claramente já praticado em outras ocasiões. “E então”, dizia aquele sorriso, “o que você vai fazer agora? Vai enrubescer lindamente e nada mais, não é isso?”

– Mantenha as patas junto do corpo, seu careca! – gritou Ciri, pálida de raiva. – Apalpe o próprio traseiro, seu… seu túmulo polido!!!

Aproveitando-se do fato de o sacerdote não poder se mexer, Ciri decidiu dar-lhe um pontapé, porém Fábio se meteu entre eles e puxou-a para longe. Vendo que Ciri tremia de raiva, acalmou-a comprando-lhe uma porção de pastéis doces polvilhados com açúcar de confeiteiro, cuja visão a fez esquecer por completo o incidente. Pararam perto de uma barraca, de onde tinham uma visão do cadafalso e do pelourinho. Não havia ninguém atado ao pelourinho e todo o cadafalso estava decorado com guirlandas de flores, servindo de palco para artistas itinerantes que, vestidos como papagaios, faziam ranger rabecas e sopravam pífanos e gaitas de foles. Uma jovem morena com uma samarra adornada com lantejoulas cantava e dançava, agitando um pandeiro e sapateando alegremente com suas pequenas botinas.

Uma maga caiu num buraco e por víboras foi mordida. Todos os répteis morreram, mas a maga não perdeu a vida!

A multidão em volta do cadafalso contorcia-se de tanto rir, batendo palmas ao ritmo da música. O vendedor de pastéis atirou uma nova leva deles no óleo fervente. Fábio lambeu os dedos e puxou Ciri pela manga.

As barracas eram muitas e em quase todas eram vendidas guloseimas. Fábio e Ciri comeram um mil-folhas com creme cada um e dividiram uma enguia defumada acompanhada por algo estranho, frito e enfiado num espeto. Por fim, pararam numa barraca repleta de barris com diversos tipos de repolho fermentado e ficaram provando-os, fingindo escolher um para depois comprar maior quantidade dele. Quando comeram o suficiente e não compraram nada, a vendedora chamou-os de fedelhos.

Seguiram adiante. Com o resto do dinheiro Fábio comprou uma cestinha de peras. Ciri olhou para o céu, mas achou que ainda faltava muito para o meio-dia.

– Fábio? O que são aquelas tendas e casinhas junto do muro?

– Diversos entretenimentos. Quer ver?

– Quero.

Diante da primeira tenda havia apenas homens, todos claramente excitados. De dentro, emanava o som de uma flauta.

– “A negra Leira” – Ciri leu com dificuldade os mal traçados rabiscos na lona da tenda – “revela, dançando, todos os segredos de seu corpo.” Quanta bobagem! Que tipo de segredos…

– Vamos adiante, vamos adiante – apressou-a Fábio, enrubescendo levemente. – Olhe para isso. Eis uma coisa interessante. Uma adivinha que prevê o futuro das pessoas. Tenho ainda duas patacas, poderíamos…

– Não vale a pena gastar dinheiro à toa – interrompeu-o Ciri. – Grande previsão por duas patacas! Para prever o futuro, é preciso ser profetisa, e mesmo entre as feiticeiras apenas uma em cem tem tal dom…

– Pois saiba que uma adivinha previu a minha irmã mais velha que ela se casaria – insistiu o rapaz – e a previsão se cumpriu. Não faça careta, Ciri. Vamos deixar que adivinhem o que nos espera…

– Não quero casar. Não quero adivinhações. Faz calor e a tenda fede a incenso, de modo que me recuso a entrar nela. Se quiser, pode ir sozinho e eu ficarei esperando aqui fora. Só não consigo entender por que você quer que prevejam seu futuro. O que gostaria de saber?

– Be… bem… – gaguejou Fábio. – Mais do que tudo, gostaria de saber se vou viajar. Gostaria muitíssimo de viajar, de conhecer o mundo todo…

“E ele vai”, pensou Ciri repentinamente, sentindo a cabeça girar. “Ele vai navegar em grandes veleiros brancos… Chegará a países que ninguém viu antes dele… Fábio Sachs, o Descobridor… Seu nome será dado a um cabo, a ponta de um continente que hoje não possui denominação. Quando tiver cinquenta e quatro anos, com uma esposa, um filho e três filhas, morrerá longe de casa e dos que lhe serão próximos… de uma doença que ainda não foi descoberta…”

– Ciri, o que está se passando com você?

A garota esfregou o rosto. Teve a sensação de estar emergindo, nadando na direção da superfície de um lago profundo e gelado.

– Não foi nada – murmurou, olhando em volta e recuperando o autocontrole. – Fiquei meio tonta. Deve ser por causa do calor… e dos incensos dessa tenda.

– Pois eu acho que é o efeito de tanto repolho – falou Fábio, sério. – Não devíamos ter comido tanto. Também sinto meu estômago borbulhar.

– Estou ótima! – afirmou Ciri, erguendo orgulhosamente a cabeça. Sentia-se melhor de verdade. Os pensamentos que passaram qual um tufão por sua cabeça se dissiparam, perdendo-se na memória. – Vamos, Fábio. Vamos em frente.

– Quer uma pera?

– Lógico que quero.

Junto da muralha, um grupo de adolescentes jogava piões a dinheiro. O pião, devidamente enrolado num barbante, tinha de ser atirado com um gesto que parecia uma chicotada e de tal maneira que começasse a girar sobre áreas específicas desenhadas no chão. Quando estava em Skellige, Ciri ganhava na maior parte das vezes dos meninos locais, além de vencer sempre as noviças do templo de Melitele. Já estava se preparando para juntar-se aos garotos e tirar deles não só suas moedas, como também suas calças remendadas, quando sua atenção foi despertada por uma grande gritaria.

Enfiada entre o muro e as escadas de pedra, bem no fim da fileira de tendas e barracos, havia uma área semicircular formada por lonas estendidas sobre estacas fincadas no chão. Entre duas dessas estacas, um espaço livre que servia de entrada era bloqueado por um homem alto, forte, com o rosto com marcas de varíola, vestido com um casaco bordado e calças listradas enfiadas em botas de marinheiro. Diante dele agitava-se um pequeno grupo de pessoas. Elas enfiavam moedas em sua mão e sumiam debaixo da lona. O bexigoso guardava o dinheiro numa bolsa de consideráveis dimensões, que fazia tilintar, e gritava com voz rouca:

– Venha, minha boa gente! Aqui, junto de mim! Vocês poderão ver com os próprios olhos o mais terrível monstro que os deuses criaram! Um horror! Um autêntico basilisco vivo, o venenoso terror dos desertos da Zerricânia, o diabo encarnado, o insaciável devorador de homens! Vocês jamais viram um monstro como esse! Recém-capturado no além-mar, acabou de ser trazido num navio. Venham admirar um horrendo basilisco vivo, porque nunca mais terão uma oportunidade dessas! É sua última chance! Aqui, em minha tenda, por apenas três patacas. Mulheres com crianças por duas patacas!

– Ah! – exclamou Ciri, afastando com a mão as abelhas que teimavam em voar em torno das peras. – Um basilisco? E vivo ainda por cima? Tenho de vê-lo. Até hoje só o vi em ilustrações. Venha, Fábio.

– Não tenho mais dinheiro…

– Mas eu tenho, e vou pagar para você. Venha; não tenha medo.

– São seis patacas – falou o bexigoso, olhando para as moedas postas em sua mão. – Três patacas por pessoa. Mais barato, somente mulheres com crianças.

– Ele – disse Ciri, apontando com a pera para Fábio – é uma criança. E eu sou uma mulher.

– Mais barato somente mulheres com crianças de colo – rosnou o homem. – Mas vá lá, ponha mais duas patacas, esperta senhorita, ou saia da frente para que outros possam entrar. Apresse-se, minha gente. Só há mais três lugares livres!

Do outro lado da lona, acotovelava-se uma porção de pessoas, formando um compacto anel em torno de um estrado de tábuas, sobre o qual havia uma jaula de madeira coberta por um pano. Depois de deixar entrar os últimos espectadores, o bexigoso pulou sobre o estrado, bateu na jaula com um pedaço de pau e usou-o para retirar o pano que a cobria. A tenda foi envolta por um odor de carniça e um desagradável fedor reptiliano. Os espectadores soltaram um murmúrio e afastaram-se um pouco.

– É preciso se precaver, minha boa gente – avisou o bexigoso. – Ficar perto demais é perigoso!

No interior da jaula, que era evidentemente pequena demais para ele, encontrava-se encolhido um lagarto de pele coberta por escamas escuras. Quando o bexigoso bateu com o pau na jaula, o réptil se agitou, roçou com as escamas nas barras da jaula, esticou o comprido pescoço e sibilou prolongadamente, mostrando duas fileiras de dentes cônicos tão brancos que contrastavam com a negritude das escamas em volta do focinho. Os espectadores pigarrearam. Um peludo cãozinho sentado no colo de uma mulher com a aparência de vendedora ambulante ganiu lamentosamente.

– Olhem bem! – gritou o bexigoso. – E sintam-se felizes por não termos tal tipo de monstros por nossas bandas! Eis o horrendo basilisco da distante Zerricânia! Não se aproximem, não se aproximem, pois mesmo trancado numa jaula ele poderá envenená-los com seu bafo!

Ciri e Fábio finalmente conseguiram se esgueirar por entre os espectadores e se aproximar do estrado.

– O basilisco – continuou o bexigoso, apoiando-se no pedaço de pau como um sentinela na haste de uma alabarda – é o animal mais peçonhento da face da Terra! Pois o basilisco é o rei de todas as serpentes! Caso houvesse mais basiliscos, o mundo estaria perdido! Por sorte, trata-se de um monstro muito raro, porque nasce de um ovo botado por um galo. E vocês todos sabem que não é qualquer galo que bota ovos, exceto os despudorados que, como galinhas poedeiras, oferecem sua cloaca a outro galo.

Os espectadores reagiram à piada com uma gargalhada. A única que não riu foi Ciri, concentrada em olhar atentamente para aquele ser, que, excitado pelo barulho, agitava-se na jaula, mordendo suas barras e tentando, em vão, abrir as asas de morcego.

– Os ovos botados por um galo desses – continuava o bexigoso – devem ser chocados por cento e uma serpentes! E, quando do ovo emerge um basilisco…

– Isso aí não é um basilisco – afirmou Ciri, dando uma dentada na pera.

O bexigoso lançou-lhe um olhar raivoso.

– … quando o basilisco finalmente sai do ovo – prosseguiu –, ele come todas as serpentes que estavam no ninho, absorvendo seu veneno, mas sem ser afetado por ele. Por outro lado, fica tão repleto de peçonha que pode matar sem morder nem mesmo tocar a presa, bastando seu bafo para isso! E, quando um guerreiro montado atravessa um basilisco com uma lança, o veneno sobe pelo cabo da lança, matando o cavaleiro e seu cavalo!

– Isso é uma mentira mentirosa – falou Ciri em voz alta, cuspindo uma semente de pera.

– Verdade verdadeira! – protestou o bexigoso. – Matará tanto o cavaleiro como o cavalo

– Duvido!

– Cale-se, mocinha! – gritou a vendedora ambulante com o cachorrinho. – Não atrapalhe! Queremos admirar o monstro e escutar sobre ele!

– Ciri, pare com isso – sussurrou Fábio, cutucando-a nas costelas.

A garota, no entanto, olhou para ele indignada e pegou outra pera.

– Diante de um basilisco – o bexigoso elevou a voz para se sobrepor ao crescente murmúrio no meio da multidão – fogem todos os animais assim que ouvem seu silvo. Qualquer animal, mesmo um dragão… que digo eu, até um crocodilo. E um crocodilo é inacreditavelmente assustador. Quem teve a oportunidade de ver um sabe o que estou dizendo. Só há um animal que não tem medo do basilisco. E esse animal é a fuinha. A fuinha, quando vê um basilisco no deserto, foge imediatamente para a floresta e, uma vez lá, encontra e devora certas ervas conhecidas apenas por ela. Aí o veneno do basilisco não tem mais efeito sobre ela, que é capaz de mordê-lo até a morte…

Ciri deu uma sonora gargalhada, comprimiu os lábios e soltou um som prolongado e bastante grosseiro.

– Ei, sua espertalhona! – O bexigoso não se aguentou. – Se o espetáculo não lhe agrada, vá embora. Ninguém a obriga a ouvir o que estou dizendo nem a olhar para o basilisco.

– O fato é que isso aí não é um basilisco.

– Ah, é? E o que é então, doutora sabe-tudo?

– Uma serpe – afirmou Ciri, jogando fora o cabo da pera e lambendo os dedos. – Uma simples serpe. Jovem, pequena, faminta e suja. Mas não deixa de ser uma serpe. Wyvern, em Língua Antiga.

– Olhem só para ela! – berrou o bexigoso. – Apareceu uma sábia entre nós. Feche a matraca, senão eu vou…

– Alto lá! – falou um jovem louro com gorro de veludo e gibão de escudeiro sem brasão algum, abraçado a uma delicada e pálida jovem metida num vestido adamascado. – Vamos com calma, senhor domador de feras! Não ameace uma fidalga, para que eu não tenha de lhe dar uma lição com minha espada. Além disso, sinto no ar uma trapaça.

– Que tipo de trapaça, jovem guerreiro? – ofendeu-se o bexigoso. – A fede… ou melhor, a bem-nascida jovem está enganada. Esse monstro é um basilisco.

– É uma serpe – repetiu Ciri.

– Que serpe, que nada! Um basilisco. Vejam como ele é ameaçador, como sibila, como morde a jaula. Olhem para seus dentes. São dentes de…

– … uma serpe – completou Ciri.

– Já que você é tão sabichona – disse o bexigoso, lançando-lhe um olhar que não envergonharia um autêntico basilisco –, então chegue mais perto. Aproxime-se e deixe que ele solte uma baforada sobre você. Logo todos verão como você desabará arroxeada pelo veneno. Vamos, aproxime-se!

– Com todo prazer – respondeu Ciri, livrando-se do braço de Fábio e dando um passo à frente.

– Não posso permitir uma coisa dessas! – gritou o escudeiro louro, soltando sua adamascada companheira e bloqueando a passagem de Ciri. – A nobre dama não pode se arriscar tanto.

Ciri, a quem até então ninguém chamara de “nobre dama”, enrubesceu levemente, olhou para o jovem e borboleteou suas pestanas da mesma forma que já havia testado várias vezes com o escriba Jarre.

– Não há risco algum, distinto guerreiro – sorriu sedutoramente, apesar de todas as admoestações de Yennefer para evitar fazê-lo. – Não vai acontecer nada. O tal bafo peçonhento não passa de uma balela.

– Assim mesmo – falou o jovem, colocando a mão sobre o punho de sua espada –, gostaria de ficar a seu lado. Para protegê-la e defendê-la… Você permite?

– Permito – respondeu Ciri, sem saber direito o motivo pelo qual a expressão de raiva estampada no rosto da jovem de vestido adamascado lhe trouxe tanta satisfação.

– Sou eu quem a protejo e defendo! – Fábio ergueu orgulhosamente a cabeça e olhou de maneira desafiadora para o escudeiro. – E também vou acompanhá-la!

– Senhores – disse Ciri, estufando o peito e erguendo o nariz. – Mais dignidade, por favor. Não precisam se empurrar. Podem vir ambos.

O anel de espectadores ondulou e um murmúrio percorreu o ambiente quando ela se aproximou da jaula, quase sentindo o hálito dos dois jovens a suas costas. A serpe sibilou furiosa, agitando-se e emitindo um odor reptiliano pelas narinas. Fábio respirou ansiosamente, mas Ciri não recuou. Chegou ainda mais perto, estendendo o braço e quase tocando na jaula. O monstro atirou-se nas grades, mordendo-as com os dentes afiados. A multidão voltou a ondular. Alguém gritou.

– E então? – perguntou Ciri, virando-se de costas para a jaula e apoiando os braços nos quadris. – Morri? Fui envenenada por aquela pretensa peçonha? Ele é tão basilisco quanto eu sou…

Interrompeu-se ao notar a palidez no rosto de Fábio e no do escudeiro. Virou-se com a rapidez de um raio e viu duas barras cederem sob o peso do enfurecido lagarto e se soltarem dos suportes fixados com pregos enferrujados.

– Fujam! – gritou a plenos pulmões. – A jaula está se partindo!

A multidão soltou um grito de pavor e correu para a saída da tenda. Algumas pessoas conseguiram rasgar a lona, porém enrolaram-se nela, caindo umas sobre as outras. O escudeiro agarrou o braço de Ciri no exato momento em que ela havia conseguido saltar para o lado, o que fez com que ambos tropeçassem e caíssem, derrubando Fábio com eles. O cãozinho da vendedora começou a ganir, o bexigoso, a praguejar, e a desorientada jovem de vestido adamascado, a gritar desesperadamente.

As demais barras da jaula partiram-se com estrondo e a serpe saiu da jaula. O bexigoso conseguiu mantê-la afastada por um momento com o pedaço de pau, mas o monstro arrancou-o de suas mãos com um golpe da pata, encolheu-se e acertou-o com a cauda ouriçada, transformando sua bochecha cheia de cicatrizes da varíola numa disforme massa sangrenta. Sibilando e estendendo as asas feridas, a serpe voou do estrado, atirando-se sobre Ciri, Fábio e o escudeiro, que, naquele exato momento, estavam tentando erguer-se do chão. A jovem adamascada desmaiou, caindo de costas. Ciri encolheu-se, pronta para pular sobre o monstro, mas se deu conta de que não daria tempo.

Quem os salvou foi o peludo cãozinho, que pulou do colo da vendedora ambulante, caída e enrolada em suas seis saias. Latindo fininho, o cãozinho atirou-se sobre o monstro. A serpe sibilou, ergueu-se, pisou com as patas providas de garras no pobre animalzinho, girou num movimento rápido e sinuoso e cravou os dentes em sua nuca. O cachorrinho ganiu dolorosamente.

O escudeiro conseguiu ficar de joelhos e levou a mão ao flanco, mas não encontrou o punho de sua espada, porque Ciri foi mais rápida. Com um destro movimento, ela sacou a espada do jovem da bainha e, fazendo meia pirueta, aproximou-se do monstro. A serpe virou-se para ela, com a cabeça arrancada do cachorrinho pendendo da bocarra.

Ciri teve a impressão de que todos os movimentos aprendidos em Kaer Morhen executaram-se de maneira autônoma, quase sem sua vontade ou participação. Acertou a surpresa serpe na barriga e imediatamente fez uma finta, enquanto o lagarto, que pulara em sua direção, espatifava-se na areia, sangrando copiosamente. Ciri saltou por cima dele, evitando com agilidade sua cauda agitada, e, mirando cuidadosamente, desferiu-lhe um violento golpe no pescoço. Afastou-se com rapidez, fez uma finta já totalmente desnecessária e desfechou mais um golpe, dessa vez cortando a espinha dorsal do monstro. A serpe se encolheu e ficou imóvel; apenas sua cauda agitou-se ainda no ar e bateu no solo, espalhando areia para todos os lados.

Ciri enfiou rapidamente o punho da ensanguentada espada na mão do escudeiro.

– Já não precisam ter medo! – gritou para a multidão que se aproximava e para os que ainda tentavam se desenrascar da lona. – O monstro está morto. Esse valente guerreiro acabou com ele de vez…

De repente, sentiu um nó na garganta e uma contorção no estômago, enquanto tudo escurecia a sua volta. Algo bateu com impressionante força em suas costas, a ponto de seus dentes rangerem. Olhou ao redor, ainda desorientada e sem saber o que a atingira, até se dar conta de que o que a atingira fora o chão.

– Ciri… – sussurrou Fábio, ajoelhado junto dela. – O que você tem? Pelos deuses, você está pálida como um cadáver…

– É uma pena que você não possa ver o próprio rosto – murmurou ela.

As pessoas cercaram o cadáver do monstro. Algumas o cutucavam com paus e atiçadores de fogo, outras faziam curativos no rosto do bexigoso, enquanto as demais soltavam vivas em homenagem ao heroico escudeiro, audaz matador de monstros, o único que mantivera o sangue-frio e evitara um massacre. O escudeiro reanimava a jovem de vestido adamascado, olhando com ar abobalhado para a lâmina de sua espada coberta com manchas de sangue coagulado.

– Meu herói… – murmurou a adamascada senhorita, atirando os braços em seu pescoço. – Meu salvador! Meu amor!

– Fábio – sussurrou Ciri, vendo um grupo de guardas municipais tentando atravessar a turba e aproximar-se deles. – Ajude-me a levantar e leve-me daqui o mais rápido possível.

– Pobres crianças… – falou uma mulher gorda, olhando para eles enquanto se esgueiravam no meio da multidão. – Vocês tiveram muita sorte. Não fosse esse valente guerreirinho, suas mães estariam agora vertendo rios de lágrimas!

– Descubram a quem serve esse jovem escudeiro! – gritou um artesão com avental de couro. – Por esse feito, ele faz jus a um cinturão e um par de esporas!

– Já esse falso domador de feras merece uma surra! Imaginem, trazer um monstro desses para dentro da cidade…

– Água, rápido! Aquela jovem voltou a desmaiar!

– Minha pobre Mosquinha! – gritou a vendedora ambulante, inclinada sobre o que restara de seu cãozinho peludo. – Minha cachorrinha querida! Genteeee! Peguem aquela garota, a desgraçada que açulou o dragão! Onde está ela? Peguem-na! Não é o domador de feras o culpado por tudo, mas ela!

Os guardas, ajudados por inúmeros voluntários, começaram a forçar passagem no meio da turba, olhando para todos os lados. Ciri controlou a tontura.

– Fábio – sussurrou. – Vamos nos separar. Vamos nos encontrar daqui a pouco naquela ruela pela qual viemos. Vá. Se alguém o parar e perguntar sobre mim, diga que não me conhece e não tem a mais vaga ideia de quem eu seja.

– Mas… Ciri…

– Vá!

Ciri pegou o amuleto recebido de Yennefer e murmurou o encanto acionador. O efeito do feitiço foi imediato, e bem na hora. Os guardas, que já haviam se desvencilhado da multidão e caminhavam em sua direção, pararam indecisos e desorientados.

– Que merda é essa? – espantou-se um deles, olhando diretamente para Ciri. – Aonde ela se meteu? Estava ali um momento atrás…

– Lá, lá! – gritou outro, apontando na direção oposta.

Ciri virou-se e foi se afastando, ainda levemente aturdida e enfraquecida pela força da adrenalina e pela ativação do amuleto. Este funcionava precisamente como deveria funcionar: ninguém a via nem lhe dava a mínima atenção. Absolutamente ninguém. Por conta disso, até finalmente conseguir sair do meio da confusão, ela sofreu vários esbarrões, foi pisada e levou chutes. Por milagre, escapou de ser esmagada por um caixote atirado de cima de uma carroça e faltou pouco para ter um olho vazado pela ponta de um forcado. Como ficou patente, os feitiços tinham seus prós e contras, assim como virtudes e defeitos.

O efeito do amuleto não durou por muito tempo. Ciri não tinha força suficiente para controlá-lo e prolongar sua ação. Por sorte, o feitiço parou de atuar no momento mais apropriado, exatamente quando se desvencilhou da multidão e viu Fábio aguardando-a na ruela.

– Ciri – disse o rapaz. – Que bom que você apareceu! Estava começando a me preocupar.

– Desnecessariamente. Vamos embora depressa. Já passa de meio-dia e eu preciso retornar.

– Você saiu-se muito bem com aquele monstro – falou o jovem, olhando para ela com admiração. – Como foi ágil com aquela espada! Onde aprendeu isso?

– Aprendeu o quê? Quem matou a serpe foi o escudeiro.

– Não é verdade. Vi com meus próprios olhos…

– Você não viu nada! Peço-lhe, Fábio, que não comente esse incidente com ninguém. Com ninguém mesmo, especialmente com dona Yennefer. Nem posso imaginar o que ela faria comigo caso descobrisse…

Calou-se.

– Aquela gente – apontou para as pessoas na praça – está certa. Fui eu que aticei a serpe… Foi por minha culpa…

– Não foi culpa sua – afirmou Fábio categoricamente. – A jaula estava apodrecida e montada de qualquer jeito. Ela poderia se romper a qualquer momento, daqui a uma hora, amanhã, depois de amanhã… Foi melhor ter acontecido agora, porque você salvou…

– Foi o escudeiro quem salvou! – gritou Ciri. – O escudeiro! Meta isso na cabeça de uma vez por todas! Estou avisando: se me trair, transformarei você… em algo horrível! Tenho o poder de encantar pessoas! Enfeitiçarei você…

– Basta! – ecoou uma voz a suas costas. – Chega dessa conversa fiada!

Uma das mulheres que caminhavam atrás de Ciri e Fábio tinha cabelos negros penteados cuidadosamente, olhos brilhantes e lábios finos. Seus ombros estavam cobertos por uma curta capa de veludo violeta forrada com pele de rato-silvestre.

– Por que você não está na escola, caloura? – indagou com voz fria e melodiosa, examinando Ciri com olhar penetrante.

– Espere um momento, Tissaia – falou outra mulher, mais jovem, loura e alta, trajando um vestido verde com decote ousado. – Eu não a conheço. Acho que ela não é…

– É – interrompeu-a a morena. – Ela é uma de suas meninas, Rita. Afinal, você não pode conhecer todas. Ela deve ser uma das que escaparam de Loxia durante a confusão quando estávamos de mudança. E logo, logo ela mesma vai nos confirmar isso. E então, caloura, estou aguardando.

– Aguardando o quê? – perguntou Ciri.

A mulher comprimiu os lábios finos e ajeitou as dobras das luvas.

– De quem você roubou o amuleto de camuflagem? Ou será que alguém o deu a você?

– Como?

– Não teste minha paciência, caloura. Seu nome, sua classe e nome de sua preceptora. Rápido!

– Está se fingindo de tola, caloura? Seu nome! Como você se chama?

Ciri cerrou os dentes e seus olhos brilharam com uma chama verde.

– Anna Ingeborga Klopstock – escandiu, desaforada.

A mulher ergueu o braço, e Ciri imediatamente se deu conta da gravidade do erro que cometera. Certa feita, ela criara caso sobre algo sem importância e Yennefer lhe demonstrara, uma única vez, o efeito do feitiço paralisante. A sensação fora horrível, a mesma que sentia agora.

Fábio soltou um grito rouco e correu em sua direção, mas a outra mulher, a loura, agarrou-o pelo colarinho e manteve-o preso no lugar. O rapaz agitava-se como podia, mas o braço da mulher era como se fosse feito de ferro. Ciri não podia sequer piscar um olho. Tinha a nítida impressão de estar se fundindo aos poucos com a terra, enquanto a morena inclinava-se junto de seu rosto e fixava nele os olhos brilhantes.

– Não sou partidária de castigos corporais – declarou em tom gélido, voltando a ajeitar as abas das luvas –, mas farei de tudo para que você seja açoitada, caloura. Não por desobediência, nem pelo roubo do amuleto, tampouco por estar vagando por aí. Não por estar vestida inadequadamente, andando com um rapaz e falando com ele sobre coisas que lhe foram proibidas de comentar. Você será chicoteada por não ter a capacidade de reconhecer uma arquimaga.

– Não! – gritou Fábio. – Não lhe faça mal, distinta dama! Sou funcionário do banco do senhor Molnar Giancardi e esta senhorita é…

– Cale a boca! – urrou Ciri. – Cal…

O feitiço de amordaçamento foi lançado de maneira rápida e brutal. Ciri sentiu gosto de sangue na boca.

– E então? – A loura soltou Fábio e, com um gesto carinhoso, ajeitou seu colarinho amassado. – Fale. Quem é essa desaforada senhorita?

Margarita Laux-Antille emergiu da piscina espargindo água por todos os lados. Ciri não conseguia desgrudar os olhos dela. Vira Yennefer nua mais de uma vez e sempre achara que não pudesse haver alguém que se comparasse a ela na perfeição do corpo. Estava redondamente enganada. Diante da visão da desnuda Margarita Laux-Antille, ruborizariam de inveja até as estátuas de mármore de deusas e ninfas.

A feiticeira pegou um cântaro com água fria e derramou o conteúdo sobre seus seios, praguejando de maneira grosseira e sacudindo-se toda.

– Ei, menina. – Fez um sinal para Ciri. – Tenha a gentileza de me trazer uma toalha… E pare de me olhar desse jeito.

Ciri murmurou um impropério, ainda zangada. Quando Fábio revelara quem ela era, as feiticeiras arrastaram-na à força através da cidade, expondo-a ao ridículo diante de praticamente metade de seus habitantes. Como era de esperar, assim que chegaram ao banco de Giancardi, tudo ficara esclarecido. As feiticeiras pediram desculpas a Yennefer e explicaram seu comportamento. Acontecia que as alunas de Aretusa haviam sido transferidas temporariamente para Loxia, uma vez que as instalações da escola foram transformadas em habitação dos partícipes e visitantes do congresso de feiticeiros. Aproveitando a confusão reinante durante a tal transferência, algumas alunas escaparam de Thanedd e ficaram zanzando pela cidade. Margarita Laux-Antille e Tissaia de Vries, alarmadas pela ativação do amuleto de Ciri, acharam que ela fosse uma das fugitivas.

As feiticeiras pediram desculpas a Yennefer, porém nenhuma delas pensou em pedir desculpas a Ciri. Ao ouvi-las, Yennefer não desgrudou os olhos da garota, que sentiu suas orelhas ficarem vermelhas. No entanto, quem mais sofreu foi Fábio: Molnar Giancardi esculachou-o de tal modo que o rapaz tinha lágrimas nos olhos. Ciri teve pena dele, mas também orgulho por seu comportamento; Fábio manteve a palavra e não deu um pio sobre a serpe.

Como se revelou, Yennefer conhecia muitíssimo bem tanto Tissaia como Margarita. As feiticeiras convidaram-na para A Garça de Prata, o melhor e o mais caro albergue de Gors Velen, onde Tissaia de Vries se hospedara assim que chegara à cidade, retardando, por motivos conhecidos somente por ela, sua ida à ilha. Margarita Laux-Antille, que era a reitora de Aretusa, aceitara o convite da feiticeira mais velha e dividia temporariamente o apartamento com ela. O albergue era realmente muito luxuoso e tinha no subsolo a própria sala de banhos, que Margarita e Tissaia alugaram para seu uso exclusivo, pagando por isso uma soma inimaginável. Obviamente, Yennefer e Ciri foram incitadas a fazer uso daquelas instalações. Assim, todas ficaram se banhando na piscina e suando no vapor por horas a fio, sem parar de comentar fofocas.

Ciri entregou a toalha à feiticeira. Margarita beliscou-lhe a bochecha com delicadeza, fazendo com que a garota ficasse ainda mais aborrecida e mergulhasse na água da piscina, perfumada de rosmarinho.

– Ela nada como uma jovem foca – riu Margarita, estendendo-se numa espreguiçadeira de madeira ao lado de Yennefer. – E tem o corpo de uma ninfa. Você vai dá-la a mim, Yenna?

– Foi com esse intuito que a trouxe para cá.

– Em que ano devo matriculá-la? Ela tem conhecimentos básicos?

– Tem. Mas eu preferiria que ela começasse como todas as demais, desde o primário. Isso não lhe fará mal.

– Bem pensado – falou Tissaia de Vries, ocupada com a colocação de taças sobre o tampo de mármore da mesinha, enevoado de vapor. – Muito bem pensado, Yennefer. A menina terá mais facilidade se começar com as outras calouras.

Ciri saiu da piscina e sentou-se em sua borda, retorcendo os cabelos e chapinhando a água com os pés. Yennefer e Margarita papeavam preguiçosamente, toda hora enxugando o rosto com panos umedecidos com água gelada. Tissaia, pudicamente enrolada num lençol, não participava da conversa, parecendo estar totalmente imersa na tarefa de arrumar o tampo da mesinha.

Continuar: parte 3 de 3