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Visão do Esplendor
Brasília
B rasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. Se eu dissesse que Brasília é bonita veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia veem nisso uma acusação. Mas a minha insônia não é bonita nem feia, minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. É ponto e vírgula. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. Ai que medo. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu.
Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece pela crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos que não eram americanos nem suecos e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Os brasiliários viviam cerca de trezentos anos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos: eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres, menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. – Esperei pela noite como quem espera pelas sombras para poder se esgueirar. Quando a noite veio percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse eu seria vista. O que me apavora é: vista por quem? – Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construção com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete invisível nos jornais. – Aqui eu tenho medo. – A construção de Brasília: a de um Estado totalitário. – Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo, meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Em Brasília não há por onde entrar, nem há por onde sair. – Mamãe, está bonito ver você em pé com esse capote branco voando. (É que morri, meu filho). – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria para onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. – Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. – Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes gélidos têm espaço. Vou embora. Aqui meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. – Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... – Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. – É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. Elas se sentirão tacitamente expulsas. – A alma aqui não faz sombra no chão. – Nos primeiros dois dias fiquei sem fome. Tudo me parecia que ia ser comida de avião. – De noite estendi meu rosto para o silêncio. Sei que há uma hora incógnita em que o maná desce e umedece as terras de Brasília. – Por mais perto que se esteja, tudo aqui é visto de longe. Não encontrei um modo de tocar. Mas pelo menos essa vantagem a meu favor: antes de chegar aqui, eu já sabia como tocar de longe. Nunca me desesperei demais: de longe, eu tocava. Tive muito, e nem aquilo que eu toquei, sabe. Mulher rica é assim. É Brasília pura. – A cidade de Brasília fica fora da cidade. – Boys, boys, come here, will you, look who is coming on the street all dressed up in modernistic style. It ain’t nobody but... (Aunt Hagar’s Blues, Ted Lewis and his Band, com Jimmy Dorsey na clarineta.) – Essa beleza assustadora, esta cidade, traçada no ar. – Por enquanto não pode nascer samba em Brasília. – Brasília não me deixa ficar cansada. Persegue um pouco. Bem-disposta, bem-disposta, bem-disposta, sinto-me bem. E afinal sempre cultivei meu cansaço, como a minha mais rica passividade. – Tudo isso é hoje apenas. Só Deus sabe o que acontecerá em Brasília. É que aqui o acaso é abrupto. – Brasília é mal-assombrada. É o perfil imóvel de uma coisa. – De minha insônia olho pela janela do hotel às três horas da madrugada. Brasília é a paisagem da insônia. Nunca adormece. – Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. – Eu queria ver espalhadas por Brasília quinhentas mil águias do mais negro ônix. – Brasília é assexuada. – O Primeiro instante de ver é como certo instante da embriaguez: os pés não tocam na terra. – Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira começa a querer. E querer é que não pode. Não tem. Será que vai ter? É que não estou vendo onde. – Não me espantaria cruzar com árabes na rua. Árabes antigos e mortos. – Aqui morre minha paixão. E ganho uma lucidez que me deixa grandiosa à toa. Sou fabulosa e inútil, sou de ouro puro. E quase mediúnica. – Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá. – Aqui é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo. – Tenho certeza de que aqui é o meu lugar certo. Mas é que a terra me viciou demais. Tenho maus hábitos de vida. – A erosão vai desnudar Brasília até o osso. – O ar religioso que senti desde o primeiro instante, e que neguei. Esta cidade foi conseguida pela prece. Dois homens beatificados pela solidão me criaram aqui de pé, inquieta, sozinha, a esse vento. – Fazem tanta falta cavalos brancos soltos em Brasília. De noite eles seriam verdes ao luar. – Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que também é a ideia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna. – Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado. – Em Brasília estão as crateras da Lua. – A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis.
Estive em Brasília em 1962. Escrevi sobre ela o que foi agora mesmo lido. E agora voltei doze anos depois por dois dias. E escrevi também. Aí vai tudo o que eu vomitei.
Atenção: vou começar.
Esta peça é acompanhada pela valsa Sangue Vienense, de Strauss. São 11h20 da manhã do dia 13.
BRASÍLIA: ESPLENDOR
Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. Também não tem botequim para a gente tomar um cafezinho. É verdade, juro que não vi esquinas. Em Brasília não existe cotidiano. A catedral pede a Deus. São duas mãos abertas para receber. Mas Niemeyer é um irônico: ele ironizou a vida. Ela é sagrada. Brasília não admite diminutivo. Brasília é uma piada estritamente perfeita e sem erros. E a mim só me salva o erro.
A igreja de São Bosco tem vitrais tão esplêndidos que me quedei muda sentada no banco, não acreditando que fosse verdade. Aliás a época que estamos atravessando é fantástica, é azul e amarela, e escarlate e esmeralda. Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais têm luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é no entanto acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de novo-rico. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?
Depois fui à Biblioteca Nacional. Atendeu-me uma jovem russa que se chama Kira. Vi rapazes e moças estudando e namorando: coisa totalmente compatível. E louvável, é claro.
Paro um instante para dizer que Brasília é uma quadra de tênis.
Faz lá um friozinho revigorante. Que fome, mas que fome. Perguntei se havia muito crime na cidade. Disseram-me que no satélite de Grama (é mesmo este o nome?) há uns três homicídios por semana. (Interrompi os crimes para comer). A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos escuros no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. Embora haja ar sem poluição: respira-se bem, um pouco bem demais, o nariz seco.
Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo.
Eu não passo de frases ouvidas por acaso. Na rua, ao atravessar o trânsito, ouvi assim: “Foi por necessidade”. E no cinema Roxy, no Rio de Janeiro, ouvi duas mulheres gordas dizerem: “De manhã ela dormia e de noite acordava”. “Ela não tem resistência física.” Em Brasília tenho resistência física, enquanto que no Rio sou meio mole, meio doce. E ouvi a frase seguinte das mesmas mulheres gordas que eram baixas: “Que é que ela tem que fazer lá?” E foi assim, minha gente, que fui expulsa.
Brasília tem euforia no ar. Eu disse para o chofer do táxi amarelo: hoje parece segunda-feira, não é? “É”, respondeu ele. E nada mais foi dito. Eu queria tanto dizer a ele que estive na adoradíssima Brasília. Mas ele não quis saber. Às vezes sobro.
Então fui ao dentista, ouviu, Brasília? eu me cuido. Devo ler revista odontológica só porque estou na sala de espera do dentista? Depois que sentei na magnífica cadeira de morte do dentista, cadeira elétrica, e vi uma máquina me olhando, chamada “Atlante 200”. Olhou foi à toa, porque eu não tinha cárie. Brasília não tem cárie. É terra forte, essa. E não é de brincadeira. Joga alto e é para ganhar. Eu e Merquior demos grandes gargalhadas que ainda me ressoam no Rio. Fui irremediavelmente impregnada por Brasília.
Prefiro o entrelaçamento carioca. Fui delicadamente acarinhada em Brasília mas morri de medo de ler a minha palestra. (Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.) Eu me meto em cada uma, que vou te contar. Mas é bom porque é arriscado. Acreditem ou não: enquanto eu lia as palavras, eu por dentro rezava. Mas, de novo, é bom por ser arriscado. Agora me pergunto: se não há esquinas, onde ficam as prostitutas de pé fumando? ficam sentadas no chão? E os mendigos? têm carro? pois só se pode andar de carro lá.
A luz de Brasília leva às vezes ao êxtase e à plenitude total. Mas também é agressiva e dura – ah, como eu gostaria da sombra de uma árvore. Brasília tem árvores. Mas ainda não convencem. Parecem de plástico.
Vou agora escrever uma coisa da maior importância: Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e é nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável. Aliás Brasília é implacável. Senti-me como se alguém me apontasse com o dedo: como se pudessem me prender ou tirar meus documentos, a minha identidade, a minha veracidade, o meu último hálito íntimo. Ai se a radiopatrulha me pega e me sova! aí eu lhes digo a pior palavra da língua portuguesa: sovaco. E eles caem mortos. Mas para ti, meu amor, sou mais delicada e digo baixinho: axilas...
Brasília tem cheiro de pasta de dentes. E quem não é casado, ama sem paixão. Simplesmente transa sexo. Mas quero voltar, quero tentar decifrar o seu enigma. Quero sobretudo conversar com os universitários. Quero que eles me convidem para participar dessa aridez luminosa e cheia de estrelas. Será que alguém morre em Brasília? Não. Nunca. Nunca ninguém morre porque lá não se pode fechar os olhos. Lá há hibernação: o ar deixa uma pessoa entorpecida durante anos, uma pessoa que depois vive de novo. O clima é desafiador e chicoteia um pouco a gente. Mas falta magia em Brasília, falta macumba. Não quero que Brasília me rogue praga: pois pega. Rezo. Rezo muito. Ai que Deus bom. Tudo lá é às claras e quem quiser que se vire. Embora os ratos adorem a cidade. Qual será a comida deles? ah, já sei: eles comem carne humana. Escapei como pude. E parecia teleguiada.
Dei inúmeras entrevistas. Modificaram o que eu disse. Não dou mais entrevistas. E se o negócio é mesmo na base da invasão de minha intimidade, então que seja paga. Disseram-me que nos Estados Unidos é assim. E tem mais: eu sozinha, é um preço, mas se entra o meu precioso cachorro, cobro mais. Se me distorcerem, cobro multa. Desculpem, não quero humilhar ninguém mas não quero ser humilhada. Eu disse lá que iria possivelmente à Colômbia e escreveram que eu ia à Bolívia. Trocaram o país à toa. Mas não tem perigo: de minha vida mesma eu só concedo dizer que tenho dois filhos. Não sou importante, sou uma pessoa comum que quer um pouco de anonimato. Detesto dar entrevistas. Ora essa, sou uma mulher simples e um pouquinho sofisticada. Misto de camponesa e de estrela no céu.
Adoro Brasília. É contraditório? Mas o que é que não é contraditório? Só se anda de carro pelas ruas despovoadas. Quando eu tinha carro e dirigia, vivia me perdendo. Nunca sabia onde vir e aonde chegar. Sou desorientada na vida, na arte, no tempo e no espaço. Que coisa, por Deus.
Lá as pessoas se jantam e se almoçam – é para ter gente que as povoe. Isto é bom e muito agradável. É a humanização lenta de uma cidade que por algum motivo oculto é penosa. Gostei muito, me acariciaram tanto em Brasília. Mas havia pessoas que queriam que eu fosse embora a jatíssimo. Eu lhes atrapalhava a rotina. Para essas pessoas eu era uma novidade incômoda. Viver é dramático. Mas não há escapatória: nasce-se.
Como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem? Porque a cidade é habitada por forasteiros nostálgicos. Os exilados. Os que nascem lá serão o futuro. Futuro faiscante como aço. Se eu ainda estiver viva, aplaudirei o produto estranho e altamente novo que surgirá. Será proibido fumar? Será proibido tudo, meu Deus? Brasília parece uma inauguração. Todos os dias é inaugurada. Festejos, minha gente, festejos. Que se ergam as bandeiras.
Quem me quer em Brasília? Então quem me quiser que me chame. Não já, porque ainda estou atordoada. Mas daqui a algum tempo. A serviço. Brasília é a serviço. Quero falar com a camareira que me disse ao descobrir quem eu era: eu tinha tanta vontade de escrever! Eu disse: vá, mulher, e escreva. Respondeu: mas eu já sofri tanto. Eu disse severamente: pois vá e escreva sobre o que você sofreu.
Porque é preciso que alguém chore em Brasília. Os olhos dos habitantes são secos demais. Então – então eu estou me oferecendo para chorar. Eu e minha camareira, nós, as coleguinhas. Ela me disse: quando vi a senhora senti um arrepio no braço. Disse-me que era médium.
É. Estou arrepiada. E sinto calafrios. Que Deus me acuda. Estou muda que nem uma lua.
Brasília é tempo integral. Tenho medo, pânico dela. É lugar ideal para se tomar sauna. Sauna? Sim. Porque lá não se sabe o que fazer de si. Olha para baixo, olha para cima, olha para o lado – e a resposta é um berro: nããããããão! Brasília dá um fora na gente que mete medo. Por que me sinto tão culpada lá? que foi que fiz? e por que não ergueram bem no centro da cidade um grande Ovo branco? É que não tem centro. Mas o Ovo faz falta.
Que roupa se usa em Brasília? Metálica?
Brasília é o meu martírio. E não tem substantivo. É só adjetivo. E como dói. Ah, meu Deusinho, me dá um substantivinho, pelo amor de Deus! Ah, não quer dar? então faz de conta que eu nada falei. Sei perder.
Oh aeromoça, vê se me dá um sorriso menos número! Isso é lá sanduíche que se coma? todo desidratado? Mas faço como Sérgio Porto: me disseram que num avião a aeromoça lhe perguntou: o senhor aceita um cafezinho? E ele respondeu: aceito tudo a que tenho direito.
Em Brasília nunca é de noite. É sempre implacavelmente de dia. Castigo? Mas que foi que fiz de errado, meu Deus? Não quero saber, diz Ele, castigo é castigo.
Em Brasília não se tem praticamente onde cair morto. Mas tem uma coisa: Brasília é proteína pura. Eu disse ou não disse que Brasília é uma quadra de tênis? Pois Brasília é sangue numa quadra de tênis. E eu? onde estou? eu? pobre de mim, com o lençol manchado de escarlate. Me mato? Não. Vivo como bruta resposta. Estou aí para quem me quiser.
Mas Brasília é som oposto. E ninguém nega que Brasília é: goooooooool! Embora entorte um pouco o samba. Quem é? quem é que canta aleluia e eu ouço com alegria? Quem é que atravessa como espada afiadíssima a futura e sempre futura cidade de Brasília? Repito: proteína pura, que és. Me fertilizou. Ou sou eu mesma a cantar? Me ouço comovida. Há Brasília no ar. No ar infelizmente sem o apoio indispensável de esquina para se viver. Será que eu já disse que em Brasília não se vive? se mora. Brasília é osso seco de puro espanto no sol inclemente da praia. Ah cavalo branco mas que crina agreste. Ai, não posso mais esperar. Um aviãozinho, por favor. E o lívido luar que entra pelo quarto adentro e me assiste, eu, pálida, branca, sestrosa.
Estou sem esquina. Meu rádio de pilha não pega música. Que é que há? Assim também não. Me repito? E dói?
Pelo amor de Seus (até errei de susto a palavra Deus), pelo amor de Deus, por favor me desculpem os que moram em Brasília por eu estar dizendo o que forçadamente digo, eu, uma humilde escrava da verdade. Não quero ofender ninguém. É apenas uma questão de luz branca demais. Tenho olhos sensíveis, fico invadida pela claridade alva e tanta terra vermelha.
Brasília é um futuro que aconteceu no passado.
Eterna como uma pedra. A luz de Brasília – estou me repetindo? – a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.
Fora disso, viva Brasília! Eu ajudo a hastear a bandeira. E perdoo a bofetada que me dão no meu rosto pobre. Ai, coitadinha de mim. Tão sem mãe. É dever ter mãe. É coisa da natureza. Sou a favor de Brasília.
No ano 2000 vai ter festa lá. Se eu ainda estiver viva, quero participar da alegria. Brasília é uma alegria geral exagerada. Um pouco histérica, é verdade, mas não faz mal. Gargalhadas no corredor escuro. Eu gargalho, tu gargalhas, ele gargalha. Três.
Em Brasília não tem poste para cachorro fazer pipi. Falta tanto um pipi-dog. Mas Brasília é joia, meu senhor. Lá tudo funciona como deve. Brasília me encerra em ouro. Vou é ao cabeleireiro. Estou falando do Rio. Alô, Rio! Alô! Alô! estou realmente assustada. Que Deus me acuda.
Mas tem hora que vou lhe dizer, meu amigo, tem hora em que Brasília é um cabelo na sopa. Sou muito ocupada, Brasília, vá para o diabo e me deixe em paz. Brasília fica em lugar nenhum. A atmosfera é de indignação e você sabe por quê. Brasília: antes de nascer já nasceu, a prematura, a nascitura, o feto, eu enfim. Ai que safadeza.
Em Brasília não entra qualquer um, não. É preciso nobreza, muita sem-vergonhice e muita nobreza. Brasília não é. É apenas o retrato de si própria. Eu te amo, oh extrósima! oh palavra que inventei e que não sei o que quer dizer. Oh furúnculo! pus cristalizado mas de quem? Atenção: há esperma no ar.
Eu, a escriba. Eu, a infeliz definidora por destino. Brasília é o contrário de Bahia. Bahia é nádegas. Ah que saudade da embebida praça de Vendôme. Ah que saudade da praça Maciel Pinheiro em Recife. Tanta pobreza de alma. E tu a exigires de mim. Eu, que nada posso. Ah que saudade de meu cachorro. Tão íntimo que ele é. Mas um jornal tirou o retrato dele e ele ficou na boca da rua. Eu e ele. Nós, irmãozinhos de São Francisco de Assis. Calados fiquemos: é melhor para nós.
Ai que te pego, Brasília! E vais sofrer torturas terríveis nas minhas mãos! Você me incomoda, ó gélida Brasília, pérola entre os porcos. Oh apocalíptica.
E de repente a grande desgraça. O estrondo, Por quê? Ninguém sabe. Oh Deus, como é que eu não vi logo? pois não é que Brasília é a “A Saúde da Mulher”? Brasília diz que quer mas não quer: negaceia. Brasília é um dente quebrado bem na frente. E é cúpula também. Tem um motivo principal. Qual é? segredo, muito segredo, sussurros, cochichos e chichos. Diz-que-diz que não acaba mais.
Saudável, saudável. Aqui sou professora de Educação Física. Dou trambolhões. É isto mesmo: faço o inferno. Brasília é o inferno paradisíaco. É uma máquina de escrever: toc-toc-toc. Quero dormir! me deixem em paz!!! Estou can-sa-da. De ser in-com-pre-en-sí-vel. Mas não quero que me compreendam senão perco a minha intimidade sagrada. É muito grave o que estou falando, muito grave mesmo. Brasília é o fantasma de um velho cego com cajado fazendo toc-toc-toc. E sem cachorro, coitado. E eu? como posso ajudar? Brasília se ajuda. É um violino fino, fino, fino. Falta violoncelo. Mas que estrondo. Não se precisava disso, não. Eu afianço. Embora Brasília não tenha fiador.
Quero voltar a Brasília para o apartamento 700. Assim ponho o pingo no “i”. Mas Brasília não flui. Ela é ao contrário. Assim: iulf (flui).
Ela é doida porém funciona. Como detesto a palavra “porém”. Só uso porque é preciso.
Quando anoitece Brasília se torna Zebedeu. Brasília é farmácia noite e dia.
A moça me revistou toda no aeroporto. Eu perguntei: tenho cara de subversiva? Ela disse rindo: até que tem. Nunca me apalparam tanto, Virgem Maria, até que é pecado. Foi um tal de passar a mão em mim que nem sei como aguentei.
Brasília é magra. É toda elegante. Usa peruca e cílios postiços. É pergaminho dentro de Pirâmide. Não envelhece. É Coca-Cola, meu Deus, e vai me sobreviver. Que pena. Para a Coca-Cola, é claro. Socorro! Socorro! help me! Sabe qual é a resposta de Brasília ao meu pedido de socorro? É oficial: aceita um cafezinho? E eu? fico sem socorro? Me trate bem, ouviu? assim... assim... bem devagarzinho. Isso. Isso. Que alívio. Felicidade, meu bem, é alívio. Brasília é um pontapé no traseiro. É lugar para português enriquecer. E eu que jogo no bicho e não ganho?
Mas que nariz bonito Brasília tem. É delicado.
Você sabia que Brasília é etc.? Pois fique sabendo. Brasília é XPTR... quantas consoantes você quiser mas nenhuma vogal para se descansar. E Brasília, ó meu senhor, me desculpe, mas Brasília ficou por isso mesmo.
Olhe, Brasília, não sou dessas que andam por aí, não. Mais respeito, faça o favor. Sou uma viajante espacial. Muito respeito eu exijo. Muito Shakespeare. Ah que eu não quero morrer! Ai, que suspiro. Mas Brasília é a espera. E eu não aguento esperar. Fantasma azul. Ah, como incomoda. É como tentar lembrar-se e não conseguir. Quero esquecer Brasília mas ela não deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Joia. Faiscante. Tem coisa sobre Brasília que eu sei mas não posso dizer, não deixam. Adivinhem.
E que Deus me acuda.
Vai, mulher, vai e cumpre o teu destino, mulher. Ser a mulher que sou é dever. Estou neste instante-já hasteando as bandeiras – mas que minuano! – e eu dizendo viva!
Ai que cansaço.
Em Brasília é sempre domingo. Mas agora vou falar bem baixinho. Assim: meu amor. Meu grande amor. Tenho dito? Você é que responde. Vou terminar com a palavra mais bonita do mundo. Assim bem devagarzinho: amor mas que saudade. A-m-o-r. Beijo-te. Assim como flor. Boca a boca. Mas que ousadia. E agora – agora paz. Paz e vida. Estou viva. Talvez eu não mereça tanto. Estou com medo. Mas não quero terminar com medo. Êxtase. Yes, my love. Entrego-me. Sim. Pour toujours. Tudo – mas tudo é absolutamente natural. Yes. Eu. Mas sobretudo você que é culpada, Brasília. No entanto eu te desculpo. Não tens culpa de ser tão bela e patética e pungente e doida. Sim, está soprando um vento de Justiça. Então eu digo à Grande Lei Natural: sim. Ó espelho partido: quem é mais bonita que eu? Ninguém, responde o espelho mágico. Sim, bem sei, somos nós duas. Sim! sim! sim! Eu disse sim.
Peço humildemente socorro. Estão me roubando. Todo o mundo é eu? Espanto geral. Isso não é ventania não, senhor, é ciclone. Estou no Rio. Desci afinal do disco voador. E lá me vem uma amiga a me dizer – olá Carmem Miranda! – a me dizer que existe uma música chamada Boneca de Piche que diz assim mais ou menos: venho apertado com meus calos quentes, quase afogado no meu colarinho, pra ver meu benzinho.
Aterrissei. Estou com voz fraca mas digo o que Brasília quer que eu diga: bravo! bravíssimo! E chega. Vou agora viver no Rio com o meu cachorro. Peço o favor de fazerem silêncio. Assim: si-lên-cio. Estou tão triste.
Brasília é um olho azul cintilanterríssimo que me arde no coração.
Brasília é Malta. Onde fica Malta? Fica no dia do supernunca. Alô! alô! Malta! Hoje é domingo em Nova Iorque. Em Brasília, a fúlgida, já é terça-feira. Brasília simplesmente pula segunda-feira. Segunda é dia de se ir ao dentista, que é que se há de fazer, o que é chato também tem que ser feito, ai de mim. Em Brasília aposto que ainda se dança, que coisa. São seis e vinte da tarde, já quase noite. Às 6h20 não acontece nada. Alô! Alô! Brasília quero resposta, tenho pressa, acabo de assumir a minha morte. Estou triste. O passo é grande demais para as minhas pernas no entanto compridas. Me ajudem a morrer em paz. Como eu disse ou como não disse, quero uma mão amada que aperte a minha na hora de eu ir. Vou sob protesto. Eu. A fantasmagórica. Meu nome não existe. O que existe é um retrato falsificado de um retrato de outro retrato meu. Mas a própria já morreu. Morri no dia 9 de junho. Domingo. Depois de ter almoçado na preciosa companhia dos que amo. Comi frango assado. Estou feliz. Mas falta a verdadeira morte. Estou com pressa de ver Deus. Rezem por mim. Morri com elegância.
Tenho alma virgem e portanto preciso de proteção. Quem me ajuda? O paroxismo de Chopin. Só você pode me ajudar. No fundo sou sozinha. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem. Estou tão só. Eu e meus rituais. O telefone não toca. Dói. Mas é Deus que me poupa. Amém.
Vocês sabem que eu sei falar língua de cachorro e de planta também? Amém. Mas minha palavra não é a última. Existe uma que não posso pronunciar. E minha história é galante. Sou uma carta anônima. Não assino o que escrevo. Os outros que assinem. Não sou credenciada. Eu? Mas logo eu? Nunca! Preciso de um pai. Quem se candidata? Não, não preciso de pai, preciso do meu igual. Espero a morte. Mas que vento, meu senhor. Vento é coisa que não se pode ver. Pergunto a Nosso Senhor Deus Jeová sobre sua cólera em forma de vento. Só Ele pode explicar. Ou não pode? Se Ele não pode, estou perdida. Ai que te amo e amo tanto que te morro.
Lembram que falei na quadra de tênis com sangue? Pois o sangue era meu, o escarlate, os coágulos eram meus.
Brasília é corrida de cavalos. Eu não sou cavalo não. Que Brasília se dane e corra sozinha sem mim.
Brasília é hiperbólica. Estou suspensa até à última ordem. Eu vivo de teimosa que sou. Aterrissei mesmo. There is no place like home. Como é bom voltar. Ir é bom mas voltar é mais melhor. Isso mesmo: mais melhor.
O que é supletivo em Brasília? Não sei não, meu senhor. Só sei que tudo é nada e que nada é tudo. Meu cachorro dorme. Eu sou o meu cachorro. Eu me chamo Ulisses. Estamos ambos cansados. Tão, tão cansados. Ai de mim, ai de nós. Silêncio. Durma você também. Ah cidade espantada. Ela se espanta com ela mesma. Estou rançosa. Vou é reclamar como Chopin reclamou sobre a invasão da Polônia. Afinal tenho direitos. Eu sou eu, é assim que os outros dizem. E se dizem, por que não acreditar? Adeus. Estou enfastiada. Vou reclamar. Vou reclamar para Deus. E se Ele puder, que me atenda. Sou uma necessitada. Saí de Brasília com uma bengala. Hoje é domingo. Até Deus descansou. Deus é uma coisa engraçada: Ele se pode a si mesmo e se precisa a si próprio.
Vim para casa, é verdade, mas não é que minha cozinheira faz literatura? Eu lhe perguntei cadê a Coca-Cola na geladeira. Ela me respondeu, nega bonita que é: ela estava tão cansadinha, então eu botei ela para descansar, coitadinha. Uma vez, há séculos, contei a Paulo Mendes Campos uma frase que minha empregada de então tinha me dito. E ele escreveu qualquer coisa assim: cada um tem a empregada que merece: Minha empregada tem uma voz linda e canta para mim quando eu peço: “Ninguém me ama”. Ela desenha, faz literatura. Tão humilde que fico. Pois não mereço tanto.
Eu não sou nada. Sou um domingo frustrado. Ou estou sendo ingrata? Muito me foi dado, muito me foi tirado. Quem ganha? Não sou eu não. É alguém hiperbólico.
Brasília, seja bicho um pouco também. É tão bom. Tão bom mesmo. Não ter pipi-dog é uma ofensa a meu cachorro que nunca irá a Brasília por motivos óbvios. São quinze para as seis. Hora nenhuma. Até Kissinger está dormindo. Ou está num avião? Não há como adivinhar. Feliz aniversário, Kissinger. Feliz aniversário, Brasília. Brasília é um suicídio em massa. Brasília, você está se coçando? eu não, não caio nessa porque quem começa não para de se. Você sabe o resto.
O resto é paroxismo.
Ninguém sabe, mas meu cachorro não só fuma como bebe café e come flor. E bebe cerveja. Toma também remédio contra depressão. Parece um mulatinho. O que ele quer é cadela. Ele é de classe média. Eu não deixei o jornal saber tudo. Mas agora é a hora da verdade. Também você tenha a coragem de ler. É um cachorro que só lhe falta escrever. Come caneta e estraçalha papel. Melhor que eu. Ele é filho animal. Nasceu de instantâneo contato da Lua com uma égua. Égua do sol. Ele é uma coisa que Brasília não é. Ele é: bicho. Eu sou bicho. Tenho tanta vontade de me repetir, só para chatear. Meu Deus, voltei atrás no tempo. São exatamente vinte para as seis. E respondo à máquina: yes. A máquina monstruosa. É um telescópio. Que ventania. É ciclone? É.
Mas que lugar para se ser bonito. Hoje é segunda-feira, dia 10. Como vê, eu não morri. Vou ao dentista. Semana perigosa, essa. Eu falo a verdade. Não a verdade toda, como disse. E se Deus sabe, isso é com Ele. Ele que se arrume. Não sei mas vou me arrumar como posso. Como aleijado. Viver de graça é que não se pode. Pagar para viver? Tenho sobrevida. Igual ao vira-lata Ulisses. Quanto a mim acho que.
Que vergonha. É meu caso de vergonha pública. Tenho três bisontes na minha vida. Um mais um mais um mais um mais um. O quarto me mata em Malta. Na verdade o sétimo é o mais brilhante. Bisonte, para quem não sabe, é animal de caverna. Desempenho as minhas histórias. Calor humano. Cidade sem medo, essa. Deus é a hora. Vou durar ainda. Ninguém é imortal. Vê lá se encontra um que não morre.
Morri. Morri assassinada por Brasília. Morri para pesquisar. Rezem por mim porque eu morri de costas.
Olha, Brasília, fui embora. E que Deus me acuda. É que sou um pouco antes. É só isso. Juro por Deus. E sou um pouco depois também. Que é que há de se fazer. Brasília é vidro partido no chão da rua. Cacos. Brasília é ferrinho de dentista. E muito motocicleta também. Sem deixar de ser ova de peixe, bem frita e bem salgada. Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto – que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral. Que bom ser imprópria até dezoito anos.
Brasília faz ginástica todos os dias às 5 da manhã. Só os baianos de lá é que entram nessa. Fazem poesia.
Brasília é o mistério classificado em arquivos de aço. Tudo lá se classifica. E eu? quem sou? como é que me classificaram? Deram-me um número? Sinto-me numerificada e toda apertada. Mal caibo dentro de mim. Eu sou um euzinho muito mixa. Mas com certa classe.
Ser feliz é uma responsabilidade tão grande. Brasília é feliz. Tem essa ousadia. O que será de Brasília no ano, digamos, de 3000? Quanta ossada. Ninguém se lembra do futuro porque não pode ser. As autoridades não deixam. E eu, quem sou? obedeço de puro medo ao mínimo soldado que apareça na minha frente e me diga: considere-se prendida. Ai vou chorar. Sou por um triz. On the verge of.
Está se vendo que não sei descrever Brasília. Ela é Júpiter. É palavra bem aplicada. É gramatical demais para o meu gosto. E o pior é que ela exige gramática but I don’t know, sir, I don’t know the rules.
Brasília é um aeroporto. Os alto-falantes anunciando fria e cortesmente a partida dos aviões.
Que mais? é que não se sabe o que fazer em Brasília. Só fazem os que trabalham danadamente, os que danadamente fazem filhos e danadamente se reúnem em jantares de grandes delicadezas.
Fiquei hospedada no Hotel Nacional. Apartamento 800. E bebi Coca-Cola no quarto. Vivo – boba que sou fazendo propaganda de graça.
Às sete horas da noite falarei só por alto da vanguarda literária brasileira, já que não sou crítica. Deus me livre de criticar. Tenho um medo seco de enfrentar pessoas que me ouvem. Eletrizada. Aliás Brasília é eletrizada e é computador. Com certeza vou ler depressa demais para acabar logo. Vou ser apresentada à audiência por José Guilherme Merquior. Merquior é sadio demais. Fico honrada e ao mesmo tempo tão humilde. Afinal, quem sou eu para enfrentar um público exigente? Farei o que puder. Uma vez fiz uma palestra na PUC e Affonso Romano de Sant’Anna, não sei que diabo lhe deu a esse ótimo crítico, me fez uma pergunta: dois e dois são cinco? Por um segundo fiquei atônita. Mas me ocorreu logo uma anedota de humor negro: É assim: o psicótico diz que dois e dois são cinco. O neurótico diz: dois e dois são quatro mas eu simplesmente não aguento. Houve então sorrisos e relaxamento.
Amanhã volto para o Rio, cidade turbulenta de meus amores. Gosto de viajar de avião: amo a velocidade. Com seu Vicente consegui que corresse em Brasília bem depressa com o carro. Sentei-me ao lado dele e conversamos muito. Até logo mais: vou ler enquanto espero que venham me buscar para a conferência. Em Brasília dá vontade de ser bonita. Tive vontade de me enfeitar. Brasília é arriscada e eu amo o risco. É uma aventura: me deixa face a face com o desconhecido. Vou dizer palavras. As palavras nada têm a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas. Brasília humanizou-se. Só que não aguento essas ruas redondas, essa falta vital de esquinas. Lá, mesmo o céu é redondo. As nuvens são agnus dei. Brasília tem o ar tão seco que a pele do rosto fica seca, as mãos ásperas.
A máquina do dentista chamada “Atlante 200” fala assim comigo: tchi! tchi! tchi! Hoje é dia 14. Quatorze me deixa suspensa. Brasília é quinze vírgula um. O Rio é um, mas unzinho. Atlante 200 não morre? Não, não morre. É como eu quando estou hibernada em Brasília.
Brasília é guindaste alaranjado pescando coisa muito delicada: um pequeno ovo branco. Esse ovo branco sou eu ou uma criancinha que nasce hoje?
Sinto que estão fazendo macumba contra mim: quem quer roubar a minha pobre identidade? Só faço o seguinte: peço socorro e bebo um cafezinho. Depois eu fumo. Como e quanto fumei em Brasília! Brasília é cigarro Hollywood com filtro. Brasília é assim: ouço neste instante o ruído da chave na fechadura da porta de entrada e de saída. Mistério? mistério, sim senhor. Vou abrir e sabe quem era? era ninguém. Brasília é alguém, tapete vermelho, fraque e cartola.
Brasília é uma tesoura de aço puro. Economizo quanto posso para o dinheiro dar. E já fiz o meu testamento. Digo nele um bocado de coisas.
Brasília é barulho de gelinho no copo de uísque, às 6 horas da tarde, hora de ninguém.
Querem que eu diga a Brasília: viva? digo viva com o copo na mão. No Rio, na copa de minha casa, matei um mosquito que tremulava no ar. Por que esse direito de matar? Ele era apenas um átomo voando. Nunca mais vou esquecer esse mosquito cujo destino eu tracei, eu, a sem destino.
Estou cansada, ouvindo de madrugada a Ministério da Educação que também é de Brasília. No momento ouço Danúbio Azul em cujas águas me debruço séria e atenta.
Brasília é ficção científica. Brasília é Ceará ao avesso: ambos contundentes e conquistadores.
E é coro infantil em manhã azulíssima e supergelada, os meninos abrindo as boquinhas redondas e entoando um Te Deum todo inocente, acompanhado de música de órgão. Quero que isso aconteça na igreja dos vitrais às 7 horas da noite. Ou às 7 horas da manhã. Prefiro de manhã, se bem que o crepúsculo em Brasília seja ainda mais bonito que o pôr do sol involuntário de Porto Alegre. Brasília é um primeiro lugar no vestibular. Eu já fico contente com um segundinho segundo lugar.
Vejo que escrevi sete em número: 7. Pois Brasília é 7. É 3. É quatro. É oito, nove – pulo os outros, e no 13 me encontro com Deus.
O problema é que o papel branco exige que eu escreva. Vou e escrevo. Sozinha no mundo, no alto de um morro. Eu queria ser regente musical, mas diz que mulher não pode ser por não ter resistência física. Ah, Schubert, adoce um pouco Brasília. Eu sou tão boa para Brasília.
Neste instante-já são dez para as sete. Me muero. A casa é sua, meu senhor, e o serviço que lhe dou é serviço de luxo. Aproveite quem quiser. Brasília é uma nota de 500 cruzeiros que ninguém quer trocar. E o centavo número 1? esse reivindico para mim. É tão raro. Dá boa sorte. E dá privilégio. Quinhentos cruzeiros me atravessam a garganta.
Brasília é diferente. Brasília convida. E se me convidam, eu atendo. Brasília usa piteira com brilhantes.
Mas é um lugar-comum dizerem: quero dinheiro e quero morrer de repente. Mesmo eu. Mas S. Francisco tirou toda a roupa e ficou nu. Ele e meu cachorro Ulisses nada pedem. Brasília é um pacto que fiz com Deus.
Só peço um favor, Brasília, de você: não entre numa de falar esperanto. Não vê que as palavras ficam deturpadas em esperanto como em tradução mal traduzida? Yes, my Lord. I said yes, sir. I almost said: my love, em vez de my Lord. But my love is my Lord. There is no answer? O.K., I can stand It. Mas como dói. Dói muito ser ofendida por uma falta de resposta. Aguento. Mas não me pisem nos pés porque dói. E sou familiar, eu sou você, não faça cerimônia. Vai ser assim: eu o trato de senhor doutor e você me trata de tu. Você é tão galante, Brasília.
Brasília tem Jardim Botânico? e tem Jardim Zoológico? Faz falta, porque não é só de gente que vive o homem. Ter bicho é essencial.
Cadê a tua trágica ópera, Brasília? Opereta eu não aceito, é nostálgica demais, é soldadinho de chumbo que eu, embora menina, brinquei com. O blue me estraçalha mansamente o coração que no entanto é tão quente como o próprio blue.
Brasília é Lei Física. Relaxe-se, minha senhora, tire a cinta, não se afobe, tome um golinho de água com açúcar – e então experimente ser um pouco a Lei Natural. A senhora vai se deleitar.
Existe por acaso uma matéria de estudo chamada Matéria da Existência do Tempo? Pois devia existir.
Pois não é que passaram água oxigenada no chão de Brasília. Pois passaram: para desinfetar. Mas eu sou, graças a Deus, bem infectada. Mas fiz radiografia dos pulmões e disse para o médico: meus pulmões devem estar pretos de fumaça. Ele respondeu: pois até que não, estão clarinhos.
E assim vai se indo. Estou de repente muda e sem assunto. Respeitem o meu silêncio. Eu não pinto, não senhora, eu escrevo e quanto.
Em Brasília não sonhei. Será culpa minha ou em Brasília não se sonha? E a camareira? que foi feito dela? Eu também já sofri, ouviu, mulher-camareira? Sofrimento é privilégio dos que sentem. Mas agora estou pura alegria. São quase seis horas da manhã. Acordei às quatro da madrugada. Estou alerta. Brasília é alerta. Prestem atenção ao que digo: Brasília não vai terminar nunca. Eu morro e Brasília permanece. Com nova gente, é claro. Brasília é novinha em folha.
Brasília é Marcha Nupcial. O noivo é um nordestino que come o bolo inteiro porque está com fome há várias gerações. A noiva é uma velha senhora viúva, rica e rabugenta. Deste insólito casamento que assisti, forçada pelas circunstâncias, saí derrotada pela violência da Marcha Nupcial que parece Marcha Militar e que me mandou me casar também e eu não quero. Saí cheia de band-aids, com o tornozelo torcido, a nuca doendo e uma grande ferida me doendo no coração.
Tudo o que eu disse é verdade. Ou é simbólico. Mas que sintaxe difícil Brasília tem! A cartomante disse que eu iria a Brasília. Ela sabe de tudo, dona Nadir, do Méier. Brasília é pálpebra batendo que nem borboleta amarela que um dia desses vi na esquina de minha casa. Borboleta amarela é bom augúrio. Lagartixa não diz sim nem não. Mas S. tem um medo de lagartixa que se pela. Eu tenho mais medo é de ratos. No Hotel Nacional me garantiram que não tinha rato. Aí, então, fiquei. Com garantia, fico muito.
Trabalhar é sina. Olha, Jornal de Brasília, inclua astrologia nos seus planos. Afinal a gente tem que saber a quantas anda. Sou toda mágica e minha aura é azul forte que nem os doces vitrais da igreja de que falei. Tudo em que eu toco, nasce.
Amanhece aqui no Rio. Uma bela e fria manhã seca. Que bom que todas as noites tenham manhãs radiosas. O horóscopo de Brasília é fulgente. E quem quiser, que aguente.
São quinze para as seis. Escrevo ouvindo música. Qualquer uma serve, não crio problemas. Eu agora queria era ouvir um fado bem adstringente cantado por Amália Rodrigues em Lisboa. Ah que saudade de Capri. Sofri tanto em Capri. Mas perdoei. Não faz mal: Capri, como Brasília, é linda. Estou é com pena de Brasília porque ela não tem mar. Mas há maresia no ar. Banho de piscina eu desprezo. Banho de mar dá coragem. Um dia desses fui à praia e entrei no mar com emoção. Bebi sete goles de água salgada do mar. A água estava friazinha, delicada, de ondinhas que também eram agnus dei. Aviso que vou comprar um chapéu de feltro no estilo antigo, com copa pequena de abas viradas. E também um xale verde de croché. Brasília não é croché, é tricô feito por máquinas especializadas que não erram. Mas, como eu disse, sou erro puro. E tenho alma canhota.
Me enrolo toda no croché verde-esmeralda, me enrolo toda. Para me proteger. Verde é a cor da esperança. E terça-feira pode ser um desastre. Em minha última terça-feira chorei porque fui ofendida. Mas em geral terça-feira é bom. Quanto à quinta-feira, é doce e um pouquinho triste. Ride, palhaço, enquanto a casa pega fogo. Mais tout va très bien, madame la marquise. Só que.
Será que em Brasília tem faunos? Está resolvido: compro é chapéu verde para combinar com o meu xale. Ou não compro nenhum? sou tão indecisa. Brasília é decisão. Brasília é homem: E eu, tão mulher. Vou andando às trambolhadas. Esbarro aqui, esbarro ali. E chego enfim.
A música que estou ouvindo agora é toda pura e sem culpa. Debussy. Com ondinhas frescas do mar.
Brasília tem gnomos?
A minha casa no Rio está cheia deles. Todos fantásticos. Experimente um só gnomo e você fica viciado. Duende também serve. Anão? tenho pena.
Já resolvi: não preciso de chapéu nenhum. Ou preciso? Meu Deus, que será de mim? Brasília, me salve que estou precisando.
Um dia eu era criança que nem Brasília. E queria tanto um pombo-correio. Pra mandar carta para Brasília. Recebem? sim ou não?
Sou inocente e ignorante. E quando estou em estado de escrever, não leio. Seria demais para mim, não tenho força.
No avião viajei com um senhor português, comerciante não sei de quê, mas que foi muito delicado: segurou minha maleta pesada. Na volta de Brasília viajei com um senhor que conversou comigo tão bem, uma conversa tão boa, que eu disse: é incrível como o tempo passou depressa e já chegamos. Ele disse: para mim o tempo também passou depressa. Este homem um dia encontrarei. Ele vai me ensinar. Sabe de muita coisa.
Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu.
Estamos em plena copa do mundo. Tem um país africano que é pobre e ignorante e perdeu da Iugoslávia de 9 a zero. Mas a ignorância é outra: ouvi dizer que nesse país ou os rapazes pretos ganham ou morrem. Que falta de socorro.
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.
Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.