Todos os contos
Nota bibliográfica
Q uando foi publicado nos Estados Unidos e no Reino Unido em 2015, o presente volume reuniu, pela primeira vez, todos os contos de Clarice Lispector. Existem muitas razões para que tal reunião não tenha acontecido antes, nem mesmo no Brasil. Entre elas, uma história de edição que originou variantes dos escritos de Clarice durante toda sua vida, em virtude do seu hábito de reciclar as obras mais antigas e publicá-las em novos formatos. A instabilidade da indústria editorial brasileira, assim como de sua própria “fortuna crítica”, a obrigou com frequência a trocar de editora, de tal forma que seus nove romances foram publicados por oito editoras diferentes. Número que não incluiu as reimpressões das primeiras obras em seu tempo de vida.
Ocorreu algo semelhante com os contos: aqueles publicados em determinado local sempre apresentavam variantes quando da republicação, em virtude das constantes preocupações financeiras que a forçavam a reciclar o material apresentado anteriormente em jornais e revistas. Outras publicações posteriores foram feitas de forma descuidada e sem a supervisão ou a aprovação da escritora. Assim, em nome da simplicidade, optamos de modo geral por traduzir as primeiras edições destes contos quando foram publicadas em livro.
Tal decisão, malgrado sua clareza teórica, nem sempre foi facilmente posta em prática, sobretudo porque muitos destes contos nunca foram coligidos durante sua vida e só foram publicados anos – até mesmo décadas – depois de sua morte, ocorrida em 1977.
Por ocasião de sua morte, Clarice Lispector era uma figura apreciada apenas por artistas e intelectuais. Porém sua reputação como o maior nome da moderna literatura brasileira só ocorreu postumamente. Seus fãs – a palavra “admiradores” não faz justiça aos seus entusiastas vitalícios – esquadrinharam os arquivos, descobrindo muitos dos seus primeiros escritos. Embora possam surgir outros contos (sobretudo por intermédio de novas pesquisas nos periódicos com os quais Clarice colaborou na juventude), nenhum apareceu desde a quarta curta parte de “Cartas a Hermengardo” alguns anos atrás. É sensato supor que o corpo das obras aqui apresentadas não será significativamente aumentado.
Clarice Lispector não respeitava os limites entre os gêneros. Muitos dos seus textos foram apresentados como jornalismo, mas são claramente ficcionais. Muitos daqueles que foram publicados como ficção podem ser classificados de ensaios ou relatos memorialísticos. Com o objetivo de disponibilizar tanto da sua obra quanto possível, estendemos uma ampla rede, excluindo jornalismo, ensaios e miscelâneas curtas.
Sobre esses contos no contexto da vida e obra da autora, ver Clarice, uma biografia, de Benjamin Moser.
PRIMEIRAS HISTÓRIAS
As histórias reunidas na seção “Primeiras histórias” constituem a obra de juventude de Clarice Lispector. Foram publicadas na época em que ela estudava Direito no Rio de Janeiro antes do casamento e de sua subsequente saída do Brasil. São também anteriores à sua espetacular estreia com o romance Perto do coração selvagem.
Essas primeiras obras têm três origens. A primeira é o mais antigo manuscrito de Clarice, que tem uma nota com sua caligrafia tardia na primeira página: “Em 1942 escrevi Perto do coração selvagem, publicado em 1944. Este livro de contos foi escrito em 1940-41. Nunca publicado. Clarice” (Na verdade, o romance foi publicado em dezembro de 1943, perto do vigésimo terceiro aniversário da escritora.)
Os contos em questão são: “História interrompida”, datado de 1940; “Gertrudes pede um conselho”, de setembro de 1941; “Obsessão”, de outubro de 1941; “O delírio”, de julho de 1940; “A fuga”, que traz a anotação: “Rio 1940”; “Mais dois bêbedos”, de dezembro de1941. Foram publicados nesta ordem em um livro póstumo intitulado A bela e a fera (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1979), editado por Olga Borelli, a amiga e colaboradora de Clarice em seus últimos anos de vida. Os manuscritos originais estão conservados no Instituto Moreira Salles.
A segunda origem de “Primeiros contos” é outro volume póstumo intitulado Outros escritos (Rocco, Rio de Janeiro, 2005), que guarda alguns dos seus trabalhos jornalísticos de juventude, assim como ensaios, discursos e entrevistas. Inclui o seu primeiro conto conhecido, “O Triunfo”, publicado no jornal Folha de Minas, de Belo Horizonte, em 24 de dezembro de 1944, mas provavelmente datado de alguns anos antes; a segunda parte de “Cartas a Hermengardo”, publicada no Dom Casmurro, de 30 de agosto de 1941; e “Trecho”, em Vamos Lêr!, de 9 de janeiro de 1941.
A terceira origem para a primeira parte de “Cartas a Hermengardo” é uma cópia do Dom Casmurro de 26 de julho de 1941, conservada no Arquivo-Museu da Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
LAÇOS DE FAMÍLIA
Esta obra foi publicada pela Editora Francisco Alves, em 1960. Vários dos contos haviam sido publicados anteriormente pelo Ministério da Educação e Saúde, em 1952, em um livreto agora raro: Alguns contos. Estes eram: “Mistério em São Cristóvão”, “Os laços de família”, “Começos de uma fortuna”, “Amor”, “Uma galinha”, “O jantar”. Nessa época, Clarice vivia nos Estados Unidos. Outros surgiram na lendária revista Senhor, por ocasião de seu regresso ao Rio de Janeiro, em 1959.
A coletânea é dedicada à psicanalista de Clarice, Inês Besouchet. O conto “Preciosidade” é dedicado à sua amiga íntima, Mafalda Veríssimo, esposa do célebre escritor Érico Veríssimo. Ela menciona Érico em uma nota solta no final de “Uma tarde plena”, em Onde estivestes de noite.
A LEGIÃO ESTRANGEIRA
Esta obra foi publicada em 1964 pela Editora do Autor, do Rio de Janeiro. Estava dividida em duas partes: “Contos” e “Fundo de gaveta”. Edições brasileiras posteriores incluíram apenas os treze textos selecionados de “Contos”, todos aqui incluídos – de “Os desastres de Sofia” até “A legião estrangeira”. “Fundo de gaveta” é uma compilação de textos sobretudo ocasionais, breves trechos ficcionais e fragmentos ensaísticos. Entre os textos mais substantivos, selecionamos as versões mais tarde formalmente reunidas em Felicidade clandestina, e incluídos também quatro obras adicionais. Duas destas ilustram as dificuldades de seleção: “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos” é a única peça de Clarice; e “Mineirinho” é, stricto sensu, jornalístico, mas o estilo se aproxima mais ao dos seus contos. Muitos destes textos foram originalmente publicados na revista Senhor; muitos deles seriam, também, reciclados.
No início de “Fundo de gaveta”, Clarice acrescentou a seguinte nota:
Esta segunda parte se chamará, como uma vez me sugeriu o nunca assaz citado Otto Lara Resende, de “Fundo de gaveta”. Mas por que
livrar-se do que se amontoa, como todas as casas, no fundo das gavetas? Vide Manuel Bandeira: para que ela me encontre com “a casa limpa,
a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”. Por que tirar do fundo da gaveta, por exemplo, “A pecadora queimada”, escrita apenas por
diversão, enquanto esperava o nascimento do meu primeiro filho? Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não
presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito,
daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.
FELICIDADE CLANDESTINA
Esta coleção de vinte e cinco contos foi publicada pela primeira vez pela Editora Sabiá, em 1971. Integra muitos dos textos que apareceram inicialmente em A legião estrangeira, dois dos quais Clarice reintitulou: “Viagem a Petrópolis” tornou-se “O grande passeio”, e “Evolução de uma miopia” se tornou “Miopia progressiva”.
Os treze que incluímos são os que não haviam sido previamente publicados ou que surgiram, por vezes em uma versão menos desenvolvida e com títulos diferentes, na segunda parte de A legião estrangeira. Estes integram: “Come, meu filho”; “Perdoando Deus”, anteriormente “A vingança e a reconciliação penosa”; “Menino a bico de pena”, anteriormente “Desenhando um menino”; “Uma esperança”, anteriormente numa variante mais curta como “Esperança”; e “Encarnação involuntária”, que começou como o fragmento “A vez da missionária”.
ONDE ESTIVESTES DE NOITE
Publicado no dia 5 de abril de 1974, foi um dos três textos originais de Clarice publicados nesse ano – os outros foram A via crucis do corpo e Água viva – pela Editora Artenova, do Rio de Janeiro.
Incluímos todos os contos, exceto três apresentados em outras coleções: “Esvaziamento” surge como “Uma amizade sincera” em Felicidade clandestina, que inclui também “As águas do mundo”. “Um caso complicado” é apresentado como “Antes da ponte Rio-Niterói” em A via crucis do corpo, pelas razões indicadas abaixo.
“O relatório da coisa” foi originalmente publicado como “Objeto: anticonto”, tendo recebido o presente título quando da publicação no Jornal do Brasil. Na ocasião, Clarice incluiu o seguinte prefácio:
Nota: este relatório-mistério, este anticonto geométrico foi publicado na revista Senhor. Na sua apresentação, Nelson Coelho diz que tento
matar em mim a escritora. Cita vários escritores que tentaram o suicídio da palavra escrita. Nenhum deles conseguiu. “Como Clarice não
conseguirá”, escreve Nelson Coelho.
O que tentei com essa espécie de relatório?
Acho que queria fazer um anticonto, uma antiliteratura. Como se assim eu desmistificasse a ficção. Foi uma experiência valiosa para mim.
Não importa que eu tenha falhado. Chama-se OBJETO.
A VIA CRUCIS DO CORPO
Publicada em 1974, esta obra foi composta ao longo de um único fim de semana, como Clarice afirma na sua “Explicação”. A descontração do estilo, assim como uma certa provocação cansada no tom, reflete a sua frustração, enquanto se aproximava do fim da vida, com as suas próprias lutas pessoais. As reações ao livro refletem a crescente atitude conservadora nos anos mais repressivos da ditadura brasileira. Na altura, foi considerado “pornográfico” e, como ela menciona na “Explicação”, “lixo”.
O conto que refere como “Danúbio Azul” na “Explicação” foi afinal publicado como “Dia após dia”.
Embora Clarice tenha escrito a maior parte da coleção num fim de semana de maio, incluiu “Antes da ponte Rio-Niterói”, publicado no mês anterior em Onde estivestes de noite como “Um Caso Complicado”. Reunimo-lo com estes contos para preservar a continuidade da mais intencionalmente organizada antologia de Clarice Lispector. Na “Explicação”, afirma: “É um livro de treze histórias. Mas podia ser de quatorze.”
VISÃO DO ESPLENDOR: IMPRESSÕES LEVES
Esta coleção de 1975, a segunda publicada pela Francisco Alves, inclui principalmente textos breves mais antigos. A exceção é “Brasília”. Ela escreveu uma versão inicial em 1962, depois da sua primeira visita à nova capital, publicada em A legião estrangeira como “Brasília: Cinco Dias”. A versão aqui dada é a versão aumentada que escreveu após o seu regresso a Brasília, em 1974.
ÚLTIMAS HISTÓRIAS
Estes dois contos, incompletos à data da morte de Clarice Lispector em 9 de dezembro de 1977, foram publicados, com o manuscrito dos seus primeiros contos, em A bela e a fera, 1979. Foram editados pela grande amiga de Clarice Lispector nos seus últimos anos, Olga Borelli. O título da coleção foi escolhido pelo seu filho, Paulo Gurgel Valente. O estado de incompletude reflete-se em algumas inconsistências: em “A bela e a fera”, por exemplo, Carla tem três filhos no início do conto, dois perto do final; no início é oriunda de uma família rica, enquanto mais tarde é apresentada como a ex-secretária do marido.
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