Trovas do Bandarra
Prologo.
BARCELONA: M.DCCCIX.
Na mesma confusão, e nos tumultos
Deixa, que por teu Rei victorias cantem,
Que de quanto o Sol vê, Neptuno abarca Será comtigo Universal Monarcha.
Bocarr. Anacephal. Out. 126.
PROLOGO.
* * * * *
Na presente Edicção houve unicamente a tenção de satisfazer aos desejos, e cuidadoso empenho dos que buscão haver estas
Profecias, e conservar dellas a todo custo um exemplar incorrupto. Isto procurãmos com a maior diligencia, referindo nos
escrupulosamente, e com toda a pontualidade á que se publicou em Nantes em o anno de 1644, por Guillelino do Monnier, Impressor d'el
Rei; e não se encontrará mudança, nem a menor alteração em accrescentamento, ou falta, porque; tudo vai como nella está, por
excepção de alguns poucos, e leves descuidos da impressão, que pareceu acertado emendar. E em quanto ás ineditas, que ajuntamos
no fim, por nos serem requeridas de alguns sujeitos, seguimos as melhores, e mais apuradas copias, de quantas buscámos com
curiosidade, e pudemos descobrir, preferindo sempre as mais antigas, e que conservadas pela tradição continuada reputámos por
mais fide dignas, além de nos serem communicadas por pessoas graves, e de authoridade, que as guardão em varios lîvros de
curiosidades antigas. Todas as que aqui vaõ temos por verdadeiras, e taõ suas, e merecedoras de estimaçaõ como as ímpressas; pois
no tom, e maneira de enunciar as couzas, que revela, assim como na locuçaõ, e estylo em nada se differenção dellas.
Pelo que toca ao seu Author, bem conhecido he o seu nome,
assim como a bem merecida reputação, e credito que tem entre todos por estas suas mesmas Profecias tam decantadas como
cheias de mysterio, e verdadeiras; que ninguem ha que delle, e dellas faça menção, sem que seja fazendo lhes conciliar o grande
respeito, e veneração, que se lhes deve. De sua vida nenhuma couza aqui ha que dizer, podendo se dizer muitas, porque ninguem
de quantos lem estes escriptos a ignora; a anda em muitos livros, que todos podem haver mui facilmente. Foi elle o Nostradamus dos
Portuguezes, como antigas memorias nos certificão, no tempo d'el Rei D. João o III. de Portugal, e porventura ainda mais celebre por
seus ditos, maravilhosos vaticinios, e prognosticos, do que foi aquelle, e pelos mesmos annos na França; porque se com particular
distinção obteve este os comprimentos de Henrique II., e da Rainha Catharina de Medicis, sua mulher, e de seus filhos; as honras, e
estimações do Duque de Saboia Manoel Feliberto, e da Duqueza Margarida de França; e os prezentes de Carlos IX. mereceu o nosso
os applausos de uma Nação inteira assim de grandes como pequenos, de illustres, e plebêos, sabios, e indiscretos, e continuados por tamanho espaço, quanto vai desde quando viveu
até nossos tempos, e sempre o será, em quanto o Mundo durar, que tanto hade viver na memoria dos homens.
Assim o sentiu aquelle raro engenho, e o mais accreditado
Pregador o P. Antonio Vieira, consagrando lhe particular affecto, e chegando a affirmar, que era mui grande, e mui alumiado Profeta.
Antonio de Souza de Macedo faz delle particular memoria por estas palavras na Lusitania Liberata a pag. 735.—"Regnante in Lusitania
Joanne 3º. anno Domini 1550. in nobili oppido Trancoso decessit celeber Gondiçalus Annes Bandarra, qui decantatos á multis annis
reliquit versus de Lusitanis eventibus, quorum, ultra nostros, meminit D. Joannes de Horosco, Castelanus in tract, de Vera, et Falsa
Prophet. cap. 24." O lugar apontado de D. João de Horosco naõ he do cap. 24., como ali está, mas do cap. 14. do Liv. I., onde a pag.
38. diz assim.—"Y desta manera tuve yo noticia de un çapatero en Portugal, que fue tenido por Profeta." E na glosa marginal
accrescenta.—"Este çapatero de Portugal fue en Trancoso dicho Bandarra, y avra este año de 88. quarenta y seis que morio."—Mas
he de advertir, que nem um, nem outra acertou no anno da morte de Bandarra, que, conforme escreveu Barbosa Machado na sua
Biblioth. Lusitana, foi depois de 1556. Saõ tambem dignos de ver se nos elogios, que lhe tributão D. Nicolaõ Monteiro, Vox Turtur., o P.
Vasconcellos no seu admiravel Livro da Restauraç. de Portugal, e outros, que aponta o mesmo Barboza.
Resta antes de concluir mos em agradecimento fazer neste lugar
honrada memoria de dous consumados varões, que muito contribuiraõ para gloria do nosso Author. Seja o primeiro D. Vasco
Luiz da Gama, V. Conde da Vidigueira, e I. Marquez de Niza, a quem se deve aquella Edicçaõ de Nantes, e nella se diz sómente ser por um grande Senhor de Portugal; e verdadeiramente foi
notado de mui nobres, e excellentes qualidades, por onde se faz credor de grandissimos elogios. Occupou mui altos empregos, como
o de Almirante do Mar da India, Deputado da Junta dos Tres Estados, e do Despacho das Juntas na Regencia da Rainha D.
Luiza, e de seus filhos os Reis D. Affonso VI., e D. Pedro II. sendo Regente, Vedor da Fazenda dos ditos Reis, e Estribeiro Mor da
Rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia. Foi Commendador na Ordem de Christo, e do Conselho de Estado, e Guerra, e duas
vezes Embaixador a França por El Rei D. João IV., a primeira em 1642, e a segunda em 1646, em que mostrou discripção, prudencia
e zelo do bem do Reino, a ultimamente a Roma em obediencia aos Papas Urbano VIII., e Innocencio X. Na Paz, que se celebrou deste
Reino com Castela em 1668. teve muita parte, sendo um dos Plenipotenciarios para ella eleito, em que se houve com muita
circumspecção.
O outro he D. Alvaro de Abranches da Camera, que antes lhe havia mandado levantar novo sepulchro com seu Epitafio na Igreja
de S. Pedro da Villa de Trancozo, trasladando seus ossos de outra baixa, e humilde, em que jazia, e fazendo lhe insculpir por divisa na
pedra os instrumentos do officio de çapateiro, que elle havia exercitado. Esta grande honra havia o mesmo Bandarra profetizado
nas Quadras 8 e 9 do. III. Corpo das Trovas, Sonho I. por estas mysteriosas palavras:
8.
Vejo, mas não sei se vejo,
O certo he, que me cheira, Que me vem honrar á Beira
Um Grande do pè do Tejo.
9.
Formas, cabos, e sovelas
Lavradinhas com primor
Mandareis abrir, Senhor,
Muitos folgarão de vê las.
Ali taõ somente lhe chama, e assim o dá a conhecer, "Um Grande
do pé do Tejo:" e sem duvida foi elle um dos mais illustres, e accreditados Fidalgos da Corte no seu tempo. Era filho de D.
Francisco da Camera Coutinho, Commendador de S. João da Castanheira na Ordem de Christo e D. Guimar de Abranches; e neto
pela parte paterna de Rui Gonsalves da Camera, Capitão Donatario da Ilha de S. Miguel, I. Conde de Villa Franca, e de D. Joanna de
Blaesvelt, da Casa dos Condes de Redondo, e pela mai de D. Joao de Abranches de Almada, e de sua segunda mulher D. Antonia de
Souza. A tamanha nobreza uniu muitos merecimentos, adquiridos por seus serviços. Deve se a seu singular espirito, e valor a
liberdade da Patria na gloriosa Acclamação d'el Rei D. João IV., sendo um daquelles illustros Fidalgos, que para ella sobre maneira
concorreu, arvorando a Bandeira da Cidade, recobrando o Castello de Lisboa, e soltando alguns, que ali se achavão prezos, com outras
muitas acções de lealdade, e heroico desinteresse, que serão de exemplo á posteridade. Foi Commendador de S. João da
Castanheira, Senhor dos Morgados de Abranches, e Almadas, Conselheiro de Estado, Mestre de Campo General da Estremadura,
e por duas vezes Governador das Armas da Provincia da Beira. E porque digamos tudo para seu completo elogio, foi casado com D. Maria de Lencastre, da Casa dos Barões, hoje Marquezes de Alvito,
e della houve a D. Magdalena de Lencastre e Abranches, I. Condessa de Valladares, mulher do Conde D. Miguel Luiz de
Menezes, e D. Guimar de Lencastre, que foi mai de Tristão da Cunha de Ataide, I. Conde de Povolide, e de Nuno da Cunha de
Ataide, Inquisidor Geral destes Reinos, e Cardial da Santa Igreja de Roma do titulo de S. Anastacia, por quem se transmitiu o Segundo
Corpo das Trovas ineditas, que agora damos. Delle se lembra o P. Nicolão da Maia na Relação daquella Acclamação que publicou em
1641. Salgad. de Araujo, Success. Militar. Liv. III., cap. 30, e seg., O Conde da Ericeira, Portug. Restaurad. P. I. nos Liv. 2. 4. 7. 8., Souz.
Hist., Genealog. da Casa Real, Liv. VII. cap. I. Castro, Mapp. de Portugal, P. IV. cap. 4. e outros.
A honra de mandar levantar a Bandarra o sepulchro, que acima
dizemos, e por que se lhe deve esta sua memoria, refere o mesmo Antonio de Souza de Macedo na sobredita Lusitania Liberat., e lugar
apontado a pag. 736., e damos as suas mesmas palavras:—"Anno 1641. D. Alvarus de Abranches, provinciae Beirae Generalis, hujus
viri humile sepulchrum in portico Ecclesiae S. Petri dicti oppidi Trancoso, elevavit honorifice nobili epitaphio; et Rex postea, capella
boni reditu ejus donavit nepotem; ac merito, nam si Nabuchodonosor, et Cyrus remunerarunt Hieremiam, et Isaiam quod
pro eis prophetaverint; et magnus Alexander, in gratiam Danielis prophetisantes victorias ejus, adoravit Jaddum summum Pontificem
Hierosolimae; à fortiori Christianissimus Princeps Alexandro maior generosam gratificationem debebat ostendere."