Trovas do Bandarra

Gonçalo Anes Bandarra · Capítulo 6 de 21

Páginas do PDF

Trovas do Bandarra

Sente Bandarra as Maldades do Mundo, e Particularmente as de Portugal.

* * * * *

 

I.

 

Como nas Alcaçarias

Andão os couros ás voltas,

Assim vejo grandes revoltas

Agora nas Clerezias.

 

II.

 

Porque usão de Simonias

E adorão os dinheiros,

As Igrejas, pardieiros,

Os corporaes por mais vias.

 

III.

 

O sumagre com a cal

Faz os couros ser mociços,

Ah! quantos ha máos noviços

Nessa Ordem Episcopal.

 

IV.

 

Porque vai de mal a mal

Sem ordem nem regimento, Quebrantaõ o mandamento,

Cumprem o mais venial.

 

V.

 

Tambem sou Official

Sei um pouco de cortiça

Não vejo fazer justiça

A todo o Mundo em geral.

 

VI.

 

Que agora a cadaqual

Sem letras fazem Doutores,

Vejo muitos julgadores,

Que não sabem bem, nem mal.

 

VII.

 

Borzeguins pera calçar

Haõ de ser de cordovães,

Notarios, Tabaliães

Tem o tento em apanhar.

 

VIII.

 

Vêlos heis a porfiar

Sobre um pobre seitil,

E rapar vos por um mil

Se volos podem rapar.

 

IX.

Tambem sei algo brunir

Quaesquer laços de lavores:

Bachareis, Procuradores

Ahi vai o perseguir.

 

X.

 

E quando lhe vão pedir

Conselho os demandões,

Como lhe faltão tostões,

Não os querem mais ouvir.

 

XI.

 

Há de ser bem assentada

A obra dos chapins largos,

A linhagem dos Fidalgos

Por dinheiro he trocada.

 

XII.

 

Vejo tanta misturada

Sem haver chefe que mande;

Como quereis, que a cura ande,

Se a ferida está danada?

 

XIII.

 

Tenho uma gentil sovela,

Com que cozo mui direito:

Se a mulher não desse geito,

Não olharião pera ella.