Trovas do Bandarra

Gonçalo Anes Bandarra · Capítulo 13 de 21

Páginas do PDF

Trovas do Bandarra

Resposta do Bandarra a Algumas Perguntas, que Lhe Fizerão, e da Resposta Dellas Se Conhecem Quaes Forão. CXXIX.

CXXIX.

 

Os tempos que ja se vem

Porque, Senhor, perguntais,

Mui grande segredo tem,

Que muitos dizem Amen,

Mais se calão mais e mais.

 

CXXX.

 

O mais está por cumprir,

O que a minha conta somma:

Porque de partir a vir

O texto se hade cumprir

Primeiro, Senhor, em Roma.

 

CXXXI.

 

E nestes tresentos dias,

Senhor, que agora contamos

Se contém as Profecias

De Daniel, e Jeremias,

Nas quaes agora entramos.

 

CXXXII.

 

E depois de ellas entrarem

Tudo será ja sabido, Aquelles que aos seis chegarem,

Terão quanto desejarem,

E um só Deos será conhecido.

 

CXXXIII.

 

Com vosco fallo estas couzas,

Como com um grande letrado,

As umas são perigosas,

E as outras duvidosas

Ainda naõ hão começado.

 

CXXXIV.

 

Antes destas couzas serem

Desta era que dizemos,

Mui grandes couzas veremos,

Quaes naõ virão os que viverão,

Nem vimos, nem ouviremos.

 

CXXXV.

 

Sahira o prisioneiro

Da nova gente que vem,

Dessa Tribu ds Rubem,

Filho do Jacob primeiro

Com tudo o mais quo tem.

 

CXXXVI.

 

O mocho está assobiando,

Dizendo e chamando bois, E com medo de depois,

Tudo se está arreceando.

 

CXXXVII.

 

Os dous bois estão berrando,

Pelo tirar da barroca,

Que naõ entre na sua toca

O Bufo, que esta bufando.

 

CXXXVIII.

 

Acho em as Profecias

Que a terra tremerá

E como abobada soará

Quando faz harmonias.

 

CXXXIX.

 

Dizem, que nos ultimos dias,

Que aquestas couzas serão

A vinte e quatro acharão

Este dito de Isaias.

 

CXL.

 

Vejo os lobos comer

As ovelhas degoladas,

As vaccas mortas montadas

E os cordeiros gemer.

 

CXLI.

Naõ deve a terra tremer

Mas fundir se sem tardança,

Pois os que tem a governança

Os naõ querem defender.

 

CXLII.

 

Vejo o mundo em perigo,

Vejo gentes contra gentes;

Ja a terra naõ dá sementes,

Senaõ favacas por trigo.

 

CXLIII.

 

Ja naõ nenhum amigo,

Nenhum tem o ventre são,

Somos ja vento soão,

Que naõ tem nenhum abrigo.

 

CXLIV.

 

Vejo quarenta e um anno

Pelo correr do cometa,

Pelo ferir do planeta

Que domostraser grão damno.

 

CXLV.

 

Vejo um grande Rei humano

Alevantar sua bandeira,

Vejo como por peneira

A Grifa morrer no cano.

CXLVI.

 

Vejo o lobo faminto

Concertado c'os rafeiros:

Os pastores, e ovelheiros

Saõ de um consentimento.

 

CXLVII.

 

Acho cá no instrumento,

Que virá um contador

Tomar conta ao pastor

E pagará um por cento.

 

CXLVIII.

 

Revolvi o meu canhenho

Sobre este forte barão,

Naõ lhe acho nenhum senão;

Dizer delle muito tenho.

 

CXLIX.

 

Vejo um alto engenho

Em uma roda tryunfante,

Vejo subir um Infante

No alto de todo o lenho.

 

CL.

 

Vejo erguer um grão Rei

Todo bem aventurado, E será tão prosperado,

Que defenderá a grei.

 

CLI.

 

Este guardará a Lei

De todas as heregias,

Derrubará as fantezias,

Dos que guardão, o que não sei.

 

CLII.

 

Vejo sahir um fronteiro

Do Reino detrás da serra,

Desejoso de por guerra

Esforçado cavalleiro.

 

CLIII.

 

Este será o primeiro,

Que porá o seu pendão

Na cabeça do Dragão,

Derruba lo há por inteiro.

 

CLIV.

 

Acho, que depois virá

Ás ovelhas um pastor

Mui manso, e bom guardador,

Que o fato reformará.

 

CLV.

Este pastor lhe dará

A comer herva mui sã,

E de suas ovelhas, e lã

Ao mesmo Deos vestirá.

 

CLVI.

 

Todos terão um amor,

Gentios como pagãos,

Os Judeos serão Christãos,

Sem jamais haver error.

 

CLVII.

 

Servirão um so Senhor

Jesu Christo, que nomeio,

Todos crerão, que ja veio

O Ungido Salvador.

 

CLVIII.

 

Tudo quanto aqui se diz,

Olhem bem as Profecias

De Daniel, e Jeremias,

Ponderem nas de raiz.

 

CLIX.

 

Acharão, que nestes dias

Serão grandes novidades,

Novas leis, e variedades,

Mil contendas, e porfias.