Trovas do Bandarra
Resposta do Bandarra a Algumas Perguntas, que Lhe Fizerão, e da Resposta Dellas Se Conhecem Quaes Forão. CXXIX.
CXXIX.
Os tempos que ja se vem
Porque, Senhor, perguntais,
Mui grande segredo tem,
Que muitos dizem Amen,
Mais se calão mais e mais.
CXXX.
O mais está por cumprir,
O que a minha conta somma:
Porque de partir a vir
O texto se hade cumprir
Primeiro, Senhor, em Roma.
CXXXI.
E nestes tresentos dias,
Senhor, que agora contamos
Se contém as Profecias
De Daniel, e Jeremias,
Nas quaes agora entramos.
CXXXII.
E depois de ellas entrarem
Tudo será ja sabido, Aquelles que aos seis chegarem,
Terão quanto desejarem,
E um só Deos será conhecido.
CXXXIII.
Com vosco fallo estas couzas,
Como com um grande letrado,
As umas são perigosas,
E as outras duvidosas
Ainda naõ hão começado.
CXXXIV.
Antes destas couzas serem
Desta era que dizemos,
Mui grandes couzas veremos,
Quaes naõ virão os que viverão,
Nem vimos, nem ouviremos.
CXXXV.
Sahira o prisioneiro
Da nova gente que vem,
Dessa Tribu ds Rubem,
Filho do Jacob primeiro
Com tudo o mais quo tem.
CXXXVI.
O mocho está assobiando,
Dizendo e chamando bois, E com medo de depois,
Tudo se está arreceando.
CXXXVII.
Os dous bois estão berrando,
Pelo tirar da barroca,
Que naõ entre na sua toca
O Bufo, que esta bufando.
CXXXVIII.
Acho em as Profecias
Que a terra tremerá
E como abobada soará
Quando faz harmonias.
CXXXIX.
Dizem, que nos ultimos dias,
Que aquestas couzas serão
A vinte e quatro acharão
Este dito de Isaias.
CXL.
Vejo os lobos comer
As ovelhas degoladas,
As vaccas mortas montadas
E os cordeiros gemer.
CXLI.
Naõ deve a terra tremer
Mas fundir se sem tardança,
Pois os que tem a governança
Os naõ querem defender.
CXLII.
Vejo o mundo em perigo,
Vejo gentes contra gentes;
Ja a terra naõ dá sementes,
Senaõ favacas por trigo.
CXLIII.
Ja naõ nenhum amigo,
Nenhum tem o ventre são,
Somos ja vento soão,
Que naõ tem nenhum abrigo.
CXLIV.
Vejo quarenta e um anno
Pelo correr do cometa,
Pelo ferir do planeta
Que domostraser grão damno.
CXLV.
Vejo um grande Rei humano
Alevantar sua bandeira,
Vejo como por peneira
A Grifa morrer no cano.
CXLVI.
Vejo o lobo faminto
Concertado c'os rafeiros:
Os pastores, e ovelheiros
Saõ de um consentimento.
CXLVII.
Acho cá no instrumento,
Que virá um contador
Tomar conta ao pastor
E pagará um por cento.
CXLVIII.
Revolvi o meu canhenho
Sobre este forte barão,
Naõ lhe acho nenhum senão;
Dizer delle muito tenho.
CXLIX.
Vejo um alto engenho
Em uma roda tryunfante,
Vejo subir um Infante
No alto de todo o lenho.
CL.
Vejo erguer um grão Rei
Todo bem aventurado, E será tão prosperado,
Que defenderá a grei.
CLI.
Este guardará a Lei
De todas as heregias,
Derrubará as fantezias,
Dos que guardão, o que não sei.
CLII.
Vejo sahir um fronteiro
Do Reino detrás da serra,
Desejoso de por guerra
Esforçado cavalleiro.
CLIII.
Este será o primeiro,
Que porá o seu pendão
Na cabeça do Dragão,
Derruba lo há por inteiro.
CLIV.
Acho, que depois virá
Ás ovelhas um pastor
Mui manso, e bom guardador,
Que o fato reformará.
CLV.
Este pastor lhe dará
A comer herva mui sã,
E de suas ovelhas, e lã
Ao mesmo Deos vestirá.
CLVI.
Todos terão um amor,
Gentios como pagãos,
Os Judeos serão Christãos,
Sem jamais haver error.
CLVII.
Servirão um so Senhor
Jesu Christo, que nomeio,
Todos crerão, que ja veio
O Ungido Salvador.
CLVIII.
Tudo quanto aqui se diz,
Olhem bem as Profecias
De Daniel, e Jeremias,
Ponderem nas de raiz.
CLIX.
Acharão, que nestes dias
Serão grandes novidades,
Novas leis, e variedades,
Mil contendas, e porfias.