Trovas Inéditas de Bandarra

Gonçalo Anes Bandarra · Capítulo 3 de 4

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Trovas Inéditas de Bandarra

Quinta parte das Trovas de Bandarra.

 

1.

Quando de noite me ponho

A dormir sem me benzer,

Tudo o que háde açuceder

Se me representa em Sonho.

 

2.

Sempre mandei escrever

Aquillo que me lembrou,

Porque a memoria a postou

De tudo se esquecer.

 

3.

Nas Trovas que tinha feito

Muito hà que conciderar,

Como o seo tempo chegar

Se vera o meo conceito.

 

4.

Sempre por thezoiras faço

As minhas contas mui certas,

Portas que hão de estar abertas Não são boas para o paço.

 

5.

Eu naõ sou Profeta inteiro

E menos na minha terra,

Mas vejo vir pella Serra

Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.

 

6.

O Sol pello meio dia

Faz o effeito de Geada,

Vejo partir huma armada

Carregáda de agua fria.

 

7.

Huma grande tempestade

Com o céo muiclaro, e Serenno,

Farà hum hommem moreno

Com rezão mas sem piedade.

 

8.

A minha trepeça tem

Trez péz mui bem seguros,

Vejo fabricar hums muros

Mas eu naõ sei para quem.

 

9.

Quem muitos annos durar

Hade ver couzas indignas.

Tocar-se haõ muitas bozinas

Por hommems peixes do már.

 

10.

Todo o mundo grita, e berra

Cada qual no seo officio,

Pois antes que hum beneficio,

Querem, peste, fome, e guerra.

 

11.

Quando furo com a Suvella

Coiro groço, e Macio,

Vejo prender no Rocio

Quaze toda a parentella.

 

12.

Eu tenho medo da morte

Como couza superior,

O Presbitero maior

Naõ háde tornar à Corte.

 

13.

Annos hãode vir à terra

Em que por nossos peccados,

Nas cazas fiquem os gados

As gentes vivaõ na Serra.

14.

Sempre como os meos feijoens

Quando vem bem temperados,

Vejo no templo os Copados

No Cural os Cappellaens.

 

15.

Sou Sapateiro, mas Nobre

Com mui pouco Cabedal,

E tu triste Portugal

Quando mais rico, mais pobre.

 

16.

O (A) que ponho às avessas

Com a perna atraz levantáda,

Hàde ter a mão armàda

Para degollar Cabeças.

 

17.

Quando a terra dos Falcoens

Certa erva produzir,

Creio se hàde conceguir

O deitar fóra as Lezoens.

 

18.

De hum brazeiro mui acezo

Damdolhe o vento ligeiro, Se hàde formar hum pinheiro

Sem ter medida, nem pezo.

 

19.

O Carro que vai chiando

Por hir muito carregàdo,

Sim mostra o jugo pezado

Mas naõ tira pezo andando.

 

20.

A Hortela na Panella

Dizem que lhe dà bom gosto,

Essa mulher de bom rosto

Naõ ouço rusnar bem della.

 

21.

Hespanha muito medroza

A Europa muito enfadada,

Huma mulher de almofada

Sabe como huma rapoza.

 

22.

As linhas com que cozia

Jà naõ como as de agora,

Temo que se deite fóra

Quem Souber a Ave Maria.

 

23.

Na era que eu tenho ditto

Nas Thezoiras levantadas,

Se haõde ver muitas jornàdas

Á custa do Saõ Benito.

 

24.

Naõ pode haver couza boa

Aonde Habita o mal Francez,

Temo o polho Portuguez

Em poder de huma Leoa.

 

25.

Quando o Leaõ Hispanhol

Vier quase a Portugal,

Háde ser o nosso mal

Querer luzir como o Sol.

 

26.

Quando a neve como braza

Todas as plantas queimar,

Dous quintos se haõ de ajuntar

Sem haver jogo na caza.

 

27.

Em hum lugar mais ameno

Cercados de mares groços,

Vive por peccados nossos

Quem se sustenta com feno.

28.

 

Sempre vem de monte, a monte

As agoas das enxorradas,

E vejo testas coroadas

Sentadas sobre huma ponte.

 

29.

Quando tiverem por certo

Perdida toda a esperança,

Portugal terá bonança

Na vinda do Encuberto.

 

30.

Vejo vir pello mar largo

Como quem vem para dentro,

Hum hommem buscar seo centro

Depois de hum grande lethargo.

 

31.

Quando me matar S. Jorge

E Marcos me reçuscitar,

Saõ Joaõ me exaltar

Faça todo o mundo alforge.

 

32.

Os pez da minha trepéça Conta trez vezes areio,

Ajuntalhe dous, e meio

Dizelhe que apareça.

 

33.

Naõ podeis fazer queixume

De deixar o vosso lár,

Que se do norte ventar

Do Sul vos virà o lume.

 

34.

Vejo a grifa parideira

Juntada com huma Serpente,

E vejo que muita gente

Tem disto grande canceira.

 

35.

Vejo o Leão, e a Serpente

Atraz da gente goleima,

Grita o gallo que ateima

Com o Lobo que tem diante.

 

36.

Já vejo grande mofina

No porqueiro de Sequem,

Que o gado todo está bem

Com o Ovilheiro de Dina.

37.

Vejo a Lua ensanguentada

Pella virtude do Encuberto,

Se està longe, ou se perto

Assim o diz a toada.

 

38.

Là vem por sima do már

Hum Cavallo de madeira,

Que farà n'huma poeira

O porco que hàde grunhar.

 

39.

Vijo pedras ajuntar

Là muito perto da Lua

Vejo subir de huma, e huma

E nellas o Sol entrar.

 

40.

Vejo pello meo Telhado

No Ceo grande resplendor,

Se hé alegria, ou temer

Esdras o tem declarádo.

 

41.

Vejo o Almocreve tomar

As Alamanhas antigas,

Vejo nascer das ortigas A remente là do mar

 

42.

Là donde o Sol vem nascendo

Hum Dragaõ vejo vir vindo,

A seo Cabo vem correndo

Mais bichos que o vem seguindo.

 

43.

O primeiro depois do quinto

Filho d'Aguia levantada,

Hade estender sua Espàda

Sobre a Galia faminto.

 

44.

Vejo sahir as Gaivotas

De dentro do nosso Tejo,

Taõbem parece que vejo

As duas por ellas rotas.

 

45.

Sonho que rebentaõ fontes

Da terra da Promiçaõ,

E que os Gallos de Siaõ

Vaõ fugindo até os montes.

 

46.

Naõ canta o Gallo com penna

As aguias charão mofina,

A serpente encrespa a clina

Porque Deos assim o ordenna.

 

47.

Faremos dos dias noites

Vivendo como agrestes,

Haverà castigo, e açoutes

Cada hum se faça prestes.

Fim da quinta parte.