Trovas Inéditas de Bandarra

Gonçalo Anes Bandarra · Capítulo 4 de 4

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Trovas Inéditas de Bandarra

Sexta parte das Trovas de Bandarra.

 

1.

Sonhei que via hum fumo,

Com grande força sahir,

E deixando de Subir,

Hum altar vi no escuro:

Formava taõ forte muro.

Que estava o Altar cuberto;

Vi a hostia naõ mui perto,

Do tal Altar arredada:

Huma cára sublimáda,

Em ella vi por mais certo.

 

2.

Pareceme que crescia,

Quem assim o figurava:

Taõbem sonhei me pegava,

Quem mulher me parecia:

E que com voz me dezia,

Anda ver a terra nova,

Pella maõ levou-me à cova,

Levava bello vestido,

Aí nuvems eu fui subido,

Onde vi a gente toda.

 

3.

Negra, e amolatáda,

Logo à terra baldeando,

A respiraçaõ faltando

Eu daqui já naõ quis nada,

Para a terra de pancada

Me trouxe a tal mulher,

Athé alcancei dizer

Vou segunda vez à terra,

Logo vinha resta era

E tornava a aparecer.

 

4.

Parecia a meo ver

Nova Igreja figurada,

Por hereges desterráda,

Na quella terra a tremer,

Quem Herege quizer ser

Ficarà negro, ou molato,

E terà todo o máo trato

Por fugir da boa Ley,

No Inferno sua grey

Para tràz darà o Salto.

 

5.

Taõbem sonhei que a nuvem

Cobria a gram redondeza,

Mui medonha, e espeça

Taõbem raios que destroem,

A quem a falça Ley tem,

E depois vi aclarar

Com hum claraõ singular,

Em dia de huma Senhora Em fe seguinte boa hora

Seu nascimento sempár.

 

6.

Em sonhos vi grande armáda

E a Lua, em rosso Tejo,

Ficandolhe o Sol por baixo

De huma Torre armáda,

Moiros tiveraõ entráda

Pella terra de christaõs,

Na Igreja vi estes máos

Hum exercito Francez,

Taõbem entrou desta vez

Accompanhádo dos Máos.

 

7.

Pella terra veio entrando

Athé se perder de vista,

Com grande préça, e cobiça

Toda a vinhaõ derrotando,

Taõbem os Moiros chegando

Com grande astucia, e préça,

Vinhaõ buscando a Cabeça

A numa Cidade Real

Pouco cuida Portugal,

Em o mal que lhe aconteça.

 

8.

Parece que estou ouvindo

Nesse mar a gran tormenta

Antes que chegue os Setenta, Caxas, Ballas, barberinhos

Entaõ hé que virà vindo

O Grande pastor Geral,

Acudir a taõ graõ mal,

Dando às Ovelhas sustento

E taõbem o Sacramento

Viva o nosso Portugal.

 

9.

Poucos tempos paçaraõ

Segundo as Profecias,

Em os Sinaes destes dias

Outros que cedo viraõ

Huma Gran tribulaçaõ,

Mas ao depois verà

A volta que tudo dà,

Chegando logo a vencer

No mundo todo o poder

Na Igreja ficarà.

 

10.

Em todas reste tuida

Com maior veneraçaõ,

Só nella tem o Christaõ,

Gloria na eterna vida

Mas ai que a vejo cahida

Que primeiro vem chegando

Os boms largando o mundo,

Outros morrendo à preça

Outros perdem a Cabeça,

Muitos disso vão folgando. 11.

Tanto Sangue pello campo

E tanto morrer na rua,

Tantos deixaõ vida sua

Por guardar o nome Santo,

Nem da mulher o manto

Terà respeito ou favor,

Jà nenhum lhe tem amor

A essa profanna vaidade,

Quando virem a Cidade

Posta no maior horror.

 

12.

Jà de França serà farto

Quem à França quiz andar

Nunca mais andem trajar,

Tomàra naõ ter o fato:

Paga o povo por ingrato

O desprezo que tem feito,

Da Patria do minho aceito

Dando rédias ao profanno

Teraõ o seo desenganno,

Com o Vestir mais perfeito.

 

13.

Com Sangue, Boubo, e Deshonra

Com mortes, e Vitupérios,

Fomes doenças, e Guerras,

Querendo acabar a terra

Com mui grande alarido,

Todos ficaraõ com sentido

Com o mal naõ esperado Serà prezo o Diabo

Porque entaõ tudo hé acabádo

E o morto serà vivo.

 

14.

Era taõbem logo chega

Que a todos de asento,

Serà fim este tormento,

Quem com bonança navéga

Entaõ armáda mais féra,

Livranos do Inemigo,

Com bom valor, e abrigo

O Beato Saõ Joaõ

Em seo dia nos dà a maõ,

E o Incoberto vivo.

 

15.

Quem destruir os do Norte

E os Moiros deitar fora,

Matandolhe a gente toda

Em Cacilhas forà côrte

Lá vereis o estandarte

Com as quinas aconado

E emtaõ vereis mostràdo

Em sima o bom Jezus,

E taõbem a Santa Cruz

Para vencer o Diabo.

 

16.

Veremos o mar vermelho

Sem hir a Jerusalem, A qui veraõ os que tem

Tomádo o meo concelho,

Em si proprio o espelho,

Muito Sangue em si correndo

Mas quem fôr obedecendo,

Passarà sobre o mar

Sem que precize nadar,

Verà o maior portento.

 

17.

Em Cassilhas a Bandeira

Com estandarte Real,

Logo Hereges por seo mal,

A morte tem de Carreira

Terà este na Simeira

Hum Christo crucificádo,

Verà o povo malvado

O quaõ cego tem vivido,

Em terem perceguido

E a muitos marterizádo.

 

18.

O Moiro, Turco, Francez

Naõ poderaõ fugir todos,

Porque muitos seraõ mortos

As maõs do bom portuguez,

Là levarão desta vez

Novas aos seus que contar,

Quando virem em Portugal

O Encuberto declarado,

Castigando todo o estrago

Que elles vieraõ cauzar.

19.

Nenhum remedio lhe sinto

O Naõ vireá melhor fôra,

Venha sem em boa hora

Quem ao lobo faminto,

Lhe ponha em sangue tinto

Por essas ruàs no chaõ,

Bandeiras em confucaõ

Flores, Barretes, e Capas

Deste bom Rey nada escapa,

Viva o Graõ Sebastaõ.

 

20.

Sonhei que via vencer

As quatro partes do mundo,

E que Portugal a tudo

Hia dando que fazer,

E taõbem fazendo e ver

O Evangelho, e a Cruz

Ao povo falto de luz,

Sacramento eterno dia

Taobem a Virgem Maria

Todos com o bom Jezus.

 

21.

Sonhei que o Sacramento

Em todo o mundo em redondo,

Já das almas serà dono

Isto maior portento,

Taõbem graõ contentamento,

Em ver os Reys me cauzou Que na geraçaõ dotou,

Lá de Affonço o primeiro

Thé trinta o derradeiro,

Onde o primeiro acabou.

 

22.

Por humgrande oppozitor

Depois da linha acabada,

Este farà derrotada,

A Igreja com horror,

Á besta mete pavor

Em trez, e meio de dura

Tanta gente à Sepultura,

O Martir gloríozo

Por fugir do tenebrozo,

A seguir a Virgem pura.

 

23.

Por mil, e duzentos annos

A Igreja reinarà,

Jà todo o Christaõ serà

Vivendo como irmaõs,

Nem trapaças nem enganos

Debaixo de huma cabeça,

No seo Império, e pastor,

Por Sebastiaõ Senhor

A quem tudo obedeça

Com Zelo, e grande amor.

 

24.

Este Rey de Deos guardado Para limpeza do mundo,

De tal sorte porà tudo

Que deos seja venerado,

Em Portugal exaltàdo

De pequeno graõ Senhor,

Os mais todos com Pavor

Logo o haõde coroar,

Por Imperador sempár

Ao depois do Creador.

 

25.

Sonhei que via descer

Hum Anjo em huma nuvem

Mostrando que jà destroe

Quem Herege quizer ser,

Daqui vem a entender

Pella voz que lhe ouvi

E com furor disse assim,

"Morra o Blasfemador

"De Ley do bom Redemptor,

"O Prencipio desde aqui.

 

26.

Taõbem a Lua correndo

Sonhei que a via vir

Por trez vezes a cahir,

E Portugal perecendo

A isto o que eu entendo

Que figura muito moiro,

Vindo a buscar o oiro,

E mais riqueza notoria

Fazendo perder a gloria,

A quem delle fez thezoiro.

27.

 

Quantos destes vaõ roubando

Aì quando virem chegar,

Muitas Náos em este mar

E gente em terra botando

Entaõ ouviraõ o bando,

Mata, fere, e degolla,

Ficando a gente tolla

Tao tolla, como pasmàda

E a terra derrotáda

Perceguida a toda a hora.

 

28.

Morem, e ficaõ Catholicos,

Hums morrem, outros pelejaõ

Outros depreça despejaõ,

O melhor que guardaõ vivos,

Jà fallaõ Leaes amigos

A imgratidaõ sobeja,

E algums comgrande inveja,

Sò cuidaõ em bem furtar,

Nenhum yuer a tuvar

O Mal que tanto sobeja.

 

29.

Nenhum vemidio se sente

Sem ter meio de Apellar

Nem na terra, nem no Mar,

Vendo prêza maior gente

O mais alto delinquente, Naõ ficarà sem castigo

Quem muito prende taobem

Serà prezo, e cativo,

Pezarlhe há de ser vivo

Estando só sem nímguem.

 

30.

Nas armas pèga a mulher

Taõbem entra em Corcelho,

Entao acode o bom Valho

Sebastiaõ hàde ser,

E tudo em seo poder

Ficarà com graõ limpeza

Ou Magestade, Alteza

Bem livras do Cativeiro

Lobo se torna, em Cordeiro

Em paga da tal Fineza.

 

31.

Contra graõ Senhor se ergue

Com furia, Asturia, e Manha,

Esparta, forte, Companha,

De seo maior mal lhe serve,

Taõbem quem ajuda perde

Honra, fazenda, e Vida,

Depois de no mar vencida

E na terra maio é risco,

Sepultádo no abismo

De todo serà perdida.

 

32.

Perde Braga, vence o Porto

E todas seraõ entràdas,

Em o fogo das pancadas

Em Bahia grar dectroço,

De Lagos fica bem pouco

Lisboa já hé Senhora,

De cativa deffençora

Da Ley que haõde guardar,

Os que se querem salvar

E morrer em boa hora.

 

33.

Viva o grande Portugal

Todos saltaõ de contentes,

Mulheres com seos parentes

Ficaõ livres do graõ mal,

Veja agora cada qual

De que sorte poem a vida,

No levantar da cahida

Tem o vemido na maõ,

Quem cuidar em bom Christaõ

Sua alma serà subida.

 

34.

E todo o mundo sugeito

A esta naçaõ portugueza,

Por aquella grande Alteza

Que Christo tem em seo peito,

Por lhe ser o mais aceito

Na Fé, Constancia, e Valor,

Peregrimo, e Senhor

Gram trabalhos padecendo,

Em fortaleza padecendo Em o mundo grão valor.

 

35.

Em humildade, e esperança

A maior que jà se vio,

Com caridade subio

Ao lugar que logo alcança,

Justiça com temperança

Na prudencia o primeiro,

No castigo o derradeiro

Esperando a Sugeiçaõ,

Logo chega o pagaõ

A ser Christaõ verdadeiro.

 

36.

Portugal fica mais nobre

Em todo elle o poder,

E taõbem se háde ver

Ficar rico, o que foi pobre,

Aquelle a quem a fé cobre

Firme na Santa Igreja,

Todos lhe teraõ inveja,

Quando virem Portuguezes

Vencendo Turcos, Francezes,

E Moiros, em graõ Peleja.

 

37.

Dois descendentes que traz

De grande Valor, e Brio,

O Mais velho em Senhoria

Porá a guerra, em Paz, Veraõ todos o que faz

De boms na Santa Igreja,

A força lhe tem inveja

A Fortuna, e augmento,

Farà pàrto o Sacramento

Onde toda Christaõ seja.

 

38.

O Pastor mór cedo falta

Seo descendente reinando,

E grande castigo dando

Aos vezinhos de Malta,

Quando Veneza se exalta

De França hé Malográda,

Cauzarà nesta pancáda

Entre os seos naturaes,

Seraõ os castigos taes

Que toda seja arrazáda.

 

Fim da Sexta Parte.

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