Um Presente de Natal para o Viúvo: Uma Mentira de Natal (Livro 3)

Notas da Autora

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

SUMÁRIO

NOTAS DA AUTORA

SINOPSE

CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

EPÍLOGO

LIVRO UM DA TRILOGIA

LIVRO DOIS DA TRILOGIA

CONHEÇA TAMBÉM!

REDES SOCIAIS

 

A trilogia Uma Mentira de Natal é uma parceria entre mim e as autoras Evilane Oliveira e Jéssica D. Santos especialmente idealizada para esta data tão especial no mundo todo. Ambientadas em cidades fictícias fora do Brasil, nossa proposta é trazer uma narrativa rápida em formato de novela e que o desenvolvimento dos protagonistas envolva alguma mentira. Apesar da numeração dos livros, as histórias não são interligadas e os casais protagonistas não se conhecem, embora entre um livro e outro haja pequenas referências. Dessa maneira, não é necessária a leitura na ordem da série, mas se ainda assim preferir ler em sequência, o link para os dois primeiros livros da trilogia está ao final deste e-book.

 

Eu pensei que passaria outro Natal sozinho e trabalhando, como estava sendo nos últimos quase quatro anos desde que minha esposa morreu. Mas então ela surgiu. Bateu à minha porta, tarde da noite, sob o frio cortante e neve impiedosa, com uma garotinha ao seu lado e um bebê de colo, pedindo por ajuda.

Hesitei, afinal, era uma estranha no meio da noite. Mas, que droga, ela tinha duas crianças que estavam com fome e com frio.

Como eu poderia não a ajudar? Becky garantiu que ficaria apenas até o dia seguinte, só até conseguir resolver o problema mecânico em seu carro e aí seguiria viagem. Ela só precisava de um abrigo por uma noite. A promessa de uma forte nevasca e o alerta das autoridades de permanecermos dentro de casa, contudo, obrigaram-na a ficar comigo até ser seguro pegar a estrada. Três dias. Nada mais que três dias. Não imaginava que em tão pouco tempo eu me veria atraído por uma desconhecida e apaixonado pelos seus filhos, idealizando neles a família que sempre permeou meus sonhos.

Mas havia mais por trás dos olhos dela. Uma história mal contada. Uma mentira bem escondida que eu passei a dissecar aos poucos até descobrir o real motivo de ela ter ido parar em minha porta.

 

O calendário sobre a minha mesa do escritório marca dezoito de dezembro. O relógio logo ao lado, vinte e duas horas e dois minutos. Eu não deveria estar enfurnado no meu gabinete nesta época do ano, neste horário, revisando e adequando uma série de matérias para o jornal local que vai ao ar na coluna de retrospectiva, mas estou.

Sou o único naquela redação que não se importaria de passar as vésperas das festas de final de ano trabalhando. Sou o único que não se importaria em até mesmo passar o Natal trabalhando. Não pelo fato de eu ser um dos poucos naquela redação que não se reúne com a família — uma vez que todo o conceito que eu tinha de família morreu quatro anos atrás —, mas porque não me importo com a data em si. Isso não significa que gostaria de estar trabalhando a essa altura do campeonato, não quando a maioria dos redatores e jornalistas estão de férias. Alguns poucos ficaram de prontidão — afinal, as notícias não param —, e eu, como diretor de jornalismo, fui um destes poucos.

Então, aqui estou eu, nas últimas linhas do que deve ser a quinta matéria que eu leio, com o prazo apertado para entregar à redação. Suspiro e esfrego os olhos, buscando a caneca de café sobre a mesa. Bebo um gole e o líquido preto já está frio. Com algum esforço, vou até a minha cozinha preparar mais da bebida que vai me manter acordado pelas próximas horas. Enquanto a cafeteira prepara a não sei qual dose da noite, meus olhos se erguem para a janela basculante e se fixam na casa dos Watson, meus vizinhos, a alguns metros de mim. No seu jardim, há uma pequena árvore adornada com pisca-piscas e enfeites de Natal. Nas portas, cercas e na testeira do telhado, as luzinhas cintilam animadamente. Na chaminé, um Papai Noel com um saco de brinquedo tenta invadir o local; na porta de entrada, uma linda guirlanda. O que me chamou atenção, contudo, foi o grito estridente e feliz da garotinha de sete anos. Lois. Toda enrolada em casaco pesado, luvas, gorro e cachecol, ela está com o pai agora,

ajudando-o a terminar um boneco de neve. A mãe dela — uma mulher bonita na casa dos quarenta anos que trabalha em uma clínica de reabilitação no centro da cidade — vem de lá de dentro carregando canecas fumegantes que eu acredito serem de chocolate quente.

A mulher entrega uma caneca para cada, um sorriso bonito no rosto que denota que está feliz pelo momento. O marido se senta ao seu lado no último degrau do alpendre e os dois se entrosam em uma conversa íntima e animada enquanto a filha termina seu boneco de neve, dando pequenos goles no chocolate eventualmente. As luzes piscam sobre suas cabeças, e uma música natalina ressoa lá de dentro A imagem à minha frente aperta um pouco o meu peito pelos motivos errados; por isso, trato logo de me servir do meu café e voltar para meu escritório. Consigo me concentrar no trabalho por mais uma hora mais ou menos antes de um barulho diferente chamar minha atenção. Paro de digitar no notebook — as teclas parecem britadeiras no meio do silêncio noturno — e aguço a audição. Posso ouvir daqui passos cautelosos na madeira do meu alpendre. Meu corpo todo gela. Minha cidade não tem um índice de criminalidade elevado, eu nunca tive qualquer problema de violência ou roubo em todos os trinta e seis anos que aqui moro, mas nunca se sabe quando será a primeira vez.

Forço minha memória tentando me recordar se fechei a porta com todas as trancas, mas não tenho muita certeza. Estive absorto demais nesses arquivos para me lembrar com clareza. De qualquer forma, eu tenho um sistema de alarmes e um taco de beisebol que podem ajudar. Eu teria uma arma, mas nunca arranjei outra.

Katherine era uma desarmamentista fervorosa e me convenceu a nunca ter uma dentro de casa. Eu me desfiz da única que eu tinha quando nos casamos e agora parece que me sinto desprotegido sem uma.

Mas também não acho que resolveria alguma coisa. Se estou ouvindo bem, são dois, e se cada um tiver carregando uma arma,

seriam duas contra uma. Três contra nenhuma se conseguissem me render e tomar o objeto de mim. Afasto os pensamentos da cabeça e me levanto com cuidado, ainda atento ao som lá fora. Tenho a impressão de ouvir um resmunguinho de bebê, uma voz fininha e um shh discreto. Estou para pegar o taco de beisebol quando a campainha da minha casa toca. Travo no lugar, não sei se aliviado ou em alerta. Ladrões não tocam a campainha, mas pode ser uma armadilha. Rodeio o cabo do taco e vou até a sala. Aperto a madeira em torno dos meus dedos e verifico o outro lado pelo olho-mágico.

Para meu alívio é uma mulher, que está de costas para mim agora.

Deixo o taco atrás da porta e a abro. Só neste momento noto que ela está acompanhada de uma menina pequena, talvez uns quatro anos, que estava em um ponto cego, e um bebê enrolado nos braços. Ela carrega algumas bolsas penduradas nos ombros, as maçãs do rosto e a ponta do nariz estão vermelhos pelo frio de temperaturas negativas e suas roupas, luvas e toucas estão salpicadas de neve.

— Oi — diz, a voz saindo um pouco fraca. Ela pigarreia e aperta a mãozinha da garota ao seu lado, toda enrolada em casaco e um cobertor, o queixinho pequeno tremendo de frio. — Desculpe incomodar esse horário. Meu carro quebrou a alguns quilômetros daqui, não sei o que aconteceu. Preciso de ajuda.

Olho por cima do seu ombro em direção à rua escura. Essa região é longe do centro movimentado da cidade, bem afastado da loucura urbana, mas sei que existem outras residências no entorno.

— Sua casa foi a primeira que encontrei com alguém em quilômetros. Todas as anteriores estavam vazias ou ninguém quis me atender.

Assinto, meus olhos ainda presos à suas costas.

— O pessoal costuma viajar nessa época do ano — digo e volto a olhá-la. — E está tarde. Não me surpreende que alguns tenham preferido não te atender.

Ela troca o peso da perna e assente, parecendo nervosa.

— Poderia me ajudar? — pergunta e aperta o bebê contra seu peito. Ele começa a resmungar, e a mulher tenta acalmá-lo chacoalhando-o vagarosamente. — Só preciso de abrigo até amanhã cedo. Aí dou um jeitinho de ir à cidade e resolver meu problema.

— Você não tem alguém para quem possa ligar? — Engulo em seco e desvio o olhar para a menininha agarrada à barra do seu casaco. Ela tem grandes olhos azuis que me encaram amedrontados.

Torno a encará-la, que tem os lábios entreabertos, expressão confusa no rosto. Acho que não esperava que eu fosse negar abrigo a uma mulher com duas crianças debaixo de neve.

Ela dá uma risada nervosa.

— Não. — Suspira. — Quero dizer, mais ou menos. — Ela desvia o olhar por um segundo. — Esqueci meu celular em casa, em cima da mesa, assim que fui sair. Meu ex-marido está dentro de um avião nesse momento indo passar o Natal na Espanha com a esposa de vinte e dois anos com tudo em cima por quem ele me trocou. Meus pais estão em um lugar sem sinal me esperando para o feriado.

Aperto o maxilar sem saber o que fazer. Olho para a casa dos Watson ao lado e me pergunto por que ela não foi bater lá.

— Olha, nós não vamos incomodar, está bem? Só precisamos de um abrigo por essa noite. Está frio e nevando aqui fora, meu carro ficou três quilômetros para trás e estou com duas crianças entrando em hipotermia e morrendo de fome. Por favor, não seja desumano nesse nível.

Fecho os olhos e bufo, abrindo mais a porta.

— Entrem, vou providenciar algumas coisas pra vocês se acomodarem.

Apertando a mão da menina, ela entra com cuidado. O bebê no seu colo — ainda não sei se é um menino ou outra menina —

começa a chorar. A mulher se esforça para acalmá-lo enquanto me segue casa adentro. Levo-os até meu quarto no andar de cima e abro a porta. Ela me olha com dúvida e surpresa nos olhos castanhos.

— Tomem um banho e troquem de roupa. — Meus olhos descem para as bolsas penduradas no seu ombro e pondero que ela tenha roupas limpas e secas. — Eu vou acender a lareira na sala e preparar um chocolate quente.

A pequena ainda grudada à barra do seu casaco chama sua atenção ao puxá-la pela barra. Ela se agacha na altura da menina, que sussurra algo em seu ouvido. A mulher abre um sorriso sucinto e acena. Fico curioso, mas decido não dizer nada. Eu entro no quarto e explico onde ela pode achar sabonetes e toalhas nos armários do banheiro.

— Eu agradeço demais… — Ela se vira para mim, parada no meio do ambiente. Os lábios se entreabrem e só agora noto que nós nem ao menos nos apresentamos.

— Altman. Hans Altman.

Ela acena.

— Não tenho como te agradecer, Altman. — A mulher olha ao redor novamente, como se eu estivesse oferecendo mais do que ela esperava. — Obrigada mais uma vez.

Faço um gesto breve com a cabeça.

— O registro da esquerda é de água quente — oriento antes de deixá-la a sós com as crianças.

Encosto a porta do quarto para lhe dar mais privacidade e vou até a garagem pegar lenha seca para acender a lareira.

Enquanto a madeira crepita, preparo três canecas de chocolate quente, tentando não pensar muito no fato de ter uma estranha com duas crianças no meu quarto. Então, também percebo que ela não me deu um nome. Encaro o telefone fixo em uma coluna da cozinha, pensando se ligo para a polícia ou não. Com certeza, um policial

poderá ajudá-la melhor do que eu. Afasto os pensamentos da cabeça e ergo os olhos para a casa dos Watson. As luzinhas continuam piscando nas testeiras do telhado, na cerca do alpendre, na árvore do quintal e, pelo que posso ver pela cortina fina da janela de vidro, na da sala de jantar também. Um chorinho às minhas costas me faz virar imediatamente.

Encontro-os a alguns metros de mim, as duas de cabelos molhados, roupas trocadas, a menina ainda agarrada na mãe como se ela fosse escapar a qualquer momento. Só então me dou conta de que não sei o que dar ao bebê, que agora está enrolado em outro cobertor. Pego duas canecas de chocolate quente e entrego para elas. A garotinha agarra a xícara com as duas mãozinhas e me olha por cima da borda, acho que um pouco intimidada comigo, e a mais velha deixa a sua sobre o balcão. A garotinha olha para todos os lados, como se à procura de um lugar para se acomodar. Um pouco hesitante, eu me aproximo dela e a coloco em uma das banquetas

—altas demais para que ela alcançasse. Seus olhos azuis grudam em mim por um segundo longo demais.

— Não sei o que fazer para o seu bebê — digo, sincero, virando-me para a desconhecida.

— Tenho uma mamadeira aqui — responde e me mostra o objeto mencionado que estava escondido entra seu peito e a criança. — Só preciso aquecer.

Entendo seu pedido implícito e aceno. Pego a mamadeira e a coloco no micro-ondas. Ela me orienta a um minuto e programo o tempo desejado. Fico de costas para eles, tentando administrar esse momento estranho que pairou sobre nós.

— Meu nome é Becky. — Eu me viro na sua direção. —

Becky Hayes. — Ela acaricia os cabelos loiros da menina ao seu lado. — Essa é Lora.

A menina me olha atentamente, os grandes olhos azuis em mim, os pequenos lábios na borda da sua caneca de chocolate quente.

— Esse é Archie. — Becky desenrola o pequeno de sua manta e o vira para mim. O menino parece ter uns dez meses, talvez menos, os cabelinhos são ralos e amarelos, grandes olhos azuis, cílios longos e lábios cheios.

— Certo. — É tudo que digo ao engolir em seco. — Hã… eu vou arrumar a sala pra vocês dormirem. Meu quarto de hóspedes só tem uma cama de solteiro e acredito que será desconfortável a dividirem.

— Nós vamos nos acomodar bem.

Balanço a cabeça em negativo.

— Tenho um sofá-cama. Vão ficar melhor nele.

O micro-ondas atrás de mim apita, avisando que o tempo acabou. Entrego a mamadeira a Becky, que, por fim, se acomoda em uma das banquetas perto de Lora. Ela testa a temperatura do leite antes de ajeitar Archie nos seus braços e lhe entregar o seu objeto de desejo. O menino está desesperado pelo seu alimento e só se acalma ao segurar a mamadeira e sugar o bico com toda força. Enquanto o pequeno ingere o leite, a mãe finalmente puxa sua caneca de chocolate quente.

Eu ofereço um sorriso rápido antes de deixar a cozinha e ir preparar o lugar para que possam dormir. Arranjo travesseiros, lençóis, cobertores e espalho tudo no sofá-cama frente a lareira.

Estou terminando de arrumar quando Becky aparece. Archie dorme nos seus braços, Lora está agarrada à sua barra, como sempre, e agora coça os olhos de sono.

— Eles estão exaustos — sussurra e aponta para os filhos.

— Foi uma viagem longa até aqui e depois enfrentamos frio, neve e quilômetros andando.

— Descansem — digo, dando-lhe espaço para acomodar os filhos.

Becky me dá um sorriso fraco antes de ajeitar o pequeno Archie primeiro. O menino está desmontado, já em sono profundo, e não consigo desgrudar meus olhos dela, que cuida do menino com carinho e dedicação. Depois, ela ajuda Lora a se acomodar perto do irmãozinho. Mal noto que sorrio ao vê-la abraçar o corpinho do pequeno e resmungar algo à mãe que responde “Essa noite não”. A menina parece contrariada, mas assente e fecha os olhos. Becky cobre a filha e então olha para mim.

— Amanhã prometo que não vamos mais te incomodar.

Cruzo os braços e nego com um gesto.

— Está tudo bem. — Molho o lábio inferior e olho ao redor. A casa está silenciosa, apenas o crepitar da lenha atrás de mim, e me sinto estranho por recepcionar alguém depois de tanto tempo. —

Vou deixar você descansar também. Boa noite, Hayes.

Ela assente e envolve seu corpo com os próprios braços, mantendo-se de pé ao lado das crianças. Eu assinto de volta e me retiro. Apago a luz da sala no caminho, deixando apenas a luz do corredor acesa. Olho para trás e ainda a vejo ali, na mesma posição de antes, agora no meio da sala semiescura.

— Se precisar de algo — digo um pouco mais alto e a vejo dar um pulinho de susto —, pode me procurar no meu quarto.

— Obrigada. — É toda sua resposta.

Por fim, termino de subir as escadas e fecho a porta do meu quarto assim que entro. Encosto a testa contra a madeira e inspiro fundo. Tenho a impressão que não deveria confiar nela, que amanhã cedo minha casa pode estar revirada e roubada. Ainda assim, ignoro todo meu trabalho, o prazo curto e me deito para dormir, mas não consigo porque minha preocupação não é estar caindo em uma armadilha.

Não consigo dormir porque estou curioso sobre Becky.

Eu me levanto logo cedo no dia seguinte, sem ter dormido as oito horas recomendadas. Ainda nem amanheceu direito quando me refugio no meu escritório e dou continuação ao trabalho que foi interrompido na noite anterior. Fico um pouco tentado por quase todo o tempo a ir até a sala e verificar como os três estão, mas me contenho e deixo-os descansar.

 

Amanhece por completo e meu estômago começa a protestar de fome exatamente no instante em que ouço um barulho vindo da cozinha. Vou até lá entender o que está acontecendo e encontro Becky recolhendo algumas panelas que caíram do armário debaixo da pia. Olho ao redor e vejo Lora quietinha no sofá-cama, ainda enrolada na coberta e distraindo o irmão que está em seu colo.

— Eu te acordei com essa barulheira, não é? — Volto-me para Becky, que agora segura duas frigideiras, uma em cada mão.

— Não deveria estar invadindo assim o seu espaço, mas queria te preparar um café da manhã de agradecimento por ter nos acolhido.

Pisco alguns pares de vezes assimilando o que me disse.

— Não era necessário — consigo responder, por fim.

Aproximo-me dela com alguns passos e olho para a bancada da pia.

Ela separou leite, ovos, açúcar e farinha. — Panqueca?

Ela assente.

— Você gosta? — Molha o lábio inferior, como se estivesse receosa da minha resposta.

— Gosto.

Becky me dá um sorriso apertado, volta para os ingredientes e começa a preparar a massa. Pelos momentos seguintes, eu simplesmente não sei o que fazer. Ela é uma estranha na minha casa, com duas crianças pequenas, cozinhando para mim. Caminho até a janela de vidro da sala e olho lá para fora. Pelo que me lembro do noticiário da previsão de tempo, deve fazer muito frio hoje e nevar muito forte antes do anoitecer. Volto-me para os pequenos no

meu sofá, e ali está a menininha, observando-me com olhos curiosos e atentos. Archie tem uma chupeta na boca e está incrivelmente quieto, também olhando para mim como se eu fosse uma espécie diferente.

— Vocês dormiram bem? — pergunto sem tirar meus olhos da garotinha loira. Até acho que minha pergunta foi direcionada a ela porque não me recordo de ter a ouvido falar uma palavra desde que chegaram.

Contudo, é a mãe quem responde:

— Dormimos. Archie estranhou um pouco porque é a primeira noite dele fora de casa. — Becky me olha rapidamente por cima do ombro ao acender uma chama do fogão e apoiar a frigideira na grade. — Espero que o chorinho dele não tenha incomodado.

Nego com um gesto de cabeça.

— Eu sequer o ouvir chorar — digo, o que é verdade.

Meus olhos pousam em Archie, que segue atento em mim.

Seus olhos azuis debaixo dos cílios longos me encaram seriamente, a boquinha sugando forte a chupeta. Lora, abraçada ao irmão em um gesto de proteção e carinho, também ainda me analisa criteriosamente, talvez até com algum receio e medo.

— Vocês estavam indo para onde? — A pergunta é meu modo de manter alguma conversa e não ficar o clima estranho pairando sobre nossas cabeças. Viro-me para a janela outra vez e vejo meu quintal coberto de neve.

Há um momento de quietude até Becky me dizer:

— Fortwood.

— Fortwood? — Franzo o cenho.

— Sim.

Viro-me rapidamente na sua direção e, por um momento, eu a estudo fazendo as panquecas. Tento imaginar de que direção veio

para estar indo para Fortwood e que tenha precisado passar por aqui, em Kearney Valley.

— De onde vieram?

Ela se vira para mim ao tirar uma panqueca para colocá-la no prato sobre a mesa no centro da cozinha. Para que não me pegue no flagra, fico de frente para minha janela, observando meu jardim branco pela terceira vez.

— Aberdeen.

Minhas sobrancelhas vincam. Isso é… longe.

— É uma viagem longa — comento e enfio as mãos nos bolsos da minha calça do pijama. — São mais de doze horas de carro.

Outro silêncio estranho.

— São.

— Por que não foram de avião até a capital e continuaram de carro? — Sei que Fortwood é uma cidade pequena, sem aeroportos.

Eu me viro para ela de novo, que está colocando a terceira panqueca no prato. Becky levanta os olhos para mim e me olha de um modo diferente.

— Lora tem medo de altura.

Eu procuro pela garotinha, que está com a testa vigorosamente franzida. É como se discordasse do que a mãe acabou de falar. Apenas assinto e retorno para a minha posição.

Não dizemos mais nada um ao outro pelos próximos dez minutos —

tempo exato que Becky leva para terminar as panquecas e colocá-las todas na mesa junto das xícaras de café. Ela acomoda Lora na cadeira e se senta com Archie no colo. Fico parado perto da janela, a imagem dela com as crianças despertando algo dentro de mim.

Não me lembro quando foi a última vez que vivi algo parecido. Vi imagens como essa com frequência — na vizinhança, no trabalho, nos cafés no centro da cidade —, mas ter vivido algo parecido…

Sequer sou capaz de me recordar quando foi a última vez que me

reuni em família. E isso dói profundamente em mim. Dói porque eu queria algo assim. Uma esposa, dois filhos, panquecas de manhã, natais em família. Eu poderia ter tido isso tudo se não tivesse agido da forma mais errada possível com Katherine.

— Você não vem? — Becky me chama de volta ao mundo real. — Seu café vai esfriar.

Eu me aproximo com cuidado e me sento na cadeira de frente para Becky e ao lado de Lora, que segue quieta. Começo a desconfiar que ela não sabe falar. Sirvo-me de duas panquecas enquanto Becky ajeita Archie no colo com uma mamadeira em mãos. O menino aproveita sua refeição. Como se não fosse nada o menino em suas pernas, a mãe tira uma fatia da panqueca e come.

— Senhor Altman…

— Hans — corrijo-a rapidamente. — Pode me chamar de Hans.

Ela assente e sorri.

— Sei que prometi ir embora assim que amanhecesse —

Becky menciona com cuidado, sem me encarar, sua atenção agora toda no filho caçula. — Mas eu ainda estou sem carro e não conheço nada daqui. Preciso de mais algumas horinhas até resolver meu problema. — Ela ergue os olhos para mim dessa vez. — Se importa?

Você é uma estranha na minha casa com duas crianças pequenas que provavelmente vão atrapalhar todo o meu dia de trabalho.

— Não, claro que não. — Escondo o sorriso forçado por trás da borda da caneca de café. — Onde pretende encontrar um mecânico? O único que eu conheço aqui nas redondezas saiu de férias com a família já tem uns dias.

Ela suspira e com a mão desocupada, dá outra garfada na sua panqueca.

— Vou tentar um posto de gasolina. No centro da cidade deve ter, não deve? — Assinto. — Fica muito longe daqui?

— Uns cinco quilômetros talvez.

Ela parece derrotada com a informação e me analisa de uma maneira que me diz que está esperando que eu ofereça uma carona até lá, uma vez que é longe demais para ela ir andando com duas crianças. Travo o maxilar não gostando muito da situação em que estou me metendo. Estou com meu prazo curto para entregar as matérias, mas aqui estou eu, inclinado a ajudar essa mulher.

— Olha, vamos fazer assim… — digo, baixando lentamente minha caneca até a mesa. — Eu vou até seu carro e dou uma olhada. Pode ser algo simples que eu consiga resolver. Se não for, então vou à cidade procurar um mecânico.

Becky entreabre os lábios por um segundo.

— Ficaria imensamente grata, Hans. Juro que assim que chegar a Fortwood, eu te recompenso de alguma forma.

Abano a mão no ar, dispensando sua preocupação.

— Não é nada.

— Mamãe — Lora chama baixinho, quase inaudível. Então ela não é muda. Becky se vira para a filha, Archie agora impaciente querendo se levantar depois de ter terminado sua mamadeira. —

Quero mais panquecas.

Por algum motivo que seja, eu me adianto e sirvo outra panqueca para Lora, oferecendo-lhe um sorriso. Ela me fita com seus grandes olhos azuis, a mesma expressão desconfiada de sempre, e não retribui o sorriso.

— Lora, como se diz ao tio Hans?

Ela pisca duas vezes lentamente. Se vira para mãe, depois para mim.

— Obrigada, tio Hans.

Eu a vejo comer a panqueca como se fosse a comida mais gostosa do mundo, os olhos agora atentos na mãe que ajudar Archie a arrotar. Termino meu café rapidamente e deixo a mesa para tentar resolver logo o problema de Becky.

— Vou preparar a caminhonete e ir até seu carro — informo.

— Pode me dizer mais ou menos onde o deixou e que modelo é?

Becky me passa as informações necessárias, que eu decoro com facilidade. Visto calça, botas para neve, casaco grosso, touca e luvas para enfrentar o tempo lá fora. Coloco as correntes de neve nos pneus da caminhonete e sigo por três quilômetros e meio até o carro dela, enfrentando a pista cheia de neve e o tempo que ameaça ficar pior a cada segundo que passa. Ao chegar, encontro o veículo estacionado no acostamento.

Tento dar a partida, mas ele apenas afoga e não liga. Confiro o mostrador de combustível e o tanque está pela metade. Certo, não é falta de gasolina. Encarando o frio cortante, eu me arrisco a dar uma olhada na parte do motor. Entendo muito do básico e não encontro nada que possa explicar por que o carro simplesmente parou de funcionar. Ligo o rádio, que funciona, então não é problema na bateria. Desengato o veículo, empurro-o para além do acostamento para evitar um acidente e o deixo ali quando o frio começa a cortar minha pele, decidindo que é hora de fazer o percurso de volta para a minha casa.

A neve começa a cair com mais força no meio do trajeto. O

noticiário na estação sintonizada informa que uma nevasca sem precedentes está para chegar e as autoridades estão preocupadas.

Estradas serão bloqueadas e o recomendado é não sair de casa pelos próximos três dias. Sem saber exatamente o motivo, eu penso em Becky e nas crianças. Um misto de sentimentos pressuriza meu peito, deixando-me confuso. Eu não pretendia que ela ficasse em minha casa mais do que o necessário. Uma noite. Apenas. Nada mais que isso. Mas também não consigo imaginá-la viajando até Fortwood — ainda há boas oito horas de distância — no meio de uma tempestade gelada.

Afasto meus pensamentos da cabeça e sigo caminho, decidido que resolvo isso assim que chegar. Levo um pouco mais de tempo que o habitual para voltar por causa da estrada escorregadia

— preciso redobrar a atenção e dirigir em velocidade reduzida —, por causa do vento forte e da neve contra o para-brisa. Estaciono a caminhonete no meio-fio e corro para dentro de casa, espanando o casaco ao entrar. Ergo os olhos e encontro Becky na minha sala junto dos filhos, o ambiente todo arrumado e perfumado. Olho ao redor, notando que ela arrumou até mesmo uma bagunça ou outra que não era dela. A mulher está no sofá-cama agora recolhido, Archie no seu colo, Lora logo ao lado, um livro infantil nas mãos que ela deve ter trazido na bolsa. Eu pego a história que conta aos pequenos pela metade, alguma coisa sobre uma princesa e um cisne, e Becky interrompe a narrativa ao me ver.

— Oi — me cumprimenta e encosto a porta para suspender a ventania fria. — Conseguiu alguma coisa?

Tiro o casaco e a touca e os penduro no cabideiro na entrada.

— Não. O carro tem gasolina, a bateria funciona. Não sei o que pode ser. Talvez seja algum problema no sistema de ignição.

Vamos ter que chamar um mecânico, isso se encontrarmos um.

Os olhos dela se enchem de preocupação e… acho que de temor. Becky parece ficar aflita e inquieta por conta do contratempo que vai atrasar sua viagem.

— Eu não queria incomodar, Hans — diz e se levanta, ajeitando Archie no seu quadril. Becky dá uma avaliada rápida em Lora, cabisbaixa com o livro. — Mas você teria como me levar até o posto de gasolina mais próximo? Talvez eu encontre um mecânico que possa me ajudar. Se não encontrar, posso tentar um táxi, carro de aplicativo, talvez até um ônibus.

— Desculpe, não posso — respondo imediatamente quase sem nem perceber. — Está vindo uma tempestade e não vai ser seguro lá fora, Becky. Mesmo que consiga arrumar o carro, a

nevasca promete durar três dias e ela vai te alcançar antes de chegar a Fortwood. — Olho-a seriamente por um instante, depois para Archie e, enfim, para Lora, que agora está atenta ao que estou dizendo. — Vocês terão que ficar aqui.

Becky fica irrequieta, balançando Archie nos braços, embora ele não precise ser acalmado. Ela anda de um lado a outro, nervosa, e não entendo exatamente o motivo. Deixo-a absorver a notícia por um instante, a mulher andando para lá e para cá, aflita, e eu daria tudo para entender o que está se passando na sua cabeça agora.

— Não queremos incomodar — sussurra. Ela olha para a filha e aperta Archie um pouco mais contra seu corpo. — Nem atrapalhar seus planos para o Natal. Você não tem um lugar para ir ou coisa assim?

— Não — respondo e engulo em seco. — Eu não tenho ninguém. E mesmo se tivesse, a tempestade teria atrapalhado todos os meus planos. Não pense que vou deixar você pegar a estrada nessas condições, ainda mais com duas crianças pequenas. —

Inspiro fundo e nem acredito no que estou prestes a dizer: —

Fiquem.

Becky olha para Lora, e a garotinha devolve o olhar para a mãe como se suplicasse para ficarem. Leva um segundo inteiro até a mulher concordar com um aceno breve de cabeça. Não dizemos nada por um instante, eu apenas observando ela e as crianças. Lora tornou a se concentrar no livro infantil, agora narrando baixinho o que acha que está escrito ali se baseando nas ilustrações; e Becky balança levemente o filho pequeno, o que faz Archie sorrir. Todo esse conjunto — esses três na minha sala — faz meu coração bater de um jeito diferente.

Pigarreio e pego meu casaco outra vez.

— Vou até a cidade comprar algumas provisões para os próximos três dias. — Olho para fora, a neve caindo com força, mas

não o suficiente para me impedir. — Vou aproveitar que ainda é possível sair de casa.

— Eu devo ter algum dinheiro para…

— Não, por favor — interrompo-a. — Isso não é necessário.

Becky acena levemente e me dá um sorriso que eu acho muito bonito.

— Querem que eu traga algo do mercado?

A mulher balança a cabeça em negativo, mas Lora se manifesta:

— Froot Loops e chocolates.

— Lora! — Becky adverte, alarmada.

O pedido arranca de mim um pequeno sorriso.

— Froot Loops e chocolates. Certo. Algo mais, mocinha? —

questiono.

Lora pisca um par de vezes e olha ao redor, como se considerando.

— Lora, não! — a mãe diz, firme. — Não precisamos de mais nada.

A menina cruza os braços e fecha a carinha, brava.

— Mas, mamãe…

Becky move a cabeça de um lado a outro.

— Não.

Ela bufa e volta a pegar o livro, a testa vincada, claramente emburrada por não poder fazer seu pedido. Eu me aproximo e me sento ao seu lado. Lora ergue os grandes olhos azuis para mim e me encara seriamente.

— O que você quer pedir?

— Hans… — Becky choraminga. Ergo uma mão, sem olhá-la, e ela para imediatamente o seu protesto.

— Podemos ter luzinhas?

Vinco a sobrancelha ao mesmo tempo em que Becky sussurra “Ai, meu Deus”. Não entendo seu pedido direito e tombo a cabeça um pouco para o lado.

— Lu… zinhas?

Lora abana a cabeça afirmativamente.

— É, como as da casa ao lado. — Ela aponta para a residência dos Watson. — Luzinhas e meias para colocar na lareira.

Entreabro os lábios, entendendo a que se refere. Eu não decorei a casa para o Natal. Nunca tive qualquer vontade para isso e não é uma tradição que sigo. Katherine é quem adorava a data e fazia questão de decorar cada canto que encontrasse. Tinha até louças e roupa de cama, mesa e banho de temas natalinos que começava a usar religiosamente no dia seguinte a Ação de Graças.

— Hans, o pedido da Lora… É que ela…

Eu me levanto e abano a cabeça em negativo.

— Está tudo bem. É um pedido justo, certo? — Ofereço um sorriso sincero para Lora. — Froot Loops, chocolate, luzinhas e meias para lareira. — Bato o dedo indicador na minha têmpora. —

Gravei tudo aqui. — A garotinha sorri de volta, parecendo feliz que seu desejo será atendido, e isso desperta alguma curiosidade em mim. Volto-me para Becky e anuncio. — Eu não demoro.

Ela me acompanha até a porta e toca no meu braço antes de eu sair.

— Desculpe pelo pedido dela — diz, com cuidado. — Você não precisa…

— Eu prometi, eu vou trazer, Becky. Já disse que está tudo bem. — Olho para Archie por um momento, seus olhos azuis atentos em mim. Sem entender por quê, estico minha mão e pego a dele, gorduchinha e macia. Demoro a notar essa proximidade inadequada e o solto de repente, como se tivesse levado uma descarga elétrica. Para disfarçar, completo: — Volto logo.

 

O único hipermercado da cidade está cheio quando chego.

Filas enormes denunciam que as pessoas querem se precaver da tempestade e correm contra o tempo para estocar alimentos, remédios e kit de primeiros socorros. Compro tudo o que acho que será necessário para esses próximos três dias. Na seção infantil, cedo à tentação de comprar um berço-portátil para Archie ao pensar que não deve ser confortável nem seguro dormir naquele sofá-cama. Acabo por comprar também um brinquedo qualquer para ele.

Para Lora, opto por mais decoração de Natal além das luzinhas porque não sei exatamente que tipo de brinquedo a agrada.

Agora, estacionado frente à minha casa, a neve cai sem piedade sobre minha caminhonete, as sacolas estão sob a lona da carroceria com tudo o que vamos precisar enquanto estou aqui, inclinado sobre o volante, pensando em por que fiz questão de agradar minimamente aqueles três com tanta coisa que comprei.

Deveria ter comprado apenas o básico, mas não. Eu tive mesmo de gastar uma pequena fortuna com decorações natalinas que não vou usar nunca mais e um berço que não faço ideia que destino darei assim que Becky e as crianças seguirem seus rumos.

Afasto todos os meus pensamentos da cabeça e desço do carro para descarregar os sacos de compras. Becky surge na porta no instante que estou me aproximando, Archie nos seus braços e encaixado na sua cintura. Ele me vê e abre um sorriso pequeno com a chupeta na boca. Quase de forma involuntária, eu sorrio de volta para ele.

— Precisa de ajuda? — Passo por ela e deixo a primeira leva de compras sobre a mesa da cozinha.

— Não. Está tudo bem. Dou conta sozinho.

Levo uns cinco minutos para descarregar tudo e guardar a caminhonete na garagem. Assim que termino, Becky e Lora me rodeiam, ainda mais quando me aproximo com a caixa do berço.

— Ai meu Deus — Becky diz, um pouco assustada —, você não tinha que ter se incomodado com isso. — Ela ajeita Archie no colo depois que conto meus motivos por ter trazido o berço. — Nós íamos ficar bem no sofá-cama.

— Não foi nada. — Dou de ombros e concluo: — Tenho um quarto sobrando de frente para o meu. Acho que você e Lora podem dividir confortavelmente. Vai ser melhor do que dormir aqui na sala.

O sofá-cama era adequado para uma noite, mas agora como vão precisar ficar alguns dias a mais…

Becky me dá um sorriso pequeno e desvia o olhar, murmurando um “obrigada” quase inaudível. Sinto uma mãozinha puxar a barra do meu pulôver e abaixo os olhos para encontrar os de Lora. Seus cabelos amarelos foram amarrados em dois pequenos coques nas laterais, uma mecha ondulada caindo ao lado do rosto.

— Tio Hans, trouxe as luzinhas e o Froot Loops?

Olho por cima das sacolas até encontrar o cereal e as barras de chocolates.

— Eu trouxe. — Entrego o cereal para ela, que o agarra como se sua vida dependesse disso. — Mas obedece a mamãe e só come quando ela deixar, certo?

Lora se vira imediatamente para Becky, os grandes olhos azuis suplicantes.

— Posso, mamãe? Agora. Estou com tanta vontade!

A mãe suspira e acena. Diante a permissão, pego uma tigela azul, colher e leite. Lora se acomoda na mesa assim que tiro as sacolas e fica ali comendo seu cereal enquanto eu termino de guardar as compras, Becky me ajudando na tarefa da melhor maneira que pode por causa de Archie no seu colo.

— Quanto tempo ele tem? — pergunto ao alcançar a parte mais alta do armário, onde guardo um pote de pasta de amendoim.

— Nove meses — Becky responde e me entrega o próximo item de dentro da sacola, algumas caixinhas de massa de tomate.

Olho para o quintal dos Watson enquanto a resposta de Becky assenta em minha mente. Fico tentado e curioso a lhe fazer mais perguntas, mas, desde que bateu em minha porta, sinto como se ela estivesse se esquivando o tempo inteiro, irrequieta e amedrontada. Terminamos de guardar os alimentos quase em silêncio — os resmungos de Archie e Lora mastigando o cereal são todo o barulho que preenche o cômodo.

— Eu também comprei isto para ele. — Mostro o mordedor em formato de estrela de cinco pontas, ainda na embalagem. Archie logo se inclina no colo da mãe em direção ao brinquedo, todo interessado.

— Hans, eu não sei nem como agradecer… — sussurra, pegando o produto das minhas mãos e entregando para o menino.

— Podemos montar as luzinhas, tio Hans?

Viro-me para Lora, que está terminando de comer seu Froot Loops. A mãe dela parece a ponto de adverti-la pelo pedido, mas eu contorno a mesa e fico ao seu lado, agachando-me até estar à sua altura.

— Claro que podemos. Eu comprei algumas outras decorações. Você gosta, não é?

Ela sorri e assente ao sair do seu lugar e caminhar devagar até a sala, onde as sacolas com os acessórios ficaram sobre o sofá.

Lora começa a revirar os sacos, um sorriso bonito e sincero iluminando seu rosto conforme encontra os enfeites. Observo-a por um segundo, ainda curioso com seu desejo. Volto ao mundo real quando Becky pigarreia.

— Está com fome? — Seus olhos vagam até meu relógio na parede. — Saiu só com o café da manhã no estômago.

Assinto.

— Um pouco. Eu devo ter algo… — Dou um passo à frente e Becky move a cabeça de um lado a outro.

— Se importa em ajudar a Lora? — Indica a menina com o queixo. — Eu cuido do almoço.

Olho por cima do meu ombro, em direção à garotinha toda feliz com os adornos, e isso faz estremecer algo dentro de mim.

Gosto de ver seu sorriso de criança, a inocência que exala dos seus olhos azuis, da alegria tão pura enquanto avalia o que eu trouxe.

— Certo.

Antes de caminhar até lá, avalio Becky mais uma vez. Ela está perdida na minha cozinha, procurando panelas e ingredientes para o que pretende preparar, tudo isso com Archie encaixada no seu quadril.

— Me deixa ficar com ele — peço apontando para o menino.

— Se ele não for me estranhar, é claro. Você fica mais livre e descansa um pouco o braço.

Becky detém o olhar sobre o filho por um segundo antes de consentir. Estico os braços para Archie e o chamo. O menino faz não com a cabeça e esconde o rosto no pescoço da mãe. Como artimanha, pego o mordedor das mãos dele, desembalo-o e mostro para ele. O danadinho fica interessado e, finalmente, vem até mim.

Levo-o até a sala com Lora e o coloco sentadinho no tapete perto da lareira. A menininha e eu desembalamos todos os enfeites e os separamos para começarmos a adornar minha sala.

Não deixo de notar a alegria de Lora ao esticarmos os pisca-pisca na lareira e os ligarmos na tomada. Seus olhinhos azuis brilham frente as luzinhas, fixados no simples adorno. Sentado no tapete, Archie também parece hipnotizado com as luzes piscando, o que de certa forma é compreensível. Pela sua idade, é o primeiro Natal dele. Volto-me para a pequena de cabelos loiros, vendo-a tocar com delicadeza as pequenas lâmpadas, como se nunca tivesse visto uma de perto.

O menorzinho sai de seu lugar, resmungando na sua língua de bebês, e se arrasta de barriga na nossa direção. Eu o pego no colo e o levo para perto do pisca-pisca, suas pequenas mãos tentando alçar as luzes. Enquanto isso, Lora agarra as meias vermelhas e as estica para cima, como se tentasse colocá-las na parte superior da lareira.

— Não alcanço, tio Hans. — Agacho-me na sua altura e a convido a se encaixar no meu braço livre.

— Eu te ajudo.

Ergo-a em meus braços e a aproximo da parte superior da lareira. Meus olhos correm rapidamente até Becky na cozinha, e ela está ali, segurando uma panela e olhando para nós com uma expressão que é difícil de decifrar. A mulher sorri e se vira de costas, colocando a panela sob a água corrente da torneira. Lora protesta de novo porque está na altura certa, mas eu a mantenho longe. Pisco e volto ao mundo real, aproximando-a do seu objetivo.

Com um grande sorriso, ela pendura a meia no prego que está ali.

— Tem mais três — observa, apontando para o sofá onde deixamos todos os enfeites natalinos depois de desembalá-los. —

Uma meia para cada um, né, tio Hans?

Olho da lareira para o sofá, constatando que, sim.

Teoricamente, há uma meia para cada um de nós. Acho que foi um pouco inconsciente da minha parte. No Ano-Novo, tudo isso vai para dentro de uma caixa que ficará na calçada para alguém levar embora.

— É, uma meia para cada — concordo, por fim, com um sussurro.

Lora coloca as outras três meias, uma ao lado da outra, e o sorriso em seu rosto é de pura satisfação. Ela desce do meu colo e revira os adornos até encontrar dois chapéus de Papai Noel que eu também trouxe. Ela encaixa um na cabeça e coloca o outro em Archie. A peça nele fica um pouco grande mais, o que faz a barra do

acessório cair sobre seus olhos. O menino fica incomodado e retira o chapéu da cabeça, preferindo amassá-lo entre os dedinhos.

— Podemos ter uma árvore de Natal, tio Hans? — Lora pergunta, agora pegando a caixa de bolas natalinas. — Para colocarmos elas — diz ao erguer os adornos em suas mãos.

— Lora… — a advertência vem da mãe dela, e a pequena se vira rapidamente na sua direção. A panela com água está sobre o fogão aceso agora, e Becky faz menção de vir até nós, mas eu acalento a situação.

— É um pedido justo, Becky. Sem árvore de Natal, não há como pendurar as bolinhas natalinas, não é, Lora?

A menina assente com um sorriso e procura pela mãe mais uma vez, acho que temendo levar outra bronca.

— Não quero arriscar ir cortar um pinheiro na fazenda de cultivo na cidade vizinha. Está vindo uma tempestade e temos que ficar dentro de casa para estarmos seguros. Mas… acho que devo ter uma artificial guardada no meio da minha bagunça lá na garagem. Não garanto muito, pequena — digo para Lora, que gargalha em seguida e aponta o dedo para Archie ainda em meu colo.

Abro um sorriso pequeno ao notar que ele enfiou o chapéu na cabeça de novo, com a barra do acessório caindo sobre seus olhos mais uma vez. Puxo o chapéu para trás e ele me dá um sorriso com quatro dentinhos, dois em cima e dois embaixo.

— Quer ajudar a montar a árvore de Natal, Archie? —

pergunto e levo um instante para notar que faço um afago nas suas bochechas gordas. Abaixo a mão rapidamente, dando-me conta do carinho aleatório. Não evito um sorriso ao ver que ele acena, como se tivesse me entendido. — Então, depois de comermos, vamos buscar a árvore e montar, certo?

Lora dá saltinhos no lugar um segundo antes de correr até a mãe — agora no fogão —, puxar a barra de sua blusa e contar a novidade. Ela ainda pula e bate palmas, toda animada com a

expectativa do que vamos fazer. Eu me aproximo e me sento à mesa, apoiando Archie na minha coxa.

— Você gosta muito do Natal, Lora?

O sorriso no seu rosto morre diante minha pergunta; seus olhos se abatem e ela se agarra com força à cintura da mãe. Becky repara na mudança do comportamento da filha e a abraça, sussurrando algo em seu ouvido. A menina assente e, de repente, como se nada tivesse acontecido, ela vem na minha direção e faz um pequeno esforço para se sentar na cadeira vazia. Procuro por Becky nesse momento, estranhando o que foi que aconteceu aqui, mas ela foge do meu olhar ao retornar para a comida que prepara no fogão. Archie se remexe no meu colo, o que me chama de volta ao mundo real. Ele se inclina sobre a mesa, querendo pegar a embalagem do mordedor que ficou ali.

— Eu gosto do Natal — Lora diz com um sussurro. Ela apoia os braços na mesa e deita a cabeça no braço esquerdo, os olhos azuis muito atentos em mim. — Mas o meu papai não deixava a gente enfeitar a casa. Ele ficava muito, muito bravo e dizia que era bobagem.

Não sei como reagir nesse momento. Posso ser um homem que não vê a importância que os outros veem no Natal, mas eu jamais faria algo do tipo com uma criança.

— Também acha o Natal uma bobagem, tio Hans? Você não tinha enfeites e não montou a árvore.

— Lora, não perturbe o tio Hans — Becky adverte. Ela escorre o macarrão na cuba da pia e, por cima do ombro, envia um olhar de advertência. A menina se encolhe e esconde rosto entre seus braços.

— Eu não acho o Natal uma bobagem — respondo, para a alegria da menina, que ergue a cabeça e me dá um sorriso sincero.

Desvio o olhar para Archie, distraído com a embalagem do mordedor. Ele bate as mãozinhas e emite sons no seu linguajar de bebês. — Eu só…

Escolho bem as palavras porque não quero soar como alguém que odeia a data. Não odeio, só prefiro o Ano-Novo.

— Eu não gosto é de enfeitar a casa — encontro a desculpa perfeita que, em partes, é verdade. — Dá um trabalhão antes e depois para guardar tudo no lugar… — Reviro os olhos e bufo, o que faz a menininha rir baixinho.

Sem saber exatamente o motivo, eu me viro para Becky e vejo um sorriso pequeno nela, causado pelo riso da filha, seus olhos na nossa direção enquanto termina o molho do macarrão. Sua expressão de felicidade esmoesse quando nota que estou a observando. Becky pigarreia e suspira em seguida.

— Não precisa montar a árvore, não é, Lora? Estamos só de passagem e a última coisa que queremos é deixar bagunça para o tio Hans arrumar.

A menina fica triste na mesma hora e isso, por algum motivo que seja, aperta meu coração. Eu deveria concordar com a mãe dela. Dentro de três ou quatro dias, eles vão seguir viagem e a última coisa que preciso é de uma bagunça para arrumar. Também não me interesso em deixar a casa adornada, porque isso vai me lembrar de Katherine e…

Suspiro, não conseguindo dizer não para Lora, agora toda encolhida no seu lugar. Não posso frustrar as expectativas da menina desse jeito. Se seu desejo sempre foi montar uma árvore de Natal e o babaca do pai sempre foi contra, não serei frio ao ponto de negar um pedido tão… inocente. Por Deus, ela é só uma criança.

— Mas a pequena quer — digo com cuidado, também não querendo contrariar a ordem da mãe. — Se estiver tudo bem para você, não vejo problema em Lora me ajudar a montar a árvore.

Becky me olha de um jeito diferente, talvez tocada pelo meu gesto, e noto que há certa tristeza nas suas íris. De repente, seu passado, sua vida antes de esbarrar na minha, a história com o ex-marido que a deixou por uma garota mais nova me deixam curioso.

Por que essa minha necessidade tão repentina de querer desvendar o que há por trás dos seus olhos tristes?

Devagar, ela assente, o que faz um sorriso radiante surgir em Lora. Ela pula do seu lugar e corre de volta à lareira, parando de frente para as luzes que piscam sem parar. Ela fica ali, observando-as com atenção, cantarolando uma canção natalina. Archie fica todo animadinho em meu colo, os braços estendidos na direção da irmã.

Eu o levo até lá e o coloco no sofá junto do mordedor e do gorro de Papai Noel que o distraem por tempo suficiente. Lora se senta ao seu lado, abraça-o amorosamente e conversa com ele sobre os enfeites, para que servem as meias e que de presente de Natal gostaria que o pai os amasse de verdade.

Isso atinge meu coração de uma maneira incompreensível.

Dói tão profundamente que não sei nem mesmo dimensionar. Eu procuro Becky na cozinha, que ouviu tudo daqui. Ela desvia rapidamente seu olhar abatido, fingindo que não escutou nada do que a filha disse. Já eu não consigo fingir o quanto o pedido de Lora me afetou.

 

Becky prepara uma macarronada à bolonhesa para o almoço. Eu me sento ao lado de Lora enquanto a mãe alimenta Archie com uma papinha que ela tinha de reserva na bolsa. Um sorriso surge em mim, inevitavelmente, ao ver a garotinha sugar o fio de macarrão que bate no seu queixo e deixa ali sujo de molho.

A atmosfera pesada que se instalou na sala assim que a pequena mencionou seu desejo não perdurou muito. Logo, Archie soltou uma gargalhada contagiante que fez a irmã rir junto. Sem demora, Becky estava rindo também, mesmo sem saber o motivo, e eu não resisti. O som das gargalhadas das crianças durou trinta segundos e foi o momento mais alegre que tive em minha casa desde a morte de Katherine.

— Sua árvore é grandona, tio Hans? — Lora pergunta e, em seguida, suga outro fio de macarrão.

Ergo meus braços acima da minha cabeça, ilustrando a altura.

— Assim, desse tamanho.

Os olhos dela ficam enormes, como se nunca tivesse visto uma igual.

— Isso é muito grande! — exclama, toda animada. — Você vai me ajudar a colocar as bolas nas partes mais altas, né, tio Hans?

Porque eu sou baixinha. Desse tamaninho aqui. — Ela vira a palma direita para baixo, direcionando-a para o chão.

Não evito um sorriso pequeno com sua declaração. Pego um pedaço de guardanapo e limpo seus lábios e o queixo sujo de molho de tomate.

— Vou sim, pequena.

Lora balança a cabeça, satisfeita com minha resposta.

Procuro por Becky, à minha frente, que se reveza para comer sua porção de macarronada e alimentar o pequeno Archie. Outro sorriso surge em mim, quase de forma involuntária, por causa dos lábios

dele sujos de comida. Eu desvio os olhos rapidamente quando ela nota que estou os observando e me volto para a menininha, agora enrolando mais um pouco de macarrão no garfo que parece grande demais em suas mãos.

— Então… — menciono devagar, não evitando a curiosidade que me acomete. — A casa dos seus avós tem bastante enfeites de Natal?

— Eu não sei — a menina responde sem pensar duas vezes.

— Nunca fui na casa da minha vovó.

Becky pigarreia, chamando minha atenção, e eu franzo o cenho, ainda encarando a menina. Como assim ela nunca foi…?

— É claro que você já foi à casa da vovó, Lora — a mãe intervém suavemente. — Mas você era pequena demais e não se recorda. A última vez só tinha dois aninhos.

Continuar: parte 2 de 3