Um Presente de Natal para o Viúvo: Uma Mentira de Natal (Livro 3)
Notas da Autora
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A informação pega até a pequena de surpresa que se vira na direção da mãe, interessada. Entretanto, Becky não faz mais qualquer questão de esclarecer e aconselha a menina a terminar sua refeição. Por todo o restante do almoço, permanecemos em silêncio, e eu fico o tempo todo me pensando sobre essa questão.
Ao terminarmos, Archie resmunga e coça os olhos de sono.
Enquanto Lora escova os dentes, a mãe faz o menor dormir, andando com ele para lá e para cá na minha sala. Nesse intervalo, eu limpo a cozinha do almoço.
Vou até Becky ao terminar de limpar tudo. Ela está sentada no sofá terminando de colocar os filhos para um cochilo. Lora está abraçadinha ao irmão caçula, dormindo um sono sereno e profundo.
— Quer conversar sobre a Lora? — Cruzo os braços, parado atrás do sofá. Estou curioso e não vou esconder isso. Se Becky não quiser me contar nada, tudo bem, vou entender. Mas não farei cerimônia para fazer minhas perguntas.
Ela suspira, os olhos nos filhos, e faz um carinho neles.
— Lora é só uma criança, Hans. De certa forma, a realidade para ela é distorcida. — A mulher se vira para mim agora. — O
último Natal dela na casa dos meus pais foi há dois anos, mas antes disso, é claro que eu os via. Eles costumavam ir para Aberdeen nas festas de finais de ano.
Assinto e aperto mais o braço contra meu tórax, sentindo-me idiota por tocar no assunto. Eu não tinha qualquer direito e deveria saber que não dá para levar a sério tudo o que uma criança diz. Se Lora só tinha dois anos a última vez que foi à casa dos avós, é lógico que ela não se lembraria e, por conta disso, diria que nunca foi para lá.
— No Natal passado — Becky prossegue, agora em pé e virada para mim, na mesma pose que eu —, eu estava grávida do Archie de seis meses. Viajar estava me deixando muito enjoada, então preferimos não ir até meus pais.
— Entendo — sussurro me sentindo um pouco envergonhado por ter me intrometido em algo que não era da minha conta. —
Desculpe por ter…
— Tudo bem, Hans. — Recebo um sorriso pequeno e ela se volta para os filhos outra vez. Noto que seus lábios morrem aos poucos e a postura se abate. Becky inspira fundo e expira devagar.
Não é necessário, ainda assim, ela se aproxima dos pequenos e ajeita os edredons em cima deles. — Lora adora o Natal. Os enfeites, as luzinhas, os presentes, as comidas.
Rio baixinho e aceno. Becky me olha, sem esconder a tristeza nos olhos, e não diz mais nada. Eu me seguro para não fazer mais perguntas inadequadas, para não querer saber por que diabos ficou casada com um homem que dizia para uma criança que Natal era bobagem e a privava de uma felicidade simples.
— Assim que ela acordar… — sussurro — vou buscar a árvore na garagem.
Becky engole em seco e assente.
— Nunca vou ter palavras suficientes para te agradecer.
Movo a cabeça em negativo e desvio os olhos para a janela da minha sala. A nevasca prometida está chegando, os flocos agora caindo com muito mais força. Até à noite, será impossível sair de casa.
— Acho que isso vai ser bom até para mim…
Lora está aflita e inquieta sob o umbral da porta que liga os fundos à minha garagem. Becky colocou mais um casaco, luvas e toca na menina porque, de repente, o tempo esfriou muito mais do que prevíamos. Puxo a caixa de cima de uma prateleira no alto e a trago para o chão. Está empoeirada e lacrada com fita de empacotar. Becky surge um instante depois, Archie encaixado no seu quadril e também todo enrolado em uma coberta, sugando sua chupeta.
— Vamos ver se isso ainda está em bom estado. — Apoio a caixa no chão e faço um movimento para Lora se aproximar, que o faz de forma um pouco tímida. Ela para ao lado da caixa, os pezinhos unidos um ao lado do outro.
— Aqui, Hans. — Becky me entrega um estilete que a orientei pegar na gaveta da minha cozinha e uso para rasgar a fita.
Ao puxar as abas para fora, o verde dos festões aramados da árvore salta aos meus olhos. Lora bate palminhas, incapaz de conter sua animação, o que me faz sorrir por um momento. Pego alguns festões, um por um, e avalio o estado deles. Não estão novos, mas estão bem conservados e dá para satisfazer os desejos da pequena. Nunca liguei muito para a data, mas como Katherine gostava, nós costumávamos cortar um pinheiro em fazendas de cultivo. No último Natal dela comigo, Kate, por qualquer motivo que
desconheço, preferiu comprar uma artificial, que eu mantive guardada desde sua perda.
— Bom, parece que temos uma árvore — menciono e ergo a caixa nos meus braços.
Voltamos lá para dentro e procuro um bom local para montá-la, o que fica decidido, com a ajuda especializada de Lora, que logo ao lado da lareira é um bom lugar. Começamos a montar a estrutura, encaixando os galhos da base até o topo. Depois, Becky, que se reveza para ficar de olho em Archie sentado no tapete, e Lora me ajudam a armar os galhos e deixá-los volumosos.
A menininha abre um sorriso enorme frente à árvore, já parecendo feliz o suficiente. Acho que ela se contentaria em deixá-la assim, sem qualquer adorno. Observo seu sorriso inocente, a felicidade que exala dos olhos azuis, e isso aquece um pouco meu coração.
— Os enfeites, tio Hans! — Ela corre até os ornamentos que comprei no hipermercado, junta tudo quanto pode nos pequenos braços e os traz para mim, derrubando alguns itens no percurso.
Becky a adverte, e eu rio um pouquinho ao ir ajudá-la.
Separamos laços, bolas, estrelas e iniciamos o processo. Um sentimento diferente me assalta cada vez que Lora sorri colocando um dos adornos nos galhos. É bom, me aquece, me faz sentir vivo.
Assim como a pequena, a mãe dela também parece um pouco mais alegre ao nos ajudar. Como de costume, ela está com Archie e conversando com o menino conforme distribui as peças. Vez ou outra, ela coloca um dos enfeites nas pequenas mãozinhas dele e o aproxima da árvore. É claro que o menino não consegue pendurá-los ali, na maioria das vezes leva o objeto à boca, então a mãe precisa intervir e, com suas próprias mãos, pendurar o adorno. De qualquer maneira, é algo que faz Archie sorrir até os olhos.
Dou um passo atrás para observar o que fizemos. Foi um bom trabalho, mas nem de longe está bom. Comprei poucos
enfeites — até porque não pretendia adornar nada —, o que faz com que a árvore pareça pelada, como se estivesse faltando algo.
— Está bonita — Becky diz, avaliando-a de cima a baixo.
— Poderia ter mais enfeitezinhos — Lora observa. A mãe, ao seu lado, desfere um tapinha de leve no seu braço.
Sorrio e abano a cabeça em positivo, aproximando-me e me colocando ao lado da pequena.
— Tem razão, Lora. Devo ter outra caixa com mais enfeites guardados. Vou buscar.
Volto à garagem e procuro entre minhas tralhas os enfeites que Katherine fazia questão de ter. Levo dois minutos inteiros para encontrá-la por trás de algumas latas de tinta em uma das prateleiras mais acima. Tomo-a em meus braços e a levo para a sala. Lora logo me rodeia, ansiosa. Uso o estilete para cortar a fita adesiva e faço algum suspense antes de puxar as abas e revelar um mundo de todo tipo de enfeites natalinos: bolas, estrelas, meias, pirulitos, miniaturas de papais Noéis, laços, pequenas caixinhas de presentes e piscas-piscas que não sei se ainda funcionam.
Começamos a distribuir os itens da caixa. Becky pendura as bolas e estrelinhas, Lora fica encarregada de espalhar os laços e papais Noéis — e, às vezes, eu tenho de parar com o meu trabalho e erguê-la na altura dos galhos que não alcança —, e eu fico com as caixinhas de presentes e pisca-pisca, que, afinal, ainda funcionam, sim.
— Tio Hans, quem é essa moça bonita?
Eu me viro na direção da menininha, que está agachada frente a caixa com um porta-retrato em mãos. Meu coração quase para nesse momento e preciso de um momento valioso para não perder a compostura.
Becky se adianta até a filha e pega a fotografia de suas mãos. Seus olhos se detêm por um segundo rápido na imagem de
Katherine comigo antes de advertir a filha por ficar xereteando em minhas coisas. Lora franze os cenhos.
— Não estava xereteando, mamãe. Eu só fui pegar outro enfeite e achei a foto. — As intensas íris azuis de Lora voltam para mim. — Quem é ela, tio Hans?
Eu pisco um par de vezes, como se estivesse esquecido de como se fala.
— Lora, chega de perguntas. — Becky ajeita Archie no seu colo e deixa o retrato sobre a lareira.
— Mas eu só queria saber…
— Lora! — Becky é mais incisiva dessa vez, sem erguer a voz, e a menina se encolhe no seu corpinho.
Sem graça pela bronca da mãe, ela simplesmente pega mais um laço e dá a volta na árvore, procurando um lugar livre para colocá-lo. Meus olhos e os de Becky se encontram um instante depois.
— Desculpe, Hans.
Movo a cabeça de um lado a outro, dispensando sua preocupação. Não foi culpa dela. Eu nem mesmo sei como o retrato de Katherine foi parar na caixa. Aproximo-me da lareira e pego a imagem, meus olhos fixos no que acho que foi o último retrato que tiramos juntos. Foi no jantar de Ação de Graças na casa dos pais dela, e Katherine…
Suspiro, quase sem perceber. Katherine não parecia muito feliz nem agradecida. Nesse dia, ela forçou o sorriso ao meu lado, frente à lareira da casa dos pais onde batemos a fotografia, e seus braços ao redor da minha cintura, lembro com clareza, pareciam sem vida, como se ela não quisesse estar ali. Estar comigo. Meu coração aperta quando me recordo que a data de seu falecimento está chegando. Tenho bloqueado essa lembrança há quase um mês, mas agora, com a aproximação da data, é inevitável não me recordar. Serão quatro anos desde que ela morreu.
Devolvo à fotografia ao local que Becky o deixou e vou até Lora. Agacho-me na sua altura e a ajudo com o laço que está colocando em um dos festões. Procuro pelo olhar de Becky um momento antes de me voltar à pequena.
— A moça bonita — menciono — era minha esposa.
Lora se vira para mim rapidamente, os olhos estalados.
— Onde ela está agora, tio Hans?
Passo a mão pelo rosto, devagar, procurando o modo mais adequado de contar. Sinto Becky se aproximar e se pôr perto da filha, deixando-a entre nós dois.
— Ela se foi.
Lora pisca duas vezes.
— Ela foi embora?
Becky apoia a mão no ombro da filha, o outro braço firme para manter Archie em seu colo.
— Lora, se lembra do Tobey?
A menina move a cabeça para cima e para baixo.
— Era meu hamster de estimação. Ele virou estrelinha. —
Becky olha para mim por um momento e me oferece um sorriso complacente. Entendo o que fez por mim e assinto. — O que isso tem a ver com a moça bonita da foto?
Lora olha de mim para a mãe.
— Minha esposa também… virou uma estrela, Lora.
Os olhos dela se assustam, os pequenos lábios se entreabrindo devagar conforme compreende a magnitude da informação. Então, sem que eu espere, Lora vem até mim e me abraça. Seus pequenos braços se apertam em torno do meu pescoço com uma força que não achei que poderia vir de um ser tão minúsculo. Eu me desarmo por completo nesse momento e sinto como seu abraço é o gesto mais sincero que senti desde a perda de
Katherine. Muitas pessoas vieram me abraçar e desejar condolências, mas nunca senti que elas, de fato, se compadeciam de minha dor.
A pequena se afasta e planta um beijo suave na minha bochecha antes de voltar para seus enfeites e escolher os próximos laços que vai colocar nos galhos. Eu me levanto, pego o retrato meu com Katherine e o coloco sobre a lareira. Fico alguns segundos observando nossa última foto juntos enquanto os três continuam com a saga de adornar a sala. Depois, penso na porção de trabalho que preciso entregar. Eu deveria ir até meu escritório e terminar a leitura para enviar à redação, não voltar a ajudar Lora com os enfeites.
Mas é o que eu faço.
Com Archie no colo, Becky está tentando desenrolar os últimos piscas-piscas. Eu me apresso a ajudá-la e recebo um sorriso de agradecimento. Quando consigo desembaraçar os fios, entrego uma ponta para ela, e a outra fica comigo. Contornamos a árvore com as luzinhas, cada um indo por um lado, e eu me distraio um instante com Lora agachada em um ponto, ajustando um papai Noel que ficou torto. Minha distração me faz perder a noção do quanto andei e quase esbarro em Becky ao nos encontrarmos.
Eu tomo um susto e ela ri baixinho. Nossos olhos se encontram por um momento que parece muito longo, e eu noto, estando tão perto assim, em como ela é muito mais bonita. Engulo em seco e forço um sorriso ao sair do seu caminho. Becky termina de enrolar as luzes na árvore e eu faço o mesmo.
— Já podemos ascender as luzes, tio Hans?
Assinto e deixo o ambiente mais escuro para melhorar a experiência. Ao colocar as luzes na tomada, Lora dá saltinhos em seu lugar, contagiando a casa toda com sua alegria. Archie fica animado junto da irmã, não sei se apenas um reflexo da animação dela ou se ele próprio encantado com as luzes. Nós quatro nos juntamos um ao lado do outro para contemplar nossa obra de arte e, estranhamente, gosto do trabalho que fizemos. Os enfeites que encontrei na caixa de Kate realmente embelezaram mais os galhos.
— Ficou muito lindo, tio Haaans — Lora grita e corre em volta da árvore. Becky chama sua atenção e eu me divirto. O estômago até treme de leve. Não me recordo de quando foi a última vez que ri desse modo. — Nossa árvore é enorme assim e assim — ela para de frente para mim e para a mãe e abre os braços na vertical, depois, na horizontal — e muito, muito bonita!
Archie gargalha no seu lugar, o que faz Becky olhar para ele e abrir um sorriso bonito. Ela o acaricia no rosto e planta um beijinho maternal em sua bochecha. Sua imagem assim, de perfil, abala algo dentro de mim.
— Falta a estrela, tio Hans! — Lora avisa, apontando para o topo. Em seguida, corre até a caixa e pega a estrela maior para colocar na ponta.
— Vamos resolver isso agora mesmo — anuncio e me agacho a sua altura. Indico meu ombro e logo Lora está montada em mim, segurando-se com toda força.
Eu me ergo e me aproximo do topo. Com cuidado, a menina encaixa a estrela no seu lugar. Ela gargalha, toda animada, e diz que “agora, sim, está perfeito”. Eu a coloco no chão de volta e a menina fica ainda por muito tempo rodeando a árvore, encantada.
Depois, reclama que faltaram os presentes debaixo dela. Becky, mais uma vez, precisa advertir a menina. Eu não dou a mínima para sua exigência e penso que, se houvesse um jeito, atenderia seu desejo sem pensar duas vezes.
Sem perceber, fico algum tempo observando esses três na minha sala, encantados com a árvore de Natal, com as luzes e com os adornos que fizemos durante toda a tarde. Becky parece mais animada enquanto conversa com o Archie e o incentiva a tocar nos galhos; Lora fica toda saltitante e cantarola canções natalinas.
Mal tem um dia que eles estão aqui comigo e o conforto que trouxeram ao meu coração, a alegria que trouxeram ao meu dia, os sorrisos que conseguiram me arrancar em um espaço de tempo tão curto são simplesmente inestimáveis para mim.
Deixo os três se divertirem com a árvore de Natal e me refugio no escritório para terminar meu trabalho. Passo todo o restante da tarde e início da noite enfurnado aqui ouvindo, vez ou outra, o barulho deles na minha sala: as risadas das crianças, Becky andando para lá e para cá e panelas batendo. Pela janela do cômodo, assisto a neve cair impiedosamente no meu quintal e se acumular na guarnição da janela e um pouco contra o vidro. Já está escuro lá fora quando decido esticar as costas e fazer uma pausa.
Saio do escritório e ao cair no corredor que leva até a cozinha, encontro Becky, Archie encaixado no seu quadril.
— Eu estava indo te chamar para comer algo. Fiz macarrão com queijo. Assinto em agradecimento e a sigo até a cozinha. Comemos quase em silêncio, não fosse pela conversa que Lora mantém com Archie, posicionado no colo da mãe. Os três interagem mais entre si, e eu permaneço apenas os observando e tentando ignorar a emoção desconhecida que cresce aos poucos. Ao final, Becky pergunta se ela e os pequenos podem tomar um banho. Dessa vez, oriento-a encontrar tudo o que precisa no banheiro ao final do corredor e a deixo à vontade.
Enquanto isso, arrumo o quarto de hóspedes: troco a roupa de cama, armo o berço desmontável, espalho mais travesseiros e cobertas e acendo o abajur ao lado da cabeceira. Depois disso, eu me tranco outra vez no meu escritório. Organizo minha mesa e meu gabinete durante os próximos trinta minutos até que ouço barulhos vindo da cozinha. Lá, encontro Becky terminando de tirar a mesa do jantar.
— Eles dormiram?
— Em dois minutos depois do banho — diz com um sorriso leve. — Foi um dia e tanto e eles estavam bem cansados. Archie sempre demora muito a dormir, mas ontem e hoje desmontou
Puxo uma cadeira da mesa e me acomodo, observando-a empilhar a louça na pia.
— Quer um chocolate quente? — Becky pergunta, virando-se para mim e encostando o quadril na beira pia.
— Quero.
Ela sorri e assente. Como se já estivesse habituada ao meu ambiente e conhecesse cada canto dessa casa, encontra com facilidade as canecas no armário de cima. Ela pega duas, uma delas era a preferida de Katherine, e depois encontra os ingredientes para o chocolate quente.
— O que você faz em Aberdeen? — pergunto, curioso em saber mais dela. Becky é uma desconhecida na minha casa com duas crianças pequenas e que vai passar os próximos dias aqui comigo.
Acho que posso fazer algumas perguntas e conhecê-la melhor. Eu a noto ficar cabisbaixa de repente, como se a pergunta a afetasse de alguma maneira.
— Eu lecionava — responde, por fim, mantendo-se de costas para mim. Ela mistura os ingredientes do chocolate quente no fogo, a postura um pouco abatida. — Era professora de inglês no Ensino Médio.
Reparo que ela diz “lecionava” e “era professora” . Fico tentado a questionar porque usou os verbos no passado, mas decido que é melhor não invadir seu espaço. Ela me conta se quiser. Ficamos mais um minuto em silêncio até Becky terminar o chocolate quente e vir até mim com duas canecas. Ela arrasta uma na minha direção e fica com a que era a favorita de Kate.
— Parei de lecionar quando Archie nasceu — explica e envolve sua xícara com as duas mãos, o olhar para baixo durante um segundo antes de assoprar o líquido viscoso e virar um gole pequeno. — Eu me afastei por um ano quando Lora nasceu e depois consegui conciliar da melhor maneira possível o trabalho com a escola.
Não tiro meus olhos de Becky. Não consigo tirar meus olhos de Becky, não sei se preso na sua narrativa ou na sua beleza. Fixo-me nela, atento às expressões do seu rosto e ao que está me contando.
— Mas aí, eu engravidei do Archie e soube que seria muito mais difícil conciliar o trabalho e duas crianças pequenas. O pai dele me aconselhou que era melhor eu dar um tempo, me dedicar às crianças até elas estarem mais crescidas e independentes para só então eu voltar ao mercado de trabalho.
— Entendo — respondo ao concluir que ela abriu mão da sua carreira pelos filhos. — E o pai deles…? — A pergunta fica no ar.
Becky solta um longo suspiro e desvia os olhos para o lado, suas mãos ainda em torno da caneca. Meus olhos descem até seus dedos e sinto algo dentro de mim que não sei dizer o que é. Parece tão errado, tão fora de eixo que essa mulher esteja segurando a xícara favorita de Kate. Sinto como se fosse uma traição. Katherine sempre mereceu uma pessoa melhor do que eu, um marido que a amasse de verdade. Não consigo me livrar desse sentimento de que estou sendo um idiota com minha falecida esposa. Como se não fosse o suficiente eu ter sido um idiota quando ela era viva.
Espanto meus pensamentos mais uma vez, ergo os olhos para Becky e tomo um gole do meu chocolate quente, esperando por sua resposta.
— Ele era do tipo que achava que trabalhar fora e não nos deixar faltar nada era a sua obrigação como homem e era o bastante. Sam nunca trocou uma fralda na vida.
Abaixo os olhos sem ter uma opinião formada sobre o assunto porque nunca soube o que era isso. Tendo vindo de uma família influente e enriquecida, Katherine nunca precisou de mim para sustentá-la. Foi quase ao contrário…
— Eu não queria ter parado, mas não estava dando conta —
Becky continua. — E nessa época, Archie sequer tinha nascido. A barriga gestacional, os trabalhos domésticos, cuidar de Lora, as
provas, trabalhos e alunos… tudo isso estava me sobrecarregando e cheguei à conclusão que quando ele nascesse, eu seria incapaz de conciliar a vida profissional e a pessoal. Não sem comprometer minha saúde. Sam me incentivou a dar uma pausa na carreira, disse que não nos faltaria nada e que sustentaria a casa sozinho.
Uma tristeza diferente trespassa pelos olhos de Becky e sinto que tem muito mais por trás desse olhar do que ela quer deixar transparecer.
— E quando foi que ele te deixou?
Becky entreabre os lábios, como se formulando uma resposta. Eu quero fazer mais perguntas. Ela conseguiu voltar a trabalhar assim que o marido a trocou por outra mulher? Como ela tem lidado com a situação? Existe uma rede de apoio, uma vez que os pais moram tão longe? Como ela foi sair de Fortwood para morar em Aberdeen…?
Aperto o maxilar, assustado em como quero, tão de repente, saber tudo de sua história. Eu não deveria estar sendo tão intrometido e curioso, mas Becky… Becky tem uma força diferente que me atrai e me puxa como uma forte fonte gravitacional, que me faz querer ficar a orbitando.
E isso é tão errado.
Deus, isso é errado demais.
Eu só a conheço há um dia. Um maldito dia.
— Archie tinha quatro meses. Não faz muito tempo —
responde, enfim, e, mais uma vez, baixa seus olhos para o chocolate quente antes de sorver um gole.
— Sinto muito — digo com um sussurro, embora minha vontade seja de perguntar como ela está sobrevivendo depois disso.
Becky me dá um sorriso sincero antes de beber mais um pouco do seu chocolate.
— Sinto muito pela sua esposa também — diz com cuidado instantes depois. — Faz tempo que ela faleceu?
Suspiro e, dessa vez, sou eu a abaixar os olhos para minha caneca.
— Dia vinte e quatro de dezembro fará quatro anos.
A expressão dela muda, e Becky tenta dizer alguma coisa. Eu me levanto do meu lugar, trazendo minha caneca junto, e paro frente à janela basculante que mostra o quintal dos Watson. O
boneco de neve que a filha deles montou no dia anterior ainda está ali, agora envolvido por mais alguns adornos natalinos que eles devem ter colocado em algum momento entre ontem e hoje antes da nevasca. Observo os flocos de neve caindo junto ao vento impiedoso que bate contra o vidro e assobia noite afora. Sinto Becky se aproximar por trás de mim, parando a uma pequena distância das minhas costas. Meu corpo congela e um arrepio diferente sobe por minha espinha sem que o motivo seja o frio que está fazendo. A aproximação de Becky me deixa um pouco afetado e em alerta.
Endireito melhor a coluna, meus olhos ainda fixos no quintal dos meus vizinhos.
— Eu sinto muito. É por isso que você…
Eu me viro na mesma hora, e Becky para de falar. Entendo o que estava prestes a dizer e balanço a cabeça.
— Não. Não é por isso que não enfeito a casa. Eu realmente só não me importo o suficiente com a data para enfeitar minha sala.
Sempre fui assim. Katherine é quem adorava e eu não fazia qualquer objeção. — Um sorriso pequeno surge em mim ao me recordar dela sempre tão animada para começar as decorações. —
Lora e ela se dariam muito bem.
Becky sorri e assente, os olhos nos meus por um segundo longo demais. Ela parece voltar ao mundo real e termina o percurso até a pia. Ao depositar sua caneca na cuba, ela pega uma esponja para ensaboar a louça.
— Deixa, Becky.
— Até parece — rebate com uma nota leve de humor. — É o mínimo que preciso fazer.
Reviro os olhos e inclino o corpo sobre a pia, deixando-me repentinamente perto dela. Becky arregala os olhos com a aproximação, eu continuo fixado em suas íris castanhas, levo minha mão à torneira e seleciono o registro da água quente.
— É o mínimo que devo fazer — devolvo.
Becky não diz nada, seus olhos muito fixos nos meus. Da mesma forma, não paro de olhar para ela, atraído demais não só pelo mistério que a ronda, mas também por sua beleza, pelo perfume suave de sua pele e dos seus cabelos, pelo modo como parece me chamar para sua boca. Droga, estou tentado demais.
Faz muito tempo que meu corpo não sabe o que é o calor de uma mulher. Isso deve explicar porque estou tão… encantado por Becky. Quantas vezes terei que dizer ao meu coração, à minha mente e ao meu corpo que ela é uma desconhecida? Não faz qualquer sentido eu estar assim, como se fosse amor à primeira vista.
Amor à primeira vista?
Bobagem, digo a mim mesmo. Isso sequer existe.
Becky é só uma mulher bonita na minha casa e faz muito tempo desde que estive com uma mulher bonita. Meu organismo só está cobrando por tantos meses em abstinência sexual.
Corto nosso contato visual apenas para olhar para seus lábios, os mesmos pelos quais ela passa língua, devagar, mexendo com todas as partes do meu corpo. Minha respiração se desregula ligeiramente e posso sentir meu coração bater um pouco mais forte do que antes. Inclino-me mais na sua direção e encurto a distância entre nossas bocas, sem pensar muito no que estou fazendo. Só quero sentir seu gosto, sua textura. Ergo meus olhos aos seus conforme avanço lentamente, desejando que ela não recue ou me impeça. Becky não faz nem um nem outro. Ela fica apenas parada, sem mover um músculo, sua respiração também um pouco acelerada. Quando fecha os olhos, eu toco seus lábios com os meus. Começo com um beijo superficial, lento, apenas… testando como é que nossas bocas se encaixam.
Os sentidos vão me invadindo aos poucos. Seus lábios são macios e quentes; o aroma da sua pele e dos seus cabelos é delicioso e faz meu coração bater mais forte; a expressão do seu rosto, antes um pouco tensa e assustada, agora é mais relaxada conforme movo minha boca na sua; ouço sua respiração mais ruidosa, o tipo de som, reconheço, que demonstra que ela está excitada com o momento. Becky se torna cada vez mais receptiva e, ao notar que ela não vai criar qualquer resistência, contorno sua cintura e a puxo para mim, afundando-me nela. A mulher suspira e amolece nos meus braços, sua boca acompanhando o ritmo da minha.
Um instante depois, quando estou pensando em segurá-la pela nuca e puxá-la contra mim mais um pouco, Becky me afasta delicadamente. Ela respira com dificuldade e noto suas bochechas coradas. A mulher ainda está segurando a droga da esponja, a água ainda escorre na pia, e é para a droga da esponja que ela olha por alguns segundos.
— Eu vou limpar sua cozinha e ir me deitar — diz com um sussurro.
Eu me afasto um passo, passando a língua pelo lábio inferior, e aceno em positivo.
— Tudo bem, Becky. Você pode deixar a louça aí.
— Faço questão, Hans.
Engulo em seco e não sei mais como agir.
— Certo. Eu… preciso terminar umas coisas do trabalho —
digo, e Becky permanece de costas. — Se precisar de mim, pode me procurar no escritório. Vou ficar por lá até um pouco mais tarde.
— Obrigada.
Eu a observo por mais um segundo ou dois. Ela continua ali, ensaboando a louça, a cabeça erguida na direção da casa dos
Watson. Diabos, por que ela não foi pedir ajuda lá? Por quê?!
Tentando ignorar um sentimento de raiva desconhecido que atravessa meu corpo, eu viro nos calcanhares e vou para meu escritório.
Na manhã seguinte, um bater suave na minha porta me desperta.
— Tio Hans? — Ouço a voz fininha de Lora e, em seguida, o ranger das dobradiças de leve, indicando que ela empurrou a porta.
Remexo-me na cama e me viro em direção à entrada do quarto. Coço os olhos, ainda sonolento, e vejo a pequena silhueta sob o umbral.
— Lora? — Olho no relógio na cabeceira. Seis e meia da manhã. — O que houve? — pergunto já me levantando, um pouco preocupado e em alerta. Ao me aproximar da pequena, noto que está de pijamas, enrolada em uma coberta e de touca na cabeça.
— O Archie está com fome, eu acho.
Fico sem entender por um segundo, até que ouço os resmungos dele vindo do quarto de hóspedes.
— Onde está sua mãe?
A pequena aperta o cobertor com mais força ao redor do seu corpinho.
— Dormindo. — Entreabro os lábios, sem reação diante sua resposta. — Pode dar de mamar a ele, tio Hans?
Pisco um par de vezes. O choro de Archie começa a aumentar e eu me apresso a ir acalmá-lo. Lora segue meu encalço
e, ao entrar no quarto de hóspedes, encontro Becky enrolada na cama entre os edredons, sono profundo, parecendo exausta, e o pequeno no berço desmontável em pé apoiando-se pelas beiras. Os olhinhos estão encharcados e ele chora com a chupeta entre os dentes.
— Tudo bem, Lora — digo, esticando os braços para pegar Archie. — Tenho uma missão para você. — Os olhos dela se arregalam de expectativa. Ela dá saltinhos animados e assente de forma vigorosa. — Pegue a bolsa do seu irmão e a traga para a sala.
Eu levo Archie até o andar debaixo e o deito no sofá. O
menino chora mais alto e com mais força, as perninhas contraindo e esticando no ritmo do seu choro. Tiro sua calça do pijama, deixando-o apenas de fralda. Deslizo uma palma até sua barriga gordinha e a dedilho com carinho, fazendo uma cócega leve nele.
— Vai acordar a vizinhança toda assim — menciono suavemente, e ele ri entre suas lágrimas. Continuo fazendo as cócegas leves para distraí-lo e acalmá-lo e parece funcionar. —Você gosta disso, não é, seu espertinho?
O menino resmunga e suspira, sugando com mais força a chupeta na sua boca. As perninhas movem-se mais rápido agora e gotículas remanescentes de lágrimas desprendem dos seus olhos.
Uma vez mais calmo, eu consigo tirar sua fralda encharcada.
— Lora, me passa uma fralda — peço, esticando a palma em sua direção. A menina assente, revira a bolsa e eu volto minha atenção ao pequeno. Ele está distraído olhando para cima, preso em algo que deve ser muito interessante.
— Você sabe fazer isso, tio Hans? — questiona ao me entregar o que pedi.
A pergunta me pega de surpresa. Alterno o olhar entre Archie e a fralda. Nunca fiz isso, mas não deve ser coisa de outro mundo, deve? Olho com atenção para o material em minhas mãos, como se estivesse decifrando um enigma complexo. É só uma fralda, não
tem qualquer segredo: lado menor para frente, lado maior para trás e prendo as tiras na lateral, correto? É isso.
— Não sei — admito —, mas não deve ser difícil.
Lora assente e se senta ao lado do irmão.
Eu tiro a que está encharcada e estou prestes a colocar a outra quando a pequena me adverte.
— Tem que limpar primeiro, tio Hans. — Lora revira a bolsa mais uma vez e tira um pacotinho de lenços umedecidos. — Mamãe sempre limpa antes.
— Ah, certo.
Retiro alguns lenços e fico um instante parado de frente para Archie peladinho da cintura para baixo. Agora ele se remexe no sofá, atraído pela irmã, solta seus sons de bebê por entre os lábios, como se quisesse se comunicar com Lora e não está nem aí para o fato de estar pelado e fazendo frio lá fora. Tudo bem, até porque minha casa está bem quentinha pelo aquecimento, então ele não tem qualquer reclamação a fazer.
Com cuidado, eu me aproximo da sua virilha e limpo suas partes, tendo de lutar um pouco para mantê-lo quieto no lugar.
Quando vou colocar a fralda, luto mais um pouco, porque Archie simplesmente não para. Ao conseguir terminar de trocá-lo, a fralda ficou um pouco torta e a parte adesiva perdeu ligeiramente a aderência. Lora leva as mãozinhas até a boca e ri baixinho ao ver meu “trabalho”.
— Vamos, não está tão mal assim — digo, colocando de volta a calça no menino. — Preciso do leite dele.
A menina assente e revira a bolsa, retirando uma lata de fórmula e me entregando. Leio as instruções do modo de preparo e, com Archie no colo, preparo sua primeira refeição do dia. Preciso de algum malabarismo para conseguir, com uma mão, preparar o leite e com o outro braço manter o pequeno no meu colo. Não se trata nem de força — algo que eu tenho —, mas de jeito. O menino não
para no meu colo, mexendo-se o tempo inteiro, e tenho de aquecer e despejar a água na mamadeira e misturar a fórmula tudo com a mão direita, o que me torna um completo inútil porque sou canhoto.
— Também estou com fome, tio Hans — Lora reclama no momento em que estou rosqueando a tampa da mamadeira. Seu irmãozinho fica impaciente no meu colo, esticando os bracinhos para o leite, os dedos pequenos se abrem e fecham, ansiando por aquilo que vai matar sua fome.
— Apressado — murmuro, entregando-lhe a mamadeira. O
menino agarra o plástico com ambas as mãos. Ao separar os lábios, a chupeta despenca no chão e ele leva o novo bico à boca, sugando o alimento a toda força.
Viro-me para Lora, sentada à mesa e olhando-me com atenção sob os longos cílios.
— O que quer comer, querida? Panquecas, chocolate quente, cereal matinal? — Ela está para responder quando movo a cabeça em negativo. — Não, panquecas não. — Balanço Archie em meus braços. — Não vou conseguir fazer nada com esse menino no colo ou se rastejando por aí.
— Mamãe consegue. — Viro-me imediatamente para Lora, um sorriso e um olhar inocentes na minha direção. — Mamãe sempre faz um montão de coisas cuidando da gente.
Eu me aproximo e me sento ao lado da loirinha, acariciando-a por cima da touca.
— Porque sua mãe é uma super-heroína. É por isso que ela consegue. Eu sou apenas um mero mortal.
— Verdade? — Os olhos dela estralam. — Que minha mamãe é uma super-heroína? Tipo, a Mulher-Maravilha, tio Hans?
Sorrio e assinto ao ajeitar Archie no meu colo. Inclino-o ligeiramente para trás contra meu tórax para que possa sugar com mais facilidade.
— Verdade — confirmo. — Tem que ter superpoderes para dar conta de tudo o que sua mãe faz, não concorda? Talvez ela seja a própria Mulher-Maravilha — sussurro ao me inclinar na direção de Lora, como se estivesse contando um segredo. — Você já viu sua mãe e a Mulher-Maravilha no mesmo lugar e ao mesmo tempo?
Lora pensa por um segundo, seus olhos perscrutando os meus, como se avaliando a pergunta. Aos poucos, ela abre um sorriso enorme e os olhos brilham em inocência ao ponderar que a mãe pode mesmo ser a heroína em questão.
— Então… cereal ou chocolate quente?
Lora olha para trás, em direção à minha lareira, e pensa por um ou dois segundos.
— Podemos tomar chocolate quente em frente à lareira assistindo Peppa Pig?
O pedido arranca de mim um pequeno sorriso.
— Podemos.
Quando Archie termina sua refeição, eu o deixo com Lora no tapete no centro da sala e preparo nossos chocolates quentes, vez ou outra verificando se os dois estão distraídos o bastante. Em uma ou duas dessas vezes, preciso correr e impedir que o rapazinho mexa em lugares que não deve.
Uma vez que os chocolates estão prontos, eu ligo a televisão, acendo a lareira e pego algumas cobertas no meu quarto. Lora se enrola em um cobertor, improvisando um capuz sobre os cabelos, e aperta a caneca entre os dedinhos, seus olhos atentos ao desenho animado transmitido pelo canal a cabo. Archie fica no meu colo, quieto e atento à televisão, sugando tranquilamente a chupeta que peguei anteriormente e higienizei.
Enquanto as crianças assistem à animação, felizes — a risada de Lora é alta e contagiante, o que faz o irmão rir, tão feliz e contagiante quanto —, eu as observo atentamente, meu coração
batendo de uma forma nova. É um sentimento de paz, acolhimento e amor que ainda não tinha experimentado.
Ao terminar meu chocolate quente, deixo a caneca na mesinha ao meu lado e, de forma mecânica, aperto o pequeno em um abraço carinhoso, deixando, em seguida, um beijo no seu rosto.
O gesto arranca de Archie um sorriso que mexe com todas as minhas estruturas.
Passo metade da manhã com Lora e Archie assistindo aos desenhos no canal a cabo, curtindo um chocolate quente e o calor da lareira. As crianças não me dão qualquer trabalho. Na verdade, é até divertido o tempinho que passo com eles. Depois de algumas horas em frente à tevê, a pequena se enjoa da programação e quer brincar, então obviamente sou obrigado a me sentar no chão com os dois e entretê-los com joguinhos, historinhas e brincadeiras de faz-de-conta.
Ali pelas dez da manhã, eles estão com fome de novo e sacio a fome deles com morangos, uvas e mirtilos. Estou com os dois no sofá, eles se deliciando com as frutas, quando Becky surge na sala.
Seu rosto tem uma expressão alarmante, de urgência, os cabelos estão desajeitados e ela está terminando de passar o braço esquerdo por dentro do casaco pesado.
— Ah meu Deus, Hans! — exclama, aproximando-se rapidamente. — São mais de dez horas. Eu… eu não…
— Está tudo bem, mamãe — Lora acalenta, a boquinha cheia de frutas. — Tio Hans cuidou bem da gente.
Ela balança a cabeça em negativo com força.
— Isso não deveria ter acontecido. Isso não vai voltar acontecer. — Seus olhos pousam em mim, pesarosos. — Sinto muito, de verdade. Não queria ter incomodado, é que eu…
—… estava cansada e precisava dormir — completo.
Eu me levanto do meu lugar e pego Archie no colo, que agora está chamando pela mãe. Ele estica os bracinhos e murmura
“mamã, mamã”. Becky o pega dos meus braços e o envolve amorosamente.
— Ainda assim. Não queria ter te dado esse trabalho.
— Não foi trabalho algum. Os dois se comportaram muito bem. Archie tomou uma mamadeira de fórmula, Lora tomou chocolate quente, e agora estão comendo frutas. Assistimos
desenhos na televisão e brincamos. Está tudo bem, Becky. Você está com fome? Posso preparar algo para comer.
— Acho que já fez o suficiente por mim.
— Bobagem. Fique com as crianças que te preparo algumas panquecas.
Ela me encara de um jeito diferente, os lábios ligeiramente entreabertos. Eu olho para eles só por um segundo, lembrando-me de ontem, do beijo que trocamos e de como isso me afeta um pouco sem que eu saiba por quê.
— Obrigada — sussurra e aperta o filho contra seus braços.
— Muito obrigada mesmo.
Faço um gesto com as mãos, como se não fosse nada, e vou para a cozinha. Enquanto preparo a massa, vez ou outra, eu os procuro na sala. Lora e Archie agora estão entretidos com a árvore de Natal, rodeando-a. Becky está apenas supervisionando e a expressão no seu rosto é um pouco indecifrável. Parece ligeiramente
feliz,
mas
também
preocupada.
Cansada.
Amedrontada. Então, eu penso que daria muita coisa para saber o que está se passando na sua cabeça agora. De repente, tenho a impressão de que existe muito mais história por trás apenas da viagem até a casa dos pais, do carro quebrado, do marido que a trocou por uma mulher mais jovem.
Tem mais por trás do sorriso enfraquecido de Becky.
E isso me deixa intrigado.
Intrigado demais.
Becky fica com as crianças e se reveza entre vigiá-las e organizar minha cozinha, a sala e o quarto onde dormiram. Daqui do escritório — onde vim me esconder para terminar de vez os trabalhos que preciso enviar ainda hoje para o editor-chefe —, posso escutá-la andando para lá e para cá na casa, limpando tudo.
Meia hora atrás, ela bateu suavemente à porta e perguntou se poderia usar minha máquina de lavar e a secadora porque as crianças começaram a ficar sem roupa. Daí, ela quis saber se eu tinha preferência do que comer no almoço.
Disse sim à primeira pergunta e não soube o que responder na segunda por um instante. Becky apenas ficou ali na porta, esperando-me responder, enquanto em minha mente, eu pensava nesses dois dias desde que ela apareceu com as crianças, em como sua estadia aqui tem me feito idealizar uma família que eu quis ter construído. Idealizei uma família quando era solteiro e idealizei depois, quando me casei com Katherine, mesmo não a amando. Por um tempo, ela foi arredia, desobediente e me levava ao limite com suas provocações e infantilidades. Até que desisti. Ela nunca se curvaria a mim, nunca formaria uma família comigo por eu ter arrancado dela a liberdade que tanto amava. Nós não teríamos filhos, ela não seria uma esposa tradicional, e eu não moveria mais um dedo para que aceitasse nosso casamento e, ao menos, me aturasse. Então, parei de sonhar por um tempo, até que Katherine mudou e parecia disposta a aceitar nossa convivência. Tudo acabou quando ela morreu e, novamente, eu enterrei meus anseios. Mas agora, com Becky aqui, esses pensamentos tem me tomado aos poucos, invadindo sorrateiramente meus pensamentos.
— Bacon ou batata frita — respondi, por fim. Ela acenou em positivo e voltou aos seus afazeres.
Becky retorna apenas para me chamar para comer. Ao redor da mesa, Lora está feliz e come com a boquinha mais gostosa do mundo. A comida da mãe está muito boa, mas tenho a impressão de que a felicidade da pequena vai muito além de estar se empanturrando de uma boa porção de fritas e bacon
Quando a vi pela primeira vez, a menininha estava encolhida em se próprio corpo, olhos assustados, demorou a pronunciar algumas palavras e não desgrudava da mãe por nada neste mundo.
Agora, está mais solta, mais tagarela, não parece mais tão grudenta a Becky e aquele temor nos seus olhos azuis não existe mais.
Acredito que seja bobagem da minha parte ou uma impressão errada, mas fico pensando se a postura atual de Lora não é porque ela está aqui.
Depois de comermos, eu volto para o escritório resolver as últimas pendências. Quero ficar e ajudar na cozinha, mas Becky não deixa e praticamente me enxota de lá. Perco a noção de tempo enquanto trabalho e só me dou conta de que são três da tarde quando seu rosto surge pela porta entreaberta.
— Atrapalho, Hans?
— Não. Eu já estou terminando aqui — digo e clico em enviar na caixa de saída do e-mail.
Becky termina de entrar e encosta a porta atrás de si. Ao contornar a mesa, apoio meu quadril na beirada e cruzo os braços.
— Está tudo tão quieto — menciono. — O que aconteceu com os dois?
Ela ri baixinho.
— Tomaram um leite quente e dormiram. Acabei de colocar Archie no berço desmontável, e Lora está no sofá, enrolada nos cobertores.
— Deveria aproveitar e ir descansar também.
Ela se mantém encostada à madeira, os olhos em mim, atentos, mordendo o lábio inferior.
— Eu estou bem — responde e corrige sua postura contra a porta, deixando a coluna mais ereta. — Senti que precisava vir falar com você.
Ah, não.
A última coisa que preciso é que ela queira conversar sobre o beijo de ontem. Foi só um beijo, não foi? Becky não ficou estranha desde então, agiu naturalmente. Por que isso agora?
— Olha, Becky, o b…
— Não quero que soe repetitivo — ela me interrompe —, mas não sei mesmo como te agradecer por tudo. Então, promete para mim que vai pensar em um modo de te recompensar.
Ah.
Um misto de alívio e decepção corta meu corpo. Alívio porque ela não vai falar do beijo, decepção porque, lá no fundo, eu queria um motivo para falar do beijo e dizer que não me importo de repetir a dose.
Pisco duas vezes ao notar o pensamento absurdo que permeou meus pensamentos. Digo, claro que eu não colocaria qualquer barreira se ela quisesse me beijar de novo — e não me preocupo em entender por que já que ela é uma desconhecida —, mas eu não criaria um clima esquisito entre nós fazendo um comentário desse tipo porque não sei como ela poderia reagir. E a última coisa de que precisamos é ficarmos um estranhando o outro quando ainda temos mais dois dias de nevasca pela frente.
— Não tem que se preocupar com isso — digo, mantendo-me em meu lugar, embora eu queira dar alguns passos em sua direção e me aproximar.
— Eu insisto.
Assinto e, por fim, desencosto-me da mesa e venço lentamente a distância que nos separa. Becky não faz qualquer menção de recuar, apenas assiste minha aproximação, os lábios entreabertos, os seios subindo e descendo mais forte, como se sua respiração estivesse desregulada.
— Vou pensar em algo.
Ela sorri — um sorriso apertado que faz seus lábios formarem uma linha fina — e desvia os olhos de mim. Eu deveria recuar,
deixá-la ir descansar ou zelar o sono dos filhos, mas não faço isso.
Becky me atrai como se tivesse uma força gravitacional mais forte do que a minha, e é por isso que não consigo evitá-la.
— Aproveito para perguntar… — ela diz, voz entrecortada, respiração fora de ritmo, seus olhos nos meus lábios —, o que quer para comermos daqui a pouco e se posso repetir o almoço no jantar.
Eu mal noto que meu rosto está a poucos centímetros do dela e que apoiei meu braço direito na madeira da porta, logo acima de sua cabeça. Não tiro meus olhos dos seus, curtindo o calor da sua pele sob o pulôver vermelho, o calor da sua respiração contra mim.
— Você é visita, Becky. Não tinha que estar se incomodando com nada disto.
Ela move a cabeça em negativo.
— Eu sou uma hóspede. Quase uma intrusa. O mínimo que tenho que fazer é…
— Bobagem — respondo-a com um sussurro, desviando meu olhar para seus lábios. Deus, estou tão tentado. — Mas se insiste, Lora me pediu biscoitos de gengibre mais cedo, acha que podemos ter para o café da tarde? E tudo bem repetir o jantar. Eu gosto mesmo de fritas e bacon.
— Lora… Lora te pediu biscoitos de gengibre? — Ela arregala os olhos. — Ah, meu Deus. Essa menina ainda…
Rio baixinho, interrompendo-a novamente.
— Ela é um encanto de criança, Becky. Deixe-a pedir para mim tudo o que quiser.
— Ficou doido, Hans? Se der asas para aquela garotinha, vai ficar com a conta bancária no vermelho.
Abaixo meus olhos por um instante recordando-me de Lora, seus pedidos e sorrisos, e novamente tenho a impressão de que ela é mais feliz aqui. Como se comigo ela pudesse ter o que quisesse: uma árvore de Natal, enfeites natalinos, biscoitos de gengibre.
— São só pedidos inocentes, Becky. Ela é uma criança, e vocês estão aqui por pouco tempo. — Dou de ombros e, mais uma vez, sou tentado a olhar para seus lábios. — Não custa nada satisfazer os desejos dela. Então… podemos ter biscoitos de gengibre com leite?
Ela sorri e revira os olhos.
— Vou providenciar.
Eu não movo um músculo para que ela possa sair. Continuo com meu corpo pressionando o seu contra a porta, sem desviar meus olhos dos seus lábios. É bom sentir seu coração batendo de encontro ao meu peito, seu calor, seu aroma.
Droga, esse aroma.
— Hans… — sussurra. Não é uma advertência, um aviso do tipo “Você está perto demais”. É quase como uma súplica para que eu me aproxime, que eu afunde minha boca na sua e a beije com tudo o que há em mim.
— Becky… — devolvo e ergo uma sobrancelha junto de um sorriso brincalhão.
Ela pisca seguidas vezes, a respiração se acelera mais, e assisto seus lábios se abrirem e fecharem até Becky ter coragem de dizer:
— Quero que você me beije de novo.
Enlaço-a pelo pescoço e a arrasto na minha direção, sendo essa ação toda a minha resposta. Seus lábios se chocam contra os meus, fortes e desesperados, e retribuo da mesma maneira, pressionando-a contra mim ao agarrar sua cintura e mantê-la presa ao meu corpo, com um medo real que ela se afaste.
Mas Becky não se afasta. Ela se segura na lapela do meu casaco e me puxa com toda força, como se também quisesse me manter presa ao seu corpo. Desço uma mão até sua coxa direita e apalpo a carne macia. Uma onda eletrizante percorre meu corpo ao tocá-la nessa região, mesmo que não possa senti-la por completo
por conta da calça jeans que usa. Ainda assim, é bom, mexe comigo, com meu organismo e começa a refletir no espaço da minha cueca.
Afasto meus quadris do dela para que não me sinta duro dessa maneira e não paro de beijá-la, de explorar sua boca, de forçá-la mais contra mim e de acariciar sua coxa. Um braço dela contorna minha cintura e me puxa de volta para seu corpo, em um choque que me deixa ainda mais excitado. Tento me afastar de novo, querendo evitar que sinta como esse beijo está mexendo comigo, mas ela não deixa e me mantém no meu lugar. Becky ergue a coxa que acaricio e a encaixa no meu quadril, deixando o vão das suas pernas em contato direto com a minha ereção.
— Becky… — minha voz sai estrangulada contra a sua —, não faz isso. Não me provoca.
— Eu quero te sentir. Me deixa te sentir, Hans — pede e inclina seu quadril um pouco mais contra o meu. — Se esfrega em mim.
Volto para sua boca, aperto sua perna encaixada na minha cintura e arremeto minha virilha contra a sua, mostrando-lhe toda a minha potência e excitação. Becky suspira nos meus lábios e me segura com mais firmeza, seus lábios afundando-se nos meus com avidez e desespero. Pego-a pelas duas pernas e a impulsiono ao meu colo, seus calcanhares rodeando minha cintura um instante depois. Mantenho-a pressionada contra a porta quando exploro mais da sua pele ao desviar meus beijos pelo seu queixo e pescoço, minhas mãos subindo por dentro do pulôver. Sinto a ponta dos meus dedos contra o tecido de sua camisa e vou subindo um pouco mais até encontrar os botões na altura dos seios.
Espero.
Sem tirar minha boca da dela, beijando-a com sofreguidão, eu espero para ter certeza que posso avançar. Meus dedos continuam ali, sugestivos, e como Becky não recua nem tenta me impedir, eu continuo. Com apenas uma mão, eu me desfaço de
alguns botões e tenho acesso aos seus seios. Puxo um para fora da taça do sutiã e o massageio no ritmo do nosso beijo indecente.
Becky geme contra meus lábios e se esfrega um pouco mais em mim.
Malditas roupas.
Eu a desencosto da madeira e a levo até minha mesa.
Sustentando-a com um braço, com o outro, afasto os papéis, documentos e material de escritório que estão no nosso caminho e a coloco sentada na superfície. Afasto-me apenas para puxar o pulôver vermelho por sua cabeça, ela facilitando muito ao erguer os braços. Um peito está desajeitadamente para fora da camisa amarela de gola e eu rapidamente trato de terminar de desabotoá-la. Tomo o seio que já está para fora entre meus dentes, mordiscando-o de leve, rodeando-o e o chupando, enquanto massageio o outro. Os dedos de Becky afundam nos meus fios escuros, repuxando-os de uma forma que envia outra corrente prazerosa para dentro da minha calça. Não existe a menor possibilidade de eu parar agora.
A menos que Archie acorde chorando alto, que é exatamente o que acontece. Becky para de me beijar e suspira pesado, a testa encostada contra a minha, nossas respirações ofegantes. Droga.
Ela desce da mesa, ajeita os seios, abotoa a camisa e veste o pulôver outra vez. A mulher deixa meu escritório sem olhar para trás, sem dizer uma palavra, e eu fico aqui, sozinho e com uma ereção enorme.