Bobok
Bobók
*Publicado originalmente no semanário Grajdanin (O Cidadão), nº 6, em 5 de fevereiro de 1873, quando Dostoiévski já era seu redator-chefe. Traduzido do original russo Pólnoie sobránie sotchiniénii v tridtsatí tomákh (Obras completas em trinta tomos) de Dostoiévski, tomo XXI, Leningrado, Ed. Naúka, 1980.
As notas da edição russa estão assinaladas com (N. da E.); as notas do tradutor, com (N. do T.).
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Desta vez eu publico as “Notas de uma pessoa”. Essa pessoa não sou eu; é outra bem diferente. Acho que não é mais necessário nenhum prefácio.
NOTAS DE UMA PESSOA
Anteontem Semión Ardaliônovitch me veio justamente com essa:
— A propósito, Ivan Ivánitch, será que algum dia você vai estar sóbrio? faz o obséquio de me dizer?
Estranha exigência. Não me ofendo, sou um homem tímido; e mesmo assim até de louco já me fizeram. Um pintor fez o meu retrato por acaso: “Seja como for, diz ele, você é um literato”. Rendi-me, e ele o expôs. Depois li: “Ande, vá ver aquele rosto doentio à beira da loucura”.
Vá lá, mas, não obstante, logo assim, tão direto na imprensa? Na imprensa deve ser tudo nobre; deve haver ideais, mas aqui...
Diga pelo menos de forma indireta, para isso você tem estilo. Não, de forma indireta ele já não quer. Hoje o humor e o bom estilo estão desaparecendo e se aceitam insultos em vez de gracejos. Não me ofendo: não sou desses literatos que levam o leitor ao desatino. Escrevi uma novela — não publicaram. Escrevi um folhetim — recusaram. Esses folhetins eu levei a redações de várias revistas e de todas elas recebi um não: “É sal, dizem, o que lhe está faltando”.
— Que sal é esse — pergunto por brincadeira —, ático?1 Nem consigo entender. Estou traduzindo mais do francês para editores. Também escrevo anúncios para comerciantes: “Uma raridade! Chá bem vermelho, diz que de cultivo próprio...”. Pelo panegírico a Sua Excelência o falecido Piotr Matvêievitch recebi uma boa bolada. Escrevi A arte de agradar às mulheres por encomenda de editores. Pois bem, em minha vida publiquei uns seis livros como esse. Estou com vontade de reunir os aforismos de Voltaire, mas receio que pareçam insossos aos nossos leitores. Isso lá é tempo de Voltaire: é tempo de palerma, não de Voltaire! De tanto se morderem acabaram quebrando uns aos outros até o último dente! Aí está toda a minha atividade literária. Não faço outra coisa senão enviar cartas gratuitamente às redações, com meu nome completo. Vivo a fazer sermões e sugestões, a criticar e indicar o caminho. Na semana passada enviei a uma única redação a quadragésima carta em dois anos; só com selos gastei quatro rublos. Tenho um caráter asqueroso, é isso.
Acho que o pintor não me retratou por causa da literatura, mas de duas verrugas simétricas que tenho na testa: diz que é um fenômeno. Ideias mesmo andam escassas, porque hoje só há lugar para fenômenos. E como as minhas verrugas saíram no retrato que ele fez de mim: vivinhas! É isso que eles chamam de realismo.
Quanto à loucura, no ano passado muita gente foi registrada como louca em nosso país. E com que estilo: “Com um talento diz que tão original... e vejam o que acabou acontecendo... aliás, há muito tempo isso devia ter sido
previs to...”2 Aí ainda existe muita astúcia; de sorte que do ponto de vista da arte pura dá até para elogiar. Mas súbito aquela gente aparece ainda mais inteligente. Que em nosso país se leva à loucura, se leva, só que ainda não se fez ninguém ficar mais inteligente.
Acho que o mais inteligente é quem ao menos uma vez por mês chama a si mesmo de imbecil — capacidade de que hoje não se ouve falar! Antes ao menos uma vez por ano o imbecil sabia sobre si mesmo que era imbecil, mas hoje, nem isso. E confundiram tanto a coisa que a gente não distingue o imbecil do inteligente. Isso eles fizeram de propósito.
Lembra-me uma galhofa espanhola, do tempo em que os franceses construíram a primeira casa de loucos há dois séculos e meio: “Eles trancaram todos os seus imbecis em uma casa especial para se certificarem de que eram pessoas inteligentes”. E de fato: ao trancar o outro numa casa de loucos você ainda não está provando sua própria inteligência. “K. enlouqueceu, significa que agora somos inteligentes.” Não, ainda não significa.
Aliás, com os diabos... por que toda essa celeuma com minha inteligência? Eu resmungo, resmungo. Até a empregada já enchi. Ontem me apareceu um amigo: “Teu estilo, diz ele, está mudando, está truncado. Truncas, truncas, e sai uma oração intercalada, após a intercalada vem outra intercalada, depois mais alguma coisa entre parênteses, e depois tornas a truncar, a truncar...”.
O amigo está certo. Uma coisa terrível está acontecendo comigo. O caráter mudando, a cabeça doendo. Começo a ver e ouvir umas coisas estranhas. Não são propriamente vozes, mas é como se estivesse alguém ao
lado: “Bobók, bobók, bobók!”.3 Que bobók é esse? Preciso me divertir.
Saí para me divertir, acabei num enterro. Um parente distante. No
entanto, conselheiro de colégio.4 Viúva, cinco filhas, todas donzelas. Só em sapato, a quanto não vai isso! O falecido dava um jeito, mas agora sobra uma pensãozinha. Vão ter de meter o rabo entre as pernas. Sempre me receberam com descortesia. Aliás, eu nem teria vindo não fosse um acontecimento tão especial. Acompanhei o cortejo até o cemitério no meio dos demais; evitam-me e se fazem de orgulhosas. Meu uniforme é realmente ruinzinho. Faz uns vinte e cinco anos, acho, que eu não vou a um cemitério; só me faltava um lugarzinho assim!
Em primeiro lugar, o espírito. Com uns quinze mortos fui logo dando de cara. Mortalhas de todos os preços; havia até dois carros funerários: o de um general e outro de alguma grã-fina. Muitas caras tristes, e também muita dor fingida, e muita alegria franca. O pároco não pode se queixar: são rendas. Mas espírito é espírito... Eu não queria ser o pároco daqui.
Olho para as caras dos mortos com cautela, desconfiado da minha impressionabilidade. Há expressões amenas, como há desagradáveis. Os sorrisos são geralmente maus, uns até muito. Não gosto; sonho com eles.
Durante a missa saí da capela para tomar ar fresco; o dia estava acinzentado, mas seco. E frio; também pudera, estávamos em outubro. Comecei a caminhar entre as sepulturas. Classes diferentes. As de terceira classe custam trinta rublos: são bastante boas e não tão caras. As duas primeiras ficam na igreja, no adro; bem, isso custa os olhos da cara. Na terceira classe enterraram desta vez umas seis pessoas, entre eles o general e a grã-fina.
Dei uma olhada nas sepulturas — um horror: havia água, e que água! Toda verde e... só vendo o que mais! A todo instante o coveiro a retirava com uma vasilha. Enquanto transcorria a missa, saí para dar uma voltinha além dos portões. Fui logo encontrando um hospício, e um pouco adiante um restaurante. E um restaurantezinho mais ou menos: tinha de tudo e até salgadinhos. Havia muita gente, inclusive acompanhantes do enterro. Notei muita alegria e animação sincera. Comi uns salgadinhos e tomei um trago.
Depois ajudei com as próprias mãos a levar o caixão da igreja para o túmulo. Por que os mortos ficam tão pesados no caixão? Dizem, com base em alguma inércia, que o corpo já não teria domínio sobre si mesmo... ou
algum absurdo dessa ordem; coisa contrária à mecânica e ao bom senso.5 Não gosto quando alguém apenas com instrução geral se mete a especialista: entre nós isso acontece a torto e a direito. Civis gostam de julgar assuntos de militares, e até da alçada de marechais de campo, gente com formação em engenharia discute mais filosofia e economia política.
Não assisti ao Réquiem. Sou orgulhoso, e se me recebem apenas por extrema necessidade, por que vou me enfiar nos seus jantares, ainda que sejam de funerais? Só não entendo por que fiquei no cemitério: sentei-me em uma sepultura e passei a meditar de verdade.
Comecei por uma exposição de Moscou6 e terminei refletindo sobre a admiração, falando do tema em linhas gerais. Eis o que concluí sobre a “admiração”:
“Admirar-se de tudo é, sem dúvida, uma tolice, não se admirar de nada é
bem mais bonito7 e, por algum motivo, reconhecido como bom-tom. Mas é pouco provável que no fundo seja assim. Acho que não se admirar de nada é uma tolice bem maior do que admirar-se de tudo. Além do mais, não se admirar de nada é quase o mesmo que não respeitar nada. Aliás, um homem tolo não pode mesmo respeitar.”
— Sim, acima de tudo desejo respeitar. Estou sequioso por respeitar — disse-me certa vez, por esses dias, um conhecido.
Está sequioso por respeitar! Meu Deus, pensei, o que seria de ti se te atrevesses a publicar essa coisa hoje em dia!
Nisso comecei a dormitar. Não gosto de ler inscrições de túmulos; são sempre iguais. Sobre uma lápide, ao meu lado, havia um resto de sanduíche: coisa tola e inoportuna. Derrubei-o sobre a terra, pois não era pão mas apenas sanduíche. Aliás, parece que não é pecado esfarelar pão sobre a terra; sobre o assoalho é que é pecado. Procurar informações no almanaque
de Suvórin.8
Cabe supor que fiquei sentado muito tempo, até demais; ou seja, cheguei inclusive a me deitar em um longo bloco de pedra com formato de caixão de mármore. E como foi acontecer que de repente comecei a ouvir coisas diversas? A princípio não prestei atenção e desdenhei. Mas a conversa continuava. E eu escutava: sons surdos, como se as bocas estivessem tapadas por travesseiros; e, a despeito de tudo, nítidos e muito próximos. Despertei, sentei-me e passei a escutar atentamente.
— Excelência, isso simplesmente não se faz. O senhor canta copas, eu faço o jogo, e de repente o senhor aparece com um sete de ouros. Devia ter cantado ouros antes.
— Então, quer dizer que vamos jogar de memória? Que graça há nisso?
— Não, Excelência, não há meio de jogar sem garantias. Não pode faltar o morto, e as cartas têm de ser dadas viradas para baixo na mesa.
— Bem, morto por aqui não se arranja.
Que raio de conversa mais maçante! É estranha e surpreendente. Uma voz tão forte e grave, a outra parecendo suavemente adulçorada; não acreditaria se eu mesmo não estivesse ouvindo. Ao Réquiem parece que não
assisti. E, no entanto, como é que podem jogar préférence9 aqui, e que general é esse? De que ouvi coisas de debaixo dos túmulos não há nenhuma dúvida. Inclinei-me e li uma inscrição em um túmulo:
“Aqui jaz o corpo do general-major Piervoiêdov... tais e tais medalhas de cavaleiro.” Hum! “Faleceu em agosto deste ano... cinquenta e sete...
Descansem em paz, queridos restos mortais, até o amanhecer
radiante!”10
Hum! que diabo, é um general mesmo! Na outra cova, de onde vinha a voz bajuladora, ainda não havia túmulo; havia apenas uma lápide; pelo
visto era de algum novato. Pela voz, um conselheiro da corte.11 — Oh-oh-oh-oh! — ouviu-se uma voz bem nova a umas cinco braças do lugar do general e vinda de uma cova bem fresquinha, voz masculina e vulgar, porém atenuada pela maneira reverente e comovida.
— Oh-oh-oh-oh!
— Ah, ele está soluçando de novo! — ouviu-se de súbito a voz enojada e arrogante de uma dama irritada, parece que da alta sociedade. — Para mim é um castigo ficar ao lado desse vendeiro!
— Eu não estou soluçando coisa nenhuma, e além do mais nem comi nada, isso é só por causa de minha natureza. Tudo isso, senhora, é porque os seus caprichos aqui neste lugar nunca lhe dão paz.
— Então, por que o senhor se deitou aqui?
— Me botaram, foram a mulher e os filhos que me botaram e não eu que me deitei. É o mistério da morte! E eu não me deitaria a seu lado por nada, por ouro nenhum; estou deitado às custas de meu próprio capital, a julgar pelo preço. Porque sempre podemos pagar por uma sepultura de terceira classe.
— Juntou dinheiro; roubando as pessoas?
— De que jeito roubar a senhora se desde janeiro não recebemos nenhum pagamento da sua parte? Tem uma conta em seu nome na minha venda.
— Bem, isso já é uma bobagem; acho muita bobagem cobrar dívidas aqui! Vá lá em cima. Cobre da minha sobrinha; ela é a herdeira.
— Ora essa, onde é que se vai cobrar e aonde ir agora. Nós dois chegamos ao limite, e em matéria de pecados somos iguais perante o tribunal de Deus.
— De pecados! — arremedou a finada com desdém. — E não tenha o atrevimento de falar nada comigo!
— Oh-oh-oh-oh!
— Mas o vendeiro obedece à senhora, Excelência.
— E por que não haveria de obedecer?
— Sabe-se por quê, Excelência, já que reina aqui uma nova ordem.
— Que nova ordem é essa?
— É que nós, por assim dizer, estamos mortos, Excelência.
— Ah, é mesmo! Mas ainda assim é ordem...
Que obséquio! realmente um consolo! Se a coisa aqui chegou a esse ponto, o que se pode indagar no andar de cima? Que coisas estão acontecendo, sim senhor! Mas no entanto continuei a escutar, mesmo tomado de excessiva indignação.
— Não, eu ainda gostaria de viver! Não... eu, fiquem sabendo, eu ainda gostaria de viver! — ouviu-se de repente a voz nova de alguém n’algum canto entre o general e a senhora irritadiça.
— Ouvi, Excelência, o nosso vizinho volta a bater na mesma tecla. Há três meses calado, e de repente: “Eu ainda gostaria de viver, não, eu ainda gostaria de viver!”. E com que apetite, hi-hi!
— E leviandade.
— Está atônito, Excelência, e ficai sabendo, está entrando no sono, no sono definitivo, já está aqui desde abril, mas de repente: “Eu ainda gostaria de viver!”.
— Isso é meio maçante, convenhamos — observou sua Excelência.
— Meio maçante, Excelência; não seria o caso de tornarmos a mexer com Avdótia Ignátievna, hi-hi?
— Isso não, peço que me dispense. Não consigo suportar essa gritalhona provocante.
— Já eu, ao contrário, não consigo suportar vocês dois — respondeu a gritalhona com nojo. — Vocês dois são os mais maçantes e não sabem falar de nada em que haja ideal. A seu respeito, Excelência — por favor, não sejais presunçoso —, conheço aquela historiazinha em que o criado vos varreu com a vassoura de debaixo da cama de um casal ao amanhecer.
— Mulher detestável! — rosnou o general entre dentes.
— Minha cara Avdótia Ignátievna — tornou a gritar subitamente o vendeiro —, minha senhorinha, esquece o mal e me diz se eu tenho de passar por todas essas provações ou devo agir de outro jeito?
— Ah, lá vem ele com a mesma ladainha, eu bem que pressenti, pois estou sentindo o cheiro que vem dele, o cheiro, porque é ele que está se mexendo!
— Não estou me mexendo, minha cara, e não é de mim que está saindo nenhum cheiro especial, porque eu ainda estou inteiro no meu corpo plenamente conservado; já a senhorinha se mexeu mesmo, porque o cheiro é realmente insuportável até para um lugar como este. É só por delicadeza que eu fico calado.
— Ah, esse ofensor detestável! Fede que é um horror e diz que sou eu.
— Oh-oh-oh-oh! Se pelo menos os nossos acabassem logo essa quarentena: escuto sobre mim vozes chorosas, o pranto da mulher e o choro baixinho dos filhos!...
— Vejam só por que ele está chorando: vão encher a pança de kutyá12 e ir embora. Ah, se ao menos alguém acordasse!
— Avdótia Ignátievna — falou o funcionário bajulador.
— Espere um segundinho, os novatos vão falar.
— Também há jovens entre eles?
— Também há jovens, Avdótia Ignátievna. Até rapazinhos.
— Ah, como viriam a propósito!
— E por que ainda não começaram? — quis saber sua Excelência.
— Nem os de anteontem acordaram, Excelência, o senhor mesmo sabe que às vezes ficam uma semana calados. Ainda bem que de repente trouxeram muitos ontem, anteontem e hoje. Senão a umas dez braças ao redor todos seriam do ano passado.
— É, interessante.
— Pois bem, Excelência, hoje sepultaram o conselheiro efetivo secreto13 Tarassiêvitch. Reconheci-o pelas vozes. Conheço seu sobrinho, que ainda há pouco fez descer o caixão dele.
— Hum, onde estará ele por aqui?
— A uns cinco passos do senhor, Excelência, à esquerda. Quase bem aos vossos pés... Seria bom que os senhores se conhecessem, Excelência.
— Hum, essa não... eu, dar o primeiro passo.
— Ora, ele mesmo tomará a iniciativa, Excelência. Ele vai se sentir até lisonjeado, deixai comigo, Excelência, e eu...
— Ah, ah... ah, o que está acontecendo comigo? — súbito começou a ofegar a vozinha novata e assustada de alguém.
— Um novato, Excelência, um novato, graças a Deus, e foi tão depressa! Noutras ocasiões passam uma semana sem falar.
— Ah, parece que é um jovem! — guinchou Avdótia Ignátievna.
— Eu... eu... eu tive uma complicação, e tão de repente! — tornou a balbuciar o rapazinho. — Schultz me disse ainda na véspera: o senhor, diz ele, está com uma complicação, e de repente morri ao amanhecer. Ah! Ah!
— Bem, não há o que fazer, meu jovem — observou o general cheio de benevolência e notória alegria pelo novato —, precisa consolar-se. Seja
bem-vindo ao nosso, por assim dizer, vale de Josafá.14 Somos gente bondosa, vós o sabereis e apreciareis. General-major Vassíli Vassíliev Piervoiêdov para servi-lo.
— Ah, não! não, não, de jeito nenhum! Estava no consultório de Schultz; andava com uma complicação, primeiro senti o peito tomado e tosse, depois peguei uma gripe: o peito e a gripe... e de repente tudo inesperado... e o pior, totalmente inesperado.
— O senhor está dizendo que primeiro foi o peito — intrometeu-se brandamente o funcionário, como se quisesse animar o novato.
— Sim, o peito e escarro, depois desapareceu o escarro e não senti o peito, não conseguia respirar... o senhor sabe...
— Sei, sei. Mas se era peito, seria melhor o senhor ter ido a Eckoud e não
a Schultz.15
— Sabe, eu estava para ir a Bótkin... mas de repente...
— Bem, Bótkin arranca os olhos da cara — observou o general.
— Não, ele não arranca olho nenhum; ouvi dizer que ele é muito atencioso e antecipa tudo.
— Sua Excelência observou a propósito do preço — emendou o funcionário.
— Ah, o que é isso, apenas três rublos, e ele examina tão bem, e receita... e eu queria sem falta, porque me disseram... Então, senhores, devo ir a Eckoud ou a Bótkin?
— O quê? Aonde? — com uma gargalhada agradável começou a agitar-se o cadáver do general. O funcionário o repetiu em falsete.
— Querido menino, meu menino querido e radiante, como eu te amo! — ganiu em êxtase Avdótia Ignátievna. — Ah, se colocassem um assim ao meu lado!
Não, isso eu já não posso admitir! e olhe que esse é um morto moderno! Entretanto, vamos ouvir mais e sem pressa de concluir. Esse fedelho novato — lembro-me dele ainda há pouco no caixão — é a expressão de um frango assustado, a mais asquerosa do mundo! Mas vejamos o que vem pela frente.
Mas depois começou tal pandemônio que não retive tudo na memória, porque muitos acordaram ao mesmo tempo; acordou um funcionário,
conselheiro civil,16 e começou imediatamente a discutir com o general o projeto de uma nova subcomissão no ministério e, conjugado com essa subcomissão, um provável remanejamento de ocupantes de cargos, o que deixou o general bastante entretido. Confesso que eu mesmo me inteirei de muitas novidades, de sorte que fiquei impressionado com os meios pelos quais às vezes podemos tomar conhecimento das novidades administrativas nesta capital. Depois semidespertou um engenheiro, que ainda levou tempo resmungando um completo absurdo, de sorte que os nossos nem implicaram com ele, mas deixaram que por ora continuasse deitado. Finalmente uma ilustre grã-senhora, sepultada pela manhã no catafalco, deu sinais de animação tumular. Lebieziátnikov (porque se chamava Lebieziátnikov o bajulador conselheiro da corte, objeto do meu ódio, que se colocara ao lado do general Piervoiêdov) ficou muito agitado e surpreso ao ver que desta vez todos estavam acordando muito depressa. Confesso que eu também me surpreendi; aliás, alguns dos despertos já estavam enterrados há três dias, como, por exemplo, uma mocinha bem jovem, de uns dezesseis anos, que dava risadinhas sem parar... dava risadinhas abjetas e sensuais.
— Excelência, o conselheiro secreto Tarassiêvitch está acordando! — anunciou de súbito Lebieziátnikov com uma pressa excepcional.
— Ãh, o quê? — resmungou o conselheiro secreto com voz ciciante e nojo, despertando de repente. No som da voz havia um quê de capricho e imposição. Por curiosidade agucei o ouvido, pois nos últimos dias eu ouvira falar coisas sumamente tentadoras e inquietantes a respeito desse Tarassiêvitch.
— Sou eu, Excelência, por enquanto apenas eu.
— Qual é o seu pedido e o que o senhor deseja?
— Apenas me inteirar da saúde de Vossa Excelência; por falta de hábito, cada um que chega aqui se sente meio tolhido da primeira vez... O general Piervoiêdov gostaria de ter a honra de conhecer Vossa Excelência e espera...
— Não ouvi.
— Perdão, Excelência, é o general Piervoiêdov, Vassíli Vassílievitch...
— O senhor é o general Piervoiêdov?
— Não, Excelência, sou apenas o conselheiro da corte Lebieziátnikov para servi-lo, mas o general Piervoiêdov...
— Absurdo! E peço-lhe que me deixe em paz.
— Deixai-o — finalmente o general Piervoiêdov deteve com dignidade a pressa torpe do seu cliente sepulcral.
— Ele ainda não acordou, Excelência, é preciso considerar; isso é falta do hábito: quando acordar o receberá de modo diferente...
— Deixai-o — repetiu o general.
— Vassíli Vassílievitch! Ei, Excelência! — gritou alto de súbito e entusiasmada ao lado da própria Avdótia Ignátievna uma voz inteiramente novata, voz fidalguesca e petulante, com a dicção lânguida da moda e descaradamente escandida —, já faz duas horas que vos observo a todos; há três dias estou deitado aqui: o senhor se lembra de mim, Vassíli Vassílievitch? Kliniêvitch, nós nos encontramos em casa de Volokonski, onde o senhor, não sei por quê, também era recebido.
— Como, o conde Piotr Pietróvitch... não me diga que é o senhor... e em idade tão jovem... Como lamento!
— E eu também lamento, só que para mim dá no mesmo e doravante quero desfrutar de tudo o que for possível. E não sou conde, mas barão, apenas barão. Nós somos uns baronetes sarnentos, descendentes de criados, aliás, eu até desconheço a razão disso e estou me lixando. Sou apenas um
pulha da “pseudo-alta sociedade” e me considero um “amável polisson”.17 Meu pai era um generalote qualquer e houve época em que minha mãe era
recebida en haut lieu.18 No ano passado eu e o jid19 Zifel pusemos em circulação cerca de cinquenta mil rublos em notas falsas, eu o denunciei, e o dinheiro Yulka Charpentier de Lusignan levou todinho para Bordeaux. E imaginai que eu já estava noivo — de Schevaliévskaia, moça ainda colegial, a menos de três meses para completar dezesseis anos, noventa mil rublos de dote. Avdótia Ignátievna, estais lembrada de como me pervertestes há quinze anos, quando eu ainda era um cadete de quatorze anos?
— Ah, és tu, patife, pelo menos Deus te enviou, porque aqui...
— Em vão desconfiastes de mau cheiro no vosso vizinho negociante... Eu me limitei a calar e rir. Porque o mau cheiro sai de mim; é que me enterraram num caixão pregado.
— Ah, que tipo abominável! Mas mesmo assim estou contente; não acreditaríeis, Kliniêvitch, não acreditaríeis como isso aqui carece de vida e graça.
— Pois é, pois é, mas eu tenho a intenção de organizar aqui alguma coisa original. Excelência — não estou falando com o senhor, Piervoiêdov —, Excelência, o outro, o senhor Tarassiêvitch, o conselheiro secreto. Respondei! É Kliniêvitch, que na Quaresma vos levou à casa de mademoiselle Furie, estais lembrado?
— Eu vos estou ouvindo, Kliniêvitch, e muito contente, acreditai...
— Não acredito numa vírgula, e estou me lixando. Eu, amável velhote, quero simplesmente cobri-lo de beijos, mas graças a Deus não posso. Sabeis
vós, senhores, o que esse grand-père20 engendrou? Faz três ou quatro dias que morreu, e podeis imaginar que deixou um desfalque de quatrocentos mil rublos redondos em dinheiro público? A quantia estava em nome das viúvas e dos órfãos, mas não se sabe por que ele a administrava sozinho, de sorte que acabou ficando oito anos livre de fiscalização. Imagino a cara de tacho de todos eles lá e que lembrança guardam dele! Não é verdade que é uma ideia cheia de volúpia? Vivi todo o ano passado admirado de ver como esse velhote de setenta anos, cheio de gota nas mãos e nos pés, ainda conseguia conservar tanta energia para a libertinagem, e agora vejo o enigma decifrado! Aquelas viúvas e órfãos... aliás, a simples ideia de sua existência deveria deixá-lo em brasas!... Eu já conhecia essa história havia muito tempo, e era o único a conhecê-la, Charpentier me contou na Semana Santa e, mal tomei conhecimento, investi contra ele, amigavelmente: “Passa-me vinte e cinco mil, senão amanhã a fiscalização estará aqui”; imaginai, na ocasião ele só arranjou treze mil, de sorte que, parece, agora a morte dele vem bem a propósito. Grand-père, grand-père, estais ouvindo?
— Chèr Kliniêvitch, estou inteiramente de acordo convosco, e em vão... descestes a semelhantes detalhes. Na vida há tanto sofrimento, tanto martírio e tão pouco castigo... eu desejei finalmente aquietar-me e, até onde percebo, espero até neste lugar desfrutar de tudo...
— Aposto que ele já farejou Kátich Bieriestova!
— Qual?... Que Kátich? — tremeu lasciva a voz do velho.
— Ahah, que Kátich? Ali está, à esquerda, a cinco passos de mim, a dez do senhor. Ela já está aqui há cinco dias, e se o senhor, grand-père, soubesse que canalhinha... de um bom lar, educada, e um monstro, um monstro em último grau! Lá eu não a mostrava a ninguém, só eu sabia... Kátich, responda!
— Ih-ih-ih! — respondeu o som de cana rachada da voz da mocinha, mas nele se ouviu algo como uma alfinetada. — Ih-ih-ih!
— E é lou-ri-nha?— balbuciou o grande-père com três sons fragmentados.
— Ih-ih-ih!
— A mim... a mim já faz tempo — pôs-se a balbuciar ofegante o velho — que me atrai o sonho com uma lourinha... de uns quinze anos... e justamente numa situação como esta...
— Ah, que monstruosidade! — exclamou Avdótia Ignátievna.
— Basta! — resolveu Kliniêvitch. —, estou vendo que o material é magnífico. Aqui vamos nos organizar rapidamente para atingir o melhor. O principal é que passemos com alegria o resto do tempo: mas que tempo? Ei, o senhor aí, Lebieziátnikov, funcionário de alguma coisa, parece que foi esse o nome que ouvi chamarem!
— Lebieziátnikov, conselheiro da corte, Semión Ievsêitchik, para vos servir e muito, muito contente.
— Estou me lixando para o seu contentamento, mas parece que o senhor é o único aqui que sabe tudo. Dizei, em primeiro lugar (desde ontem que estou admirado), de que modo nós falamos neste lugar? Porque estamos mortos e no entanto falamos; é como se falássemos, e no entanto nem falamos nem nos movemos! Que truques são esses?
— Isso, se o senhor desejar, barão, quem pode vos explicar melhor do que eu é Platon Nikoláievitch.
— Quem é esse Platon Nikoláievitch? Pare de mastigar, vamos ao assunto.
— Platon Nikoláievitch é o nosso filósofo doméstico daqui, naturalista e grão-mestre. Já lançou vários livros de filosofia, mas faz três meses que vem entrando no sono definitivo, de modo que aqui já não é mais possível desentorpecê-lo. Uma vez por semana balbucia algumas palavras sem nexo.
— Ao assunto, ao assunto!...
— Ele explica tudo isso com o fato mais simples, ou seja, dizendo que lá em cima, quando ainda estávamos vivos, julgávamos erroneamente a morte como morte. É como se aqui o corpo se reanimasse, os restos de vida se concentram, mas apenas na consciência... Isto não tenho como lhe expressar — é a vida que continua como que por inércia. Tudo concentrado, segundo ele, em algum ponto da consciência, e ainda dura de dois a três meses... às vezes até meio ano... Há, por exemplo, um fulano que aqui quase já se decompôs inteiramente, mas faz umas seis semanas que de vez em quando ainda balbucia de repente uma palavrinha, claro que sem sentido, sobre um tal bobók: “Bobók, bobók”; logo, até nele ainda persiste uma centelha invisível de vida...
— Coisa bastante tola. E como é que eu estou sem tato, mas sinto fedor?
— Isso.. eh-eh... Nesse ponto o nosso filósofo meteu-se em zona nebulosa. Referindo-se precisamente ao olfato, ele observou que aqui se sente um fedor, por assim dizer, moral, eh-eh! É como se o fedor viesse da alma para que, nesses dois-três meses, nós nos apercebêssemos a tempo... e que isso, por assim dizer, é a última misericórdia... Só que eu, barão, acho que tudo isso já é delírio místico, bastante desculpável na situação dele...
— Basta, e estou certo de que todo o resto é absurdo. O principal são os dois ou três meses de vida e, no fim das contas, bobók. Sugiro que todos passemos esses dois meses da maneira mais agradável possível, e para tanto todos nos organizemos em outras bases. Senhores! proponho que não nos envergonhemos de nada!
— Ah, vamos, vamos, não nos envergonhemos de nada! — ouviram-se muitas vozes e, estranho, ouviram-se até vozes inteiramente novas, logo, que haviam tornado a despertar nesse ínterim. Um engenheiro que despertara completamente trovejou com voz de baixo a sua concordância, com uma presteza especial. A mocinha Kátich dava risadinhas de alegria.
— Ah, como eu quero não me envergonhar de nada! — exclamava em êxtase Avdótia Ignátievna.
— Ouvi, já que Avdótia Ignátievna quer não se envergonhar de nada...
— Não-não-não, Kliniêvitch, eu me envergonhava, apesar de tudo lá eu me envergonhava, mas aqui estou com uma terrível, uma terrível vontade de não me envergonhar de nada!
— Eu entendo, Kliniêvitch — falou o engenheiro com sua voz de baixo —, que estais propondo organizar a vida aqui, por assim dizer, em princípios novos e já racionais.
— Bem, para isso eu estou me lixando! Neste sentido aguardemos Kudeiárov, foi trazido ontem. Assim que despertar vos explicará tudo. Precisam ver que tipo, é um tipo agigantado! Amanhã, parece, vão trazer mais um naturalista, certamente um oficial e, se não estou enganado, dentro de uns três ou quatro dias um folhetinista, e parece que junto com o redator-chefe. Aliás, o diabo os tenha, porque tão logo se reúna a nossa turma, tudo entre nós se organizará naturalmente. Mas por enquanto eu quero que não se minta. É só o que eu quero, porque isto é o essencial. Na Terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos; mas, com o intuito de rir, aqui não vamos mentir. Aos diabos, ora, pois o túmulo significa alguma coisa! Todos nós vamos contar em voz alta as nossas histórias já sem nos envergonharmos de nada. Serei o primeiro de todos a contar a minha história. Eu, sabei, sou dos sensuais. Lá em cima tudo isso estava preso por cordas podres. Abaixo as cordas, e vivamos esses dois meses na mais desavergonhada verdade! Tiremos a roupa, dispamo-nos!
— Dispamo-nos, dispamo-nos! — gritaram em coro.
— Estou com uma terrível, uma terrível vontade de tirar a roupa! — ganiu Avdótia Ignátievna.
— Ah... ah... Ah, estou vendo que a coisa aqui vai ficar alegre; não quero mais ir a Eckoud.
— Não, eu ainda gostaria de viver, não, ficai sabendo, eu ainda gostaria de viver!
— Ih-ih-ih — Kátich dava risadinhas.
— O principal é que ninguém pode nos proibir, e ainda que Piervoiêdov se zangue, como estou vendo, ele não pode mesmo me alcançar com a mão. Grand-père, o senhor está de acordo?
— Totalmente, totalmente de acordo e com o maior dos prazeres, mas contanto que Kátich seja a primeira a começar sua bi-o-grafia.
— Protesto, protesto com todas as forças — pronunciou com firmeza o general Piervoiêdov.
— Excelência! — balbuciou em voz baixa o canalha do Lebieziátnikov numa inquietação precipitada e em tom persuasivo. — Excelência, será até mais vantajoso para nós se concordarmos. Como sabeis, está em jogo essa menina... e, no fim das contas, todas essas coisinhas várias...
— Suponhamos, a menina, no entanto...
— Mais vantajoso, Excelência, juro que seria mais vantajoso! Ao menos uma provinha, ao menos experimentemos...
— Nem no túmulo nos deixam em paz!
— Em primeiro lugar, general, o senhor joga préférence no túmulo, em segundo, estamos nos li-xan-do para o senhor — escandiu Kliniêvitch.
— Meu caro senhor, não obstante, peço que não esqueçais as maneiras.
— O quê? Ora essa, o senhor não me alcança, e daqui eu posso provocá-lo como se faz com um cachorrinho. Em primeiro lugar, senhores, que general é ele aqui? Lá ele era general, mas aqui é um nada!
— Não, não sou um nada... eu até aqui...
— Aqui apodrecerá no caixão, e deixará seis botões de cobre.
— Bravo, Kliniêvitch, quá-quá-quá! — mugiram vozes.
— Eu servi ao meu soberano... tenho uma espada...
— Vossa espada serve para espetar ratos, e além do mais o senhor nunca a desembainhou.
— Não importa; eu era parte de um todo.
— Sabe-se lá que partes tem um todo.
— Bravo, Kliniêvitch, bravo, quá-quá-quá!
— Eu não entendo o que é uma espada — proclamou o engenheiro.
— Nós vamos fugir dos prussianos como ratos, eles nos reduzirão a pó! — gritou uma voz distante, estranha a mim, mas literalmente sufocada de êxtase.
— A espada, senhor, é honra! — ia gritando o general, mas só eu o ouvi. Ergueu-se uma berraria demorada e frenética, motim e alarido, e só se ouviam os guinchos impacientes e quase histéricos de Avdótia Ignátievna.
— Vamos logo com isso, logo! Ah, quando é que vamos começar a não ter vergonha de nada!
— Oh-oh-oh! a alma anda verdadeiramente atormentada! — ia-se ouvindo uma voz vinda do povão e...
E eis que de repente espirrei. Aconteceu de forma súbita e involuntária, mas o efeito foi surpreendente: tudo ficou em silêncio, exatamente como no cemitério, desapareceu como um sonho. Fez-se um silêncio verdadeiramente sepulcral. Não acho que tenham sentido vergonha de mim: haviam resolvido não se envergonhar de nada! Esperei uns cinco minutos e... nem uma palavra, nem um som. Também não dá para supor que tenham temido ser denunciados à polícia; porque, o que a polícia pode fazer neste caso? Concluo involuntariamente que, apesar de tudo, eles devem ter algum segredo desconhecido dos mortais e que eles escondem cuidadosamente de todo mortal.
“Bem, queridos, refleti, ainda hei de visitá-los” — e com essas palavras deixei o cemitério.
Não, isso eu não posso admitir; não, efetivamente não! O bobók não me perturba (vejam em que acabou dando esse tal bobók!).
Perversão em um lugar como este, perversão das últimas esperanças, perversão de cadáveres flácidos e em decomposição, sem poupar sequer os últimos lampejos de consciência! Deram-lhes, presentearam-nos com esses lampejos e... E o mais grave, o mais grave: num lugar como este! Não, isto eu não posso admitir...
Circulo em outras classes, escuto em toda parte. O problema é que preciso escutar em toda parte e não só de um lado para fazer uma ideia. Pode ser que eu depare com algo consolador.
Mas voltarei sem falta àqueles. Prometeram suas biografias e toda sorte de anedotas. Arre! Mas vou procurá-los, vou sem falta; é uma questão de consciência!
Vou levar ao Grajdanin;21 lá também reproduziram o retrato de um redator-chefe. Pode ser que publiquem.
Vassíli Perov, Retrato do escritor Fiódor Dostoiévski, 1872, óleo s/ tela, 99 x 80,5 cm, Galeria Tretiakov, Moscou.
1 “Sal ático”, expressão figurada que significa gracejo refinado. Remonta a Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), que nutria um alto apreço pela arte oratória grega. (N. da E.)
2 Têm-se em vista as resenhas e as repercussões polêmicas do romance Os demônios, sobretudo a nota “Jornalismo e bibliografia”, publicada por Birjevíe Viédomosti [Boletins da Bolsa] e assinada por M. N., que comparava o conteúdo do romance às alucinações de Popríchin, protagonista do Diário de um louco, de Nikolai Gógol. Aqui se menciona o início da atividade literária de Dostoiévski, quando sua primeira obra “foi saudada por Bielínski, para quem o talento do escritor estreante pertencia à categoria daqueles que não se percebem nem se compreendem de imediato. Enquanto ele continuar em suas atividades, dizia o crítico, surgirão muitos talentos que irão opor-se a ele, mas estes acabarão esquecidos, ao passo que sua glória chegará ao apogeu. Não sabemos se o seu talento chegou a esse apogeu, mas, pelo que fez uma parte dos nossos jovens pátrios, ele realmente superou ao menos aqueles concorrentes que enveredam por esse caminho no Rússki Viéstnik [Mensageiro Russo] e em outras revistas da mesma natureza e que já foram esquecidas” (Birjevíe Viédomosti, 24/3/ 1872, nº 83). (N. da E.)
3 Em russo, bobók significa fava. (N. do T.)
4 Classe civil de sexta categoria. (N. da E.)
5 Réplica polêmica ao artigo do crítico Viktor P. Buriênin (1841-1926), “O sentido purificador das galés e os folhetins cheios de nervosismo e clamor do sr. Dostoiévski” (Grajdanin, nº 1, 2, 3). Buriênin assim avalia a publicística de Dostoiévski: “Mas quando o sr. Dostoiévski envereda pelo campo do pensamento teórico, quando ele se mete a
publicista, filósofo, moralista, ele fica horrível; não, mais que horrível: ele é irresponsável diante do bom senso e da lógica” (S.-Peterbúrgskie Viédomosti [Boletim ou Diário Oficial de São Petersburgo], 20/1/1873, nº 20 — grifos da redação). “Uma pessoa” modifica um pouco as palavras (grifadas) de Buriênin, substituindo “lógica” por “mecânica”. Tudo indica que Dostoiévski o faz com uma finalidade polêmica complementar de atingir Ivan Turguêniev pelo artigo “A propósito de Pais e filhos”, que antes Dostoiévski parodiara em Os demônios. Turguêniev conclui o artigo com esse apelo às “pessoas práticas”: “respeitai ao menos as leis da mecânica, tirai de cada coisa todo o proveito possível! Senão o leitor, ao percorrer nas revistas algumas páginas de verborreia murcha, vaga, impotente de tão prolixas, palavra, deverá involuntariamente pensar que substituís exatamente alavanca por escoras primitivas, que estareis retornando à primeira infância da própria mecânica [...]” (Ivan Turguêniev, Obras, tomo XIV, p. 109 — grifos da edição russa). (N. da E.)
6 Tudo indica tratar-se de uma exposição politécnica inaugurada em Moscou no dia 30 de maio de 1872 e encerrada no dia 30 de agosto do mesmo ano, em comemoração ao bicentenário de nascimento de Pedro, o Grande. Um grande resumo, “A exposição politécnica de Moscou”, assinado com as iniciais B. K. N., foi publicado numa coletânea do Grajdanin em 1872 e consta na biblioteca de Dostoiévski. (N. da E.)
7 Dostoiévski tem em vista Quinto Horácio Flaco (68-8 a.C.), autor da expressão Nil admirari (De nada admirar-se). Em Bobók essa locução talvez atinja polemicamente o crítico de arte Lev Paniútin (1831-1882), que usava a expressão como pseudônimo. (N. da E.)
8 Trata-se do Almanaque Russo de Aleksei Suvórin em sua edição de 1872 (São Petersburgo). O novo almanaque difere consideravelmente dos anteriores, que eram simples calendários. Essa circunstância foi ressaltada e explicada no prefácio à nova edição: “Diante do interesse pelas questões sociais e sua discussão que vem se expandindo nos últimos dez anos em nossa sociedade, colocamos como meta central do Calendário Russo ser não só um livro de consulta como, ao mesmo tempo, um manual de informações sobre a Rússia e de dados para o conhecimento dos seus recursos físicos, econômicos e ético-políticos no estado em que estão disponíveis e, ainda, comparados com as mesmas potencialidades do resto da Europa”. O calendário contava com quarenta e duas seções; pelo visto, “uma pessoa” pretende “consultar” a quarta seção, “Calendário de superstições, costumes e crendices populares na Rússia”, pp. 48-55. (N. da E.)
9 Jogo de baralho semelhante ao bridge. (N. do T.)
10 Epitáfio do escritor Nikolai Karamzin (1766-1826). Por vontade dos irmãos Mikhail e Fiódor Dostoiévski, foi gravado em 1837 no monumento que eles colocaram no túmulo da mãe. O epitáfio já era amplamente popular em 1830. A. Chlekhter, no conto “Vítimas do vício: cenas da vida urbana” (1834), constata: “Com repetições particulares as pessoas usaram tanto, gastaram tanto essa inscrição maravilhosa que ela perdeu inteiramente o seu belo sentido. A gente a encontra sobre as cinzas de algum malvado, de um homem de quem se recebeu uma herança há muito esperada, sobre o túmulo de um inimigo, o corpo de um marido odiado pela mulher”. O epitáfio de Karamzin já figurara antes (em contexto burlesco) no romance O idiota, de Dostoiévski. (N. da E.)
11 Classe civil de sétima categoria. (N. da E.)
12 Mistura de cereal cozido com mel (ou açúcar, ameixa em passas, passas, etc.). Tudo indica que o cereal é, aqui, um símbolo da ressurreição, e o mel (ou outros ingredientes doces) um símbolo de doçura da futura vida. O kutyá é um tradicional detalhe simbólico do ritual fúnebre. (N.da E.)
13 Classe civil de segunda categoria. (N. da E.)
14 Vale situado nos arredores de Jerusalém; segundo a lenda bíblica, o nome se deve a Josafá, rei da Judeia. O vale de Josafá é um símbolo profético bíblico: é o lugar onde se dará o Dia do Juízo Final, quando o mundo acabar. (N. da E.)
15 Estrelas da medicina de Petersburgo. O Almanaque Russo de Suvórin informa sobre eles na rubrica “Médicos especialistas de Petersburgo”, dando detalhes de endereço, dias de atendimento etc... Também aparecem nos manuscritos de Crime e castigo e O idiota. (N. da E.)
16 Classe civil de quinta categoria. (N. da E.)
17 “Vadio”, “vagabundo”, em francês no original. (N. do T.)
18 “Nas altas rodas”, em francês no original. (N. do T.)
19 Termo depreciativo usado no tratamento de judeus. (N. do T.)
20 “Vovô”, em francês no original. (N. do T.)
21 O Cidadão, semanário de Petersburgo do qual Dostoiévski é redatorchefe quando publica Bobók. (N. do T.)
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