Meu primeiro amor

James Patterson · Chapitre 1 sur 5

Pages du PDF

Meu primeiro amor

Prólogo

OceanofPDF.com

Um

 

Certo, posso não estar fazendo o melhor pela minha imagem ao admitir isso, mas preciso dizer desde o princípio que eu era tão certinha, tão correta, que matar minhas duas últimas aulas naquele dia (física e inglês) me deixou tão ridiculamente nervosa que cheguei a pensar que todo aquele plano maluco não valeria a pena.

Olhando para trás agora, não posso acreditar que estive tão perto de recuar da experiência mais linda, divertida, dolorosa e transformadora que jamais terei.

Como fui idiota.

Eu estava no Ernie’s Pharmacy & Soda Fountain e sentia um enorme frio na barriga. Batia com os bicos de minhas botas vintage de cowboy da Frye contra o balcão até que Ernie – que tem mais ou menos um milhão de anos e é basicamente um resmungão – me disse para parar com aquilo. Mas como Ernie é quase tão surdo quanto uma porta, tirei as botas e continuei batendo no balcão.

Fiquei feliz por ele não ter me perguntado por que eu estava sentada em sua cafeteria antiga tomando um café gigante (do qual eu definitivamente não precisava) em vez de estar duas quadras abaixo, na Klamath Falls High School, ouvindo o sr. Fox tagarelar sobre o continuum espaço-tempo. Afinal, o que eu teria respondido?

Bem, Ernie – sr. Holman, quero dizer –, estou esperando por um garoto que eu nunca poderia namorar e prestes a pedir a ele que faça algo tão importante que vai ou salvar nossas vidas, ou nos destruir completamente.

Ernie não liga muito para a angústia adolescente, e deve ser por isso que praticamente ninguém que conheço vai à sua loja. Isso e o fato de todos os seus doces serem cobertos de poeira, além de as barras de chocolate Snickers poderem ser usadas como pés de cabra de tão duras que são.

Mas eu não me importo. E nem o cara que mencionei. O Ernie’s é nosso lugar.

Esse garoto tinha me mandado um recado no início do dia. De alguma forma, havia um bilhete dele dentro do meu armário, ainda que ele não frequente mais minha escola e tenhamos guardas que parecem da elite militar para nos proteger contra Deus sabe o quê (tumultos provocados pelo tédio de uma cidade pequena, talvez).

 

Axi…

Então, você tem notícias importantes, é? Estou chocado por você achar que pode me surpreender. Ou surpreso por você achar que pode me chocar. Ou algo assim. Você é a nerd das palavras. Bem, de qualquer maneira, mal posso esperar para ouvir. Ernie’s. 13h15. Sim, isso significa matar aula. Sem desculpas.

– Seu “malandro” favorito Este é o Robinson. Um dia, eu o chamei de malandro de brincadeira, e ele nunca mais me deixou esquecer disso. Ele tem quase dezessete anos. É meu melhor amigo. Meu parceiro no crime.

Ouvi a porta da frente se abrir e soube que ele tinha chegado pelo jeito que o rosto de Ernie se animou como se alguém tivesse acabado de lhe dar um presente. Robinson tem esse efeito nas pessoas: quando entra em um ambiente, é como se as luzes ficassem mais brilhantes de repente.

Ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro. “Axi, sua trouxa”, disse ele (afetuosamente, claro). “Nunca tome café do Ernie’s sem um donut.” Ele se inclinou e sussurrou: “Essa coisa vai abrir um buraco gigante nas suas entranhas”. Em seguida, se sentou no banco alto ao meu lado, com as pernas esguias na calça Levi’s desbotada. Estava vestindo uma camisa de flanela, embora fosse final de maio e estivesse 24 graus lá fora.

“Ei, Ernie”, ele chamou, “ficou sabendo que o Timbers mandou o treinador embora? E pode nos dar uma rosquinha de chocolate?”

Ernie se aproximou, balançando a cabeça grisalha. “Futebol!”, ele reclamou. “O Oregon precisa é de um time profissional de beisebol. Esse é um esporte de verdade.” Ele colocou o donut em um prato velho e lascado, e disse: “Por conta da casa”.

Robinson se virou para mim, sorrindo e apontando o polegar para Ernie. “Adoro esse cara.”

Dava para afirmar que o sentimento era mútuo.

“Então”, disse Robinson, voltando toda a atenção para mim, “que ideia maluca é essa? Você finalmente vai se inscrever para tirar a carteira de habilitação provisória? Você decidiu beber uma cerveja inteira? Vai parar de fazer o dever de casa tão religiosamente?”

Ele sempre pega no meu pé por ser uma boa menina. Robinson acha – e meu pai concorda – que ele é um menino mau porque largou o ensino médio, que ele achava “insuficientemente convincente” e “povoado por cretinos” (sendo cretinos uma palavra que eu ensinei a ele, é claro). Pessoalmente, acho que ele tem razão.

“Provavelmente vou reprovar em tudo, menos em inglês”, disse eu, e não exagerava. Minha média de notas estava prestes a despencar, porque logo seria o período das provas finais e, com sorte, eu não estaria por perto para fazê-las. Uma semana antes, saber disso teria me mantido acordada à noite. Mas consegui parar de me importar, porque, se esse plano funcionasse, a vida como eu a conhecia estava com seus dias contados.

“Conhecendo você, isso parece altamente improvável”, disse Robinson. “E daí se você estiver um pouco distraída e, Deus nos livre, tirar um B+ em alguma coisa? Você está ocupada escrevendo o grande romance americano… ai!”

Eu havia dado um tapa no braço dele. “Por favor. Entre a escola e cuidar do meu querido e velho pai, não tive nenhum tempo de escrever.” Meu pai havia enfrentado uma crise alguns anos atrás e tentava sair dela bebendo. Desnecessário dizer que a estratégia não ia bem. “Podemos nos concentrar no assunto em questão?”, perguntei.

“Que é…?”

“Eu vou fugir”, disse eu.

Robinson ficou de queixo caído. A propósito, ao contrário desta que vos escreve, ele nunca usou aparelho e tem os dentes perfeitos.

“E, para sua informação, você também vem”, acrescentei.

 

OceanofPDF.com

Dois

 

“Você ouviu isso, Ernie?”, Robinson falou alto. Eu ia lhe dizer que ele parecia pasmo, mas ele também jamais me deixaria esquecer essa palavra específica.

Claro que Ernie não tinha ouvido nada, nem mesmo a pergunta de Robinson. Então, Robinson afastou o donut e me encarou como se nunca tivesse me visto antes. Como não é sempre que consigo surpreendê-lo, eu estava curtindo aquilo.

“Você leu aquela edição de On the road – pé na estrada que te dei?”, perguntei.

Agora Robinson parecia envergonhado. “Eu comecei…”

Revirei os olhos. Sempre dou livros para Robinson, e ele sempre me dá músicas, mas como ele se distrai fácil e meu telefone está morto, normalmente a coisa acaba aí. “Bem, Sal – que na verdade é Jack Kerouac, o autor – e os amigos dele percorrem todo o país, encontram pessoas malucas, dançam em bares, escalam montanhas e apostam em corridas de cavalos. Vamos fazer isso, Robinson. Vamos deixar essa porcaria para trás e fazer uma viagem épica. De Oregon a Nova York… com paradas ao longo do caminho, é claro.”

Robinson piscava para mim. Quem é você?, as piscadas perguntavam.

Eu me endireitei no banco alto. “Primeiro, vamos ver as sequoias, porque elas são totalmente místicas. Em seguida, vamos a San Francisco e a Los Angeles. Então, seguimos para o leste, para as grandes dunas de areia no Colorado. Depois, Detroit, a Motor City, Robinson, que é a sua cara. Então, como você é um viciado em velocidade, vamos andar no Millennium Force, em Cedar Point. Ele vai a, tipo, duzentos quilômetros por hora! Vamos para Coney Island. Vamos ver o Templo de Dendur no Metropolitan Museum of Art. A gente vai fazer tudo e qualquer coisa que quiser!”

Como sabia que parecia maluca, abri o mapa amassado para lhe mostrar como tinha tudo definido. “Aqui está o nosso percurso”, eu disse. “Esta linha roxa somos nós.”

“Nós”, ele repetiu. Claramente ele demorava um pouco para entender minha proposta.

“Nós. Você precisa vir junto”, falei. “Eu não posso fazer isso sem você.”

Isso era verdade, muito mais do que eu poderia admitir para ele ou mesmo para mim.

Robinson de repente começou a rir, e a risada foi tão longa e forte, que tive medo de que fosse sua maneira de dizer de jeito nenhum, sua doida que se parece com Axi, mas que é claramente algum tipo de maníaca.

“Se você não vier, quem vai me lembrar de comer um donut com o meu café?” Continuei falando, sem estar preparada para que ele desse uma resposta afiada, cética e sarcástica. “Você sabe que tenho um péssimo senso de direção. E se eu me perder em Los Angeles, os cientologistas me encontrarem e, de repente, eu passar a acreditar em Xenu e alienígenas? E se eu ficar bêbada em Las Vegas e me casar com um estranho? Quem vai me dar cotoveladas nas costelas quando eu começar a citar Shakespeare? Quem vai me proteger de tudo isso? Você não pode deixar uma garota de dezesseis anos atravessar o país sozinha. Isso seria, tipo, moralmente irresponsável…”

Robinson ergueu a mão, ainda dando risada. “E eu posso ser um malandro, mas não sou moralmente irresponsável.”

Até que enfim o cara diz alguma coisa! “Isso quer dizer que você vai?”, perguntei. Prendi a respiração.

Robinson olhou para cima. Ele me torturava e sabia disso. Levou a mão até o prato e deu uma mordida na rosquinha. “Bem”, disse ele.

“Bem, o quê?” Eu chutava o balcão novamente. Com força.

Ele passou a mão pelo cabelo, que é escuro e está sempre um pouco desgrenhado, mesmo que tenha acabado de cortá-lo. Então ele se virou e olhou para mim com seus olhos sagazes. “Bem”, disse ele, muito calmamente, “caramba, sim.”

 

OceanofPDF.com