Meu primeiro amor
Parte dois
Ce chapitre est long, il est donc découpé en 3 parties.
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26
Assim, agora, sob um céu do Colorado tão azul que feria meus olhos, tínhamos chegado à terrível verdade. A gente pode planejar a própria fuga, pode abandonar a vida e a família, e pode correr por uma rodovia de pista dupla em um carro roubado. Mas há coisas das quais nunca podemos fugir.
Coisas como o câncer. Porque ele vem junto no passeio.
Consegui chegar a um hospital depois de andar por 45 minutos na estrada em La Junta. Robinson estava deitado com a cabeça no meu colo, e eu ansiava por passar os dedos em seus cabelos e dizer que tudo ia ficar bem. Mas, como a caminhonete não tinha direção hidráulica, eu precisava das duas mãos no volante.
E eu não tinha certeza de que tudo ficaria bem, de jeito nenhum.
A pequena sala de espera do hospital estava gelada, iluminada com o tipo de luz fluorescente tão forte que faz as pessoas parecerem úmidas e cinzentas como peixes. Robinson estremeceu e se encostou em mim. Havia uma flor de sangue escuro em sua camiseta. Ele abotoou a camisa de flanela, constrangido. “Senão, parece que fui esfaqueado”, explicou.
“Não sei se isso é ruim”, eu disse. Havia outras quatro pessoas na sala de espera e, pela expressão em seus rostos, já estavam lá fazia algum tempo.
Robinson balançou a cabeça. “Eu só preciso me sentar”, disse ele com uma voz rouca.
A mulher na mesa olhou para mim com cautela quando me aproximei. Talvez ela tenha visto o medo em meus olhos, ou talvez tenha pensado que eu era uma sem-teto ou uma drogada. Pude ver meu reflexo pálido no canto de um espelho, e não dava exatamente para culpá-la.
“Posso ajudar?”, ela perguntou. Seu crachá dizia DEBBIE.
“Meu amigo está doente”, eu disse, apontando para Robinson, que estava encolhido em uma cadeira de plástico, no canto. A cena na caminhonete se repetia direto em minha mente. Foi um pesadelo.
“O médico foi chamado”, disse Debbie. Ela inspecionou meu rosto, franzindo a testa levemente. “Você precisa vê-lo também?”
“Estou absolutamente bem”, eu disse, tensa, embora tivesse a sensação de que poderia desmaiar de exaustão.
Voltei para o lado de Robinson e ficamos sentados em um canto pelo que pareceram horas. Por fim, um velho com o braço engessado se inclinou e colocou a mão boa no meu joelho.
“É sábado de manhã, querida”, afirmou. “A maioria dos médicos e outras pessoas estão pescando.”
Mordi o lábio com força. Não tínhamos médico. E, quando tivéssemos, sabia o que significaria: exames de sangue, biópsias aspirativas com agulha fina, tomografia por emissão de pósitrons… A ideia de passar por isso de novo me deu vontade de sair correndo e me esconder.
“Bem-vindo à pequena cidade de América, Axi”, disse Robinson, “onde a pista de boliche e o alojamento dos Elks têm equipes maiores do que o hospital.”
“Não se preocupe, o médico está chegando”, falei. “Ei, enquanto isso, podemos ver TV. Eu sei que você não tem recebido sua dose diária recentemente.”
Robinson concordou com a cabeça. “Se você tivesse um Slim Jim e uma caixa de Oreos, tudo estaria perfeito.”
Tentei limpar uma mancha de sangue do colarinho dele. “Você realmente precisa se alimentar melhor.”
“Nossa”, disse Robinson. “Estou no pronto-socorro por causa de Slim Jims de mais e TV de menos.” Ele me olhou maliciosamente.
Ah, se ao menos isso fosse verdade, pensei. Por apenas um momento, agarrei-me a uma esperança selvagem de que o médico lhe desse uma colher de Maalox extraforte, e então poderíamos seguir a caminho do Gateway Arch em St. Louis, ou do maior novelo de barbante do mundo. Mas eu tinha visto seu sangue, do jeito que estava escuro, quase cor de café. Eu sabia que isso significava que vinha de seu trato gastrointestinal. Onde estivera o câncer.
Onde talvez ainda estivesse.
“Por que eles precisam escolher o Home Shopping Network?”, Robinson perguntou.
Olhei para cima. Uma mulher com longas unhas vermelhas vendia estatuetas, sorrindo para a câmera com lábios brilhantes e dentes incrivelmente brancos. “Vamos lá. Não me diga que você não adorou aquele elefante de jade”, provoquei.
Por que estávamos falando sobre porcarias feitas na China? Sobre comida processada? O elefante sobre o qual precisávamos conversar era o que estava na sala: o sangue de Robinson, a doença dele, que não era uma questão de nutrição.
Por outro lado, ignorar essa verdade foi exatamente o que nos deixou chegar tão longe. Nós não ficamos sentados nos lamentando. Nós assumimos o comando; nós partimos. Rimos e dirigimos rápido demais e colocamos nossa cabeça para fora da janela e mostramos o dedo do meio para o câncer. Porque entendemos que uma pessoa pode estar morta muito antes de realmente morrer. E não importava o que o futuro nos reservasse, jamais vamos querer ser esse tipo de pessoa.
Robinson piscou sonolento. “Eu meio que gosto do elefante. Acho que jade é para dar sorte. Poderíamos usar um pouco disso.”
A voz dele estava carregada de sono. Seus olhos se fecharam, e ele apoiou a cabeça no meu ombro. Apertei seus dedos, ainda envoltos nos meus. Exatamente como ele disse, estávamos naquilo juntos.
“Vai ficar tudo bem”, sussurrei. Mas Robinson já havia adormecido e não pôde me ouvir mentir.
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A amarga ironia da minha vida foi que, dois anos depois que minha irmã, Carole Ann, morreu em uma enfermaria de oncologia pediátrica em Portland, Oregon, eu me tornei paciente na mesma ala. Reconheci todas as enfermeiras, que balançaram a cabeça em descrença. “Ambas as meninas Moore?”, elas sussurraram. “As duas?”
Se Deus, o destino ou o carma decidiram que você vai ter câncer, cruze os dedos por ser de um tipo como o meu. O linfoma de Hodgkin não é incomum, o que significa que os médicos sabem muito sobre ele e agora são muito bons em curá-lo. Esse é o copo meio cheio.
“Pois é, o copo meio cheio… de merda”, Robinson costumava dizer. Eu o vi pela primeira vez naquele lugar, e, toda vez que ele xingava, eu meio que batia no braço dele, porque não gostava disso. Mas eu gostava dele, o que tornava um pouco mais fácil estar lá.
Não me entenda mal. Mesmo um câncer altamente curável não é um passeio no parque. Sim, as paredes do hospital eram pintadas com cores bonitas, as enfermeiras usavam jalecos do ursinho Pooh e algumas das crianças mais velhas fingiam que a enfermaria era um colégio interno completo, com uniformes de vestidos azuis finos, chinelos felpudos e carecas cobertas por lenços coloridos. Mas estar lá e estar doente era uma droga.
Até o dia em que conheci Robinson. Até o dia em que ele me encontrou.
Se a vida fosse um filme, nós teríamos o que chamam de “encontro fofo”. Mais ou menos assim: eu esbarraria em Robinson enquanto carregava uma pilha gigante de revistas que peguei emprestada da sala de espera. E todos aqueles semanários bons e inúteis como Us, People e Life & Style se espalhariam pelo chão. Eu faria uma piada sobre estudar para o meu questionário de cultura pop, e ele daria risada enquanto me ajudava a arrumar a bagunça. Quando as revistas estivessem de volta em meus braços, teríamos percebido que estávamos totalmente apaixonados um pelo outro, e a alegria e o romance seguiriam pelos próximos noventa minutos.
Na vida real, foi assim: em uma névoa narcótica de uma reação negativa a um tratamento quimioterápico, eu olhava a TV, convencida de que Barney, o dinossauro roxo, estava falando diretamente comigo. Então não consegui decifrar sua mensagem, adormeci, acordei mais tarde e vi um lindo menino de cabelos escuros sentado ao lado da minha cama. Na ocasião, eu soube que tinha morrido, porque, a menos que eu tivesse sido transportada para o céu, não havia como um cara tão gato daqueles sorrir para mim.
Mas eu não estava morta. Aquele era Robinson, e ele era real. Ele me disse: “Você está uma merda. Eu me sinto uma merda. Vamos ser amigos”.
E simplesmente assim, viramos amigos. Robinson era magnético: ele era capaz de dizer que você estava horrível e você ainda o adoraria.
Robinson estava mais doente do que eu, mas não agia de acordo com isso. Ele tinha um tipo raro de linfoma não Hodgkin chamado linfoma de Burkitt. O não significa que é pior.
“Burkitt foi o médico que descobriu o câncer na África equatorial”, Robinson me informou. “Ele é muito mais comum lá.” Ele parecia quase orgulhoso de seu câncer estranho e exótico. Então sorriu. “Burkitt também elaborou toda uma teoria sobre a postura certa para cagar. Ele dizia que se você se agachar, você sabe, como um receptor de beisebol, nunca terá câncer de cólon. Sério, ninguém é capaz de inventar uma coisa dessas.”
Procurei por linfoma de Burkitt imediatamente. Para pacientes com os números de Robinson (seu câncer estava no estágio IV), a taxa de sobrevivência era de 50%.
Havia crianças na enfermaria que só precisariam amputar um pé ou remover um caroço misterioso e viveriam até os cem anos. Por que Robinson? Por que aquela doença? Mas Robinson era filosófico. Ele dizia: “Cinquenta por cento? Já vi pior.”
Todos tínhamos visto.
Uma chance de cinquenta de sobrevivência era um jogo de cara ou coroa. Então, na noite depois de saber quais eram as chances dele, sentei-me em minha cama regulável de hospital, segurei uma moeda com força na palma da mão e fechei os olhos com força. “Cara, ele vive”, eu disse. Eu nem mesmo sussurrei o que coroa significava. Joguei a moeda para o alto e, quando a peguei, tive de respirar profundamente por um longo tempo antes de poder olhar.
Saiu cara.
Não sei dizer quanto peso eu depositei naquela jogada de cara ou coroa. Eu acreditava nela com cada célula do meu corpo. Nossa sorte não acabaria . Isso era o que eu dizia a mim mesma.
Mas eram apenas palavras. Minha mãe conseguia prever a chuva pela dor surda em seu joelho. Minha cadela de quando eu era criança, Sadie, podia sentir o carteiro quando ele ainda estava a dois quarteirões de distância. Dessa forma estranha e silenciosa, eles sabiam o que estava por vir.
E, agora, eu também.
Naquele momento, na fria sala de espera, Robinson se encostou em mim. Eu podia sentir sua respiração. Imaginei que conseguia ver a pulsação fraca e preciosa de seu batimento cardíaco, vibrando sob a pele. Ele era tão lindo, tão vivo.
Mas por quanto tempo? Não precisava de um médico para me dizer o que eu já sabia. Robinson – a melhor parte de mim, meu coração, minha vida – muito possivelmente estava morrendo.
Nossa sorte não acabaria? Por favor, Axi. Tudo acaba, no final. Tudo .
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Por fim, Robinson foi internado no hospital La Junta, e uma enfermeira nos levou a um quarto particular. Ela o ajudou a se deitar, e eu pulei na cama vazia ao lado dele.
“Você vai escrever isto?”, Robinson perguntou em voz alta. “No seu diário?”
“Eu só escrevo as partes boas das nossas aventuras”, respondi.
Robinson bufou. “Você não pode escrever um livro sem um conflito.”
Eu disse: “Quem disse alguma coisa sobre um livro? Este é meu diário. É um caderno rosa que comprei na Walgreens por 2,99”.
Robinson encolheu os ombros. “Nunca se sabe…”
Por algum motivo, isso me fez rir. “Claro, vou escrever um livro”, eu disse a ele, “desde que você prometa realmente lê-lo.”
Ele ergueu o dedo mínimo. “Juro.”
Mas antes que eu pudesse me inclinar em direção a ele, uma voz ressoou da porta. “Então… o que temos aqui?” Olhamos para cima para ver um gigante barbudo vestindo um jaleco e olhando para nós.
Ele se apresentou como dr. Ellsworth, e nem mesmo perguntou o sobrenome de Robinson antes de lançar uma lista de perguntas. Robinson usava drogas? Álcool? Ele tinha viajado para fora do país recentemente? Ele já teve uma úlcera? Era alérgico a algum alimento? Havia comido espinafre durante o surto de E. coli do mês anterior?
Robinson estremeceu ao pensar em espinafre. Ele respondeu não a tudo.
Eu ainda estava surpresa com o tamanho do médico. Ele poderia ter sido um fortão de circo, mas agora estava curvado sobre o peito de Robinson, auscultando seu coração e pulmões.
Estava com o cenho franzido.
Ele apalpou a barriga de Robinson, e Robinson respirou fundo, estremecendo. Nessa hora, precisei desviar o olhar. Não suportava vê-lo sentir dor.
Depois de vários minutos, dr. Ellsworth falou. “Vou mandar que façam uma tomografia e um raio x em você. Existem… anormalidades”.
Só porque eu esperava ouvir algo assim, não significa que não tenha me tirado o fôlego. Respirei fundo quando Robinson disse: “Na verdade, se para você não faz diferença, doutor, prefiro não fazer essas coisas”.
“Você pode ser um jovem muito doente”, disse o médico.
Robinson o observou, piscando os olhos escuros. “Posso”, ele admitiu. “Mas vamos deixar por isso mesmo. Nenhuma notícia é uma boa notícia, certo? Enquanto isso, acho que estou de fato com um pouco de gripe ou coisa parecida.” Ele ofereceu o melhor sorriso que conseguiu, o que, considerando a situação, foi bastante impressionante.
“Você tem uma pneumonia ambulante”, disse o dr. Ellsworth. “E provavelmente pleurisia. Isso posso lhe dizer agora.”
“Por favor, deixe isso ser tudo o que ele tem”, sussurrei. De repente, pensei na esfera que Robinson tinha comprado para mim no Mount Shasta e a peguei do fundo da mochila. Corri os dedos sobre a superfície lisa. Era uma pedra de reflexão e um amuleto.
O médico se virou para mim. “E você?”, ele perguntou. “Precisa de algum atendimento médico que gostaria de recusar?”
Balancei a cabeça. “Estou aqui apenas para dar apoio moral”, disse.
O dr. Ellsworth caminhou até o lado da cama que eu peguei emprestada e tocou no meu pescoço. Seus dedos estavam frios. “Vejo a cicatriz bem aqui”, disse. “É de uma queimadura de radiação, não é?”
Afastei-me do toque dele, sem dizer nada. Eu não era paciente ali e não precisava responder. Não importava o que eu havia tido. Estava bem. Em remissão.
Embora, como o amigo do meu pai Critter costumava dizer, não é só porque está ensolarado hoje que a tempestade de merda não virá.
O dr. Ellsworth cruzou os braços sobre o peito enorme. “O que está havendo com vocês dois?”, ele perguntou. “De onde vocês vieram?”
Robinson e eu nos entreolhamos. Ele balançou a cabeça quase imperceptivelmente.
Falei por nós dois. “Não podemos dizer no momento.”
Dr. Ellsworth lançou olhares penetrantes a nós dois. “Isto não é um jogo. Tenho convicção de que este jovem aqui tem uma massa em seu abdômen. Um tumor. Vocês compreendem a seriedade disso?”
Robinson tentou se sentar. “Ei, Axi. Qual é a diferença entre um médico e um advogado?”
Eu conhecia essa piada, era uma das preferidas de Robinson. E fiquei apenas meio surpresa por ele a contar naquele momento. Entrando na brincadeira, respondi: “Não sei. Qual é?”.
“Um advogado vai roubar você. Um médico vai roubar e matar também.”
O dr. Ellsworth fez um som com a garganta. Uma risada sufocada? Um grunhido de aborrecimento?
“Estou tentando ajudar”, disse ele.
“Então traga uma TV”, brincou Robinson. “De preferência com canais a cabo.”
A verdade era que Robinson e eu tínhamos uma rotina definida. Nós a aperfeiçoamos nos corredores da ala de câncer de Portland. As enfermeiras nos amavam. Éramos a dupla Abbott e
Costello9 do câncer. “Ei, Robinson…”, eu disse. “Como se chama uma pessoa que fica sempre com linfoma?”
“Não sei… como?” Mas ele já estava rindo.
“Uma linfomaníaca!”, gritei.
Robinson gritou e fingiu dar um tapa na própria coxa. “Aaah, essa foi boa”, disse ele.
Dr. Ellsworth suspirou. “Se houvesse um medicamento contra humor ácido, eu o prescreveria para vocês dois.” Mas dava para ver que ele nos achava pelo menos um pouquinho engraçados.
O médico deu um passo em direção à porta. “Vou lhe dar alguns antibióticos intravenosos e incentivar que pense muito a respeito dos exames que mencionei.”
“Não gosto de exames”, disse Robinson. “Nunca vou bem neles.”
“Onde estão seus pais, meu jovem?”
Olhei para Robinson. Essa era uma pergunta cuja resposta eu também não sabia.
Robinson se virou. “Sou um adulto legal”, disse ele. “Quer conferir minha identidade?”
Dr. Ellsworth deu a Robinson mais uma longa olhada, depois balançou a cabeça e saiu da sala.
Robinson fechou os olhos. “Só vou tirar uma soneca”, ele disse. “Se você aguentar ficar sem minha companhia por um tempo.”
Eu me levantei e puxei o cobertor fino sobre ele. Não queria que ele me deixasse, nem mesmo por um minuto. “Acho que dou conta”, respondi suavemente.
Ele disse: “Você também devia fechar os olhos”.
“Não estou cansada”, eu disse, mentindo de novo. Mas sabia que não conseguiria dormir, de qualquer maneira. Precisava vigiá-lo. Para ter certeza de que ele não começaria a tossir novamente. Para ter certeza de que o sangue ficaria dentro dele, onde deveria estar. Para ver o peito dele subir e descer, subir e descer.
Sentei-me ao lado da cama. Esperava que os antibióticos fizessem sua mágica celular invisível, e rápido. E queria que Robinson precisasse apenas – para usar sua terminologia – de um pequeno ajuste. Porque não ficaríamos para seis semanas de quimioterapia em La Junta. Isso não estava nos planos.
Poucos minutos depois, olhei para cima para ver que dr. Ellsworth havia retornado. “Vamos transferir você para um quarto diferente”, disse ele. “Não quero você muito longe de um ventilador. Ou do posto de enfermagem.”
Robinson olhou para mim e ofereceu um sorriso lânguido e sonolento. “Por cautela, claro”, disse ele.
“Claro”, repeti. “Você tem apenas uma ideia de tudo o que está acontecendo.” Como se o câncer fosse contagioso, do jeito que os médicos pensavam que era. Como se não fosse mais sério do que o resfriado comum.
Não ousei olhar para o dr. Ellsworth. Já podia dizer que ele ia acrescentar louco à lista de diagnósticos de Robinson. E eu estava bem tranquila com isso.
Porque, até onde eu sabia, ninguém nunca morreu de loucura.
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À noite, Robinson foi sedado, porque sua respiração estava difícil e dolorida. Aparentemente, era a pleurisia. Ou talvez fosse a pneumonia. Eu não queria saber. Quando eles disseram coisas como “análise do fluido peritoneal” e “baixa contagem de plaquetas”, levei os dedos aos ouvidos.
Sozinha, li todas as revistas que pude encontrar: sobre golfe, pesca esportiva e boa forma na gravidez. Nenhuma trazia qualquer informação útil para mim, mas, considerando que detesto golfe, sou vegetariana e virgem, isso não chegou a ser exatamente uma surpresa.
Então vaguei pelos corredores, percebendo novamente o quanto um hospital se parece com qualquer outro. Eles têm sons parecidos (os bipes dos monitores cardíacos, o chiado das máquinas de oxigênio, o murmúrio dos visitantes). Eles servem a mesma comida (suco de uva melado e doce demais; pãezinhos encharcados e presunto rosa com aparência de plástico). Eles até têm o mesmo cheiro (odores de desinfetante, ar reciclado, corpos e o que sai deles, uma mistura que só posso descrever como lavatório ).
Por mais terrível que fosse o hospital La Junta General, uma pequena parte de mim relaxou um pouco. Ao contrário do resto de nossa jornada pelo país, a ala do hospital era um território conhecido. Um lugar em que eu sabia navegar. E acho que estava feliz por ter um teto sobre minha cabeça novamente.
Mas, como Robinson seria o primeiro a observar, não se pode ser Bonnie e Clyde em um hospital. É um filme totalmente diferente.
“Caminhando muito?”, perguntou uma das enfermeiras com um sorriso amigável quando passei pela estação pela vigésima vez.
Sorri. “Desculpe. Apenas esticando minhas pernas.”
“Não se preocupe, continue assim”, disse ela. “O exercício faz bem ao corpo.”
Parecia que ela mesma poderia se levantar para fazer um pouco de exercício, mas estava ocupada jogando paciência no computador. Noite lenta no pronto-socorro, imagino.
Virei em um novo corredor e deparei com um conjunto de portas duplas pesadas. Empurrando-as para abri-las, me vi na antessala de uma pequena capela.
Era totalmente diferente do resto do hospital branco estéril. A parede frontal era de um vermelho profundo. Havia um altar de madeira simples com velas LED tremeluzindo ao lado. No entanto, não havia nenhuma estátua de Jesus na cruz – nem Maria, Ganesh, Buda ou L. Ron Hubbard, tampouco, ou a quem quer que as pessoas orassem por ali. Havia apenas aquele vermelho, o vermelho dos namorados, do sangue. Uma música clássica soava baixinho de alto-falantes invisíveis.
Sentei-me em um banco. Meus pais me levaram à igreja umas três vezes antes de perderem o interesse em tentar silenciar Carole Ann e eu a cada dois segundos. Agora, sendo a única ali, não sabia bem o que fazer comigo mesma. Coloquei o rosto entre as mãos. Qualquer pessoa que enfiasse a cabeça pela porta acharia que eu estava rezando.
Pensei em Carole Ann e Robinson – e em mim também. Em como todos tínhamos sido afetados por forças que pareciam aterrorizantes e sobrenaturais, mas que, na verdade, eram apenas aterrorizantes e básicas. Câncer são células anormais que se dividem sem controle e invadem outros tecidos. É simples assim. Mas sempre foi um mistério: Por que diabos meu corpo está tentando me matar?
Antes de entrar em remissão, eu odiava meu corpo por me trair. E, considerando que fazia tratamento de câncer ao mesmo tempo em que subitamente ganhava seios e começava a precisar raspar as pernas e colocar absorventes gigantes na calcinha… bem, parecia que meu corpo estava piorando a situação.
Ter Robinson comigo naquela jornada significou tudo. Nós conseguíamos rir do quanto éramos fracos. Fazíamos concursos para ver quem tinha as piores feridas na boca (a químio as provoca; são horríveis). Incitávamos um ao outro a comer quando comida era a última coisa que queríamos.
Nós salvamos um ao outro, Robinson e eu. Ou, pelo menos, ele me salvou.
Mas por que eu? Por que eu estava indo tão bem quando Robinson estava tão doente? Quando Carole Ann estava morta?
O que sei sobre a doença – além do medo, da incerteza e do pesadelo que ela provoca – é que ela constrói um muro entre quem está doente e quem está bem. Na enfermaria de oncologia pediátrica, Robinson e eu estávamos do mesmo lado daquele muro. Agora, eu não conseguia suportar a ideia de qualquer barreira entre nós. Eu queria sentir o que ele estava sentindo. Queria estar com ele. Para tudo.
De certa forma, sentia como se meu corpo me traísse novamente – mas, desta vez, estava me matando por me manter bem. Sabia que não era racional. Não era como se eu quisesse ter câncer de novo… o.k.?
Fiquei olhando para as luzes bruxuleantes por um longo tempo. Como nenhum sacerdote, anjo ou epifania veio responder à minha pergunta, decidi voltar para Robinson.
Ele recebia antibióticos intravenosos para a infecção no peito. Também lhe deram morfina, porque, do contrário, o remédio doía muito ao entrar.
Robinson se virou para mim e sorriu. Suas pálpebras estavam pesadas, sua pele, pálida. “Eu já disse como você é linda?”, ele perguntou.
Endireitei a ponta de seu cobertor. “É a morfina falando”, eu disse.
Mas ainda assim corei. E torci e rezei para que fosse realmente ele falando.
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Eu estava de pé na beira do penhasco novamente, e o Robinson dos sonhos estava ao meu lado, segurando minha mão. Sabia que ele deveria me dizer algo que me tranquilizasse, mas ele estava tão calado que podia ser um fantasma.
Dei um passo à frente, prestes a mergulhar nas profundezas…
Acordei assustada.
Na escuridão, um rock suave tocava no rádio das enfermeiras, um tipo de música que Robinson gostava de dizer que era tão mortal quanto o câncer. As enfermeiras sempre riam disso.
Eu estava prestes a fechar os olhos e rolar para trás quando vi a forma ao lado da minha cama. Robinson. Ele avançou e tocou no meu ombro. Mesmo na escuridão, pude ver que ele estava de roupa, não de avental hospitalar.
“Axi?”
Eu me levantei.
“Está na hora de ir embora”, ele disse baixinho.
Ele colocou minha mochila ao pé da cama em que eu estava e estendeu a mão para me ajudar a levantar. Seus dedos estavam quentes e reconfortantes, como se fosse eu a doente. Robinson sempre foi muito cuidadoso comigo. Lembrei de quando caminhava com ele pelos longos corredores do hospital de Portland, ambos tão fracos que nos arrastávamos como octogenários.
“Octo-o quê?”, ele disse, na época.
“Octogenários. Pessoas na casa dos oitenta anos.”
Ele riu. “Oh, eu não preciso me preocupar em viver tanto tempo.”
Parei imediatamente. E aquele cara ou coroa? Não significava nada? “Do que você está falando?”, perguntei na ocasião.
Robinson sorriu. “Axi, vou ser uma estrela do rock, vou ter detonado meu corpo quando chegar aos 65 anos”, explicou. “Decibéis demais. Rock‘n’roll demais. Você vai poder ler a meu respeito nos livros algum dia. Serei o cara destruído pela música. Eu conheci esse cara, você vai dizer. Ele era legal.”
Agora, no meio da noite, no meio do nada, toquei no ombro de Robinson. “Tem certeza de que está bem?”
Vagamente, pude vê-lo sorrir. “Acho que já vi o suficiente de La Junta”, ele respondeu. “É melhor a gente seguir em frente.”
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Não me incomodei em pedir a ele que desviasse o olhar enquanto eu vestia umas roupas ligeiramente menos sujas. Por um lado, estava escuro, por outro, que segredos eu ainda guardava dele?
Além do fato de que eu o amava, obviamente. Mas talvez fosse hora de abandonar esse segredo também, se eu conseguisse ter coragem suficiente.
Robinson tinha ido até a janela, o rosto vagamente iluminado pelo brilho laranja das luzes do estacionamento. Já vestindo meus jeans e um suéter amarrotado, fui para o seu lado.
“Sabia que Câncer é a constelação mais obscura do zodíaco?”, ele perguntou.
Quando balancei a cabeça, ele apontou para o céu escuro. “Está ali. E não se parece em nada com um caranguejo.”
“Eu não sabia que você era astrônomo.”
Com o canto do olho, pude ver seu sorriso. “Axi, tenho facetas que você nem pode imaginar.”
Quase fiquei tonta quando ele disse isso. É possível que a gente ame alguém mais do que ama a própria vida e, mesmo assim, nunca venha a saber com certeza tudo o que essa pessoa está pensando? Eu queria (eu precisava) ver todas as facetas de Robinson que pudesse, enquanto pudesse.
“E a coisa louca?”, Robinson continuou. “Todas as estrelas que a gente vê lá fora são maiores e mais brilhantes do que o Sol. Elas só parecem pequenas porque estão mais distantes.” Ele ainda olhava pela janela como se uma mensagem tivesse sido escrita para ele no céu.
A mensagem está bem aqui, Robinson, eu queria dizer. Olhe para mim, e eu a direi.
Ainda assim, estava muda. Com timidez, me aproximei de lado e bati desajeitadamente nele com o quadril. Por um momento, me preocupei se o solavanco que dei nele tinha sido muito forte. Quão frágil ele estava? Mas, como ele pareceu não notar, me perguntei se deveria tentar mais uma vez. Me perguntei se deveria segurar a mão dele. Eu me perguntei se deveria agarrá-lo, jogá-lo no chão e beijar cada centímetro de seu corpo lindo e frágil.
Me aproximei de novo, e desta vez ele pareceu ter registrado a minha presença. Subitamente, estava mais ciente de mim. Ficou muito parado, com a energia parecendo ondular no ar entre nós. Prendi a respiração, e acho que ele também estava prendendo a dele.
Agora é a hora, Axi, pensei. Carpe diem.
Estendi a mão para ele e o virei para mim. “Tenho uma coisa para te dizer”, sussurrei.
“Sou todo ouvidos”, ele sussurrou de volta.
Ele esperou em silêncio, dando aos meus olhos tempo para examinar seu rosto: a testa alta, os olhos fundos, a boca carnuda.
Abri os lábios, mas não saiu nada. Eu era a escritora, a leitora… e agora, quando realmente precisava dizer as coisas que queria dizer pelo que parecia uma eternidade, as palavras me falhavam completamente.
“Está tudo bem”, Robinson disse suavemente.
O que está bem?, eu poderia ter perguntado. Nada está bem! Estamos em um hospital porque você pode estar morrendo! Quantas outras chances terei de me acovardar antes que você vá embora de repente?
Se eu não conseguia dizer nada, precisava fazer alguma coisa. Naquele instante. Ou talvez nunca chegasse a sentir a sensação dos lábios dele tocando os meus.
Eu não poderia viver sem isso.
E foi só isso. Passei os braços em volta do seu pescoço e cheguei com o rosto tão perto do dele que seu queixo sem barbear fez cócegas na minha pele. E então… eu o beijei.
Quando nossos lábios se encontraram, em uma onda de calor e suavidade, a eletricidade inundou meu corpo. Tive certeza de que comecei a brilhar. Que eu estava cheia de luz das estrelas.
Finalmente. Era por isso que eu ansiava. E da maneira como a respiração de Robinson instantaneamente se fundiu com a minha… eu senti de maneira absoluta como se ele também ansiasse por isso.
Por que diabos esperamos tanto?
Os braços de Robinson se apertaram em volta da minha cintura, e suas mãos encontraram o caminho para os meus cabelos. Ele deixou um pequeno gemido escapar da garganta, e então me beijou com força total, como se nunca tivesse ficado doente e nunca fosse ficar novamente… como se ele estivesse mais vivo do que nunca.
E eu também.
Depois de um minuto ou uma hora, nos separamos, sem fôlego. Minhas bochechas estavam queimando e todo o meu corpo parecia vibrar. Como se estivesse cantando.
No início, os olhos de Robinson pareciam tão solenes que minha respiração ficou presa na garganta. Então, como uma luz piscando na escuridão, veio o sorriso pelo que eu tanto esperava, aquele sorriso torto cheio de vida.
“Eu te amo, Axi Moore”, ele sussurrou. “O que mais eu posso dizer?”
Eu balancei minha cabeça e sorri, os olhos brilhando. Eu ainda estava tão emocionada que não conseguia dizer uma palavra sequer.
Se assim era a vida sem palavras, uma vida de fazer, não apenas falar, talvez eu estivesse disposta a desistir delas para sempre.
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Estava na hora de ir. Corremos pela escuridão, o braço de Robinson em volta dos meus ombros. Era como um abraço – como se agora que finalmente tínhamos nos tocado não conseguíssemos nos separar um do outro –, mas também era ele me usando para se manter de pé.
Eu ainda estava ardendo. Me sentia mais brilhante do que qualquer estrela.
Beijar Robinson foi como chegar ao fim do deserto e encontrar uma fonte. Foi como sentir o sol depois de anos de inverno. Foi como Natal em junho. Foi… ah, qual é, por que me preocupar com frases poéticas idiotas?
O que eu sentia era alegria.
Alegria que varreu totalmente a ansiedade de fugir de um hospital contra a recomendação médica. Minha lista de feitos rebeldes estava crescendo a cada segundo.
Na entrada do estacionamento, Robinson se inclinou e me deu outro beijo profundo. Então se afastou, sorrindo. “De repente, sinto que posso fazer qualquer coisa”, disse ele.
Eu me sentia exatamente da mesma maneira. Tudo ia ficar bem. Ou até melhor do que bem. Mágico. “Apenas me diga que qualquer coisa não inclui pegar um carro diferente”, eu disse, pressionando minha mão contra sua bochecha áspera. “Já temos empolgação suficiente.”
Robinson me beijou de novo, os lábios suaves, mas urgentes. Nesse ritmo, jamais sairíamos do estacionamento. E talvez nem me importasse, contanto que isso continuasse acontecendo.
“Eu jamais abandonaria Janete, a Caminhonete", disse Robinson depois de um tempo. “Ele precisa ver Detroit.”
Soltei uma gargalhada. Claramente, os beijos estavam bagunçando um pouco minha cabeça. “Janete, a Caminhonete?”
“Sim, senhora”, disse Robinson. “Primo de segundo grau de Charley, a Harley.”
Ele riu da própria piada e subiu na caminhonete. Ligou o motor, acelerando algumas vezes para aquecê-lo. Então, por algum motivo, deslizou para o banco do passageiro, onde eu estava prestes a me sentar.
Parei de rir. “Ahn, Robinson?”, perguntei, olhando o espaço vazio atrás do volante.
Ele se apoiou no encosto de cabeça. “Sim, eu sei que disse que sentia que era capaz de fazer qualquer coisa… mas acho que provavelmente é melhor você dirigir agora.”
Notei sua voz rouca de novo, e ele estava com a mão no peito, como se estivesse com dificuldade para respirar.
“Então devemos dar meia-volta e voltar para o hospital!”, insisti. “Detroit ainda estará lá em alguns dias.”
Robinson balançou a cabeça. “De jeito nenhum, Axi. Não tenho mais o que fazer naquele lugar.”
“Mas e se o lugar ainda tem o que fazer com você?”
Ele deu um tapinha no assento. “Venha aqui, Axi. Sente-se ao meu lado.”
Fui até o outro lado e subi no banco alto da caminhonete. Robinson colocou o braço em volta dos meus ombros, e eu enterrei o rosto em sua camisa de flanela. Cheirava a hospital, mas, por baixo disso, a ele. A sabonete, pinho e garoto.
Claro que eu queria ir embora. Eu queria ficar sozinha com Robinson novamente. Queria mais daquilo que começamos a fazer no hospital. Muito mais.
Mas seria um erro?
Quando Robinson falou novamente, sua voz parecia mais forte. Também parecia que ele estava lendo meus pensamentos. “Quem se importa se sair daqui é um erro? Eu cometeria esse erro novamente, um milhão de vezes”, ele insistiu. “Nós estamos juntos. É isso que importa. Eu quero fazer essa viagem com você. Isso é tudo o que eu quero. É tudo o que preciso. Não vou ser irradiado, escaneado, biopsiado ou o que quer que desejem fazer comigo.”
Falei voltada para a camisa, porque não queria me afastar dele, nem mesmo um único milímetro. “Mas e se for uma sentença de morte? Recusar o tratamento agora?”, sussurrei.
Robinson bufou. “Um hospital é uma sentença de morte. Você pode cortar o dedo, pegar uma infecção por estafilococos e, quando se der conta, comer a grama pela raiz. Ir embora agora, Axi, é escolher a vida.”
Eu podia ouvir as batidas rápidas de seu coração. “Mas e se for uma vida mais curta?”
Ele encolheu os ombros. “Bem, como Kurt Cobain disse: ‘É melhor queimar de vez do que se apagar aos poucos’. Embora, na verdade, ele estivesse citando uma música de Neil Young.”
Eu me sentei de repente. O que diabos eu ia fazer com aquela pessoa irritante? “Devo lembrar que Cobain usou isso em sua carta de suicídio ?”
“Bem, você tem de admitir que ele tinha razão, BM”, disse Robinson suavemente.
Fechei os olhos e respirei fundo, acalmando a mim mesma. Robinson estendeu a mão e deslizou os dedos entre os meus, tentando me tranquilizar.
E se fazer o que você quer e fazer o que é certo forem duas coisas completamente diferentes? E se, ao viver a vida que escolheu, você de alguma forma condenasse a si mesmo – ou pior, a alguém que você ama?
Depois de um minuto, abri os olhos. Não podíamos saber o futuro ou quanto tempo ele duraria. Só podíamos escolher ser felizes e estar vivos agora.
“Está bem, está bem, você venceu, Robinson”, eu disse. “Mas com as seguintes condições.” Levantei dois dedos. “Um: não me chame de BM, lembra? Dois: você não tem permissão para morrer. Está me ouvindo?”
Robinson sorriu e fez uma reverência. “Sim, senhora”, disse ele. “De acordo. Câmbio. Et cetera.”
Apertamos as mãos, como se fosse simples assim.
Então cerrei os dentes e comecei a dirigir.
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33
Robinson adormeceu quase imediatamente. Por mim, tudo bem, porque eu precisava de foco completo e total em minha nova tarefa: pilotar uma armadilha de morte e desmembramento através do país.
Porque, para sua informação, os acidentes de carro matam muito mais crianças e adolescentes do que o câncer. Essas cruzes que a gente vê na beira da estrada, aquelas pequenas e brancas penduradas com flores de seda murchando? São para pessoas da minha idade. (“Pessoas que estavam enviando mensagens de texto”, meu pai gostava de me lembrar, porque ele nunca culparia a Budweiser por nada.)
Consegui não me tornar uma estatística de rodovia naquela madrugada, mas houve… alguns problemas ocasionais. Por exemplo, entrei em um posto Texaco para abastecer, mas não sabia como operar a bomba, e Robinson estava dormindo tão profundamente que não consegui acordá-lo. Depois de implorar a um velho simpático que me ajudasse a encher o tanque, voltei para a estrada e segui na direção errada. Por quase cinquenta quilômetros.
Depois de dar meia-volta, tentei ligar o rádio baixinho. Como ele quase não funcionava, desliguei e fiquei apenas com meus pensamentos:
Nunca soube quão grande são os Estados Unidos. Onde fica a Starbucks mais próxima?
Por que meu pai ainda não me procurou?
Os quilômetros passavam, monótonos, mas enervantes. No fim, comecei a falar em voz alta para me fazer companhia.
“Não me leve a mal”, eu disse, embora soubesse que Robinson ainda estava na terra dos sonhos, “mas acho que nunca acreditei que chegaríamos tão longe. Tipo, meu pai não chamaria a polícia quando acordasse e descobrisse que eu tinha sumido? Ou ao menos ligaria para Critter? Esse cara é um cão de caça humano.”
Critter tinha encontrado até o diamante que caíra do anel de noivado da minha mãe. Em um rio. Não que ter o diamante de volta a tenha incentivado a ficar por perto.
“Obviamente, não estou dizendo que quero ser pega. Eu quero continuar. Mas me pergunto se não tivemos sorte demais até agora. Ou há uma certa quantidade de… desinteresse da parte do meu pai em relação à localização da filha que lhe restou?”
Tomei um gole do café frio de uma parada de caminhões. Foi bom falar sobre aquilo, mesmo que – ou especialmente porque – Robinson não estivesse ouvindo.
“E aí está você”, eu disse para a silhueta adormecida de Robinson. “Onde estão seus pais? Eles não estão preocupados com você? Eles têm alguma ideia de onde você está?”
Quando conheci Robinson na enfermaria de oncologia, ele ignorou todas as conversas sobre sua família. Nenhum pai de olhos tristes se sentou com ele enquanto ele fazia quimioterapia; nenhuma mãe chorosa segurou sua mão enquanto ele era bombardeado com partículas radioativas.
Ele estava, pelo que o resto de nós podia ver, 100% sozinho.
Por outro lado, ninguém era mais popular. Robinson era capaz de transformar um entregador da Domino’s em seu novo melhor amigo em cinco minutos. Uma vez, ouvi duas enfermeiras conversando sobre como queriam adotá-lo. E é claro que ele podia escolher garotas, dentro ou fora da enfermaria. Ele era magnético.
De todos que estavam lá, ele escolheu a mim. Eu era sua família.
Quando recebemos alta, Robinson me seguiu até Klamath Falls. “Precisamos ficar juntos, Axi”, ele disse. “Além disso, eu tenho um tio lá. Ele diz que posso morar no porão dele.”
Eu não o questionei. Tudo o que me importava era não dizer adeus.
Percebia agora o quanto ele havia deixado para trás ao longo de sua vida: os pais, o tio, os médicos que queriam tratá-lo. Era como se ele tivesse fugido de todos, menos de mim.
“Eu sou o suficiente, Robinson?” Me ouvi perguntando. “Posso realmente ser tudo de que você precisa?”
Ele se mexeu em seu sono, esticando as longas pernas. Mas não acordou para responder a essa pergunta crítica.
“Eu me pergunto”, continuei, “se é possível ir tão longe até que eu pare de ter medo de nunca mais voltarmos.” Mordi o lábio por um tempo, depois bebi um pouco mais de café amargo. “Eu achava que tinha considerado os riscos. Que tinha tudo planejado. Mas eu não esperava que você ficasse doente.”
Olhei furtivamente para ele. Seus cílios faziam uma curva escura contra a bochecha pálida, e a mão esquerda se contraiu, movendo-se em um sonho.
Havia outra coisa com a qual eu não contava. E isso foi me apaixonar, tão rápida e irrevogavelmente como se caísse de um penhasco, e perceber que amar alguém pode significar ao mesmo tempo querer esmurrá-lo e abraçá-lo, e possivelmente ter de vê-lo morrer… Eu não tinha contado com isso.
Estendi a mão e toquei na bochecha dele. “Eu amo você”, sussurrei. “Por favor, fique comigo.”
No sono, Robinson se virou e suspirou.
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34
Robinson e eu ficamos de pé, com os dedos entrelaçados, olhando para as ruínas: prédios despedaçados, casas queimadas, calçadas cheias de lixo e o esqueleto de uma velha fábrica da Ford.
“Bem-vinda a Detroit”, disse Robinson alegremente. Ele se sentia muito melhor hoje, e eu esperava que nossa localização não tivesse nada a ver com isso. “Motor City. Motown. Eu poderia ter ficado preso crescendo aqui, se meus pais não tivessem ido embora.”
“Provavelmente era um pouco mais legal quando eles cresceram aqui, não?”, comentei, o tempo todo esperando que não fosse simbólico que o primeiro lugar que Robinson e eu visitamos juntos como casal (porque era o que éramos agora, certo?) estava em ruínas.
Com a ponta da bota, Robinson lançou uma lata vazia de Red Bull no ar de verão. “Sim, provavelmente era.”
Tirei uma foto de um sofá mofado com um bando de pombos empoleirados nele. À nossa esquerda, uma árvore crescia na lateral de um prédio.
“Acho que poderia ser lindo, de alguma maneira, se você gostasse de decadência romântica, ou de steampunk, ou desse tipo de coisa”, eu disse. “Ou talvez devêssemos imaginar a cidade como o Partenon na Grécia. Um monte de grandes ruínas antigas.”
Robinson balançou a cabeça pensativamente. “Aquela velha fábrica da Ford foi onde minha avó e meu avô se conheceram e se apaixonaram”, disse. “Na linha de montagem.” Ele gesticulou vagamente em outra direção. “E naquela direção ficava a fábrica da Chrysler, onde minha mãe e meu pai fizeram a mesma coisa.”
Eu me abaixei e arranquei um dente-de-leão de uma rachadura na calçada. “Então acho que aqui costumava ser um lugar muito romântico”, eu disse.
Robinson estava quieto, olhando para a desolação. Pensando, talvez, em sua família, onde quer que estivessem. Em seguida, fui pega completamente de surpresa quando ele me girou em sua direção. Ele me segurou por um momento, os braços me apertando. E então se abaixou e me beijou, longa e profundamente, até que eu senti aquele amolecimento familiar por dentro, as pernas ficando bambas. Como se caso ele não continuasse me segurando, eu pudesse me dissolver.
Quando se afastou, ele sorriu. “O que você quer dizer com costumava ser ?”
Mantive os braços em volta da cintura dele. Queria estar o mais perto possível, pelo maior tempo possível. “Me corrijo”, eu disse, olhando para ele, iluminado pelo sol, com as pontas dos cabelos escuros parecendo pegar fogo. “Duas gerações de sua família se apaixonaram aqui. Isso é incrível.” Pensamento: agora três.
Ele assentiu com a cabeça, mas parou por aí. Estava novamente com aquela expressão distante no olhar.
“Acho que sua obsessão por carros veio naturalmente, então”, eu continuei. Queria que ele continuasse falando, porque sempre foi tão calado em relação à família, sobre a qual eu não sabia quase nada.
“Meu pai sempre disse que seu primeiro bebê foi o Mustang 1967”, disse Robinson.
“Então você cresceu aqui?”, perguntei.
Robinson começou a assobiar aquela música de Su an Stevens sobre Detroit.
Eu o cutuquei nas costelas. “Sério, você não vai responder? Você me diz que me ama, mas não quer me dizer onde nasceu?” Eu ria, mas também estava um pouco ofendida.
Quando Robinson olhou para mim novamente, tinha o rosto turvo. “Eu simplesmente não tenho… contato próximo com meus pais atualmente. Fico triste em pensar neles. Então tento não pensar.”
Considerando que ele já havia passado por muitas dificuldades ultimamente, decidi não insistir no assunto. “Apenas me dê uma cidade natal.”
Robinson sorriu. “Você e suas palavras bonitas. Cidade natal. Mundo, eu pergunto: quem fala cidade natal além de Alexandra Jane Moore?”
Eu o cutuquei nas costelas novamente. Não havia ninguém além de pombos para responder.
“Não, eu não nasci aqui”, Robinson disse finalmente. “A Chrysler transferiu a fábrica antes de eu nascer. Meus pais foram para a Carolina do Norte, e foi onde eu surgi. Meu pai trabalhou para uma empresa siderúrgica por um tempo e depois abriu sua própria oficina mecânica.” Robinson começou a assobiar outra música que não reconheci, encerrando nossa conversa.
Suspirei. “Nesse ritmo, vou levar cinquenta anos para aprender sobre a sua infância.”
Ele estendeu a mão e tocou minha bochecha com a ponta dos dedos. “Ah, cara de Axi, quem se importa com o passado? Temos o agora.”
“Cara de Axi?”, repeti. Peguei a mão dele e trouxe seus dedos aos meus lábios. Sorrindo, eu os beijei nas pontas, um após o outro.
Ele assentiu. “É novo. Gostou?”
“Vou ter que pensar um pouco antes de responder.” A verdade é que eu gostaria de qualquer apelido que ele inventasse para mim. Mas não iria admitir.
Por um tempo, ficamos ali parados, em silêncio um com o outro, os dedos se tocando levemente. Observamos os pássaros voando acima e as nuvens se movendo. Pensei então que a Terra poderia estar coberta de lixo e destroços, mas sempre seria possível encontrar algo que parecesse limpo e perfeito. Talvez fosse uma metáfora para alguma coisa.
Depois de um tempo, inclinei-me para dar um beijo carinhoso em Robinson. Ele segurou meu rosto com as mãos. “Então”, ele disse, “posso te pagar o jantar ou o quê?”
Sorri. “Isso faz com que seja um encontro?”
Sorrindo de volta, ele encolheu os ombros. “Depende. Vou passar da primeira base?”
“Porco”, eu disse rindo. “Porco!” repeti. “Falando nisso, vamos comer.”
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35
Tocamos Motown no carro – Diana Ross, Stevie Wonder – enquanto dirigíamos para o centro. Robinson cantarolava e batia os dedos no painel, acompanhando as batidas da bateria e adicionando seus próprios floreios.
Encontramos um restaurante cheio de luzes de Natal e banquetas de veludo laranja, as paredes decoradas com instrumentos modernos e dezenas de fotos em preto e branco de Detroit em seu apogeu dos velhos tempos. Alguém tocava piano em um canto, bem alto, e o lugar estava lotado.
“Parece um misto de bar da lei seca com um TGI Friday’s”, eu disse, enquanto nos sentávamos.
“Ou, tipo, se Liberace fosse um gângster, e esta fosse a sala de estar dele.”
“Ou é o ponto de encontro de um cafetão que gosta de jazz e antiguidades”, acrescentei.
Robinson sorriu. “É incrível.”
Encontramos uma mesa no canto, e o garçom se aproximou e colocou sobre a mesa dois copinhos cheios de um líquido transparente. “Moonshine húngaro”, disse ele, a título de saudação. “É aniversário do Ed.” Ele parecia acreditar que nós sabíamos quem era Ed. “Voltarei para anotar o pedido em um minuto.”
Robinson e eu olhamos para os copos e depois um para o outro. “Devemos?”, perguntei.
Ele fingiu estar decepcionado. “Eu tenho tantas identidades falsas. Realmente queria a chance de usar outra.”