1974
Capítulo 11
Nós pulávam os num rio, de m ãos dadas.
A água estava fria.
Eu soltei sua m ão.
Abri os olhos.
Aquilo tinha gosto de m anhã.
Eu estava deitado ao lado da estrada, sob a chuva, e Paula estava m orta.
Eu m e sentei, com a cabeça quebrada, o corpo dorm ente.
Um hom em saía de um carro parado um pouco adiante.
Olhei para os cam pos m arrons e vazios e tentei m e levantar.
O hom em veio correndo na m inha direção.
— Eu quase te m atei!
— Onde estou?
— O que aconteceu com você?
Um a m ulher estava de pé na porta do passageiro, olhando para nós.
— Um acidente. Onde estou?
— Doncaster Road. Você quer que a gente cham e um a am bulância ou algo parecido?
— Não.
— A polícia?
— Não.
— Você não parece estar nada bem .
— Pode m e dar um a carona?
O hom em olhou para a m ulher de pé ao lado do carro.
— Para onde?
— Conhece o Redbeck Café, no cam inho para Wakefield?
— Sim — ele disse, olhando para m im , depois novam ente para o carro. — Tudo bem .
— Obrigado.
E cam inham os lentam ente em direção ao carro.
Eu entrei na parte de trás.
A m ulher estava sentada na frente, olhando para a frente. Seus cabelos eram loiros, parecidos com os de Paula, porém m ais com pridos.
— Ele sofreu um acidente. Vam os levá-lo m ais à frente — disse o hom em à m ulher, ligando o carro.
O relógio do carro m arcava seis horas.
— Desculpe — eu disse. — Que dia é hoj e?
— Segunda-feira — disse a m ulher, sem olhar para trás.
Eu olhei para os cam pos m arrons e vazios.
Segunda-feira, 23 de dezem bro de 1974.
— Então am anhã é véspera de Natal?
— É — ela respondeu.
O hom em m e olhava pelo retrovisor.
Eu olhei para os cam pos m arrons e vazios.
— Aqui? — perguntou o hom em , parando na frente do Redbeck.
— Sim . Obrigado.
— Tem certeza de que não quer ir a um m édico ou algo parecido?
— Sim , tenho certeza. Obrigado — respondi, saindo do carro.
— Adeus, então — disse o hom em .
— Adeus, e m uito obrigado — eu disse, fechando a porta.
A m ulher continuava olhando para a frente enquanto se afastavam .
Atravessei o estacionam ento, driblando as poças de lam a com água de chuva e óleo, seguindo em direção aos quartos do hotel.
A porta do quarto 27 estava com um a fresta aberta.
Eu fiquei de pé, ouvindo.
Silêncio.
Abri a porta.
O sargento Fraser, de uniform e, dorm ia em m eio a papéis e pastas, fitas e fotografias.
Eu fechei a porta.
Ele abriu os olhos, olhou para cim a e se levantou.
— Porra — ele disse, olhando para o relógio.
— Eu sei.
Ele olhou para m im .
— Porra.
— Eu sei.
Ele foi à pia e deixou a água correr.
— É m elhor você se sentar — ele disse, afastando-se da pia e chegando à base da cam a.
Contornei os papéis e pastas, fotos e m apas, e m e sentei na ponta da cam a.
— O que você está fazendo aqui?
— Vou ser afastado.
— O que você fez?
— Te conheci.
— E daí?
— E daí que não quero ser afastado.
Eu ouvia a chuva caindo com força lá fora, cam inhões dando ré e estacionando, cam inhoneiros correndo em busca de cobertura.
— Com o veio parar aqui?
— Sou policial.
— Sério? — perguntei, segurando m inha cabeça.
— Ah, sério — ele respondeu, tirando o paletó e subindo as m angas da cam isa.
— Você j á esteve aqui antes?
— Não. Por quê?
— Por nada — respondi.
Fraser m olhou na pia a única toalha que havia por ali e atirou-a em cim a de m im .
Eu coloquei-a no m eu rosto, passei-a pelos m eus cabelos.
Ela saiu suj a.
— Eu não fiz isso.
— Não perguntei.
Fraser pegou um lençol cinza e com eçou a rasgar tiras.
— Por que m e deixaram ir em bora?
— Não sei.
O quarto estava ficando preto, a cam isa de Fraser, cinza.
Eu m e levantei.
— Senta.
— Foi Foster, não foi?
— Senta.
— Foi Don Foster, eu sei, porra.
— Eddie...
— Eles sabem disso, não?
— Por que Foster?
— Porque ele está ligado a tudo isso.
— Você acha que Foster m atou Clare Kem play ?
— Acho.
— Por quê?
— Por que não?
— Merda. E Jeanette Garland e Susan Ridy ard?
— Tam bém .
— E Mandy Wy m er e Paula Garland?
— Tam bém .
— Então por que pararia? E Sandra Rivett? Talvez não tenha sido Lucan, no final das contas, m as sim Don Foster. E a bom ba em Birm ingham ?
— Vai se foder. Ela está m orta. Todos estão m ortos.
— Mas por quê? Por que Don Foster? Você não m e deu nenhum a razão.
Eu m e sentei na cam a, com a cabeça entre as m ãos, o quarto preto, nada fazia sentido.
Fraser m e ofereceu duas tiras de lençol cinza.
Am arrei as tiras na m inha m ão direita, com força.
— Eles eram am antes.
— E daí?
— Eu preciso vê-lo.
— Você vai acusá-lo?
— Preciso conversar com ele sobre algum as coisas. Coisas que só ele sabe.
Fraser pegou seu paletó.
— Vou te levar.
— Você será afastado.
— Eu j á te disse, vou ser afastado de qualquer m aneira.
— Me dá as chaves, só isso.
— Por que eu te daria?
— Porque você é tudo o que eu tenho.
— Então você está fodido.
— Sim . Mas deixa eu resolver sozinho.
Ele parecia a ponto de vom itar, m as atirou as chaves para m im .
— Obrigado.
— Não fale nada sobre isso.
Fui até a pia e lim pei o sangue do rosto.
— Você viu BJ? — perguntei.
— Não.
— Não foi ao apartam ento?
— Fui ao apartam ento.
— E?
— Ele foi em bora ou sabe Deus o quê.
Ouvi cães latindo e hom ens gritando.
— Eu deveria ligar para m inha m ãe.
O sargento Fraser olhou para cim a.
— O quê?
Eu estava de pé na porta, com as chaves na m ão.
— Que carro é?
— O Maxi am arelo — ele disse.
Eu abri a porta.
— Tchau, então.
— Tchau.
— Obrigado — falei com o se nunca m ais fosse vê-lo.
Fechei a porta do quarto 27 e segui em direção ao estacionam ento, em direção ao Maxi am arelo estacionado entre dois cam inhões Findus.
Ao sair do Redbeck Café liguei o rádio. O IRA explodira a Harrods, o senhor Heath não fora atingido por m inutos, Aston Martin explodiu, Lucan fora visto na Rodésia, e havia um novo Masterm ind.
Eram quase oito, e eu estacionei ao lado dos altos m uros da Trinity View.
Saí do carro e cam inhei em direção aos portões.
Estavam abertos, as luzes brancas na árvore ainda acesas.
Eu olhei para a entrada.
— Merda — disse em voz alta, correndo em direção à casa.
Logo acim a, um Rover atingira a traseira de um Jaguar.
Eu atravessei o gram ado, escorregando no orvalho gelado.
A senhora Foster, num casaco de pele, estava curvada sobre algo na porta da frente.
Ela gritava.
Eu a agarrei, passando os braços sobre ela.
Ela gritava em todas as direções, com toda a força que podia. Eu tentava puxá-la. Para dentro de casa, para qualquer lugar.
Quando olhei para ele, olhei bem :
Gordo e branco, am arrado com um cabo preto que corria de seu pescoço e prendia suas m ãos às costas, vestindo um m acacão branco surrado, com os cabelos raspados, com a nuca verm elha.
— Não, não, não! — gritava a senhora Foster.
Os olhos de seu m arido estavam arregalados.
A senhora Foster, com o casaco de pele encharcado pela chuva, correu novam ente em direção ao corpo.
Eu a agarrei com força, ainda olhando para Donald Foster, para suas pernas brancas e gordas cheias de lam a, para seus j oelhos cheios de sangue, para as queim aduras triangulares nas suas costas, para sua cabeça.
— Entre! — eu gritei, agarrando-a com força, puxando-a pela porta da frente.
— Não, cubra-o.
— Senhora Foster, por favor...
— Por favor, cubra-o! — ela gritava, atirando seu casaco.
Estávam os dentro da casa, ao pé da escadaria.
Eu a puxei em direção ao prim eiro degrau.
— Espere aqui.
Peguei o casaco de pele e fui para o lado de fora.
Atirei o casaco sobre Donald Foster.
E voltei a entrar.
A senhora Foster continuava no prim eiro degrau.
Eu servi duas doses de uísque de um decantador de cristal que havia na sala de estar.
— Onde você estava? — ofereci um a boa dose de uísque para ela.
— Com Johnny.
— Onde está Johnny ?
— Não sei.
— Quem fez isso?
Ela ergueu os olhos.
— Não sei.
— Johnny ?
— Meu Deus, não!
— Quem , então?
— Eu j á disse, não sei.
— Em quem vocês bateram naquela noite na Dewsbury Road?
— Por que quer saber isso?
— Diga!
— Quero que m e diga por que isso im porta agora.
Caindo, agarrando, prendendo. Com o se os m ortos estivessem vivos, e os vivos m ortos, dizendo:
— Porque eu acho que eles m ataram Clare Kem play, e sej a lá quem tenha m atado Clare, m atou tam bém Susan Ridy ard, e sej a lá quem tenha sido, m atou tam bém Jeanette Garland.
— Jeanette Garland?
— É.
Ela arregalou os olhos de repente, e eu fiquei encarando aqueles olhos de panda, cheios de lágrim as e segredos, segredos que ela não podia conter.
Apontei para o lado de fora.
— Foi ele?
— Não, claro que não.
— Quem foi, então?
— Não sei. — Sua boca e m ãos trem iam .
— Sabe, sim .
O copo estava solto em suas m ãos, deixando cair uísque no vestido e na escada.
— Não sei.
— Sabe, sim — eu disse, olhando para o corpo de seu m arido, que surgia no vão da porta com aquela enorm e e m aldita árvore de Natal. — Diga!
— Não toque nela, porra!
Johnny Kelly estava de pé no topo da escadaria, coberto de sangue e lam a, com um m artelo na m ão.
Patricia Foster, parecendo distante de tudo aquilo, nem se m oveu.
Eu segui para a porta.
— Você o m atou?
— Ele m atou Paula e Jeanette.
Queria que ele estivesse com a razão, m as sabia que não estava. E disse:
— Não, ele não m atou.
— O que você sabe sobre isso? — Kelly descia a escada.
— Você o m atou?
Ele continuava descendo, olhando diretam ente para m im , com lágrim as nos olhos e bochechas, e um m artelo na m ão.
Eu dei outro passo para trás, vendo aquelas lágrim as.
— Você sabe que ele não fez isso.
Ele continuou se aproxim ando, as lágrim as tam bém .
— Johnny, eu sei que você fez coisas ruins, coisas terríveis, m as sei que você não fez isso.
Ele parou no sopé da escadaria, com o m artelo a centím etros dos cabelos da senhora Foster.
Eu cam inhei em sua direção.
Ele deixou cair o m artelo.
Eu m e aproxim ei e peguei o m artelo, lim pando-o com um lenço cinza e suj o, com o faziam os caras de Koj ak.
Kelly olhava para ela.
Eu deixei o m artelo cair.
Ele acariciou seus cabelos, m isturando aquele sangue, que era de outra pessoa, em seus cachos.
Ela não se m ovia.
Eu m e afastei.
Não queria saber de m ais nada. Queria com prar drogas, bebida, e sum ir dali.
Ele m e encarou e disse:
— Melhor você dar o fora daqui.
Mas eu não podia.
— E você tam bém — eu disse.
— Eles vão te m atar.
— Johnny — eu disse, agarrando seu om bro. — Em quem vocês bateram na Dewsbury Road?
— Eles vão te m atar, você será o próxim o.
— Em quem ? — perguntei, colocando-o literalm ente contra a parede.
Ele não disse nada.
— Você sabe quem fez isso, não sabe? Você sabe quem m atou Jeanette e as outras duas.
Ele apontou para fora da casa:
— Ele.
Atingi Kelly com força.
O astro da liga de rúgbi caiu.
— Merda.
— Não. Você estragou tudo.
Eu estava curvado sobre ele, tentando fazer com que revelasse seus m alditos segredos.
Ele estava deitado no chão, aos pés dela, olhando para cim a, com o se tivesse apenas dez anos, e a senhora Foster balançava o corpo para a frente e para trás, com o se tudo aquilo estivesse acontecendo na televisão de alguém .
— Diga!
— Foi ele — m urm urou Kelly.
— Você é um m entiroso — eu disse, pegando o m artelo que estava logo atrás de m im .
Kelly escapou entre m inhas pernas, seguindo um a trilha de uísque até a porta de entrada.
— Você gostaria que fosse ele.
— Não.
Agarrei o colarinho dele, m ovendo seu rosto em direção ao m eu.
— Você queria que fosse ele. Queria que fosse fácil.
— Foi ele, foi ele.
— Não foi, você sabe que não foi.
— Não.
— Você quer um a m aldita vingança, m e diga quem foi, quem fez aquilo naquela m aldita noite.
— Não, não, não.
— Você não vai fazer nada quanto a isso. Então m e diga, ou eu esm ago essa sua cabeça de m erda.
Ele afastava m inha cabeça com as m ãos.
— Está tudo acabado.
— Você queria que fosse ele, para term inar logo com isso. Mas você sabe que não term inou — gritei, atirando o m artelo na escadaria.
Ela soluçava.
Ele soluçava.
Eu soluçava.
— Isso não vai term inar até você m e contar em quem vocês bateram .
— Não!
— Não term inou.
— Não!
— Não term inou.
— Não!
— Isso não term inou, Johnny.
Ele soluçava, entre lágrim as e ódio.
— Term inou, sim .
— Diga, seu m erda.
— Não posso.
Eu vi a lua durante o dia, o sol à noite, eu fodendo com ela, ela fodendo com ele, o rosto de Jeanette em todos os corpos.
Agarrei Kelly pela garganta e cabelos, com o m artelo na m inha m ão enfaixada.
— Você transou com sua irm ã.
— Não.
— Você era o m aldito pai de Jeanette, certo?
— Não!
— Você era o pai de Jeanette.
Os lábios de Kelly se m oviam , saía sangue deles.
Eu m e aproxim ei do seu rosto.
Atrás de m im , ela disse:
— George Marsh.
Eu girei o corpo, agarrando-a e aproxim ando-a de nós dois.
— Repete.
— George Marsh — ela m urm urou.
— O que tem ele?
— Na Dewsbury Road. Era George Marsh.
— George Marsh?
— Um dos capatazes de Donny.
“Debaixo desses lindos novos carpetes. Sobre a gram a que cresce entre as rachaduras e pedras.”
— Onde ele está?
— Não sei.
Eu soltei os dois e ergui o corpo. O hall, de repente, parecia m uito m aior e m ais ilum inado.
Fechei os olhos.
Ouvi o barulho do m artelo caindo no chão, os dentes de Kelly trincando, depois tudo ficou pequeno e escuro m ais um a vez.
Fui ao telefone e peguei a lista telefônica. Procurei senhor e senhora Marsh e encontrei G. Marsh. Havia um em Netherton, no núm ero 16 da Maple Well Drive. O telefone era 3657. Fechei a lista.
Peguei um a agenda telefônica e procurei.
George 3657, ali estava, com caneta-tinteiro.
Bingo.
Fechei a agenda.
Johnny Kelly tinha a cabeça entre as m ãos.
A senhora Foster olhava para m im .
“Debaixo dessas lindas novas casas. Entre as rachaduras e pedras.”
— Há quanto tem po você sabe?
Aqueles olhos de águia estavam de volta:
— Eu não sabia — ela respondeu.
— Mentirosa.
A senhora Patricia Foster engoliu em seco.
— E quanto a nós?
— O quê?
— O que você vai fazer com a gente?
— Vou rezar para que Deus desculpe a m erda que fizeram .
Cam inhei em direção à porta de entrada e o corpo de Donald Foster.
— Aonde vai?
— Term inar tudo isso.
Johnny Kelly ergueu os olhos, com im pressões digitais sangrentas pelo rosto.
— É tarde dem ais.
Deixei a porta aberta.
“Debaixo desses lindos novos carpetes, entre as rachaduras e pedras.”
Segui com o Maxi de Fraser de volta a Wakefield, passando por Horbury, e a chuva voltou a cair com força.
Cantei as canções natalinas da Rádio 2, depois m udei para a Rádio 3, para evitar as Notícias das Dez, ouvindo a Inglaterra perder para Ashes na Austrália, repassando m inhas próprias notícias das dez: Don Foster está m orto.
Dois m alditos assassinos, talvez três.
Eu seria o próxim o?
Contando os assassinos.
Virando o Maxi em direção a Netherton, e a chuva caindo forte m ais um a vez.
Contando os m ortos.
Sentindo o gosto de arm a na boca, sentindo o cheiro da m inha própria m erda.
Cães latiam , hom ens gritavam .
Paula m orta.
Coisas que eu deveria fazer, coisas que eu deveria term inar.
“Debaixo desses lindos novos carpetes, entre as rachaduras e pedras.”
Perguntei nos correios de Netherton, e um a senhora, que não trabalhava lá, m e disse onde ficava a Maple Well Drive.
O núm ero 16 era um a casa baixa, com o todas as outras da rua, m uito parecida com a de Enid Sheard e a de Goldthorpe. Um pequeno j ardim bem cuidado, com cerca baixa e casa de pássaros.
Fosse lá o que tivesse feito George Marsh, não teria feito ali.
Abri o pequeno portão de m etal e subi para o j ardim . Podia ver as som bras da televisão.
Bati na porta de vidro, com o ar m e ferindo.
Um a m ulher gorda, com cabelos grisalhos e perm anente, um pano de prato nas m ãos, abriu a porta.
— Senhora Marsh?
— Sim .
— Esposa de George Marsh?
— Sim .
Eu abri a porta com força, no rosto dela.
— Que m erda é essa? — ela perguntou, caindo de bunda no chão da casa.
Passei entre as botas de plástico e os sapatos de j ardinagem .
— Cadê ele?
Ela estava com o pano de prato em cim a do rosto.
— Cadê ele?
— Eu não o vi — ela respondeu, tentando se levantar.
Eu bati na cara dela.
Ela voltou a cair no chão.
— Cadê ele?
— Eu não vi.
Aquela puta, dona daquele rosto duro, estava com os olhos arregalados, tentando vencer as lágrim as.
Levantei a m ão novam ente.
— Cadê?
— O que ele fez? — Havia um talho sobre seus olhos, e o lábio inferior j á sangrava.
— Você sabe.
Ela sorriu, um sorriso m aldito.
— Diga, onde.
Ela ficou caída entre os sapatos e os guarda-chuvas, olhando para m inha cara, com a boca suj a aberta num m eio sorriso, com o se estivéssem os pensando num a transa rápida.
— Onde?
— No galpão.
Eu sabia o que encontraria.
— Onde fica?
Ela continuava a sorrir. Ela sabia o que eu encontraria.
— Onde?
Ela ergueu o pano de prato.
— Não posso...
— Mostre — gritei, agarrando seu braço.
— Não!
Eu a levantei.
— Não!
Segui para a porta de trás.
— Não!
Arrastei-a para o j ardim , e sua nuca estava ficando verm elha sob os cabelos grisalhos com perm anente.
— Não!
— Para onde? — perguntei, j á no portão.
— Não, não, não.
— Para que lado, porra? — perguntei, apertando com m ais força.
Ela virou-se, olhando para trás, para trás da casa.
Eu a levei de volta para dentro, e fom os para os fundos da Maple Well Drive.
Havia um cam po m arrom e vazio atrás das casas, um cam po que se erguia logo abaixo do céu branco e suj o. Um a porta e um cam inho de trator, onde o cam po encontrava o céu. Eu vi vários galpões escuros.
— Não!
Puxei-a contra a parede escura de pedra.
— Não, não, não.
— Cale essa boca m aldita, puta. — E tapei sua boca com a m ão esquerda, tapando tam bém grande parte de seu rosto.
Ela trem ia, m as não chorava.
— Lá em cim a?
Ela m e encarou, depois fez que sim .
— Caso ele não estej a por lá ou escute a nossa aproxim ação, vou te m atar, entendeu?
Ela m e encarava, e m ais um a vez fez que sim .
Soltei sua boca, com m aquiagem e batom em m eus dedos.
Ela ficou parada contra o m uro de pedra, não se m ovia.
Tom ei seu braço e a fiz entrar.
Ela olhou para a linha de galpões escuros.
— Anda — eu disse, em purrando suas costas.
Ficam os parados no cam inho do trator, com os sulcos deixados por suas rodas tom ados de água preta, o ar cheirando a bosta de anim ais.
Ela fraquej ou, caiu e voltou a levantar.
Eu olhei para Netherton, exatam ente com o Ossett, exatam ente com o todos os outros lugares.
Vi as casas baixas e as casas gem inadas de dois andares, as loj as e as garagens.
Ela fraquej ou, caiu e voltou a levantar.
Eu vi tudo aquilo.
Vi um a van branca subindo por ali, agitando sua pequena carga na parte traseira.
Vi um a van branca descendo por ali, com sua pequena carga silenciosa, parada.
Vi a senhora Marsh na pia da cozinha, com aquele m aldito pano de prato nas m ãos, observando a van chegar e ir em bora.
Ela fraquej ou, caiu e voltou a levantar.
Estávam os quase no topo da colina, quase chegando nos galpões. Eles pareciam um vilarej o de pedra da Idade Média, construídos com barro.
— Qual?
Ela apontou para o últim o, para um cam inho de sacos de fertilizantes, ferros retorcidos e tij olos de construção.
Eu segui em frente, arrastando-a atrás de m im .
— Esta — m urm urei, apontando para a porta de m adeira preta com um saco de cim ento, fazendo as vezes de j anela.
Ela fez que sim .
— Abra.
Ela abriu a porta.
Eu a atirei lá dentro.
Havia um a m esa de trabalho e ferram entas, sacos de fertilizante e cim ento, vasos de plantas. Sacos de plástico vazios cobriam o chão.
Cheirava a terra.
— Cadê ele?
A senhora Marsh soltava risadinhas, com o pano de prato sobre o nariz e a boca.
Eu m e aproxim ei e dei um soco em cim a do pano.
Ela se curvou e caiu de j oelhos.
Eu agarrei seus cabelos grisalhos com perm anente e a puxei em direção à m esa, pressionando seu rosto contra a m adeira.
— Ha-ha-ha. Ha-ha-ha.
Ela gargalhava e gritava, seu corpo trem ia inteiro, com um a das m ãos caída sobre os sacos plásticos no chão, a outra levantando a saia até a altura da boceta.
Peguei um a espécie de cinzel, ou cortador de papel de parede.
— Cadê ele?
— Ha-ha-ha. Ha-ha-ha.
Seus gritos eram um zum bido, suas risadas tam bém .
— Cadê ele? — E coloquei o cinzel sobre a sua garganta gorda.
— Ha-ha-ha. Ha-ha-ha.
Ela voltou a em purrar os sacos plásticos com os j oelhos e os pés.
Eu dei um a olhada nos sacos e vi um pedaço de corda suj a de lam a.
Soltei seu rosto e deixei que se afastasse.
Mexi nos sacos e encontrei um a grande tam pa de ralo e um a corda preta e suj a.
Enrolei a corda entre m inhas m ãos e puxei a tam pa, arrastando-a para o lado.
A senhora Marsh estava sentada no chão, sorrindo sob a m esa, m ovendo os j oelhos histericam ente.
Eu olhei pelo buraco, era um estreito buraco de pedra com um a escada de m etal que descia por uns quinze m etros. Um a descida som bria.
Seria um a espécie de buraco para drenagem ou a ventilação de um a m ina.
— Ele está lá em baixo?
Ela batia os pés, cada vez com m ais velocidade, com sangue ainda j orrando do nariz, caindo sobre sua boca. De repente, ela esticou as pernas e com eçou a esfregar o pano de prato na parte superior das coxas e na calcinha verm elha.
Eu a agarrei debaixo da m esa e arrastei-a para fora.
— Ha-ha-ha. Ha-ha-ha.
Peguei um pedaço da corda que havia em cim a da m esa. Passei pelo pescoço dela, depois desci em direção aos pulsos, finalm ente dando um nó duplo na perna da m esa.
A senhora Marsh fez xixi na calças
Olhei para o buraco, girei o corpo e m eti um dos pés na escuridão.
Desci, sentindo a escada, a fria escada de m etal, as paredes de tij olos escorregadias.
Desci uns três m etros.
Podia ouvir o som de água corrente além dos gritos da senhora Marsh.
Desci, seis m etros.
Um círculo de luz cinza e loucura acim a de m im .
Desci, dez m etros, e as risadas e o pranto se perdiam na distância.
Eu podia sentir água lá em baixo, im aginando m inas cheias de água escura e corpos com a boca aberta.
Desci, em direção à luz, sem olhar para cim a, com um a única certeza: eu descia.
De repente, um a das paredes laterais do buraco desaparecera, e eu estava lá, sob a luz.
Virei-m e, olhando para a boca am arela de um a passagem horizontal que se abria à m inha direita.
Segui um pouco m ais e depois m e virei, colocando m eus cotovelos na boca do buraco.
A luz era brilhante, o túnel estreito, em zigue-zague.
Incapaz de m e m anter de pé, arrastei m inha barriga e cotovelos contra os tij olos duros, seguindo em direção à luz.
Eu suava, estava cansado e louco para m e levantar.
Segui em frente, perdendo a noção da distância.
De repente, o teto ficou m ais alto, e eu consegui ficar de j oelhos, pensando em m ontanhas de lixo sobre m inha cabeça, até que m eus j oelhos e canelas ficaram em carne viva e se rebelaram .
Eu podia ouvir coisas se m ovendo na luz fraca, ratos, ratazanas, pés de crianças.
Meti a m ão num buraco e peguei um sapato: um a sandália infantil.
Deitei sobre os tij olos, sobre toda a poeira e lixo, e lutei contra as lágrim as, agarrado ao calçado, incapaz de j ogá-lo fora, incapaz de soltá-lo.
Ergui o corpo de repente e voltei a m e m exer, m ovendo as costas em espasm os, um m etro aqui, um pé ali.
Depois o ar se transform ou, e o som da água desapareceu. Eu podia sentir o cheiro de m orte e ouvir seus gem idos.
O teto ficou m ais alto novam ente, e havia toras de m adeira acim a da m inha cabeça, depois dobrei num a esquina, e lá estava eu.
De pé na entrada de um grande túnel, sob a luz de dez lâm padas Davy, ofegante, suando, m orto de sede, tentando digerir tudo aquilo.
Era a m aldita caverna do Papai Noel.
Deixei o sapato cair no chão, com lágrim as rolando em m eu rosto suj o.
O túnel era interrom pido por tij olos cinco m etros à frente, com os tij olos pintados de azul com nuvens brancas, o chão coberto de tecidos rústicos e penas brancas.
Contra as duas paredes laterais, m ais ou m enos dez espelhos finos alinhados.
Anj os, estrelas e fadas de árvores de Natal dependurados nas vigas, tudo brilhando sob as luzes.
Havia caixas e bolsas, roupas e ferram entas.
Câm eras e luzes, gravadores e fitas.
E, sob a parede azul no extrem o da sala, tapado por um tecido rústico, estava George Marsh.
Num a cam a de rosas verm elhas m ortas.
Atravessei as penas brancas, seguindo em sua direção.
Ele estava virado para a luz, com os olhos vazados, a boca aberta. Seu rosto era um a m áscara de sangue verm elho e preto.
Marsh abriu e fechou a boca, com sangue escapando entre os lábios e o uivo de um cão convalescente surgindo de dentro de sua barriga.
Eu m e curvei e olhei pelos buracos onde antes estavam seus olhos, pela boca onde sua língua antes falava.
Ergui o corpo e tirei o tecido rústico de cim a dele.
George Marsh estava nu, m orrendo.
Seu torso era púrpura, verde e preto, cheirava a cocô, lam a, sangue queim ado.
Seu pau e saco tinham sido cortados, deixando pele solta e bolsas de sangue.
Ele torcia o corpo e se aproxim ava de m im , seu dedo m indinho e polegar eram tudo o que restava.
Voltei a cobri-lo.
Ele estava deitado ali, com a cabeça erguida, rezando por um fim . E o m urm urar baixo de um hom em que pedia pela m orte tom ava conta da caverna.
Fui às bolsas e caixas, tirando roupas e enfeites cintilantes de dentro delas, bolas de Natal e facas, coroas de papel e alfinetes gigantes, buscando livros, buscando palavras.
Encontrei fotos.
Caixas de fotos.
Fotos de m eninas em idade escolar, fotos de seus rostos sorridentes, seus sorrisos brancos e abertos, seus grandes olhos azuis e peles rosadas.
Depois vi tudo novam ente.
Fotos em preto e branco de Jeanette e Susan, j oelhos suj os, m ãos pequenas sobre olhos fechados, grandes flashes tom ando conta da sala.
Os sorrisos adultos e os olhos das crianças, j oelhos suj os em roupas de anj o, pequenas m ãos em buracos sangrentos, gargalhadas brancas tom ando conta da sala.
Vi um hom em com coroa de papel e nada m ais, com endo m eninas pequenas naquele subterrâneo.
Vi sua esposa alinhavando roupas de anj o, beij ando-as.
Vi um m enino polonês deficiente roubando fotos e revelando outras.
Vi hom ens construindo casas, observando m eninas brincando na rua, tirando fotos delas e tom ando notas, construindo novas casas ao lado das antigas.
E então olhei para George Marsh m ais um a vez, o Gaffer, agonizando em sua cam a de rosas verm elhas m ortas.
“George Marsh. Um bom hom em .”
Mas não era suficiente.
Vi Johnny Kelly, com um m artelo nas m ãos, um trabalho pela m etade.
Mas não era suficiente.
Vi um hom em envolto em papéis e plantas arquitetônicas, consum ido por visões obscuras de anj os, desenhando casas feitas de cisnes, im plorando por silêncio.
Mas não era suficiente.
Vi o m esm o hom em aj oelhado, num a esquina escura, gritando: Faça isso por m im , George, pois EU QUERO MAIS E QUERO AGORA.
Vi John Dawson.
E aquilo era m uito, m uito, aquilo era dem ais.
Saí correndo da sala, voltando ao túnel, engatinhando, ouvindo m ais um a vez o som da água e do poço enquanto seguia em direção ao galpão, com seus gritos tom ando conta da escuridão, tom ando conta da m inha cabeça:
“Tínham os um a linda vista antes de construírem as novas casas.”
Cheguei à escada e subi, roçando m inhas costas em busca da luz.
Eu subi, subi.
Cheguei ao topo, ao galpão.
Ela ainda estava ali, atada à m esa.
Eu m e deitei sobre os sacos plásticos, ofegante, suando, m orrendo de m edo.
Ela sorriu para m im , com sangue no queixo e m ij o nas coxas.
Eu peguei um a faca na m esa e cortei as cordas.
Em purrei-a em direção ao buraco e m eti sua cabeça lá dentro, com a faca em seu pescoço.
— Você vai descer.
Girei o corpo dela e em purrei suas pernas ao vazio.
— Você pode descer ou cair. Eu não dou a m ínim a.
Ela colocou um dos pés nos degraus e com eçou a descer, olhando para m im .
— Até que a m orte os separe — eu disse.
Seus olhos brilhavam no escuro, sem piscar.
Virei-m e, peguei a corda preta e voltei a colocar a tam pa na boca do buraco.
Peguei um saco de cim ento e coloquei-o em cim a da tam pa, depois outro, outro e m ais outro.
Depois peguei sacos de fertilizante e coloquei em cim a dos sacos de cim ento.
Sentei nos sacos e senti m inhas pernas e pés congelados.
E m e levantei, peguei um cadeado e um a chave na m esa.
Saí do galpão, fechando a porta e trancando-a com a chave.
Corri para fora, atirando a chave na lam a.
A porta do núm ero 16 continuava aberta, Crown Court na televisão.
Entrei e caguei.
Desliguei a televisão.
Sentei no sofá e pensei em Paula.
Depois fui ao quarto deles e m exi em todas as gavetas.
Encontrei um a pistola no arm ário e caixas de balas. Coloquei tudo num a bolsa grande e segui para o carro. Guardei a arm a e as balas no porta-m alas do Maxi.
Voltei à casa e dei um a últim a olhada, depois tranquei a porta e desci pelo j ardim .
Fiquei parado no m uro, olhando para as casas, com a chuva batendo na m inha cara, eu coberto de lam a.
Entrei no carro e fui em bora.
4 LUV.
Tudo por am or.
Shangri-lá, pingos de chuva caindo de suas calhas. Eu, sozinho contra o céu cinzento.
Estacionei em outro ponto suj o de outra estrada deserta e subi m ais um a rua triste.
Chovia granizo, e m ais um a vez im aginei se para os gigantes peixes am arelos do lago aquilo fazia algum a diferença. Eu sabia que George Marsh sofria e que Don Foster tam bém deve ter sofrido, m as não sabia com o aquilo m e fazia sentir.
Quis m e aproxim ar e ver aqueles peixes grandes e brilhantes, m as segui em frente.
Não havia carros na entrada da casa, apenas duas garrafas m olhadas de leite na porta, num a cesta branca.
Eu m e senti m al e com m edo.
Olhei para baixo.
Eu tinha um a arm a na m ão.
Toquei a cam painha e ouvi o eco em Shangri-lá, pensando no m aldito pau de George Marsh e nos j oelhos de Don Foster.
Ninguém atendeu.
Toquei m ais um a vez e com ecei a bater com o nó dos dedos na porta.
Nada.
Tentei abrir.
Estava aberta.
Entrei.
— Oi?
A casa estava fria e praticam ente em silêncio.
Fiquei parado na entrada e disse novam ente:
— Oi?
Ouvi um ruído baixinho, seguido de um estalo seco.
Virei para a esquerda na grande sala de estar branca.
Acim a de um a lareira que não era usada, um a grande fotografia am pliada de um cisne saindo de um lago.
Ela não estava sozinha:
Em todas as m esas, em todas as prateleiras, em todos os parapeitos de j anelas, havia cisnes de m adeira, de vidro, cisnes chineses.
Cisnes voando, cisnes dorm indo, e dois cisnes gigantes se beij ando, com os pescoços e bicos form ando um grande coração.
Dois cisnes nadando.
Bingo.
Mesm o na proteção da lareira que não era usada.
Eu fiquei de pé, observando os cisnes, ouvindo o ruído e os cliques.
A sala estava congelada.
Cam inhei em direção a um a grande caixa de m adeira, deixando as m arcas dos m eus pés no carpete. Baixei a arm a e levantei a tam pa da caixa, tirando a agulha do disco. Era Mahler.
Songs for dead children.
Me virei rapidam ente, olhando para fora, im aginando ter ouvido um carro se aproxim ar.
Mas era apenas o vento.
Fui até a j anela e fiquei olhando para fora.
Havia algo por lá, algo no j ardim .
Por um m om ento, im aginei ver um a m enina cigana de cabelos castanhos sentada, com os pés descalços e galhos entre os cabelos.
Fechei os olhos, depois voltei a abrir, e a m enina tinha ido em bora.
Ouvi um barulho baixinho.
Voltei a pisar no carpete cor de crem e e profundo, chutando um copo que estava no chão. Peguei o copo e coloquei-o num descanso para copos em form ato de cisne que havia na m esa de centro, ao lado de um j ornal.
Era o j ornal do dia, o m eu j ornal.
Duas linhas de m anchete, em letras graúdas, dois dias antes do Natal:
IRMÃ DE ESTRELA DO RÚGBI ASSASSINADA.
CONSELHEIRO PEDE DEMISSÃO.
Dois rostos, dois olhos pretos m e encarando.
Duas m atérias, do m aldito Jack Whitehead e de George Greaves.
Peguei o j ornal, sentei no grande sofá cor de crem e e li as notícias:
O corpo de Paula Garland foi encontrado pela polícia em sua casa de Castleford, no início da m anhã de dom ingo, após os vizinhos terem alegado ouvir gritos.
A senhora Garland, de 32 anos, era irm ã do ex-j ogador do
Wakefield Trinity, Johnny Kelly. Em 1969, a filha da senhora Garland, Jeanette, de oito anos, desapareceu em seu cam inho de volta à casa, vinda do colégio, e m esm o após um a enorm e operação policial nunca
foi encontrada. Dois anos m ais tarde, em 1971, o m arido da senhora Garland, Geoff, se suicidou.
Fontes policiais disseram a este repórter que eles estão tratando a
m orte da senhora Garland com o assassinato e que várias pessoas estão aj udando a polícia com seus depoim entos. Um a coletiva de im prensa foi m arcada para am anhã de m anhã, bem cedo.
Johnny Kelly, de 28 anos, não foi localizado.
Os olhos escuros da im agem im pressa, Paula não sorria, parecia j á estar m orta.
William Shaw, líder do Partido Trabalhista e presidente do novo Conselho Metropolitano Distrital de Wakefield, pediu dem issão no dom ingo, chocando a cidade.
Num com unicado breve, Shaw, de 58 anos, alegou problem as
crescentes de saúde com o a razão por trás de sua decisão.
William Shaw, irm ão m ais velho do m inistro de Estado do Hom e
Office, Robert Shaw, entrou na política trabalhista após passar pelo Sindicato dos Trabalhadores do Transporte. Chegou a ser gerente regional e representou o sindicato no Com itê Executivo Nacional do Partido Trabalhista.
Ex-vereador e ativo há vários anos na política do West Riding,
Shaw era tam bém um líder na defesa das reform as no governo local e foi m em bro do com itê Redcliff-Maud.
A eleição de Shaw com o presidente do prim eiro Conselho
Metropolitano Distrital de Wakefield foi m uito bem recebida, vista com o a garantia de um a suave transição durante as m udanças que sofreriam o antigo West Riding.
Ontem à noite, fontes do governo local expressaram consternação
diante do m om ento escolhido pelo senhor Shaw para pedir dem issão.
O senhor Shaw tam bém é o ativo presidente da Autoridade policial
de West Yorkhsire, e não está claro se continuará sendo.
O m inistro de Estado do Hom e Office, Robert Shaw, não foi
encontrado e não opinou sobre o pedido de dem issão do irm ão. Dizem que o senhor Shaw está com am igos na França.
Dois outros olhos escuros no j ornal. Shaw não sorria, parecia j á estar m orto.
Ah, m enino m aldito.
“E o grande público britânico teve a verdade que m erece.”
E eu tive a m inha.
Larguei o j ornal e fechei os olhos.
Enxerguei os dois em suas m áquinas de escrever, Jack e George, cheirando a uísque, cientes de seus segredos, contando suas m entiras.
Vi Hadden lendo suas m entiras, ciente de seus segredos, servindo uísque para eles.
Eu queria passar um a centena de anos dorm indo, acordar quando pessoas com o eles tivessem desaparecido, quando eu j á não tivesse sua tinta escura e suj a nos dedos, em m eu sangue.
Mas aquela m aldita casa não m e deixava, as teclas da m áquina de escrever se m isturavam a um barulho distante, tom ando conta dos m eus ouvidos, ensurdecendo m eu crânio e ossos.
Eu abri os olhos. No sofá ao m eu lado havia grandes rolos de papel, plantas de arquitetos.
Abri um a delas sobre a m esa de centro, em cim a das fotos de Paula e Shaw.
Era a planta de um shopping center, The Swan Centre.
A ser construído na saída da M1 para Hunslet e Beeston.
Fechei os olhos novam ente, a m inha m enina cigana estava de pé em seu círculo de fogo.
“Por conta do m aldito dinheiro.”
The Swan Centre:
Shaw, Dawson, Foster.
Os Irm ãos Box querendo entrar.
Foster fodendo os Irm ãos Box.
Shaw e Dawson colocando seus vários prazeres à frente dos negócios.
Foster com o diretor do circo, tentando m anter o m aldito circo em andam ento.
Todos fora de sua liga, de sua árvore, ou sej a lá do que fosse.
Todos fodidos.
“Por conta do m aldito dinheiro.”
Eu m e levantei e saí da sala de estar, entrando na cozinha fria e cheia de luz.
Um a torneira ligada num a pia de aço inoxidável vazia. Desliguei.
Ainda podia ouvir o barulho.
Havia um a porta que dava no j ardim de trás da casa e outra para a garagem .
O barulho vinha da segunda porta.
Tentei abrir, m as não abria.
Debaixo da porta eu vi quatro m agros pingos de água.
Tentei abrir m ais um a vez, m as não abria.
Fui à porta dos fundos e corri para a frente da casa.
Não havia j anelas na garagem .
Tentei abrir a porta da garagem , m as não abria.
Voltei para dentro da casa pela porta da frente.
Várias chaves dependuradas na fechadura pelo lado de dentro.
Peguei as chaves, voltando à cozinha e ao barulho.
Tentei a m aior, a m enor, outra.
A fechadura destrancou.
Eu abri um a fresta da porta e inalei fum aça de escapam ento.
Merda.
Um Jaguar, com o m otor ligado, sozinho na escuridão, no canto m ais distante da garagem para dois carros.
Merda.
Peguei um a cadeira da cozinha e forcei a porta, chutando um a pilha de panos de prato úm idos.
Corri pela garagem , com a luz da cozinha ilum inando duas pessoas sentadas nos bancos dianteiros e um tubo conectado ao escapam ento e m etido no vidro traseiro.
O rádio do carro estava ligado bem alto, Elton destilava Goodby e Yellow Brick Road.
Tirei o cano e m ais toalhas úm idas do cano do escapam ento e tentei abrir a porta do m otorista.
Trancada.
Dei a volta e abri a porta do passageiro, recebendo um a grande baforada de m onóxido de carbono e o corpo da senhora Marj orie Dawson, que ainda se parecia com m inha m ãe, com um a m aldita bolsa térm ica verm elha posta em volta da cabeça ao cair aos m eus j oelhos.
Tentei colocá-la de pé, curvando m eu corpo sobre o dela, para desligar a ignição.
John Dawson estava caído sobre o volante, com outra bolsa térm ica na cabeça, e as m ãos am arradas à frente do corpo.
“Aí vam os nós outra vez. Conversas perigosas custam vidas.”
Os dois estavam azuis e m ortos.
Merda.
Desliguei o m otor, e Elton calou a boca, depois m e sentei no chão da garagem , trazendo a senhora Dawson com igo, com sua cabeça m etida na bolsa térm ica sobre o m eu colo, nós dois olhando para o m arido dela.
O arquiteto.
John Dawson, finalm ente, m as tarde dem ais, com o rosto m etido num a bolsa térm ica.
O m aldito John Dawson, sem pre um fantasm a, naquele m om ento literalm ente, um fantasm a num a bolsa térm ica.
O puto John Dawson, apenas com seus trabalhos restantes, im inente e perturbador, deixando-m e tão fodido quanto os dem ais. Sem nenhum a chance de algum dia descobrir e sem a esperanca que isso poderia trazer, sentado a sua frente, com sua m ulher em m eus braços, desesperado para poder ressuscitar os m ortos por um segundo, desesperado para reviver os m ortos para apenas um a palavra.
Silêncio.
Ergui o corpo da senhora Dawson com o pude, colocando-o no Jaguar, sobre o m arido, com suas bolsas térm icas bem j untas, num crescente m aldito silêncio.
Merda.
“Conversas perigosas custam vidas.”
Peguei m eu lenço cinza e suj o e com ecei a m e lim par.
Cinco m inutos m ais tarde, fechei a porta da cozinha e voltei à casa.
E m e sentei no sofá, próxim o às plantas, os esquem as, os m alditos sonhos, e pensei em m eu sonho, com um a pistola no colo.
A casa estava em silêncio.
Eu m e levantei e saí pela porta da frente de Shangri-lá.
Voltei ao Redbeck, com o rádio desligado, os lim padores de para-brisa m ovendo-se com o ratos na escuridão.
Estacionei num a poça de água e peguei o saco de lixo preto no porta-m alas. Segui pelo estacionam ento, com as pernas doloridas de m inha viagem subterrânea.
Abri a porta e saí da chuva.
O quarto 27 estava frio e vazio, o sargento Fraser fora em bora.
Eu m e sentei no chão, com as luzes apagadas, ouvindo os cam inhões entrando e saindo, pensando em Paula e nas danças com pés descalços ao som do Top of the Pops, alguns dias atrás, com o se fosse um a lem brança de outra era.
Pensei em BJ e Jim m y Ashworth, em adolescentes agachados nos arm ários gigantes e salas úm idas.
Pensei nos My shkin e nos Marsh, nos Dawson e nos Shaw, nos Foster e nos Box, em suas vidas e crim es.
Depois pensei nos hom ens no subterrâneo, nas crianças que eles roubaram e nas m ães que abandonaram .
E, quando j á não podia chorar, pensei em m inha própria m ãe e m e levantei.
As luzes am arelas da recepção estavam m ais brilhantes que nunca, o fedor, m ais forte.
Peguei o fone, disquei e segurei um a m oeda.
— Alô?
Deixei cair a m oeda.
— Sou eu.
— O que você quer?
Do outro lado das portas de vidro, a sala de bilhar estava vazia.
— Quero dizer que sinto m uito.
— O que eles fizeram com você?
Olhei em volta, olhei para as poltronas m arrons da recepção, buscando a velha.
— Nada.
— Um deles m e bateu, você sabe.
Eu podia sentir m eus olhos queim ando.
— Na m inha casa, Edward!
— Sinto m uito.
Ela chorava. Eu podia ouvir a voz de m inha irm ã ao fundo. Ela gritava com m inha m ãe. Li os nom es e prom essas, am eaças e núm eros, tudo escrito no telefone.
— Por favor, venha para casa.
— Não posso.
— Edward!
— Sinto m uito, m ãe. Mesm o.
— Por favor!
— Eu te am o.
E desliguei.
Voltei a pegar o fone, tentei ligar para o núm ero de Kathry n, m as não conseguia m e lem brar, desliguei outra vez e corri de volta ao quarto 27.
O céu acim a de m im era lim po e azul, sem nenhum a nuvem .
Ela estava do lado de fora, na rua, apertando um cardigã verm elho ao redor do corpo, sorrindo.
Seus cabelos eram loiros e voavam na brisa.
Ela veio na m inha direção, passando os braços ao redor do m eu pescoço e om bros.
— Não sou um anj o — ela m urm urou entre os m eus cabelos.
Nos beij am os, com sua língua contra a m inha.
Eu acariciei suas costas com m inhas m ãos, pressionando nossos corpos um contra o outro.
O vento j ogava seus cabelos no m eu rosto.
Ela se afastou quando eu gozei.
Acordei no chão, com porra na calça.
De cueca na pia do m eu quarto no Redbeck, com água m orna caindo sobre m eu peito e o chão, querendo ir para casa, m as não querendo ser o filho de ninguém , não querendo ver fotos de filhas sorridentes no espelho.
De pernas cruzadas, no chão do m eu quarto no Redbeck, desenrolava as ataduras pretas da m inha m ão, parando j unto à carne e às feridas, cortando um tecido com os dentes e enrolando-o na m inha m ão, com feridas piores arreganhando os dentes na parede logo acim a.
De volta às m inhas roupas enlam eadas, na porta do m eu quarto no Redbeck, engolindo pílulas e acendendo cigarros, querendo dorm ir, m as não querendo sonhar, pensando que aquele seria o dia da m inha m orte, com fotos de Paula dando adeus.