1974
Capítulo 4
— Um a freada. Ele é atirado à parte traseira da van. Bum! — Gilm an bate com o punho na palm a da outra m ão.
— A van carregava j anelas, certo? — m urm urou Novato, sentado ao lado de Tom .
— É. Ouvi dizer que um dos painéis acabou com sua m aldita cabeça — disse um outro Novato atrás da gente.
— Merda — dissem os todos.
16 de dezem bro de 1974.
Delegacia de polícia de Wakefield, Wood Street, Wakefield.
O negócio de sem pre:
Um hom em m orto e um a m enina m orta.
Olhei para o relógio de m eu pai no pior dia de chuva e na pior segunda-feira de todas.
Já eram quase dez.
Nos encontram os no Parthenon, no topo do Westgate, tom am os café com torrada e vim os as j anelas sendo fechadas e a chuva com eçando a cair.
Falávam os sobre Barry.
Às nove e m eia correm os sob a chuva com j ornais concorrentes nas m ãos, em direção à delegacia de Wood Street e ao Terceiro Round.
Gilm an, Tom e eu; duas filas atrás e sem nos im portarm os com nada. Os veículos nacionais à frente. Rostos fam iliares de m inha vida anterior não m e dirigiam a palavra. Eu cagava para eles. Ou pelo m enos um pouco.
— Que m erda ele estava fazendo em Morley ? — perguntou Gilm an m ais um a vez, sacudindo a cabeça de um lado para o outro.
— Você conhecia Barry, devia estar procurando Lucky — disse Tom de Bradford, sorrindo.
Um a grande m ão tocou m eu om bro.
— Bêbado com o um gam bá, pelo que dizem .
Todos viraram a cabeça.
Era o idiota do Jack Whitehead, que se sentara bem atrás de m im .
— Foda-se — eu disse, baixinho, sem virar a cara.
— E bom dia para você, Senhor Furo. — Senti o hálito de uísque em m inha nuca.
— Bom dia, Jack — disse Tom de Bradford.
— Senti falta de um discurso fúnebre esta m anhã. Nada na redação após Bill ter term inado. Com ovente.
— Sério. Isso... — disse Tom .
Jack Whitehead se aproxim ou de m eu ouvido, m as não baixou o tom de voz.
— Você poderia ter evitado um a viagem , Senhor Furo.
— O quê? — perguntei, com os olhos voltados para a frente.
— O senhor Hadden quer vê-lo de volta à base, Senhor Furo. Agora. O m ais rápido possível.
Eu podia sentir o sorriso de Jack atrás de m im , em m inha nuca.
E m e levantei, sem olhar para Gilm an ou Tom .
— Vou telefonar para ele.
— Certo. Ah, Senhor Furo?
Eu m e virei, olhando para Jack, sentado em seu banco.
— A polícia está atrás de você.
— O quê?
— Você esteve bebendo com Barry, pelo que escutei.
— Merda.
— Testem unhas... quantas você tem ?
— Vai se foder.
— Certo — disse Jack, dando um a olhada na sala à sua volta. — Parece que você está no lugar certo, na hora certa. Finalm ente.
Passei por Tom , cam inhando o m ais rápido possível, em direção aos fundos da sala.
— Ah, Senhor Furo?
Eu não queria m e virar nem olhar para aquele sorriso de m erda outra vez. Não queria perguntar:
— O quê?
— Parabéns.
— O quê? — perguntei m ais um a vez, perdido entre as pernas das cadeiras.
— O que o Senhor tira com um a das m ãos, Ele oferece com a outra.
Eu era a única pessoa de pé por ali, fora os técnicos e policiais, a única pessoa que repetia:
— O quê?
— Aquela história de fazer barulho com pés pequeninos, esse tipo de coisa...
— De que m erda você está falando?
Toda a sala olhava para m im e para Jack.
Ele pôs as m ãos atrás da cabeça e soltou a m aior gargalhada que pôde, olhando para o chão:
— Não m e diga que acabei de dar um furo, Senhor Furo?
A sala ria com Jack.
— A sua nam orada, Dunston?
— Dunford — corrigi, m esm o sem querer.
— Sej a lá com o for — disse Jack.
— O que tem ?
— Disse a Stephanie que está se sentindo um pouco m al esta m anhã. Mas ela vai ter de se acostum ar com isso.
— Você está de sacanagem ? — disse Tom de Bradford.
Gilm an olhava para o chão, balançando a cabeça de um lado para o outro.
Fiquei ali, parado. Edward Dunford, um rosto verm elho do norte da Inglaterra, com os olhos de toda a sala voltados para m im , olhos de todo o país e locais.
— Então? — perguntei, frouxo.
— Ela deve ser um a m ulher honesta, im agino?
— Honesta! O que você sabe sobre honestidade?
— Calm a, calm a...
— Foda-se. — E segui para a últim a fila. Dem orou um século para que eu chegasse lá, o tem po suficiente para que Jack soltasse m ais um a gargalhada.
— Os j ovens são estranhos hoj e em dia.
A sala inteira ria afetada.
— Acho que a senhora Whitehead tem razão.
A sala inteira se divertia com ele.
— A m aldita sociedade perm issiva, é isso. Eu fico com Keith Joseph. Esterilizar todo m undo!
Todos riram m uito, e bem alto.
Um século depois, finalm ente cheguei à últim a fila e ao corredor.
Jack Whitehead gritou:
— E não se esqueça de aparecer por lá.
A sala inteira explodiu.
Eu passei entre os policiais e os técnicos do fundo da sala, todos sorrindo.
Queria m orrer.
E seguiu-se um barulho.
A sala ficou m uda.
A porta lateral foi fechada com um a batida.
Virei o corpo.
O detetive-chefe superintendente George Oldm an e dois outros hom ens vestindo terno entraram .
Voltei o rosto para um a últim a olhada.
Oldm an parecia cem anos m ais velho.
— Obrigado por virem , senhores. Vam os ser o m ais breve possível, pois todos sabem onde deveríam os estar. O senhor à m inha direita é o doutor Coutts, m édico-legista que conduziu a autópsia. À m inha esquerda, o detetive superintendente Noble, que, ao m eu lado, liderará a busca pelo assassino ou assassinos da pequena Clare Kem play.
O detetive superintendente Noble olhava diretam ente para m im .
Eu sabia o que estava por vir e j á tinha visto tudo aquilo m uitas vezes.
Virei as costas e saí.
— Estão dizendo que Barry estava bêbado?
A chuva escorria para dentro da cabine telefônica, criando um a piscina ao redor de m eus pés. Olhei através dos vidros suj os para as luzes am areladas da delegacia Wood Street, para o outro lado da rua.
Na outra ponta da linha, Hadden parecia decepcionado.
— É o que a polícia está dizendo.
Mexi em m eus bolsos.
— É o que Jack está dizendo, tam bém .
Fiquei parado no m eio de toda aquela água, com os sapatos m olhados, equilibrando um a caixa de fósforos, um cigarro e o fone.
— Quando voltará à redação?
Acendi o cigarro.
— Esta tarde.
Seguiu-se um a pausa, depois:
— Preciso conversar com você.
— Claro.
Um a pausa ainda m ais longa, e:
— O que aconteceu ontem , Eddie?
— Fui ver Enid Sheard. Tudo o que ela tem é um a chave da casa de Goldthorpe.
Hadden, parecendo bem m ais distante, disse:
— Sério?
— Sério, m as eu preciso fazer algum as fotos. Poderia pedir a Richard ou Norm an que m e encontrasse por lá?
— Quando?
Olhei para o relógio de m eu pai.
— Ao m eio-dia, m ais ou m enos. Talvez sej a m elhor que um deles traga o dinheiro.
— Quanto?
Olhei para a Wood Street, para além da delegacia, e as nuvens negras escureciam a m anhã.
Respirei fundo, com um a dor fina no peito.
— Aquela vaca quer duzentas libras.
Silêncio.
Depois:
— Eddie, o que aconteceu ontem ?
— O quê?
— Com a senhora Dawson. O que aconteceu?
— Eu não m e encontrei com ela.
Hadden, com voz nervosa, disse:
— Mas eu pedi que você...
— Fiquei no carro.
— Mas eu pedi...
— Eu sei, eu sei. Barry im aginou que eu a deixaria m uito nervosa.
Deixei o cigarro cair na poça a m eus pés, quase acreditando na história que contava.
Hadden, do outro lado da linha, parecia suspeitar:
— Sério?
— Sim .
O cigarro dançava na poça de água.
— A que horas estará de volta?
— Entre duas e três.
— Preciso te ver.
— Sim , eu sei.
E desliguei.
Observei enquanto Gilly e Tom saíam da delegacia, com o paletó sobre a cabeça, seguindo em direção a seus carros e redações, com suas luzes am arelas acesas.
Coloquei o paletó sobre a cabeça e m e preparei para sair correndo.
Trinta m inutos m ais tarde, o Viva fedia a bacon.
Abri a j anela e olhei para a Brunt Street, Castleford.
Meus dedos estavam repletos de gordura do sanduíche.
A luz estava acesa na porta do núm ero 11, refletindo-se no pavim ento escuro e m olhado logo à frente.
Tom ei um bom gole de chá adocicado e quente.
A luz foi desligada, e a porta verm elha se abriu.
Paula Garland saiu de casa com um guarda-chuva floral. Ela fechou a porta e desceu a rua, em direção ao Viva.
Fechei a j anela e inclinei o assento. Podia ouvir suas botas m arrons pesadas se aproxim ando. Fechei os olhos e engoli em seco, im aginando que m erda diria.
As botas dirigiram -se para o outro lado da rua.
Eu m e levantei e olhei pelo retrovisor.
As botas m arrons, a capa de chuva bege e o guarda-chuva florido dobraram a esquina e desapareceram .
Barry Gannon certa vez m e disse:
— Os grandes edifícios são parecidos com os crim es.
Em 1970, de acordo com as anotações que Hadden m e entregou, John Dawson desenhou e construiu Shangri-lá, e foi aclam ado pela com unidade de arquitetos e pelo público em geral. Televisão, j ornais e revistas foram convidados a entrar e conhecer o m aravilhoso interior. O custo da m ansão foi estim ado em m ais de m eio m ilhão de libras, um presente do arquiteto m ais fam oso do pós-guerra britânico a sua esposa, na ocasião das bodas de prata de seu casam ento. Recebendo o nom e da m ítica cidade do film e preferido de Marj orie Dawson, Horizonte perdido, Shangri-lá capturou a im aginação do grande público na Grã-Bretanha.
Isso resum idam ente.
Meu pai costum ava dizer: “Se quiser conhecer o artista, dê um a olhada na sua obra”.
Ele costum ava falar sobre Stanley Matthews e Don Bradm an ao dizer esse tipo de coisa.
Tenho um a vaga lem brança de m eu pai e m inha m ãe pegando o Viva num dom ingo especial e saindo de Castleford. O que m ais m e lem bro é dos dois conversando um pouco, m as sobretudo escutando rádio. Eles provavelm ente pararam o carro no acostam ento e ficaram observando Shangri-lá através do vidro. Teriam levado sanduíches e um cantil? Espero que não. Não, eles provavelm ente foram até o Lum bs para tom ar um sorvete na volta a Ossett. Podia ver m eus pais sentados dentro do carro estacionado na Barnsley Road, tom ando sorvete em silêncio.
Quando voltaram à casa, m eu pai deve ter se sentado para escrever sua crítica a Shangri-lá. E deve ter ido ver a Town no dia anterior, se estivesse em casa, e deve ter escrito sobre isso antes de dar sua nota à Shangri-lá e ao senhor John Dawson.
Em 1970, um ano antes de sair de Fleet Street, eu estava em m eu apartam ento com vista para o m ar, em Brighton, lendo a carta que sem analm ente recebia do norte — área que para as m eninas do sul cham adas Anna ou Sophie parecia tão linda — e finalm ente j ogando a carta ainda não lida por inteiro no lixo, agradecendo aos m alditos Beatles por terem vindo de Liverpool, e não de Lam beth.
Em 1974, sentei no m esm o carro, à beira da m esm a rua, olhando para o céu chuvoso e para a m esm a casa pintada de branco, pensando que seria ótim o lem brar-m e da crítica de m eu pai sobre Shangri-lá e o senhor John Dawson.
Abri a porta do carro, coloquei o paletó sobre a cabeça e fiquei im aginando que m erda teria m e levado até ali.
Havia dois carros estacionados na rua, um Rover e um Jaguar, m as ninguém atendia à cam painha.
Voltei a tocar e dei um a olhada no j ardim , no lago sob a chuva, no Viva estacionado m ais à frente na m esm a rua. E im aginei estar vendo dois ou três grandes peixes dourados no lago. Fiquei pensando se eles gostavam da chuva, se a chuva fazia algum a diferença na vida deles.
Voltei à porta m ais um a vez e term inei frente a frente com o rosto pesado de um hom em bronzeado e vestido para j ogar golfe.
— A senhora Dawson está em casa?
— Não — respondeu o hom em .
— Poderia m e dizer quando volta?
— Não.
— Poderia m e dizer onde encontrá-la?
— Não.
— O senhor Dawson está em casa?
— Não.
E m e lem brei vagam ente daquele rosto.
— Não vou te prender, então, senhor Foster. Obrigado por sua aj uda.
Virei o corpo e fui em bora.
No m eio do cam inho, olhei para trás e notei o m ovim ento de um a cortina. Girei para a direita no gram ado e cam inhei pela gram a m acia, em direção ao lago. Os pingos da chuva faziam desenhos bonitos no chão. E lá estavam os peixes dourados, parados.
Virei o corpo e olhei para Shangri-lá sob a chuva. As form as curvas pareciam ostras ou a m aldita Ópera de Sidney. Então m e lem brei da crítica de m eu pai a Shangri-lá e ao senhor John Dawson:
“Shangri-lá parece um cisne adorm ecido.”
Meio-dia.
Willm an Close, Pontefract.
Nós de dedos bateram no vidro fechado do Viva. Voltei à Terra im ediatam ente, abrindo o vidro.
Paul Kelly se curvou para dentro do carro.
— E Barry ? Que m erda, não? — Ele estava sem fôlego e não tinha guarda-chuva.
— É — respondi.
— Ouvi dizer que foi atingido na cabeça.
— É o que estão dizendo.
— Que m aneira de m orrer... E na m aldita Morley, hein?
— É, eu sei.
Paul Kelly abriu um sorriso forçado.
— Está fedendo aqui, cara. O que você estava fazendo?
— Com i um sanduíche de bacon. Dá licença — eu disse, subindo a j anela, m as não com pletam ente, e saíndo do carro.
Merda.
Paul Kelly, fotógrafo. Prim o do fam oso John e de sua irm ã Paula.
A chuva caía ainda com m ais força, j untando-se à m inha enorm e paranoia.
Por que se cham ava Kelly, e não Dicky ou Norm ?
Por que hoj e?
Coincidência?
— Qual delas?
— Quê? — perguntei, trancando a porta do carro e colocando o paletó sobre a cabeça.
— A de Goldthorpe? — perguntou Kelly, olhando para as casas. — Qual é?
— Núm ero 6. — E atravessam os a rua em direção às casas m ais à frente.
Kelly tirou um a enorm e câm era j aponesa da bolsa.
— A velha está no núm ero 5, então?
— Sim . Hadden lhe entregou o dinheiro?
— Entregou — respondeu Kelly, escondendo a câm era no paletó.
— Quanto?
— Duzentos.
— Em dinheiro?
— Sim — ele respondeu, sorrindo e apalpando o bolso do paletó.
— Meio a m eio? — perguntei, batendo no vidro da porta.
— Seria ótim o, senhor — ele respondeu, no exato m om ento em que a porta se abriu.
— Bom dia, senhora Shear.
— Boa tarde, senhor Dunford e...
— Senhor Kelly — disse Paul.
— Num a hora m uito m ais civilizada, não acha, senhor Dunford? — perguntou Enid Sheard, sorrindo para Paul Kelly.
— Eu acho — respondeu Kelly, sorrindo para ela.
— Os senhores gostariam de tom ar um a xícara de chá?
Rapidam ente, respondi:
— Obrigado, m as acho que estam os um pouco atrasados.
Enid Sheard apertou os lábios.
— Vam os por aqui, senhores, por favor.
Ela nos levou por um cam inho entre as duas casas. Quando chegam os à porta do núm ero 6, Kelly saltou ao ouvir um latido na porta do núm ero 5.
— Ham let — eu disse.
— O m eu dinheiro, senhor Dunford? — perguntou Enid Sheard, pegando a chave.
Paul Kelly lhe ofereceu um envelope pardo.
— Cem libras, em dinheiro.
— Obrigada, senhor Kelly — agradeceu Enid Sheard, guardando o dinheiro no bolso do avental.
— É um prazer — respondi.
Ela abriu a porta dos fundos do núm ero 6 da Willm an Close.
— Vou colocar água para ferver. Quando term inarem , é só bater na porta.
— Obrigado. Muita gentileza sua — disse Kelly enquanto entrávam os.
Fechei a porta na cara dela.
— Você não notou o que estava fazendo? Deixou ela louquinha, espero que saiba com o desligar o m otor sexual dessa m ulher — eu disse, gargalhando.
— Olha quem fala — disse Paul, sorrindo, tam bém , e baixando de repente o rosto.
Parei de gargalhar, olhando para a vela posta sobre a pia e pensando no Guide to the Canals of the North, im aginando onde estaria.
Na casa de Kathry n.
— A toca do Ratcatcher — m urm urou Kelly.
— Sim . Em bora j á não reste m uita coisa.
— Quantas você quer? — perguntou Kelly, aj ustando o flash de um a de suas câm eras.
— Algum as de cada quarto, e um pouco m ais da sala da frente.
— Várias de cada quarto?
— Aqui entre nós, acho que vou fazer um livro sobre isso, então vou precisar de algum as fotos extras. Eu poderia incluir você, caso estej a interessado.
— Sim , claro, Eddie.
Saí da frente da luz, enquanto Kelly saía da cozinha em direção ao hall, depois à porta do quarto de Mary Goldthorpe.
— Este era o quarto dela, então?
— Era — respondi, passando à frente de Kelly.
Segui em direção à côm oda e abri a gaveta superior direita. Mexi entre as calcinhas até encontrar o que estava procurando. Um a m eia solta no fundo da gaveta, e fiquei com noj o de m inha própria coragem .
— Mágica! — disse Kelly, tirando um a foto quando eu saí da frente.
Olhei para o j ardim dos fundos da casa, pensando em m inha irm ã.
— Você acha que eles estavam ...?
— Provavelm ente — respondi, colocando a m eia no lugar e fechando a gaveta de roupa íntim a de Mary Goldthorpe.
— Noj entos.
Abri cam inho para o quarto de Graham . Peguei um livro da estante e o abri.
— Tente roubar um desses... — disse, apontando para a etiqueta com a coruj a e a am eaça nela estam pada.
— Este livro pertence a Graham e Mary Goldthorpe, não o roube, ou será perseguido e m orto — li para Kelly. — Que m erda! Pegue um deles da estante e pronto...
— Verdadeiros best-sellers — disse Kelly, sorrindo.
Cam inhei pelo pequeno hall escuro e abri a porta que dava para a sala da frente.
A prim eira coisa que vi foi a lareira.
Kelly veio atrás de m im , com o flash da câm era espocando pela m aldita sala.
— Foi aqui, então?
— Foi.
Nua e estrangulada.
— Na lareira, certo?
— É.
Dependurada na lareira.
— Quer algum as?
— Quero.
Com o cano da arma na boca.
— Isso m e deixa arrepiado.
— É — eu disse, olhando por baixo da lareira.
O dedo no gatilho.
— Por que ele fez isso?
— Sei lá...
Kelly bufou.
— Você deveria ter um a noção, pois conviveu com essa história sabe Deus quanto tem po.
— A polícia abafou o caso.
— Ele se saiu bem .
— É.
Olhei para Kelly fazendo suas fotos, o flash refletindo pela sala.
O m arido de Paula tam bém se m atara.
— Você sabe por que insistem em cham inés hoj e em dia? — perguntou Kelly, ainda tirando fotos.
— Têm suas utilidades.
— Para o Papai Noel, claro.
— O quê?
— Esses caras têm dessas coisas. Lem bra do estardalhaço sobre eles?
— Sobre o quê?
— Sobre esses bangalôs.
— Não.
Kelly trocava o film e.
— Ah, claro, eu m e lem bro porque queríam os trazer vovó e papai Kelly para um a delas, ou para outra parecida, em Castleford.
— Não estou entendendo.
— Deveriam ser casas para velhos, por isso têm apenas um andar. Mas o governo as vendeu. Deixe-m e lhe dizer um a coisa, os Goldthorpe deviam ter dinheiro.
— Quanto custavam ?
— Não m e lem bro. Mas não eram nada baratas, isso eu garanto. Proj etadas pelo m aldito John Dawson. Pergunte à velha da casa ao lado. Aposto que ela saberia dizer exatam ente quanto custou.
— John Dawson proj etou estas casas?
— Sim . Meu pai acha que foi isso que fez o governo vender todas elas, por conta do estardalhaço causado por sua construção.
— Merda.
— Era um a das coisas que Barry sem pre dizia. As casas tinham problem as, todos sabiam disso na época.
— Eu não sabia.
— São notícias antigas por aqui, im agino que não tenham saído lá no sul.
— Não, acho que não. Quando foram construídas?
— Cinco, seis anos atrás. Mais ou m enos na m esm a época... — Kelly saiu de perto, eu sabia o que ele estivera a ponto de dizer.
Ficam os parados na sala escura e fria, vendo o flash da câm era disparar, e fiquei quieto até ele term inar.
— Aqui está, o seu lote de fotos, a m enos que queira m ais — disse Kelly, m exendo na bolsa de sua câm era.
— Algum as do lado de fora, pode ser? — perguntei, olhando para a chuva que caía.
Um carro entrava na rua.
Kelly deu um a olhada através do vidro da j anela da frente da casa.
— Talvez tenham os de voltar outro dia, m as vou tentar.
O carro estacionou na frente da casa.
— Merda — eu disse.
— Porra! — disse Kelly.
— Droga — disse, quando dois policiais saíram do carro azul e branco.
Os dois policiais subiam o cam inho em direção à casa enquanto saíam os dela. Um deles era alto e barbudo, o outro, baixo, com nariz grande. Poderiam ser atores de com édia, um a dupla côm ica, m as nenhum deles sorria, e pareciam m uito m aus.
Ham let com eçou a latir na porta ao lado, fazendo o policial m ais baixo xingar. Kelly fechou a porta. Não havia nenhum sinal de Enid Sheard. Estávam os na m erda, sem ter onde nos esconder.
— O que está acontecendo, rapazes? — perguntou o m ais alto e barbudo.
— Som os do Post — respondi, olhando para Kelly.
O m ais baixo abriu um sorriso forçado:
— Mas o que isso significa?
Eu abri o paletó em busca de algum a credencial.
— Estam os trabalhando num a m atéria.
— Foda-se — disse o m ais baixo, pegando seu bloco de anotações e olhando para o céu.
— É verdade — disse Kelly, m ostrando sua credencial de im prensa.
O m ais baixo segurou as credenciais, e o segundo copiou os dados.
— E com o entraram na casa?
O m ais baixo não m e deixou responder.
— Ah, m erda — ele disse. — Vocês vão abrir essa porta. Não vou ficar aqui debaixo dessa chuva. — E am assou o papel encharcado onde tentava escrever, atirando-o ao chão.
— Não posso — eu disse.
O m ais alto parara de sorrir:
— Claro que pode, e vai abrir.
— É um a fechadura Yale. E não tem os a chave.
— Então vocês são Papai Noel, certo? Com o conseguiram entrar?
Eu vacilei e disse:
— Alguém deixou que entrássem os.
— Chega de papo. Quem deixou que entrassem ?
— O procurador da fam ília Goldthorpe — disse Kelly.
— Quem ...?
Tentei não parecer tão contente com um a saída:
— Edward Clay and Son, Towngate, Pontefract.
— Idiota — disse o m ais alto.
— Vocês não têm relação com John Kelly, certo? — Perguntou o m ais baixo ao nos devolver as credenciais.
— É m eu prim o em segundo grau.
— Vocês se reproduzem com o coelhos.
— Ele fugiu, certo?
— Eu não sei — foi tudo o que respondeu Kelly.
O m ais alto fez um sinal em direção à rua e disse:
— Melhor dar o fora, assim poderiam encontrar esse cara antes do próxim o dom ingo, certo?
— Você, não, Papai Noel — disse o m ais baixo, batendo em m eu peito.
Kelly virou o corpo. Entreguei a chave do Viva a ele, que deu de om bros e seguiu em direção ao carro, deixando nós três ali, na porta dos fundos, com a chuva escorrendo pelo teto da casa, ouvindo o latir de Ham let, esperando que alguém dissesse qualquer coisa.
O m ais baixo dem orou enquanto guardava seu bloco de anotações. O m ais alto tirou as luvas, estalou os dedos, m oveu a m unheca e depois voltou a vestir as luvas. Coloquei as m ãos nos bolsos, com a chuva batendo em m eu nariz.
Após alguns m inutos aguentando aquela m erda, eu disse:
— Então?
O m ais alto, de repente, esticou os braços e m e prendeu contra a porta. Passou um a das m ãos com as luvas em m eu pescoço e apertou m eu rosto contra a pintura da porta com a outra m ão. Meus pés não estavam no chão.
— Não fique por aí chateando quem não quer ser chateado — m urm urou em m eu ouvido.
— Isso não é legal — disse o m ais baixo, bem perto do m eu rosto, na ponta dos pés.
Com um nó no estôm ago, esperei o golpe.
Senti que a m ão de um deles se aproxim ava do m eu saco, apertando-o gentilm ente.
— Você deveria arrum ar um a distração.
O m ais baixo apertou m eu saco com m ais força.
— Observação de pássaros, por exem plo. Esse é um hobby tranquilo.
Dedos pressionavam m inha calça, aproxim ando-se do m eu traseiro.
Eu queria vom itar.
— Ou fotografia.
Ele soltou m eu saco, beij ou m inha bochecha e se afastou cantando We Wish You a Merry Christmas and a Happy New Year. Ham let voltou a latir.
O policial m ais alto pressionou ainda m ais m inha cabeça contra a porta.
— Lem bre-se: o Big Brother está sem pre observando você.
Um a buzina de carro soou.
Ele m e atirou ao chão.
— O tem po inteiro.
A buzina soou novam ente, e, ficando de j oelhos sob a chuva, observei enquanto ele se aproxim ava da viatura.
As rodas giraram , e finalm ente a viatura foi em bora.
Ouvi um a porta sendo aberta, Ham let latia m ais alto.
Fiquei de pé e corri para a rua, coçando o pescoço e agarrando m eu saco.
— Senhor Dunford! Senhor Dunford! — gritou Enid Sheard.
Kelly m antinha o Viva ligado. Abri a porta do passageiro e entrei.
— Porra — disse Kelly, afundando o pé no acelerador.
Girei o corpo, com m eu saco e rosto ainda queim ando, e vi Enid Sheard gritando m uito pela Willm an Close.
— Não fique por aí chateando quem não quer ser chateado.
Kelly tinha os olhos pregados na estrada.
— Não é um aviso tão ruim , sabe?
— O que você quer dizer? — perguntei, em bora soubesse exatam ente.
— Falei com Paula ontem à noite. Ela estava m al, sabe?
— Eu sei, e sinto m uito — disse, com os olhos no carro à nossa frente, pensando em por que ele tinha m e esperado.
— Você poderia ter m e falado antes.
— Eu não sabia. Foi ideia do Barry, na verdade.
— Não diga isso, Eddie. Não é legal.
— É verdade. Eu não tinha ideia de que ela era sua parente. Eu...
— Você estava fazendo o seu trabalho, eu sei. Mas a verdade é que nenhum de nós j am ais superou o que aconteceu. E depois veio a história dessa outra m enina, e trouxe tudo de volta.
— Eu sei.
— Além de toda a m erda com o nosso Johnny. Isso parece não ter fim .
— Você não sabe nada sobre essa história?
— Não, nada.
— Sinto m uito, Paul — eu disse.
— Sei que todos apostam que não passa de fofoca ou que ele estaria m etido em algum a farra. Eu não sei, m as espero que sej a realm ente isso.
— Mas não acredita?
— Johnny sofreu m uito, sabe, depois de Paula e Geoff. Ele adora crianças. Quero dizer, ele é um crianção. E realm ente adorava Jeanette.
— Sinto m uito.
— Tudo bem . Eu não queria m encionar isso, m as...
E eu não queria ouvir aquilo.
— Onde você acha que ele está?
Kelly m e olhou.
— Caso eu soubesse, não estaria levando você por aí com o se fosse um m aldito chofer, certo? — E tentou sorrir, m as não conseguiu.
— Sinto m uito — eu disse pela m ilésim a vez.
E olhei para fora da j anela, para os cam pos m arrons, com suas árvores solitárias e as cercas vivas queim adas pelo inverno. Estávam os nos aproxim ando do acam pam ento cigano.
Kelly ligou o rádio, e os Bay City Rollers cantavam All of Me Loves All of You, m as logo m udou de estação.
Olhei para além de Kelly quando passam os pelos trailers queim ados e tentei pensar em algo a dizer.
Mas ficam os m udos até chegar a Leeds, onde estacionam os sob os arcos próxim os ao edifício do Post.
Kelly desligou o m otor do carro e pegou sua carteira.
— O que fazem os com isto?
— Meio a m eio?
— Certo — disse Kelly, contando as notas.
E m e deu a m etade.
— Obrigado — agradeci. — O que aconteceu com o seu carro?
— Hadden pediu que eu fosse de ônibus. Disse que você voltaria para cá e que poderia m e trazer.
“Merda”, pensei.
— Por quê?
— Nada — respondi. — Curiosidade.
“— Vivem os a grande era do j ornalism o investigativo, e Barry Gannon foi um dos hom ens que construíram esta era. Onde via possibilidade de j ustiça, ele buscava a j ustiça. Onde via m entiras, buscava a verdade. Barry Gannon fazia grandes perguntas a grandes hom ens, pois acreditava que o grande público britânico m erecia o grande cenário. Certa vez, Barry Gannon disse que a verdade sem pre nos deixa m ais ricos. Para todos nós que buscam os a verdade, a m orte prem atura de Barry nos tornou m uito m ais pobres.”
Bill Hadden, com aparência tão m irrada atrás de sua m esa, pegou seus óculos e ergueu os olhos. Eu fiz que sim com a cabeça, pensando em todas as coisas que Barry Gannon dissera entre tantas cervej as, um a delas sobre algo que aconteceu na Índia, com um elefante, três hom ens cegos e a verdade.
Após um a pausa, perguntei:
— Está na edição de hoj e?
— Não. Vam os ter de esperar até depois do inquérito.
— Por quê?
— Bem , você sabe com o é. Nunca sabem os o que eles podem inventar. O que você achou?
— Muito bom .
— Não achou m uito panegírico?
— Claro que não — respondi, sem ter a m enor ideia do que significava panegírico.
— Ótim o — disse Hadden, deixando a folha A4 com o texto datilografado de lado. — Você se encontrou com Paul Kelly, então?
— Sim .
— E entregou o dinheiro à senhora Sheard?
— Sim — respondi, alegrem ente, im aginando se aquela puta teria ligado para Hadden para contar sobre a polícia, dizendo besteiras.
— Ele conseguiu tirar as fotos e tudo o m ais?
— Conseguiu.
— Você term inou o texto?
— Quase — m enti.
— O que m ais conseguiu?
— Nada im portante — m enti m ais um a vez, pensando em Jeanette Garland, Susan Ridy ard, Clare Kem play, no acam pam ento cigano queim ado, nos irm ãos gêm eos de Alice no País das Maravilhas e nas últim as palavras de Barry Gannon.
— Sei — disse Hadden, com a cidade escurecida atrás dele.
— Conversei com os pais de Susan Ridy ard no sábado, com o queríam os. Você sabe, o interesse hum ano...
— Esqueça — disse Hadden, levantando-se. — Quero que se concentre na história de Clare Kem play.
— Mas eu im aginei que você...
Hadden ergueu um a das m ãos.
— Vam os precisar de m uito m ais base se quiserm os m anter essa história viva.
— Mas im aginei que você tivesse dito que essa história agora pertence a Jack. — A queixa voltava à m inha voz.
A expressão de Hadden ficou dura.
— E eu im aginei que você tivesse concordado em cobrir isso com ele.
Eu segui em frente:
— Mas acho que não fizem os m uita coisa j untos até agora.
— Sei — disse Hadden, pegando o obituário de Barry. — Hoj e é um dia m uito difícil para todos nós. Você tem as suas razões, sem dúvida, m as nem sem pre esteve presente quando precisam os.
— Sinto m uito — eu m e desculpei, pensando em com o ele era babaca.
Hadden se recostou na cadeira:
— Com o eu disse, você teve sua parte de perdas e problem as, eu sei. Mas a verdade é que Jack está cobrindo o assunto no dia a dia, e você está no pano de fundo.
— Pano de fundo?
— É o que você faz m elhor. Hoj e m esm o, Jack disse que você daria um ótim o rom ancista — disse Hadden, sorrindo.
Eu podia ver a cena.
— E isso deveria ser um elogio?
Hadden sorria.
— Vindo de Jack Whitehead, sim .
— Sério? — Eu ri e com ecei a contar de trás para a frente, de cem a zero.
— Sej a lá com o for, você vai adorar isso. Quero que vá visitar um a m édium .
Oitenta e seis, oitenta e cinco.
— Médium ?
— Sim , m édium , vidente... — disse Hadden, abrindo um a das gavetas de sua m esa. — Ela diz ter levado a polícia ao corpo de Clare e recebido um pedido para aj udá-los a encontrar o assassino.
— E você quer que eu a entreviste? — Suspirei. “Trinta e nove, trinta e oito”.
— Quero. Aqui está o endereço: apartam ento 5, núm ero 28 da Bleinheim Road, Wakefield. Atrás da Gram m ar School.
Vinte e quatro. Vinte e três.
— Qual o nom e dela?
— Mandy Wy m er. Mas se intitula My stic Mandy.
Eu desisti.
— Vam os m olhar a m ão dela?
— Infelizm ente... m ulheres com os dons de Mandy não são nada baratas.
— Quando?
— Am anhã. Já m arquei um encontro para você à um a da tarde.
— Obrigado — eu disse, levantando.
Hadden tam bém se levantou.
— Você sabe que am anhã é o dia do inquérito?
— Que inquérito?
— O de Barry.
— Am anhã?
— Sim . E o sargento Fraser quer conversar com você. — Olhou para o relógio. — Dentro de quinze m inutos, na recepção.
Mais policiais. Senti m eu saco encolher.
— Certo. — E abri a porta pensando que poderia ter sido pior; ele poderia ter m encionado a senhora Dawson, os dois policiais de Ponty ou m esm o a m aldita Kathry n Tay lor.
— E não se esqueça da My stic Mandy.
— Com o poderia m e esquecer? — perguntei, fechando a porta.
— Mantenha-se em seu cam inho.
— Sinto m uito incom odá-lo, senhor Dunford, especialm ente num a hora com o esta, m as estou tentando reconstruir o exato cam inho percorrido ontem pelo senhor Gannon. — O sargento era j ovem , am igável e loiro.
Im aginei que ele estivesse brincando e disse:
— Ele m e pegou por volta das dez, talvez...
— Sinto m uito, senhor. Mas onde seria isso?
— Núm ero 10 da Wesley Street, em Ossett.
— Obrigado — ele anotou e voltou a erguer os olhos.
— Fom os até Castleford, no carro de Barry, quero dizer, no carro do senhor Gannon. Conversei com a senhora Garland, no núm ero 11 da Brunt Street, Castleford, e...
— Paula Garland?
— É.
O sargento Fraser parou de escrever.
— Da Jeanette Garland?
— É.
— Sei. Estava com o senhor Gannon?
— Não. Ele foi se encontrar com a senhorita Marj orie Dawson, na casa dela. Em Shangri-lá, Castleford. John Dawson.
— Obrigado. E ele deixou você por lá?
— Sim .
— E foi a últim a vez que o viu?
Eu fiz um a pausa, depois respondi:
— Não. Eu m e encontrei com Barry no Swan, um pub de Castleford, entre um a e duas da tarde. Não saberia dizer a hora exata.
— E o senhor Gannon bebeu?
— Um a cervej a, duas, no m áxim o.
— E depois?
— Fom os para lados opostos. Ele não m e disse aonde ia.
— E o senhor?
— Tom ei o ônibus para Pontefract. Tinha m ais um a entrevista a fazer.
— Então a que horas você viu o senhor Gannon pela últim a vez?
— Deve ter sido às quinze para as três, no m áxim o — eu disse, pensando: “Gannon m e contou que, segundo Marj orie Dawson, sua vida estava em risco, e eu não liguei, m as não vou falar sobre isso agora”.
— E o senhor não tem ideia de para onde ele poderia ter ido?
— Não. Im aginei que voltaria para cá.
— Por quê?
— Nada em especial. Sim plesm ente im aginei que faria isso. Para escrever o texto sobre a entrevista.
— O senhor não im aginava que ele poderia estar indo para Morley ?
— Não.
— Certo. Obrigado. O senhor deverá estar presente no inquérito am anhã.
Fiz que sim .
— Está sendo bem rápido, não?
— Já tem os quase todos os detalhes, e, aqui entre nós, acho que a fam ília está com pressa, você sabe... o Natal e tudo o m ais.
— Onde será?
— Na prefeitura de Morley.
— Certo — eu disse, pensando em Clare Kem play.
O sargento Fraser fechou seu bloco de anotações.
— Vão te perguntar m ais ou m enos as m esm as coisas. E provavelm ente insistirão no detalhe da bebida. Você sabe com o são essas coisas.
— Ele estava correndo?
— Acho que sim .
— E os freios?
Fraser deu de om bros.
— Falharam .
— E os dem ais veículos?
— Parados.
— É verdade que carregava placas de vidro?
— Sim .
— E que um deles saiu voando pelo para-brisa?
— Sim .
— E...
— É.
— Então foi instantâneo?
— Eu diria que sim .
— Merda.
— É.
Nós dois ficam os pálidos. Olhei para fora da recepção, para o trânsito de volta para casa, sob a chuva, para as luzes dos freios acendendo e apagando, am arelas e verm elhas, am arelas e verm elhas. O sargento Fraser passou as páginas do bloco.
Passado um tem po, ele se levantou:
— Você não sabe onde eu poderia encontrar Kathry n Tay lor, sabe?
— Se ela não estiver aqui, deve ter ido para casa.
— Não, eu não consegui encontrá-la aqui nem em casa.
— Duvido que saiba algo. Passou quase a noite inteira ao m eu lado.
— Eu sei. Mas nunca se sabe...
Eu não disse nada.
O sargento colocou seu chapéu.
— Caso fale com a senhorita Tay lor, por favor, peça que entre em contato, a qualquer hora, na delegacia de Morley.
— Certo.
— Obrigado pelo seu tem po, senhor Dunford.
— Eu é que agradeço.
— Nos vem os am anhã, então.
— Sim .
Observei enquanto ele voltava à recepção, dizendo algo a Lisa, depois saindo para a rua.
Eu acendi um cigarro, com o coração batendo a m il por hora. Fiquei sentado por três horas seguidas, trabalhando.
Não havia tem po m orto no único j ornal regional com edições m atutinas e vespertinas, m as naquele dia o am biente era o m ais parecido possível com um a tum ba, todos caindo fora m ais cedo. Um adeus aqui, outro adeus ali, e alguns de nós poderiam ser encontrados no Press Club m ais tarde.
Menos Barry Gannon.
Então eu datilografei, e m uito. Era o prim eiro trabalho real que fazia desde a m orte de m eu pai e o desaparecim ento de Clare Kem play. Lutei para m e lem brar da últim a vez que m e sentara na m esa para sim plesm ente trabalhar e escrever. Joyriders, deve ter sido. Mas não conseguia m e lem brar se, naquela época, m eu pai ainda estava no hospital ou se j á tinha sido enviado de volta para casa.
Nada de Ronald Dunford.
Por volta das seis, Kelly trouxe as fotos, e as olham os j untos, guardando as m elhores na gaveta. Kelly levou as fotos ao subdiretor, depois ao pessoal da diagram ação. No processo, perdi cinquenta palavras que, num dia norm al, gerariam um a longa conversa com Kathry n no Press Club.
Mas aquele não era um dia norm al.
Nada de Kathry n Tay lor.
Fui ao encontro da Gorda Steph e pedi que ficasse calada, m as ela não sabia para onde eu estava indo, exceto que Jack Whitehead estava na m inha cola. Todos estávam os chateados, claro, m as eu devia entender. Jack tinha razão sobre m im , Stephanie dissera isso várias vezes, centenas de vezes, para m im e para todas as pessoas num raio de vinte quilôm etros.
Nada do idiota do Jack Whitehead.
Que falta de sorte.
Em todas as m esas havia exem plares da edição daquela noite.
CAÇA AO MALDITO.
Em letras enorm es, que cruzavam toda a extensão da prim eira página do Evening Post.
POR JACK WHITEHEAD, REPÓRTER POLICIAL DO ANO, 1968 E 1971.
Merda.
A autópsia de Clare Kem play, de dez anos, revelou que a m enina foi torturada, estuprada e depois estrangulada. A polícia de West Yorkshire não revelou os detalhes exatos das lesões, m as o detetive-chefe superintendente George Oldm an, falando num a coletiva de im prensa hoj e de m anhã, descreveu a natureza extrem a do assassinato com o “um desafio à crença” e com o sendo “de longe o caso m ais horrível
que eu ou qualquer outro m em bro da Força Metropolitana de West Yorkshire j á tenha visto”.
O m édico-legista, doutor Alan Coutts, que conduziu o exam e, disse:
“Não tem os palavras para descrever com exatidão o horror im posto à m enina”. O doutor Coutts, veterano, tendo acom panhado casos de m ais de cinquenta assassinatos, parecia visivelm ente em ocionado e disse esperar “nunca m ais ter de passar por tal obrigação”.
O detetive-chefe superintendente Oldm an com entou sobre a
urgência em encontrar o assassino, anunciando que o detetive superintendente Peter Noble estará à frente da busca por quem quer que sej a o responsável pelo assassinato de Clare.
Em 1968, o detetive superintendente Noble, naquela época na
polícia de West Midlands, ganhou fam a nacional ao ser o principal responsável por prender o Assassino de Cannock Chase, Ray m ond Morris. Entre 1965 e 1967, Morris abusou sexualm ente e em seguida sufocou três m eninas na cidade de Stafford e arredores, antes de ser preso pelo, na época, detetive inspetor Noble.
O detetive superintendente Noble falou sobre sua decisão de
encontrar o assassino de Clare Kem play, apelando à população por aj uda, dizendo: “Devem os caçar esse m aldito antes que ele tom e a vida de m ais um a m enina inocente”.
O detetive-chefe superintendente Oldm an disse tam bém que a
polícia está particularm ente interessada em conversar com qualquer pessoa que tenha estado nas vizinhanças de Devil’s Ditch, em Wakefield, na noite de 13 de dezem bro, sexta-feira, ou bem cedo na m anhã do sábado, 14 de dezem bro.
A Polícia Metropolitana de West Yorkshire pede que qualquer
pessoa que tenha inform ações entre em contato direto com o departam ento de Hom icídios, pelo telefone Wakefield 3838 ou 3839, ou então dirigindo-se à delegacia m ais próxim a. Todas as ligações serão estritam ente confidenciais.
A reportagem era ilustrada por duas fotografias: a foto escolar de Clare, que tam bém acom panhara m eu texto sobre seu desaparecim ento, e outra foto cinzenta das buscas policiais em Devil’s Ditch, Wakefield, onde o corpo de Clare fora encontrado.
Tirei o chapéu para Jack.
Cortei a prim eira página, enfiei no bolso do paletó e fui em direção à m esa de Barry Gannon. Abri a últim a gaveta e peguei a garrafa de Bells que ele guardava ali, servindo um a dose tripla num copo de café ainda pela m etade.
“Para você, Barry Gannon”.
Tinha gosto de m erda, m as eu peguei m ais um copo de café frio em outra m esa e tom ei um a segunda dose.
“E agora para você, Ronald Dunford”.
Cinco m inutos m ais tarde, baixei a cabeça no tam po de m inha m esa e senti o cheiro de m adeira, de uísque e do dia de trabalho im pregnado em m inhas m angas. Pensei em ligar para a casa de Kathry n, m as o uísque deve ter produzido algum efeito com o café, e caí no sono entre as luzes brilhantes da redação.
— Acorde, Senhor Furo.
Abri um olho.
— Acorde para a vida, senhor dorm inhoco. O seu nam oradinho está na linha dois.
Abri m eu segundo olho.
Jack Whitehead estava sentado na cadeira de Barry, na frente da m esa de Barry, fazendo um sinal com um fone nas m ãos, apontando na m inha direção. Aquele lugar j á voltara à vida, preparando-se para a edição seguinte do j ornal. Eu m e sentei e fiz um sinal com a cabeça. Jack piscou, e o telefone tocou na m inha m esa.
Eu atendi.
— Alô.
Um a voz j ovem disse:
— Edward Dunford?
— Sim .
Seguiu-se um a pausa, depois um clique, pois Jack dem orou um tem po desligando o aparelho. Olhei para ele, que levantou as m ãos, com o quem diz que não está com etendo nenhum delito.
Todos riram .
Eu estava sem fôlego ao falar ao telefone:
— Quem é?
— Um am igo de Barry. Você conhece o pub Gaiety, na Roundhay Road?
— Conheço.
— Apareça na cabine de telefone do lado de fora, às dez.
E desligou.
Eu disse:
— Sinto m uito, m as preciso conversar com m eu editor antes. Se quiser, ligue de volta am anhã... Eu entendo. Obrigado. Adeus.
— Outra notícia quente?
— O m aldito Ratcatcher. Isso ainda vai m e m atar.
Todos riram .
Até o próprio Jack.
Nove e m eia da noite de segunda-feira, 16 de dezem bro de 1974.
Entrei no estacionam ento à frente do Gaiety Hotel, na Roundhay Road, em Leeds, e resolvi ficar ali fora por m eia hora. Desliguei o m otor, as luzes e perm aneci sentado no escuro do Viva, olhando para o estacionam ento, para as luzes do bar, para a cabine telefônica e para o próprio bar.
O Gaiety, um feio pub m oderno com todos os feiosos charm es antigos de qualquer pub entre Harehills e Chapeltown. Um restaurante que não servia com ida e um hotel sem cam as, isso era o Gaiety.
Acendi um cigarro, abri um pouco a j anela do carro e j oguei a cabeça para trás.
Cerca de quatro m eses antes, logo após a m inha volta ao norte, passei um dia inteiro, e parte do dia seguinte, quebrando a cabeça no Gaiety com George Greaves, Gaz do “Esportes” e Barry.
Isso acontecera cerca de quatro m eses antes, quando a volta ao norte ainda era um a novidade e passar pelo Gaiety era garantia de risadas e um a espécie de possibilidade de abrir os olhos.
Cerca de quatro m eses antes, quando Ronald Dunford, Clare Kem play e Barry Gannon ainda estavam vivos.
Aquela j ornada de dia inteiro não fora realm ente de m uito riso, m as acabou sendo um a boa introdução para o novo e ainda m uito verde repórter policial no norte da Inglaterra.
— Este é o território de Jack Whitehead — m urm urou George Greaves quando abrim os as portas e entram os no Gaiety, por volta das onze da m anhã daquele dia.
Após cerca de cinco horas eu j á queria voltar para casa, m as o Gaiety não seguia as leis locais e, m esm o sem oferecer com ida, cam as ou pista de dança, podia vender álcool das onze da noite às três da m anhã, por ser restaurante, hotel e discoteca, dependendo com qual policial conversávam os. E, ao contrário do que dizia o Queen’s Hotel, no centro da cidade, o Gaiety tam bém apresentava regularm ente shows de striptease na hora do alm oço. Além do m ais, em vez de um m enu de com idas quentes, o Gaiety tam bém oferecia a oportunidade única de com er qualquer m em bro de seu show de strip do alm oço a preços bem razoáveis. Lanche que Gaz do “Esportes” m e garantiu que valia um a nota de cinco libras.
— Ele foi nosso cam peão olím pico de salto, nosso Gaz, em Munique — disse George Greaves, sorrindo.
— Em bora ninguém se im porte m uito com isso — acrescentou Gaz.
A clientela do dia e da noite no Gaiety era bem parecida, alterando-se apenas em proporção. Durante o dia havia m ais prostitutas e m otoristas de táxi paquistaneses, e à noite aum entava o núm ero de operários e hom ens de negócios. Jornalistas de porre, policiais fora de serviço e latinos tam bém eram presença constante, de dia e de noite, dia após dia.
“Este é o território de Jack Whitehead.”
A últim a coisa que m e lem bro desse dia é ter vom itado um pouco m ais no carro, pensando que aquele era o território de Jack, não m eu.
Esvaziei o cinzeiro do Viva para fora da j anela e ouvi que o j uke-box do Gaiety, vencendo o barulho que se seguia a m ais um a rodada, voltara a tocar The Israelites. Fechei a j anela e fiquei im aginando quantas vezes eu devo ter escutado aquele m aldito disco, quatro m eses antes. Eles nunca se cansavam daquilo?
Às cinco para as dez, quando Young, Gifted and Black voltou a soar, saí do carro, abandonei m inhas lem branças e fiquei esperando ao lado da cabine telefônica.
Às dez em ponto, atendi o telefone ao segundo toque.
— Alô.
— Quem é?
— Edward Dunford.
— Está sozinho?
— Sim .
— Está dirigindo um Vauxhall Viva?
— Estou.
— Vá até a Harehills Lane, onde ela se cruza com a Chapeltown Road, e pare na frente do hospital.
E desligou.
Às dez e dez eu parei na frente do hospital Chapel Allerton, onde a Harehills Lane e a Chapeltown Road se encontram , form ando a grande Harrogate Road.
Às dez e onze alguém tentou abrir a porta do passageiro e bateu no vidro. Eu m e inclinei sobre o banco do passageiro e abri a porta.
— Dê a volta e siga m ais um a vez para Leeds — disse o Terno Marrom com cabelos laranj a, entrando no carro. — Alguém sabe que você está aqui?
— Não — respondi, dando a volta com o carro, pensando no m aldito Bowie.
— E a sua nam orada?
— O que tem ela?
— Ela sabe que está aqui?
— Não.
O Terno Marrom fungou profundam ente, com seu cabelo laranj a m ovendo-se de um lado para o outro.
— Vire à direita no parque.
— Aqui?
— É. E siga a estrada para baixo, em direção à igrej a.
No entroncam ento ao lado da igrej a, o Terno Marrom voltou a fungar com força e disse:
— Estacione por aqui e espere dez m inutos, depois cam inhe em direção a Spencer Place. Em cerca de cinco m inutos chegará a Spencer Mount, deve ser a quinta ou sexta à esquerda. O núm ero 3 está à direita. Não toque a cam painha, suba diretam ente ao apartam ento 5.
E eu repeti:
— Apartam ento 5, núm ero 3 da Spencer Mount...
Mas o Terno Marrom com seu cabelo laranj a desceu do carro e saiu correndo.
Por volta das dez e m eia eu cam inhava pela Spencer Place, pensando: “Foda-se aquele hom em e toda essa m erda. E foda-se m ais um a vez por m e fazer descer a Spencer Place às dez e m eia da noite, com o se aquilo fosse um a espécie de j ogo”.
— Está só olhando, m eu am or?
Das dez da noite às três da m anhã, sete noites por sem ana, a Spencer Place era a rua m ais m ovim entada de Yorkshire, sem contar a área de Manningham , em Bradford. E aquela noite, m esm o com todo o frio, não seria um a exceção. Os carros subiam e desciam a rua, com as luzes de freio acesas, com o se estivéssem os em pleno feriado prolongado.
— Está gostando do que vê?
A m ulher m ais velha sentou-se nas m uretas baixas, enquanto as m ais j ovens cam inhavam para cim a e para baixo, batendo com as botas no chão para afastar o frio.
— Com licença, senhor Escritório.
Os únicos hom ens na rua eram latinos, entrando e saindo dos estacionam entos, erguendo pesadas colunas de fum aça e com m úsica de fundo a acom panhá-los, m antendo o olho vivo sobre suas garotas.
— Seu idiota!
A gargalhada m e seguiu enquanto eu girava a esquina, na Spencer Mount. Atravessei a rua e subi três lances de escada, até chegar à porta do núm ero 3, sobre a qual fora pintada um a Estrela de Davi no vidro cinzento.
Da Yid Town à Cidade do Lixo, que viagem ...
Abri a porta e subi a escada.
— Ótim a vizinhança — eu disse.
— Um a m erda — reclam ou o Terno Marrom , com a porta de entrada do apartam ento aberta.
Era um a quitinete com m uita m obília, j anelas grandes e o cheiro de m uitos invernos do norte. Karen Carpenter estava presente em todas as paredes, m as o rei por ali era Ziggy, tocando guitarra dentro de um a pequena Dancette. Havia luzes de Natal, m as nenhum a árvore.
O Terno Marrom tirou algum as roupas de cim a de um a cadeira e disse:
— Por favor, Eddie, sente-se.
— Acho que você tem um a vantagem sobre m im ... — eu disse, sorrindo.
— Barry Jam es Anderson — disse Barry Jam es Anderson, orgulhoso.
— Outro Barry ? — A cadeira cheirava m al.
— É, m as pode cham ar este aqui de BJ — ele disse, sorrindo. — Todo m undo m e cham a assim .
— Certo.
— É isso aí, o m eu nom e é BJ.
Ele parou de sorrir e correu em direção a um arm ário no canto do quarto.
— Com o você conheceu Barry ? — perguntei, im aginando se Barry era veado.
— Nos vim os por aí, você sabe... e conversam os.
— Se viram por aí, onde?
— Por aí. Aceita um a xícara de chá? — perguntou, m exendo nos fundos do arm ário.
— Não, obrigado.
— Acom ode-se.
Acendi um cigarro e peguei um prato suj o para fazer as vezes de cinzeiro.
— Tom a — disse BJ, oferecendo-m e um a sacola do Hillards, que tirou do fundo do arm ário. — Ele queria que você ficasse com isto caso acontecesse algo.
— Caso acontecesse algo com ele? — perguntei, abrindo a sacola. Estava cheia de papéis carbonados e envelopes pardos. — O que é isso?
— O trabalho da vida dele.
Apaguei m eu cigarro em cim a de m olho de tom ate endurecido.
— Por quê? Quero dizer, por que ele deixou tudo isso aqui?
— Com igo, você quer dizer? — disse BJ, fungando. — Ele esteve aqui na noite passada. Disse que precisava de um lugar seguro para guardar tudo isso. E, caso algo acontecesse com ele, disse que eu deveria entregar tudo a você.
— Ontem à noite?
BJ sentou-se na cam a e tirou o paletó.
— É.
— Eu te vi ontem à noite, certo? No Press Club?
— Viu... m as você não estava m uito bem , né?
A cam iseta dele estava coberta de centenas de estrelinhas.
— Eu estava péssim o.
— Isso faz sentido — ele disse, sorrindo de form a afetada.
Acendi outro cigarro, odiando a visão daquele veadinho com cam iseta estrelada.
— Que m erda você fazia com Barry ?
— Eu vi algum as coisas, sabe?
— Im agino — eu disse, olhando para o relógio de m eu pai.
Ele pulou da cam a.
— Ouça, não quero te prender aqui.
Eu m e levantei.
— Sinto m uito. Sente-se, por favor. Sinto m uito.
BJ voltou a sentar-se, m as m anteve o nariz em pinado.
— Eu conheço algum as pessoas.
Eu m e levantei, com as m ãos erguidas.
— Eu sei, eu sei...
— Ouça, eu j á chupei m uito pau e lam bi o saco de alguns dos m ais im portantes hom ens deste país.
— Quem , por exem plo?
— Ah, não. Não vai ser assim tão fácil.
— Certo. Mas por que fez isso?
— Por dinheiro. Por que m ais seria? Ou você acha que eu gosto de ser quem sou? Que gosto deste corpo? Olhe para m im ! Eu não sou isso. — Ele estava de j oelhos, agarrando sua cam iseta de estrelinhas. — Eu não sou um veado. Sou um a m ulher — gritou, ficando de pé e acariciando um a das fotos de Karen Carpenter, atirando-a na m inha cara. — Ela sabe o que é isso. Ele sabe — disse ele, virando o corpo e ligando o som , colocando Ziggy nas alturas.
Barry Jam es Anderson caiu no chão quando a m úsica com eçou a tocar, enterrando a cabeça no assoalho, trem endo.
— Barry sabia.
Eu m e sentei e depois fiquei de pé outra vez. Fui até aquele m enino da cam iseta estrelada e calça m arrom e agarrei o seu corpo, arrastando-o gentilm ente à cam a.
— Barry sabia — ele m urm urou novam ente.
Baixei o som , m as a m úsica era depressiva e tive de desligar, voltando a m e sentar na cadeira.
— Você gostava de Barry ?
Ele secou o rosto e ergueu o corpo, m e olhando.
— Sim , m as não o conhecia tão bem .
Os olhos de BJ estavam lacrim ej ando outra vez.
— Ele gostava de você.
— Por que ele achou que algo aconteceria?
— Pare com isso! Porra, era óbvio.
— Por que era óbvio?
— Isso não poderia continuar assim . Ele estava envolvido com m uita gente.
— John Dawson? — perguntei, inclinando o corpo para a frente.
— John Dawson é apenas a ponta do m aldito iceberg. Você não leu o que ele escrevia? — E apontou para a sacola que m e entregara.
— Só o que ele publicou no Post — m enti.
Ele sorriu.
— Está tudo m etido aí dentro.
Eu odiava a m aneira com o ele falava, seus j oguinhos, aquele apartam ento.
— Para onde ele foi ontem à noite, ao sair daqui?
— Disse que ia te aj udar.
— Me aj udar?
— Foi o que ele disse. Algo a ver com aquela m enina de Morley, sobre com o ele poderia relacionar tudo aquilo.
Fiquei de pé.
— O que você quer dizer? O que ele disse sobre ela?
— Isso foi tudo o que ele disse...
Tom ado por um a visão de asas costuradas às costas, corri para perto de Barry Jam es Anderson, gritando:
— Pense!
— Eu não sei. Ele não disse.
Eu o agarrava pela cam iseta de estrelas, pressionando-o contra a cam a.
— Ele falou algum a coisa sobre Clare?
— Clare? — Seu hálito fedia tanto quanto aquele apartam ento, e eu o sentia bem perto do rosto.
— A m enina m orta.
— Ele disse que ia a Morley, para te aj udar.
— Mas com o poderia m e aj udar?
— Ele não disse, porra! Quantas vezes vou ter que repetir?
— Não disse nada?
— Nada. Vai m e soltar agora?
Agarrei sua boca e apertei-a com força.
— Não. Quero que m e diga por que Barry lhe contou isso — im plorei, apertando seu rosto com força antes de soltá-lo.
— Talvez porque eu tenha os olhos abertos. Talvez porque eu vej a coisas e m e lem bre delas. — Seu lábio inferior sangrava.
Olhei para as estrelas preateadas e soltei a cam isa.
— Você não sabe de m erda nenhum a.
— Acredite no que quiser.
Eu m e levantei e corri em direção à sacola do Hillards.
— Certo.
— Você deveria dorm ir um pouco.
Peguei a bolsa e segui para a porta, que abri, depois voltei a olhar para ele, com um a últim a pergunta:
— Ele estava bêbado?
— Não, m as tinha bebido.
— Muito?
— Eu senti o cheiro. — Lágrim as rolavam por suas bochechas.
Deixei a sacola no chão.
— O que você acha que aconteceu com ele?
— Acho que o m ataram — ele disse, suspirando.
— Eles quem ?
— Não sei os nom es, e não quero saber.
Assom brado: “Há esquadrões da m orte em todas as cidades, em todos os países.”
Perguntei:
— Quem ? Dawson? A polícia?
— Eu não sei.
— Mas por quê, então?
— Por dinheiro, claro. Para ficar com algum a dessas coisas aí da sacola. Para j ogá-las no rio.
Olhei para o outro lado do quarto, para o pôster de Karen Carpenter abraçando um Mickey Mouse gigante.
Peguei a sacola.
— Com o poderia te encontrar?
Barry Jam es Anderson sorriu:
— 442189. Diga que Eddie ligou, que eu receberei a m ensagem .
Anotei o núm ero.
— Obrigado.
— Pode dizer isso.
Desci correndo a Spencer Place e segui acelerado em direção a Leeds, pela M1, rezando para nunca m ais encontrar aquele rapaz.
Planeta dos macacos, Terror na escuridão, teorias:
A chuva no para-brisa, a lua roubada.
Corta para a rua Chase:
Conheci um hom em que conhecia um hom em .
“Ele poderia relacionar tudo aquilo...”
Anj os com o dem ônios, dem ônios com o anj os.
O resum o de tudo aquilo:
AJA COMO SE NÃO ESTIVESSE ACONTECENDO NADA DE ERRADO.
Olhando para m inha m ãe dorm indo na poltrona, tentei relacionar tudo aquilo.
Aqui não.
Lá em cim a, esvaziando bolsas e envelopes, buscando entre pastas e fotografias, espalhando-as na m inha cam a.
Aqui não.
Meti tudo num grande saco de lixo preto, enchendo os bolsos com agulhas e alfinetes do m eu pai.
Aqui não.
Desci a escada, dei um beij o na testa de m inha m ãe e saí.
Aqui não.
Acelerando, chiando no am anhecer de Ossett.
Aqui não.