A bruxa não vai para a fogueira neste livro

Amanda Lovelace · Capítulo 7 de 12

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A bruxa não vai para a fogueira neste livro

I. o julgamento

os caras que passam o dia inteiro com fósforos entre os dedos nos colocam em fila & enfiam entre nossos dentes minúsculas flores amarelas com pontos pretos da erva que obriga a dizer a verdade. um a um, eles nos perguntam se sabemos de que crime somos culpadas. depois de uma breve pausa para pensar, falamos: “a única coisa de que somos culpadas é de sermos mulheres.” essa é, ao mesmo tempo, a reposta certa & errada. para os caras dos fósforos, nossa existência é a forma mais negra de magia, normalmente punida com a morte.

eles não sabem o que vem por aí. que fofos.

nós não devemos ter medo deles.

não não não.

eles é que devem ter medo de nós.

– a primeira lição de fogo.

nós damos poder

a tudo que

queremos,

mas também podemos

tirá-lo

novamente,

assim.

desse.

jeito.

a escolha

é inteiramente

nossa

& eles

querem

acabar conosco

antes que nós

tenhamos a chance

de acabar com eles.

– o segredo mais bem guardado.

sinto muito

mas devo confessar

que herdei

a raiva de minha mãe

& a

raiva das mães

que vieram

antes dela

& toda a

raiva das mães

que correu

pelos galhos

da nossa árvore genealógica

emaranhada.

– nada pode me extinguir.

para

todos

que disseram

que minha

bisavó

tinha,

sim,

um quê de bruxa:

ela não

se compara

a mim.

– & eu só estou começando.

o chão…

que pega fogo

onde quer que

uma mulher

encoste nele

seu pé

& se

você não tomar

cuidado,

exatamente

a mesma

coisa

pode

acontecer

com você.

– alguma destruição é bela.

esta é

uma carta de amor

há muito devida

para cada uma

& toda

mulher

que percorreu

esses campos

antes de mim

&

fez

o caminho

suave o bastante

para que eu

o atravessasse e

chegasse

ao lado

aonde eles não poderiam

nunca ir.

por isso

devo muito

a vocês.

– mas devo algumas coisas a mim mesma também.

existe

uma linha tênue

entre

ser

egoísta

e

ser

altruísta

&

na maioria dos dias

posso dizer

de que

lado

estou

&

na maioria dos dias?

eu não

ligo.

– existem algumas coisas que tenho que fazer por mim.

é isso mesmo,

sou

a mulher

com o

coração incendiário

sobre a qual

todos os seus pais

lhe advertiram

&

quando

uma árvore

pega fogo,

não demora muito

para que

toda a

floresta

esteja em chamas.

– ainda assim nunca me importo com quem se machuca.

pelos deuses, espero que eu consiga apavorar você.

fique

de olho

em

todas essas

mulheres

desgrenhadas e

silenciosamente

despreocupadas.

você sabe

que não pode

deter

um incêndio,

não sabe?

– encrenca encrenca.

mulheres:

nós podemos

fazer

o u r o

do

l i x o.

– um feitiço.

mulheres:

nós podemos

criar

f o g o

do

a r.

– um feitiço II.

algumas vezes

as mulheres sangram;

algumas vezes

não.

não

podemos ser

assim tão facilmente

divididas

em caixas

pré-fabricadas,

embrulhadas

com laços e fitas cor-de-rosa.

– toda mulher é autêntica.

as mulheres são

consideradas

posses

antes de sermos

consideradas

seres humanos,

& se nossas portas

& nossas janelas

forem arrombadas

por homens perversos,

então somos julgadas

sem valor…

excluídas,

desprezadas.

então nos mudamos dos

nossos bairros

& criamos lares

em cada uma de nós.

– fechamos aquelas portas & comemos aquelas chaves.

as mulheres

aprendem

a pressentir

com o que quem

o perigo

se parece

apenas

percebendo

o olhar de

uma mulher

do outro lado

de uma sala

lotada.

– sobrevivência.

as mulheres

transmitem

umas às outras

instruções

sobre como

saber se

nossas bebidas

estão batizadas

& sempre se oferecer

para ficar de guarda

nas portas frágeis

dos banheiros públicos

umas para as outras.

– sobrevivência II.

o

único momento

em que sei

o que

estar segura

significa

é

quando

estou numa

sala

transbordando

de luz

& o riso

de mulheres

preenche

todo o ambiente,

do chão ao teto,

com cheiro de lavanda

& cria

uma porta

com uma tranca

que nenhum homem

pode

jamais arrombar.

– segurança nunca foi nosso privilégio.

nós sabemos como

manter as mulheres a salvo

das

garras afiadas dos

velhos dragões de olhos apertados

e insinuadores

& quando não somos

rápidas o bastante para agir

sabemos exatamente o que

temos que fazer:

caminhar pela

fogueira crepitante

& nadar por

quilômetros de fossos

& escalar as

torres cintilantes

& fazer as feras

implorarem por nossa misericórdia.

– predadores.

finalmente nos recusamos

a ser vistas apenas como

corpos destinados

para o uso&consumo

dos homens,

então incendiamos

as nuvens para

fazê-los balançar,

para mostrar a eles

que podemos coexistir

maravilhosamente,

mas

eles escolheram

tomar isso como uma ameaça

& nunca

nos perdoaram

completamente

por reclamar

a porção do céu

que sempre foi nossa por direito.

– quando aspirar ao céu é inconveniente.

quando nossas habilidades

se tornaram muitas,

eles tentaram

nos trancar

na escuridão

sem ao menos

uma vela

para nos guiar.

mal

sabiam

que o nosso

fogo-raiva de mulher

iluminaria

nosso caminho para casa

muito bem.

 

– você é o seu próprio farol.

o homem com aquela expressão de matador de bruxas nos olhos bebe com vontade da xícara lilás lascada e, com as mãos tremendo, a faz tilintar no pires quando a coloca de volta. meu estômago revira quando o líquido escuro escorre pelo queixo dele, formando linhas. ansiosamente o homem empurra a xícara e o pires na minha direção pela mesa velha e pouco firme & rapidamente viro a xícara no pires para tirar o excesso de líquido. quando a desviro, vejo a borra de folhas marrom & pretas encharcadas, de vários tamanhos e formas, que fica no fundo. observo-as por um momento & imediatamente desvio o olhar, esfregando nervosamente as mãos na minha saia. não há nenhuma dúvida sobre o que isso significa.

“e então? o que está dizendo aí?”, pergunta ele.

eu continuo olhando para baixo. “as folhas dizem que você vai… pagar caro.”

“o-o quê?”, balbucia ele, com os olhos que quase transbordam de terror.

“elas dizem que… você vai pagar caro”, sussurro.

– as folhas não mentem jamais.

ser uma

mulher

é estar

pronta para a guerra,

sabendo

que todas as probabilidades

estão

contra você.

– & nunca desistir apesar disso.

batom vermelho:

um sinal externo

do fogo

interno.

– nós tentamos avisar você.

batom vermelho:

grito de guerra.

grito de guerra.

grito de guerra.

– nós tentamos avisar você II.

eles riscaram isso

dos livros de história,

mas em todas

as grandes invenções

você encontrará

marcas de queimado

no formato das

mãos

magníficas

de uma mulher.

não esqueça:

precisamos ser

os livros de história

agora.

– as mulheres são bibliotecas prestes a explodir.

as mulheres

aguentam

não apenas porque

somos capazes disso;

não,

as mulheres aguentam

porque não temos

nenhuma outra

opção.

– eles nos queriam fracas e nos obrigaram a ser fortes.

eles nos

assistiriam queimar

antes que

achássemos

que podemos ser

o que somos,

antes que

achássemos

que somos capazes

de qualquer coisa

muito mais

do que eles são.

– a triste, triste verdade.

eles

vão tentar

roubar

sua luz

& usá-la como

uma arma

contra

você mesma.

mas há

uma

boa

notícia:

eles

não têm

perseverança para

controlá-la

como você tem.

“não há motivo

para ter medo”,

os caras dos fósforos

nos dizem bem antes

de jogar

montes

& montes

de fósforos.

“não seja tão dramática, porra”,

os caras dos fósforos

nos dizem enquanto nossa pele

cai pelo chão.

“você é sempre exagerada”,

os caras dos fósforos

dizem para os reflexos

deles nas poças.

– eles só queriam que fosse assim desse jeito.

sempre coloque a si mesma em primeiro lugar.

sacrifique-se por sua própria

decisão.

– 1º mandamento das bruxas.