A bruxa não vai para a fogueira neste livro
II. a queima
“a única coisa de que somos culpadas é de sermos mulheres”, dizemos a eles,
& isso é tudo que eles ouvem.
isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de nos atacarem. isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de nos juntarem como gado, mulheres adultas e crianças da mesma forma. isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de mostrarem as cordas que escondem atrás das costas. isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de nos amarrarem no mesmo carvalho, nos forçando a dar as mãos umas às outras em busca de conforto. (“vamos d-dar a meia-volta, v-volta e meia vamos dar…”)
isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de levantar os pés e riscar os fósforos na sola das suas botas.
– a segunda lição de fogo.
para
os homens,
as mulheres
são como
botões de rosa
delicados.
até mesmo
o jeito
que eles
nos esmagam
embaixo de
seus pés zangados
os deixam
excitados.
– murchar antes de florescer.
eles
nos dizem
mais uma & mais uma
& mais uma
vez
que as mulheres
precisam
ficar
pequenas/
finas/
muito magras/
diminutas.
assim
somos
facilmente
colocadas no bolso
para ser usadas
& jogadas fora
mais
tarde.
curvas
& gordura
& pneus
são um
colossal
“foda-se”
ao
patriarcado…
nossa rebelião
inesperada.
– meu corpo rejeita seus desejos.
ela tem
tanto medo
de
ocuparespaço
que mesmo
o peso
de seus
ossos
às vezes
parece
muito.
– a garota oca.
&
ela
começa a se
perguntar
se beijos
têm
calorias
& quanto
tempo leva
para
queimá-las.
– a garota oca II.
I. água.
II. café&chá.
III. adoçante zero caloria.
IV. lanchinhos de cem calorias.
V. um corpo tão sem peso que ninguém mais pode possuí-lo.
– a lista de compras da garota oca.
“estou gorda”,
eu disse.
“não,
você está linda.
você é
maravilhosa,
esplêndida
extraordinária”,
ele
respondeu.
mas
será que
você não
entende que
posso ser todas
essas coisas
ao mesmo
tempo?
pensei mas não disse.
– palavras como punhais.
nas nossas barrigas:
fogo fogo fogo
& às vezes
quase mais
nada.
– esses são os jogos vorazes da vida real.
nas nossas mãos:
brasas brasas brasas
apenas esperando
uma oportunidade
de pegar fogo.
– pegar fogo é tão, tão fácil.
os
homens
nos fazem
dançar
para
eles
até que
nossos pés
sangrem
&
então
eles nos
dizem apenas
para trocar
nossas pantufas
de rosa
para
v
e
r
m
e
l
h
o.
– a boneca dançarina predileta deles.
quando a namorada dele
sai de cena à esquerda
todos os aldeões depravados
se reúnem & reúnem,
o cochicharcochicharcochicar
do mar dos homens mortos
enquanto ele recebe a tão esperada permissão das sombras
& estica a mão
para meu cabelo preto como a água à noite, e o torce como uma corda em volta do seu punho que não perdoa,
meu pescoço jogado para trás
igual ao caule do lírio branco
logo antes de
suspirar & quebrar.
ele se inclina
para me beijar com sua
boca linda de motosserra,
manchada de sangue,
& na manhã seguinte,
todas as moças da aldeia têm seu tom de sangue favorito
escorrendo da marca de batom
que leva o meu nome.
– o abuso não deve ser romantizado.
dizer que
nem todos os homens
têm
más intenções
não me
ajuda a
me sentir
segura.
depois que eu
deixar você
nada terá
mudado.
eu ainda
terei medo de
sair de casa
depois do pôr do sol,
ainda
sentirei conforto
com as chaves na mão
como uma arma,
ainda
vou questionar
as intenções de cada homem que conhecer,
ainda
vou me perguntar
quando me
tornarei
uma história
feita para alertar
as filhas
de outras pessoas,
& ainda
vou chorar quando ligar
a televisão
e ver
mais uma vez
outro homem
se safar
de…
bem,
do que eles
sempre parecem
se safar.
eu não sou
aquela que
tem que mudar
a maneira de pensar
ou de agir.
eles é que têm.
– expectativas vs. realidade.
engulo
minha língua
por medo
tantas vezes
que
o sangue
encontrou
um
lar
permanente
nos
espaços
entre
meus
dentes.
– esse é o gosto de ser mulher.
fomos
forçadas a
passar por cima
dos fósforos
ainda incandescentes
que eles usaram
para eliminar nossas
ancestrais
&
nós
ainda
s u s s u r r a m o s
as desculpas
esperadas
quando
nossos pés
ficam chamuscados.
– um arrependimento congênito.
as primeiras palavras de uma mulher:
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
as últimas palavras de uma mulher:
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
“me desculpe.”
eles tentam
nos convencer
de que nossos estupradores
serão apenas
estranhos
à espreita nos arbustos
na escuridão da
noite escura,
que devemos
ter
spray de pimenta
e canivetes
bem
arrumadinhos dentro
de nossas bolsas
o tempo todo
(porque
aparentemente
mesmo o ato
de tentar
não ser estuprada
deve parecer
adorável
& feminino),
então
quando
nossos estupradores
são
nossos avôs/pais/
irmãos/tios/primos/
melhores amigos/namorados/
maridos,
não temos palavras
para dizer isso
& ninguém está disposto a
nos ajudar a acender nossas tochas.
– tudo é uma aflição.
o que a cultura do estupro faz:
me enche de
um alívio fugaz
quando descubro
que escapei
do meu ex-namorado
antes de ele se tornar
um estuprador
& não depois.
– o veneno se infiltrou em tudo.
nós passamos vidas inteiras
à procura de nosso caminho
por campos de trevos
escassos,
esperando, rezando,
braços, olhos
pés & pernas
fechados
que nós não sejamos
aquela 1 em 6
que terminou
de mãos vazias,
&
nós nunca somos
capazes de perdoar
a nós mesmas por ser
aquela que colhe
a esperança em tons de ametista verde antes que as mãos de uma outra
apenas v a r r a m o ar delicado.
– segurança & sorte de mãos dadas uma com a outra.
eu
não me
lembro
de aceitar
ser uma
fatalidade
desses
desastres
provocados pelo homem.
– ciclone.
ninguém deve
ter que carregar
o insuportável
peso de um
colchão pesado
nas costas pela
vida inteira.
– para emma sulkowicz.
estou tendo pesadelos de novo. aquele em que o bosque retorcido ganha vida & o homem-árvore com os galhos afiados e nodosos se desenraiza do solo & vem se arrastando para cima de mim. eu reconheceria o rosto dele em qualquer lugar. é o rosto que eles desenharam pelo fluxo das minhas palavras trêmulas de 11 anos de idade. depois de todos esses anos ele finalmente se desenraiza porque homens perversos raramente são punidos por muito tempo. seu latido é seco & áspero & seus frutos expostos apodrecem por dentro & não consigo pedalar minha bicicleta amarela para longe o suficiente. as rodas ficam presas na lama grossa da primavera & de repente estou afundando & ele exala vingança & sei que nada vai detê-lo dessa vez porque homens perversos não param até punir qualquer uma que tente lhes dizer que o mundo não está ao seu dispor enquanto o vento lhes sussurra: “pegue-a, pegue-a, pegue-a.”
– é com isso que as mulheres sonham.
os homens,
eles estão me
a r r a s t a n d o
para
a floresta de sombras
aonde nem mesmo
os lobos
ousam ir.
eles usam
meu corpo
como os homens
usam os corpos
das mulheres
& quando eles
finalmente terminam
comigo
cortam
minha língua
meus peitos
minhas mãos
meus pés
& não deixam
para trás nenhuma linha
para que eu
costure
a mim
mesma
de novo.
– é com isso que as mulheres sonham II.
I. não estupre.
II. não estupre.
III. não estupre.
IV. não estupre.
V. não estupre.
VI. não estupre.
VII. não estupre.
VIII. não estupre.
IX. não estupre.
X. não estupre.
XI. não estupre.
XII. não estupre.
XIII. não estupre.
XIV. não estupre.
XV. não estupre.
– como evitar cometer uma violência sexual contra alguém.
mas
e se
o demônio
é apenas
uma mulher
que foi
banida
para o inferno
para alimentar
as chamas
como
castigo
por
ter enfrentado
os homens?
– lilith.
ele
disse a ela
para não
brincar
com o seu
pobre
coração-
zinho
então ela
o poupou
indo
e m b o r a
&
foi
quando ele
roubou
todos os
sorrisos dela
& jogou-os
nas
águas
escuras&geladas
de dezembro.
– às mulheres que perderam a batalha, que descansem em paz. alguns
pais
vão
q u e b r a r
os dentes
de suas
filhas
com dedos
esfolados
&
quando
o punho
do seu namorado
vier
na sua direção
ela vai
oferecer a ele
um sorriso
com o lábio aberto.
“é igualzinho lá em casa”,
ela dirá.
– ela nem teve que bater os pés como dorothy.
nosso
ser mesmo
é considerado
uma inconveniência,
nossos corpos,
casas desocupadas
envoltas por camadas
de fita amarela,
nossas pernas,
portas duplas
para um homem
(& apenas um homem)
forçar a entrada para
poder nos invadir
& colocar lá seus
móveis,
sem nunca
nos perguntar
o que achamos das cortinas.
– eles nos amam vazias, vazias, vazias.
às vezes seus demônios
serão homens
que mostram covinhas
quando dizem “obrigado”
& abrem as portas para qualquer
mulher que se aproxime
& lhe mandam
mensagens de bom-dia/boa-noite
& se lembram
do nome de solteira da sua mãe
& surpreendem você com um bom café em todos os seus dias ruins.
& com a mesma voz
que usa para dizer
que ama você,
ele contará
como sonhou
em matá-la
de várias maneiras diferentes noite passada
& acordou
desejando muito isso.
– é com isso que os homens sonham.
&
os homens
vão sempre sentar
(muito) perto
de você
&
alegar que eles
só querem
ser aquecidos
pelo seu
fogo
&
eles vão
sorrir enquanto
engarrafam
suas
fagulhas
&
mais tarde vão
contar a todo mundo
que sabem como
fazer uma fogueira bem grande
& terrível
completamente
sozinhos.
– as mulheres sempre nascem durante um eclipse.
eles
acham que
podem escrever
nossas histórias
porque
suas mães
os deixaram
percorrer com a ponta do dedo
a palma das mãos delas
mas
suas palavras
nitidamente
nunca exalarão
fumaça.
– você realmente acha que tem que chorar pela casa em que colocou fogo?
eu não preciso de você
para escrever minha história.
eu a escrevo
todos os dias
& você não pode
nem traduzir
a porra da
pontuação.
– ela.
pronto para uma
verdade dura?
as mulheres
não precisam
da sua validação.
nós
já temos
a nossa própria.
– meu próprio valor não deveria parecer um ato de coragem.
os homens
muito frequentemente alegam
que somos
romances de mistério
com
um simbolismo coletivo
ao mesmo tempo
muito frívolo
& muito difícil
para que eles
sequer sonhem
em nos entender,
então em vez de
perderem tempo desvendando
nossos enredos complexos,
eles escolhem
a saída mais fácil…
e jogam gasolina em nós,
lançam
fósforos sobre
seus ombros,
&
riem enquanto
vão embora.
– chamem-nos de alexandria.
seguindo
os
passos
do
tolo
ícaro,
os homens
foram
tentados
a resvalar com a ponta dos dedos
nossas chamas
impressionantes
& tiveram
a ousadia
de ficar surpresos
quando suas asas de cera
fabricadas
– mas tente não reagir exageradamente, querido.
você não sabe que
a aflição de uma mulher
pode causar
e x p l o s õ e s
em outras
dimensões?
– se não sabe, vai descobrir.
queime todos os que tentarem queimar você.
– 2º mandamento das bruxas.