A bruxa não vai para a fogueira neste livro

Amanda Lovelace · Capítulo 8 de 12

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A bruxa não vai para a fogueira neste livro

II. a queima

“a única coisa de que somos culpadas é de sermos mulheres”, dizemos a eles,

& isso é tudo que eles ouvem.

isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de nos atacarem. isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de nos juntarem como gado, mulheres adultas e crianças da mesma forma. isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de mostrarem as cordas que escondem atrás das costas. isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de nos amarrarem no mesmo carvalho, nos forçando a dar as mãos umas às outras em busca de conforto. (“vamos d-dar a meia-volta, v-volta e meia vamos dar…”)

isso é tudo o que eles precisam ouvir antes de levantar os pés e riscar os fósforos na sola das suas botas.

– a segunda lição de fogo.

para

os homens,

as mulheres

são como

botões de rosa

delicados.

até mesmo

o jeito

que eles

nos esmagam

embaixo de

seus pés zangados

os deixam

excitados.

– murchar antes de florescer.

eles

nos dizem

mais uma & mais uma

& mais uma

vez

que as mulheres

precisam

ficar

pequenas/

finas/

muito magras/

diminutas.

assim

somos

facilmente

colocadas no bolso

para ser usadas

& jogadas fora

mais

tarde.

curvas

& gordura

& pneus

são um

colossal

“foda-se”

ao

patriarcado…

nossa rebelião

inesperada.

– meu corpo rejeita seus desejos.

ela tem

tanto medo

de

ocuparespaço

que mesmo

o peso

de seus

ossos

às vezes

parece

muito.

– a garota oca.

&

ela

começa a se

perguntar

se beijos

têm

calorias

& quanto

tempo leva

para

queimá-las.

– a garota oca II.

I. água.

II. café&chá.

III. adoçante zero caloria.

IV. lanchinhos de cem calorias.

V. um corpo tão sem peso que ninguém mais pode possuí-lo.

– a lista de compras da garota oca.

“estou gorda”,

eu disse.

“não,

você está linda.

você é

maravilhosa,

esplêndida

extraordinária”,

ele

respondeu.

mas

será que

você não

entende que

posso ser todas

essas coisas

ao mesmo

tempo?

pensei mas não disse.

– palavras como punhais.

nas nossas barrigas:

fogo fogo fogo

& às vezes

quase mais

nada.

– esses são os jogos vorazes da vida real.

nas nossas mãos:

brasas brasas brasas

apenas esperando

uma oportunidade

de pegar fogo.

– pegar fogo é tão, tão fácil.

os

homens

nos fazem

dançar

para

eles

até que

nossos pés

sangrem

&

então

eles nos

dizem apenas

para trocar

nossas pantufas

de rosa

para

v

e

r

m

e

l

h

o.

– a boneca dançarina predileta deles.

quando a namorada dele

sai de cena à esquerda

todos os aldeões depravados

se reúnem & reúnem,

o cochicharcochicharcochicar

do mar dos homens mortos

enquanto ele recebe a tão esperada permissão das sombras

& estica a mão

para meu cabelo preto como a água à noite, e o torce como uma corda em volta do seu punho que não perdoa,

meu pescoço jogado para trás

igual ao caule do lírio branco

logo antes de

suspirar & quebrar.

ele se inclina

para me beijar com sua

boca linda de motosserra,

manchada de sangue,

& na manhã seguinte,

todas as moças da aldeia têm seu tom de sangue favorito

escorrendo da marca de batom

que leva o meu nome.

– o abuso não deve ser romantizado.

dizer que

nem todos os homens

têm

más intenções

não me

ajuda a

me sentir

segura.

depois que eu

deixar você

nada terá

mudado.

eu ainda

terei medo de

sair de casa

depois do pôr do sol,

ainda

sentirei conforto

com as chaves na mão

como uma arma,

ainda

vou questionar

as intenções de cada homem que conhecer,

ainda

vou me perguntar

quando me

tornarei

uma história

feita para alertar

as filhas

de outras pessoas,

& ainda

vou chorar quando ligar

a televisão

e ver

mais uma vez

outro homem

se safar

de…

bem,

do que eles

sempre parecem

se safar.

eu não sou

aquela que

tem que mudar

a maneira de pensar

ou de agir.

eles é que têm.

– expectativas vs. realidade.

engulo

minha língua

por medo

tantas vezes

que

o sangue

encontrou

um

lar

permanente

nos

espaços

entre

meus

dentes.

– esse é o gosto de ser mulher.

fomos

forçadas a

passar por cima

dos fósforos

ainda incandescentes

que eles usaram

para eliminar nossas

ancestrais

&

nós

ainda

s u s s u r r a m o s

as desculpas

esperadas

quando

nossos pés

ficam chamuscados.

– um arrependimento congênito.

as primeiras palavras de uma mulher:

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

as últimas palavras de uma mulher:

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

“me desculpe.”

eles tentam

nos convencer

de que nossos estupradores

serão apenas

estranhos

à espreita nos arbustos

na escuridão da

noite escura,

que devemos

ter

spray de pimenta

e canivetes

bem

arrumadinhos dentro

de nossas bolsas

o tempo todo

(porque

aparentemente

mesmo o ato

de tentar

não ser estuprada

deve parecer

adorável

& feminino),

então

quando

nossos estupradores

são

nossos avôs/pais/

irmãos/tios/primos/

melhores amigos/namorados/

maridos,

não temos palavras

para dizer isso

& ninguém está disposto a

nos ajudar a acender nossas tochas.

– tudo é uma aflição.

o que a cultura do estupro faz:

me enche de

um alívio fugaz

quando descubro

que escapei

do meu ex-namorado

antes de ele se tornar

um estuprador

& não depois.

– o veneno se infiltrou em tudo.

nós passamos vidas inteiras

à procura de nosso caminho

por campos de trevos

escassos,

esperando, rezando,

braços, olhos

pés & pernas

fechados

que nós não sejamos

aquela 1 em 6

que terminou

de mãos vazias,

&

nós nunca somos

capazes de perdoar

a nós mesmas por ser

aquela que colhe

a esperança em tons de ametista verde antes que as mãos de uma outra

apenas v a r r a m o ar delicado.

– segurança & sorte de mãos dadas uma com a outra.

eu

não me

lembro

de aceitar

ser uma

fatalidade

desses

desastres

provocados pelo homem.

– ciclone.

ninguém deve

ter que carregar

o insuportável

peso de um

colchão pesado

nas costas pela

vida inteira.

– para emma sulkowicz.

estou tendo pesadelos de novo. aquele em que o bosque retorcido ganha vida & o homem-árvore com os galhos afiados e nodosos se desenraiza do solo & vem se arrastando para cima de mim. eu reconheceria o rosto dele em qualquer lugar. é o rosto que eles desenharam pelo fluxo das minhas palavras trêmulas de 11 anos de idade. depois de todos esses anos ele finalmente se desenraiza porque homens perversos raramente são punidos por muito tempo. seu latido é seco & áspero & seus frutos expostos apodrecem por dentro & não consigo pedalar minha bicicleta amarela para longe o suficiente. as rodas ficam presas na lama grossa da primavera & de repente estou afundando & ele exala vingança & sei que nada vai detê-lo dessa vez porque homens perversos não param até punir qualquer uma que tente lhes dizer que o mundo não está ao seu dispor enquanto o vento lhes sussurra: “pegue-a, pegue-a, pegue-a.”

– é com isso que as mulheres sonham.

os homens,

eles estão me

a r r a s t a n d o

para

a floresta de sombras

aonde nem mesmo

os lobos

ousam ir.

eles usam

meu corpo

como os homens

usam os corpos

das mulheres

& quando eles

finalmente terminam

comigo

cortam

minha língua

meus peitos

minhas mãos

meus pés

& não deixam

para trás nenhuma linha

para que eu

costure

a mim

mesma

de novo.

– é com isso que as mulheres sonham II.

I. não estupre.

II. não estupre.

III. não estupre.

IV. não estupre.

V. não estupre.

VI. não estupre.

VII. não estupre.

VIII. não estupre.

IX. não estupre.

X. não estupre.

XI. não estupre.

XII. não estupre.

XIII. não estupre.

XIV. não estupre.

XV. não estupre.

– como evitar cometer uma violência sexual contra alguém.

mas

e se

o demônio

é apenas

uma mulher

que foi

banida

para o inferno

para alimentar

as chamas

como

castigo

por

ter enfrentado

os homens?

– lilith.

ele

disse a ela

para não

brincar

com o seu

pobre

coração-

zinho

então ela

o poupou

indo

e m b o r a

&

foi

quando ele

roubou

todos os

sorrisos dela

& jogou-os

nas

águas

escuras&geladas

de dezembro.

– às mulheres que perderam a batalha, que descansem em paz. alguns

pais

vão

q u e b r a r

os dentes

de suas

filhas

com dedos

esfolados

&

quando

o punho

do seu namorado

vier

na sua direção

ela vai

oferecer a ele

um sorriso

com o lábio aberto.

“é igualzinho lá em casa”,

ela dirá.

– ela nem teve que bater os pés como dorothy.

nosso

ser mesmo

é considerado

uma inconveniência,

nossos corpos,

casas desocupadas

envoltas por camadas

de fita amarela,

nossas pernas,

portas duplas

para um homem

(& apenas um homem)

forçar a entrada para

poder nos invadir

& colocar lá seus

móveis,

sem nunca

nos perguntar

o que achamos das cortinas.

– eles nos amam vazias, vazias, vazias.

às vezes seus demônios

serão homens

que mostram covinhas

quando dizem “obrigado”

& abrem as portas para qualquer

mulher que se aproxime

& lhe mandam

mensagens de bom-dia/boa-noite

& se lembram

do nome de solteira da sua mãe

& surpreendem você com um bom café em todos os seus dias ruins.

& com a mesma voz

que usa para dizer

que ama você,

ele contará

como sonhou

em matá-la

de várias maneiras diferentes noite passada

& acordou

desejando muito isso.

– é com isso que os homens sonham.

&

os homens

vão sempre sentar

(muito) perto

de você

&

alegar que eles

só querem

ser aquecidos

pelo seu

fogo

&

eles vão

sorrir enquanto

engarrafam

suas

fagulhas

&

mais tarde vão

contar a todo mundo

que sabem como

fazer uma fogueira bem grande

& terrível

completamente

sozinhos.

– as mulheres sempre nascem durante um eclipse.

eles

acham que

podem escrever

nossas histórias

porque

suas mães

os deixaram

percorrer com a ponta do dedo

a palma das mãos delas

mas

suas palavras

nitidamente

nunca exalarão

fumaça.

– você realmente acha que tem que chorar pela casa em que colocou fogo?

eu não preciso de você

para escrever minha história.

eu a escrevo

todos os dias

& você não pode

nem traduzir

a porra da

pontuação.

– ela.

pronto para uma

verdade dura?

as mulheres

não precisam

da sua validação.

nós

já temos

a nossa própria.

– meu próprio valor não deveria parecer um ato de coragem.

os homens

muito frequentemente alegam

que somos

romances de mistério

com

um simbolismo coletivo

ao mesmo tempo

muito frívolo

& muito difícil

para que eles

sequer sonhem

em nos entender,

então em vez de

perderem tempo desvendando

nossos enredos complexos,

eles escolhem

a saída mais fácil…

e jogam gasolina em nós,

lançam

fósforos sobre

seus ombros,

&

riem enquanto

vão embora.

– chamem-nos de alexandria.

seguindo

os

passos

do

tolo

ícaro,

os homens

foram

tentados

a resvalar com a ponta dos dedos

nossas chamas

impressionantes

& tiveram

a ousadia

de ficar surpresos

quando suas asas de cera

fabricadas

– mas tente não reagir exageradamente, querido.

você não sabe que

a aflição de uma mulher

pode causar

e x p l o s õ e s

em outras

dimensões?

– se não sabe, vai descobrir.

queime todos os que tentarem queimar você.

– 2º mandamento das bruxas.