A Divina Comédia: Inferno

Dante Alighieri · Capítulo 23 de 37

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A Divina Comédia: Inferno

Canto XXI

 

No quinto compartimento são punidos os trapaceiros que negociaram os cargos públicos ou roubaram aos seus amos. Eles estão mergulhados em piche fervendo. Os dois Poetas presenciam a tortura de um trapaceiro luquense por obra de um demônio. Virgílio domina os demônios que queriam avançar contra eles. Virgílio e Dante, escoltados por um bando de demônios, tomam o caminho ao longo do aterro.

 

ASSIM, de ponte em ponte, discursando

Do que nesta comédia se não cura,

3 De outro arco acima nos subimos, quando

Detemo-nos por ver a cava escura,

Por ouvir de outros prantos vão sonido;

6 Com pasmo olhei a hórrida negrura.

No arsenal de Veneza, derretido

Como referve o pez na estação fria

9 Para reparo ao lenho combalido,

Incapaz de vogar: qual com mestria

Baixel novo constrói; qual alcatroa

12 O que teve em viagens avaria;

Qual pregos bate à popa qual à proa;

Qual remos faz, qual linho torce ou parte;

15 Qual mezena e artemão aperfeiçoa:

Assim, por fogo não, por divina arte

Betume espesso, ao fundo refervia,

18 As bordas enviscando em toda parte.

Mas no pez só na tona eu distinguia

Borbulhão, que a fervura levantava, 21 Que ora inchava, ora rápido abatia.

No fundo enquanto os olhos eu fitava,

Exclamando Virgílio: — Eia! Cuidado! —

24 Para si donde eu era me tirava.

Voltei-me então como homem, que apressado

É por saber o que fugir convenha,

27 De súbito pavor sendo atalhado,

Olha sem que por isso se detenha,

E logo atrás de nós eu vi correndo

30 Negro demônio sobre aquela penha.

Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo

Nos meneios parece e temeroso,

33 Veloz nos pés e as asas estendendo!

No dorso agudo e enorme um criminoso,

Escarranchado, em peso, carregava:

36 Dos pés prendia o nervo ao desditoso.

— “Malebranche!” já perto ele bradava —

— “Eis um dos anciões de S. Zita!

39 Mergulhai-o, pois torna à gente prava,

“Que nessa terra em grande soma habita.

Venais todos lá são menos Bonturo.

42 O no, por ouro, lá se muda em ita“.

Ao pez o arroja, e pelo escolho duro

Se torna: após ladrão tanto apressado

45 Não vai mastim, que estava antes seguro:

O maldito afundou; surdiu curvado.

Sob a ponte os demônios lhe gritaram:

48 — “Não acharás aqui Vulto Sagrado,

“Nem banhos, quais no Serchio se deparam.

Se não queres no pez star imergido.

51 A te espetar as fisgas se preparam”. —

Com croques cem mordendo esse descrido

— “Bailar” — disseram — “deves bem coberto; 54 Se puderes furtar, furta escondido”. —

Tal ordem em cozinha o mestre esperto

Aos ajudantes seus que na caldeira

57 Mergulhem naco à tona descoberto.

— “Por que” — falou-me o Guia — “alguém não queira Molestar-te em te vendo, busca abrigo:

60 Num recanto o acharás desta pedreira.

“Não temas que me ofenda o bando imigo;

Muito bem sei como o furor lhe afronte;

63 Já venci de outra vez igual perigo”. —

Até o extremo então passou da ponte;

Mas, quando a sexta borda já subia,

66 Mister lhe foi mostrar serena fronte.

Qual fremente matilha, que se envia

Ao pobre, quando pára esbaforido

69 E pede alívio à fome que o crucia:

De baixo arremeteu-lhe o bando infido,

Aceso em ira, os croques seus brandindo.

72 Mas gritou-lhes: — “Nenhum seja atrevido!

“Os croques suspendi: até mim vindo

Me preste algum de vós atenção toda.

75 Fere, se ousais porém antes me ouvindo”.

Clamaram todos: — “Ouça — o Malacoda!”

Enquanto os mais ficavam no seu posto,

78 — “Que queres?” — disse alguém que sai da roda; E o Mestre: — “És, Malacoda, a crer disposto

Que as ameaças vossas superasse

81 Para aqui vir, se por celeste gosto

E supremo querer não caminhasse?

Deixa-me ir; pois a lei divina ordena.

84 Que eu nesta agra jornada outrem guiasse”.

De Malacoda o orgulho já serena;

Aos pés lhe cai o croque; aos ais voltado

87 Lhes disse: — “Este não pode sofrer pena”.

E o Mestre me falou: — “Tu, que abrigado

Estás entre os penedos cauteloso,

90 Volve a mim, do temor descativado”.

Corri para Virgílio pressuroso.

Eis os demônios todos investiram:

93 Roto o concerto, pois, cria ansioso.

De Caprona os soldados, que saíram

A partido assim vi que estremeciam,

96 Quando envoltos de imigos se sentiram.

Nos sevos gestos seus se me prendiam

Os olhos, e a Virgílio vinculado

99 Os braços o meu corpo todo haviam.

Os croques inclinados: — “No costado

Fisguemo-lo” — entre si dois prorromperam.

102 E os outros: — “Oh! pois não! seja espetado!”

Ao que o Mestre falava desprouveram

Palavra tais, e então bradou depressa:

105 “Sê quedo, Scarmiglione!” — Emudeceram.

Depois assim nos disse: — “Andar por essa

Rocha não podereis; jaz destruído

108 Todo arco sexto sem restar-lhe peça.

Se avante quereis ir, seja seguido

Desta borda o caminho: não distante

111 Está rochedo ao passo apercebido.

“Ontem, cinco horas mais do que este instante

Mil e duzentos com sessenta e seis

114 Anos houve: é então a rocha hiante.

“Dos sócios meus na companhia ireis;

Vão ver se alguém ao banho quer furtar-se.

117 Ide em paz: molestados não sereis.

“Calcabrina, Alichino vão juntar-se

Com Cagnazzo, a decúria comandando

120 Barbariccia! E não podem separar-se

“Droghinaz, Libicocco, deste bando!

Graffiacane, o dentudo Ciriatto,

123 Farfarel, Rubicante vão marchando!

“Na ronda cada qual se mostre exato!

Sejam a salvo os dois encaminhados

126 Da ponte ao arco até agora intato!”

“Que vejo, ó Mestre!” — eu disse — “Acompanhados!” Se sabes ir só, vamos prontamente;

129 De guias tais dispensam-se os cuidados.

“Se tu és, como sóis, Mestre, prudente,

Não vês que os dentes seus estão rangendo,

132 Que nos encaram com furor crescente?”

“Não temas” — disse o Mestre, respondendo — “Ranger os dentes deixa-os a seu gosto:

135 É contra os que ardem lá no pez horrendo”.

À sestra os dez então fizeram rosto;

Nos dentes cada qual mostra primeiro, Por mofa a língua ao cabo já disposto;

139 E ele trompa fazia do traseiro.

 

38. Anciões de S. Zita, supremos magistrados de Lucca, cidade de que S. Zita é protetora. — 41. Bonturo, Bonturo Dati, magistrado mais venal do que os outros. — 42. O no, por ouro etc., por dinheiro o não se transforma em sim. — 112-114. Ontem, etc., o demônio falava cinco horas antes do meio-dia de 26 de março de 1300. Ao meio-dia teriam transcorrido 1266 anos da morte de Cristo.

Eis os demônios todos investiram