A Divina Comédia: Inferno

Dante Alighieri · Capítulo 2 de 37

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A Divina Comédia: Inferno

A Divina Comédia

DE

DANTE ALIGHIERI

 

Dedicando-lhe o “Paraíso” escrevia Dante a Cangrande della Scala: “O sentido desta obra não é simples; ao contrário ela é “polisensa”, pois outro é o sentido literal, outro aquele das coisas significadas”.

Declarava Dante com essas palavras que a “Divina Comédia” é um poema alegórico. Não somente no poema há alegorias particulares, mas o poema, na sua inteireza, tem uma significação, ou melhor, várias significações alegóricas.

Muitas foram as interpretações que da “Divina Comédia” se fizeram sob esse ponto de vista. Alguns comentadores puseram em maior evidência o seu sentido moral e teológico; outros consideram o poema dantesco como uma obra de inspiração política e ligada intimamente às vicissitudes pessoais do poeta.

Não são, porém, as intenções alegóricas que consagram a imortalidade da “Comédia” dantesca, à qual os pósteros atribuíram a qualificação de divina. A “Divina Comédia” é, principalmente, uma formidável obra de fantasia e de representação poética, talvez um dos pontos limites que a inteligência humana pode alcançar.

Na presente edição, o poema dantesco ê apresentado na tradução em tercetos rimados como no texto original, de José Pedro Xavier Pinheiro. Não há dúvida de que poucas obras apresentam as dificuldades que apresenta a “Divina Comédia” para a tradução em outros idiomas, especialmente para quem às outras dificuldades queira ajuntar aquelas decorrentes da conservação do metro original e da rima. A tradução de Xavier Pinheiro constitui uma obra digna de admiração. Fiel, bastante clara, consegue reproduzir grande parte da força poética do maravilhoso poema italiano.

INTRODUÇÃO

O Inferno relata uma odisséia pelo mundo subterrâneo para onde se dirigem após a morte, segundo a crença cristã, aqueles que pecaram e não se arrependeram em vida. A viagem, relatada em 4720 versos rimados em tercetos, é realizada pelo próprio Dante guiado pelo espírito de Virgílio - famoso poeta romano dos tempos de Júlio César.

A geografia do mundo e do reino dos mortos reflete as crenças vigentes na Idade Média. A Terra, esférica, era o centro do Universo segundo a cosmologia de Ptolomeu. Três continentes eram conhecidos: Ásia, África e Europa, e acreditava-se que eles ocupavam somente um dos hemisférios da Terra. Todo o hemisfério oposto era coberto de água. Na mitologia de Dante, a única exceção era o pólo oposto à cidade de Jerusalém, que ficava no meio do oceano. Lá havia uma ilha em cujo centro despontava uma única e enorme montanha - o monte do Purgatório.

Além das crenças cristãs da época, o poema de Dante também foi influenciado por vários outros poemas épicos que precederam a Comédia. Monstros avernais e outras figuras mitológicas gregas e romanas que apareceram nas obras de Homero , Virgílio e Ovídio, ressurgem no Inferno de Dante ora como condenados ora como seres responsáveis pelo funcionamento de algum "serviço" mantido no reino de Lúcifer.

A viagem narrada pelo poema acontece na semana santa do ano de 1300. Naquela época, Dante era um atuante político florentino prestes a ser eleito, dois meses depois, como um dos priores (governadores) da cidade de Florença. Porém, em menos de um ano, Dante foi exilado e expulso da cidade. O Inferno, escrito no exílio, faz referência a vários fatos históricos que aconteceram em 1300 e depois, através de profecias de almas condenadas no Inferno, que vêem o futuro.

Para compreender o Inferno de Dante é preciso conhecer um pouco da política de Florença e das crenças e costumes da Idade Média. É importante também conhecer a vida de Dante, suas atividades e os motivos do seu exílio.

Em várias partes do seu texto, Dante menciona personalidades pelo apelido ou pelo primeiro nome. A maior parte dessas pessoas eram conhecidas pela população da Itália na sua época. Hoje, 700 anos depois, é impossível saber quem era 'Buoso' ou 'Francesco' sem consultar as notas dos primeiros dantistas como Boccaccio e Andrea Lancia (Ottimo Commento). Notas explicativas, compiladas a partir de diversas fontes, estão presentes nesta edição . Além das explicações sobre personagens e fatos históricos, as notas também contém interpretações de símbolos do Inferno.

Retirado da Introdução de Helder da Rocha