A extensão universitária em comunicação para a formação da cidadania
Apresentação
Eliza Bachega Casadei
A inserção da Extensão Universitária como um dos pilares de sustentação da atividade acadêmica no Brasil resultou de um reposicionamento epistemológico que, ao questionar os métodos tradicionais da produção da ciência e a função social da universidade, valorizou "os contextos de práticas como ponto de partida do conhecimento científico". Tal disposição estava embasada em uma ideia que "derrubava a tese da neutralidade da ciência e assumia a relação entre os saberes de origens diversas como legítimos e necessários. Reconhecia a dimensão política e cultural do conhecimento e de suas formas de produção" (Cunha, 2012).
Para Cunha (2012), inclusive, trata-se de uma resposta dada tipicamente por países latino-americanos, na tentativa de responder a demandas de sociedades marcadas por fortes desigualdades sociais. Constitui uma diligência em que se exige que "a universidade, em especial a de natureza pública, tenha responsabilidade com o desenvolvimento social equilibrado, produzindo saberes para a melhoria de vida de toda a população" (Cunha, 2012).
Ainda assim, em relação aos outros pilares presentes nas universidades brasileiras, a extensão continua a ocupar uma posição frágil de menor destaque, o que se reflete em menor financiamento de suas práticas e, consequentemente, em menor engajamento dos atores envolvidos em sua manutenção, já que ela teria menos prestígio em relação à pesquisa e ao ensino. Além desses problemas fundamentais, é possível notar, ainda, que, "atingida pelas políticas globais das últimas décadas", a extensão "tende, em termos de prestígio, a ser identificada com a prestação de serviços, muitos dos quais realizados com o sentido da captação de recursos, alterando substancialmente sua missão original" (Cunha, 2012).
A esses problemas somam-se outros que estão ligados às formas como a extensão universitária foi entendida e definida ao longo do tempo. Não podemos nos esquecer de que, dentre os problemas enfrentados pela extensão, estão os relacionados "aos poderes de invenção de um discurso sobre o objeto que ele pretende descrever" (Didi-Huberman, 2013, p.115), estes bem mais difíceis e orgânicos. Isso quer dizer que "todo campo de saber se constitui imaginando-se terminado, 'vendo-se' possuir inteiramente a suma do saber que ainda não possui e para o qual se constitui. Ele se constitui, portanto, votando-se a um ideal". O problema encontra-se no fato de que "ao fazer isso, arrisca-se também a votar seu objeto ao ideal em questão: sujeita o objeto a esse ideal, imaginando-o, vendo-o ou prevendo-o – em suma, dando-lhe forma e inventando-o por antecipação" (Didi-Huberman, 2013, p.116).
Em sua ainda breve trajetória nas universidades brasileiras, a extensão universitária teve seu objeto marcado de distintas formas, o que resultou em diferentes metas traçadas, bem como diferentes ideais pregados e discursos norteadores da prática. A extensão universitária, portanto, está sujeita a disputas simbólicas de várias ordens que afetam as atividades e projetos da área, colocando-os em um terreno simbólico em constante disputa. Tais conflitos não se dão apenas no plano teórico, mas influenciam mesmo na disputa por prestígio e verbas dentro da estrutura universitária.
Não bastassem esses entraves, é possível demarcar, ainda, controvérsias específicas da extensão universitária na área da comunicação, que enfrenta suas próprias questões e adversidades. O objetivo do presente livro é justamente debater esses problemas relacionados diretamente aos projetos de extensão na área da comunicação social, bem como os possíveis enfrentamentos a eles urdidos por diversas instituições de ensino superior.
O livro pretende reunir textos de pesquisadores que trabalhem a extensão universitária na área da comunicação em suas múltiplas vertentes. A partir de estudos que versem desde aspectos teóricos até experiências práticas, o livro discutirá temas como a importância da extensão para a formação universitária, a articulação da extensão com as políticas públicas na área de comunicação, sua integração com o mercado de trabalho, a efetiva convergência entre universidade e a sociedade mais ampla, suas implicações discursivas em meio aos novos cenários comunicacionais, as potencialidades para a criação de novas linguagens, as relações de poder no campo, as políticas acadêmicas em relação à extensão, o direito à comunicação, entre outros aspectos referentes aos modos como a extensão universitária em comunicação se liga à formação de práticas cidadãs em suas múltiplas acepções.
Em "A extensão universitária e as demandas por justiça: cidadania e comunicação como uma questão de endereçamento", Eliza Bachega Casadei discute a tese da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão a partir de uma reflexão sobre as demandas por direito e as demandas por justiça. De acordo com a autora, para que a extensão universitária em comunicação possa se constituir como um espaço de justiça é necessário considerar o endereçamento pressuposto nessa demanda, o que implica que a extensão deve construir um campo autônomo de atuação.
Já em "'Ser contado como falante': a interação dialógica nas práticas de extensão universitária", Mariana Duccini Junqueira da Silva explora o conceito de interação dialógica, tal como enunciado na Política Nacional de Extensão Universitária, de 2012. A autora problematiza a questão a partir do endereçamento às comunidades atendidas pelos projetos de extensão como sujeitos de conhecimento e a necessidade da emergência de novos lugares de fala – espaços estes que possibilitariam a atuação dos atores externos ao ambiente da universidade como sujeitos políticos na produção de conhecimentos.
O livro traz um conjunto de relatos de experiências práticas na área de extensão em comunicação que enfatizam a importância desses projetos na formação dos alunos e na relação universidade-sociedade.
Paulo Roberto Figueira Leal, Rafael do Nascimento Grohmann e Rodrigo Souza Silva relatam, em "Cultura política, mídia e mobilização", uma série de oficinas coordenadas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Juarez Tadeu de Paula Xavier discute as possibilidades de elaboração de políticas públicas inclusivas, via círculo de cultura, no contexto da economia criativa, no capítulo "Mapeamento dos arranjos produtivos locais intensos de cultura: tecnologias sociais para a adoção de políticas públicas inclusivas nas cidades". Já em "Observatório do Esporte: extensão e crítica da mídia esportiva na Rádio Unesp FM", Marcos Américo, José Carlos Marques, Carlo José Napolitano e Fábio Camargo Fleury de Oliveira mostram uma proposta de interligação entre a universidade e a sociedade a partir da produção de um programa de rádio esportivo. Letícia Passos Affini e Luis Enrique Cazani Júnior descrevem a experiência do projeto Pau a Pixel no texto "A lógica do pixel e split-screen aplicada na realização da vinheta do 'Pau a Pixel: Crítica'". Por fim, Francisco Machado Filho e Mayra Fernanda Ferreira irão discorrer, em "Jornalismo colaborativo: a comunidade na prática jornalística de televisão", sobre alguns projetos desenvolvidos no âmbito da TV Unesp, e, em "Empreendedorismo e formação profissional na extensão: a contribuição da Agência Júnior de Jornalismo da Unesp na visão de seus ex-integrantes", Francisco Rolfsen Belda irá discutir o impacto de um projeto de extensão na formação dos alunos que participaram dele.
Em comum, os capítulos apresentados pelos diferentes pesquisadores mostram problemas específicos que podem ser encontrados nos projetos de extensão na área da comunicação social, apontando para os conflitos que emergem em torno da definição de suas práticas legítimas, seu campo de atuação, seus resultados esperados, bem como os pressupostos éticos e deontológicos que organizam as práticas da extensão em comunicação social. Nesse sentido, não são buscadas sínteses totalizadoras sobre o papel da extensão no campo da comunicação social, mas, sim, multiplicidades de visões sobre as possibilidades do campo a partir da visão particular de cada autor de como a extensão universitária em comunicação pode se constituir como agente na construção de sujeitos cidadãos.
A partir dos problemas e propostas apresentados por esse livro, esperamos construir um espaço de enfrentamento a essas questões e de valorização da extensão universitária, em geral, e em seus desdobramentos para a comunicação social, em particular.
Referências bibliográficas
CUNHA, M. I. (org.). Qualidade da graduação: a relação entre ensino, pesquisa e extensão e o desenvolvimento profissional docente. Araraquara: Junqueira & Marin, 2012.
DIDI-HUBERMAN, G. Diante da imagem. São Paulo: Editora 34, 2013.