A extensão universitária em comunicação para a formação da cidadania

4 Mapeamento dos arranjos produtivos locais intensos de cultura: tecnologias sociais para a adoção de políticas públicas inclusivas nas cidades

4 Mapeamento dos arranjos

produtivos locais intensos de cultura:

tecnologias sociais para a adoção de

políticas públicas inclusivas nas

cidades

 

Juarez Tadeu de Paula Xavier

 

Introdução

A cidade de Bauru está localizada em uma região concentrada, com convergência de tecnologias analógicas e digitais. O território é ocupado por arranjos produtivos locais intensos de cultura (ApliC) subalternos, produtores de conteúdos, nas esferas da economia criativa: artes, mídias, patrimônio histórico material e imaterial e inovações técnicas e funcionais. Essas características dão à localidade potencial de cidade criativa, com núcleos de produção de conteúdo, redes de conexão, trocas de experiências, agentes organizados em cadeias criativas e produtivas capilarizadas e disseminadas. A cidade é um laboratório de estudo das experiências em comunicação social: dos mecanismos de gestão da informação, dos agentes produtores de conteúdo e dos recursos disponíveis no território. O mapeamento desses arranjos favorece a produção de conhecimento e a elaboração de políticas públicas de inclusão dos segmentos inventivos, localizados em áreas vulneráveis.

A configuração dessa cartografia é o objetivo do Núcleo de Estudos e Observação em Economia Criativa (NeoCriativa), projeto de extensão universitária vinculado ao Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec). Ações culturais de extensão, projetos de iniciação científica, trabalhos de conclusão de cursos e parcerias são os dispositivos articulados pelo núcleo para a coleta e sistematização de informações. O conceito de círculo de cultura – ações dialogadas com a comunidade – é sua linha de conduta para o mapeamento do território e subterritórios criativos: prospecção, análise, reflexão, projetos compartilhados e

colaborativos. Nesse processo, mapearam-se1 a cobertura jornalística sobre economia criativa, os territórios e subterritórios de música independente, os mecanismos de gestão das organizações socioculturais resilientes, e as inovações de comunicação de produtores de conteúdos. Mapeiam-se as tradições imateriais de povos originais e os arranjos de criação, desenvolvimento e distribuição de jogos independentes. Mapear-se-ão as raízes afrodescendentes do território, os grupos de capoeira, os times de futebol amador, as baterias das escolas de samba e as organizações e equipamentos de direitos humanos de atenção à criança e ao adolescente em situação de risco. A meta é colocar à disposição do poder público local e dos agentes produtores de conteúdos informações estratégicas, capazes de orientar a adoção de políticas públicas favorecedoras da inclusão dos segmentos sociais vulneráveis.

 

Narrativas reversivas e cidadãs

O mapeamento dos Arranjos Produtivos Locais Intensos de Cultura

(ApliC)2 é uma ferramenta de planejamento estratégico para a prospecção das experiências realizadas no segmento da economia criativa nas regiões concentradas. Permite a identificação dos vetores da economia criativa, dos agentes criativos envolvidos em sua inovação, dos recursos mobilizados no território, da extensão e da capilaridade das cadeias criativas e produtivas do segmento. Os dados são colhidos pelas pesquisas realizadas no âmbito da graduação e organizados pelas plataformas das redes sociais e

softwares 3 livres.

A conformação das redes digitais criou a ecologia virtual necessária para o levantamento georreferenciado dessas informações, base da elaboração de políticas públicas (Turino, 2010) para esse segmento social, que articula a cadeia criativa e produtiva da cultura nos territórios (Plano Nacional de Cultura, 2008).

O objetivo do mapeamento é ampliar a compreensão sobre esses espaços, estudar os impactos das políticas públicas de acesso à rede mundial de computadores nas comunidades em condições vulneráveis, e conhecer o processo de apropriação e mobilização das tecnologias digitais para a produção de conteúdos pelas comunidades das periferias (Xavier; Xavier, 2012).

A erupção desse cenário alterou as bases de produção de conteúdo, relativizou a ação das mídias corporativas e criou uma esfera pública de troca de informação, que ampliou a cognoscibilidade do território e deu as condições para a ruptura com o "discurso único", e para a articulação de projetos possíveis e favorecedores da inclusão (Santos, 2001), com novas narrativas reversivas e cidadãs.

 

Ecologia digital e a desigualdade no território

As regiões concentradas de um território têm densidade tecnológica, impulsionadoras da articulação dos Arranjos Produtivos Locais Intensos de Cultura (ApliC). Em tais espaços desenvolvem-se processos com complexos mecanismos disruptivos, que criam assimetrias sociais: desigualdades na distribuição e no acesso aos bens, sistemas e serviços culturais (Santos; Silveira, 2001).

Essas bacias tecnológicas concentram-se nas áreas de maior densidade técnica, de aplicação de políticas públicas e de formação especializada nas diversas áreas de produção de valores intangíveis, campo da economia criativa.

O processo redefine as formas de ocupação do território. Nele amplia-se a descentralização da produção industrial e emergem novos modelos organizativos e polos avançados na produção. Estimula-se a especialização comercial e dos serviços oferecidos, com a massificação ampliada e capilarizada das tecnologias produtivas. É efetuada uma reorganização das estruturas de produção, com a intensa divisão territorial do trabalho, que se aprofunda nas áreas de densidades técnicas (Santos; Silveira, 2001).

A despeito da assimetria na distribuição dos recursos (materiais e imateriais) pelo território, o processo não impede que os objetos e ações modernizantes tendam a concentrar-se em certos pontos geográficos, nas áreas especializadas e de novas formas de produção (produtos, processos e serviços).

Nesse cenário líquido e com alto grau de fluidez (Bauman, 2012), a entrega de novos serviços impõe a necessidade de novos dispositivos técnicos e operacionais enraizados pelo território, e assimilados pelos segmentos sociais implicados por esse processo (Xavier, 2009).

A região concentrada forma uma cápsula de informação de criatividade. Esse bolsão de inovação e inventividade concentrado em uma faixa territorial organiza um horizonte de possibilidades, onde emergem arranjos produtivos locais, com ateliês criativos e produtivos, a formação dos corredores de conexões entre essas unidades nucleares e o planejamento para a implantação de políticas públicas favoráveis ao processo.

 

Arranjos e sistemas produtivos locais: da

pulverização à organização

Nos estudos e pesquisas sobre economia criativa (Unctad, 2010; Reis Velloso, 2008; Pochmann, 2008) ganhou relevo a importância dos aglomerados de produção e criação (clusters) para o

desenvolvimento econômico e social, com foco na inovação, 4 passando a ser referência internacional como modelo de organização criativa e de tecnologia de ponta. Nesses centros de criação e inovação, estimula-se a conexão com empresas, centros universitários de pesquisa e coletivos culturais produtores de conteúdo. Os arranjos locais articulam áreas de design, desenvolvimento, produção, experimentação, distribuição, consumo e fruição de produtos, serviços e processos criativos. São laboratórios experimentais, centros de inovação e inventividade, enraizados no território (Azevedo, 2008).

Segundo os estudos sobre arranjos e sistemas produtivos locais (Cassiolato, 1995), para que esses aglomerados cheguem à excelência é necessário o reconhecimento de que a inovação e o conhecimento gerado não são fenômenos isolados. Constituem os aspectos centrais da dinâmica e do desenvolvimento dos segmentos produtivos, das organizações, das instituições e dos coletivos culturais.

Há distinções entre arranjos produtivos locais e sistemas produtivos locais. Os arranjos são aglomerações produtivas em que os agentes pouco interagem. Suas relações têm baixa densidade sinérgica e são pontuais, comuns na articulação de conteúdos das mídias radicais (Downing, 2002). Já os sistemas caracterizam-se por interações sistêmicas amadurecidas e desenvolvidas – núcleos de produção conectados, cadeias criativas e produtivas articuladas e planejadas, mecanismo de distribuição colaborativo e sinergia na distribuição para o consumo e fruição (Cassiolato; Szapiro, 2002). Arranjos e sistemas formam chassis espalhados pelo território, com capacidade para a produção de conteúdo e informação.

Nesse cenário, o fenômeno cultural mais significativo das últimas décadas foi a apropriação desses complexos modelos de criação e produção de conteúdo pelos coletivos culturais, articulações em redes e suas implicações políticas e sociais (Vainer, 2014).

 

Região concentrada e a economia criativa

A ecologia produtiva das regiões concentradas propicia o desenvolvimento dos projetos em economia criativa. A legislação, infraestrutura, expansão dos serviços, formação de agentes criativos e a instalação de equipamentos sociais formam os bolsões inventivos para as atividades de criação e execução de produtos, processos e serviços culturais.

No modelo de indústrias criativas da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad, 2010) há quatro grupos que ordenam as diversas linguagens e atividades culturais em economia criativa: patrimônio cultural, artes, mídias e criações funcionais (Ministério da Cultura, 2008; 2011). O modelo da Unctad (Oliveira; Araujo; Silva, 2013) tem as melhores condições para os estudos e mapeamento dos Arranjos Produtivos Locais Intensos de Cultura.

Nos territórios criativos concentram-se ateliês produtivos dos quatro grupos em economia criativa, os subterritórios dessas linguagens artísticas e atividades culturais (rock, samba, funk, rap, grafite, dança, teatro de rua), as redes de conexões capilarizadas (cadeias produtivas e criativas, analógicas e digitais), e a presença de políticas públicas pontuais (verticais e horizontais), de atendimento das demandas sociais, que estimulam o surgimento e a institucionalização dos territórios e subterritórios criativos: bairros, polos produtivos, cidades, bacias, coletivos culturais, grupos de estudos e pesquisas com ações extensionistas e corredores digitais.

Essas ilhas criativas conectadas potencializam os projetos geradores de trabalho, emprego e renda, conforme as pesquisas e estudos sobre a potencialidade da economia criativa (Furtado, 2013; Ministério da Cultura, 2008; 2011; Caiado, 2011; Unesco, 2009).

O mapeamento de tais redes é uma ferramenta de planejamento estratégico das atividades e elaboração de políticas públicas, para os ApliCs e a ação cidadã nas periferias das grandes e médias cidades brasileiras.

 

NeoCriativa e o mapeamento do território criativo O Núcleo de Estudos e Observação em Economia Criativa organiza informações georreferenciadas dos ateliês criativos (unidades criativas e produtivas), em suas múltiplas linguagens – música, teatro, dança, inovações técnicas e processuais –, e a formação de seus territórios e subterritórios criativos: identificação das unidades de criação, observação das cadeias produtivas pulverizadas pelo território e acompanhamento das políticas públicas culturais e suas implicações sociais.

Atento à necessidade do diálogo na e com a realidade dos agentes criativos dos ApliCs, o NeoCriativa caracteriza-se como um "círculo de cultura": espaço dialógico, de pronunciamento da leitura de mundo e problematizador para a construção do conhecimento coletivo que possibilita a intervenção criadora e recriadora do sujeito criativo que, por meio do trabalho, é capaz de alterar a realidade e produzir cultura (Freire, 1967, 1987, 2006).

O procedimento assegura a realização do mapeamento dialógico: "o diálogo não existe num vácuo político", mas configura-se em "uma espécie de postura necessária na medida em que os seres humanos se transformam cada vez mais em seres criticamente comunicativos" (Freire, 1987, p.96).

O lócus para a observação são os espaços de produção de conteúdos culturais, agrupados pelos projetos de conclusão de curso, iniciação científica, e articulados pelas ferramentas digitais mobilizadas pelo NeoCriativa. Para organizar os dados compilados, desenvolveu-se o conceito de Arranjos Produtivos Locais Intensos de Cultura (ApliC), e a criação de uma base de dados georreferenciados, alicerçada nas ferramentas das redes sociais.

A metodologia parte da observação empírica, da submissão dos dados coletados à avaliação conceitual e do retorno para a observação crítica da realidade factual, do território e seus ApliCs (processos, pessoas e recursos).

Território criativo de Bauru: laboratório

experimental em economia criativa

A economia criativa é uma das áreas de maior nível de desenvolvimento, no campo da nova economia. Ela se articula em quatro grandes áreas de produção: patrimônio histórico (cultura, tradições, oralidade), artes (plásticas e cênicas), mídias (impressas, eletrônicas e digitais) e produções criativas funcionais (publicidade, design, arquitetura). Seu centro de gravidade são a articulação de economia, tecnologia e cultura e a mobilização da cultura em três dimensões: cidadã, simbólica e geradora de renda e trabalho. O NeoCriativa prospecta essas áreas dos pontos de vista técnicos, estéticos, funcionais e deontológicos. Suas ações visam articular o ensino, com a inovação de práticas e conteúdos críticos; a pesquisa, pelo levantamento de dados e informações sobre a economia da cultura na cidade; a extensão, colocando à disposição dos segmentos sociais e grupos culturais subalternos informações de gestão de processos, pessoas e recursos tangíveis e intangíveis; e a gestão, com a inovação em organização de serviços e processos culturais.

As pesquisas do Núcleo de Observação e Estudos em Economia Criativa (Xavier, 2014a; Xavier, 2014b) sinalizam que o município é uma cidade criativa. Nela convergem as principais características fundamentais para essa condição: existência de subterritórios criativos de diversas linguagens e manifestações culturais, articulados em um território; conexões dos variados arranjos produtivos e criativos da cidade, em diversos estágios de organização, e a adoção de políticas públicas pontuais para tanto.

A cidade conta com cadeias produtivas ativas na produção musical,

como o arranjo articulado em volta do samba. 5 É também o centro do debate do hip-hop no interior, e possui artistas de expressão regional, além de uma cena musical independente e constante. O subterritório do grafite está espalhado em pontos estratégicos, e o teatro é ponto de articulação de eventos nacionais e internacionais e de experimentações em formatos e linguagens. A cidade tem espaços permeados por história e diversidade, como o conjunto arquitetônico e técnico da estação ferroviária, que abarca enredo e identidades construídas em volta das linhas férreas, tribos indígenas, comunidade afrodescendente ativa e culturalmente presente, comunidades estrangeiras, eventos culturais e incentivos de políticas públicas, nos vetores da economia criativa.

Na cidade há cadeias criativas que fazem a gestão de processos (desenho de uma ação articulada no campo da cultura, como o conselho de cultura, e construção de políticas públicas), gestão de pessoas (universidades com cursos criativos, organizações culturais públicas e privadas, espaços culturais consolidados nas periferias, e coletivos culturais em diversas linguagens), e a gestão de recursos (existência de recursos públicos e privados, digitais e analógicos). O território conta com todos os principais eixos estratégicos da economia criativa: subterritórios da mídia, das artes, do patrimônio histórico e das inovações técnicas e funcionais.

A área concentrada da cidade – sobreposição de próteses analógicas e digitais – é um laboratório experimental para projetos e ações em economia criativa: mapeamento dos arranjos e cadeias produtivas de cultura; definição da identidade cultural dos birôs criativos da cidade; organização de eventos facilitadores das conexões no e do território criativo, e mobilização para a elaboração de políticas públicas que atendam as necessidades dos segmentos subalternos (Gramsci, 1989) dos subterritórios – formados por cadeias de produção e criação – e do território criativo da cidade.

O reconhecimento do município como um território criativo e a criação de políticas públicas consistentes têm como pressupostos a sistematização e mensuração dos dados sobre essa nova modelagem de organização, pouco estudada na cidade, mas que se mostra capaz de fomentar a economia e a inclusão social e criar redes entre os arranjos produtivos locais intensos de cultura, vinculados às manifestações subalternas.

Com e para a comunidade

O NeoCriativa adotou a metodologia dos "Círculos de Cultura", conforme conceituado por Freire (1967, 1987, 2006): a) leitura da realidade, pelo mapeamento dos arranjos produtivos e das cadeias criativas de cultura; b) reflexões críticas, a partir de reuniões

semanais para planejamento, balanço e correção; e c) intervenção,6 com a consultoria à Secretaria de Cultura do município e às organizações sociais.

Com a sistematização da metodologia dos Círculos de Cultura e o estudo do espaço como território criativo, o projeto se divide em três fases: consolidação conceitual, definição dos mecanismos de capturação de dados e informações e organização do mapeamento georreferenciado das cadeias produtivas de cultura. Este último é pautado por técnicas desenvolvidas em um projeto piloto, em que o NeoCriativa mapeou os subterritórios criativos dentro do campus da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", perfilando-os a partir de uma estrutura de análise baseada na técnica dos

"elementos da notícia".7 Para a execução do mapeamento, o núcleo faz a observação do fluxo de produção dos arranjos produtivos, in loco, junto de análise quantitativa e qualitativa, para a captação, sistematização e mensuração dos dados em encontros semanais de avaliação e feedback, com a finalidade de desenvolver redes capazes de contribuir com a elaboração de políticas públicas para o setor da Cultura – Plano Municipal de Cultura (PMC).

 

Considerações finais

O mapeamento em curso indica a existência de um território criativo, composto por subterritórios de várias linguagens e atividades artísticas e culturais, em todos os vetores da economia criativa: artes, mídias, patrimônio histórico e inovações técnicas e funcionais.

Há a organização dos ateliês de criação e produção, como os grupos de teatro, dança, música, hip-hop, grafite e bandas de música independente; conexões entre os subterritórios, por meio dos encontros regionais, das atividades de formação cultural e intervenções culturais nas comunidades; e uma incipiente política pública, que dá sustentação à esfera pública precária de segmentos sociais subalternos, com a aderência ao Plano Nacional de Cultura, formação do Conselho Municipal de Cultura, esboço de "conta-satélite" para a mensuração da economia da cultura na cidade e organização das conferências municipais de cultura.

São tênues, frágeis e pontuais as ações institucionais, sejam públicas, sejam privadas, de organização cultural do espaço, dos agentes criativos envolvidos nesse processo (criadores, formuladores, executores, artistas, críticos, financiadores), das instituições de formação cultural, como as faculdades, universidades, instituições de ensino, organizações ligadas a atividades socioculturais, e dos recursos materiais e imateriais envolvidos na criação, planejamento, execução, distribuição, consumo e fruição.

Entretanto, o mapeamento em curso, como ferramenta estratégica de organização, poderá fornecer informações capazes de contribuir com a organização do território e subterritório criativos, para a elaboração de políticas públicas que atendam à demanda da sociedade, para a prospecção, identificação e fortalecimento das identidades e vocações do território, a fim gerar renda e trabalho, nas dimensões indicadas pelo Plano Nacional de Cultura: simbólica, social, cultural, econômica e inclusiva.

O mapeamento – processo permanente, contínuo e colaborativo – das atividades culturais, baseado na ecologia digital (redes sociais capilarizadas), colocará à disposição dos agentes culturais públicos e privados informações estratégicas para o desenvolvimento de ações consistentes, capazes de estimular a transformação dos Arranjos Produtivos Locais Intensos de Cultura (ApliCs) em Sistemas Produtivos Locais Intensos de Cultura (SipliCs), condições para a emergência das cidades criativas.

Com as novas ações focadas na inclusão, em especial a adoção dos pontos de cultura – estações dotadas de hardware e software, com corpo técnico de orientação –, o cenário começa a mudar. Surgem coletivos de cultura de múltiplas linguagens: música, artes plásticas, dança, teatro, literatura e produção audiovisual.

O hip-hop, forma de manifestação cultural da juventude negra e pobre da periferia, foi um ponto de referência importante dessa transição, por articular linguagens (rapper, break, b.boys/b.girls, MC, grafite e, mais recente, a oralidade) e por incorporar um discurso político ativo, de denúncia à violência policial e ao racismo.

As ações desenvolvidas pelo poder público e por organizações particulares tiveram impacto na cidade. Mapearam talentos, recursos, coletivos e parcerias que impulsionaram projetos, com o envolvimento desses agentes sociais e políticos nas atividades. A ecologia digital permitiu a superação da barreira da produção. Com os recursos tecnológicos foi possível dominar o ciclo de produção da informação, o desafio da edição e a distribuição para a fruição.

O mapeamento sinaliza o potencial inovador para a formação dos projetos de extensão. Estes articulam ensino (relação pedagógica dinâmica), pesquisa (o mapeamento é um exercício de estudo, reflexão e desenvolvimento de metódicas de captação e armazenamento de dados e informações), gestão (compreensão dos mecanismos de gestão de processos, pessoas e recursos) e extensão, que consiste no aprendizado na e com a comunidade, para a formulação de políticas públicas inclusivas para os segmentos em situação de vulnerabilidade social.

Os projetos de extensão, ao aproximarem a universidade da comunidade, evidenciam a existência de novos espaços para o aprendizado. A cidade criativa, em seus processos e complexidade, emerge como um espaço "aprendente", atravessados por contradições econômicas, políticas, sociais e culturais, conflitos (choques de interesses na ocupação do território) e de superação, com a elaboração de políticas públicas de atenção e inclusão.

Tais projetos dão retorno à cidade do investimento empreendido para a formação de novos profissionais, pesquisadores, docentes envolvidos com a realidade factual da cidade e ações e estratégias capazes de contribuir com o desenvolvimento local.

O mapeamento dos ApliCs e das tecnologias sociais poderá contribuir, a partir dos dados e informações sistematizados, com o aumento da compreensão da realidade objetiva da cidade, para a elaboração de políticas inclusivas dos segmentos sociais vulneráveis, esteio do desenvolvimento da economia criativa subalterna, em suas múltiplas dimensões: econômica, política, social, cultural e cidadã.

 

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