A extensão universitária em comunicação para a formação da cidadania
3 Cultura política, mídia e mobilização
Paulo Roberto Figueira Leal, Rafael do Nascimento Grohmann, Rodrigo Souza Silva
Introdução
Iniciado em 2008, o projeto de pesquisa e extensão Comunicação para a cidadania: tecnologias, identidade e ação comunitária, financiado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pela FAPEMIG, tem como objetivo geral a contribuição para a democratização da comunicação e para o exercício da cidadania de estudantes de escolas públicas de bairros periféricos de Juiz de Fora, Minas Gerais.
A estes jovens foram oferecidas atividades em oficinas, conduzidas por professores da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e seus bolsistas de iniciação científica e de extensão, que procuravam estimular maior reflexão dos participantes com relação aos conteúdos provenientes da mídia. Foram seis as oficinas: de novas tecnologias, jornal impresso, rádio, fotografia, TV e cultura política. É a esta última que o presente capítulo se referencia.
A oficina de cultura política buscava refletir mais diretamente sobre o contexto político contemporâneo e o significado dessa instância tão pouco compreendida e explorada por parcelas significativas da juventude. Uma das metas era verificar quais eram, no momento de chegada, os valores políticos desses jovens, e o quanto dessas visões decorreria das informações recebidas por eles da mídia (partindo da pressuposição de que os valores hegemônicos seriam majoritários na circulação dos meios de comunicação de massa e, portanto, estariam presentes nas opiniões dos adolescentes). Paralelamente, objetivava-se efetivar com eles discussões temáticas específicas, relacionadas à política, a partir de valores contra-hegemônicos, de modo a levá-los à reflexão crítica e, se possível, à ação efetiva: a partir das atividades trabalhadas com os jovens, procurou-se conduzi-los não só a repensar as possibilidades de ação política na comunidade e na escola, entre outros espaços, mas a efetivamente terem condições de executá-las.
O presente capítulo apresenta relato dos trabalhos desenvolvidos e os resultados alcançados na oficina. Considera-se que a socialização dessas ações, dilemas, problemas e soluções abre perspectivas frutíferas para outras iniciativas que pretendam trabalhar com jovens em situação de vulnerabilidade social – atores sociais que, mais do que nunca, devem encontrar oportunidades que os auxiliem no processo de se tornarem protagonistas de suas próprias histórias.
Em 2008, a base territorial trabalhada pelo projeto foi a Escola Municipal Santa Cândida, localizada no bairro homônimo da zona leste de Juiz de Fora. As atividades iniciaram-se com dezesseis adolescentes, entre 14 e 17 anos, cursando entre a quinta e a nona séries, dos quais chegaram ao final das atividades sete deles, seis meninas e apenas um menino. Segundo Lahni et al. (2009), o grande número de desistências se deu em razão, principalmente, das premências de inserção de muitos deles no mercado de trabalho, já que o projeto inicialmente não disponibilizava bolsas.
Valores ideológicos e mídia
Berger e Luckmann (1985) sustentam que a percepção que cada um de nós tem da realidade decorre, fundamentalmente, dos processos de socialização e das interações que desenvolvemos com outros indivíduos e instituições – essas relações comunicativas nos oferecem universos simbólicos compartilhados fundamentais para nossa percepção e atribuição de significado às coisas do mundo e a nós mesmos.
Já Goffman (1974) aponta que os enquadramentos (entendidos como modelos de interpretação e seleção que definem ênfases e exclusões utilizadas para organizar o discurso) constituem recortes culturais cruciais para a organização de nossas visões de mundo. Também o sistema contemporâneo da mídia – tão importante como fonte de informação e transmissão de valores para milhões de cidadãos mundo afora – opera a construção de seus discursos por meios de enquadramentos, como observa Gitlin (1980).
Mas quais são as implicações disso na constituição da visão de mundo dos indivíduos? Num contexto em que, a cada dia mais, a esmagadora maioria das certezas não provém da experimentação direta, porém de informações mediadas pelo aparato da comunicação de massa, é razoável supor que as valorações (explícitas ou implícitas) majoritárias na discursividade da mídia impactam, em alguma medida, as visões daqueles que dependem de modo excessivo – ou exclusivo – dessas fontes para formar juízo sobre a realidade.
Em outras palavras, valores ideológicos hegemônicos na mídia podem ser introjetados, em alguma proporção, por indivíduos e grupos. É preciso ressalvar o sentido que aqui se dá à expressão ideologia. Mais do que mero posicionamento político, trabalha-se com a ideia gramsciana de que "todo homem é filósofo, ou seja, que todo homem manifesta em sua ação – através de sua linguagem, de seu senso comum, de suas crenças etc. – uma concepção do mundo" (Coutinho, 1980, p.83).
No caso específico de visões sobre política que são oferecidas pela comunicação de massa (e que se supõe que possam ser incorporadas por alguns), dada a natureza empresarial dos grandes grupos de comunicação, é razoável afirmar que os valores ideológicos majoritariamente ofertados pelo discurso midiático tradicional encontram-se, do ponto de vista da escala entre esquerda e direita, mais à direita do que à esquerda.
Vozes mais céticas à validade dessa escala poderiam perguntar: no momento histórico em que vivemos (pós-derrocada da experiência do socialismo real), ainda é possível falar em identidades ideológicas à esquerda ou à direita? Bobbio (2001) sustenta que sim. Desde a Revolução Francesa, quando as expressões esquerda e direita se popularizaram no jargão político, a dicotomia expressa profundas diferenças de valores.
Mesmo que se leve em conta que a distinção comporta numerosas posições intermediárias, há uma nítida clivagem ideológica sobre a questão da igualdade entre as pessoas. A posição típica de esquerda assenta-se na suposição de que não apenas a causa da desigualdade é majoritariamente social como ela pode ser eliminada (crença de que não partilha a direita). As instâncias coletivas – dentre elas o Estado – seriam fundamentais para resolver estes problemas.
Se o discurso hegemônico, portanto, situa-se à direita e se, dentro dele, há uma prevalência da variante liberal, a compreensão da face contemporânea deste discurso engloba fundamentalmente as argumentações teóricas de pensadores liberais do século XX, como Friedrich August Von Hayek (1899-1992). Ele criou um arsenal discursivo baseado, sobretudo, no louvor das ações tomadas por agentes individuais (empresas ou indivíduos), mais eficientes, em sua opinião, do que as engendradas por atores coletivos.
Esta visão de desconfiança em relação às instâncias coletivas – mas também às capacidades de intervenção e de regulação da política em geral – é frequentemente expressa pela grande imprensa. Mas até que ponto ela é assimilada e internalizada (consciente ou inconscientemente) por jovens de regiões periféricas, cujo acesso à informação é fortemente limitado por conta de suas condições socioeconômicas? Eles incorporam os valores presentes neste discurso de demonização do Estado – e, por associação deste como centro da atividade política, numa visão simplista, de demonização da própria política?
Apesar de serem jovens que, mais até do que outros, demandariam a capacidade de organização coletiva para a solução de problemas, eles manifestam-se próximos de uma visão individualista – tal como preconizado pelo ideário liberal? Tendo em mente essas questões, o projeto consistiu no acompanhamento – por meio das metodologias de observação participante, complementada por entrevistas e questionários – das opiniões políticas de jovens juizforanos que participaram da oficina de cultura política.
Em resumo, os pressupostos teóricos iniciais eram: a) visões de mundo sobre a realidade e valorações ideológicas decorrem dos processos de socialização a que indivíduos são submetidos; b) os meios de comunicação passaram, na contemporaneidade, a ser cada vez mais presentes nesses processos de socialização, à medida que constituem a fonte discursiva prioritária (às vezes única) para parcelas da sociedade; c) a mídia representa e vocaliza visões marcadas por valorações ideológicas – e, no caso da grande mídia empresarial, estas marcações encontram-se situadas à direita do espectro ideológico (sobretudo a partir da vertente liberal); d) na leitura neoliberal, representada pelas ideias, por exemplo, de Hayek, as ações individuais são mais valorizadas que as instâncias coletivas; e) jovens de regiões periféricas de Juiz de Fora – por conta de suas condições socioeconômicas – tendem a depender excessivamente das informações que recebem de veículos de comunicação, sobretudo a TV, para formar suas próprias visões sobre o que seja a política; f) dentre essas visões, imagina-se que há uma predominância de concepções simplistas e negativas da política (derivadas de uma visão negativa das instâncias coletivas e do Estado) e uma prevalência de valores individualistas.
Partindo desse circuito lógico como rede de hipóteses, o trabalho da oficina tinha um duplo objetivo: verificar se isso efetivamente acontecia e, em caso afirmativo, apontar se as discussões ali realizadas – baseadas em leituras contra-hegemônicas – poderiam conduzir os jovens à adoção de outras visões e outras práticas no espaço público, mais participativas e colaborativas, entendendo a política a partir dos conceitos de micropoder e micropolítica, de Foucault (2005), que estudou os mecanismos de poder a partir das prisões, dos hospícios e do próprio discurso. Portanto, devemos compreender a política como pertencente à "ideologia do cotidiano", no conceito de Bakhtin (1992), ou seja, fundada na interação, no diálogo e na relação social, atrelados a um contexto. Seguem, adiante, resultados a apontarem se os pressupostos iniciais foram ou não verificados.
A presença da mídia na vida cotidiana e a
depreciação da política
Os resultados dos questionários respondidos pelos adolescentes nos primeiros dias da oficina de cultura política em 2008 e 2009, com um total de 36 respondentes, referem-se a turmas provenientes de bairros distintos que foram atendidos numa ou noutra oportunidade. Os jovens de São Pedro, Dom Bosco, São Benedito, São Sebastião, Santa Cândida e Granjas Betânia tinham, no momento das respostas, entre 14 e 18 anos (com média de 16 anos).
As famílias de todos eles possuíam, no mínimo, um aparelho de televisão, sendo que uma parcela significativa (27,8%) possuía três aparelhos de tevê em cores na residência. Além disso, 97,2% tinham um aparelho de vídeo ou DVD, e a mesma percentagem dispunha de, ao menos, um rádio.
A televisão ainda detinha crucial importância na vida destas pessoas, já que 41,7% afirmaram utilizá-la como principal veículo para busca de notícias sobre política. No entanto, como já têm apontado outros estudos, a internet vem ganhando importância no cenário. Há de se destacar que 11,1% afirmaram não procurar em lugar algum notícias sobre política, o que já evidencia, em alguma medida, que a política não instigava a curiosidade de parte significativa destes jovens.
A centralidade televisiva era reforçada pela resposta à questão "horas por dia assistindo à TV": as respostas variaram de duas a treze horas, com média de 3,4 horas por dia. Ficava evidente que este meio de comunicação ocupava um espaço central no dia a dia destas pessoas. A maior parte delas (86,1%) afirmava gostar do que via, ouvia ou lia, principalmente por ser interessante (27,8%), pelo teor informativo (25%) e pela diversão (22,2%). Há de se enfatizar que, entre os que não gostavam do que viam, muitos apresentavam como motivo o fato de que as notícias eram ruins.
Com relação ao tipo de programa de que que mais gostavam, os jovens tinham as seguintes opções: novela, telejornal, esportes, humorístico, desenhos e filmes. A maior parte dos pesquisados (41,7%) assinalou todas ou quase todas as opções – o que evidenciava a preferência por um modelo de TV geralista (Wolton, 2006) –, mas houve preponderância individual da novela, tendo a predileção de 27,8%.
Sobre o mundo da política, 80,6% dos pesquisados afirmaram não se interessar pelo tema. A justificativa mais usada, por 25% dos jovens, era de que a política seria "chata". Igual fatia de 25% dos respondentes não justificou sua resposta. Outras justificativas dadas foram: "não gosto", "não entendo", "não voto", "porque é só corrupção". Entre os 19,4% que afirmam se interessar pela área, houve justificativas como: "vou começar a votar", "porque traz conhecimento", "é legal", "é um meio de expressão", "para ver se os políticos cumprem as promessas", "para ver ideias novas".
Foi-lhes pedida uma definição de política: 33,4% não responderam ou não souberam dizer o que ela seria. A definição mais usada era a de política como perda de tempo, em 13,9% dos casos – um bom indicativo do conceito negativo que eles, em sua maioria, tinham sobre o tema. Outras justificativas foram: "brigas", "eleição", "corrupção" (que, juntas, somaram 22,2%).
Poucos respondentes apresentaram visão dissonante desta leitura depreciativa. As seguintes citações configuraram exceções: "direito de votar", "organização social", "governo", "partidos", "partidos eleitorais" (expressão que evidenciava a percepção de que os partidos políticos apenas funcionam em época de eleição), "pessoas com poder de melhorar a vida das pessoas", "relação com a vida cotidiana", "responsabilidade", "saber quem cuida da cidade", "tudo que envolve a sociedade".
Ou seja, por mais que alguns respondentes isolados enxergassem a presença da política na vida cotidiana, a maioria a via apenas na esfera eleitoral, do governo e dos partidos políticos e não em suas próprias vidas. Seria algo que não diz respeito a eles próprios nem trataria de coisas positivas. Na verdade, a maioria dos respondentes afirmava, direta ou indiretamente, querer se distanciar dela.
Na parte final do questionário, foi perguntado se eles tinham opinião formada sobre atores políticos, como algum partido, o presidente Lula e o prefeito da cidade de Juiz de Fora (Alberto Bejani, nas primeiras turmas, e Custódio Mattos, na última). Com relação ao partido político, a maioria (77,8%) dizia não ter qualquer opinião formada ou não respondeu. Os partidos foram mencionados por apenas três pessoas, que citaram PT, PSDB e PTB (sendo que o PT foi considerado por duas pessoas). Dois nomes de políticos (Custódio Mattos e Carla Vidal) apareceram como "partidos políticos" em 11,2% dos casos, o que indica, em certa medida, o fenômeno da personalização da política (Wattenberg, 1991).
No que diz respeito ao presidente, o número de casos sem resposta ainda era grande (41,7%), mesmo sendo uma figura com mais visibilidade do que os partidos políticos. O campo semântico ao qual Lula foi mais relacionado era o de "bom presidente", em 30,6% dos casos. Outros casos isolados: "corrupto", "ladrão", "não gosto de Lula", "não é capacitado" ou "precisa fazer mais" poderiam ser colocados em um campo "negativo", com 14% dos casos. Ainda apareceram como respostas "PT" e "é o presidente".
Quanto aos prefeitos da cidade, mais uma vez foi predominante a não opinião formada sobre o assunto, o que ocorreu em 33,3% dos casos. Isso confirmava o distanciamento dos jovens em relação à política, vista negativamente por eles. Em relação ao ex-prefeito Alberto Bejani (que foi eleito pelo PTB em 2004, mas renunciou em 2008 em razão de acusações de desvio de recursos), 16,7% dos respondentes identificaram Bejani como corrupto, 13,9% como "safado, cachorro e sem-vergonha", e 5,6% como "bandido" – corroborando a imagem negativa mostrada pelos jornais.
As últimas perguntas deste questionário inicial, respondido no primeiro encontro realizado pela oficina em cada turma, abordavam a participação dos jovens em alguma associação, seja ela de bairro, religiosa ou estudantil, por exemplo. Como resultado, 86,1% responderam negativamente à pergunta, com alguns justificando a não existência de um espaço como esse em seus bairros. Os 11,1% que responderam "sim" participavam de associações religiosas, o que evidenciou a falta de pluralidade de espaços públicos nos bairros de regiões periféricas da cidade.
Em resumo, os dados revelados pelo questionário inicial reforçavam as hipóteses sobre o perfil dos jovens quando começaram as atividades da oficina: desinteressados por política, percebida por eles como algo limitado (e compreendida apenas em sua dimensão de disputa pelo poder do Estado, considerado negativamente) e não relacionada à vida de cada um. Na verdade, as soluções para seus problemas individuais ou os problemas coletivos de suas comunidades, na visão da maioria, não passavam pela política – ao contrário, demandavam sua negação.
Estas visões, contudo, se mantiveram inalteradas ao longo das discussões? Uma vez instados a refletir sobre questões de política a partir de outro enfoque, durante os módulos, houve mudanças nas visões dos jovens? Para responder a essa questão, um questionário com respostas dissertativas foi aplicado à turma do primeiro semestre de 2008 ao fim das atividades, com perguntas sobre violência urbana, ações políticas e falta de oportunidades culturais e de emprego (os resultados referentes à turma de 2009 estão sendo tabulados e serão apresentados em texto posterior).
As respostas trazem indícios de algum desenvolvimento e maior sof isticação política dos adolescentes. Há de se destacar, no entanto, que somente cinco pessoas responderam às questões, dado o esvaziamento da turma de 2008, que terminou com apenas sete alunos dos dezesseis que iniciaram o ano.
A primeira questão era se problemas como a violência urbana, a dependência de drogas e a falta de oportunidades culturais e de emprego entre os jovens estariam ligadas a causas políticas. Em caso afirmativo, quais seriam estas causas. Todos responderam afirmativamente, e a ênfase maior foi na questão do emprego: "com a política podem ser criadas leis a favor da população, como o primeiro emprego", "oportunidades que não são dadas a essas pessoas, como um emprego digno, uma moradia", "em uma entrevista para emprego só será selecionada uma pessoa, e as causas são a falta de investimento para poder mudar esses problemas".
Como podemos observar, a falta de verbas e investimentos nestas áreas eram problemas destacados, "fazendo com que as pessoas sejam levadas a arrumar dinheiro de outra forma", "o mundo em que vivemos tem muita corrupção, e os nossos governantes não fazem o que realmente deve ser feito para melhorar e resolver estes problemas, surgindo, assim, a desigualdade e os problemas em comunidades carentes".
Após o diagnóstico de tais problemas como causas relacionadas ao mundo da política, a segunda questão indagava: "quais são as ações políticas que podem ser desenvolvidas por você para lutar contra esses problemas?". Eles destacavam o grêmio estudantil, a associação do bairro, eventos culturais, palestras, conscientização dos problemas por meio da divulgação de folhetos, debates entre os jovens, criar uma ONG.
Ressaltavam também a importância do voto e da televisão como formas de protesto. Um dos jovens diz ainda que "não saberia organizar uma ação política", mas via que as pessoas às vezes faziam manifestações, não sabendo ele, no entanto, se os resultados eram positivos. Trata-se do caso mais descrente entre os jovens com relação à ação política. Porém mesmo aí fica evidente a percepção do papel estratégico da comunicação nas lutas políticas – e da necessidade de que se desenvolvessem políticas de comunicação capazes de dar vozes a todos.
A terceira questão abordava em quais espaços de atuação política o jovem poderia se envolver para melhorar sua vida e das pessoas ao seu redor e o que poderia ser feito nesses espaços. A maioria apontava a importância da associação de bairro e da escola, por meio do grêmio estudantil, com um exemplo de grupo de jovens para promover espaços culturais, palestras, músicas, debates e festas.
É preciso ressaltar que este foi o único exemplo prático dado pelos respondentes daquilo que poderia ser feito num espaço de atuação política – os outros apenas explicitaram os locais que podem servir para a atuação política. E um dos pesquisados foi especialmente pessimista: "em nenhum, pois não sei que espaços são esses e não entendo o bastante de política para me envolver em um espaço de atuação para melhorar a vida de outras pessoas".
Ou seja, apesar de a maioria deles ter, ao longo da oficina, percebido que a política está relacionada aos seus problemas cotidianos (e que não se resume à disputa pelo poder do Estado nem deve ser negada), traços ideológicos que reiteravam uma visão de mundo marcada pelo individualismo ainda apareceram fortemente em respostas como essa. Mas tais respostas aos questionários talvez sejam insuficientes para dar conta das valorações ideológicas profundas – e das mudanças ocorridas ao longo da oficina. Abordagens interpretativas da própria relação estabelecida nos encontros constituem evidências úteis para extrair inferência. É o que segue.
Como levar os jovens à reflexão crítica?
Uma vez que os encontros da oficina tinham como objetivo discutir com os jovens as várias formas pelas quais poderiam agir politicamente em diferentes âmbitos da sociedade (a demonstrar que política não é uma atividade restrita aos governantes), foram escolhidos temas que, de alguma maneira, tivessem relação com o cotidiano de suas comunidades. Tratou-se de questões como: violência, racismo, falta de oportunidades, sexualidade, gênero, eleições, participação estudantil, território e espaço público, e juventude e sua representação nos meios de comunicação.
Na perspectiva de extrair informações sobre as concepções dos jovens para além daquilo que eles responderiam nos questionários aplicados, os bolsistas do projeto estavam instruídos a observar as reações dos adolescentes enquanto os debates eram feitos, com base nos pressupostos e ferramentas de observação participante. Por causa da complexidade dos temas tratados (e também em razão da resistência que os adolescentes tinham em relação ao tema), optou-se pela diversificação metodológica na condução dos encontros.
Apesar da valorização da produção oral – seja pelas exposições iniciais daquele que eventualmente conduzia a dinâmica, seja pelo estímulo à verbalização dos jovens –, outras atividades foram escolhidas para incentivar a movimentação e otimizar os níveis de participação. A escolha temática atendeu ao critério de trazer à tona assuntos relacionados à vida cotidiana.
Dessa maneira, no primeiro encontro da turma do segundo semestre de 2008, por exemplo, cujo tema era violência, a metodologia escolhida foi a oferta de um vídeo. Dada a existência, entre eles, de uma cultura audiovisual – e a centralidade da TV em suas vidas cotidianas era um indicador disso –, optou-se por exibir um trecho do documentário Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, de 1999.
O filme retrata o cotidiano dos moradores e traficantes do morro da Dona Marta, no Rio de Janeiro, por meio de entrevistas com pessoas que se encontravam, de alguma forma, próximas à rotina do tráfico de drogas. O objetivo era estabelecer comparações entre o que era mostrado pelo documentário e o que os jovens presenciavam no cotidiano, assim como fazê-los refletir sobre a forma naturalizada (e usualmente acrítica) com que viam a violência.
Além disso, outras formas de violência que não a física foram abordadas, como a moral, a psicológica e a simbólica. Tentou-se, também, estimular uma visão crítica dos meios de comunicação, discutindo sobre como o bairro deles era representado pelos telejornais da cidade.
A participação dos jovens foi surpreendente. Eles relataram várias experiências que tiveram ou que presenciaram em relação aos vários tipos de violência, como brigas, abordagens policiais, ocasiões em que sofreram discriminação ao entrarem em lojas. Além disso, disseram gostar bastante de ouvir músicas, principalmente as dos gêneros funk, hip-hop e rap, pois se sentiam representados nas letras.
Assim, no segundo encontro com essa turma, optou-se por abordar o tema racismo a partir de duas músicas: um samba, "Canto das três raças", de Clara Nunes, e um rap, "Racismo é burrice", de Gabriel Pensador. Buscou-se discutir a origem histórica do racismo e a participação política e cultural que os grupos excluídos têm na sociedade, sobretudo no que se refere aos negros. Os jovens refletiram também sobre como o negro é representado pelos meios de comunicação, principalmente nas novelas, nas quais quase sempre estão em menor número e exercendo papéis secundários. Por fim, a discussão chegou à politização da questão do racismo e do preconceito nas escolas.
O tema do encontro seguinte foi a falta de oportunidades, envolvendo as distintas classes sociais, e as diferenças de empregabilidade. Abordou-se a educação e a acessibilidade dos jovens em relação às escolas. Para isso, foi escolhido um trecho do documentário Pro dia nascer feliz, de João Jardim, como forma de iniciar a discussão. O filme aborda a realidade do sistema escolar brasileiro ao entrevistar alunos de 14 a 17 anos, de diferentes classes sociais, e professores de escolas públicas e particulares.
Procurou-se fazer os jovens refletirem acerca de seu próprio ambiente escolar, dos problemas e de como resolvê-los. Além disso, discutiu-se sobre espaços culturais dentro das escolas, como atividades envolvendo música, esportes, e sobre formas de participação dos alunos, como grêmios estudantis.
Os temas sexualidade e gênero foram tratados em um mesmo encontro. A metodologia escolhida para esta oficina foi o estímulo à produção criativa dos jovens: eles montaram painéis com imagens publicitárias, de forma a incentivar a consciência crítica em relação a estereótipos femininos e masculinos em diversos âmbitos que são frequentemente veiculados nos meios de comunicação. Várias imagens relacionadas aos temas foram recortadas de revistas e jornais.
Em seguida, foi pedido que escolhessem as imagens que lhes chamassem mais atenção. Logo após, debateu-se sobre o que os motivou a escolher tais fotos, problematizando os elementos retratados. Entre os temas discutidos estavam os papéis sociais comumente associados ao homem e à mulher, questões envolvendo homossexualidade, preconceito e formas de combatê-lo.
Como política envolve também a questão dos representantes que escolhemos pelo voto e uma vez que estávamos em época de eleições para a prefeitura da cidade, o tema do encontro seguinte foi o cenário eleitoral. Depois de responderem a algumas questões, foram exibidos programas de TV do horário de propaganda eleitoral gratuita, de maneira a fazer que apontassem o que estava proposto pelos candidatos. No entanto as críticas feitas pelos jovens centraram-se nos próprios programas, considerados "chatos", e não em relação ao conteúdo das propostas.
As opiniões verbalizadas pelos adolescentes sobre os candidatos provieram mais de imagens e informações externas aos programas, como boatos e históricos, do que de alguma reflexão suscitada pelos próprios programas. Os elementos de despolitização e de não percepção das questões ideológicas de fundo revelavam-se mais uma vez: a demonização do poder público foi outro traço perene – bem em conformidade com uma identidade ideológica liberal, reverberada pela mídia, que sistematicamente associa tudo que é público ou estatal à ineficiência.
No encontro que abordou o tema participação estudantil, foi utilizada outra plataforma de comunicação, a internet. O objetivo era incentivar os jovens a realizarem pesquisas sobre assuntos diversos e mostrar que a rede tem muitas possibilidades além de sites de relacionamento e programas de mensagens instantâneas. Além disso, preferiu-se ampliar a discussão para movimentos sociais, nos quais a participação estudantil estaria incluída. Para tal, algumas palavras foram sorteadas entre os jovens. Entre elas, "movimento estudantil", "movimento negro", "movimento feminista", "movimento dos sem terra" e "grêmio estudantil".
Os jovens se organizaram em duplas, cada uma compartilhando um computador e tendo a meta de pesquisar sobre o movimento sorteado. Depois, o grupo se reuniu em uma roda para partilhar as pesquisas realizadas, opiniões sobre os movimentos e ideias para criação de novos grupos para lutar por causas distintas.
Na oficina seguinte, o tema foi espaço público e privado. Neste encontro, cujo objetivo era a desmistificação da imagem de ineficiência e de mau funcionamento que comumente é associada à palavra "público", debateu-se a necessidade de valorizar a ação coletiva em detrimento de uma perspectiva individualista. Para isso, houve uma breve discussão sobre quais espaços seriam públicos e quais seriam privados, a diferença entre os conceitos, como a sociedade se relacionava com o espaço público, além de possíveis formas de atuação. Os jovens associaram espaço público a um lugar em que todos podem entrar e estar; e espaço privado como algo pertencente a alguém, só sendo possível a entrada quando permitida.
Posteriormente, levantaram questões sobre espaços comerciais e igrejas, refletindo sobre se estes seriam públicos ou privados. Em seguida, foi pedido que fizessem cartazes com desenhos, colagens e frases sobre espaços públicos, envolvendo problemas e possíveis soluções. A dificuldade inicial de que eles percebessem a dimensão do que seja público provavelmente revela a marca ideológica mais nítida a demonstrar-se como estruturante de suas valorações e visões de mundo: o individualismo.
O último tema abordado foi a relação entre juventude e os meios de comunicação. Propôs-se aos jovens que fizessem um jornal em forma de mural para exposição na mostra que finalizaria o projeto. Assim, puderam refletir e discutir sobre os mais variados assuntos abordados durante todo o desenvolvimento da oficina, relacionando-os com os meios de comunicação. Foram utilizados trechos de músicas, poesias, imagens, notícias, frases e desenhos. O mural foi exibido durante uma mostra que também expôs os trabalhos desenvolvidos em todas as outras oficinas.
Considerações finais
As hipóteses iniciais se confirmaram: uma vez tendo formado juízo sobre política a partir dos enquadramentos dados pela comunicação de massa – que normalmente a associam apenas à disputa pelo poder e aos eventuais escândalos dela decorrentes –, as visões dos adolescentes eram marcadas, ao iniciarem a oficina, por uma leitura simplista e negativa da política. Eles não percebiam as possibilidades de atuação política fora dos espaços eleitorais, nem conectavam a política às possibilidades de resolução de seus problemas individuais ou coletivos.
As marcas do individualismo e da demonização das esferas públicas de atuação (em especial do Estado) – traços relevantes da identidade ideológica liberal, hegemônica nos discursos midiáticos – também apareceram com intensidade nas falas e textos produzidos pelos adolescentes, sobretudo nos momentos iniciais.
Contudo, mesmo longe de um patamar que possa ser considerado ideal, o percurso da oficina oferece evidências de que processos de reflexão e de estímulo à ação no espaço público ali se iniciaram. Além dos indicativos já extraídos das respostas dos jovens nos questionários e de suas participações nos encontros, dados posteriores indicam as potencialidades de ações como esta.
O fato de que algumas adolescentes, a partir da oficina, empreenderam esforços para organizar um grêmio (até então inexistente) em sua escola, ou de que outras tenham tomado a iniciativa de procurar a associação de moradores de seu bairro para instalar uma Comissão de Juventude, apontam para a possibilidade de que muitos jovens tenham caminhado em direção à politização. Entende-se aqui politização por capacidade de reflexão, de escolha autônoma, de organização coletiva e de interferência na realidade. Se esta combinação se impuser e for capaz de oferecer contrapesos à posição hegemônica, cria-se uma potencialidade crítica de reação aos discursos que ocultam suas dimensões ideológicas – e todo discurso é ideológico. Deste modo, a percepção de que a vida no espaço público é capaz de impactar cada vida privada é, em grande medida, um avanço que conduz os jovens à atuação política, mais do que à mera replicação de valores naturalizantes do individualismo e da inação.
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