A Filosofia da Natureza dos Naturalistas
Capítulo II
Infelizmente, porém, são numerosos e pouco accessiveis esses repositorios, muitos dos quaes teem desapparecido (como succede á maior parte das revistas academicas, publicadas em Coimbra) e outros tornam-se cada dia mais raros, dada a procura dos collecionadores.
N'estas condições, dentro em breve, poucos serão os estudiosos que tenham a dita de ler e consultar os escriptos jornalisticos d'Anthero.
Esperar-se-ha que um editor tome sobre si o encargo de recolher essas numerosas especies dispersas?
E não será isso, por assim dizer, sacrificar a obra do grande Mestre, deixando de recolher muitos dos escriptos da maior raridade?
A edição definitiva das obras completas d'Anthero só poderá levar-se a cabo, quando primeiro se publiquem as reproducções d'esses escriptos avulsos.
Aos amigos e discipulos do immortal escriptor impende, pois, um grande dever de gratidão:--é o dever de cada um de per si ou associados, salvar do olvidio e da destruição os trabalhos do Mestre, colligindo-os systematicamente e por ordem chronologica, á semelhança do que fez o sr. Oliveira Martins para os Sonetos e restantes composições poeticas.
É urgente começar. Talvez mais tarde não seja possivel reconstituir a serie d'aquelles trabalhos ou por terem desapparecido os jornaes em que foram originalmente publicados, ou por muitos d'elles serem anonymos e terem tambem desapparecido as pessoas que poderiam reconhecer a sua paternidade.
II
No diario portuense--A Provincia--inseriu Anthero de Quental, em 1886, uma serie de cinco artigos, a proposito da obra de Vianna de Lima, intitulada--Exposição summaria das theorias transformistas.
A questão versada era e é ainda das mais importantes e das mais disputadas, tanto no terreno propriamente especulativo, como no terreno das sciencias naturaes.
Anthero de Quental, metaphysico de profissão, não podia entrar no debate como naturalista, embora os seus estudos tivessem fundos alicerces nas Sciencias da natureza. Discutiu e argumentou como philosopho;--philosophou; porque na materia tinha opiniões originaes definidas e razões peculiarmente suas.
D'ahi a importancia e renome dos artigos que o publico illustrado victoriou, como modelos acabados de analyse critica, collocando-os do mesmo passo a par das melhores paginas de prosa portugueza.
Tinha razão.
São com effeito obras primas no seu genero e em que não se sabe qual mais admirar, se a belleza incomparavel de forma, se a genial pujança e superioridade do pensamento que anima aquella solida construcção especulativa, communicando-lhe a maxima potencia de suggestão e de interesse.
Mostremo-lo, embora de relance.
Anthero de Quental, partindo do principio de que a sciencia não póde ser para a philosophia mais que uma materia prima, impugna a pretensão de fundar uma philosophia da natureza com a a simples generalisação dos dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio das ideias. É este o thema principal que elle se esforça para estabelecer fundamentalmente.
Analysando as duas noções que formam a base da doutrina
Haeckeliana--o monismoe a evolução--mostra que a primeira é insufficiente, e á segunda falta a generalidade scientifica; visto como não intervem, senão onde o elemento historico representa um papel proeminente.
Por outro lado demonstra que ha contradicção flagrante entre a idéa da espontaneidade da materia, como a admitte a escola monista, e a theoria da conservação do movimento, que domina nas sciencias physicas e em grande parte nas sciencias da organisação.
E sobre estas premissas logicas, conclue que a doutrina da evolução, formulada por Haeckel, longe de ser, como se pretende, uma doutrina positiva, baseada nas sciencias e fluindo d'ellas como sua consequencia natural, implica, pelo contrario uma extensão abusiva da inducção scientifica e a illegitima generalisação d'uma hypothese, que, se é perfeitamente fundada no terreno de determinadas sciencias, só ahi e só n'esse ponto de vista tem authoridade scientifica.
A idéa da finalidade, combatida pela escola monista, é sustentada por Anthero d'um modo superior e original.
A evolução, diz elle, implicando a idéa d'um typo, que as formas evolvendo, tendem a realisar, implica por isso mesmo uma finalidade. Quem diz evolução, diz progresso. Ora progresso que não tende para cousa alguma que não tem um typo e um fim, não se comprehende.
Não é preciso mais para se ver a importancia e o valor do trabalho que se segue.
Poderiamos fazer aqui algumas approximações entre as doutrinas d'Anthero e as doutrinas de Hartmann, Lang e Stallo--seus authores predilectos e mais compulsados.
Poderiamos tambem mostrar que os bellos artigos sobre as tendencias da moderna philosophia, dados a lume na Revista de Portugal, são o desenvolvimento logico do pensamento dominante nas paginas adiante reproduzidas.