A Filosofia da Natureza dos Naturalistas
Quinto Artigo[f]
There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt off in your philosophie
QUINTO ARTIGO [F]
Pretenderei eu accaso com esta critica, contestar o valor dos trabalhos da escola monista, ou ainda a sua importancia philosophica?
De modo algum.
O que eu contesto é o valor do seu systema, como systema, o que eu censuro é a pretensão de fundar uma philosophia da natureza com a simples generalisação dos dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio das ideias. Mas abstrahindo d'estas pretensões, a tentativa de Haeckel, considerada em si, tem um alto valor. Tem-no, sobre tudo, como symptoma da tendencia, que cada vez mais se manifesta na esphera da sciencia para uma unidade de comprehensão, que assentando rigorosamente no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo da analyse e abstracção inherententes á sciencia, procurando como formula, uma ideia de caracter synthetico, isto é, uma ideia propriamente philosophica.
Esta tendencia é sem duvida alguma, o facto intellectual mais importante do seculo actual e um d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a influencia d'ora em deante cada vez mais predominante do criticismo de Kant, e do outro, a feição eminentemente positivista do espirito moderno. Se uma philosophia positiva é e será sempre, como já mostrei, uma chimera, a acção e authoridade directa da sciencia na philosophia será d'aqui em deante (quero dizer depois da Critica da Rasão pura) um facto que tem de se impor a todos os pensadores.
Mas acção e auctoridade da sciencia na philosophia é uma cousa, e philosophia positiva, outra. As ideias syntheticas da philosophia não saem das sciencias, não são simples generalisações scientificas: são um producto da especulação e quando chegam a apparecer no terreno scientifico é infiltradas para ali das regiões da especulação, é porque a especulação as forneceu, sob forma de hypothese, á sciencia. Não cabe em escrito d'estas dimensões expor a theoria da hypothese. Bastará mostrar como a theoria geral da evolução, hoje com tanto vigor e brilho formulada por Haeckel e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser, como vulgarmente se imagina, uma descoberta das sciencias naturaes e um resultado directo da analyse scientifica, é, pelo contrario, uma verdadeira hypothese philosophica, que, producto da elaboração especulativa de perto de trez seculos, acabou por se manifestar no dominio das sciencias.
Com effeito são mais fundas as suas raizes, mais longiqua a sua procedencia.
Essa ideia não saiu das sciencias naturaes, mas penetrou n'ellas pela influencia (obscura, é certo e indirecta, mas muito real) das noções metaphysicas lentamente elaboradas, a partir da renascença, dentro da ideia fundamental de natureza. A maneira dynamica, autonomica, realista, de conceber a natureza é o que mais radicalmente distingue o pensamento moderno do antigo. A natureza para o pensamento antigo, e ainda para o mais genial dos seus intrepretes e o mais objectivo, Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte, passiva: longe de parecer concreta e espontanea, era considerada apenas como um reflexo, acto ou emanação d'um ser ou seres transcendentes e perfeitos: as ideias de Platão, a intelligencia de Anaxagores, o motor immovel e as formas substanciaes de Aristoteles etc.) exteriores a ella e só verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber manteve-se pela Escolastica e pela Theologia christã, até á Renascença. A partir dos ultimos tempos da Edade-media, com a dissolução da philosophia escolastica e as revoluções de toda a especie, intellectuaes, sociaes religiosas, que annunciam a aurora dos tempos modernos, dá-se nas regiões mais profundas da intelligencia humana uma fermentação extraordinaria, que se exprime, ainda com pouca consciencia do seu proprio alcance, nas creações da astronomia e da physica modernas (Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli) e nas reformas philosophicas de Bacon e Descartes; que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com os primeiros trabalhos de physiologia, botanica e sciencias sociaes (Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave, Hobbes, Grocio, Vico, Lessing, etc.) para acabar, plenamente consciente no seculo XIX, por se affirmar, não já n'esta ou n'aquella ordem de phenomenos, mas em todas as espheras da actividade humana, nas sciencias, na philosophia, na sociedade civil e politica e na propria arte e poesia contemporaneas. O naturalismo é para os tempos modernos o que foi o racionalismo para a Antiguidade:--a formula mais geral da sua actividade.
A doutrina da evolução é apenas uma das determinações, a mais recente e porisso a mais intensa, e intima, do naturalismo moderno.
E convirá notar que o seu apparecimento é simultaneo na astronomia, na geologia, na biologia, na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace, Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder, Saint-Simon, Bopp, Adelung, são contemporaneos, ou proximamente contemporaneos.
O evolucionismo dentro das sciencias da natureza não é mais do que a applicação a uma ordem de factos do principio fundamental do pensamento moderno, uma das suas determinações particulares.
Mas esse principio é uma hypothese geral e, como todas ideas syntheticas, um resultado da especulação, não é um facto positivo. Se apparece no dominio das sciencias, é como hypothese
philosophica, não como lei scientifica. Se as sciencias da natureza e da sociedade convergem hoje no sentido da evolução, convergem movidas pelo influxo intimo do estado mental-metaphysico que as envolve, não pela força exclusiva e independente do seu desenvolvimento proprio. Não ha, como se pretende, a eliminação do elemento metaphysico pelo elemento scientifico: ha uma mutua penetração; penetração da especulação na sciencia, pela hypothese que a vem fecundar; penetração da sciencia na especulação, pelo correctivo imposto, em nome da realidade, dos factos positivos, ao á-priorismo inherente ao pensamento especulativo.
E é por isso que o concurso da sciencia e da especulação é indispensavel para a constituição definitiva da philosophia moderna (da qual todos os systemas, desde Bruno e Bacon até aos nossos dias são apenas esboços e prenuncios), para a organisação systematica do pensamento moderno em todas as suas determinações.
Creio com Haeckel, assim como com Schelling, Hegel, Hartmann, Comte e Spencer, que é no terreno da evolução que essa grande synthese tem de ser construida, e que, depois do seculo XVIII e depois de Kant, já não é possivel uma philosophia que não seja essencialmente uma theoria geral do desenvolvimento, isto é, uma philosophia da evolução. Mas creio tambem que a organisação da ideia d'evolução n'essa theoria geral do desenvolvimento é problema que excede muito a capacidade especial das sciencias da natureza, quero dizer, a esphera theorica d'essas sciencias, porque excede os limites e alcance do puro espirito scientifico.