A Filosofia da Natureza dos Naturalistas

Antero de Quental · Capítulo 3 de 10

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A Filosofia da Natureza dos Naturalistas

Primeiro Artigo[a]

Mas fallece-nos a authoridade e competencia para tanto, e demais, o trabalho d'Anthero não carece nem de criticas, nem de commentarios elucidativos:--impõe-se por si e tem em si a necessaria lucidez para convencer a uma simples leitura.

Reproduzindo-o hoje temos apenas em vista render, no anniversario do seu passamento, uma derradeira homenagem de respeito e estima ao filho d'esta ilha que é uma das maiores glorias das letras patrias, e ao mesmo tempo facilitar aos estudiosos a leitura d'um dos trabalhos philosophicos d'elle em que mais claramente se patenteiam o seu subtil engenho dialectico, a originalidade das suas concepções especulativas e as maravilhosas qualidades didacticas da sua prosa expositiva e analytica.

E d'est'arte fica explicada a presente publicação.

Ponta Delgada,

11 Setembro de 1893.

Eugenio Vaz Pacheco do Canto e Castro

 

PRIMEIRO ARTIGO[A]

 

Um livro sobre as modernas theorias transformistas, publicado em Paris e em francez, e firmado por um nome portuguez, é facto tão extraordinario, que por si só bastaria para attrahir as attenções. Mas no livro do snr. Vianna de Lima, não é só a extranheza do facto que deve chamar a nossa attenção: é ainda o seu valor intrinseco. Esta Exposição summaria das theorias transformistas é, como o titulo indica, uma especie de summa das doutrinas professadas sobre a philosophia da natureza por uma escola consideravel, cuja cabeça, E. Haeckel, é um dos nomes mais illustres, e justamente illustres, da Allemanha intellectual, na segunda metade do nosso seculo: e a obra do adepto não é indigna, nem pela intelligencia nem pelo saber, da escola nem do mestre.

Não sou naturalista e, tendo a consciencia da minha incompetencia, não me atreveria a escrever sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu livro fosse propriamente um livro de sciencias naturaes, e se os quatro estudos, de que se compõe, se conservassem escrupulosamente nos limites rigorosos do campo scientifico. O livro, porem, do snr. Vianna de Lima, apezar da modestia do titulo, aspira de facto a ser um livro de philosophia da natureza, e, n'esse terreno, creio poder, sem temeridade, emittir algumas opiniões fundamentadas. Prestarei, assim uma homenagem ao moço portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue: ouço que é brazileiro) que tão galhardamente nos representa no grande mundo da intelligencia, aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para dizer alguma cousa sobre uma escola philosophica, cujos chefes respeito e cuja importancia não desconheço; mas cujas tendencias estão muito longe, em meu entender, de serem satisfactorias.

Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico e quasi legendario do primeiro quartel d'este seculo, costumava dizer causticamente, referindo-se á philosophia da natureza puramente especulativa, que então deslumbrava com os clarões do genio de Schelling e Hegel, não só a Allemanha pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica, que achava singularissimos aquelles naturalistas que pretendiam fazer chimica sem molhar a ponta dos dedos.

Tinha razão.

Hoje, nós outros metaphysicos, podemos com igual razão dizer que são singulares estes philosophos, que, com os dedos mais que ensopados em chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca se terem dado ao trabalho de reflectir.

Com effeito, a philosophia é, de sua natureza, especulativa, e a sciencia não póde ser para ella mais que uma materia prima.

Um homem de sciencia, por encyclopedico que seja, se não tiver ao mesmo tempo reflectido muito e profundamente sobre as questões puramente racionaes, que a sciencia suscita e não póde por si resolver, reflectido sobre as ideas abstractas, que são, umas, postulados para as differentes sciencias, outras, principios ordenadores d'uma explicação geral das cousas, um tal homem de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, não poderá nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode dizer que sabe, mas não que entende, porque o problema do universo, como problema total e concreto, será para a sua intelligencia, aliás opulenta de factos, tão obscuro, como é para a intelligencia d'um simples e ignorante. A philosophia não é o mero ajuntamento ou ainda o quadro empiricamente ordenado dos factos do universo: é a comprehensão e explicação racional e total d'esse grande quadro. Ora, uma tal explicação só é possivel no ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes da rasão (substancia, causa, fim) e essas ideias teem por isso de ser tomadas em si, pesadas e analysadas. Não faz outra cousa a metaphysica, e sem metaphysica não ha philosophia, porque não ha verdadeira comprehensão racional, nem verdadeira e total explicação. Metaphysica (ou especulação) e sciencia (ou observação) são duas series convergentes, que partem de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento diversas; mas, como são convergentes, encontram-se: o ponto onde se encontram e, sem se fundirem, reciprocamente se penetram, é que é a philosophia. A philosophia tem pois por materia a sciencia, por forma a metaphysica; ou ainda, a philosophia é a observação (quero dizer, os seus resultados) considerada no ponto de vista absoluta da rasão.

O desconhecimento d'estas verdades e o desdem pela metaphysica, filho em grande parte da reacção, aliás justissima, provocada pelos excessos e intoleravel dogmatismo da especulação, na Allemanha, e pela sua insignificancia e convencionalismo, em França; e, por cima d'isso ainda, o maravilhoso desenvolvimento das sciencias naturaes, durante os ultimos 40 annos, deram de si o apparecimento d'uma pseudo-philosophia da natureza que se pretende positiva e puramente filha das sciencias e que julga ingenuamente poder resolver os intrincados problemas das idéas, sem ter o incommodo de reflectir e só com grande somma de physica, chimica e physiologia.

D'estes naturalistas philosophos o mais eminente, tanto pelo saber como pelo genio, é o apostolo de Darwin na Allemanha, o illustre autor da Historia natural da Criação, Ernesto Haeckel. É entre os discipulos de Haeckel que vem tomar logar, com o seu livro, o snr. V. de Lima.

Profano, não me é dado conhecer e dizer até que ponto a rigorosa verdade e o rigoroso methodo scientificos tem sido violentados pelo sabio e engenhoso, mas não menos phantasioso e temerario

professor de Munich [B], para se dobrarem e acommodarem ás suas doutrinas geraes. Sei só que outros mestres eminentes, como Virchow, Helmholtz, Huxley e Du Bois-Reymond estão longe de se darem por inteiramente satisfeitos com a orthodoxia scientifica de muitas das affirmações do padrinho do monero batybio. A mim só me é permittido occupar-me com as ideias e tendencias propriamente philosophicas da escola monista-evolucionista, cuja cabeça é Haeckel; e o livro do discipulo, que se propoz resumir a doutrina, ser-me-ha occasião para fazer sobresahir (embora só em dois pontos, mas capitaes ambos) a confusão e deficiencia na analyse das ideias, que impedem, a meu juizo, que a pretendida philosophia da natureza monista-evolucionista, apezar da imponente massa de sciencia sobre que assenta, attinja a verdadeira altura d'uma philosophia da natureza.

Monismo e evolução são as duas noções que formam a base da doutrina Haekeliana. Comecemos por indagar que ideia precisa envolve esta palavra--monismo. Parece-me que a palavra é que é nova, não a ideia. Tanto valeria dizer pantheismo, ou ainda materialismo, pois não encontro no fundo d'aquella expressão nada mais do que n'estas duas outras; a saber: uma concepção unitaria da substancia.

Esta concepção, porem, (na sua simplicidade e em quanto não fôr definida d'uma maneira particular) é propriedade commum de muitas escolas antigas e modernas e precisa sahir d'essa generalidade e indeterminação para poder caracterisar uma maneira especial de comprehender as cousas: assim o atomismo, assim o pantheismo de Spinoza, assim o idealismo realista de Hegel etc.

Ora, é justamente essa falta de definição precisa, essa vaga

generalidade e indeterminação, que eu noto no monismo de Haeckel. Monismo parece-me apenas uma palavra nova (e muito

dispensavel) e não mais.

Com effeito, affirmar abstractamente a unidade de substancia é, no terreno da philosophia da natureza, pouca cousa: o que importa é definil-a. Definil-a é apresental-a nas suas relações com a realidade, é caracterisal-a na sua maneira de ser positiva, é mostrar, não como a concebemos em si (pertence isso á metaphysica), mas como a concebemos realisavel.

Uma materia abstracta, una e simples, apenas vagamente susceptivel de se manifestar por omnimodas modalidades, é uma base insufficiente para a philosophia da natureza; porque é uma base insufficiente para a sciencia. O que a sciencia exige e o que é preciso á philosophia da natureza é determinar n'essa infinidade de moralidades, qual é a fundamental ou elementar, aquella a que se reduzem todas as outras. Ora é isso justamente o que as sciencias da natureza teem feito, reduzindo todas as modalidades da materia ao elemento primordial movimento. Os monistas, sempre que fallam como homens de sciencia, adoptam (e não podiam deixar d'adoptar) esta concepção. Mas, como philosophos, em vez de receberem das mãos da sciencia este resultado, para o elaborarem e desenvolverem, caem no vago e em inextrincaveis confusões.

É assim que o nosso auctor começa por se declarar anti-materialista e pretende repellir o atomismo. affirmando que a materia não póde ser definida per esta ou aquella propriedade, mas que «para o monismo, a materia é o que é in situ.... é aquillo que se manifesta aos nossos sentidos e ao nosso entendimento por modos diversissimos, sob forma de phenomenos infinitamente variados.... pretender isolar (d'este conjuncto) certas propriedades, abstrahir certas qualidades, é grande erro.... para elle (o monista) qualidades, propriedades especificas ou funccionaes, funcções, etc. são inherentes á materia em que se manifestam e formam com ella um todo indissoluvel». Entretanto, meia pagina abaixo, dá a entender que todas as propriedades da materia são fórmas do movimento e se reduzem a movimentos elementares: «a força é a propriedade ou a maneira de ser mais geral da materia.... todas as forças são reductiveis a movimentos.... uma força não é mais do que materia em movimento». Mas, se isto é assim, a materia não é já «tudo o que é in situ» as suas propriedades não são já «inisolaveis e indissoluveis», nem é «grande erro abstrahir do conjuncto d'ellas certas propriedades», visto que, de facto, a materia é caracterisada por uma propriedade fundamental, o movimento, da qual todas as outras não são mais do que modalidades, ou, mais terminantemente, grupos e combinações de movimentos simples elementares. Seriamos assim levados ao dynamismo, concepção já mais precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado monismo, e que, depois de Leibnitz, cada vez mais tem ido penetrando, ou antes, impondo-se á philosop» as suas propriedades não são já «inisolaveis e indissoluveis», nem é «grande erro abstrahir do conjuncto d'ellas certas propriedades», visto que, de facto, a materia é caracterisada por uma propriedade fundamental, o movimento, da qual todas as outras não são mais do que modalidades, ou, mais terminantemente, grupos e combinações de movimentos simples elementares. Seriamos assim levados ao dynamismo, concepção já mais precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado monismo, e que, depois de Leibnitz, cada vez mais tem ido penetrando, ou antes, impondo-se á philosophia das sciencias.

Já por aqui começamos a ver quanto a concepção monista da materia é confusa e mal definida e, por conseguinte, pouco philosophica. Mas não o é só por isto. A confusão primeira faz-se sentir em todos os aspectos da ideia de materia. É impossivel, com effeito, passar-se naturalmente da noção d'uma substancia una, simples e apenas virtualmente susceptivel d'omnimodas modalidades, para a rica e quasi infinita variedade dos seres e qualidades de que se compõe a universal realidade. Que importa que essa doutrina sibyllina nos diga que a sua substancia una e simples é virtualmente susceptivel de toda a variedade de formas e qualidades? A questão está justamente em se saber como é que, sendo una e simples, tal substancia póde effectivamente dar de si o movimento e a variedade.

Sobre isto (e isto é justamente o nó vital da questão) é muda a doutrina.

Como é que essa substancia una e simples se determina? como é que, sendo una e simples, se póde dar n'ella opposição, diversidade, movimento?

A concepção monista implica continuidade--e tudo no universo é descontinuo; implica simplicidade--e tudo no universo é complexo: implica inalterabilidade e indistincção--e tudo no universo é perpetua mudança, differenciação e instabilidade.

O nosso auctor levanta se desdenhosamente contra o atomismo. Entretanto o seu monismo, ou é cousa nenhuma, ou tem de se resolver na ideia de atomo. Pois o que está no fundo da concepção atomista? A ideia da descontinuidade da materia. E tal ideia impõe-se: impõe-se como um facto á sensação; impõe-se como um postulado á sciencia, que, sem presuppor a descontinuidade, é incapaz d'avaliar e exprimir por numeros (e é esse o typo e a forma perfeita do conhecimento scientifico) seja o que fôr na successão dos phenomenos; impõe-se finalmente á especulação, que não póde conceber movimento onde não ha distincção, opposição e successão, e não póde pensar a distincção sem pensar ipso facto a descontinuidade.

Foi precisamente esta objecção que encontrou deante de si e contra a qual veio desmanchar-se a physica cartesiana com a sua ideia da materia-extensão.

Como se concebe o movimento numa tal materia? perguntava-lhe o atomista Gassendi. E Boileau, com o seu solido bom senso, resumia a questão nos dois versos celebres:

C'est en vain que Rohault sèche pour concevoir Comment, tout étant plein, tout a pu se mouvoir

O snr. V. de Lima, levantando-se, com os seus mestres, contra o atomismo, e acceitando ao mesmo tempo, com as sciencias physicas, a reducção da ideia de materia á de movimento, mostra mais uma vez a inconsistencia do monismo no terreno das ideias geraes da natureza e a falta de analyse segura que patenteia a concepção fundamental sobre que assenta.

Declamar contra o atomismo é facil: evitar com uma palavra vaga e ao mesmo tempo pomposa as difficuldades que envolve a concepção da materia, é mais facil ainda: mas não é isso o que se espera de verdadeiros philosophos; e uma tentativa de philosophia da natureza, só merecerá este nome, quando sobre a analyse das ideias de substancia, força e movimento se assente uma doutrina da materia que satisfaça ao mesmo tempo ás exigencias puramente racionaes da especulação e as mais praticas da indagação scientifica. Nada d'isto encontro no monismo de Haeckel e seus discipulos: o terreno sobre que pretendem construir está, quanto a mim, muito longe de ser solido.